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194. Missão às avessas

O espírito mundano está “desevangelizando” os membros da Igreja. E isto a tal ponto, que alguns católicos em nada se distinguem do pagão mais profano. O que está acontecendo? Qual a raiz desta “anti-missão”?

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A Igreja Católica costuma dedicar o mês de outubro aos missionários. Não por acaso a memória de Santa Teresinha — que, ao lado de São Francisco Xavier, é a padroeira das missões — se celebra no 1.º dia deste mesmo mês. Também o Rosário tem lugar especial no mês de outubro para lembrar aos católicos que, sem vida de oração, não há apostolado fecundo.

A ocasião é, por isso mesmo, mais do que adequada para uma reflexão sobre o estado das missões dentro da Igreja Católica, a julgar também pelo 10.º aniversário da Conferência de Aparecida, ocasião em que os bispos de toda a América Latina, reunidos com o Papa Bento XVI, convocaram os católicos para a missão de ser “discípulo-missionário”.

A realidade do “discípulo-missionário” é apresentada no Evangelho de São Mateus com muita propriedade. Jesus, depois de escolher alguns dentre a multidão e passar um tempo com eles, envia os apóstolos para pregarem a Palavra por todo o mundo: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (16, 15).

Para que alguém seja missionário, é preciso que fique, antes, na presença de Cristo, de quem obterá força e graça para cumprir a própria vocação. Depois, a vivência com Cristo, a fim de que se torne autêntica, exige o apostolado, o desejo de trazer mais pessoas para essa comunhão de amor. Isso deve estar muito presente na vida dos sacerdotes, aliás, porque depende da sua apostolicidade a fecundidade de sua vocação. Quem ensina a fé aprende mais do que ensina.

O “discípulo-missionário” pertence àquele grupo do qual Cristo fala na última Ceia: “Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo” (Jo 17, 16). Por outro lado, o que se nota hoje nos bancos de nossas igrejas é um progressivo processo de secularização, de modo que já não há quase diferença entre o que pensam os mundanos e o que pensam os católicos.

Há algumas décadas, uma pesquisa nos Estados Unidos revelou que 70% dos católicos americanos frequentavam a Missa e obedeciam à moral da Igreja com relação à sexualidade humana. As pesquisas mais recentes, no entanto, mostram que o número de participantes da missa não só diminuiu — estima-se agora que sejam 20% —, como também estes mesmos que continuam a participar não respeitam os ensinamentos do Magistério. E a realidade no Brasil não é muito diferente.

Como se chegou a isso?

A proposta do Concílio Vaticano II, nas palavras de São João XXIII, era a de apresentar a “doutrina certa e imutável da Igreja” de maneira tal que respondesse “às exigências do nosso tempo” (cf. Discurso na solene abertura do Concílio, 11 de outubro de 1963, VI, 5). Mas o que se sucedeu foi um fenômeno estranhamente contrário à proposta do Concílio, com pregadores exigindo dos católicos uma adequação ao mundo, em nome da tolerância, termo muito usado pela escola crítica de Frankfurt. Com efeito, a Igreja deixou de ensinar o amor às pessoas e o caminho da santidade para adaptar-se ao pensamento do homem moderno e anticlerical.

É preciso deixar claro que essa “missão às avessas” não foi culpa do Concílio, mas de uma interpretação errônea da vontade dos padres conciliares, feita por alguns peritos e pela mídia. Como lembrou o Papa Bento XVI no seu último discurso ao clero de Roma,havia o Concílio dos Padres — o verdadeiro Concílio — mas havia também o Concílio dos meios de comunicação, que era quase um Concílio aparte. E o mundo captou o Concílio através deles, através dos mass-media”.

Vejamos o que pensavam alguns desses peritos do Vaticano II, que se destacaram na mídia.

Para o jesuíta Karl Rahner, a humanidade seria, antes de tudo, uma “unidade real”, de modo que, pela encarnação do Verbo de Deus, todo o gênero humano se tornou “povo de Deus”, isto é, Igreja:

En cuanto la Humanidad así “consagrada” es de antemano una unidad real, existe también ya un pueblo de Dios que se extiende tanto como la humanidad [...]. Esta determinación real de la Humanidad una como pueblo de Dios es una verdadera realidad y no la idea puramente abstracta de algo que debe ser pues se basa en la conjunción de la unidad natural de género humano y de la encarnación real de Verbo de Dios. — Enquanto a humanidade assim “consagrada” é, de antemão, uma unidade real, existe também já um povo de Deus que se estende tanto como a humanidade [...]. Essa determinação real da Humanidade una como povo de Deus é uma verdadeira realidade e não uma ideia puramente abstrata de algo que deve ser, pois se baseia em uma conjunção da unidade natural do gênero humano e da encarnação real do Verbo de Deus. (tradução nossa) [1]

Não menos incisiva é a opinião do diocesano João Batista Metz, outro perito do Concílio, para quem a distinção entre mundo e Igreja não é absolutamente clara:

La manera corriente de hablar acerca de que la Iglesia tiene que volverse al mundo, de que la Iglesia tiene de apreciar positivamente al mundo, etc., pone de manifesto esta falta de claridad. Es que la Iglesia es algo distinto del mundo? No es ella también mundo? — A maneira corrente de se falar que a Igreja tem de se voltar para o mundo, de que a Igreja tem de apreciar positivamente o mundo etc., põe de manifesto essa falta de claridade. A Igreja é algo distinto do mundo? Não é ela também mundo? (tradução nossa) [2]

E, finalmente, para o dominicano Schillebeeckx, haveria uma sadia e santa dialética da secularização entre Igreja e mundo:

Las fronteras entre Iglesia y "humanidad" se desvanecen no sólo en dirección de la Iglesia: podemos afirmar que se desvanecen también en dirección de la humanidad y del mundo. El actual proceso de desacralización y secularización hace que lo que antes aparecía como algo propio y peculiar de la Iglesia (socorro a los pobres, obras caritativas, etc.) ha pasado a ser, en muchos puntos, forma propia de la vida de los hombres en el mundo. — As fronteiras entre Igreja e “humanidade” se desvanecem não somente em direção à Igreja: podemos afirmar que se desvanecem também em direção da humanidade e do mundo. O atual processo de dessacralização e secularização faz aquilo que antes aparecia como algo próprio e peculiar da Igreja (socorro aos pobres, obras caritativas etc.) passar a ser, em muitos pontos, a forma própria de vida dos homens e do mundo. (tradução nossa) [3]

O propósito desta aula não é julgar as intenções desses teólogos, mas demonstrar as consequências negativas que suas ideias tiveram sobre a fé católica. A partir da popularização de seus escritos, a Igreja começou a tratar o povo em geral sem a devida distinção entre mundo e povo de Deus, o que diminuiu a tarefa missionária.

O risco é que a Igreja Católica acabe se tornando uma Igreja Anglicana que, depois de tantas adequações ao mundo moderno, a única coisa que conseguiu foi o desprezo da sociedade. O próprio primaz anglicano, Lord Carey, confessou recentemente que o anglicanismo deve desaparecer em breve. Se a Igreja Católica não quiser seguir o mesmo caminho, deve voltar-se para o chamado de Jesus, repetido pela Conferência de Aparecida, e voltar a evangelizar.

Referências

  1. Karl Rahner, Escritos Teológicos, v. 2. 1961, p. 89.
  2. Johann Baptist Metz, Teología del mundo. 2.ª ed. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1971, p. 120.
  3. Edouard Schillebeeckx, Iglesia y Humanidad, in: Concilium, 1, 1965, pp. 65-94.

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