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Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa
Liturgia

Mesmo sem fiéis, os padres
não só podem como devem rezar a Missa

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa

Rejeitar a Missa sem o povo é rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta, mas ela continua sendo real e eficaz, seja qual for o número dos presentes: mil, vinte ou nenhum.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)27 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Num artigo intitulado Private Mass does not fit with a contemporary understanding of Eucharist [lit., “Missa privada não combina com o entendimento contemporâneo sobre a Eucaristia”] (publicado primeiro em alemão no portal katholisch.de), três velhos e cansados “liturgistas” de Bonn, Erfurt e Münster bradam de suas “cátedras” acadêmicas contra a celebração da Missa sem a presença dos fiéis.

Esses acadêmicos não têm nada melhor a fazer senão tentar conservar o que consideram como “vitórias” do período pós-conciliar, quando a Missa, em vez de ser tratada como a renovação do sacrifício do Calvário e fonte de graça, foi reinterpretada como um evento social horizontal não muito diferente de uma assembleia protestante. O valor inerente do oferecimento diário, pelo padre, da Vítima perfeitamente agradável, para proveito espiritual dele e de toda a Igreja, foi minimizado em favor das concelebrações; e, em muitas ocasiões, os sacerdotes adquiriram o hábito de dizer a Missa apenas em caso de celebração pública.

Essa noção reducionista da Missa jamais foi pensada pela Santa Igreja Católica, e tampouco é pensada por ela hoje.

Quando tais erros começaram a aparecer depois do Concílio, o Papa Paulo VI os condenou com firmeza na encíclica Mysterium Fidei, de 1965. Ele afirmou: “Não é lícito, só para aduzirmos um exemplo, exaltar a Missa chamada ‘comunitária’, a ponto de se tirar a sua importância à Missa privada” (n. 11). Mais adiante no documento, ele fala sobre a “natureza pública e social de toda e qualquer Missa”:

Toda a Missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é ação privada, mas ação de Cristo e da Igreja. Esta, no sacrifício que oferece, aprende a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, e aplica, pela salvação do mundo inteiro, a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz. Na realidade qualquer Missa celebrada oferece-se não apenas pela salvação de alguns mas pela salvação do mundo inteiro. Donde se conclui: se muito convém que à celebração da Missa, quase por sua natureza, participe ativamente grande número de fiéis, não se deve condenar, mas sim aprovar, a Missa que um sacerdote, por justa causa e segundo as prescrições e tradições legítimas da Santa Igreja, reza privadamente, embora haja apenas um acólito para ajudar e responder; de tal Missa deriva grande abundância de graças particulares, para bem tanto do sacerdote, como do povo fiel e de toda a Igreja, e mesmo do mundo inteiro; graças estas, que não se obtêm em igual medida só por meio da Sagrada Comunhão (n. 32).

Rejeitar a Missa sem a presença dos fiéis não é nada mais nada menos que rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Não se trata de ter presente este ou aquele grupo de pessoas, mas de levar o mundo e todos os fiéis de volta ao Pai por meio de Jesus Cristo. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta —  é bom para eles —, mas ela continua sendo objetivamente real e eficaz independentemente do número de fiéis presentes (mil, vinte ou nenhum).

Também estamos nos esquecendo, porventura, de que a Missa é oferecida na presença dos santos anjos e em comunhão com os santos da Igreja triunfante, honrados com tanta frequência na liturgia e particularmente na Oração Eucarística? Um sacerdote “sozinho” em sua capela nunca está realmente sozinho; ele está sempre na companhia dos eleitos de Deus, “lutando não contra homens de carne e sangue, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal” (Ef 6, 12). Naturalmente, essa perspectiva cósmica — a mesma presente na Sacrosanctum Concilium e na tradição católica como um todo — depende da fé viva naquilo que o olho humano não é capaz de enxergar. Os progressistas alemães parecem reduzir tudo ao que pode ser visto e assim demonstram não ter fé no mundo invisível, que é muito mais real do que o mundo físico que nos circunda.

Além da referida encíclica de Paulo VI, encontramos incentivo à celebração da Missa de forma privada no atual Código de Direito Canônico (cf. cân. 902, 904 e 906), bem como em outros documentos do Magistério pós-conciliar. Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, por exemplo, João Paulo II ensina o seguinte:

Se a Eucaristia é centro e vértice da vida da Igreja, é-o igualmente do ministério sacerdotal. Por isso, com espírito repleto de gratidão a Jesus Cristo nosso Senhor, volto a afirmar que a Eucaristia é a principal e central razão de ser do sacramento do Sacerdócio, que nasceu efetivamente no momento da instituição da Eucaristia e juntamente com ela... Compreende-se, assim, quão importante seja para a sua vida espiritual, e depois para o bem da Igreja e do mundo, que o sacerdote ponha em prática a recomendação conciliar de celebrar diariamente a Eucaristia, porque, “mesmo que não possa ter a presença dos fiéis, é ato de Cristo e da Igreja” (Concílio Vaticano II, Presbyterorum Ordinis, 13). Deste modo, ele será capaz de vencer toda a dispersão ao longo do dia, encontrando no sacrifício eucarístico, verdadeiro centro da sua vida e do seu ministério, a energia espiritual necessária para enfrentar as diversas tarefas pastorais. Assim, os seus dias tornar-se-ão verdadeiramente eucarísticos (n. 31).

Bento XVI diz o mesmo em sua exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (2007):

A forma eucarística da existência cristã manifesta-se, sem dúvida, de modo particular no estado de vida sacerdotal. A espiritualidade sacerdotal é intrinsecamente eucarística... Uma vida espiritual intensa permitir-lhe-á entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e ajudá-lo-á a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias mesmo difíceis e obscuras. Para isso, juntamente com os padres do Sínodo, recomendo aos sacerdotes a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação (n. 80).

A Instrução Geral do Missal Romano, que rege as celebrações na Forma Ordinária, apresenta rubricas para a celebração da Santa Missa quando apenas um ministro está presente (n. 252-272) e para a celebração da Santa Missa sem a participação de um ministro (n. 254). O mesmo ocorre com as rubricas que regem a celebração da Forma Extraordinária. Disposições tão consistentes, feitas ao longo de séculos (antes e depois do Concílio Vaticano II, até o presente), não fariam sentido se esse cenário não fosse antevisto como uma prática necessária e louvável em determinadas situações. Evidentemente, não se trata de um abuso nem de uma ideia “fora de moda”, se nossos professores me permitem dizê-lo.

A oração de nosso Sumo e eterno Sacerdote é a mais santa e poderosa de todas, e a Missa é a sua oração salvífica e a sua oblação com aroma suave, oferecida pelas mãos de um ministro ordenado para o bem dos vivos e dos mortos e para a sua própria santificação. Se o sacerdote não for santo — se não buscar assiduamente a conformidade com Cristo Sumo Sacerdote —, o seu ministério será cada vez mais vazio, superficial e infrutífero. Isso não traz nenhum benefício para o povo de Deus.

Em épocas de perigo e dificuldade, os fiéis e seus ministros necessitam ainda mais da graça de Deus para que os apoie e os fortaleça. Privar a Igreja de um bem tão imenso quanto uma única Santa Missa, ou encorajar os sacerdotes a se privarem dela em qualquer dia, é sinal não de uma atitude sábia, mas de uma fé fraca, da renúncia ao sobrenatural, de uma caridade morna; é o mesmo que depositar a esperança neste mundo e em suas “soluções”. Independentemente de quais sejam os seus méritos, as soluções do mundo não são definitivas e não nos podem trazer a ajuda divina de que necessitamos.

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Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas
Santos & Mártires

Santa Joana d’Arc:
um guia para todas as épocas

Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas

Que uma grande santa tenha feito tanto na defesa de seu povo deveria fazer-nos pensar… Talvez as aspirações de um império mundial não façam parte do plano divino. Ao contrário, é no nosso pedacinho de terra que devemos ficar e salvar as nossas almas.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Mark Twain considerava a biografia de Santa Joana d’Arc, cuja festa celebramos hoje, a sua melhor obra. Ele dizia que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”. A história de Santa Joana é bastante conhecida por católicos e não católicos, e também isso não deixa de surpreender: talvez não haja uma personagem medieval com a vida tão bem documentada quanto ela.

A história de sua vida e de como ela libertou a França do domínio inglês sobrevivera por séculos como uma espécie de mito nacional francês, mas, de fato, foi somente durante a adolescência de Twain que o historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat reuniu documentos oficiais do julgamento e da reabilitação e os apresentou em cinco volumes de um “francês moderno lúcido e compreensível”. Não podemos deixar de pensar na repercussão gerada entre os medievalistas e os fiéis franceses quando esses documentos confirmaram para o mundo moderno o mito que havia inflamado os corações dos franceses por gerações.

Os volumes de Quicherat fornecem várias camadas de confirmação dos notáveis acontecimentos de sua breve vida. Como Twain observa, tudo foi apresentado sob juramento. Ele insiste que não há nenhuma outra vida “daquele período remoto” que seja “conhecida com a certeza ou a exatidão com que conhecemos a vida dela”. Ou os detalhes da vida de Joana são verdadeiros, ou a história dela é uma conspiração multissecular para criar uma heroína nacional sem par em toda a história.

Santa Joana cativou a imaginação de novelistas, dramaturgos, historiadores e cineastas, com alguns se aproximando mais da verdade que outros.

Há também as flagrantes distorções. Alguns enxergam em Joana uma feminista, interpretação que ignora, entre outras coisas, o desejo que ela tinha de consagrar a própria virgindade. G. K. Chesterton disse dela o seguinte: “O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia — como Joana d’Arc — era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la.”

Sua intenção jamais foi se destacar num mundo masculino. Na verdade, ela tentou recusar a missão que recebera. Tão logo o Delfim fora coroado, ela tentou retomar a sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente feminina, dedicada à prática da arte de construir um lar: “Na costura e na tecelagem não temo mulher alguma”, disse ela em seu julgamento.

Santa Joana d’Arc, retratada por Hermann Anton Stilke.

Joana não era apenas claramente doméstica, como também não tinha nada da licenciosidade de uma feminista. O testemunho dos soldados e oficiais que lhe foram próximos descreve uma mulher cuja modéstia teve influência decisiva no comportamento deles. Quando ingressou no exército francês, um de seus primeiros atos foi expulsar as prostitutas do acampamento militar com uma espada. George Bernard Shaw disse que foi uma atitude puritana; é uma acusação comum em quartéis, onde o voto de virgindade não é compreendido. Porém, os soldados de Joana compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela inspirou-os a amá-la e a segui-la

Joana como protoprotestante, outra distorção de Bernard Shaw, não está de acordo com o depoimento. Ela amava a Igreja e os sacramentos. Um de seus primeiros atos como comandante foi a implementação da assistência à Missa e a recepção frequente dos sacramentos pelos soldados. Não há nada em seu depoimento que contradiga a doutrina da Igreja, e ao longo de todo o julgamento ela defendeu a autoridade do Papa, tendo solicitado mais de uma vez ser submetida ao julgamento dele. Além disso, é possível que Joana tenha ditado uma carta para os hussitas da Boêmia, condenando-os por seu utraquismo, comparando-os aos “sarracenos” e alertando-os sobre o terrível juízo de Deus para os hereges.  

Há outros erros a respeito de Joana: ela teria sido nacionalista e heroína da classe trabalhadora, uma revolucionária precoce que queria derrubar a antiga ordem feudal. Mas, se essas foram realmente as motivações de Joana, por que ela praticamente arrastou o Delfim para a coroação? Por que ela teria desejado tanto abandonar o mundo político da corte de Carlos e voltar para a vida de camponesa? 

É uma ideia difundida a de que a Igreja reverencia Joana como mártir. Mas ela não foi propriamente uma. Sua santidade vem antes da piedade, da devoção, da caridade e, acima de tudo, como observa o padre Thurston, de seu desejo de imitar a Santíssima Virgem, aceitando a vontade de Deus e não deixando que nada se interpusesse a ela, por improvável que parecesse.

Naturalmente, nada podia ser mais improvável que uma camponesa adolescente e sem treinamento militar liderando um exército. Mas as vitórias dela no campo de batalha e, mais que isso, seu papel central numa campanha que mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos, são fatos indiscutíveis. Ela fez tudo isso aos dezenove anos; foi a pessoa mais jovem a comandar o exército de uma nação, e não como mera testa-de-ferro ou líder de torcida, mas como verdadeira comandante de batalha, que assumiu as estratégias e as táticas de sua força militar. Ela levou a cabo o que provavelmente constitui o papel mais importante de um líder: restaurou o moral do exército francês e o manteve elevado, insistindo sobretudo em que seus soldados se portassem como cristãos e posicionando-se na vanguarda do ataque.

Mas Joana fez mais que isso. De acordo com o depoimento dos capitães que serviram junto com ela, Joana foi perita em tática. Em sua reabilitação, um capitão de Chartres disse o seguinte dela: 

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira.

O Duque de Alençon confirma esse depoimento:

Ela era extremamente habilidosa na condução da guerra: tanto ao portar a lança como ao dispor a artilharia e o exército para ordem de batalha. E todos ficavam impressionados com o fato de ela agir com tanta prudência e lucidez em assuntos militares, com a inteligência de um grande capitão com vinte ou trinta anos de experiência; e particularmente na disposição da artilharia, pois nesse quesito ela desempenhou-se com magnificência.  

A habilidade extraordinária de Joana como comandante não se limitava à sua habilidade tática. Ela também entendia de estratégia política. Depois de intensificar o cerco a Orleans, o Delfim e seus conselheiros foram favoráveis à invasão da Normandia. Joana convenceu-os de que abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei desmoralizaria os ingleses e fortaleceria a vontade dos franceses para que permanecessem no combate. Seu plano levou à vitória final da França.

Até hoje, no entanto, alguns dizem que as ações dela não foram decisivas para o fim da guerra. A questão parece razoável. Afinal de contas, os franceses obtiveram a vitória mais de trinta anos depois da morte de Joana. Apesar disso, para os cristãos, a questão parece quase impertinente. Deus enviou Joana para livrar a França do domínio inglês. O plano da Providência não é o mesmo que o da humanidade. O fato de Deus ter decidido esperar por três décadas até fazer com que a obra de Joana desse frutos diz respeito somente a Ele. 

Céticos, cínicos, desmistificadores e outros descrentes procuram outras causas para a conclusão da guerra. É verdade que a Inglaterra de fato retomou muito do que perdeu durante a revitalização liderada por Joana. Além disso, a perda de receita da Inglaterra por causa da crise agrícola e do declínio no comércio marítimo reduziram sua capacidade de travar guerras.

Édouard Perruy, cuja história da Guerra dos Cem Anos é amplamente tida por confiável, parece ter dúvidas sobre a questão. A certa altura ele diz: “Portanto, o sacrifício da Donzela, embora tenha anunciado a vitória decisiva, só o fez remotamente. Ela de fato exerceu a influência essencial no decurso dos eventos que sempre lhe foi atribuída? É possível questionar isso”. Na mesma obra, porém, ele escreve:  

Só o que a heroína deixou para trás foram suas ações. Mas foram ações cujas marcas não poderiam ser apagadas por nenhuma condenação. Houve o fato militar de que pela primeira vez os exércitos de Lancaster foram detidos no caminho para a vitória. Houve o fato político de que o rei… recebeu o prestígio da coroação. Nesse sentido, a intervenção de Joana d’Arc e a página escrita por ela na história da França (contra toda expectativa) merecem ser lembradas como fatos preciosos.    

O historiador e general J. F. C. Fuller, ele mesmo um descrente, considera o papel de Joana claramente decisivo, ressaltando o efeito que a intensificação no cerco a Orleans teve na confiança dos franceses. Os invencíveis ingleses foram detidos.

“Joana d’Arc em batalha”, também por Hermann Anton Stilke.

Outro efeito da vitória em Orleans foi a união dos nobres franceses, que estavam indecisos em relação a apoiar ou não o Delfim. Eles então se apresentaram e apoiaram a causa de Valois. Um deles, o duque da Bretanha, enviou uma carta a Joana declarando sua aliança com Carlos. Joana escreveu-lhe uma resposta repreendendo-o por ter demorado tanto a fazê-lo.

Poderíamos ainda avaliar em que medida Joana foi responsável por uma derradeira vitória da França ao estimar até que ponto ela foi responsável por suscitar uma resolução para a guerra civil francesa entre Armagnacs e Borguinhões — questão, até onde eu sei, ainda inexplorada pelos historiadores. Nós sabemos que Joana escreveu uma carta ao Duque de Borgonha à época da coroação em Rheims. Embora ele não tenha estado presente, não é despropositado supor que Borgonha pode ter decidido depositar suas melhores riquezas numa França cada vez mais unida sob o mito patriótico de Santa Joana.

Hoje, revisionistas desmancha-prazeres adoram fazer estardalhaço conjecturando se a batalha do Álamo foi decisiva, ou se a travessia de George Washington em Trenton foi decisiva. Questões como essas são maçantes. Os mitos das batalhas de Álamo e Trenton, assim como os mitos das batalhas de Lepanto e Termópilas, incendeiam a alma de uma nação. “O inspirador comando da jovem aldeã de Lorena”, como monsenhor Philip Hughes o descreve, foi decisivo e, em muitos aspectos, não pode ser necessariamente medido por um número de baixas. Santa Joana é o maior mito da França, e pelo menos um dos maiores da cristandade. Acontece que esse mito é também verdadeiro.

O que a história de Joana tem a nos ensinar? Sua biografia decerto deixa claros os méritos da obediência, da confiança em Deus, da fortaleza, da perseverança etc.

Mas há também uma verdade facilmente esquecida pelas nações modernas onde a volubilidade é celebrada, onde a falta de raízes é a norma e onde terra significa pouco mais que uma hipoteca numa esfera de consumo. E a verdade é esta: Deus ama lugares específicos, como a França, e pessoas específicas, como os franceses. Ele também ama Lorena e Domrémy, e quer que estejamos vinculados à porção singular que nos cabe do mundo, onde quer que ela seja. Esse tipo de vínculo é o verdadeiro patriotismo, e contrasta com o falso globalismo que caracteriza tanto do discurso político moderno.

Há uma mensagem para nós no fato de uma grande santa ter feito tanto na defesa de um povo único, de sua terra e de seu sangue. Talvez as aspirações revolucionárias de um império universal não façam parte do plano divino. Em vez disso, o pedacinho de terra em que vivemos é o lugar que nos foi designado para nele cuidarmos de nossa salvação. Quando imagens do planeta Terra tiradas do espaço e a intensidade das comunicações eletrônicas modernas fazem nossos vilarejos parecer insignificantes, podemos refletir sobre aquilo pelo que Santa Joana lutou e deu sua vida, e dar graças a Deus por nosso sangue e nosso solo.

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Como os primeiros cristãos já veneravam Nossa Senhora
Virgem Maria

Como os primeiros cristãos
já veneravam Nossa Senhora

Como os primeiros cristãos já veneravam Nossa Senhora

Os autores do Novo Testamento dedicam a maior parte de sua atenção a Jesus e seu ministério, não à mãe dele. São óbvias as razões para isso: Jesus é Deus, Maria não. Mesmo assim, encontramos reconhecimento e devoção à mãe de Jesus desde os tempos apostólicos.

Charlie McKinneyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Os autores do Novo Testamento dedicam a maior parte de sua atenção a Jesus e seu ministério, não à mãe dele. São óbvias as razões para isso: Jesus é Deus, Maria não. Se a natureza e a supremacia divinas de Cristo não estivessem clara e solidamente estabelecidas, a devoção à sua mãe não faria sentido; pior, poderia se transformar no tipo de culto a divindades femininas, tão comum no antigo Oriente Próximo.  

O mesmo princípio era verdadeiro para a Igreja antiga. Primeiro, era necessário estabelecer a primazia de Cristo; do contrário, a alegação de que os seus membros formavam o próprio Corpo de Cristo soaria como loucura. Mesmo assim, encontramos reconhecimento e devoção à mãe de Jesus desde os tempos apostólicos [1].

A mais antiga evidência histórica que possuímos da devoção mariana vem das catacumbas. Esses túmulos de cristãos, espalhados por todo o mundo mediterrâneo, dão testemunho da afeição a Maria, da esperança em sua intercessão e da confiança do lugar ocupado por ela no Céu. Já no primeiro século depois de Cristo começou-se a incluir Maria em afrescos nas paredes das catacumbas romanas. Às vezes ela aparece com o seu Filho; em outras ocasiões, aparece sozinha. Imagens comuns incluem Maria como modelo de virgindade e em postura de oração. Também estão nas paredes cenas de Maria na Anunciação e na Natividade.

Um dos afrescos mais importantes encontra-se nas catacumbas de Santa Inês, em Roma. Maria aparece de pé entre São Pedro e São Paulo, com os braços estendidos para ambos. Desde os primórdios do cristianismo, sempre que esses dois apóstolos aparecem juntos, simbolizam a única Igreja de Cristo, uma Igreja de autoridade e evangelização, uma Igreja para judeus e gentios. A posição proeminente de Maria entre os dois ilustra que a Igreja apostólica a enxergava como mãe da Igreja.

As muitas imagens de Maria e a sua presença nas catacumbas também deixam claro que os primeiros cristãos não viam Maria apenas como uma pessoa histórica, mas como uma fonte de proteção e intercessão. O uso simbólico de sua imagem aponta para a realidade do relacionamento que tinham com ela. Como a consideravam mãe da Igreja, entendiam que ela estava associada a todos os cristãos, fazendo o que faria qualquer boa mãe, protegendo-os, ensinando-os e ajudando-os em suas orações.

Cerca de cem anos após a morte de Jesus, os líderes e mestres da Igreja antiga começaram a descrever Maria como “a nova Eva”. O que queriam dizer com isso?

No Gênesis, Adão não pecou sozinho. Sua esposa desobedeceu a Deus antes dele e o tentou, então, à desobediência. O homem perdeu a graça, e o pecado original debilitou a natureza humana por causa do pecado de Adão; Eva, porém, teve um papel instrumental na Queda.

O mesmo acontece na redenção do homem. A possibilidade de recobrar a graça, purificando-se do pecado original, veio pela morte salvífica de Cristo na Cruz, ao pé da qual, no entanto, estava a mulher que tornara possível a morte de Jesus, justamente por ter dado um “sim” à vida dele. Com seu fiat ao anjo Gabriel, Maria, tal como Eva, teve um papel instrumental e secundário na redenção humana.

São Justino Mártir († 165), o primeiro grande defensor da doutrina cristã na Igreja antiga, usou essa metáfora, descrevendo Maria como a “virgem obediente” em contraposição a Eva, a “virgem desobediente”:

[O Filho de Deus] tornou-se homem por meio da Virgem, [para] que a desobediência causada pela serpente pudesse ser destruída da mesma forma que foi originada. Pois Eva, quando era uma virgem incorrupta, concebeu a palavra que procedia da serpente, e criou a desobediência e a morte. Mas a Virgem Maria ficou cheia de fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe deu a boa nova […] e por meio dela Cristo nasceu.

Santo Irineu de Lyon († 202), outro grande defensor da ortodoxia cristã, também escreveu sobre Maria como a nova Eva que participou da obra salvífica de Cristo:

Assim como Eva, esposa de Adão, sendo ainda virgem, tornou-se por sua desobediência causa de morte para si e para toda a espécie humana, assim também Maria, desposada ainda virgem, tornou-se por sua obediência causa de salvação para si e para toda a humanidade […]. Dessa forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, pois aquilo que a virgem Eva atou por sua recusa em crer, desatou-o a Virgem Maria por sua fé. 

Mais tarde, Santo Ambrósio († 397) desenvolveu de modo mais profundo a compreensão cristã sobre a nova Eva:

Foi por meio de um homem e uma mulher que a carne [a humanidade] foi expulsa do Paraíso; foi por meio de uma virgem que a carne foi unida a Deus […]. Eva é chamada mãe da espécie humana, mas Maria foi mãe da salvação.

São Jerônimo († 420) resumiu de forma lapidar esse paralelo, ao escrever: “A morte entrou no mundo por meio de Eva; a vida, por meio de Maria”.

Além dessa compreensão sobre o papel de Maria na história da salvação, os primeiros séculos do cristianismo também nos proporcionam inúmeros exemplos de oração direta a Maria, como meio de intercessão para obter graças e a proteção de seu Filho.

Santo Irineu chamou Maria de “advogada” especial de Eva, que por meio da oração intercede pelo perdão e a salvação de sua antepassada, enquanto São Gregório Taumaturgo († 350) escreveu que Maria está no Céu rezando pelos que estão na terra.

Santo Efrém († 373), um dos maiores pregadores do Oriente, rezou diretamente a Maria em muitos de seus sermões, assim como São Gregório de Nazianzo († 389).

A partir da segunda metade do século IV, são abundantíssimos os exemplos de orações marianas, dos sermões de Santo Ambrósio aos de Santo Epifânio, Padre do oriente. A oração antiga mais completa a Maria remonta, porém, a um período ainda mais antigo: 250 d.C. É chamada de Sub tuum praesidium: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém.”

Os primeiros cristãos sabiam que a mesma mulher que havia ninado o Menino Jesus, que o erguia quando caía e que segurou nos braços o seu corpo crucificado, também podia ajudá-los em suas próprias tribulações espirituais e temporais. Sua confiança e amor por Maria ficou mais do que evidente no ano 431, quando o Concílio de Éfeso — uma reunião oficial dos líderes da Igreja — defendeu formalmente o título de “Mãe de Deus”. Já havia catedrais dedicadas a ela em Roma, Jerusalém e Constantinopla, e depois do Concílio a devoção a Maria floresceu ainda mais no Oriente e no Ocidente. Orações, festas litúrgicas, ícones e pinturas marianas logo se espalharam por todo o mundo cristão. 

O lugar do Filho estava assegurado, sua Igreja estava estabelecida e fortalecida. Agora, as sementes da verdade sobre a sua mãe, sementes prefiguradas no Antigo Testamento, plantadas no Novo Testamento e cultivadas na Igreja antiga, finalmente poderiam frutificar. Nada do que havia surgido poderia diminuir, de modo algum, a verdade e a glória de Cristo. Em vez disso, os frutos da autêntica devoção mariana só poderiam mostrar de forma mais clara e bela as possibilidades oferecidas ao homem pela graça salvífica de Cristo.

Notas

  1. Para um estudo teológico sistemático, documentado e mais profundo dessa matéria, cf. “Tratado de la Madre del Redentor” in: Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. Barcelona: Editorial Herder, 1966, pp. 309-338 (Nota da Equipe CNP).

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“Nudes”: a intimidade que não nos pertence
Sociedade

“Nudes”:
a intimidade que não nos pertence

“Nudes”: a intimidade que não nos pertence

Até pouco tempo atrás, ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo. Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim...

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Há até pouco tempo, quando as pessoas ainda tinham um pingo de juízo (e amor-próprio), havia certo cuidado com a preservação da intimidade. Ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo, por razões óbvias.

Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim, e o que antes era reservado às relações entre quatro paredes agora virou de domínio público. Por exemplo, ninguém mais precisa recorrer a um filme indecente ou comprar revistas “adultas” para satisfazer a curiosidade malsã sobre o corpo alheio. Hoje, tanto as ditas “celebridades” quanto as pessoas comuns aderiram à cultura da nudez (ou dos nudes, como chamam), de modo que é quase impossível navegar pela internet sem deparar, aqui e ali, com algum seio despido ou coisa do gênero.

Os chamados “especialistas” deram a esse tipo de relacionamento o nome de sexting (sex + texting), ou seja, relacionar-se sexualmente por mensagens no celular. Mas, pontificam eles, não são só os parceiros sexuais que trocam fotos íntimas. Também amigos podem se “conhecer melhor”, com a diferença de que o objetivo, nesse caso, seria apenas uma “brincadeira” ou uma piada no meio de uma conversa séria; em outras palavras, um frexting (friend [amigo] + sexting).

Há ainda os que buscam alguma forma de libertação do corpo. Esses julgam que, postando fotos nuas na internet, sem qualquer edição, estão reivindicando respeito às suas formas e quebrando padrões de beleza. Trata-se talvez de uma “Marcha das Vadias” online.

Seja como for, a cultura dos nudes ganhou mais força nestes tempos de pandemia, inclusive com o respaldo de autoridades. A prefeitura de Nova Iorque, entre tantas outras, aconselhou os cidadãos da sua cidade a se masturbarem e procurarem “encontros por vídeo, sexting ou salas de bate-papo”. Para justificar a medida, os especialistas (sempre eles...) a defenderam como uma forma de “aliviar a tensão”, num movimento “natural” da sexualidade humana. Disse uma sexóloga numa entrevista: “A sexualidade é uma fonte de prazer importante para a vida humana e você pode obtê-lo sozinho, não precisa do outro. Num momento como esse, de isolamento, usar as ferramentas de tecnologia para essa busca é comum” (grifos nossos).

O fato é que essa moda tem causado sérias mudanças no comportamento sexual humano. Quando se interessam por alguém, os pretendentes não pensam mais em convidar o outro para sair ou em enviar flores e chocolates. O romance, o cavalheirismo, a delicadeza e a conquista saíram de cena. Afinal, se o que desejam unicamente é sexo, sexo é o que devem mostrar. E, graças à internet, essa relação nem precisa ser real: o que importa é conseguir prazer.

Em princípio, parece estranho que o ato humano que melhor expressa o vínculo de amor entre um homem e uma mulher seja reduzido a uma recreação virtual e egocêntrica. Mas, pensando em termos históricos, essa visão deturpada da sexualidade nada mais é do que a consumação de um movimento iniciado lá atrás, no Renascimento, quando o homem, assustado pela Peste Negra, descobriu no seu corpo um meio de autossatisfação. É o que relata o historiador Roland Mousnier: “A arte toma um caráter novo, o assunto principal é o homem, e no homem o belo corpo humano... Beleza do corpo humano, triunfo do homem em sua radiante força, horror ao sofrimento, à compaixão e à resignação” [1].

O Renascimento foi, em termos culturais, uma retomada da mentalidade pagã, na qual o ser humano é valorizado não pela sua pessoa, como na Idade Média, mas por suas glórias externas. Daí o surgimento da arte pornográfica como fuga das tensões e meio para exaltação do corpo. Com isso, os renascentistas julgavam fazer uma afirmação de si mesmos, colocando-se no centro das atenções, inaugurando uma nova religião: o humanismo. E assim saímos do Decamerão, de Boccaccio, para chegar ao sexting das redes sociais. Mutatis mutandis, o que há de comum entre uma coisa e outra é justamente a busca do prazer e a fuga da dor, ou seja, a valorização do homem pelo que lhe é exterior e, em consequência, o empobrecimento da capacidade humana de amar.

Esses efeitos negativos saltam aos olhos de qualquer um que esteja disposto a enxergar a verdade. Retratamos aqui há pouco tempo como a obsessão pela nudez, em nome de uma suposta arte, já causou estragos terríveis na vida de tantos artistas. “Depois de passar nove horas filmando cenas de sexo, fiquei tremendo, as lágrimas escorriam pelo meu rosto”, declarou Sienna Miller a respeito de sua atuação para o filme A lei da noite, de 2017. Mais recentemente, aliás, a atriz Dakota Johnson e o ator Jamie Dornan, protagonistas do filme Cinquenta tons de cinza, confessaram como era entediante gravar tantas cenas de sexo. Sim, porque nessas cenas, por mais “quentes” que elas pudessem parecer, não havia qualquer sentimento de amor, reciprocidade ou empatia envolvidos. E, sem isso, só resta mesmo o tédio.

O sexo, por si mesmo, para citar uma frase atribuída a Lord Chesterfield, resume-se a isto: “O prazer é momentâneo, a posição é ridícula e as despesas são exorbitantes”. Sem um sentido transcendente, sem os laços espirituais, a sexualidade acaba se convertendo num passatempo que, cedo ou tarde, perderá a graça como qualquer outro joguinho. Portanto, as pessoas podem até aliviar momentaneamente suas tensões com nudes, sextings ou frextings. Mas a única coisa que realmente obterão, no fim das contas, é uma exposição ridícula na internet e uma despesa exorbitante de tédio e frustração na alma.

Não é novidade que esse tipo de prática acabe envolvendo coisas ainda mais grotescas, que vão desde enviar uma imagem indecente para um programa de TV, causando a demissão de um apresentador, à divulgação de nudes não autorizados, seja de famosos, seja de anônimos, seja de menores de idade. O tédio gerado por relações sem amor só consegue produzir mais perversidade.

O problema de fundo é a velha doença da filáucia, o amor doentio de si mesmo, que leva ao desprezo de Deus e à construção da Babilônia. Buscando uma falsa felicidade, procurando aliviar suas tensões, os homens consentem em atos desonestos, tomando como elemento principal de sua natureza justamente os seus corpos e as suas paixões, aquilo que São Paulo chama de homem exterior. “Por onde”, ensina Santo Tomás, “não se conhecendo bem a si mesmos, a si mesmos não se amam verdadeiramente, mas amam-se pelo que se julgam ser” (STh II-II 25, 7). E se os homens se julgam apenas feras de carne e osso, animais selvagens que precisam saciar todos os seus impulsos, então a única coisa que poderão oferecer e receber é o amor de uma fera. Só aceitamos o amor que julgamos merecer.

O corpo (e, consequentemente, a sua sexualidade), por outro lado, é apenas um elemento do “composto” humano. A natureza espiritual é a dimensão mais importante, isto é, o homem interior. Nesse sentido, explica Santo Tomás, “os bons amam-se a si mesmos no concernente ao homem interior, por quererem conservá-lo na sua integridade. E lhe desejam os bens próprios dele, que são os espirituais; e também se esforçam para que os consiga” (loc. cit.). Nessa ordem, o Doutor Angélico esclarece que o corpo humano, porque foi criado por Deus, deve também ser amado com amor de caridade, pondo-o a serviço da virtude, conforme nos manda a Sagrada Escritura: “Oferecei os vossos membros a Deus como instrumento da justiça” (Rm 6, 13).

Mas se essa ordem é invertida, e o corpo se torna o objeto primeiro do amor humano, então, na verdade, não é a si mesmo que o homem ama, mas as suas paixões vergonhosas, que serão alimentadas pelos pecados. E esse amor carnal facilmente o conduzirá à morte, porque, como diz o salmista, “quem ama a iniquidade odeia a sua alma” (Sl 10, 6).

Basta pensar na quantidade imensa de sujeitos que, literalmente, se matam nas academias, enchendo os corpos de anabolizantes, ou em clínicas de cirurgia plástica, donde saem mais deformados que formosos, para vermos como esse ensinamento tradicional da Igreja não tem nada de moralismo ultrapassado. Trata-se, pelo contrário, da mais pura verdade sobre o ser humano.

Quando amamos alguma coisa de verdade e a valorizamos imensamente, quando temos um tesouro, por exemplo, nós costumamos guardá-lo a sete chaves, num cofre bem seguro ao qual só pessoas especiais têm acesso. E mesmo as joias caras, quando estão expostas, requerem todo cuidado, com segurança e iluminação especial. Apenas objetos de pouco valor são expostos em qualquer vitrine, sem nenhuma cerimônia ou deferência, para que qualquer um veja. Por isso, é impossível que da prática dos nudes, sexting, frexting et caterva alguém tire algo de bom para a própria dignidade, para a verdadeira realização de suas almas, porque não há amor ou respeito algum nisso. O que há, na verdade, é um profundo desprezo por Deus e um amor doentio pelo pecado. E o salário do pecado é um só: a morte.

É preciso pensar bem em tudo isso antes de sair por aí trocando nudes. Outro especialista [2] dizia que, no fundo, essa nova moda se deve a “um desejo de ser desejado, amado, confortado em tempos de incerteza e solidão que nos fragiliza e faz sentir mais vulneráveis, inclusive em termos afetivos”. Vemo-nos, portanto, na mesma encruzilhada dos tempos de Santo Agostinho: entre construir a Cidade de Deus, a Jerusalém celeste, ou a cidade dos homens exteriores, Babilônia. Já sabemos que tipo de amor cada uma tem a oferecer. Dependerá da nossa escolha a sorte da civilização pós-pandemia.

Notas

  1. Roland Mousnier. Le XVI et XVII siécles, Historie generale des civilizations. P.U.F., 1954, p. 30 (trad. de Gustavo Corção).
  2. As informações e citações deste artigo foram, em boa parte, retiradas dos jornais El País, G1 e UOL. Por conterem imagens e expressões bastante vulgares, no entanto, preferimos não apresentar diretamente os textos aqui.

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Um bispo no espírito do Concílio de Trento
Santos & Mártires

Um bispo
no espírito do Concílio de Trento

Um bispo no espírito do Concílio de Trento

Bispo modelo segundo as reformas do Concílio de Trento, com os olhos ardentes de fé e o rosto escavado por jejuns, São Carlos Borromeu foi uma resposta viva às teses protestantes sobre a utilidade das obras e o valor indispensável dos sacramentos.

Cristina SiccardiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Legislador, administrador, pastor e asceta, São Carlos Borromeu conduziu várias existências em uma só vida. Há séculos ele tem sido um lustre para a Igreja e uma demonstração do poder que tem um único homem para reerguer a sorte das dioceses, ontem, assim como hoje, tremendamente ameaçadas por erros. As obras deste santo constituem um verdadeiro curso de teologia pastoral, e para tornar acessíveis aos contemporâneos as reformas que ele levou a cabo, bem como para lhe imortalizar a memória, contribuíram fundamentalmente a sua caridade, a sua dedicação e o seu espírito sacerdotal.

A personalidade do arcebispo de Milão — o bispo modelo segundo o espírito do Concílio de Trento, com os olhos ardente de fé e o rosto escavado por jejuns — impôs-se em toda a Europa em questão de pouca décadas, com um vigor hoje difícil de imaginar para personalidades eclesiásticas. Em uma Igreja em ebulição, atormentada pela questão da salvação, o seu zelo apostólico e a sua generosidade representaram uma manifestação excepcional do despertar espiritual e pastoral de uma cristandade dividida pela heresia de Martinho Lutero. O santo foi uma resposta viva às teses protestantes sobre a utilidade das obras e o valor indispensável dos sacramentos e dos ritos litúrgicos.

Nenhum santo na Europa foi objeto de tantos retratos quanto São Carlos Borromeu, antes mesmo de sua canonização, que aconteceria em 1610, sob o pontificado do Papa Paulo V, a apenas 26 anos de sua morte. Inúmeras capelas e igrejas tomaram-lhe o nome.

Filho de Gilberto Borromeu, de nobre família milanesa com vasta propriedade territorial ao redor do Lago Maior, ele era, por parte da mãe, Margherita de Medici, sobrinho do Cardeal de Medici. Nasceu em 2 de outubro de 1538, em Arona. Em 1559, tinha apenas 21 anos quando o seu tio, apenas eleito ao sólio pontifício com o nome de Pio IV, chamou-o a Roma, promovendo-o ao cargo de protonotário apostólico, referendário da Signatura Apostólica, secretário de Estado, membro de várias congregações e administrador da arquidiocese de Milão. O tio ainda o criou cardeal. Graças a todas essas atribuições, ele veio a tornar-se um dos homens mais ricos do Sacro Colégio.

Desde criança Carlos tivera uma educação piedosa e, destinado à carreira eclesiástica, recebeu a tonsura com 8 anos, tornou-se abade aos 12 e continuou os estudos na Universidade de Direito em Pavia. Para apreciar a qualidade do cardeal de 22 anos, deve-se observar a paciência, diplomacia e persistência que empregou para convencer os príncipes e outros prelados da Igreja da necessidade de reabrir o Concílio de Trento, interrompido devido à impopularidade do Papa Paulo IV. Atuando como agente de negociações, estudando todos os detalhes das questões, como era de costume, ele superou os obstáculos levantados pela França e pela Espanha, eliminando-lhes as objeções à convocação do Concílio. 

“Sessão de abertura do Concílio de Trento em 1545”, por Nicolò Dorigati.

Finalmente, em 18 de janeiro de 1562, uma centena de bispos veio reunir-se na cidade de Trento, dando abertura à XVII sessão da assembleia. Carlos Borromeu, permanecendo oculto em Roma, manteve-se informado de todos os avanços nas oito sessões que se seguiram até o fechamento do Concílio, em 3 de dezembro de 1563, intervindo discretamente e organizando tratativas em busca de um justo equilíbrio. O seu senso de dedicação e a sua competência contribuíram de modo determinante para o sucesso das sessões. Foi sobretudo no término do Concílio, todavia, que começou a sua prodigiosa missão: os bispos haviam estabelecido os princípios, mas agora era preciso criar as condições práticas e o quadro institucional em que a reforma havia de ser posta em prática.

Justamente durante o evento verificou-se um fato que mudou drasticamente o curso de sua vida: morreu-lhe o irmão mais velho, Frederico. O luto o pôs diante de uma encruzilhada: deveria continuar a ser quem era ou, assumindo a função de cabeça da família, deixar o hábito eclesiástico? Escreveu a um parente: “Essa perda tem-me feito progredir na graça do Senhor. Esse fato, mais do que qualquer outra coisa, tem-me feito tocar na carne a nossa miséria e a verdadeira felicidade da glória eterna”. Até então ele havia recebido apenas o diaconato, e seu tio poderia muito bem conceder-lhe a dispensa para retornar ao estado secular… Mas ele não só rejeitou esse caminho como tomou a decisão de tornar-se sacerdote.

Preparou-se sob a direção espiritual dos jesuítas, seguindo os Exercícios de Santo Inácio. A ordenação sacerdotal aconteceu em segredo e, em 15 de agosto de 1563, ele celebrou a sua primeira Santa Missa; mais tarde, em 7 de dezembro, foi nomeado bispo de Milão na capela Sistina.

O pensamento da morte, a espiritualidade de Santo Inácio e a direção do padre jesuíta Ribera exerceram uma grande influência sobre ele. Deu início a uma vida de penitência, buscando a perfeição cristã, e estabeleceu laços com São Filipe Néri, com quem compartilhava o zelo reformador. Seu exemplo fez escola: o próprio Papa moderou o padrão da vida da Casa Pontifícia, recomendando modéstia ao próprio séquito. O comportamento de São Carlos suscitava admiração; escreveu, por exemplo, o legado veneziano em 1565: “A todos ele dá um exemplo de tal modo sublime, que com razão se pode dizer que ele sozinho faz mais bem à corte de Roma que todos os decretos tridentinos juntos”.

Uma das primeiras medidas [tomadas por ele] foi a criação de uma comissão encarregada de fundar um seminário romano. Borromeu pediu então aos jesuítas que o enviassem a Milão, onde eles abriram um seminário próprio em 10 de dezembro de 1564, antes mesmo do de Roma. Ocupou-se ele das cerimônias litúrgicas, cujo decoro e respeito aos ritos ele controlava, porque até então, muito frequentemente, o culto divino era tratado com muita desorganização e ignorância. Foram revistos a Bíblia e o Breviário, assim como a composição do Missal, completada sob o pontificado de São Pio V. Surgiu, enfim, a necessidade de redigir um sumário da doutrina cristã, e Carlos Borromeu tomou parte na elaboração do Catecismo, publicado em 1566.

Entrou em Milão como arcebispo em 23 de setembro de 1565. Mas na noite entre os dias 8 e 9 de dezembro estava ele novamente em Roma a fim de assistir o Papa moribundo. As portas do conclave fecharam-se em 19 de dezembro e, em 7 de janeiro, os cardeais escolheram como sucessor de Pio IV um defensor da reforma tridentina, o Cardeal Ghislieri, que tomou o nome de Pio V.

Em Milão, por vinte anos, sob os pontificados de São Pio V e de Gregório XIII, desenvolveu um imenso trabalho de reorganização, renovação e santificação, dando ele mesmo o exemplo, submetendo-se a penitências severas e elevando em virtude o padrão de vida do episcopado. “De muito pouco serviria emanar decretos de reforma se, depois, nós mesmos não os observássemos”, escreveu ao duque de Mântua.

“São Carlos Borromeu”, por Orazio Borgianni.

A diocese de Milão contava com 740 paróquias, quase 200 conventos e mosteiros e cerca de 3.350 padres para uma população de 560 mil pessoas. Há 80 anos não havia bispo residente na diocese (que se estendia para muito além da zona de Milão, chegando até Verona e os três vales suíços do cantão do Ticino), e a degradação doutrinal e moral era evidente. Justamente por essa razão, São Carlos levou a cabo suas infatigáveis visitas pastorais, visitando as paróquias e reorganizando toda a administração da província eclesiástica. Criou ao mesmo tempo um imenso arquivo, onde recolheu todas as informações possíveis, divididas por assunto, sobre as paróquias e seus sacerdotes. Um preciosíssimo trabalho de estatística eclesiástica, completamente novo até então, que devia ser continuamente atualizado; a boa ordem dos registros paroquiais, ademais, era mantida sob controle. As reuniões dos conselhos provinciais e dos sínodos diocesanos eram assaz úteis ao arcebispo, a fim de que seguisse de perto o bom andamento do plano de reforma. O conjunto de todas essas medidas foi recolhido nos Acta Ecclesiae Mediolanensis (“Atas da Igreja de Milão”).

Todo esse trabalho pelo Reino de Deus na terra é combatido por aqueles eclesiásticos e religiosos que não querem a santidade na Igreja. O clima se agita a tal ponto que, em 26 de outubro de 1569, enquanto São Carlos prega em sua capela, disparam contra ele com um arcabuz, perfurando-lhe o roquete e a sotaina, relíquias hoje conservadas na Catedral de Bordeaux. Mas a bala não o atinge. O autor do atentado é um tal de Farina, pertencente aos humiliati, religiosos que, depois de terem recebido a ordem de respeitar as reformas e levar uma vida mais virtuosa, tentaram assassiná-lo. 

Durante as suas viagens pastorais São Carlos consagra igrejas, estuda a fundação de um seminário ou de uma Ordem religiosa, verifica a competência e a moralidade dos padres, examina os catecismos e, para uso dos párocos, publica a “Instrução para a pregação da palavra de Deus”, um tratado no qual vêm definidos os deveres dos pastores e os meios disponíveis para cumprir melhor essa missão; depois põe em circulação a “Admonição para os confessores”.

A fundação e a organização de seminários tornou-se pedra fundante da restauração católica. Como o primeiro seminário foi o dos jesuítas, a maioria dos seminaristas escolhia o hábito da Companhia de Jesus. Para remediar o problema, o arcebispo tratou de fundar os Oblatos de Santo Ambrósio, uma congregação de sacerdotes diocesanos que viviam em comunidade e à qual ele confiou, a partir de 1578, o encargo de administrar os seminários e dedicar-se, sob a sua guia, ao cuidado das almas.

Também foram preocupação sua a educação e a assistência ao próximo. Mas esse homem de ação era, ainda, homem de profunda contemplação. Era capaz de meditar por oito horas seguidas, durante a noite, sobre um tema determinado. Recitava o Breviário com os joelhos sobre o chão duro e dormia apenas quatro ou cinco horas sobre um velho palete. Era proverbial a frugalidade de suas refeições: desde 1571, nutria-se tão-somente uma vez ao dia com pão, água e um pouco de verduras. No seu quarto só havia o palete para dormir e uma poltrona, sem nem uma lareira sequer. Seus amigos, os médicos e o próprio Papa se preocupavam com a negligência que ele demonstrava por sua saúde.

São Carlos tinha muita devoção a Jesus na Eucaristia, que ele demonstrava em plenitude durante a adoração ao Santíssimo Sacramento e a solene celebração de Corpus Christi. Era também um homem apaixonado pela Paixão de Nosso Senhor. Recomendava aos sacerdotes e bispos a prática dos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, tornando-a obrigatória aos seus ordenandos; e aos padres impôs a prática cotidiana do exame de consciência.

Fervor, piedade, abnegação intensa. Ele organizava orações públicas e procissões e encorajava as peregrinações e visitas à Basílica. Foram memoráveis suas peregrinações para venerar o Santo Sudário em Turim, e a Roma, por ocasião do Jubileu de 1575. Impressionante a quantidade de energia que despendeu durante a peste de Milão, que explodiu no outono de 1576. Por um momento, havia o temor de que até o arcebispo permanecesse contagiado pela doença, mas ele se recuperou e prosseguiu o trabalho percorrendo sem descanso as ruas da cidade e de toda a região.

Três semanas antes de morrer, a um frade capuchinho que lhe suplicava que cuidasse de sua saúde, respondeu: “Para iluminar os outros uma candeia deve se consumir”. Em 2 de novembro de 1584, regressando de uma peregrinação a Turim, ele parou em Ascona, no cantão do Ticino (Suíça), onde queria abrir um seminário; mas foi assaltado por uma febre, retornou a Arona e daí, moribundo, foi transportado a Milão. Veio a falecer entre os dias 2 e 3 de novembro, aos 46 anos de idade.

A Igreja da Contrarreforma deve muito a São Carlos Borromeu. Para todas as dioceses da Europa, os Acta Ecclesiae Mediolanensis representaram um monumento da tradição pastoral e um modelo a ser imitado. O santo Cardeal Roberto Belarmino recomendou a leitura da vida de São Carlos Borromeu, e Bossuet e São Vicente de Paulo serviram-se em suas homilias dos tratados e argumentações dele. São Francisco de Sales foi influenciado pelo método de São Carlos e, além disso, tinha o hábito de fazer ler à mesa as histórias de sua vida, publicadas pelo Venerável Carlo Maria Bascapé em 1602. Com o Papa Pio IV, pode-se verdadeiramente afirmar que o arcebispo Carlos de Milão “transformou o episcopado europeu”.

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