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Texto do episódio

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Na Carta de São Paulo aos Romanos, há uma exortação do Apóstolo que deve servir de modelo para a relação da Igreja com o mundo. O texto diz assim:

“Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito.” (12, 1-2)

Na tradução da CNBB, esse discurso de São Paulo é acertadamente chamado de a vida cristã, pois ele descreve claramente como os cristãos devem viver no mundo. Para ser cristão de verdade, é preciso romper com a mentalidade mundana e sacrificar-se por amor a Deus, pois sem o cumprimento dessa exigência, não se pode experimentar o espírito do cristianismo, que é o amor a Deus sobre todas as coisas.

Jesus, quando chama os Apóstolos para a missão, exige um rompimento com aquilo que era a vida antiga deles, a fim de que, uma vez transformados pela graça, aqueles homens possam voltar ao mundo como fermento na massa, como sal e luz. Há, portanto, uma dinâmica de ruptura, indicada pela palavra “Vinde”, que prepara o retorno dos cristãos ao mundo, como autênticos missionários, aqueles que expulsam demônios e sacrificam seus corpos pela salvação das almas.

Acontece que a Igreja atual vive um drama. Muitos cristãos não querem mais romper com o mundo para estar com Jesus e, fazendo ouvidos moucos ao testemunho de dois mil anos de cristianismo, vão se adequando às exigências dos tempos modernos.

Mas como chegamos a essa nova mentalidade?

Até o pontificado de Pio XII, a Igreja seguiu a orientação do Bem-aventurado Pio IX, no documento Syllabus, condenando os erros do modernismo e advertindo os cristãos sobre os riscos da secularização. No Concílio Vaticano II, porém, os padres conciliares buscaram corresponder ao apelo de São João XXIII, para que a Esposa de Cristo, no trato com os homens modernos, preferisse agora “usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade”. E assim nasceu a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que, nas palavras do então padre Joseph Ratzinger, significou uma espécie de anti-Syllabus, ou seja, uma visão mais positiva da modernidade que, sem deixar de rejeitar os erros, apresenta, segundo Paulo VI, “mensagens de esperança e palavras de confiança” ao homem atual.

É óbvio que o Concílio Vaticano II não pretendeu diminuir em nada as exigências do Evangelho. Mas a ideia que se criou a partir da Gaudium et Spes é que, agora, a Igreja precisa adequar-se ao mundo, e não o contrário.

Para corrigir essa visão errônea, o Papa Paulo VI escreveu em seu testamento a seguinte recomendação: Sobre o mundo: não se julgue que é ajudá-lo adotar-lhe os pensamentos, os costumes e os gostos, mas sim estudá-lo, amá-lo e servi-lo”. Notem, portanto, que a posição da Igreja é muito mais prudente do que conformista. Paulo VI, seguindo os passos de São Paulo, pede para que estudemos o mundo, o que não significa “adotar-lhe os pensamentos, os costumes e os gostos”, mas descobrir a melhor forma de evangelizá-lo, como um bom pescador faz para capturar um dourado.

Infelizmente, muitos pregadores querem apresentar uma versão mais light da Palavra de Deus, como se isso fosse cativar o ouvido dos pagãos e trazê-los para o redil de Cristo. Ledo engano. E o exemplo da Igreja Anglicana é a maior prova disso.

Nas últimas décadas, a Igreja Anglicana dedicou todos os seus esforços a uma teologia, imaginem, “profética”, mas profética contra os bons cristãos. Essa Igreja deixou de combater o aborto, o casamento gay, o laicismo e outras misérias do mundo moderno para perseguir os cristãos de verdade, que não se conformam com um mundo sem Cristo. E o resultado dessa missão às avessas, por assim dizer, é que a Igreja Anglicana pode, dentro de pouco tempo, desaparecer, como reconhece o seu primaz. O mundo não só ignorou a Igreja Anglicana como a “engoliu” por completo.

Algo parecido pode acontecer com a Igreja Católica. Na época de Paulo VI, por exemplo, havia muita gente exigindo a aceitação da pílula anticoncepcional e de outros métodos contraceptivos. Agora, depois de anos de complacência, não é difícil encontrar “católicos” que, pasmem, advogam a legalização do aborto.

Ora, não está evidente o fracasso dessa falsa evangelização?

A Europa precisa urgentemente de uma palavra profética como a de Paulo VI. O Papa do Concílio não apenas exortou os católicos a estudarem o mundo moderno para convertê-lo; ele mesmo dedicou-se a essa missão e, em 1968, publicou a corajosa encíclica Humanae Vitae, a despeito do rancor de muitos bispos e teólogos progressistas. E após 50 anos da publicação desse documento, a história mostra como o Papa Montini estava certo. Estamos assistindo à morte da Europa, como resultado direto das políticas abortistas e contraceptivas.

Com efeito, os católicos precisam aprender a amar o mundo apaixonadamente não para se adequar aos seus esquemas, mas para santificá-lo, ainda que isso custe o martírio e a ridicularização. Atenção: o serviço ao mundo não consiste em disputas temerárias, em uma visão soberba do “nós contra eles”; consiste, antes, no desejo de salvar os nossos irmãos e conduzi-los para o caminho da verdade, que um dia também nos encontrou, ou seja, o caminho de Cristo, pois, de fato, não somos melhores do que os outros, mas somos pobres pecadores que foram resgatados pela graça de Deus e que desejam a mesma sorte para o seus irmãos. É o amor de Cristo que nos impele.

No capítulo VI do antigo manuscrito conhecido como Carta a Diogneto, encontramos esta descrição fabulosa da relação dos cristãos com o mundo:

Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam.

Notem como a Carta a Diogneto está em profunda sintonia com o ensinamento de Paulo VI e do apóstolo São Paulo. Sim, o mundo vai nos odiar. Mas, em contrapartida, nós vamos amá-lo oferecendo não o que ele deseja mas o que ele precisa para ser salvo. Trata-se de fazer o bem aos homens como um bom pescador. A carta ainda diz:

A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos Céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

De fato, não é lícito fugir da missão que Deus nos confiou, como o próprio Cristo assinalou na sua oração sacerdotal (Jo 17, 11-17):

Já não estou no mundo, mas eles estão ainda no mundo; eu, porém, vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam um como nós. Enquanto eu estava com eles, eu os guardava em teu nome, que me incumbiste de fazer conhecido. Conservei os que me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. Mas, agora, vou para junto de ti. Dirijo-te esta oração enquanto estou no mundo para que eles tenham a plenitude da minha alegria. Dei-lhes a tua palavra, mas o mundo os odeia, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A tua palavra é a verdade.

A proposta cristã, portanto, não pretende alienar as pessoas do mundo. Ao contrário, o cristianismo deseja apenas iluminar as realidades temporais com as chamas do Evangelho. E, para isso, os cristãos precisam recolher-se no íntimo de Cristo, a fim de serem renovados pela sua graça. Só a partir desse contato com o Salvador, que diz: “Vinde”, poderemos acolher o seu apelo de ir a todo o mundo e levar o Evangelho a toda criatura.

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