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As origens sombrias da ideologia de gênero
Sociedade

As origens sombrias
da ideologia de gênero

As origens sombrias da ideologia de gênero

Esoterismo, racismo e discriminação: conheça as origens obscuras da agenda de gênero e saiba qual a ligação dessa teoria com a Ku Klux Klan, a maior organização racista dos Estados Unidos.

Massimo Introvigne,  La Nuova Bussola QuotidianaTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2015
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Recentemente, em sua coluna, Renzo Puccetti explicou, com riqueza de argumentos, por que é absurdo comparar a sentença da Suprema Corte dos Estados Unidos, que obriga os estados federados a introduzir o "matrimônio" homossexual, a decisões precedentes tomadas contra a discriminação racial, que declararam ilegítimas as limitações aos matrimônios entre americanos brancos e negros.

Gostaria de dar um passo a mais e devolver a acusação de racismo ao remetente. De fato, embora a informação tenha sido totalmente escondida e censurada, é a própria teoria do gênero que nasce e se desenvolve em ambientes racistas, chegando a estar relacionada com a organização racista por excelência dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan.

Em um artigo anterior, no qual respondia à falácia da moda, segundo a qual "a teoria de gênero não existe", trazia à luz as duas versões clássicas, às quais todos os futuros sequazes da gender theory fizeram referência. A primeira é a da filósofa francesa Simone de Beauvoir, para quem "não se nasce mulher, torna-se mulher" [1] e cada um – ainda que ela pensasse sobretudo nas mulheres – tem direito a escolher o próprio gênero, masculino ou feminino, independentemente do sexo biológico. Na segunda versão, teorizada por Judith Butler, o gênero absorve totalmente o sexo e cada um pode decidir que coisa quer ser em uma gama que já não prevê apenas duas possibilidades – homem ou mulher –, mas três, cinco, cinquenta ou infinitas.

É possível traçar ainda um outro itinerário, que a partir de Beauvoir e Butler não segue adiante, mas vai para trás. A teoria do gênero não teria nascido sem uma série de precursores que formularam, muitos anos antes, versões que podemos chamar de prototípicas, ainda que não fossem tão sofisticadas e radicais como as de Butler. A principal dessas proto-teóricas do gênero é a americana Margaret Sanger (1879-1966). Comparadas com as teorias posteriores, as ideias de Sanger parecem ser até moderadas. Mas, sem ela, não existiriam as futuras teorias do gênero.

As biografias oficiais de Sanger apresentam-na como uma heroína feminista que, movida por compaixão para com as mulheres que morriam de parto depois do décimo filho recorrendo a perigosos abortos clandestinos, dedicou a sua vida à propaganda dos anticoncepcionais, aceitando até a prisão e o exílio. Mas a sua verdadeira história é um pouco diferente.

Não se pode compreender Margaret Sanger prescindindo de seus interesses esotéricos. Sanger parte das ideias da Sociedade Teosófica. Em 1936, ela é convidada a falar à sede mundial dessa sociedade, em Adyar, na Índia. O seu discurso, publicado no órgão da Sociedade Teosófica, The Theosophist, explica exatamente a relação entre a sua teoria do feminismo e do gênero e a sua interpretação das doutrinas teosóficas.

Ainda que muito estudada hoje em dia, particularmente pela influência crucial que teve na arte moderna através de pintores do calibre de Kandinsky e Mondrian, a Sociedade Teosófica talvez deva ser brevemente apresentada aos não especialistas. Ela foi fundada em 1875, em Nova Iorque, pelo coronel e advogado americano Henry Stell Olcott e por uma das mais importantes figuras da história do esoterismo, a nobre russa Helena Petrovna Blavatsky. A sua doutrina central é que, com a ajuda dos Mestres, os quais não são espíritos, mas homens particularmente evoluídos que vivem por centenas de anos e residem em um centro misterioso entre a Índia e o Tibete, a humanidade – a qual, no seu estado atual, é o resultado de um processo cósmico de decadência com elementos claramente gnósticos – é chamada a um processo de evolução. Isso se dá através do progressivo aparecimento na Terra de sete raças-raiz, cada uma dividida em sete sub-raças. Segundo Blavatsky, em seu tempo se estava na vigília do aparecimento da sexta sub-raça da quinta raça-raiz, espiritualmente superior à precedente e que se teria manifestado nos Estados Unidos.

Esclareçamos de pronto um equívoco, difundido na literatura não especializada. A teoria das raças-raiz de Blavatsky é aberta a várias interpretações, mas a Sociedade Teosófica condenou todas as interpretações de tipo racista, afirmando que as diversas "raças" deveriam, em todo caso, colaborar harmoniosamente entre si. Todavia, as interpretações racistas existem, ainda que a Sociedade Teosófica as tenha denunciado como errôneas. Na Alemanha, desenvolveu-se no início do século XX uma corrente chamada "ariosofia", que interpreta a teoria teosófica das raças na base de um primado racista da raça ariana. Um ávido leitor das publicações "ariosóficas" na Áustria era um rapaz chamado Adolf Hitler. A própria Sanger, como se sabe da leitura dos diários de personalidades teosóficas da época, não foi particularmente bem acolhida em Adyar, ainda que sua conferência esteja publicada na revista da Sociedade Teosófica. Tampouco sua interpretação da "raça nova" correspondia, de fato, àquela da direção teosófica oficial.

Margaret Sanger.

Resta o fato de que, na base de especulações esotéricas, Sanger pensava que estava para surgir uma nova raça, superior às precedentes e que se manifestaria nos Estados Unidos. Que tem a ver tudo isso com o gênero? A própria Sanger explica. As suas ideias de tipo gnóstico levaram-na à convicção de que a diferença sexual entre homem e mulher era algo de mau, assim como o modo como as mulheres traziam os filhos ao mundo. Seriam consequências de um processo de degeneração e não existiriam na idade de ouro originária, aquela do andrógino, ou seja, de uma pessoa humana na qual coexistiriam os caracteres masculinos e femininos e formas de geração diferentes do parto. Libertar a mulher com os anticoncepcionais do seu papel de mãe seria o primeiro passo para permitir às mulheres – e consequentemente também aos homens – que escolhessem o próprio gênero, quem e que coisa gostariam de ser, iniciando um processo de retorno ao andrógino originário. Não se trata ainda da teoria de gênero como a conhecemos hoje, mas já é o seu núcleo fundamental.

nova raça em marcha rumo à superação do sexo biológico poderia emergir, continuava Sanger, só onde a humanidade fosse intelectual e culturalmente mais avançada: na América, e entre os americanos brancos e de origem nórdica e europeia. Dos inúmeros imigrantes italianos Sanger não tinha uma boa opinião. "Os negros e os europeus do sul – escrevia – são intelectualmente inferiores aos americanos nativos": uma expressão que o movimento "nativista" utilizava para excluir do número dos "verdadeiros americanos" os imigrantes vindos da Itália. Em uma famosa citação, Sanger comparava os afroamericanos a uma "erva daninha a extirpar", através de uma severa política de eugenia que deveria incluir a esterilização forçada. Quanto aos aborígenes australianos, considerava-os "apenas um grau acima dos chimpanzés". Certamente, eram muitos os defensores da teoria das raças e da eugenia, mas apenas Margaret Sanger ligava a eugenia ao gênero: extirpada a erva daninha, a "raça nova" poderia finalmente emergir na marcha rumo à androginia e à superação da escravatura biológica da diferenciação sexual.

Mal acolhida pela Sociedade Teosófica, Sanger encontrou terreno fértil para suas ideias na Ku Klux Klan, a organização americana criada para perpetuar a discriminação racial contra os afroamericanos e ao mesmo tempo – o que geralmente se omite – para propagar um anticatolicismo feroz com base no mito da América "branca, anglo-saxã e protestante" (WASP, na sigla em inglês). Muitos filmes apresentam a Ku Klux Klan como uma organização masculina. Os historiadores – a partir da obra fundamental de Kathleen Blee, Women of the Klan ["Mulheres do Klan"] – têm feito notar que, na KKK "histórica", do período entre guerras, as mulheres tiveram, na verdade, um papel essencial.

Margaret Sanger colaborou com a Ku Klux Klan, aperfeiçoou suas ideias sobre raça e gênero em diálogo com as mulheres do Klan e falou com frequência a um público entusiasmado de ativistas da organização racista encapuzadas e aplaudentes. Algumas fotografias que podem ser encontradas na Internet representando Sanger em diálogo com o Klan são falsas, confeccionadas com Photoshop. As reuniões do Klan eram secretas e as fotografias são raras. Mas, para confirmar a ligação entre Sanger e a KKK, incluindo conferências a mulheres encapuzadas, não é preciso reportar-se aos seus críticos ou aos críticos da teoria do gênero. Ela mesma o conta em sua autobiografia, minimizando e justificando, certamente, mas admitindo a relação e falando de "dezenas" de convites por parte da Ku Klux Klan.

Alguém poderia objetar citando atitudes hostis aos homossexuais por parte da Ku Klux Klan. Outros poderiam replicar citando os nomes de um certo número de dirigentes do Klan e de organizações coligadas que eram homossexuais ou bissexuais. Mas é um debate que nos levaria muito longe. O tema deste artigo, de fato, é outro. Quis mostrar como a formulação arquetípica da teoria do gênero, a de Margaret Sanger, nasce de uma interpretação desviada – e não compartilhada pela grande maioria dos teósofos – de ideias sobre a raça da Sociedade Teosófica e nasce em diálogo com o racismo americano representado pela Ku Klux Klan. A ideia central é que essa na qual se pode escolher se se é homem ou mulher é uma nova humanidade, uma "raça nova" que poderá nascer somente entre a elite iluminada "branca, anglo-saxã e protestante" e não entre os negros, os "europeus do sul" e os católicos, "intelectualmente inferiores" e destinados a ser extirpados como erva daninha. Desapareceram essas ideias racistas entre os defensores do gênero? Olhando o ar de superioridade com o qual eles atacam manifestações como a da Praça San Giovanni e a chamam de "medievais", eu não me permitiria estar tão seguro disso [2].

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O incontestável primado de São Pedro
Doutrina

O incontestável primado de São Pedro

O incontestável primado de São Pedro

Não cabe dúvida alguma. Manifestamente, São Pedro aparece nos Evangelhos como o Apóstolo principal: entre os seus companheiros gozava de uma preeminência incontestável.

Pe. Leonel Franca18 de Julho de 2018
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A promessa e a entrega do primado a Pedro não é um fato isolado no Evangelho. Toda a narração histórica do ministério de Cristo conspira em atribuir no colégio dos Doze um lugar de preeminência ao futuro chefe da Igreja. Dir-se-ia que os evangelistas, tão sóbrios em informações sobre os outros Apóstolos, não perdem a oportunidade de falar de Pedro, de referir suas palavras, de registrar os sinais de predileção com que o distinguia o Salvador [1].

Pela primeira vez apresenta-se a Cristo o humilde pescador da Galileia: “Tu és Simão”, diz-lhe Jesus, “tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra” (Jo 1, 42). Era a imposição de um nome novo, conforme o costume de Deus [2], rica de significados e de promessas.

Durante sua pregação apostólica, é a barca de Pedro a preferida por Cristo para doutrinar as turbas (cf. Lc 5, 1-4); se se demora em Cafarnaum, na casa de Pedro é que se hospeda (cf. Mt 8, 14; Mc 1, 29; Lc 4, 38); é Pedro quem, quase sempre, fala em nome dos Apóstolos; é a Pedro, como o principal do grupo, que se dirigem os coletores de impostos para saber se o Mestre pagava o tributo do Templo, e Jesus paga a taxa legal por si e por Pedro (cf. Mt 17, 24-27).

Ao escrever suas memórias, em tempos posteriores, são os próprios evangelistas que se empenham em salientar este lugar preponderante de Simão no colégio apostólico. Quatro catálogos dos Apóstolos oferece-nos o Novo Testamento (cf. Mt 10, 2-4; Mc 3, 16-19; Lc 6, 14-16; At 1, 13). A ordem em que se sucedem os outros nomes varia de um para outro; mas em todos eles, assim como Judas, o traidor fecha sempre a enumeração, assim também Pedro, invariavelmente, ocupa o primeiro lugar: o lugar de honra.

Nem é casual coincidência. S. Mateus observa expressamente: “Primeiro, Simão que se chama Pedro”. Primeiro em quê? Em idade? Nenhum indício positivo o insinua, nem a velhice foi certamente o critério adotado pelos historiadores sagrados, que alteram a ordem dos outros nomes e mencionam João antes de outros Apóstolos mais idosos. Prioridade de vocação? Tampouco. A eleição para o apostolado foi simultânea para os Doze (cf. Mt 10, 1; Mc 3, 13-15). A vocação inicial de Pedro para discípulo, se foi anterior à de muitos Apóstolos, não foi absolutamente a primeira. André e outro discípulo seguiram antes os passos do Messias (cf. Jo 1, 35-42). Um segundo chamado de Cristo feito nas bordas do lago Tiberíades e narrado pelos Sinóticos apresenta para os quatro Apóstolos Simão, André, João e Tiago uma simultaneidade moral que não permite estabelecer nenhuma prioridade cronológica.

Voltemos ainda ao ministério de Cristo. Quando, nas circunstâncias mais solenes de sua vida — na ressurreição da filha de Jairo, manifestação de sua onipotência; na Transfiguração do Tabor, irradiação de sua glória; na agonia do jardim das oliveiras, mistério de suas dores —, Jesus escolhe como testemunhas a três dos seus Apóstolos, Pedro é ainda invariavelmente nomeado em primeiro lugar (cf. Mc 5, 37; 9, 12; 14, 33 e lugares paralelos). Às vezes todo o colégio apostólico é compreendido pelo historiador sagrado numa expressão coletiva; só Pedro é singularmente designado: “Pedro e os que o acompanhavam” (Mc 1, 36), nem mais nem menos como dizem de um rei e o seu séquito, de um chefe militar e de sua escolta: “Davi e os que o seguiam” (Mc 2, 25); “O centurião e os que o  acompanhavam” (Mt 27, 54) [3].

Não cabe, pois, dúvida alguma. Manifestamente, S. Pedro aparece-nos como o Apóstolo principal: entre os seus companheiros gozava de uma preeminência incontestável. Era este um simples fato ou também um direito? Era uma simples ascendência moral, devida às qualidades do seu caráter e análoga ao “primado moral que exercem espontaneamente os leaders das câmaras deliberativas, ou os deputados que se impõem pelo seu caráter e influência”? Ou era, pelo contrário, uma superioridade querida por Cristo, sancionada por livre vontade, firmada nas suas promessas? Abramos o Evangelho e saibamos ler.

Evidentemente, não se deve falar aqui de uma supremacia de jurisdição efetivamente exercida por Pedro durante a vida mortal do divino Mestre. Jesus, vivo e presente entre os discípulos, era o seu único e natural superior. O que importa determinar é se Cristo havia prometido um verdadeiro primado de jurisdição a algum dos Doze e se as expressões registradas pelos evangelistas não são mais do que os reflexos dos raios desta futura primazia.

“Impossível”, dizem os adversários do Papado que, sem perder tempo, já o querem impugnar no primeiro dos papas. “Uma ascendência jurídica prometida pelo Mestre”, continuam, “não se concilia com as brigas dos discípulos sobre qual deles era o maior, menos ainda se harmoniza com os ensinamentos explícitos do Salvador, que condena qualquer prelazia no colégio apostólico”.

Um fato e uma doutrina — eis o que nos opõem. Analisemos o fato e expliquemos a doutrina.

O fato: a disputa pelos primeiros lugares

Como harmonizar a disputa dos discípulos com a promessa de uma primazia feita por Cristo a Pedro? Uma questão resolvida pelo Salvador podia ainda ser objeto de controvérsia entre os Doze? Seria necessário não conhecer a rudeza dos Apóstolos para ver aí uma séria dificuldade. Quantos ensinamentos ouviram eles, claros, repetidos uma e muitas vezes, sem compreender! Quantas vezes não insistiu o Messias no caráter espiritual do seu reino! E poucos momentos antes da Ascensão não se sai um dos discípulos com a pergunta impertinente: “É agora, Senhor, que ides restituir o reino de Israel?” (At 1, 6).

“Cristo aparece a S. Pedro na via Ápia”, por Annibale Carracci.

Haverá no Evangelho profecia menos equívoca, mais compreensível, mais repetida pelo Salvador, que a de sua Paixão e Morte? “É necessário que o Filho do Homem sofra, que seja reprovado pelos anciãos, príncipes dos sacerdotes e escribas, que seja morto e ao terceiro dia ressuscite” (Lc 9, 22.44; 18, 31-33). A predição foi renovada insistentemente em outras ocasiões, iluminada em mil lugares diversos. Mas aquelas almas rudes, que sonhavam com os triunfos temporais do messianismo popular, eram resistentes ao escândalo da cruz. Quando se realizaram os prenúncios do Mestre, perturbadas e abatidas, no que deveria ser um reforço de prova da divindade do Messias viram só o naufrágio de todas as suas esperanças. A mensagem pascal da Ressurreição encontrou-os ainda humilhados e incrédulos: “Stulti et tardi corde ad credendum” — “Ó estultos e lentos do coração para crer” (Lc 24, 25).

No nosso caso, a explicação é ainda mais simples. As palavras de Cristo a Pedro (cf. Mt 16, 18s) continham apenas, como veremos, uma promessa. Seguiu-as, logo em seguida, uma grave repreensão do Senhor ao mesmo Apóstolo, que, voltando a pensamentos humanos, tentava dissuadi-lo das humilhações da cruz. O que seria mais natural, portanto, do que pensarem os outros que se tratava apenas de uma promessa condicionada, revogada logo pela severa repreensão de Cristo? A sucessão do primado achava-se, assim, novamente aberta às suas ambiciosas esperanças.

Oh! Como transparece aqui a psicologia da nossa frágil natureza humana! Somos espontaneamente inclinados a crer em tudo quanto agrada e lisonjeia as nossas ambições secretas. A mesma evidência, quando contraria os sonhos dos nossos íntimos desejos, não consegue entrar-nos na alma. Imbuídos de preconceitos judaicos sobre a temporalidade do reino messiânico, os discípulos alimentavam com amor a esperança das honras e do poderio terreno. Preferidos aos demais pelo Messias, nenhum, talvez, havia entre eles que, de si para si, não tivesse sonhado com alguma dignidade futura, com alguma “pasta ministerial” do reino restaurado de Davi. E um dia, quando a mãe de João e Tiago, na simplicidade indelicada do seu afeto materno, ousou abertamente pedir ao Senhor que reservasse para os filhos os dois primeiros lugares ao lado do seu trono, levantou-se entre os companheiros um rumor geral de indignação e protesto (cf. Mt 20, 24). A petição imprudente ferira vivamente as ambições rivais que mais de um nutria com secreta complacência.

Não surpreende, pois, que as promessas do primado, encontrando naquelas almas ainda não visitadas pelo divino Espírito tão resistente barreira psicológica, fossem pouco a pouco negligenciadas e esquecidas a ponto de, ainda na Última Ceia, se acenderem novamente entre os discípulos discussões sobre o primado. Descerá mais tarde sobre eles o Espírito Santo, Espírito de verdade e de amor, de luz e de caridade, prometido por Cristo aos seus Apóstolos para sugerir-lhes tudo quanto “lhes havia ensinado”. Depois da vinda do Paráclito já não haverá entre os Doze rivalidades nem brigas sobre “qual deles será o maior”. Apóstolos e fiéis serão um só coração e uma só alma sob o poder supremo de Pedro.

A doutrina: Jesus condena a prelazia no colégio apostólico?

Mais simples ainda é a explicação da doutrina de Cristo. Entre os gentios, os reis exercem dominação sobre os súditos. Entre vós não há de ser assim; antes, o que é maior entre vós faça-se como o mais pequeno e o que manda [logo, há de haver quem manda!] como o que serve (Lc 22, 25-26) [4]. Por acaso quis Cristo, com estas palavras, excluir qualquer jurisdição entre os Apóstolos? De modo nenhum. O que elas contêm, sim, é um ensinamento novo, um ensinamento profundo sobre a noção de autoridade.

Para os pagãos, a soberania era uma ostentação honorífica, uma distinção mundana, uma dominação férrea sobre os súditos escravizados. Nada disso há de ser o poder em mãos cristãs. A autoridade é um ministério, um serviço público: é, antes de tudo, um dever, o dever de consagrar-se como servo ao bem comum dos governados. Longe, pois, a ostentação; longe as honrarias vãs que só lisonjeiam a vaidade e o orgulho de quem as recebe. O autoritarismo pagão, isto é, a pretensão de impor a todo custo o próprio capricho, deve ceder o lugar à verdadeira autoridade, que só tem razão de ser nas necessidades e exigências do bem público [5]. Eis o novo e profundo conceito ensinado pelo divino Mestre.

Equivalem estas palavras a eliminar o poder de jurisdição numa sociedade legitimamente constituída? Já o dissemos: de modo nenhum. Quereis a prova? Lede alguns versículos abaixo e vereis que Cristo promete aos Doze uma situação privilegiada entre os fiéis: os Doze se assentarão um dia em doze tronos para julgar as tribos de Israel (cf. Lc 22, 30). Continuai a ler algumas linhas e ouvireis o mesmo Cristo conferir a um só a missão de confirmar os seus irmãos na fé (Cf. Lc 22, 32). É uma autoridade no sentido cristão da palavra: um ministério para o bem público dos fiéis. E, no entanto, é uma prerrogativa concedida a um só. O discípulo privilegiado é Pedro.

Duvidais ainda? No mesmo trecho de S. Lucas, a fim de exemplificar a lição que acabara de dar, Jesus aplica a si mesmo a regra da humildade: “Qual é maior, o que está à mesa ou o que serve? Não é porventura o que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22, 27). O Jesus que assim fala é o mesmo que afirmou categoricamente: “Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem: porque o sou” (Jo 13, 13). Dirá agora o nosso protestante que no Filho de Deus não havia verdadeira autoridade, mas só “a superioridade moral do mais humilde”?

A supremacia de Pedro no colégio apostólico é, portanto, uma realidade evidente. Só uma investidura assegurada pela promessa de Cristo pode explicar como, no seio das ambições rivais dos discípulos, Pedro gozasse daquela preeminência atestada unanimemente por toda a história da vida de Jesus. Reconhece-o a própria crítica liberal de Alfred Loisy:

Entre os Doze, havia um que era o primeiro, não apenas por conta da prioridade de sua conversão ou do ardor de seu zelo, mas devido a uma espécie de nomeação do Mestre, que foi aceita e cujas consequências se fazem ainda sentir na história da comunidade apostólica. Esta foi uma situação, de fato, criada aparentemente pelos agitados momentos do ministério galileu, mas que, pouco antes da Paixão, se figura como aceita e ratificada por Jesus [6].

Ainda que não houvesse outros motivos, já nos seria lícito supor com grande probabilidade uma designação de Pedro para futuro chefe da Igreja, feita pessoalmente pelo próprio Salvador. Mas temos textos formais e explícitos que excluem toda a dúvida.

O que até aqui dissemos tem por finalidade ilustrar a verossimilhança desta promessa, deduzida de toda a narração evangélica e, ao mesmo tempo, mostrar como a perícope de S. Mateus que passaremos logo a estudar (cf. Mt 16, 16-19), longe de se achar “em manifesto antagonismo com todo o Novo Testamento” ou “bloqueada pelo silêncio universal das Escrituras Sagradas”, enquadra-se muito naturalmente contexto geral dos evangelhos, formando um todo harmônico, homogêneo e coerente.

Notas

  1. S. Pedro é nomeado no Novo Testamento 171 vezes; depois vem S. João, 46 vezes. A observação é de Vladimir Soloviev (cf. La Russie et l'Église universelle, Paris, 1889, p. 154, nota 2), o maior filósofo russo do século passado, convertido ao catolicismo.
  2. Três vêzes em toda a Escritura mudou Deus o nome dos homens e em todas três se tratava de elevar um particular à dignidade de chefe dos eleitos. Mudou-o a Abraão, “quia patrem multaram gentium constitui te” (Gn 17, 5); mudou-o a Jacó, “appellavit eum Israel dixitque ei... Gentes et populi nationum ex te erunt” (Gn 35, 10). Mudou-o finalmente a Pedro: “Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam” (Mt 16, 18).
  3. Simon et qui cum illo erant” (Mc 1, 36); “David et qui cum eo erant” (Mc 2, 25); “Centurio et qui cum eo erant” (Mt 27, 54); cf. Lc 8, 45; 9, 32; At 2, 14; 5, 29; Mc 16, 7.
  4. Na hipótese protestante, Cristo houvera posto muito mais simplesmente termo à contenda entre os discípulos, dizendo-lhes: sereis todos iguais. Em vez, porém, de insinuar a paridade, Cristo insiste sobre a primazia: o que é maior. E aduz a comparação consigo mesmo.
  5. A S. Pedro aproveitou a lição divina de Jesus. Vede como ele nos descreve o múnus do superior eclesiástico: “Apascentai o rebanho de Cristo que vos foi confiado, tende cuidado nele, não por força, mas espontaneamente segundo Deus, nem por amor do lucro vergonhoso, mas de boa vontade, nem como se quisésseis ter domínio sobre a herança do Senhor, mas fazendo-vos de boa vontade o modelo do rebanho. E quando aparecer o príncipe dos pastores recebereis a coroa incorruptível da glória” (1Pe 5, 2-4).
  6. Alfred Loisy, L’Évangile et l’Église, Paris, 1902, p. 90.

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A assombrosa luta épica entre o Padre Pio e Satanás
Santos & Mártires

A assombrosa luta épica
entre o Padre Pio e Satanás

A assombrosa luta épica entre o Padre Pio e Satanás

O demônio tenta a todos os cristãos, mas “o caso do Padre Pio é especial porque sua luta não era apenas espiritual, mas tinha também momentos extremamente físicos”.

Pablo J. Ginés,  Religión en LibertadTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Julho de 2018
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A história do Padre Pio contra o demônio “é uma saga épica, um corpo a corpo entre um monge e seu adversário” — palavras do veterano vaticanista Marco Tosatti, autor de Padre Pio contro Satana: la battaglia finale (ainda sem tradução para o português).

A fonte principal do jornalista foram as cartas das pessoas que conheceram o santo de Pietrelcina e as que este escrevia, bem como todos os textos da Positio para a sua canonização.

Por ocasião do lançamento de uma versão espanhola do livro, o site Religión en Libertad pôde conversar um pouco com Tosatti a respeito da importância do santo e de sua luta peculiar, única, com o Maligno.

Marco Tosatti explica a importância “épica” da luta do Padre Pio para a nossa época.

— Por que é tão popular e relevante a figura do Padre Pio de Pietrelcina?

— Sem dúvida, na Itália ele é um dos santos mais amado pelo povo. É difícil entrar em uma loja, em um restaurante, em um lugar público e não encontrar imagens dele. Creio que isso se deve a que o Padre Pio é um dos santos da história que mais graças e intercessões realizou.

Li os oito volumes da Positio, a compilação de documentos sobre ele que serviram para o processo de canonização, e existem centenas de testemunhos de pessoas, da Itália e de outros países, que receberam favores extraordinários. Foi protagonista de fenômenos assombrosos: bilocação, curas, leitura de almas com um simples olhar e coisas do tipo… Isto o torna extraordinário, diferente dos outros santos, e muito popular. Ao redor de todo o mundo se criam hoje grupos de oração inspirados no Padre Pio.

— E o que tem de especial a relação do Padre Pio com o demônio? Afinal de contas, o demônio não tenta a todos os cristãos?

— O caso do Padre Pio é especial porque sua luta não era apenas espiritual, mas tinha também momentos extremamente físicos. Tanto é que os frades que com ele viviam escutavam os barulhos da luta vindos de sua cela e, na manhã seguinte, encontravam os ferros da cama retorcidos, como se uma força sobrenatural os tivesse dobrado. Viam ainda o Padre Pio com contusões e golpes, como se o tivessem espancado.

O superior chegou a pedir-lhe, quando ele ainda era um jovem frade, antes de ser enviado a San Giovanni Rotondo, que rezasse ao Senhor pedindo que não permitisse ao demônio fazer tantos ruídos, já que os outros irmãos ficavam apavorados. Era algo muito visível. Isso acontecia com o Padre Pio quando ele lutava para arrancar almas das mãos do demônio. De fato, houve muitos santos que lutaram com o demônio, mas o Padre Pio é especial porque sua luta foi contínua, física, evidente, a ponto de a verem inclusive outras pessoas…

Além disso, do meu ponto de vista enquanto jornalista e escritor, vejo como épica a batalha entre o Padre Pio e o demônio, a qual, encarada até mesmo sem a perspectiva da fé, se reveste de um valor literário muito grande. E isso desde que ele era criança, quando teve a visão de um homem muito grande, um homem perverso, que era o demônio e queria combatê-lo.

— O que significa para nós, para os nossos tempos, esta experiência do Padre Pio?

— Não sou um milenarista, mas acredito, sim, que é possível estarmos em uma época especial. A Virgem de Fátima dizia que nos encontramos em uma batalha decisiva entre as forças do bem e o demônio, forças que atacam a família e os valores naturais básicos. Parece que Deus quer, por meio do Padre Pio, dar um sinal de que esta batalha já começou e é também sobrenatural.

— Mas os pecados sexuais, pessoas com uma vida familiar ruim, maus pais, adultérios… Tudo isso sempre existiu. Qual é, então, a novidade?

— Sim, pecados sexuais e contra a família sempre existiram; mas, por exemplo, quando havia algum Papa ruim, pérfido, criminoso, como Alexandre Borgia, ele cometia essas coisas, mas não alterava a doutrina, não dizia que esses pecados eram normais. A novidade dos últimos séculos é o individualismo desenfreado, que busca não só pôr a fé em dúvida, mas ainda convencer o homem de que ele é seu próprio “legislador”, seu próprio “deus”, que não precisa descobrir o bem para cumpri-lo, pois pode criar para si mesmo sua própria “lei”.

— Seu livro contém uma segunda parte com exemplos de outros santos que tiveram também um contato muito próximo com o demônio, como Eustáquia de Pádua, Cristina de Stommeln e Mariam Baouardy. Por quê?

— São santos que selecionei porque creio ilustrarem que, embora tenha um amplo campo de ação, o demônio está limitado por Deus. Por exemplo, o que sabemos de Mariam Baouardy está atestado em documentação científica da época. Assim como muito do que sabemos sobre o Padre Pio. É como se o mundo quisesse fechar os olhos para o sobrenatural, mas o sobrenatural não se deixa esconder. Vemos que Deus se serve do demônio, de forma misteriosa, como um instrumento, um instrumento estranho, vá lá, mas que serve à santificação das pessoas.

Vemos gente de grande santidade pessoal, mas que sofre sob o poder do demônio, às vezes até mesmo possessos, durante um tempo, embora mantendo-se livres na alma e na vontade. Sempre me chamou a atenção a familiaridade com que o demônio, no Livro de Jó, se aproxima do trono de Deus, e Ele o recebe tranquilamente, e conversam… O demônio não passa de outro instrumento de Deus!

— Do mal Deus tira coisas boas. É um mistério…

— Sim, é um mistério. É como ver um bordado pela parte de trás: parece-nos um caos, um emaranhado de fios e cores. Mas o bordador, que o vê de cima, costurando o desenho, sabe bem o que faz.

— Nas últimas décadas, multiplicou-se o número de exorcistas na Igreja Católica, com cursos, formações, e eles se mantêm em contato pela internet.

— Sim, dado que o povo tem pedido exorcistas com insistência… Escrevi um livro de entrevistas com o padre Amorth (Memórias de um exorcista, 2010). Ele me explicou que há trinta anos, na França, Bélgica, Áustria e Alemanha, não havia um único exorcista. Os bispos não acreditavam no demônio. Mas viram tantos casos, tantos pedidos, que agora há quatro exorcistas em Turim, vários em Paris… Sem contar esses cursos para centenas de sacerdotes, que chegam até os Estados Unidos.

— E há algo que estejamos aprendendo, algo de novo sobre o diabo no século XXI?

O demônio está sempre à procura de almas, disse-me o padre Amorth. E essa é a sua grande batalha. Mas ele faz o seu principal trabalho sem chamar atenção, de forma ordinária. O diabo não quer se manifestar. Inclusive para os exorcistas é difícil discernir muitos casos, porque demônio tenta se ocultar. Isso é interessante. Já dizia Baudelaire: a melhor estratégia do demônio é fazer-nos crer que ele não existe.

— Mas tampouco é saudável enxergar o demônio em todo e qualquer lugar…

— De fato, é preciso manter um equilíbrio. O padre Amorth dizia: “De todos os que me procuram com problemas, apenas um por cento precisa mesmo de um exorcista”. Creio que essa é a medida. Sim, o demônio trabalha de forma ordinária e eficaz, sem fenômenos extraordinários, mediante as guerras, o ódio, destruindo as famílias, com o aborto… Também aí precisamos estar presentes.

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Nossa Senhora do Carmo, padroeira e mestra da vida interior
Espiritualidade

Nossa Senhora do Carmo,
padroeira e mestra da vida interior

Nossa Senhora do Carmo, padroeira e mestra da vida interior

Os que desejam viver plenamente a devoção a Nossa Senhora do Carmo devem seguir Maria nas profundezas da sua vida interior.

Pe. Gabriel de S. M.ª Madalena16 de Julho de 2018
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Ó Maria, formosura do Carmelo, tornai-me digno da vossa proteção, revesti-me com a vossa veste, sede a mestra da minha vida interior.

A Santíssima Virgem é a Mãe que nos reveste de graça, que toma sob a sua proteção a nossa vida sobrenatural até garantir o seu pleno desabrochar na vida eterna. Ela, a toda pura, cheia de graça desde o primeiro instante da sua conceição, toma as nossas almas manchadas pelo pecado, e com um gesto maternal, lava-as no Sangue de Cristo, reveste-as da graça que, juntamente com Ele, nos mereceu. Bem podemos dizer que a veste da graça foi tecida pelas mãos benditas de Maria que, dia a dia, momento a momento, se deu inteiramente a si mesma, em união com o seu Filho, pela nossa redenção.

A lenda fala da túnica inconsútil que a Virgem teceu para Jesus; mas para nós fez realmente muito mais: cooperou para nos conseguir a veste da nossa salvação eterna, veste nupcial com que seremos introduzidos na sala do banquete celeste. Oh! como Ela quereria que esta veste fosse imperecível! Desde o momento em que a recebemos, Maria nunca deixou de nos seguir com o seu olhar maternal para proteger em nós a vida da graça. Cada vez que nos convertemos a Deus, nos levantamos de uma culpa — grande ou pequena — ou progredimos na graça, sempre o fazemos por intermédio de Maria.

O escapulário que a Senhora do Carmo nos oferece não é mais do que o símbolo exterior desta sua incessante solicitude maternal; símbolo, mas também sinal e penhor de salvação eterna. “Recebe, amado filho — disse a Virgem a S. Simão Stock — este escapulário… quem morrer com ele não padecerá o fogo eterno”. A Virgem assegura a graça suprema da perseverança final a todos os que usarem dignamente o seu escapulário.

“Quem usa o escapulário — disse Pio XII — faz profissão de pertencer a Nossa Senhora”; precisamente por lhe pertencermos, a Virgem tem um cuidado especialíssimo com as nossas almas: o que é seu não se pode perder, não pode ser tocado pelo fogo eterno. A sua poderosa intercessão maternal dá-lhe direito a repetir em nosso favor as palavras de Jesus: “Pai Santo... conservei os que me deste e nenhum deles se perdeu” (Jo 17, 12).

A devoção à Virgem do Carmo é também um premente apelo à vida interior, a essa vida que foi de modo especialíssimo a vida de Maria. A Virgem quer que sejamos muito mais semelhantes a Ela no coração e no espírito do que no hábito exterior. Se penetrássemos na alma de Maria, veríamos que a graça produziu nEla uma imensa riqueza de vida interior: vida de recolhimento, de oração, de ininterrupta doação a Deus, de contato contínuo, de união íntima com Ele. A alma de Maria é um santuário reservado só para Deus, onde nenhuma criatura humana jamais imprimiu a sua forma, onde reina o amor e o zelo pela glória de Deus e pela salvação dos homens.

“Nossa Senhora do Monte Carmelo”, por Pietro Novelli.

Os que desejam viver plenamente a devoção a Nossa Senhora do Carmo devem seguir Maria nas profundezas da sua vida interior. O Carmelo é o símbolo da vida contemplativa, vida toda dedicada à busca de Deus, toda dirigida para a intimidade divina; e quem melhor realizou este ideal altíssimo foi a Virgem, Regina decor Carmeli. “No deserto habitará a equidade, e a justiça terá o seu assento no Carmelo. A paz será a obra da justiça e o fruto da justiça é o silêncio e a segurança para sempre. O meu povo repousará na mansão da paz, nos tabernáculos da confiança”.

Estes versículos de Isaías (cf. 32, 16-18) reproduzidos no Ofício próprio de Nossa Senhora do Monte Carmelo esboçam muito bem o espírito contemplativo e são, ao mesmo tempo, um belo retrato da alma de Maria, verdadeiro “jardim” (Carmelo em hebreu significa jardim) de virtudes, oásis de silêncio e de paz, onde reina a justiça e a equidade, oásis de segurança, todo envolto na sombra de Deus, todo cheio de Deus.

Toda a alma de vida interior, embora vivendo no meio do ruído do mundo, há-de esforçar-se por alcançar esta paz, este silêncio interior que tornam possível o contato contínuo com Deus. São as paixões e os apegos que fazem barulho dentro de nós, perturbando a paz do nosso espírito e interrompendo o trato íntimo com o Senhor. Só a alma completamente desprendida e que domina inteiramente as suas paixões, poderá, como Maria, ser um “jardim” solitário e silencioso, onde o Senhor encontre as Suas delícias. É esta a graça que hoje devemos pedir à Senhora, escolhendo-a para padroeira e mestra da nossa vida interior.

Colóquio — “Ó Maria, flor do Carmelo, vinha florida, esplendor do céu, Virgem fecunda e singular, Mãe bondosa e intacta, aos vossos filhos dai privilégios, Estrela do mar!” (S. Simão Stock).

“Ó Virgem bendita, quem vos invocou nas suas necessidades, sem que tenha recebido o vosso socorro? Nós, vossos pobres servos, regozijamo-nos convosco por todas as vossas virtudes, mas pela vossa misericórdia regozijamo-nos conosco. Louvamos a virgindade, admiramos a humildade, mas para quem é miserável, a misericórdia tem um sabor muito mais doce. Abraçamos a misericórdia com maior ternura, lembramo-la muitas vezes, invocamo-la com mais frequência.

Com efeito, foi a vossa misericórdia que obteve a redenção do mundo e que, juntamente com as vossas orações, conseguiu a salvação de todos os homens. Portanto, ó bendita, quem poderá medir o comprimento e a largura, a altura e a profundidade da vossa misericórdia? A sua extensão chega até ao fim dos tempos para socorrer todos os que vos invocam; a sua largura envolve o mundo inteiro, de modo que toda a terra fica cheia da vossa bondade. A altura da vossa misericórdia abriu as portas da cidade celeste e a sua profundidade obteve a redenção dos que habitam nas trevas e nas sombras da morte.

Por vós, ó Maria, enche-se o céu, o inferno esvazia-se, os que se extraviavam regressam ao bom caminho. Assim a vossa poderosíssima e piissima caridade derrama-se sobre nós com um amor compassivo e auxiliador” (S. Bernardo).

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “Intimidade Divina: Meditações sobre a Vida Interior para Todos os Dias do Ano”, 2.ª ed., Porto: Edições Carmelitanas, 1967, pp. 1464-1467.

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Você é torre forte ou cata-vento?
Espiritualidade

Você é torre forte ou cata-vento?

Você é torre forte ou cata-vento?

O que você prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Dom Tihamer Toth12 de Julho de 2018
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Nas pequenas cidades da Idade Média, encontram-se, não raro, vestígios de fortalezas e castelos; e, mesmo onde as construções estão reduzidas a algumas pedras, não é difícil achar quase intacta a alta torre do velho castelo.

Ora, essas torres que viram desaparecer tantos séculos e que a seus pés contemplam, com olhar impassível, o turbilhão da vida moderna, como dão bem uma ideia do caráter firme! Ao lado delas, tudo muda, tudo se transforma, tudo evolui: vende-se e compra-se; delas, porém, nada nem ninguém pode alterar o granito.

Antigas torres são o símbolo do caráter inabalável do homem que cumpre o seu dever virilmente. Outrora, a torre era o melhor refúgio dos habitantes do castelo; hoje, o homem de caráter firme é o melhor sustentáculo da sociedade. “Nunca abandone o lugar em que a vocação o colocou, e cumpra-lhe todos os deveres”, parecem nos dizer aquelas pedras mudas. “Considere o número de anos exigidos para a minha construção, quantas pedras foram necessárias, quanto trabalho, quanta boa vontade e quanto suor! Mas tudo isso não foi em vão. Sobrevivo a centenas e centenas de anos!”.

Por acaso, meu jovem, não se deixa desalentar facilmente na sua boa vontade? Quantas vezes não se arrojou pelo bom caminho, cheio de ardor juvenil? Quantas vezes não prometeu trabalhar seriamente no desenvolvimento do seu caráter? Mas, depois de algumas horas, de alguns dias, quando muito, a chama do entusiasmo apagava, o ardor desaparecia, e você tornava a ser o mesmo, não é verdade? Foram precisos anos, dezenas de anos talvez, para levantar a torre; e você, quereria se tornar homem de caráter num só dia!

Bem sabe, todavia, que se o caminho do pecado é agradável e semeado de flores deliciosas no começo, logo desilusão terrível nele aguarda o pecador; e que, se é difícil ser virtuoso no início, esse caminho em breve se torna cada vez menos duro, e sempre, no seu final, se acha a paz de uma consciência tranquila.

Mas, que é que eu vejo lá, no cume daquela velha torre? Aquela coisa que nunca fica no lugar, que vira para a direita e para a esquerda? Um cata-vento! Não tem direção fixa nem base estável. Vejo-me quase tentado a dizer que ela não tem princípios nem caráter, porque, se os tivesse, por mais que o vento soprasse, ela não lhe obedeceria.

Abandonar seus princípios, agir contra as próprias convicções, por ser mais cômodo, porque isso assegura uma carreira melhor, porque, em volta de si, o vento sopra de outro lado, é próprio de cata-vento. Mas me diga, amigo, merece o nome de homem aquele que nas suas ações, princípios e convicções se deixa guiar pelas circunstâncias exteriores e pelos conselhos de “companheiros”?

E, no entanto, quantos desses jovens não há! Você conhece dúzias deles, e eu também. São todos os que não sabem andar com os próprios pés, que espiritualmente são menores ainda, que olham sempre à direita e à esquerda para ver o que o vizinho faz.

Eis aqui um a quem a consciência avisa: “Não leia esse livro, ouvi dizer que ele é cheio de imundície moral. Por que deixaria a veste branca da sua alma se arrastar na água podre desse pantanal infecto?”. “Está bem, não o lerei”. Chega, porém, um colega: “Oh! Santinho do pau oco, criança!”, escarnece. “Eu, criança?”, e pega o livro, e o lê até a última linha e emporcalha a alma na lama que ele traz.

Agora outro, a quem a consciência diz ainda: “Não vá à exibição de tal peça, de tal filme! Deixe tal companhia perigosa!”. “Como fazer? Os outros vão lá; eles assim se divertem bastante. Serei o único contrário?”.

Ora, meu filho, é exatamente esse o modo de pensar e de agir dos cata-ventos.

Pois bem, escolha. O que prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Escravo da própria consciência! Este título se lê como se fosse um romance de detetives”, você pensa. Mas se engana. Quando se pode dizer de um jovem que ele é senhor da sua vontade e escravo da própria consciência é a maior honra que se lhe pode fazer. Se é capaz de ser contínua e invencivelmente fiel a tudo o que a consciência manda, você é um jovem de nobre caráter.

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