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As graças que Nossa Senhora recebeu, desde o instante da sua concepção, tinham em vista a maternidade divina. Ela cresceu em santidade e, na plenitude dos tempos, tornou-se Mãe do Messias por uma intervenção especial do Espírito Santo, que a cobriu com sua sombra e fecundou o seu ventre virginal, preservando-a pura antes, durante e depois do parto. Em Pentecostes, o mesmo Paráclito a agraciou novamente, durante a oração no Cenáculo, a fim de torná-la Mãe da Igreja. Daqui podemos especular como a Virgem Maria progrediu espiritualmente, antes de sua Assunção, e a relação desse progresso com a nossa vida interior, como membros da Igreja, gerados no ventre da Imaculada.

O dogma da Imaculada Conceição indica que, desde o ventre de Sant’Ana, Maria já dispunha de uma plenitude inicial de graça bastante singular. A bula Ineffabilis Deus, de Pio IX, afirma o seguinte: “...de preferência a qualquer outra criatura (prae creaturis universis), fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência”. Por essa razão, prossegue o texto, Deus “cumulou-a admiravelmente, mais do que a todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua divindade”. E, de fato, só isso explica as palavras com as quais S. Gabriel a saudou na anunciação: Ave, cheia de graça (gr. Χαῖρε, κεχαριτωμένη). Na hierarquia do Céu, portanto, Maria é — depois de Nosso Senhor Jesus, enquanto homem e Cabeça da Igreja — aquela que dispõe de mais graças e privilégios diante de Deus, estando acima de todos os anjos e santos juntos.

OPe. Reginald Garrigou-Lagrange, OP, comenta que, durante toda a vida da Virgem SS., a caridade cresceu em sua alma com uma aceleração maravilhosa, conforme a regra indicada por Santo Tomás: “...a graça aperfeiçoa e inclina ao bem, segundo o caminho da natureza...; segue-se daí que aqueles que estão em estado de graça devem, portanto, crescer em caridade na medida em que se aproximam do fim último (que os atrai)”. Nesse sentido, todas as ações da Virgem foram cheias de amor e generosidade, razão por que ela alcançou méritos perfeitíssimos. E foi por esses méritos que Maria, tendo recebido a graça de Pentecostes, pôde gerar a Igreja nascente, valendo-lhe uma enormidade de carismas, prodígios, êxitos e conversões.

A mediação de Maria foi tanto mais conveniente, senão indispensável, para o início da Igreja, na medida em que os Apóstolos tinham medo dos judeus, ou seja, não possuíam virtudes maduras para o cumprimento da nova missão. Foi pela poderosa intercessão do Imaculado Coração de Maria, como habitualmente rezamos, que veio o Espírito Santo. Daí ser sentença comum entre os Padres e Doutores da Igreja a afirmação de que Maria é a “nova Eva”, Mãe do novo homem nascido do Batismo. Em outras palavras, diz São Luís de Montfort, “se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma consequência necessária”, porque “não há mãe que dê à luz a cabeça sem os membros ou os membros sem a cabeça”. “Seria uma monstruosidade da natureza”, adverte o santo (Tratado I 32).

De qualquer modo, já houve quem considerasse o título mariano de “Mãe da Igreja” bastante problemático, a partir de um ponto de vista pretensamente eclesiológico. Essa tendência chegou a se apresentar, por exemplo, durante o Concílio Vaticano II, com grande número de padres conciliares defendendo uma visão da Virgem Maria como simples “membro do Corpo de Cristo”. E se ela é apenas um membro, não pode ser Mãe do Corpo todo. 

Essa posição, no entanto, faz caso omisso do dogma da união hipostática, a cuja ordem Maria SS. pertence intrinsecamente, por ter gerado o corpo adorável do Verbo encarnado, razão pela qual ela se encontra unida, de um modo particularíssimo, a Nosso Senhor Jesus Cristo. E se, com razão, os Padres da Igreja não hesitaram em chamá-la Mãe de Deus, como não lhe atribuiremos nós o título de nossa Mãe? Por esse motivo, a partir da cristologia tradicional, o Papa Paulo VI proclamou, na conclusão da III sessão do Concílio, “Maria SS. ‘Mãe da Igreja’, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima”.

Ao fim e ao cabo, podemos concluir: na Igreja nascente, Nossa Senhora cooperou como causa meritória, sendo uma Mãe que apoia os esforços de seus filhos. Por suas orações incessantes e sacrifícios de amor, ela tornou fecunda a pregação dos Apóstolos, ajudando-os a ter a coragem de anunciar as bem-aventuranças do Evangelho. E agora, do Céu, ela “não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna” (Lumen Gentium 62). Por isso, nas suas aparições, Maria SS. nos convida a fazer os mesmos sacrifícios que ela fez um dia pela conversão dos pecadores, a fim de que, pelos méritos da nossa intercessão, os “instrumentos débeis” (sacerdotes, religiosos e leigos) de que Nosso Senhor dispõe na sua Igreja se tornem operantes e eficazes.

Referências

  1. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, A Mãe do Salvador e nossa vida interior. Ecclesiae, 2017.
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