Há 35 anos subia ao trono de Pedro o Papa João Paulo II. A Igreja assistia em êxtase ao nascimento de um novo pontificado, marcado, sobretudo, pela coragem do jovem pontífice. Wojtyla foi o paladino de um cristianismo planetário, encarnado na história e consciente de sua tarefa: "Fazer discípulos entre todas as nações" (Mc 16, 15). O comovente apelo do Santo Padre - feito na abertura de seu pontificado - iria ecoar nos quatro cantos da terra, despertando os fiéis para uma nova caminhada missionária: "Não tenhais medo, abram, ou melhor, escancarem as portas para Cristo" [1].

Nas suas viagens, chamava a atenção o beijo que sempre dava no chão do país a que acabara de chegar. Era um gesto instintivo, mas cheio de simbolismo. Com o ósculo, João Paulo II confessava seu amor por aquele povo, indicando que as realidades materiais também fazem parte do ser cristão. A existência cristã não é algo exclusivamente espiritual, fechado num pequeno grupo de privilegiados. Na fé católica, as esferas seculares são, para todos os fiéis, oportunidade de encontro com Deus.

Outro Papa recorda o mesmo. Francisco, durante a Jornada Mundial da Juventude, encorajou os jovens a "levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente." [2]. O ensinamento do Santo Padre lembrava que o "Evangelho é para todos, e não apenas para alguns", pois Cristo deseja que "todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor".

O cristão deve estar no mundo e amá-lo apaixonadamente, a fim de "iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor." [3]. Porventura pode ser o cristianismo uma religião de eleitos, sectarista, "de pessoas puras, extraordinárias, que não se misturam com as coisas desprezíveis deste mundo ou que, quando muito, as toleram como algo necessariamente justaposto ao espírito, enquanto aqui vivemos" [4]? Era o que perguntava São Josemaria Escrivá aos seus filhos espirituais.

Sem menosprezar a vida religiosa, louvando os bens espirituais dos que se entregam à clausura, o Santo de Villa Tevere insistia na unidade de vida para os leigos, aqueles que são chamados à santidade no mundo. "Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser como esquizofrênicos, se queremos ser cristãos", exortava Escrivá. E dito isso, seguia adiante: "Aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores - aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens."

De fato, o mundo não é uma caixa de maldade, na qual se encontra somente dor e desespero. Se impregnado pelo fermento da vida cristã, pode se converter num imenso templo do Senhor, na própria casa de Deus. "E viu que era bom" (Gn 1, 31), assim narram as Escrituras. Por isso, insistia São Josemaria, "a vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia". Nas realidades mais ordinárias, nos trabalhos mais humildes, nas tarefas mais simples, aí está Jesus, como sempre esteve ao lado do pai, José, trabalhando na carpintaria.