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Homilia Diária

O último pedido de Santo Inácio de Antioquia

O grão de trigo que se lança à terra, para poder dar fruto, tem de morrer. Por isso, abrasados pela caridade de Cristo, os mártires desejam que chegue logo a hora dos tormentos, quando, moídos nos dentes das feras, eles podem tornar-se pão imaculado e imitadores da Paixão do Senhor.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 12, 8-12)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus. Mas aquele que me renegar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus. Todo aquele que disser alguma coisa contra o Filho do Homem será perdoado. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. Quando vos conduzirem diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiqueis preocupados como ou com que vos defendereis, ou com o que direis. Pois nessa hora o Espírito Santo vos ensinará o que deveis dizer”.

Hoje, celebramos alegremente a memória de Santo Inácio de Antioquia, que foi bispo na cidade de Antioquia, na Síria, lugar onde os discípulos de Cristo foram chamados de cristãos pela primeira vez.

É interessante notarmos que Antioquia está profundamente ligada à história da Igreja nascente: foi ali que São Paulo recebeu a imposição das mãos antes de ser enviado em missão e, segundo a Tradição, foi também uma das sedes episcopais de São Pedro.

No início do século II, durante o governo do imperador Trajano, Santo Inácio foi aprisionado e levado a Roma para ser executado, e provavelmente sofreu o martírio nos jogos promovidos pelos romanos, nos quais os cristãos eram entregues às feras. Porém, enquanto viajava como prisioneiro a Roma, escreveu sete cartas, que constituem um testemunho extraordinário da fé da Igreja nos primeiros séculos.

A leitura dessas cartas permite conhecer não apenas o centro da fé cristã, mas também a própria organização da Igreja naquele período. Santo Inácio mostra claramente que a Igreja não se tornou católica com o imperador Constantino, como afirmam alguns protestantes; pelo contrário, a sua catolicidade já se manifestava desde os tempos apostólicos. Ora, estamos diante de um bispo que conheceu os Apóstolos e pertenceu à geração de seus sucessores diretos. Logo, em seus escritos, encontramos uma Igreja organizada em torno de bispos, presbíteros e diáconos.  

Além disso, ao se referir à Igreja de Roma, Santo Inácio afirmou que ela “preside na caridade” as demais dioceses espalhadas pelo mundo. Dessa forma, já na época subapostólica, vemos Roma associada ao Apóstolo Pedro e ocupando um lugar singular na Igreja.

Em sua carta aos romanos, Inácio pediu aos cristãos de Roma que fossem bondosos para com ele e suplicou que o deixassem morrer por amor a Deus. Justamente nesse pedido, encontramos uma importante lição sobre a caridade: quando amamos alguém de fato, desejamos que essa pessoa esteja unida a Cristo.

É comum que amemos profundamente as pessoas de nossa família, querendo que estejam sempre conosco, que não sofram e que possuam determinados bens. No entanto, embora sejam coisas boas, nenhuma delas constitui o bem maior. A vida frequentemente nos coloca diante de conflitos entre diferentes bens, uma vez que nem sempre possuímos tudo aquilo que desejamos. Por isso, precisamos fazer nossas escolhas com consciência, sabendo que deve existir uma hierarquia de bens.

Às vezes, por exemplo, é necessário escolher entre descansar e trabalhar; em outras ocasiões, entre rezar e estar com um amigo. Até mesmo ao tomar um medicamento, devemos avaliar se os benefícios proporcionados por ele compensam seus possíveis sintomas e efeitos colaterais. Assim acontece com muitas das escolhas que fazemos ao longo da vida.

Entretanto, existe algo fundamental que deve prevalecer sobre todas as outras realidades: a nossa salvação eterna. Ao olhar para uma pessoa que amamos, precisamos reconhecer que ela não possuirá todos os bens desta vida, mas o bem da salvação é inegociável. 

Amar alguém significa desejar ardentemente que ela seja salva, e Santo Inácio nos ensina isso de maneira luminosa. Dirigindo-se aos cristãos de Roma, ele pediu: “Deixai de ter para comigo um amor inoportuno”. Eles queriam preservar sua vida terrena, mas Inácio sabia que estava sendo entregue às feras como um sacrifício de amor a Deus e pela salvação das almas. Por esse motivo, ele suplicou que não fizessem articulações para livrá-lo do martírio e permitissem que ele seguisse o seu caminho para Cristo.

O testemunho de Santo Inácio ilumina a maneira como devemos amar aqueles que nos foram confiados. Diante disso, cabe-nos fazer um exame de consciência: o amor que temos pelas pessoas que amamos, especialmente por nossa família, busca em primeiro lugar o Reino de Deus, confiando que todas as outras coisas nos serão acrescentadas? Ou preferimos para elas um bem-estar meramente terreno, colocando em risco a salvação de suas almas?

Que, seguindo o exemplo de Santo Inácio de Antioquia, aprendamos a reconhecer a salvação eterna como o maior de todos os bens e a amar verdadeiramente aqueles que Deus colocou em nossa vida, desejando para eles, acima de tudo, a união definitiva com Cristo.

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