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Para iniciar nosso curso sobre os temperamentos, é bom darmos uma olhada em quem, com a ajuda da graça, conseguiu vencer as próprias inclinações e transformar-se numa nova pessoa, segundo a vontade de Deus.

Antes de tudo, devemos saber que o temperamento é uma disposição biológica que herdamos de nossos pais. Do mesmo modo que recebemos deles as características externas (cor da pele, qualidade do cabelo, feições do rosto etc.), também somos influenciados na forma de reagir a determinadas situações. Uns são mais pacíficos, outros mais intempestivos, dependendo da genética. Por isso, é muito salutar conhecer essas inclinações para que possamos orientá-las de acordo com as virtudes.

Sim, é possível ordenar nosso temperamento. Ao contrário do que muitos acreditam, essa disposição não é algo determinante, e pode ser trabalhada pelo esforço humano em cooperação com a graça, até converter-se num instrumento de santificação. Podemos citar vários casos de santos que conseguiram vencer o próprio temperamento, mas convém agora observarmos o caso específico de Santa Teresinha do Menino Jesus, dada a doutrina da pequena via, que lhe rendeu o título de “Doutor da Igreja”.

Ao que tudo indica, Teresinha tinha uma disposição para a melancolia. No curso veremos que esse e os demais temperamentos (colérico, sanguíneo e fleumático) não podem ser resumidos ao estereótipo. Seja como for, as próprias anotações de Teresinha indicam que ela conhecia os seus traços psíquicos e como eles afetavam a sua forma de agir. Vejamos, a título de exemplo, alguns momentos em que ela demonstra características bem próprias da pessoa melancólica.

Certo dia, escreve Teresinha, ela e seu pai foram pescar. Chegando ao local, ela bem que tentou se entreter com a atividade, “mas preferia ir sentar-me sozinha na relva florida”, diz ela, onde seus “pensamentos eram muito profundos e sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava numa real oração…” (Manuscrito A, 14v). Aqui notamos duas coisas interessantes: por um lado, a ação da graça já na infância de Teresa, levando-a para a oração e, por outro, a inclinação à solidão, que é algo típico dos melancólicos.

O temperamento melancólico favorece a introspecção. Por essa razão, as pessoas nas quais esse temperamento é predominante gostam mais do recolhimento. Em si mesmo, não se trata de algo bom nem ruim. Vai depender da forma como cada alma se dispuser a viver essa inclinação, ou se fechando no egoísmo ou se entregando à oração. Para Santa Teresinha, que era apenas uma criança na época daquele relato, seu temperamento deu ocasião a uma ação de Deus, demonstrando uma eleição divina, porque dificilmente uma criança tão pequena poderia, por motivações meramente humanas, ter pensamentos tão profundos.

Encontramos outro exemplo do traço melancólico de Santa Teresinha quando ela descreve a tristeza que sentia no final do domingo: 

Esse dia alegre que passava tão rapidamente tinha também o seu tom de melancolia. Eu me lembro que minha felicidade era sem mistura até às completas, durante esse ofício eu pensava que o dia do repouso ia terminar… que no dia seguinte seria preciso recomeçar a vida, trabalhar, aprender lições, e meu coração sentia o exílio da terra… suspirava pelo repouso eterno do Céu, o Domingo sem ocaso da Pátria (Manuscrito A, 17v)!

Sem dúvida, vemos uma menina já virtuosa e bem consciente das próprias inclinações. Todavia, ela também teve de lutar para corrigir certos defeitos, resultados dos traumas de sua vida. Teresinha perdeu a mãe muito cedo, e isso gerou nela muitas feridas afetivas, que influenciaram o modo de ela lidar com o próprio temperamento. Teresinha mesma descreve a dificuldade de sua luta:

A partir da morte de Mamãe, meu feliz caráter mudou completamente, eu tão viva, tão expansiva, me torno tímida e mansa, excessivamente sensível. Bastava um olhar para me fazer derreter em lágrimas (...), não podia suportar a companhia de pessoas estranhas e não reencontrava a minha alegria senão na intimidade da família… (Manuscrito A, 13r).

O fato é que Teresinha caiu numa espécie de depressão, que ela chamava de “doença estranha”. Em seus escritos, ela se refere ao assunto como “obra do demônio”. E a doença recrudesceu ainda mais após Paulina, que era como uma segunda mãe para Teresinha, ter entrado no Carmelo, porque a situação fez a pequenina recordar a sua perda. Mais tarde, em meio a delírios nos quais chamava por “mamãe” (neste caso, Maria, sua irmã e madrinha de batismo), ela vê Nossa Senhora da Assunção, que, sorrindo, proporciona à nossa santa uma cura, ainda que parcial. 

Ainda assim, houve um momento em que Teresinha se sentiu culpada pela própria doença: “Por muito tempo, depois de minha cura, acreditei ter ficado doente de propósito e isto foi um verdadeiro martírio para minha alma”. Ela havia entendido que enfrentava uma doença psicossomática, pelo que concluiu que a culpa era dela, como tendem a fazer as pessoas melancólicas. Não bastasse isso, Teresinha também caiu num grande escrúpulo, precisando recorrer à sua irmã Maria para conseguir livrar-se do problema. Maria repassava com ela o exame de consciência, durante o qual esta anotava aquilo que lhe parecia ser pecado. Ao final, a irmã mais velha dizia quais pecados ela realmente precisaria confessar.

Vemos aqui que Teresinha lutou muito para ordenar suas tendências, sendo principalmente obediente às orientações de sua irmã. Ademais, a educação recebida dos pais ajudou-a a enfrentar tais dificuldades. Mas foi a docilidade à graça de Deus que realmente transformou o coração da pequenina. Santa Teresinha descreve o que chamou de sua “conversão completa”, que ocorreu na noite de Natal de 1886, quando ela tinha de treze para quatorze anos:

Nessa noite de luz começou o terceiro período da minha vida, o mais belo de todos, o mais cheio das graças do Céu… Num instante a obra que eu não pudera fazer em 10 anos, Jesus fez contentando-se com a minha boa vontade que nunca me faltara (...). Fez de mim pescador de almas, senti um grande desejo de trabalhar para a conversão dos pecadores, desejo que não sentira tão vivamente… Senti numa palavra a caridade entrar no meu coração, a necessidade de me esquecer para dar prazer e desde então fui feliz (Manuscrito A, 45v)!

Foi a partir dessa boa vontade, ou seja, de uma disposição plena de cooperar com a graça, que Santa Teresinha se tornou, mesmo sendo monja de clausura, a padroeira dos missionários. Depois dessa noite de Natal, ela tomou a firme resolução de ser mãe espiritual para salvar as almas, começando por “adotar” um filho espiritual: o senhor Pranzini, um grande criminoso que acabara de ser condenado à morte. Ela diz a seu respeito:

Quis a todo custo impedir que caísse no inferno, a fim de consegui-lo empreguei todos os meios imagináveis; sentindo que por mim mesma nada podia, ofereci a Deus todos os méritos infinitos de Nosso Senhor, os tesouros da Santa Igreja, enfim pedi que Celina mandasse dizer uma missa nas minhas intenções, não ousando pedi-la eu mesma com medo de ser obrigada a confessar que era para Pranzini, o grande criminoso (Manuscrito A, 46r). 

Desse momento em diante, Teresinha iniciou, como ela mesma disse, uma “carreira de gigante”, numa alusão ao Salmo 28. A caridade que foi infundida em seu coração voltou-se para o próximo; num primeiro momento, para as almas dos pecadores; mais tarde, para as almas dos sacerdotes. E tudo isso ocorreu porque ela confiou na ação da graça e permitiu que Deus realizasse uma grande transformação em sua alma. Teresinha não deixou de ser melancólica, mas ordenou as inclinações desse temperamento para a conquista do Céu, convertendo sua aptidão ao recolhimento em oração pelos pecadores, como uma verdadeira apóstola.

A purificação definitiva do temperamento de Teresinha veio com as provações vocacionais. Desde o início, ela manifestou o desejo de seguir o caminho das irmãs, entrando para a vida religiosa. Mas isso só se deu depois que Teresinha se entregou aos braços de Deus, confiando que, se essa também fosse a vontade dele, ela entraria para o Carmelo. Naturalmente, Teresinha precisou vencer a inclinação dos melancólicos, que tendem a querer controlar a própria vida. Nosso Senhor queria dela a obediência completa.

Nessa situação, lemos a confissão de Teresinha em seus escritos: “Sempre desejei ser santa, mas comparando-me com os santos sempre constatei que há entre eles e eu a mesma diferença que existe entre uma montanha cujo cimo se perde nos céus e um grão de areia obscuro calcado aos pés dos caminhantes” (Manuscrito C, 2v). Ela se julga inferior a todos os outros. É outra característica própria dos melancólicos. Todavia, prossegue Teresinha, “ao invés de me desanimar, disse a mim mesma, o bom Deus não poderia me inspirar desejos irrealizáveis”. A pequena vence o próprio pessimismo, dá de ombros para os pensamentos orgulhosos, e lança seu destino nos braços de Deus.

Santa Teresinha cumpriu a sua antiga resolução de “humilhar o próprio orgulho” para render-se definitivamente à vontade de Deus. Desse modo, ela desenvolveu a pequena via para o progresso espiritual, fazendo-se bem pequena aos olhos de Deus a fim de conseguir passar pela porta estreita, ou seja, as moradas mais avançadas da santidade. Diante do desespero comum dos melancólicos, ela se inclinou à misericórdia divina, oferecendo-se a ela como vítima de amor.

Eis aqui uma noção clara de como Santa Teresinha venceu o próprio temperamento, não deixando que se tornasse uma prisão ou um fator de estagnação na vida espiritual. Ao contrário, por meio da perseverança e do abandono à graça, ela permitiu que Nosso Senhor se valesse de uma característica biológico-psíquica para moldar a alma daquela que seria mais tarde não apenas uma grande santa, mas também Doutora da Igreja e Padroeira dos Missionários.

Notas

  • As citações de História de uma alma contidas neste texto foram retiradas da nova edição crítica da obra, realizada por Conrad de Meester e publicada pela editora Paulinas.
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