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Catacumbas atestam: Jesus está realmente presente na Eucaristia
Doutrina

Catacumbas atestam: Jesus está
realmente presente na Eucaristia

Catacumbas atestam: Jesus está realmente presente na Eucaristia

Quem quer que faça uma incursão pelas catacumbas dos primeiros cristãos, vai se deparar com uma verdade sublime: desde o começo, os seguidores de Cristo reconheciam a sua presença na celebração da Santa Missa.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Janeiro de 2016Tempo de leitura: 11 minutos
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Graças à pregação dos Apóstolos, os cristãos começaram a multiplicar-se em todas as cidades, a ponto de o historiador Tácito dizer, no ano 66, que já era grande o seu número na capital do Império [1].

Por isso, não era nada surpreendente que Satanás, antevendo o fim de seu principado, procurasse, através dos mais diversos artifícios, apagar a religião cristã da face da Terra. Os pagãos, para quem a pregação da Cruz era loucura, tanto serviam de instrumentos ao demônio quanto mais a retidão dos cristãos condenava a perversidade do seu modo de vida. "Sereis odiados por todos, por causa do Meu nome" (Mt 10, 22): desde muito cedo a profecia de Cristo começava a cumprir-se.

O misto de simplicidade e mistério que rondava o discreto grupo dos cristãos inquietava cada vez mais os seus inimigos, que não tinham nenhum fato ou testemunho com os quais acusá-los. Por conta disso, todo tipo imaginável de maldade começou a ser atribuída a eles. Pela boca dos judeus, chegava aos seus ouvidos a misteriosa tradição de que, durante as suas festas, os cristãos faziam um sacrifício e, depois, bebiam a carne e o sangue de suas vítimas. Como os cristãos guardavam "a sete chaves" a doutrina da Sagrada Eucaristia e celebravam a Santa Missa sempre em segredo, começaram a circular acusações as mais absurdas, como a de que os cristãos sacrificavam e canibalizavam crianças inocentes.

Eram de tal modo discretas as circunstâncias em que se davam a celebração desse sacramento, que ninguém que não fosse batizado estava autorizado a aprender sobre ela, e os próprios catecúmenos deixavam as igrejas quando a parte mais solene da liturgia começava. Falar dessas coisas aos de fora era um crime tão grave que apenas hereges e apóstatas ousavam fazê-lo.

Não obstante todo o cuidado com que os primeiros cristãos preservavam os seus ensinamentos, eles ainda deixaram atrás de si as mais claras provas de sua fé na presença real do Senhor na Eucaristia, bem como da adoração que eles davam ao Corpo e Sangue do Senhor.

Se, durante as suas assembleias, eles oferecessem e consumissem simplesmente pão e vinho comuns, não haveria nenhum problema de fazê-lo diante de todo o mundo, sem perigo ou medo de perseguição.

O mistério se estendia não só a palavras e escritos, mas até aos lugares onde os nossos primeiros pais na fé se reuniam para o culto divino, em tempos de perigo e perseguição. Nesses lugares, estão conservados memoriais extraordinários, que dão testemunho de sua fé em Tão Sublime Sacramento.

Dentro das catacumbas de Roma

Fora dos muros da cidade de Roma, existe uma cidade subterrânea onde foram sepultados os cristãos dos primeiros séculos da Era Cristã. Antigamente, esses lugares eram chamados simplesmente de "cemitérios" ou "dormitórios", mas, nos tempos modernos, eles são designados pelo nome de "catacumbas". Sob esse título, são entendidos todos os lugares sagrados onde, em tempos de perseguição, os primeiros cristãos enterravam os seus mortos.

As catacumbas consistem em longos labirintos, divididos por passagens, que variam em altura e largura de acordo com a natureza do solo em que foram escavadas. Nelas, existem câmaras, de todos os tipos e tamanhos, ornadas com afrescos. As passagens se encontram próximas umas às outras, em distâncias que variam de três a dez quilômetros dos muros da antiga Roma, ao longo das rodovias. Calcula-se que, unidos, o comprimento desses corredores subterrâneos exceda 560 quilômetros de extensão. Contam-se cerca de 43 catacumbas, 26 maiores e 17 de menor tamanho, de acordo com a extensão dos leitos de tufo calcário, uma rocha vulcânica macia na qual elas foram escavadas pelos cristãos. Tendo em mente que o corpo do Senhor foi deixado em um sepulcro novo escavado na rocha, eles estavam ansiosos por proverem para os seus entes queridos uma tumba parecida, a fim de que também na morte eles seguissem a imitação de Cristo.

Esse modelo de sepultamento era praticado pelos judeus em Roma no primeiro século e algumas famílias romanas antigas ainda mantinham a prática de seus ancestrais etruscos, recusando-se a soterrar os seus mortos. Mas uma característica completamente nova é encontrada nos cemitérios cristãos: a caridade cristã impulsionava muitos da nobreza patrícia que tinham abraçado a fé a enterrar em seus cemitérios privados também os seus irmãos mais humildes, de modo que, já no terceiro século da Era Cristã, cada uma das igrejas paroquiais de Roma tinha o seu próprio cemitério do lado de fora dos muros. Até meados do mesmo século, os cemitérios cristãos continuarão sob a proteção da lei romana, que resguardava todos os túmulos como sagrados e invioláveis.

A história deixou-nos os nomes de muitas nobres mulheres, como Domitila, Lucina, Priscila e Ciríaca, que fizeram as suas propriedades de cemitérios e receberam em suas próprias casas as urnas com os corpos dos Santos Mártires. São Sebastião, São Lourenço, São Nereu e Santo Aquiles são exemplos dos nomes de algumas das catacumbas em que seus respectivos corpos foram sepultados.

O trabalho de escavar esses corredores dos mortos – com os túmulos e as capelas mortuárias que eles continham – foi confiado à confraria dos fossores (escavadores, em latim). Esses homens devotos, que pertenciam em sua maior parte às classes operárias, podiam ser comparados ao venerável Tobias, que escondia os mortos de dia para dar-lhes uma sepultura à noite (cf. Tb 1, 18; 2, 7). O ofício deles, além de extremamente árduo, era cheio de perigos. Com que coragem eles não penetravam nos canais da terra e, com a luz opaca de suas lamparinas, talhavam aqueles corredores na tufa sólida! Nas paredes das passagens, os túmulos eram escavados um em cima do outro, em número de seis ou mais, de acordo com a altura da passagem. Quando um corredor ficava cheio de defuntos, ele era aprofundado e dava espaço para mais corpos. Se isso não pudesse ser feito com segurança, um novo conjunto de passagens era escavado embaixo do primeiro e, dessa forma, os corredores iam sendo formados um sobre o outro, com vários cruzamentos em diferentes direções.

Nos túmulos, eram enterrados um e às vezes dois corpos. Os cristãos não poupavam esforços para tirar as relíquias dos mártires das mãos de seus executores. Muitos chegavam a tomá-los dos magistrados e levá-los para longe da vista dos guardas, às catacumbas, onde eles finalmente banhavam, embalsamavam e davam a eles uma sepultura. O túmulo era cuidadosamente fechado com ladrilhos ou uma laje de mármore e revestido com uma inscrição rudimentar do ano, da idade e do dia do enterro, acompanhada de algumas breves palavras de consolo, como: In pace, Vivas in Deo, Vivas in aeternum. A família e a posição social dos falecidos são raramente mencionadas. O importante mesmo era ser concidadão dos santos e pertencer à família de Deus (cf. Ef 2, 19).

Além desses túmulos nas paredes dos corredores, os fossores escavaram valas separadas para algumas famílias cristãs particulares. Para esse propósito, eram abertas câmaras espaçosas e abobadadas, com tetos ricamente adornados, como se pode ver nas Catacumbas de São Calisto.

Em muitos desses cubículos ficava reservado um lugar especial, sobre o terreno plano, para um caixão de pedra ou uma tampa de mármore. Aí, um, dois ou até mais corpos dos Santos Mártires eram colocados e a parte de cima do caixão era usada como altar. Esse tipo de memorial dos mortos era chamado de arcosolium e as câmaras em que eles se encontravam eram às vezes usadas como capelas. Alguns compartimentos tinham uma abertura para a superfície de cima, permitindo a passagem de luz e de ar, e eram chamados de cubicula clara.

A fé dos primeiros cristãos no sacramento da Eucaristia

Afresco na cripta de Santa Lucina. Especialistas avaliam que a arte seja do século II.

Como já se disse, as terríveis calúnias contra os cristãos – aliadas às blasfêmias com que os gnósticos parodiavam os ritos sagrados –, fizeram os fiéis guardar com a mais estrita discrição tudo o que dizia respeito ao Augustíssimo Sacramento do Altar. Durante os anos de perseguição, a própria Divina Liturgia parecia ser transmitida mais por memória do que por escrito. Com exceção das explanações de Tertuliano e de São Justino Mártir, em suas Apologias, não era permitido ao mundo profano nenhum acesso aos "Sagrados Mistérios". Teria sido, na verdade, totalmente espúrio ao espírito do cristianismo primitivo que eles representassem em pinturas ou esculturas uma ação tão sagrada quanto a do Santo Sacrifício da Missa.

Por isso, não é difícil que os protestantes façam a sua própria ideia da ausência dessas imagens nos afrescos das catacumbas, argumentando que, por não se verem representações de padres paramentados, altares com luzes e incenso, essas cerimônias eram desconhecidas dos cristãos primitivos. Uma explicação desse tipo, no entanto, só satisfaz quem quer ficar satisfeito com ela. Qualquer pesquisador sério procurará descobrir o significado das figuras encontradas nas paredes das capelas subterrâneas, interpretando-as à luz, não da imaginação agitada dos polemistas, mas das expressões comumente usadas pelos escritores cristãos do mesmo período.

Em uma das câmaras da cripta de Santa Lucina, próxima à tumba de São Cornélio, por exemplo, é possível ver um peixe, pintado mais de duas vezes, que traz em seu dorso uma cesta cheia de pães, através da qual é possível ver, em uma passagem aberta na cesta, um cálice pintado de vermelho, como se contivesse um líquido dessa cor. Os especialistas avaliam que a câmara e os seus afrescos sejam do século II.

A pergunta é: o que o artista queria dizer com essa estranha combinação? Os mais imaginativos podem sugerir inúmeras interpretações, mas o mais apropriado é procurar a explicação entre os autores cristãos dessa época.

Santo Abércio de Hierápolis, que foi bispo na Frígia até o fim do século II, descreve em seu epitáfio as suas viagens pela Síria e a Roma, e conclui:

"Por toda parte a fé me levou adiante, e me proveu como alimento um Peixe, grande e perfeito, que uma virgem santa pescou com suas mãos de uma fonte e sempre dá aos seus amigos para comer, acompanhado de um vinho misturado com água, e servindo-o juntamente com pão. (...) Aquele que for capaz de entender essas coisas, reze por Abércio."

Aqui constam, evidentemente, os mesmos símbolos – o peixe, o pão e o vinho. Está bem claro o significado do peixe, mas qualquer ambiguidade é removida por Tertuliano, que, por volta do ano 200, escreveu que "nós, pequenos peixes, segundo nosso Peixe (ΙΧΘΥΝ) Jesus Cristo, de nenhum outro modo somos salvos senão permanecendo na água, da qual nascemos" [2].

Jesus Cristo é, portanto, o grande peixe, sempre servido em "vinho misturado com água" e "juntamente com pão". Esses símbolos aparentemente estranhos são, na verdade, a expressão pictórica dos primeiros cristãos para expressar a sua fé na presença real de Jesus na Eucaristia. Também para eles, assim como para nós, sempre foi certo que – como ensina o Concílio de Trento –, "no sublime sacramento da santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está contido verdadeira, real e substancialmente sob a aparência das coisas sensíveis" [3].

São Justino Mártir expressa a mesma verdade quando escreve que:

"Depois da ação de graças do presidente e da resposta do povo, os diáconos, como se chamam entre nós, distribuem o pão e o vinho entre os que pronunciaram a ação de graças e não os tomamos como alimento e bebida comuns; do mesmo modo como nos foi ensinado que, pela palavra de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor se encarnou, assim também estes alimentos, para os que tenham pronunciado as palavras de petição e ação de graças, são a verdadeira carne e sangue daquele Jesus que se fez homem e que entra na nossa carne quando o recebemos." [4]

Não se sabe ao certo quando e como o peixe se tornou o símbolo universalmente reconhecido por Cristo, mas é digno de nota que, na passagem há pouco citada de Tertuliano, o escritor latino usa a palavra grega para peixe (ΙΧΘΥΣ), sublinhando que essa expressão é composta das letras iniciais para as palavras Jesus, Cristo, Deus, Filho e Salvador. O peixe, portanto, sugeria aos cristãos um compêndio da sua fé, enquanto permanecia completamente ininteligível para os de fora. Os oficiais pagãos, que inspecionavam as catacumbas que estavam sob a lei romana, não viam nada de ofensivo em um símbolo tão inócuo. Mas a sua multiplicação das mais variadas formas mostra quão precioso ele era para os cristãos.

Alguém poderia nos acusar de estarmos tentando conectar o símbolo do peixe com a doutrina da transubstanciação. Defendemo-nos dizendo que... é isso mesmo. Embora a terminologia que hoje usamos para falar da Eucaristia só tenha surgido séculos mais tarde, está provado, por abundantes testemunhos, que, quando o peixe e o pão eram representados juntos nos antigos monumentos cristãos, estava sempre implícita uma referência à Sagrada Eucaristia, da qual o pão denota a realidade aparente e visível, enquanto o peixe mostra a realidade invisível e escondida, que é "a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que padeceu por nossos pecados e que o Pai, em Sua bondade, ressuscitou" [5].

"Por isso – cabe perguntar, com São Cirilo de Jerusalém –, quando Ele mesmo pronunciou as palavras, dizendo do pão: 'Isto é o meu corpo', quem ousará ainda duvidar? Quando Ele mesmo asseverou e disse: 'Este é o meu sangue', quem poderá ainda pôr em dúvida que esse é o Seu sangue?" Ainda que o gosto sensível do que comungamos seja de pão, a hóstia consagrada não é pão, mas o Corpo de Cristo; ainda que se perceba o gosto de vinho, o que se bebe do cálice sagrado não é vinho, mas o sangue de Cristo. Mesmo hoje essas palavras podem parecer muito duras aos ouvidos dos mais céticos (cf. Jo 6, 60). Isso, todavia, não pode minimizar a grandeza do "mistério da fé": "Minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida" (Jo 6, 55). Negar a presença real de Jesus na Eucaristia é negar o próprio Evangelho.

Com informações da obra "Legends of the Blessed Sacrament".

Referências

  1. Tácito, Anais, XV, 44.
  2. Tertuliano, De Baptismo, I (PL 1, 1198-1199).
  3. Concílio de Trento, Decreto sobre o sacramento da Eucaristia (XIII) (11 de outubro de 1551), 1: DH 1636.
  4. São Justino Mártir, Apologias, I, 65-66 (PG 6, 427-430).
  5. Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Esmirnenses, 7 (PG 5, 713-714).
  6. São Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas, IV (PG 33, 1097-1106).

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Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?
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Por que
coube a São Tomé
evangelizar o Brasil?

Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?

“Os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar” aos outros povos; “mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura”.

Pe. António Vieira3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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A forma com que Cristo mandou pelo mundo a Seus Discípulos, diz o Evangelista São Marcos que foi esta: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, quia iis, qui viderant eum resurrexisse, non crediderunt, et dixit illis: Euntes in mundum universum, praedicate Evangelium omni creaturae (Mc 16, 14s). Repreendeu Cristo aos Discípulos da incredulidade e dureza de coração, com que não tinham dado crédito aos que O viram ressuscitado, e sobre esta repreensão os mandou que fossem pregar por todo o mundo. A São Pedro coube-lhe Roma e Itália; a São João, a Ásia Menor; a São Tiago, Espanha; a São Mateus, Etiópia; a São Simão, Mesopotâmia; a São Judas Tadeu, o Egito; aos outros, outras províncias, e finalmente a Santo Tomé esta parte da América em que estamos, a que vulgar e indignamente chamaram Brasil. Agora pergunto eu: e por que nesta repartição coube o Brasil a Santo Tomé e não a outro Apóstolo? Ouvi a razão.

Notam alguns Autores modernos que notificou Cristo aos Apóstolos a pregação da Fé pelo mundo, depois de os repreender da culpa da incredulidade, para que os trabalhos que haviam de padecer na pregação da Fé fossem também em satisfação e como em penitência da mesma incredulidade e dureza de coração que tiveram em não quererem crer: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, et dixit illis: Euntes in mundum universum. E como Santo Tomé, entre todos os Apóstolos, foi o mais culpado da incredulidade, por isso a Santo Tomé lhe coube, na repartição do mundo, a missão do Brasil, porque, onde fora maior a culpa, era justo que fosse mais pesada a penitência. Como se dissera o Senhor: os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar aos Gregos, vão pregar aos Romanos, vão pregar aos Etíopes, aos Árabes, aos Armênios, aos Sármatas, aos Citas; mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura.

Bem o mostrou o efeito. Quando os Portugueses descobriram o Brasil, acharam as pegadas de Santo Tomé estampadas em uma pedra, que hoje se vê nas praias da Bahia; mas rasto, nem memória da Fé que pregou Santo Tomé, nenhum acharam nos homens. Não se podia melhor provar e encarecer a barbaria da gente. Nas pedras, acharam-se rastos do Pregador, na gente não se achou rasto da pregação; as pedras conservaram memórias do Apóstolo, os corações não conservaram memória da doutrina.

A causa por que as não conservaram, diremos logo, mas é necessário satisfazer primeiro a uma grande dúvida, que contra o que imos dizendo se oferece. Não há Gentios no mundo que menos repugnem à doutrina da Fé, e mais facilmente a aceitem e recebam, que os Brasis; como dizemos logo, que foi pena da incredulidade de Santo Tomé o vir pregar a esta gente? Assim foi (e quando menos assim pode ser) e não porque os Brasis não creiam com muita facilidade, mas porque essa mesma facilidade com que crêem faz que o seu crer, em certo modo, seja como o não crer. Outros Gentios são incrédulos até crer; os Brasis, ainda depois de crer, são incrédulos. Em outros Gentios a incredulidade é incredulidade, e a Fé é Fé; nos Brasis a mesma Fé ou é, ou parece incredulidade. 

“A Incredulidade de São Tomé”, de Mattia Preti.

São os Brasis como o pai daquele Lunático do Evangelho, que padecia na Fé os mesmos acidentes que o filho no juízo. Disse-lhe Cristo: Omnia possibilia sunt credenti (Mc 9, 22): “Que tudo é possível a quem crê”. E eles respondeu: Credo, Domine, adjuva incredulitatem meam: “Creio, Senhor, ajudai minha incredulidade”. Reparam muito os santos nos termos desta proposição, e verdadeiramente é muito para reparar. Quem diz: creio, crê e tem Fé; quem diz: ajudai minha incredulidade, não crê e não tem Fé. Pois como era isto? Cria este homem, e não cria; tinha Fé, e não tinha Fé juntamente? Sim, diz o Venerável Beda: Uno eodemque tempore is, qui nondum perfecte crediderat, simul et credebat, et incredulus erat: “No mesmo tempo cria e não cria este homem, porque era tão imperfeita a Fé com que cria, que por uma parte parecia e era Fé, e por outra parecia e era incredulidade”: Uno eodemque tempore, et credebat, et incredulus erat. Tal é a Fé dos Brasis: é fé que parece incredulidade, e é incredulidade que parece Fé; é Fé, porque crêem sem dúvida e confessam sem repugnância tudo o que lhes ensinam, e parece incredulidade, porque, com a mesma facilidade com que aprenderam, desaprendem, e com a mesma facilidade, com que creram, descrêem.

Assim lhe aconteceu a Santo Tomé com ele. Por que vos parece que passou Santo Tomé tão brevemente pelo Brasil, sendo uma região tão dilatada e umas terras tão vastas? É que receberam os naturais a Fé que o Santo lhes pregou com tanta facilidade e tão sem resistência nem impedimento, que não foi necessário gastar mais tempo com ele. Mas tanto que o Santo Apóstolo pôs os pés no mar (que este, dizem, foi o caminho por onde passou à Índia) tanto que o Santo Apóstolo (digamo-lo assim) virou as costas, no mesmo ponto se esqueceram os Brasis de tudo quanto lhes tinha ensinado, e começaram a descrer ou a não fazer caso de quanto tinham crido, que é gênero de incredulidade mais irracional, que se nunca creram. Pelo contrário, na Índia pregou Santo Tomé àquelas Gentilidades, como fizera às do Brasil: chegaram também lá os Portugueses dali a mil e quinhentos anos, e que acharam? Não só acharam a sepultura e as relíquias do Santo Apóstolo, e os instrumentos de seu martírio, mas o seu nome vivo na memória dos naturais, e o que é mais, a Fé de Cristo, que lhes pregara, chamando-se cristãos de Santo Tomé todos os que se estendem pela grande Costa de Coromandel, onde o Santo está sepultado.

E qual seria a razão por que nas Gentilidades da Índia se conservou a Fé de Santo Tomé, e nas do Brasil não? Se as do Brasil ficaram desassistidas do Santo Apóstolo pela sua ausência, as da Índia também ficaram desassistidas dele pela sua morte. Pois, se naquelas nações se conservou a Fé por tantos centos de anos, nestas por que se não conservou? Porque esta é a diferença que há de umas nações a outras. Nas da Índia, muitas são capazes de conservarem a Fé sem assistência dos Pregadores; mas nas do Brasil nenhuma há que tenha esta capacidade. Esta é uma das maiores dificuldades que tem aqui a conversão. Há-se de estar sempre ensinando o que já está aprendido, e há-se de estar sempre plantando o que já está nascido, sob pena de se perder o trabalho e mais o fruto

A Estrela que apareceu no Oriente aos Magos guiou-os até o presépio, e não apareceu mais. Por quê? Porque muitos Gentios do Oriente, e doutras partes do mundo, são capazes de que os pregadores, depois de lhes mostrarem a Cristo, se apartem dele e os deixem. Assim o fez São Filipe ao Eunuco da rainha Candace, de Etiópia: explicou-lhe a Escritura de Isaías, deu-lhe notícia da Fé e divindade de Cristo, batizou-o no rio de Gaza, por onde passavam, e tanto que esteve batizado, diz o texto que arrebatou um anjo a São Filipe, e que o não viu mais o Eunuco: Cum autem ascendissent de aqua, Spiritus Domini rapuit Philippum, et amplius non vidit eum eunuchus (At 8, 39). Desapareceu a Estrela, e permaneceu a Fé nos Magos; desapareceu São Filipe, e permaneceu a Fé no Eunuco; mas esta capacidade, que se acha nos Gentios do Oriente, e ainda nos de Etiópia, não se acha nos do Brasil. A Estrela que os alumiar não há de desaparecer, sob pena de se apagar a luz da doutrina; o Apóstolo que os batizar, não se há de ausentar, sob pena de se perder o fruto do Batismo. É necessário, nesta vinha, que esteja sempre a cana da doutrina arrimada ao pé da cepa, e atada à vide, para que se logre o fruto e o trabalho [...].

Estátua do Pe. Vieira em Lisboa, a mesma que foi alvo recente de vândalos “antifascistas”.

Hão-se de haver os Pregadores Evangélicos na formação desta parte do mundo, como Deus se houve ou se há na criação e conservação de todo. Criou Deus todas as criaturas no princípio do mundo em seis dias, e, depois de as criar, que fez e que faz até hoje? Cristo o disse: Pater meus usque modo operatur et ego operor (Jo 5, 17). Desde o princípio do mundo até hoje não levantou Deus mão da obra, nem por um só instante; e com a mesma ação com que criou o mundo, o esteve sempre, e está, e estará conservando até o fim deles. E se Deus o não fizer assim, se desistir, se abrir mão da obra por um só momento, no mesmo momento perecerá o mundo, e se perderá tudo o que em tantos anos se tem obrado. 

Tal é no espiritual a condição desta nova parte do mundo, e tal o empenho dos que têm à sua conta a conversão e reformação dela. Para criar, basta que trabalhem poucos dias; mas para conservar, é necessário que assistam, e continuem, e trabalhem, não só muitos dias e muitos anos, mas sempre. E já pode ser que esse fosse o mistério com que Cristo disse aos Apóstolos: Praedicate omni creaturae (Mc 16, 15). Não disse: “Ide pregar aos que remi”, senão: “Ide pregar aos que criei”, porque o remir foi obra de um dia, o criar é obra de todos os dias. Cristo remiu uma só vez, e não está sempre remindo; Deus criou uma vez, e está sempre criando. 

Assim se há de fazer nestas nações: há-se lhes de aplicar o preço da Redenção, mas não pelo modo com que foram remidas, senão pelo modo com que foram criadas. Assim como Deus está sempre criando o criado, assim os Mestres e Pregadores hão de estar sempre ensinando o ensinado, e convertendo o convertido, e fazendo o feito: o feito para que se não desfaça; o convertido, para que se não perverta; o ensinado, para que se não esqueça; e, finalmente, ajudando a incredulidade não incrédula, para que a Fé seja Fé não infiel: Credo, Domine: adjuva incredulitatem meam (Mc 9, 23).

Referências

  • Cf. Pe. Antônio Vieira, Sermão do Espírito Santo, pregado em São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, § III. In: Obra Completa. Dir. por João E. Franco e Pedro Calafate. São Paulo: Loyola, 2015, vol. 5/I, pp. 249-254. Excerto adaptado aqui e ali para esta publicação.

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São Tomé, Apóstolo do Brasil e das Américas
Santos & Mártires

São Tomé, Apóstolo
do Brasil e das Américas

São Tomé, Apóstolo do Brasil e das Américas

Alguns relatos históricos e numerosos indícios materiais, quase desconhecidos do grande público, atestam a passagem do Apóstolo São Tomé, no início de nossa era, entre os índios brasileiros e de norte a sul do continente.

Carlos Sodré Lanna3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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“Ide e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Esse o preceito de Nosso Senhor Jesus Cristo aos Apóstolos, que assumiram a missão de percorrer o mundo pregando o Evangelho a todos os povos.

Admite-se, como hipótese muito provável, que São Tomé teria pregado aos índios do Ocidente, logo no início da era cristã.

Isto explicaria as cruzes encontradas com diversos grupos indígenas em toda a América, e certas pegadas gravadas nas pedras em vários lugares do Brasil e outros países, além de tradições orais nesse sentido, existentes entre os indígenas.

Presume-se — dizem alguns cronistas — que São Tomé teria vindo primeiramente para o continente americano, passando pela Ásia. Outros discordam, afirmando haver passado antes pelo Oriente.

“A Incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio.

O certo é que esse Apóstolo pregou sempre os Evangelhos em terras longínquas, desconhecidas e inóspitas, tendo atingido a Etiópia, a antiga Pérsia (hoje Irã), indo depois para a Índia, o Tibet e chegando à China.

Em todos os lugares por onde pregou a Fé cristã, realizou sempre milagres extraordinários, deixando sinais que perduram até nossos dias.

Percorrendo São Tomé grande parte do mundo conhecido de então, criou-se em torno dele uma legenda universal. Por todas as partes onde esteve, mas principalmente nas Américas, e em particular no Brasil, foi deixando gravadas, em certas pedras do caminho, as impressões de seus pés como testemunhas de seu trânsito por esses lugares, além de cruzes.

As pegadas de São Tomé no Brasil. — Em nosso país, a legenda e vestígios de São Tomé encontram-se espalhados por muitos lugares.

Com base em informações dadas pelos índios à época do Descobrimento, os portugueses recém-chegados constataram a existência das impressões dos pés de São Tomé no litoral e mesmo no interior.

“A Nova Gazeta da Terra do Brasil” publicava, em 1514, tradições orais dos índios brasileiros quanto à existência no país das pegadas de São Tomé, bem como recordações que conservavam dele.

Ao mostrarem tais pegadas aos portugueses, os índios indicavam também cruzes existentes terra adentro. E quando falavam do Apóstolo, chamavam-no de deus pequeno, pois havia outro Deus maior.

É tradição antiga entre os índios que aquele Apóstolo, a quem chamavam Sumé, veio ao Brasil e lhes forneceu a planta da mandioca e da banana, ajudando-os a cultivar a terra. Pregou o bem àqueles indígenas, ensinando-os a adorar e servir a Deus e não ao demônio, a não terem mais de uma mulher e não comerem carne humana.

Outra informação histórica da existência das pegadas no Brasil foi-nos transmitida pelo padre Manoel da Nóbrega — dos primeiros missionários jesuítas vindos de Portugal após o Descobrimento ˆ em suas “Cartas do Brasil”.

Poucos dias após sua chegada aqui, em março de 1549, escrevia: “Também me contou pessoa fidedigna que as raízes de que cá se faz pão, que São Tomé as deu, porque cá não tinham pão”. E, em data posterior, acrescenta: 

Dizem os índios que São Tomé passou por aqui e isto lhes foi dito por seus antepassados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio, as quais eu fui ver, por mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pisadas sinaladas com seus dedos. Dizem que quando deixou estas pisadas ia fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abrira o rio e passara por meio dele a outra parte sem se molhar. Contam que, quando queriam o flechar os índios, as flechas se tornavam para eles e os matos lhe faziam caminho para onde passasse.

Constata-se nesse relato do padre Manoel da Nóbrega a intenção missionária de São Tomé, espalhando por estas plagas brasílicas a palavra de Deus, e deixando visíveis as marcas de sua passagem em vários lugares conhecidos.

Desde o Rio Grande do Sul, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Ceará e Maranhão, encontramos pegadas atribuídas a São Tomé, que, pela tradição dos índios, vêm de remotas eras, anteriores ao Descobrimento, em 1500.

Além destas, e das cruzes mostradas pelos índios, há várias outras marcas e fatos pitorescos ocorridos em nosso território.

Perto da cidade de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, existe um grande penedo que parece ter levado várias bordoadas. Estas estão impressas na pedra como se o bordão tivesse golpeado com força em cera branda. E é tradição dos índios terem sido as bordoadas impressas pelo bordão de São Tomé, numa ocasião em que eles haviam resistido à doutrina pregada pelo Apóstolo.

Na Bahia, em São Tomé do Peripé, há uma fonte perene de água doce, que brota de um penedo junto a certas pegadas. É tradição que por ali desceu São Tomé. A esta fonte o povo deu o nome de São Tomé milagroso, porque a água nasce de pedra viva.

Pegadas e cruzes nas Américas. — Em diversos países americanos podemos encontrar marcas atribuídas a São Tomé, segundo tradições antigas dos silvícolas.

Elas estão espalhadas por todos os países da América do Sul.

Há ainda sinais análogos em Cuba e no Haiti. A eles se referiram os antigos maias na América Central, o mesmo acontecendo no México, Estados Unidos e Canadá.

Como no Brasil, também em outras nações aparecem cruzes: no Peru, os incas possuíam uma de mármore muito famosa, que, segundo a tradição de seus antepassados, lhes fora presenteada por São Tomé. Em Carabuco, porto costeiro do lado norte do lago Titicaca (Bolívia), havia uma cruz que os indígenas da região, de acordo com tradição muito antiga, asseguravam ter sido deixada por São Tomé a seus ancestrais. Venera-se hoje, na cúpula do altar-mor da catedral de Sucre, uma cruz confeccionada com a madeira negra da aludida cruz de São Tomé.

Fernão Cortez, quando chegou ao México, achou um muro de pedra quadrada, e no meio uma cruz de dez palmos de altura, venerada pelos aztecas, implantada pelo Apóstolo.

Também no Canadá os índios da parte oriental do país conheciam a cruz cristã, quando lá chegaram os primeiros desbravadores.

O padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário no Paraguai, conta um episódio interessante em seu livro, escrito em 1639, quando de sua chegada a uma aldeia indígena daquele país, ostentando uma cruz.

Foi recebido com demonstração de amor, danças e júbilo. As mulheres foram recebê-lo com as crianças ao colo; os habitantes lhe ofereciam comida, coisa que nunca antes havia ocorrido. Os índios contaram-lhe então uma tradição antiquíssima recebida dos antepassados. Quando São Tomé, que chamavam de Pai Zumé, fez sua passagem por aquelas terras, dissera-lhes estas palavras: “A doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo. Mas, quando depois de muito tempo, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes esta mesma doutrina que vos ensino”.

Foi essa tradição que os levou a dar ao missionário tão boa acolhida. Ali foi fundada uma povoação, início de muitas outras.

De volta dessa longa peregrinação pelo mundo, São Tomé, segundo a tradição, foi martirizado em Meleapor, na Índia, transpassado por uma lança. Dois séculos mais tarde, o imperador romano Alexandre Severo mandou buscar o corpo do Apóstolo, ordenando seu sepultamento em Edessa, hoje Urfa, na Turquia asiática.

A legenda de São Tomé desabrochou para os índios com a chegada dos novos missionários trazidos pelos descobrimentos dos séculos XV–XVI.

Tais missionários acabariam por se constituir nos verdadeiros herdeiros do ancestral mítico, enviado por Deus a nosso continente como primeiro propagador da Fé.

Hoje uma verdadeira campanha, bem orquestrada, procura denegrir a ação desses missionários.

Que São Tomé esmague uma vez mais as argúcias satânicas nestas plagas que ele tanto quis converter para Nosso Senhor Jesus Cristo por meio de Maria, Medianeira de todas as graças.

Referências

  • Pe. Antônio Ruiz de Montoya, Conquista Espiritual feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas Províncias do Paraguai, Paraná, Uruguai e Tape, Martins Livreiro Editora Ltda, 1.ª edição. Porto Alegre, 1985.
  • Maxime Haubert, Índios e Jesuitas no tempo das Missões, Editora Schwarcz Ltda, 1.ª edição. São Paulo, 1990.
  • Francisco Adolfo de Varnhagen, História do Brasil. Edições Melhoramentos, 5.ª edição. São Paulo. 1956.
  • Alberto Silva, A cidade de Salvador: Aspectos seculares, Prefeitura Municipal, Salvador. 1957.
  • Fray Diego de Ocaña. Un viaje fascinante por la America Hispana del siglo XVI, Studium Ediciones, Madri, 1969.

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A cura para a “masculinidade tóxica”
Sociedade

A cura para a “masculinidade tóxica”

A cura para a “masculinidade tóxica”

Para a maior parte das feministas, o problema da chamada “masculinidade tóxica” é o patriarcado: seria preciso abolir desde a noção de família natural até as próprias diferenças sexuais. Mas o cristianismo tem uma resposta diferente a oferecer.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Durante muito tempo, e em boa parte das civilizações, a masculinidade esteve associada a virtudes como coragem, resiliência, disciplina etc., coisas que seriam necessárias para um menino tornar-se “homem de verdade”. Por isso, várias dessas civilizações possuíam códigos de honra e rituais de passagem, que os rapazes mais jovens do grupo precisavam cumprir para ganhar o respeito não só do líder da tribo, mas também das mulheres.

De modo geral, a vocação masculina costumava ser resumida em três palavras-chave:  “procriar”, “prover” e “proteger”. Com o passar do tempo, no entanto, esse código passou por mudanças e agora, entre tantas discussões sociais, políticas e sexuais, encontra-se no centro do debate. Se, em outras épocas, alguém poderia afirmar tranquilamente que “a masculinidade faz do mundo um lugar mais seguro”, como fez o ator Juliano Cazarré, em seu Instagram, hoje isso pode causar não só escândalo como uma enxurrada de críticas ao patriarcalismo ou, como quer a novilíngua, à “masculinidade tóxica”.

Em outro comentário, Cazarré teve de explicar que, calma lá, “masculinidade não é equivalente a machismo, a feminicídio, a patriarcalismo” etc., mas “significa agir com coragem mesmo quando se tem medo”, “ajudar quem precisa”, “valorizar as virtudes cardeais” e “fazer algo em vez de ficar parado reclamando da vida”. O óbvio, porém, não é mais tão óbvio assim, sobretudo quando a linha entre masculinidade e machismo tornou-se, aparentemente, tão tênue.

A origem da barbárie. — O censo mais recente sobre feminicídio no Brasil revelou que, durante a pandemia, os casos cresceram 22% em 12 estados. Também, nos últimos anos, aumentou o número de mães solteiras. Além desses dados, outros números são igualmente preocupantes: homens são as principais vítimas de homicídio e a maior população carcerária do Brasil. Geralmente, eles têm uma expectativa de vida inferior à das mulheres, sendo mais propensos que elas à dependência química e a cometer suicídios. Para completar, são cada vez mais comuns rapazes com problemas de disfunção erétil e ejaculação precoce.

Na origem dessa barbárie, vários estudiosos acusam o “machismo estrutural” de reforçar entre os homens a ideia de que eles “podem tudo”, que é da natureza deles a “brutalidade” e que, por isso, eles têm o direito de usar as mulheres e depois largá-las; podem dominá-las, tratando-as como uma propriedade ou, em situações extremas, matando-as. E esse machismo teria representatividade justamente em lugares como a família, a Igreja, a política e a arte, que, segundo eles, defendem uma ideia de homem “agressivo”, “dominador”, “predador”, entre outros estereótipos.

“Você pode ser masculino sem ser tóxico, ‘mano’”. Palavras de ordem comuns em manifestações feministas nos EUA.

De fato, a chamada cultura pop está repleta de ícones masculinos baseados na ideia do “predador sexual”, que se deita com quantas mulheres quiser, apenas por supostamente ser forte, viril e derrotar os inimigos da história. Que sejam esses, inclusive, os protagonistas dos filmes mais vistos das plataformas de streaming não é mero acaso: “Exalta-se entre os homens a baixeza” (Sl 11, 8). Ao fim e ao cabo, trata-se de mais do mesmo na indústria cinematográfica: sexo, sexo e sexo.

É fácil perceber a relação entre essas representações masculinas e o comportamento machista de muitos homens, considerando que a pornografia é a teoria e o estupro, a prática. Produções desse gênero, longe de falar da complementaridade e respeito entre sexos, só o que fazem é exibir o domínio de um sobre o outro. Seja como for, não há dúvida de que a exposição constante a cenas de sexo, explícitas ou não, provoca uma séria alteração no cérebro masculino. E se os homens são, em sua maioria, consumidores frenéticos dessa droga, a consequência inevitável é que tais comportamentos se reproduzam na vida real, em maior ou menor medida. Prova disso são os escândalos de abuso que assolaram Hollywood nos últimos anos e fizeram a Academia revisar boa parte de sua política.

Quanto à acusação que se faz aqui e ali à Igreja, no entanto, é difícil acreditar que homens se masturbando dentro de transportes públicos (notícia que tem se tornado, infelizmente, muito comum), tenham se sentido autorizados a fazê-lo depois de uma homilia dominical. Na verdade, há quem considere o cristianismo uma religião mais feminina que masculina. Mas o fato de a Igreja ser comandada hierarquicamente apenas por homens e ter, em sua pregação, um discurso sobre papéis institucionais e diferença entre os sexos seria o suficiente para sustentar um “machismo estrutural” e “simbólico”. Ao menos, é o que pensam muitas feministas.

Os remédios para o machismo. — A discussão torna-se, a partir daqui, mais melindrosa e fora do senso comum. Para grande parte das feministas, a reação adequada à “masculinidade tóxica” seria abolir toda e qualquer mentalidade considerada patriarcal, desde a noção de família à convicção de que existe uma natureza humana que faz os homens serem biologicamente diferentes de mulheres. O esforço, portanto, deveria ser o de construir socialmente novos “papéis de gênero”, enfraquecendo os códigos de masculinidade que falam em “procriar”, “prover” e “proteger”. Uma tendência disso pode ser vista no vestuário ou no cinema, com roupas masculinas cada vez mais emasculadas e filmes cujos protagonistas homens têm personalidades bem suaves e frágeis — quando não imbecis.

É uma guerra cultural. As feministas mais radicais acreditam que, entre o homem que usa a força para “prover” e “proteger” sua família e o que a utiliza para abusar de mulheres, parece, em tese, não haver diferença alguma, senão de grau: enquanto o último representaria o estágio mais avançado do troglodita, o primeiro esconderia seu machismo sob a fachada de “pai de família”. A violência de um é física: ele oprime com o punho; a do outro é institucional: ele oprime com o olhar. Assim, a única solução para a masculinidade seria transformá-la ao ponto de não restar sombra do tal “macho alfa”. Em outras palavras, é a abolição da testosterona.

Acontece que uma coisa é a ideologia e outra, a realidade: homens menos viris não são necessariamente menos opressores. Ao contrário, eles podem ser bem mais onerosos sobre suas famílias, sobre seus filhos e sobre a sociedade, quando não têm desafios para enfrentar, quando não decidem assumir responsabilidades e empregar as próprias habilidades para promover o bem e formar o caráter. No fundo, grande parte da violência masculina, hoje em dia, se deve ao vazio que os homens sentem, por não saberem mais que papel desempenhar na sociedade, o que lhes causa enorme ansiedade e frustração. Os homens não querem mais ser homens.

Homens censurando uma mulher, J. K. Rowling, por ela afirmar o óbvio — sim, mulheres menstruam — sem considerar o disparate — “há muitos homens transsexuais que menstruam, e muitas mulheres trans que não” — é a quintessência do machismo. Porque se, antes, era considerado abuso que os homens quisessem “proteger” e “prover” suas esposas, que se dirá agora de homens que forçam juridicamente, e com apoio da mídia mainstream, mulheres a relativizar algo tão íntimo como o ciclo menstrual, para se adequarem a novos “papéis de gênero”? É a intromissão total sobre o corpo da mulher, a imposição arbitrária da imaginação sobre a realidade, imposição dos fetiches sexuais sobre a natureza biológica. Enquanto muitas feministas se preocupam com os Rosários dos católicos contra o aborto, é a ideologia de gênero que lhes arranca o útero e a garganta.

Nesse contexto, cresce ainda o fenômeno chamado MGTOW (sigla para Men Going Their Own Way; em português: “Homens seguindo o seu próprio caminho”), que reúne homens que preferem não criar nenhum vínculo com mulheres, a fim de conservar seus negócios, patrimônios e independência. Eles podem até manter relações sexuais com elas, mas jamais as assumirão como namoradas ou esposas.

Curados pelo amor. — No fim das contas, em toda essa balbúrdia, para a qual parece não haver solução, há no entanto quem ainda acredite no amor dos homens: “Toda mulher quer amar e ser amada por homens em sua vida. Seja gay ou hétero, bissexual ou celibatária, ela deseja sentir o amor de seu pai, avô, tio, irmão ou amigo” [1]. Essa não é a afirmação de uma mulher “bela, recatada e do lar”, mas de uma feminista dissidente, bell hooks (sim, com minúsculas), que, para além da ideologia, percebe que os homens têm um papel necessário na vida familiar, na criação dos filhos e no mundo feminino.

Em The will to change (em português: “Desejo de mudança”), a ativista fala de sua infância e de como ela, criada num lar onde a figura paterna era muito severa, desejava que as mãos de seu pai a abraçassem, abrigassem e protegessem, tocando-a com ternura e cuidado. A partir de sua experiência, ela afirma que a abordagem sobre a masculinidade deve focar não na ideia negativa do “poder” dos homens — como fazem muitas feministas —, mas na capacidade deles para o amor. Para hooks, dentro da cultura atual, na qual se prega tanto a dominação de um pelo outro, a escolha pelo amor é a atitude mais heroica. 

A escritora feminista bell hooks.

A observação de hooks é que muitos meninos crescem pressionados a serem fortes e resilientes, como se essas fossem as virtudes principais, mas eles não são ensinados a lidar com a vida interior. Eles têm dos demais homens, bem como dos seus colegas, ou até de suas mães, a cobrança para que cumpram seus papéis sociais sem, por outro lado, o suporte para aceitarem o próprio temperamento e os limites pessoais. É como se tivessem de desenvolver uma ataraxia, o que se expressa frequentemente pelo imperativo: “Seja homem”. E quando não correspondem a essas expectativas, acabam expressando a própria dor por meio da violência, da sexualidade, do vício etc.

“Para amar os meninos corretamente”, insiste ela, “devemos valorizar sua vida interior o suficiente para construirmos mundos, tanto privados quanto públicos, onde seu direito à totalidade possa ser consistentemente comemorado e afirmado, onde a necessidade deles de amar e serem amados possa ser satisfeita” [2]. Portanto, ela conclui que “apenas uma revolução dos valores em nossa nação acabará com a violência masculina, e essa revolução deve ser necessariamente baseada numa ética do amor” [3].

A descoberta de bell hooks é fantástica, sem dúvida. No entanto, vem com certo atraso. Um século antes da publicação de The will to change, o livro de outro autor, Chesterton, já falava do “dano mais terrível” que as virtudes, “isoladas uma da outra”, causavam ao mundo. Em Ortodoxia, o jornalista dizia que “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas” circulando por aí sozinhas [4]. É por isso que, quando falamos da fortaleza masculina e da missão de “prover” e “proteger”, somos facilmente identificados com o machismo. Para a sociedade atual, à fortaleza não está unida a virtude da caridade. E é por isso também que, para reagir ao machismo, muitas feministas preferem aniquilar a masculinidade em vez de redimi-la pelo amor, como fez Cristo.

A masculinidade do homem cristão. — É uma pena que, por conta de sua experiência particular, hooks veja na Igreja apenas o sinal de um patriarcalismo e de uma mentalidade machista e misógina. Mas, data venia, é preciso dizer que, se há no mundo alguma instituição que lutou, desde o início, para ensinar aos homens a virtude do amor, essa instituição se chama Igreja Católica. E as confusões a esse respeito se dão simplesmente porque, não sabendo interpretar os paradoxos do cristianismo, muitos não entendem como São Paulo pode, na mesma carta, pedir a submissão das mulheres aos seus maridos e, logo em seguida, dizer aos maridos que amem suas esposas como Cristo amou a Igreja. Mas tudo se explica neste versículo: “Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo” (Ef 4, 21).

Quando Davi disse para Salomão “ser homem”, ele associou a masculinidade não tanto à força física — porque Deus não se deleita com músculos, diz o salmista (147, 10) — quanto à obediência aos preceitos divinos. Nesse sentido, a escolha dos doze Apóstolos significou uma revolução de todo o código de masculinidade, pois Cristo chamou homens fracos e débeis aos olhos do mundo, para ensiná-los que: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10, 43). Nosso Senhor substituiu a lei de talião — “olho por olho, dente por dente” — pela máxima da caridade — “que vos amei uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).

De fato, Jesus curou a crise entre o homem e a mulher, que não é uma crise de sistemas patriarcais ou matriarcais, como se a mera substituição de um pelo outro resolvesse algo, mas uma crise antropológica e espiritual, que vem desde a Queda no Éden: “A teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará” (Gn 3, 16). Essa foi uma das consequências do pecado original, que só pode ser remediado pela graça do amor de Deus. Restaurados em Cristo, a relação entre o homem e a mulher deixa de ser a de “senhor e escrava” para converter-se na de “senhor e senhora”. É um serviço mútuo em que cada um empenha suas qualidades para a edificação amorosa do próximo.

No romance Quo Vadis, que conta a história dos primeiros cristãos, a diferença entre a masculinidade cristã e a do paganismo é notável. Enquanto o general Marcus Vinícius, chefe das tropas romanas, sente-se no direito de possuir a jovem Lígia, simplesmente por defender a nação e ser um homem com feitos heroicos, o cristão Ursus, um homem fisicamente robusto, recusa-se a utilizar a força para espetáculos de gladiadores. “Eu não luto”, responde ele a uma proposta de Marcus Vinícius, “porque é pecado matar”. Ursus só utiliza a força para proteger Lígia numa arena, quando os dois, por serem discípulos de Jesus, são jogados à sorte das feras. Com isso, o homem cristão mostra ao general pagão que a força dele não é para conquistar troféus e prêmios neste mundo, mas a graça do amor de Deus e a vida eterna. 

E essa, sem dúvida, é a masculinidade que faz do mundo um lugar mais seguro.

Referências

  1. bell hooks, The will to change: men, masculinity and love. New York: Atria Books, 2004 (versão eletrônica).
  2. Id.
  3. Id.
  4. G.K. Chesterton, Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 31.

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O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós
Espiritualidade

O que não podíamos,
o Sangue de Cristo fez por nós

O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós

“Que poderei retribuir ao Senhor...?” O Salmo 115, que a Igreja por séculos fez constar em sua Liturgia, tem uma lição a nos passar: o sacrifício que não podíamos oferecer a Deus, Ele mesmo veio oferecer em nosso lugar.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A virtude da religião, explica Santo Tomás de Aquino, é o hábito da justiça pelo qual damos ao Deus Todo-Poderoso o que lhe devemos como nosso Criador e Senhor: seu direito à adoração adequada, tanto em nossas ações externas (por exemplo, louvando-o com os lábios, curvando-nos diante dele) e atos internos (como a humilde submissão da mente e do coração em adoração). Como Ele é nosso Criador e soberano Senhor, de quem dependemos em nosso ser e em nossa vida, em nossas atividades e para a nossa felicidade, a Ele nós devemos tudo: cada parte de nós mesmos, corpo e alma.

Esse retorno não é algo que possamos fazer tal como Ele merece, mas podemos dar o máximo que é possível a uma criatura. Para o homem antes da Queda, essa virtude teria assumido a forma de um “sacrifício racional”, no qual ele não apenas ofereceria a Deus adoração, louvor e ação de graças, mas também a silenciosa homenagem de todas as criaturas. Ao fazerem isso em determinados horários todos os dias, permanecendo sempre em comunhão de amor e confiança, Adão e Eva, antes da Queda, tinham uma vida religiosa perfeita.

A Queda mudou tudo. Agora, o homem age contra aquilo que deve a Deus — age, na verdade, na medida do possível, contra o próprio Deus, pois o Senhor, que está presente em suas leis, é amado quando são obedecidas, mas desprezado, quando desobedecidas. Adão e Eva agora vivem em um mundo que se voltou contra eles, como eles mesmo se voltaram contra o seu Criador e Senhor. Eles precisam trabalhar para sobreviver, sofrendo no trabalho, sofrendo no nascimento. Eles se cansam, se frustram e vacilam. O pior de tudo é que, quando se voltam para Deus, não é com a familiaridade íntima de uma criança, mas com a consciência abalada de um renegado, tentando compensar uma ofensa de gravidade quase infinita.

Para os filhos caídos de Adão, portanto, a virtude da religião deve necessariamente assumir a forma de um culto sacrificial pelo qual Deus é honrado e também aplacado. O derramamento de sangue simboliza a morte da própria vontade egoísta: derramar a vida, dolorosamente, para restaurar o que foi perdido e mostrar que pertence apenas a Deus. “Sem derramamento de sangue, não há perdão dos pecados” (Hb 9, 22).

Deus deu a Israel a Antiga Lei como um sistema, uma forma estabelecida de adoração que tornaria necessária a vinda de um Mediador e Redentor, de alguém que, em si mesmo, pudesse oferecer a Deus uma adoração verdadeiramente digna de seus direitos sobre toda a Criação. Poder-se-ia chamar toda a Antiga Lei de grande “ritual do ofertório”, pelo qual a vítima foi preparada na presciência de Deus, em antecipação à vinda do Messias, o Cordeiro de Deus. A consagração corresponde à morte deste Cordeiro no altar da Cruz. A Comunhão significa tomar parte na salvação que nos foi adquirida ao preço do seu Sangue precioso.

Somente Cristo, portanto, realiza de modo perfeito a virtude da religião, e nós temos o privilégio incomparável de sermos inseridos em sua própria adoração. A Missa latina tradicional expressa essa verdade em um momento pungente, escondido da vista do leigo, mas não do seu conhecimento, caso ele acompanhe as orações em um missal.

Quando está prestes a tomar o Preciosíssimo Sangue, o sacerdote no rito antigo pronuncia o verso do Salmo: Quid retribuam Domino pro omnibus, quae retribuit mihi? (Sl 115, 12), “Que poderei retribuir ao Senhor por todas as coisas que ele me deu?” Ele pega o cálice com mais dois versos: Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo. Laudans invocabo Dominum, et ab inimicis meis salvus ero (Sl 115, 4; 17, 4), “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”.

Em seguida, ele se benze com o cálice em forma de cruz e, segurando a patena sob ele, toma o Preciosíssimo Sangue após pronunciar as palavras: Sanguis Domini nostri Jesu Christi custodiat animam meam in vitam aeternam, “Que o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo preserve a minha alma para a vida eterna”.

Em STh II-II 80, 1, Santo Tomás cita o Sl 115, 12: “Que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me deu?”, como testemunho bíblico da virtude da religião, pela qual damos o que podemos ao Senhor, embora nunca possamos dar o suficiente, pois nunca lhe retribuímos um dom equivalente ao que Ele nos deu. A colocação deste versículo no ponto mais alto da Missa, em que se bebe o Sangue do Senhor, enfatiza o aspecto da justiça na Liturgia. O homem se esforça para voltar-se a Deus, e o melhor retorno que ele pode fazer é, de fato, comungar o Corpo de Jesus Cristo e permitir que Ele mesmo agradeça ao Pai dentro e através de quem comunga.

É por isso que o sacerdote, logo em seguida, acrescenta: “Beberei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor”. O Justo e Santo vem, por misericórdia, habitar em seu interior, para que o homem possa, unido a Cristo, oferecer-se a Deus como uma oblação digna. O cristão incorporado a Cristo tem o “Deus de Deus, luz da luz”, dentro de si, e entre o Pai e o Filho há o amor mais elevado e a mais sublime justiça, como se cada um deles estivesse eternamente dando ao outro a sua perfeita retribuição. O Pai não apenas gera o Filho, mas nele se compraz e o recebe no amor eterno e recíproco que é o Espírito Santo. A Sagrada Comunhão coloca o fiel nesta circumincessão ou habitação mútua das Pessoas divinas. É por isso que o cálice é mencionado como “calicem salutis perpetuae”: o cálice da salvação eterna.

É como se esse pequeno ritual nos estivesse dizendo: “Sim, ó homem, para vós é impossível retribuir justamente ao Senhor por tudo o que Ele vos deu”, mas “a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).

Como ensina a Madre Matilde do Santíssimo Sacramento (1614–1698):

A Missa é um mistério inefável no qual o Pai eterno recebe homenagens infinitas: nela Ele é adorado, amado e louvado como merece; e é por isso que somos aconselhados a receber a Comunhão com frequência, a fim de cumprirmos para com Deus, por meio de Jesus, todas as nossas obrigações. Isso é impossível sem Jesus Cristo, que entra em nós para realizar o mesmo sacrifício da Santa Missa.

A sequência dos versículos do Salmo, uma vez sorvido o cálice, conclui apropriadamente: “Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”. Que motivo de louvor: receber o próprio Senhor, Aquele a quem clamamos! Que proteção contra nossos inimigos! O Senhor nos salvará, porque, na Santa Comunhão, Ele vem habitar em nós, aplicar-nos os méritos de sua morte e aumentar nossa participação em sua vida ressuscitada.

A tristeza dos católicos por não poderem assistir à Missa e receber Nosso Senhor sacramentalmente deve intensificar nosso desejo espiritual pelo santo sacrifício e por uma participação cada vez mais frutuosa, sempre que o Senhor quiser que tenhamos de novo a felicidade de participar do seu banquete. Somos chamados a fazer o que pudermos e a nos entregar nas mãos de Deus, usando as palavras de nosso Salvador na Cruz: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23, 46).

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