Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 9, 43b-45)
Naquele tempo, como todos se admirassem de tudo o que Jesus fazia, disse ele a seus discípulos: “Gravai nos vossos corações estas palavras: O Filho do homem há de ser entregue às mãos dos homens!” Eles, porém, não entendiam esta palavra e era-lhes obscura, de modo que não alcançaram o seu sentido; e tinham medo de lhe perguntar a este respeito.
O Evangelho de hoje nos apresenta o segundo anúncio da Paixão de Cristo, como é relatado por São Lucas: “O Filho do homem há de ser entregue às mãos dos homens!” (Lc 9, 44). Jesus nem sequer fala da Ressurreição, de tão breve que é o anúncio. No entanto, os discípulos não compreendem suas palavras, ficam perplexos diante dessa realidade e têm medo de perguntar ao Mestre o que aquilo quer dizer.
Por que isso acontece? Para interpretarmos verdadeiramente esta passagem, é interessante avançarmos até o último capítulo do Evangelho de São Lucas — capítulo 24 —, quando Jesus aparece aos dois discípulos de Emaús. Eles se encontram diante da mesma situação dos discípulos do Evangelho de hoje: não compreendem a Paixão de Cristo. Ambos esperavam que Jesus fosse Aquele que viria libertar Israel, mas “já era o terceiro dia desde que todas aquelas coisas haviam acontecido” e, tristes e cabisbaixos, eles seguiam seu caminho.
No entanto, foi nesse contexto de tristeza que Jesus se aproximou deles e disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram!” (Lc 24, 25). Os discípulos não percebiam que Nosso Senhor deveria morrer na Cruz porque interpretavam as profecias de maneira incompleta: recordavam-se daquelas que anunciavam o Messias, o Ungido de Deus, mas se esqueciam das que apresentavam a figura do Servo Sofredor. Não se tratava, porém, de realidades distintas, mas do mesmo mistério profetizado e contemplado sob dois aspectos: Cristo é o Messias glorioso e, ao mesmo tempo, o Servo que assume sobre si o sofrimento para a nossa redenção. Por isso, Jesus lhes explica: “Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” (Lc 24, 26).
Para nós, porém, esta frase não é tão óbvia quanto parece. É evidente que nós tenhamos de sofrer para entrar na glória do Céu; mas por que Jesus deveria sofrer? Afinal, que mal fez Ele para merecer o sofrimento? Ora, Cristo é infinitamente perfeito, mas o seu sofrimento era necessário para unir-se a nós e ser Aquele que sofre conosco e se compadece de nós. Logo, aquilo que parece ser uma impotência de Deus e que, aos nossos olhos, apresenta-se como uma fragilidade, na verdade manifesta o grande poder de Deus de se esconder no fracasso e de permanecer presente quando tudo parece ter dado errado.
É justamente para essa realidade que o Evangelho de hoje nos convida a voltar o olhar: para a presença de Deus nas misérias e nas cruzes do nosso dia a dia. São Máximo, o Confessor, que certamente seguia a tradição dos monges gregos de clamar continuamente pela misericórdia de Deus — “Kyrie eleison, Kyrie eleison, Kyrie eleison” —, dizia: “Os idiotas pedem a misericórdia de Deus o dia inteiro — Kyrie eleison —, mas, quando ela se manifesta, não conseguem reconhecê-la”.
Também nós precisamos aprender a reconhecer que a misericórdia de Deus, muitas vezes, esconde-se na tristeza, no fracasso, na doença e na morte. Afinal, a Ressurreição está sempre escondida atrás da Cruz. Por isso, façamos como os discípulos de Emaús e meditemos a Palavra de Deus. Enquanto caminhavam com Jesus, seus corações ardiam e, pouco a pouco, seus olhos se abriram, e eles puderam enxergá-lo onde antes não queriam procurá-lo: no sofrimento e na dor. Era Ele o tempo todo. Era Ele, triunfante, embora aparentemente derrotado.



















