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É possível ser feliz lutando contra o lesbianismo?
Testemunhos

É possível ser feliz
lutando contra o lesbianismo?

É possível ser feliz lutando contra o lesbianismo?

“Se Deus ama seus filhos homossexuais? É evidente que sim. Mas Ele nos ama demais para nos deixar do jeito que estamos.”

Dawn WildeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Maio de 2018
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Um dos ensinamentos mais controversos do catolicismo diz respeito à homossexualidade. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (§ 2357):

Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (cf. Gn 19, 1-29; Rm 1, 24-27; 1Cor 6, 9-10; 1Tm 1, 10), a Tradição sempre declarou que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados.

Para muitos de nós, esse ensinamento é desafiador, especialmente se alguém a quem amamos é homossexual. Mas e se for você o católico lutando contra esses desejos? É possível ser fiel aos ensinamentos da Igreja e ainda assim ser feliz?

Sim, é possível.

Eu sou uma mulher católica de 37 anos e muito bem casada há cerca de 15. Temos cinco filhos educados em casa. E eu também luto, diariamente, com a atração pelo mesmo sexo (AMS).

A maior parte dos homossexuais dirá que “sabiam” ser assim desde uma idade muito precoce. Eu não sabia. Dentro de mim, eu tinha as “quedinhas” normais por rapazes e, assim como a maioria das mulheres heterossexuais, me imaginava casada e tendo filhos com um grande homem.

Até eu conhecer Nora. Nora morava na mesma residência universitária que eu, e nós tínhamos muitas aulas juntas, razão pela qual começamos a passar muito tempo juntas. Meu namorado incentivava a nossa amizade, porque era uma forma de eu não ficar sozinha enquanto ele estava no trabalho. Nora e eu tínhamos muitos interesses em comum e, por isso, rapidamente nos tornamos melhores amigas.

Um dia, porém, alguns meses mais tarde, uma ideia alarmante atravessou a minha mente: “Eu estou apaixonada por Nora.” Fiquei terrivelmente assustada com aquele pensamento. Chorei por horas, tentando achar uma saída para o estranho enigma de me sentir apaixonada por uma mulher. Estava tudo ali, exatamente como acontecia com relação aos homens: a atração emocional e, sim, até a atração física.

Passei então a evitá-la, mas ela insistia em querer saber o que de errado estava acontecendo. Finalmente eu lhe contei como me sentia, meio que torcendo para que ela recuasse de pavor. Ao contrário, ela confessou sentir o mesmo a meu respeito. E não, nenhuma de nós jamais havia se sentido atraída por outra mulher antes.

Sei que alguns de vocês podem estar pensando: “O que você quer dizer com isso? Que simplesmente ‘acordou’ um dia e se viu apaixonada por uma mulher? Uma coisa dessas pode realmente acontecer?” Na verdade, a história não foi bem assim. Houve vários fatores, tanto no meu passado quanto no de Nora, que nos tornaram vulneráveis à AMS.

Nora havia sido molestada repetidas vezes por um primo quando era criança. Eu fui abandonada por minha mãe biológica e cresci sendo abusada fisicamente por minha mãe adotiva, que tinha problemas mentais. Para Nora, eu representava segurança; para mim, Nora oferecia o vínculo de carinho que eu nunca tive com uma mulher. Nenhuma de nós havia recebido qualquer orientação sobre sexualidade, a não ser: “Não fique grávida”. Tampouco tínhamos algum tipo de fé em Deus, o que tornou muito mais fácil ignorarmos nossas consciências quando nos sobreveio a tentação de nos envolvermos.

Naquele verão, começamos o que acabou se tornando um caso de três anos. Nora e eu decidimos ser colegas de classe pelos últimos dois anos de universidade. Por mais estranho que possa parecer, nós saíamos periodicamente com homens neste intervalo de tempo. Naqueles dias, antes de o “casamento” homossexual ser aprovado nos Estados Unidos e antes de a fertilização in vitro entrar na moda, nenhuma de nós conseguia imaginar em desistir do nosso sonho por uma família de verdade.

Agora eu percebo que, não obstante nossa atração uma pela outra, o chamado de Deus à união matrimonial ainda estava gravado em nossos corações. Nós nos gostávamos muito, mas ainda queríamos o velho casamento dos contos de fada, os filhos e uma casa no campo. Para nós, nada daquilo era possível para um par de lésbicas.

Talvez tenha sido por isso que sofremos tanto para esconder nosso relacionamento de parentes e amigos. Ainda que não fôssemos capazes de imaginar nossas vidas uma sem a outra, também não podíamos imaginar um futuro juntas. Sentíamo-nos profundamente envergonhadas por causa do nosso comportamento, ainda que a maioria de nossos amigos fosse liberal e jamais viesse a nos julgar. Metade de nossos amigos eram, eles mesmos, gays ou lésbicas. Ainda assim, como que por instinto, nós protegíamos nossa imagem de mulheres heterossexuais.

Alguns meses antes de me formar, conheci um jovem rapaz cuja mente brilhante e senso de humor puseram um fim em meu relacionamento com Nora. Embora não viéssemos a nos casar, ele me oferecia o senso de normalidade de que eu precisava desde que passei a me envolver com uma mulher. Nora não aceitou bem a situação e decidiu revelar à própria família que era lésbica. Ela expôs nosso segredo, então, a quem quer que a quisesse escutar. A família dela, que havia me acolhido calorosamente em sua casa por três anos, afastou-se completamente de mim. A seus olhos, eu era uma depravada que lhes havia corrompido a filha.

Depois de Nora, eu nunca mais me relacionei com outra mulher, em grande parte porque não cheguei a conhecer nenhuma por quem sentisse uma atração emocional tão forte como a que tinha sentido por ela. A atração sexual por mulheres em geral, no entanto, nunca foi embora. Descobri que, ao mesmo tempo que eu me sentia atraída por homens em particular, minha atração principal era por mulheres, tanto sexual quanto emocionalmente.

Dois anos depois, eu conheci meu marido, um homem por quem eu sentia tudo isso, e ainda mais. Abracei o matrimônio, feliz por finalmente ter encontrado uma vida “normal”. Entretanto, mesmo depois disso, a AMS permaneceu instalada como uma armadilha dentro de mim. Quando eu viajava para fora a trabalho, lutava comigo mesma para não ir a bares lésbicos. Eu havia prometido fidelidade e precisava honrar minha promessa. De alguma forma eu sabia que, se traísse meu marido, eu estaria definitivamente perdida enquanto pessoa. Agradeço a Deus todos os dias por me ajudar a combater essas tentações.

Então nós nos tornamos católicos. Se nossos votos já haviam sido sagrados antes, agora eles se tinham tornado sacramentais. Embora eu buscasse ser obediente à Igreja, não conseguia entender plenamente a doutrina católica sobre sexualidade, até estudar a teologia do corpo do Papa São João Paulo II. Finalmente pude entender o sentido do meu corpo e por que o matrimônio era algo tão sagrado. Entendi por que eu jamais me satisfaria com Nora e por que eu aspirava tanto me unir a um homem e constituir uma família.

Mas entender minha sexualidade não fez as tentações irem embora. Eu não podia simplesmente eliminar a tendência de me sentir sexualmente atraída por mulheres.

Por um tempo, eu havia me convencido de que, já que eu não me envolvia em atos homossexuais, eu não estava pecando (ou seja, estaria tudo bem dar azo à fantasia). Quanto mais eu entendia a castidade autêntica, porém, mais frágil se tornava esse pretexto. Que “pureza de coração” era a minha, se eu cedia a fantasias pecaminosas durante o ato mais íntimo do meu casamento? Como eu podia imaginar outra pessoa naquele instante sem, ao mesmo tempo, desrespeitar meu amado marido? Eu sabia que a castidade de verdade exigia algo maior do que simplesmente seguir a letra da lei: exigia conversão de coração.

Felizmente, a batalha hoje é mais fácil do que nos primeiros anos de casamento. Eu permaneço fiel a Deus e a meu marido porque trabalho duro a fim de evitar as ocasiões próximas de pecado.

Eu evito, por exemplo, amizades muito intensas com mulheres que possam eclipsar meu relacionamento com meu marido, e não assisto, de jeito nenhum, a filmes com temática homossexual. Também treinei minha imaginação para evitar pensamentos impuros. Pode ser tentador cair em velhos padrões de pensamento, especialmente quando estou cansada. Mas, se necessário for, eu vou à exaustão física e emocional, só para não ofender a Deus. Nenhum prazer sensual passageiro vale a pena de ofender a Jesus, que tanto sofreu para me salvar.

Ajuda-me saber também que o que eu tenho com meu marido supera qualquer coisa que eu poderia ter em um relacionamento homossexual. O dom mais extraordinário da nossa união é podermos cooperar com Deus na criação de uma pessoa única, com uma alma imortal. Trata-se de um grandioso privilégio, transcendente e espiritual, que eu teria perdido se fosse lésbica.

Naturalmente, tenho uma compaixão profunda por quem luta a mesma luta que eu. Mas não acredito que devamos ceder à AMS se a tivermos. De fato, eu não sou nem um pouco diferente de um homem heterossexual que luta para não transformar as mulheres em objeto. Ou de uma mulher heterossexual que é tentada ao sexo fora do casamento. Nós todos somos pessoas “quebradas”, e é por isso que todos, sem exceção, precisamos de Cristo.

Eu não posso reordenar minha sexualidade decaída, mas, como tenho testemunhado ao longo dos últimos dez anos, a graça e a fé em Jesus podem por mim. Basta ter paciência e vontade de receber a cura. A santificação, afinal de contas, é o processo de uma vida inteira. Conforta-me saber que, devagar mas efetivamente, Deus está curando as feridas dos pecados sexuais que desfiguraram minha alma.

Se Deus ama seus filhos que lutam com a atração por pessoas do mesmo sexo? É evidente que sim. Mas Ele nos ama demais para nos deixar do jeito que estamos.

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Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?
Doutrina

Jesus tinha
a intenção de fundar uma Igreja?

Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?

Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos todo o Evangelho é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura e de caráter social: a Igreja.

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)25 de Junho de 2019
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I. O problema. — Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos o Evangelho e que depois se confirma plenamente nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura, de caráter social. É todo o Evangelho, e não somente um conjunto de textos mais ou menos numerosos, que nos fala de uma obra desta natureza.

Contra esta maneira de conceber a obra de Jesus levantaram-se, nos séculos passados, tanto racionalistas como modernistas. Assim afirmou Loisy: “Cristo anunciou a vinda do Reino, e eis aqui o que acabou surgindo: a Igreja” (L’Evangile et l’Eglise, 1902, p. 111). Se isto fosse assim, a Igreja de que nos falam tantas vezes os Atos dos Apóstolos, a Igreja de que com tanta frequência fala São Paulo, teria surgido contra a vontade de Jesus; seria obra dos primeiros cristãos, e não obra de Jesus. Qual destas duas concepções é a verdadeira? Tal é o problema eclesiológico fundamental que devemos resolver antes de qualquer outro. Para isso, será necessário explicar previamente o significado exato da palavra Igreja nas Sagradas Escrituras.

1. A palavra “igreja” no Antigo Testamento. — No Antigo Testamento, Israel é o povo de Deus, o reino de Deus. Destas duas denominações, a primeira tem um significado solene, especial: Israel é o povo convocado ou congregado por Deus: em hebraico, é o Qahal Yahvé, que a versão chamada dos Setenta (concluída no final do séc. II a.C.) traduz pela palavra grega εκκλησία. O termo hebraico Qahal significa qualquer reunião de homens, e só se traduz por εκκλησία na versão dos Setenta quando indica a reunião ou assembleia de todo o povo de Israel. Nos outros casos (por exemplo, assembleias de uma cidade particular), Qahal se traduz por ὄχλος ou συναγωγή.

Citemos alguns exemplos do Antigo Testamento em que aparece esta expressão. No Deuteronômio, chama-se “dia da assembleia” ou “da igreja” ao dia em que o povo de Israel, congregado no monte Sinai, recebeu a aliança de Javé, prometeu observar a Lei e assim foi constituído “povo de Javé” (cf. Dt 9, 10; 18, 16). Em outras passagens do mesmo livro, indicam-se as condições que há-de reunir quem quiser formar parte da “igreja” ou comunidade de Javé (cf. Dt 23, 1-3.8). Moisés proferiu diante de toda a comunidade de Israel ou “igreja” as palavras do seu cântico (cf. Dt 31, 30). No Livro de Josué se diz: “De tudo o que Moisés havia prescrito não se omitiu uma palavra sequer nessa leitura feita por Josué diante de toda a assembleia [igreja] de Israel” (Js 8, 35). No primeiro Livro dos Reis — terceiro, na nomenclatura da Vulgata —, a “igreja de Israel” é todo o povo congregado para a dedicação do templo de Salomão (cf. 1Rs 8, 14; 22, 55). Assim poderíamos multiplicar os exemplos até chegar às oitocentas vezes em que se fala da palavra “igreja” na tradução grega dos Setenta.

Os judeus do tempo de Jesus, como nos dizem os especialistas na matéria, usavam a palavra “igreja” para indicar a assembleia escolhida por Deus do povo de Israel, para o culto do Deus verdadeiro (cf. Salaverri, De Ecclesia, em Sacrae Theologiae Summa, vol. 1, n. 145). Por conseguinte, esta palavra será a mais adequada para designar a assembleia do novo Israel de Deus, se Cristo quis verdadeiramente fundar uma sociedade religiosa.

“Cristo apresentando as chaves a S. Pedro”, de Carlo Giuseppe Ratti.

2. A palavra “igreja” no Novo Testamento. — No Evangelho, esta palavra só aparece em duas passagens muito próximas entre si do evangelho de São Mateus: no capítulo 16 (v. 18): “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”; e no capítulo 18 (v. 17), onde Cristo, ao falar da correção fraterna, depois da correção privada e ante testemunhas, em caso de não se conseguir o resultado esperado, diz a seus discípulos: “Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano”. 

No entanto, em outros livros do Novo Testamento se encontra muitas vezes a palavra “igreja”: 23 nos Atos dos Apóstolos, 63 em São Paulo, 5 nas outras epístolas dos Apóstolos e 20 no Apocalipse.

Mas, afinal, esta desproporção tão surpreendente entre os evangelhos e os demais livros do Novo Testamento em que se narra a vida da comunidade primitiva não parece corroborar a opinião dos que afirmam que os textos de São Mateus refletem o sentir da comunidade primitiva, mas não a intenção de Jesus de fundar uma Igreja?

II. Orientação histórica. 1. Opiniões errôneas. — De fato, assim creem todos os racionalistas e modernistas, sejam os que afirmam que Jesus Cristo julgava iminente o fim do mundo e que, portanto, não poderia falar de uma “Igreja” como sociedade futura e duradoura (escatologistas); sejam aqueles que sustentam que Jesus Cristo pregou um reino apenas para Israel e continuava acreditando na permanência da sinagoga, sem pretender formar uma sociedade nova (particularistas); sejam enfim os que defendem que Jesus pretendia unicamente nos ensinar nossas relações filiais com Deus Pai, sem nenhuma organização de caráter externo e social (espiritualistas).

Como concebem, pois, estes autores que a ideia de uma Igreja como sociedade aparecesse nos tempos apostólicos, coisa que não podem negar, por encontrar-se tão claramente no livro dos Atos e nas epístolas de São Paulo? As respostas a esta pergunta são numerosas e bastante distintas entre si, mas podemos reduzi-la a estas três principais: 

a) Teoria evolucionista. — Os discípulos de Cristo, pensam alguns, chegaram a organizar-se em sociedade graças à tendência natural e inata ao homem de agrupar-se quando vários indivíduos buscam um mesmo ideal. Assim se formaram as inúmeras sociedades comerciais, literárias, deportivas etc. que surgem em todos os lugares. Desta maneira, foram aparecendo pouco a pouco, já no tempo do Apóstolos, sociedades locais formadas pelos discípulos de Jesus. Por uma evolução também natural, as diversas sociedades de uma nação, província etc. foram, por sua vez, agrupando-se em outras sociedades maiores. A paixão do mundo ou a ambição de alguns chefes influenciou muito nestas uniões parciais, que chegaram de modo mais ou menos rápido, ainda que imperceptível, a formar uma sociedade única sob o mando do chefe daquela igreja que, logicamente, tinha de absorver as demais: a da cidade em que residia a suprema autoridade civil, Roma. Nos tempos dos Apóstolos, não se tinha chegado ainda a esta unidade total de organização, embora em São Paulo apareça já este desejo de uniformizar as diversas comunidades, e o manifesta principalmente ao comparar a Igreja com um corpo único, dentro de uma pluralidade de membros. Aparece, assim, já em São Paulo uma unidade interna e mística, embora ainda não uma unidade jurídica.

b) Teoria eclética. — Sabemos, pensam outros, que se chama “eclético” todo sistema formado por uma seleção de outros vários. Assim, a sociedade judaica, com sua organização presbiteral e religiosa, e a sociedade romana, com sua organização monárquica e civil, determinou a constituição da Igreja como sociedade ao mesmo tempo religiosa e jurídica; esta constituição, porém, foi completamente alheia à vontade de Cristo.

c) Teoria modernista. — Para outros ainda, a constituição da Igreja como sociedade foi uma consequência natural, mas contrária à mente e à vontade de Cristo, do movimento religioso que a pregação do Mestre acabou suscitando. Surgiu quando a crença de Jesus Cristo, compartilhada por seus discípulos, de que o fim do mundo chegaria logo, começou a ser posta em dúvida. Passavam os anos, e a parusia simplesmente não vinha… Foi natural que, então, todo os que aceitavam a doutrina de Jesus se sentissem unidos por uma mesma doutrina e um mesmo fracasso, e pensaram assim em dar consistência e duração a sua ideias religiosas.

III. Doutrina católica. 1. O que a Igreja diz de si mesma. — No entanto, o Magistério eclesiástico ensina como verdade de fé que Cristo fundou a Igreja. Assim diz o Concílio Vaticano I: “Para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e nela perseverar constantemente, Deus instituiu, por meio de seu Filho Unigênito, a Igreja” (DH 3012). E em outro lugar: “O eterno Pastor e guardião das nossas almas […] resolveu fundar a Santa Igreja” (DH 3050). Implicitamente afirma o mesmo Concílio que Jesus a fundou como sociedade, ao definir que Cristo constituiu a São Pedro cabeça visível de toda a Igreja militante e que lhe entregou um primado de verdadeira e própria jurisdição (cf. DH 3056s), já que tais atos pressupõem uma vontade plenamente consciente de fundar uma sociedade.

Contra a doutrina modernista, o Papa São Pio X condenou explicitamente a seguinte proposição: “Foi alheio à mente de Cristo constituir a Igreja como sociedade que devia durar sobre a terra por longo decurso de anos” (DH 3452). Veja-se também o juramento proposto pelo mesmo Papa contra os erros do modernismo (cf. DH 3540).

2. Valoração teológica. — Em consonância com os documentos do Magistério que acabamos de expor, podemos afirmar que é verdade de fé divina e católica que Cristo quis estabelecer a sua Igreja na terra como verdadeira sociedade.

3. Ensinamento bíblico. — Ora, já dissemos que a vontade de Cristo de querer estabelecer uma Igreja-sociedade, mais que de alguns textos concretos, flui de todo o Evangelho, no qual vai aparecendo como Ele escolhe os Apóstolos, como os instrui para um fim concreto, como os reveste de poderes especiais para a sua missão, como estabelece sobre os demais uma autoridade suprema e como promete sua assistência indefectível nos ofícios de que os encarrega.

Há porém um texto capital em toda a eclesiologia, que afirma taxativamente esta vontade de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

a) A Igreja, o povo de Deus no Novo Testamento. — A frase de Jesus: “Edificarei a minha Igreja” deve ter produzido um sentimento de estupor nos discípulos, já que a palavra “igreja” sempre aparece no Antigo Testamento como obra, não de um homem, mas de Deus. O Mestre se punha no lugar de Deus! Mas pelo menos Pedro, que acabara de confessar que Jesus era “o Filho do Deus vivo”, por revelação do Pai, podia compreender muito bem a razão íntima desta substituição: Cristo era Deus e, como Deus, ia estabelecer uma Igreja que seria continuação e, simultaneamente, cumprimento cabal daquela igreja ou congregação do povo de Deus no Antigo Testamento. A palavra divina se cumpriria, não já no Israel da carne, mas no Israel do espírito, como diz São Paulo (cf. Rm 9, 6ss; 1Cor 10, 18).

Mas como unir o verbo “edificar” com o substantivo “igreja”, que significa, como vimos antes, povo sagrado, escolhido por Deus? Ora, é que “o povo de Deus” é também “a casa de Deus”, segundo uma imagem muito repetida no Antigo Testamento (cf., por exemplo, Nm 12, 7; Jr 12, 7; Os 8, 1.3.8.15). Daí que a metáfora “edificarei a minha Igreja” equivalha, evidentemente, a dizer: “Formarei o meu povo escolhido, à maneira de um arquiteto que constrói um edifício”. Eis a firme vontade de Cristo de fundar a sua Igreja, isto é, de instituir uma sociedade na terra sobre São Pedro.

b) A Igreja, Reino dos céus. — Em seguida, o Senhor promete ao mesmo Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mt 16, 18). Não vamos nos deter aqui em estudar o alcance desta metáfora no que se refere a São Pedro; mas podemos, sim, adiantar que este Reino de Deus, expressão que pode ter um significado mais ou menos amplo segundo o contexto, neste lugar específico, em virtude do perfeito paralelismo com a frase anterior e a seguinte: “Tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”, só pode significar o Reino de Deus existente na terra, já que Pedro, o Apóstolo que Jesus tem diante de si, será a autoridade suprema deste Reino.

Reino de Deus, Reino dos céus e Igreja não são, pois, realidades distintas, mas a mesma realidade sob dois aspectos distintos. E nisto o Novo Testamento corresponde harmonicamente ao Antigo: com efeito, assim como o povo escolhido era o Reino de Deus no Antigo Testamento, assim também, no Novo, a Igreja de Cristo é o Reino de Deus na terra. Portanto, quando Cristo fala do Reino de Deus na terra, fala em realidade de sua própria Igreja.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 560-565, nn. 67-77.

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Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”
Doutrina

Eucaristia:
“até os demônios crêem, e tremem”

Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”

“Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: ‘Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?’”

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2019
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A “rotina” pode fazer com que, muitas vezes, percamos um pouco a noção do que sejam a Santa Missa, a Eucaristia e a recepção da Comunhão sacramental. Os abusos litúrgicos que acontecem, aos montes, em tantas de nossas paróquias também acabam não contribuindo muito para fazer brilhar o mistério que aí se realiza. O seguinte testemunho do Mons. Charles Pope (tradução e grifos nossos), no entanto, talvez nos ajude a considerar melhor a grandeza do que estamos a celebrar nesta semana de Corpus Christi:

Foi quase 15 anos atrás, na velha igreja de Santa Maria, aqui no Distrito de Columbia, celebrando Missa em latim (na Forma Extraordinária do Rito Romano). Era uma Missa solene [...na qual] algo bem interessante estava prestes a acontecer.

Como vocês devem saber, a antiga Missa em latim é celebrada ad orientem (isto é, voltada ao “leste litúrgico”). O padre e todo o povo voltam-se para a mesma direção. O que isso significa para o celebrante, na prática, é que o povo fica às suas costas. Era o momento da consagração. Nessa hora, o padre deve fazer uma leve inclinação, com seus antebraços sobre a mesa do altar e a Hóstia em seus dedos.

Também como deve ser, as veneráveis palavras da consagração foram ditas em voz baixa, mas clara: Hoc est enim Corpus meum (“Isto é o meu Corpo”). A sineta tocava enquanto eu me ajoelhava.

Mas atrás de mim notei uma espécie de perturbação; uma voz agitada ou como um sussurro veio dos primeiros bancos atrás de mim, à minha direita, e então um gemido ou murmúrio. “O que foi isso?”, eu me perguntei. Não se parecia mesmo com um som humano; parecia mais o grunhido de um grande animal, como um javali ou um urso, juntamente com um resmungão que também não parecia humano. Elevei a Hóstia e novamente me perguntei: “O que foi isso?” Silêncio, então. Como celebrante na antiga Missa latina, não me era fácil virar para olhar. Mas eu ainda pensava: “O que foi isso?”

Era o momento da consagração do cálice. Mais uma vez eu me inclinei levemente, pronunciando clara e distintamente, mas em voz baixa: Hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti; mysterium fidei; qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum. Haec quotiescumque feceritis in mei memoriam facietis (“Tomai e bebei dele todos vós, pois este é o Cálice do meu Sangue, do Sangue da nova eterna aliança, mistério da fé, o qual será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados. Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim”).

Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: “Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?” De repente irrompeu um ruído como de uma briga e alguém saiu gemendo como se tivesse sido machucado. As portas se abriram e fecharam. Depois, silêncio.

[...] Eu não podia virar para olhar pois estava elevando o Cálice bem acima da minha cabeça. Mas eu percebi naquele instante que uma pobre alma atormentada pelo demônio havia se deparado com Cristo na Eucaristia e não podia suportar sua presença real sendo exibida para todos verem. Vieram-me à mente, então, as palavras da Escritura: “Até os demônios crêem, e tremem” (Tg 2, 19).

[...] Mas assim como São Tiago usou essas palavras para recriminar a pouca fé de seu rebanho, também eu tinha com o que me acusar. Por que um homem perturbado pelo demônio estava mais consciente da Presença Real e mais impressionado por ela do que eu estava? Ele ficou movido em um sentido negativo e fugiu. Por que não estava eu mais movido do que ele, em um sentido positivo? E quanto aos outros fiéis, que estavam nos bancos? Eu não duvido de que todos ali acreditávamos, com a inteligência, na Presença Real. Mas é algo bem diferente e muito mais belo ser movido até as profundezas da própria alma! É tão fácil ficarmos sonolentos na presença do Divino, esquecendo-nos da Presença milagrosa e impressionante que está à nossa disposição.

Registre-se que, naquele dia, quase 15 anos atrás, ficou ainda mais claro para mim que eu segurava em minhas mãos o Senhor da glória, o Rei dos céus e da terra, o justo Juiz e Dominador dos reis da terra. — Estaria o Senhor verdadeiramente presente na Eucaristia? — É melhor que você acredite, pois até os demônios o fazem!

Ao ler o relato desse sacerdote, é inevitável que nos venham à mente os inúmeros trechos do Evangelho em que os demônios reagem de modo muito similar à presença de Nosso Senhor. Em comentário a essas passagens, os Doutores da Igreja nos ensinam que, embora não tenham fé divina e sobrenatural, os maus anjos têm um certo conhecimento da divindade de Cristo, e por isso não lhe podem ser indiferentes. Santo Agostinho diz, por exemplo, que Jesus se manifestou aos demônios “não enquanto vida eterna e luz que ilumina os piedosos, mas por certos efeitos temporais de seu poder e por sinais ocultos de sua presença, mais perceptíveis aos espíritos angélicos, mesmo que malignos, do que à fraqueza humana” [1]; e São Jerônimo, por sua vez, que “tanto os demônios como o Diabo mais suspeitavam do que compreendiam que Ele era o Filho de Deus” [2].

Ou seja, os mesmos espíritos malignos que dois mil anos atrás reagiam com fúria e gritos à presença do Deus feito carne, são retratados respondendo com igual ódio e indignação à presença real de Jesus na Eucaristia. Que o fato acima seja verídico ou não, é o de menos: ninguém é obrigado a crer nas palavras de um padre. Mas ao ensino do Senhor e da sua Santa Igreja de que, “sim, na Eucaristia está verdadeiramente o mesmo Jesus Cristo que está no Céu e que nasceu, na terra, da Santíssima Virgem Maria” [3] — nisto sim, todos estamos obrigados a crer, por fidelidade a Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar.

“Problemático” falar disso, não? Pouco “ecumênico”, alguém diria. Mas não é de hoje: as palavras de Cristo sobre sua presença no Santíssimo Sacramento, desde o discurso do pão da vida até as recentes manifestações magisteriais sobre a Eucaristia, sempre foram uma grande “pedra de tropeço”. — Que haja quem acredite piamente que o próprio Deus, Criador do céu e da terra, se fez homem, já é grande absurdo… — assim pensa o mundo. — Agora, que haja, nesse grupo já seleto de pessoas, um grupo mais ousado ainda a ponto de proclamar que Deus, além de se fazer homem, ainda se esconde sob a aparência de um simples pedaço de pão, é escândalo em cima de escândalo.

Aquele grupo que crê na Encarnação são os cristãos; este grupo que crê também na transubstanciação são os católicos. De modo que, se para o mundo, os cristãos já são loucos, para os próprios cristãos, nós, católicos, somos o ápice da loucura. Por crermos na Eucaristia, os protestantes nos têm por fanáticos e idólatras, que se prostram diante de uma “bolacha”; por causa desse dogma em especial, somos “como que o lixo do mundo, a escória de todos” (1Cor 4, 13).

E como os católicos somos chamados a reagir a tudo isso? Com luto, lágrimas e depressão? Não, muito pelo contrário!

Neste dia de Corpus Christi, somos convocados, isso sim — principalmente por se tratar de dia de preceito —, a tomar as ruas de nossas cidades e, cheios de fé, proclamar nosso amor ao Santíssimo Sacramento com orações, cantos e muita alegria. Alegria principalmente por saber que o mesmo Jesus de Nazaré, que caminhou entre os homens dois mil anos atrás, continua realmente vivo em nossas igrejas, “habitando no meio de nós” todas as vezes que o sacerdote católico pronuncia as veneráveis palavras da consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. Alegria por saber que, assim como Cristo, cabeça da Igreja, teve de passar por sua via crucis recebendo o desprezo do mundo, agora é a vez dos católicos, enquanto membros do seu corpo, passarem pela mesma execração pública.

Mas, ainda que nos ataquem com virulência, que nos chamem de idólatras e caçoem de nossa santa religião — mesmo se com isso os zombadores acabem se assemelhando aos demônios do Evangelho, e da história acima contada —, só o que nos deve encher o coração é um profundo desejo de que todos, sem exceção, venham a desfrutar um dia da mesma dádiva que nós, católicos, temos a graça de possuir… porque deve ser uma tremenda miséria entrar em um templo cristão e não ver, ao fundo, ocupando o centro de todas as atenções, a presença eucarística de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Referências

  1. De Civitate Dei IX, 21, citado por Santo Tomás de Aquino, Catena aurea (In Matth., c. VIII, l. 8). Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 323.
  2. Id., p. 323.
  3. Catecismo de São Pio X, n. 595.

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Silêncio, a especialidade de Deus
Espiritualidade

Silêncio, a especialidade de Deus

Silêncio, a especialidade de Deus

Quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Pe. Raul PlusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2019
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À alma que quer ouvir os chamamentos divinos é necessário o recolhimento, em primeiro lugar, por causa da discrição de Deus.

Deus age sempre da mesma maneira: apraz-lhe ocultar-se. Só o descobrem os que estão atentos.

Às vezes as pessoas acham estranho que tantos cheguem a duvidar da existência de Deus. Acaso não prova a Criação que haja um Criador? Sim, certamente, mas se a razão afirma que Deus existe, a experiência não o percebe. O soberano Senhor oculta-se atrás das causas segundas. Ele, que é a causa total, não quer ser a causa única. Desde o seu distante quartel general ele tudo dirige; mas os homens, em contato sensível apenas com os intermediários, esquecem o chefe supremo de quem tudo depende. Toda causa segunda seria de uma indigência absoluta se Deus não lhe desse o poder de produção; mas como essa causa aparece em primeiro plano, o homem não vê mais do que a ela. É preciso refletir para descobrir a Deus.

Deus põe em tudo esta sublime discrição. Ele passeia por sua obra em todo tempo e lugar, mas procede como no Paraíso terrestre: sua marcha é silenciosa, e é preciso estar atento para perceber seu passo, que quase não faz barulho na areia, ali, muito perto, atrás do pequeno bosque.

Se tal discrição divina é palpável na ordem natural, quanto mais patente é, todavia, na ordem sobrenatural!

O Verbo decide vir à terra para encarnar-se. Credes que o fará impondo-se pelo brilho e pela pompa, e proclamando de certo modo: “Atenção! Entendei bem quem é que vos fala!”? De maneira alguma. Uma virgenzinha de quinze ou dezesseis anos, em uma pequena e insignificante aldeia de um pequeno país. Chama-se Maria; ninguém a conhece, salvo algumas amigas de seu povoado, Nazaré. Estando um dia em oração, recebe a proposta de chegar a ser Mãe de Deus. Duas palavras de aceitação: Ecce… Fiat! “Eis aqui… Faça-se!” — Neste mesmo instante o Verbo se faz carne.

Durante nove meses permanece oculto no seio de sua mãe como todo filho de homem… Vai nascer. Discretamente, sem publicidade alguma.

Ele tem de partir por causa do censo. Já sabeis o restante: o nascimento no campo, a manjedoura à meia-noite. Escutai: “Enquanto, sob um céu puro e no silêncio da terra, a noite estava na metade do seu curso, em segredo, longe do tumulto dos homens, o Verbo eterno do Pai assume a natureza humana e aparece aos homens, enquanto nos céus ressoava o hino: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”.

Observemos as expressões: “No silêncio da terra, à noite, em segredo, longe do tumulto”. Eis aqui Deus.

E Deus age de igual maneira ao longo de toda a história evangélica: trinta anos de vida oculta; quando fala, não é para se anunciar, mas para dar testemunho do Pai; para semear seus ensinamentos, escolhe, de preferência, os humildes povoados à beira do caminho; quando vai ensinar coisas de maior profundidade, limita voluntariamente o seu auditório: Nicodemos e a mulher do poço de Jacó, o discurso antes e depois da Ceia. Quando mostra uma única vez algo de sua glória, não leva consigo mais do que três testemunhas. Se seus milagres podem granjear-lhe em excesso o favor das multidões, desaparece, como depois da multiplicação dos pães, ou manda guardar silêncio o agraciado. Recorre a seu poder de taumaturgo apenas para confirmar sua palavra. Os Apóstolos realizarão obras de mais brilho do que as suas.

Nada mais silencioso e, ao mesmo tempo, discreto do que a transubstanciação e a presença eucarística! Pronunciam-se algumas palavras, e a substância do pão já não existe. Jesus aí está sobre o altar, e na obscuridade do tabernáculo irá permanecer dia após dia, sem buscar atrair ruidosamente atenção! Se o vão visitar, é bom; mas, se não vai ninguém, tampouco reclama: tudo passa como se Ele não estivesse ali. Ter-se-ia notado alguma mudança no bairro, se o Salvador do mundo não se encontrasse ali abaixo, na igrejinha no fim da rua?

Levam uma criança à igreja. Vão-na batizar. O que significa isto? Que a SS. Trindade irá entrar nessa alma pequenina. Ouvi-o bem: a SS. Trindade, Deus, o Ser supremo, e no entanto quem pensa na importância desse ato?

Quando um rei, um imperador ou um chefe de Estado vai a uma cidade, quantos preparativos! quantas distinções! quanta gente em movimento! Mas aqui, nada.

Quanta discrição, por parte do Salvador, no governo da Igreja! No Evangelho, a grande personagem é o Pai. Uma vez concluída a Redenção, a grande personagem é o Espírito Santo, e já o dissemos antes: Spiritus docebit vos, “o Espírito vos há-de ensinar”. Nosso Senhor, como Mestre, “fracassa” com os Apóstolos. Depois de três anos de convívio, fogem todos no momento da agonia, um o trai, outro o nega. Será preciso que desça o Espírito Santo. Só então os medrosos do Horto das Oliveiras serão valentes e saberão enfrentar o martírio. Quanta sede tem Jesus de fazer-se pequeno, de evitar aparecer! Durante a sua vida, eclipsa-se diante do Pai; depois de sua morte, fa-lo-á diante do Espírito Santo.

Há mais, porém. A Igreja que Ele estabeleceu na terra e à qual confiou as chaves do Reino de Deus, não a irá governar senão por meio de outra pessoa; não aparecerá senão o seu Vigário. Ele está ali, evidentemente, por seu Espírito Santo, preservando a Igreja de todo erro, dando aos chefes escolhidos luz e força. Mas aqui também, quantas gentes passarão ao lado da Igreja de Jesus Cristo sem reconhecer a Jesus Cristo! E isso, sem dúvida, por culpa da insignificância ou da indignidade de um grande número de seus membros, mas também porque a boa semente nem sempre germina com êxito em meio à cizânia, e o Senhor estima, mais do que os brilhantes triunfos de uma divindade da Igreja que se imponha a todos, os humildes esforços de uma Igreja divina, cuja divindade aparece apenas aos que refletem mais ou aos que são mais puros.

Se esta é a maneira habitual de Deus agir, não será preciso tê-la em conta quando se trata de uma obra realizada nas profundezas da alma, ou seja, dos convites da graça?

Jesus ressuscitado entrou no Cenáculo sem que ruído algum denunciasse a sua chegada. Com maior razão, quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. Está a alma em estado de graça? Deus se encontra já no coração da praça. Ali, convida incessantemente à fidelidade. Não espereis estrépito, mas gemitus, dirá S. Paulo, uma humilde e silenciosa modulação o mais serena possível. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Ah! razão tem de sobra o autor [1] que descreve assim a ação de Deus em nossos corações: “Da mesma maneira que a água impregna a esponja docemente e sem ruído, o divino Espírito penetra sem violência na alma disposta a recebê-lo. Não se impõe; propõe-se. As visita forçadas repugnam à sua infinita delicadeza. Sua voz é doce, amiga do recolhimento e da paz. Para escutá-la, é preciso que se faça silêncio no interior”.

Referências

Notas

  1. O Pe. Augusto Drive, 4.º Diretor Geral do Apostolado da Oração, em seu excelente opúsculo Wes Dieu sous la conduite de Marie (nota do autor).

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Pornografia: um problema de saúde pública
Sociedade

Pornografia:
um problema de saúde pública

Pornografia: um problema de saúde pública

Finalmente a sociedade está se dando conta de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2019
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Enquanto uns poucos especialistas isolados, claramente comprometidos com certas agendas, insistem em defender a indústria pornográfica, o resto da sociedade está se dando conta rapidamente de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Mês passado, por exemplo, um relatório elaborado no Reino Unido descrevia como o consumo de pornografia estava transformando as escolas em “campos de batalha”, onde as meninas se sentem impelidas a comportar-se como atrizes pornô e os rapazes vêem a vida com base no lixo que consomem online. Testemunhos como este são norma entre os adolescentes:

Tudo o que a gente vê nas redes sociais está reforçando o que há de pior na “cultura jovem”. Imagens de mulheres em poses provocativas com mensagens do tipo: “É assim que toda mulher quer ser vista”… Um amigo meu queria que a namorada se vestisse como uma atriz pornô e fizesse o que faz uma atriz pornô. A pornografia está muito acessível. A gente vê rapazes assistindo a vídeos no celular dentro de sala de aula e até nos ônibus.

Além do que, outro grande estudo, divulgado mês passado, detalha a destruição causada na nossa cultura pela pornografia e confirma o consenso crescente de que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública. O estudo, que entrevistou 6.463 estudantes (2.633 homens e 3.830 mulheres), entre 18 e 26 anos, indica que quase 80% deles já foram expostos à pornografia (cifra que eu julgo até muito baixa). Os efeitos disto são enormemente preocupantes. Um dos resultados da pesquisa evidencia o que temos alertado há já algum tempo: a pornografia atua como uma droga, e os usuários tendem a procurar conteúdos cada vez mais pesados e hard-core, a fim de satisfazer o próprio vício. Eis o que o estudo diz:

Tolerância/intensificação: Os efeitos adversos mais comuns da pornografia, reconhecidos pelos próprios usuários, são: a necessidade de estímulos mais prolongados (12%) e de estímulos sexuais mais numerosos (17,6%) para poder chegar ao orgasmo, e uma diminuição do prazer sexual (24,5%) […]. O presente estudo também sugere que a exposição prematura pode estar associada a uma potencial dessensibilização a estímulos sexuais, como indicado pela necessidade de estímulos mais prolongados e numerosos para alcançar o orgasmo durante o consumo de material explícito, e também pelo decréscimo generalizado da satisfação sexual. Constataram-se ainda várias mudanças de padrão no consumo de pornografia durante o período de exposição: escolha de um gênero diferente de material explícito (46%), uso de materiais que não concordam com a própria orientação sexual (60,9%) e a necessidade de utilizar conteúdos mais extremos, isto é, violentos (32%).

Curiosamente, o estudo também chegou à conclusão de que 10,7% dos homens e 15,5% das mulheres confessaram assistir diariamente a filmes pornôs e reconheceram estar viciados, sem que haja, na prática, nenhuma diferença na taxa de adicção entre homens e mulheres. Via de regra, quem está viciado em pornografia demora para admitir que está com problema; por isso, é bastante alto o número de usuários dispostos a reconhecer que se sentem viciados em pornografia.

Mesmo entre os que não se consideram viciados, o estudo indica que são comuns sintomas típicos de abstinência: 51% já tentaram parar ao menos uma vez, dos quais 72,2% já experimentaram um ou mais sintomas de crise de abstinência, incluindo solidão, perda de libido, insônia, irritabilidade, ansiedade, tremedeiras, impulsos agressivos, depressão, sonhos eróticos e distúrbios de atenção.

Como era de esperar, quanto mais cedo uma pessoa é exposta à pornografia, maiores são as chances de ela sofrer alguns de seus efeitos negativos, sendo maiores as probabilidades entre os que foram expostos aos 12 anos ou antes. E tenhamos em mente que a idade média em que os jovens descobrem a pornografia continua a cair e encontra-se, atualmente, na faixa dos 11 anos. Os autores do estudos sugerem, cautelosos, que futuras pesquisas poderão indicar os prejuízos a longo prazo causados em adultos expostos à pornografia ainda muito cedo. Com efeito, a maioria dos participantes do estudo afirmou que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública, com muitas consequências negativas para a sociedade, mas se negou a apoiar qualquer política que restrinja o acesso a esse tipo de material. Os vícios, como toda a gente sabe, são difíceis de superar.

Como eu já disse antes e continuarei a dizer até as pessoas caírem em si: a pornografia é o inimigo número um das nossas comunidades, das nossas igrejas, das nossas famílias e dos nossos casamentos. Muitos cristãos têm treinado para as próximas batalhas nesta guerra cultural; muitas comunidades têm-se preparado para os perigos externos do totalitarismo secular. No entanto, a pornografia, infiltrando-se em nossos lares pelas telas de qualquer aparelho conectado à rede, está envenenando os relacionamentos e espaços de que vamos precisar, se quisermos sobreviver ao massacre cultural que enfrentaremos nos próximos anos.

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