27 de Setembro de 2026
Assim diz o Senhor: 25“Vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: é a minha conduta que não é correta ou, antes, é a vossa conduta que não é correta? 26Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”.
Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!
4b Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos,*c e fazei-me conhecer a vossa estrada!
5 Vossa verdade me oriente e me conduza, †
porque sois o Deus da minha salvação; *
em vós espero, ó Senhor, todos os dias! R.
6 Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura *
e a vossa compaixão que são eternas!
7 Não recordeis os meus pecados quando jovem, *
nem vos lembreis de minhas faltas e delitos!
De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia *
e sois bondade sem limites, ó Senhor! R.
8 O Senhor é piedade e retidão, *
e reconduz ao bom caminho os pecadores.
9 Ele dirige os humildes na justiça, *
e aos pobres ele ensina o seu caminho. R.
Irmãos, 1se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, 2tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. 3Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante 4e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro. 5Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. 6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. 9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o nome que está acima de todo nome. 10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra 11e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai.
Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 28“Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ 29O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. 30O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. 31Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 32Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 21, 28-32)
Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.
Neste 26º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 21, versículos de 28 a 32, no qual Jesus está em Jerusalém, já na última semana de sua vida terrena e, sabendo que em breve seria condenado à morte, dirige-se especialmente aos sacerdotes e anciãos do povo, numa última tentativa de levá-los à conversão. É nesse contexto que Ele conta a parábola dos dois filhos: o primeiro, chamado pelo pai para trabalhar na vinha, inicialmente se recusa, mas depois se arrepende e vai; o segundo responde que irá, porém, não cumpre a vontade do pai.
Ao contar essa parábola e perguntar quem fez a vontade do pai, Jesus leva os próprios chefes do povo a julgarem a atitude dos dois filhos para que, em seguida, reconheçam a si mesmos naquele julgamento. Trata-se de um recurso semelhante ao utilizado pelo profeta Natã diante do rei Davi, após seu pecado com Betsabeia e a morte de Urias. Natã contou-lhe a história de um homem rico que tomou e matou a única ovelha de um pobre senhor. Indignado, Davi declarou que aquele homem merecia a morte, ao que o profeta respondeu: “Esse homem és tu” (2Sm 12, 7). Da mesma forma, Jesus desmascara os sacerdotes e anciãos, não simplesmente para condená-los, mas porque deseja o seu arrependimento e a sua mudança de vida.
A palavra “arrepender-se” é fundamental para compreender esse Evangelho. No versículo 29, o primeiro filho, depois de dizer que não iria à vinha, arrepende-se e vai. Embora a tradução litúrgica afirme que ele “mudou de opinião”, o verbo grego empregado é metamelomai (μεταμέλομαι), que significa “arrepender-se”, o mesmo utilizado no versículo 32, quando Jesus censura os chefes do povo por não terem acreditado na pregação de João Batista, arrependendo-se de suas faltas. Esse termo não indica uma simples mudança de opinião, mas envolve também um remorso, um pesar pelos erros cometidos.
O mesmo verbo aparece mais adiante no capítulo 27 do Evangelho de São Mateus, a respeito de Judas, que, depois de entregar Nosso Senhor, arrepende-se e devolve as moedas de prata. Contudo, seu exemplo mostra que a comoção e o sentimento, por si sós, não bastam. O centro da parábola está justamente na pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”, pois o verdadeiro arrependimento precisa conduzir a uma decisão concreta de abandonar o caminho errado e fazer a vontade de Deus.
Na Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino explica que a palavra “arrependimento” pode ser compreendida em dois sentidos. O primeiro diz respeito ao sentimento, isto é, à comoção interior provocada pelo reconhecimento do mal cometido. Nesse caso, a culpa e a tristeza, por mais intensas que sejam, não constituem por si mesmas um arrependimento virtuoso, podendo até aprisionar a pessoa em seu próprio sofrimento. É o que vemos no caso de Judas. Depois de entregar Jesus por algumas moedas de prata, ele se arrepende e devolve o dinheiro recebido. Sua dor foi tão intensa, que terminou levando-o ao suicídio. Havia, portanto, remorso e uma profunda agitação interior, mas isso não foi suficiente para conduzi-lo a uma verdadeira mudança de caminho.
O segundo sentido do arrependimento diz respeito à vontade e, portanto, envolve uma escolha. A pessoa reconhece que estava trilhando o caminho errado, lamenta aquilo que escolheu e decide seguir uma direção diferente, como aconteceu com o filho mais velho da parábola. Portanto, o verdadeiro arrependimento não exclui os sentimentos, mas não se reduz a eles. É necessário que a comoção interior alcance a vontade, levando a uma decisão concreta de abandonar o mal e escolher o bem.
Um episódio do Evangelho de São Lucas ajuda-nos a compreender essa diferença: o encontro de Jesus com a mulher pecadora na casa de Simão, o fariseu. Enquanto o anfitrião se preocupa com as aparências durante aquela situação, a mulher não se detém no que os outros pensarão dela. Prostra-se aos pés de Cristo, unge os pés dele com perfume, banha-os com suas lágrimas, enxuga-os com o cabelo e beija-os. Todavia, apesar de sua atitude estar carregada de emoção, o determinante não são seus sentimentos, mas a sua decisão de trilhar um novo caminho e a manifestação de seu amor por Jesus.
Ao comentar essa passagem, São Gregório mostra como aquela mulher passa a oferecer a Deus aquilo que antes utilizara para o pecado. Os olhos que serviram à concupiscência agora derramam lágrimas de penitência; os cabelos antes usados para adornar-se tornam-se instrumento de humildade; os lábios que haviam servido à vaidade beijam os pés de Cristo; e o perfume antes empregado para seduzir é agora oferecido a Jesus. Aquilo que estivera a serviço do próprio prazer passa, desse modo, a ser consagrado ao Senhor.
Eis a essência do verdadeiro arrependimento: aquilo que antes empregávamos para desagradar e ofender a Deus passa a ser colocado a serviço do bem, para amá-lo, servi-lo e honrá-lo. Por causa disso, Jesus conclui aquele episódio recordando o grande amor daquela mulher. Não são os sentimentos, isoladamente, que determinam a conversão, mas o amor que leva a uma verdadeira mudança de vida.
Muitas vezes, porém, após pecar, permanecemos presos ao sentimento de culpa, remoendo continuamente o passado sem seguir adiante. O arrependimento cristão não consiste em alimentar indefinidamente essa tristeza, mas em tomar a firme decisão de deixar o caminho percorrido até então e reorientar para Deus aquilo que somos e fazemos.
Um dos grandes obstáculos a essa mudança é a preocupação com as aparências. Quando alguém muda de vida, aqueles que o conhecem percebem a diferença, e pode ser constrangedor para pessoa admitir que antes vivia no erro. Por receio do julgamento alheio, muitos preferem conservar as aparências a mudar efetivamente diante de Deus. Foi também essa a dificuldade dos sacerdotes e anciãos do povo e de Simão, o fariseu: estavam mais preocupados com o exterior do que com a conversão do coração.
Diante disso, Jesus conclui o Evangelho recordando a pregação de João Batista, que chamava o povo ao arrependimento e à conversão. Vários pecadores públicos acolheram esse chamado, mudaram de vida e, depois, aproximaram-se de Cristo. Jesus não hesitava em sentar-se à mesa com eles, ainda que isso provocasse críticas e interpretações maliciosas por parte dos fariseus e dos chefes do povo, pois seu olhar não estava voltado para as aparências, mas para o amor e para a mudança daqueles corações.
A própria parábola dos dois filhos revela esse contraste. O primeiro foi desobediente; contudo, arrependido, cumpriu mais tarde a vontade de seu pai. O segundo apresentou-se exteriormente como obediente, mas suas ações demonstraram o contrário. Precisamos, pois, abandonar uma religião fundada nas aparências para nos concentrarmos no verdadeiro amor a Deus.
Eu mesmo experimentei essa tentação. Quando adolescente, admirava as fotografias de meu pai vestido de batina, porque ele havia sido seminarista, e desejava tornar-me sacerdote. Entretanto, com o tempo, aquela admiração estética começou a transformar-se numa preocupação excessiva com exterioridades. Enquanto outros já haviam deixado as brincadeiras de infância, eu ainda brincava de Missa, improvisava paramentos com lençóis e cheguei a fazer uma mitra de papelão. Afinal, eu não queria apenas ser padre: queria ser bispo, queria ser importante. Por trás daquele desejo, no entanto, havia a necessidade de construir um personagem, uma máscara que fizesse eu me sentir amado.
Somos chamados a abandonar essas máscaras e a viver uma religião que brote verdadeiramente do coração. Hoje, continuo usando batina, mas devo pedir sempre a Deus que me livre das exterioridades vazias e faça de minha fé uma expressão sincera de amor. Esse é um desafio permanente, porque sempre estará em nós a tentação de parecermos o filho obediente que diz “eu vou”, mas depois não cumpre a vontade do Pai.
Portanto, o verdadeiro arrependimento não consiste em alimentar sentimentos de culpa nem em preservar diante dos outros uma aparência de virtude. Trata-se de uma determinação de amor que nos leva a mudar concretamente de vida. Ainda que essa mudança seja percebida e até nos exponha ao julgamento alheio, não devemos temê-la. Não nos preocupemos com o que os outros dirão; mudemos o coração, para que também nossas atitudes sejam transformadas e possamos, enfim, fazer a vontade do Pai.
© Leituras extraídas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.