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202. “Um caminho de fé antigo e sempre novo”

A Molokai é a primeira editora no Brasil a lançar o homiliário completo do Papa Bento XVI — um verdadeiro legado de seu pontificado e, em certo sentido, a mais importante obra saída de sua pena. No programa de hoje, 5 de fevereiro, Padre Paulo Ricardo apresenta a todos este guia litúrgico de inestimável valor.

Texto do episódio

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A Editora Molokai acaba de lançar a segunda edição do Homiliário do Papa Bento XVI, que, em quatro grandes volumes, reúne as homilias e as reflexões dominicais do Papa Emérito ao longo de seus oito anos de pontificado. Além de ser algo inédito em todo o mundo, trata-se de um trabalho primoroso, cuja grandeza pretendemos apresentar nesta aula.

Tradicionalmente, todos os papas possuem uma equipe responsável pela redação de seus discursos, documentos, cartas e até homilias. Antes de cada evento ou celebração, essa equipe se reúne com o Santo Padre para receber as orientações e escrever os textos conforme o desejo do Pontífice. O Papa, obviamente, é livre para alterar esses textos ou mesmo rejeitá-los. A equipe apenas deve auxiliá-lo, a fim de que um trabalho tão grande não seja demasiado pesado para as mãos do Santo Padre.

Em 2005, o Papa Bento XVI fez sua primeira viagem internacional justamente para a Alemanha, como o primeiro papa alemão depois da Reforma Protestante. O Santo Padre iria presidir as cerimônias da Jornada Mundial da Juventude, em Colônia. Como em todas as outras edições, a equipe da Secretaria de Estado preparou uma tabela com as atividades do Papa — encontro com políticos, bispos, seminaristas, jovens, missas etc. — e pediu-lhe instruções para a redação dos discursos. Bento XVI, então, explicou qual deveria ser essa orientação, mas, para surpresa da Secretaria de Estado, ele não delegou as homilias. “Não, as homilias não. As homilias faço eu”, disse o Papa aos membros da equipe [1].

Esse episódio, por si só, já revela a importância da obra publicada pela Editora Molokai. De fato, o Homiliário do Papa Bento XVI é um trabalho que nasceu do coração do Santo Padre, das horas de meditação e oração diante do Senhor. Como um bom agostiniano, o pensamento de Bento XVI acerca da missão do bispo parte precisamente do contato com as Sagradas Escrituras pela lectio divina.

Para Santo Agostinho, a missão mais importante de um bispo nada mais é do que meditar as Sagradas Escrituras e transmiti-las aos fiéis, como explicam os Apóstolos: “Não é razoável que abandonemos a palavra de Deus, para servir as mesas” (At 6, 2). O apóstolo deve ser uma testemunha da ressurreição não somente no sentido histórico, mas sobretudo no sentido espiritual, no anúncio da salvação do Evangelho. Essa era a visão de Santo Agostinho e, também, a de Bento XVI.

Aliás, essa também era a visão de Santo Tomás de Aquino, como se nota neste texto da Suma Teológica, que deu origem ao lema dos dominicanos, “Contemplata aliis tradere”: “Assim como é mais o iluminar do que somente luzir, assim, é mais transmitir aos outros o fruto da contemplação que somente contemplar” (Suma Teológica, II-II, q. 188, a. 6). Para o Doutor Angélico, os bispos deveriam ser esse farol que ilumina os fiéis com a Palavra de Deus, mediante uma intensa vida de oração.

Em 2001, num discurso para o Conselho das Conferências Episcopais da Europa, o então Cardeal Ratzinger defendeu o mesmo pensamento de Santo Agostinho e Santo Tomás, explicando a necessidade do sensus fidei para a espiritualidade dos bispos:

Não é necessário que o bispo [se entenda também o presbítero] seja um especialista em teologia, mas deve ser um mestre de fé. Isso supõe que ele seja capaz de ver a diferença entre fé e reflexão sobre a fé: em outras palavras, deve possuir o sensus fideiEm resumo, poder-se-ia dizer que o discernimento entre dado de fé e reflexão sobre a fé é a tarefa do bispo [2]. (Grifos nossos)

Ratzinger tinha em mente, sobretudo, a situação da Alemanha, onde muitos leigos têm competência teológica — no sentido científico, atenção — igual ou maior que a dos bispos. Portanto, ao indicar que a tarefa dos bispos é a do discernimento “entre dado de fé e reflexão sobre a fé”, Ratzinger estava mostrando que a como tal é mais importante que as especulações e teorias, por mais belas que sejam, e que o bispo, como sucessor dos Apóstolos, deve proteger essa mesma fé como um verdadeiro tesouro. Daí a necessidade de um sexto sentido, por assim dizer, que saiba reconhecer aquilo que é a verdadeira Revelação de Deus.

O pensamento de Ratzinger sobre a missão do episcopado insiste na necessidade de uma vida de oração sincera e perseverante, como condição para a obtenção do dom de discernimento:

A condição fundamental para a capacidade de discernimento consiste no sentido da fé, que se torna olho; o sentido da fé se nutre da práxis da fé, o ato fundamental da fé é a relação pessoal com Deus: “com Cristo, no Espírito Santo, ao Pai”... Quais são as formas mais importantes desta relação pessoal realizada com Deus? O modo fundamental de uma relação pessoal é o colóquio, o diálogo. Porém, seria insuficiente se disséssemos que o colóquio com Deus se chama oração, porque o diálogo exige reciprocidade: não somente nossa palavra, mas também a nossa escuta. Sem escuta, o diálogo se reduz a um monólogo. Eis porque nós escutamos a voz de Deus escutando a Palavra que nos foi entregue na Sagrada Escritura. [3] (Grifos nossos)

Vejam como esse grande agostiniano valoriza a vida de oração! Em outras palavras, o que Ratzinger diz é que, para um bispo adquirir o sensus fidei, ele precisa, primeiro, agir como um degustador de vinhos, que experimenta várias qualidades dessa bebida até conseguir distinguir a boa da ruim; ou seja, o bispo deve fazer constantes atos de fé, a fim de que seu ouvido se torne sensível à verdade. E esse ato de fé, explicava o Cardeal aos bispos, chama-se oração:

De fato, estou convencido que a lectio divina é o elemento fundamental na formação do sentido da fé e por consequência o compromisso mais importante para um bispo mestre da fé… A lectio divina é a escuta de Deus que nos fala, que me fala. Por isso, este ato de escuta exige uma verdadeira atenção do coração, uma disponibilidade não somente intelectual, mas integral, de todo o homem. A lectio divina deve ser cotidiana, deve ser o nosso alimento cotidiano, porque só assim podemos aprender quem é Deus, quem somos nós, o que significa a nossa vida neste mundo [4]. (Grifos nossos)

A vida interior tem sido um tema constante em nossos programas, sobretudo em nossos cursos sobre a espiritualidade teresiana e os métodos de oração. Como ensinou o Cardeal Ratzinger aos bispos, a escuta da Palavra de Deus, seja em uma meditação, seja em uma pregação, põe-nos em contato direto com o Verbo, que habita em nossas almas e ilumina o nosso coração. Conforme Santo Tomás de Aquino, existe um verbo exterior, que nos transmite a Palavra de Deus por meio de algum instrumento, e existe o verbo interior, que é a presença real de Cristo em nosso ser. A conversão acontece justamente quando essa realidade exterior e interior se harmonizam e a alma do homem é alimentada. A pessoa escuta uma verdade antiga de uma maneira absolutamente nova, como se nunca a tivesse percebido. Por isso, Ratzinger compreende que o primeiro dever dos bispos é o da oração íntima com Deus.

Notem, portanto, que grande maravilha é esse Homiliário de Bento XVI. Temos a certeza de que cada homilia dessa obra são mesmo de sua pena e tiveram origem nos momentos profundos de oração e ação de graças que Bento XVI fazia e ainda faz habitualmente. Contrapondo-se à realidade de muitos bispos da Europa, que devido às inúmeras atividades administrativas e pastorais, acabam delegando suas homilias para outras pessoas, Ratzinger defende esse importante instrumento de ensino, a fim de que os sacerdotes não “terceirizem” o que há de mais importante no seu ministério.

Assim sendo, o Homiliário de Bento XVI é, além de uma grande obra, uma exortação à vida de oração e um ótimo texto para a meditação e a escuta da Palavra de Deus, porque nasceu do coração de alguém que não soube ser outra coisa na vida senão um pobre e humilde servo na vinha do Senhor.

Referências

  1. Padre Paulo Ricardo tomou conhecimento desse episódio por meio de um de seus amigos que trabalharam na Jornada Mundial da Juventude, em Colônia.
  2. Joseph Ratzinger, in Consilium Conferentiarum Episcopalium Europae, Roma, 2001.
  3. Ibidem.
  4. Ibidem.
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