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“Mil mortes e mil ressurreições”
Espiritualidade

“Mil mortes e mil ressurreições”

“Mil mortes e mil ressurreições”

Em Pentecostes, Cristo se reveste de um novo Corpo: a Igreja. E, assim como seu corpo físico morreu e ressuscitou, também seu Corpo Místico “terá, no decurso da história, mil mortes e mil ressurreições”.

Fulton J. Sheen18 de Maio de 2018
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Dez dias depois da Ascensão, os Apóstolos encontravam-se reunidos, esperando o Espírito que lhes ensinaria e revelaria tudo o que Nosso Senhor lhes tinha ensinado.

Durante sua vida pública, Cristo afirmara-lhes que havia de revestir-se de um novo corpo. Não físico, como o que tomou de Maria; esse corpo está agora glorificado, à mão direita do Pai. Não seria tampouco um corpo moral, como uma sociedade cuja unidade deriva da vontade dos homens; mas, antes, um novo Corpo Social, que estaria ligado a Ele pelo seu Espírito Celeste, por Ele enviado ao deixar a terra.

Cristo referiu-se algumas vezes a este novo Corpo como Reino, ainda que São Paulo o descrevesse como Corpo, o que se tornava mais facilmente compreensível para os gentios. Ele explicou aos Apóstolos a natureza deste novo Corpo, que assumiria sete características principais:

  1. Para ser membro desse novo Corpo, os homens têm de nascer para ele; mas não por meio de um nascimento humano, porque esse faz filhos de Adão. Para tornar-nos membros do seu novo Corpo, temos de renascer pelo Espírito, nas águas do batismo que nos tornam filhos adotivos de Deus.
  2. A unidade entre Ele e este novo Corpo não consiste em lhe cantarmos hinos, nem em reunir-nos em chás sociais em seu nome, nem em escutar radiodifusões, mas em participarmos da sua vida: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… eu sou a videira, e vós os ramos” (Jo 15, 4-5).
  3. O seu novo Corpo será, como todas as coisas vivas, pequeno a princípio — até, como Ele disse, “semelhante a um grão de mostarda”; mas crescerá da simplicidade para a complexidade, até à consumação do mundo. Como Ele se exprimiu: “Primeiro a erva, depois a espiga, e por fim o grão gerado na espiga” (Mc 4, 28).
  4. Uma casa cresce de fora para dentro, na colocação de pedra sobre pedra; organizações humanas crescem adicionando homem a homem, da circunferência para o centro. O seu Corpo, disse Cristo, será formado de dentro para fora, como se forma o embrião no corpo humano. Assim como Ele recebeu a vida do Pai, assim receberiam os fiéis a vida dele. São estas as suas palavras: “Para que também eles sejam um em nós, como tu, Pai, o és em mim, e eu em Ti” (Jo 17, 21).
  5. Nosso Senhor afirmou que teria um só Corpo. Seria uma monstruosidade espiritual, se tivesse muitos corpos ou uma dúzia de cabeças. Para o conservar uno, por-lhe-ia à frente um só pastor, por Ele designado para apascentar os seus cordeiros e ovelhas. “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).
  6. Esse novo Corpo, segundo as palavras de Cristo, não se tornaria manifesto aos homens, até ao dia de Pentecostes, em que enviaria o seu Espírito de Verdade. “Se eu não for, ele não virá a vós” (Jo 16, 7). Tudo, pois, que começasse a formar-se até vinte e quatro horas depois de Pentecostes, ou vinte e quatro horas antes, seria uma organização; poderia, talvez, ter um espírito humano, mas não teria o Espírito Divino.
  7. A observação mais importante acerca do seu Corpo foi que seria odiado pelo mundo, como Ele. O mundo ama tudo o que é mundano, mas odeia tudo o que é divino. “Porque vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 19).

O núcleo deste novo Corpo Místico seriam os Apóstolos. Formariam a matéria-prima. Enviar-lhes-ia o seu Espírito para os vivificar, possibilitando-os tornarem-se o prolongamento da sua Pessoa. Eles o representariam, quando Ele partisse. Foi-lhes reservado o privilégio de evangelizarem o mundo. Esse novo Corpo, de que eles eram o embrião, tornar-se-ia o seu “eu póstumo” e a sua personalidade prolongada através dos séculos.

“A Descida do Espírito Santo”, por Ticiano.

Durante os cinquenta dias em entre a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo, os Apóstolos assemelhavam-se a elementos num laboratório químico. A ciência conhece cem por cento dos elementos químicos que entram na constituição de um corpo humano; mas é incapaz de produzir um único ser humano, por sua inabilidade em prover o princípio unificador, a alma. Os Apóstolos não podiam dar vida divina à Igreja, do mesmo modo que os químicos não podem produzir a vida humana. Careciam do Divino Espírito invisível de Deus, para unificar as suas naturezas humanas visíveis.

Efetivamente, dez dias depois da Ascensão, o Salvador glorificado no Céu enviou-lhes o seu Espírito, não em forma de livro, mas em línguas de fogo vivo. Como as células de um corpo formam uma nova vida humana no momento em que Deus insufla a alma no embrião, assim os Apóstolos apareceram como o Corpo visível de Cristo, no momento em que o Espírito Santo veio para os tornar um. Este Corpo Místico, a Igreja, é denominado na tradição e na Escritura o “Cristo total”, ou a “plenitude de Cristo”.

O novo Corpo de Cristo apareceu então publicamente, à vista dos homens. Assim como o Filho de Deus se revestiu da natureza humana no ventre de Maria, sob a sombra protetora do Espírito Santo, assim, em Pentecostes, Ele tomou um Corpo Místico, no ventre da humanidade, sob a sombra protetora do Espírito Santo. E assim como antes ensinou, governou e santificou por meio da sua natureza humana, assim agora continua a ensinar, governar e santificar por meio de outras naturezas humanas unidas no seu Corpo, a Igreja.

Como, porém, este Corpo não é físico como o homem, nem moral como um clube de recreio, mas celeste e espiritual por causa do Espírito que o torna um, chama-se Corpo Místico. E assim como o corpo humano é constituído de milhões e milhões de células e, contudo, é um só porque vivificado por uma só alma, dirigido por uma cabeça visível e governado por uma mente invisível, assim este Corpo de Cristo, apesar de formado de milhões e milhões de pessoas incorporadas em Cristo pelo batismo, é uno, porque vivificado pelo Espírito Santo de Deus, dirigido por uma cabeça visível e governado por uma Mente invisível, ou Cabeça, que é Cristo Ressuscitado.

“A Conversão de São Paulo”, de Caravaggio.

O Corpo Místico é a Pessoa de Cristo prolongada. São Paulo chegou à compreensão desta verdade. De todos os que viveram até agora, talvez ninguém odiasse tanto a Cristo como Saulo. Os primeiros membros do Corpo Místico de Cristo pediam a Deus que enviasse alguém para refutá-lo. Deus ouviu a sua oração e enviou Paulo para responder a Saulo.

Um dia, esse perseguidor, exalando ódio, pôs-se a caminho de Damasco para prender os membros do Corpo Místico de Cristo dessa cidade e conduzi-los a Jerusalém. Tinham decorrido poucos anos apenas, desde a Ascensão do Divino Salvador, então glorificado no Céu. Subitamente, Saulo viu-se cercado por uma grande luz e caiu por terra. Foi despertado por uma voz, semelhante ao bramido do mar, que dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9, 4).

O nada ousou perguntar o nome da Onipotência: “Quem és tu, Senhor?”. E a voz respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues” (At 9, 5).

Como era possível Saulo perseguir a Nosso Senhor, que estava glorificado no Céu? Por que dizia a voz do Céu: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

Se alguém tropeçasse num móvel, não se queixaria a cabeça, uma vez que o pé faz parte do corpo? Assim, dizia agora o Senhor, ao ferir o seu Corpo, Paulo estava ferindo a Ele. Ao ser perseguido o Corpo de Cristo, era Cristo, Cabeça invisível, que se levantava para falar e protestar. O Corpo Místico de Cristo, portanto, não está entre Cristo e o indivíduo, do mesmo modo que o seu Corpo físico não esteve entre Madalena e o perdão que lhe concedeu, ou a sua mão entre as crianças e a bênção que lhes deitou. Foi por meio do seu Corpo humano que Ele veio aos homens em sua vida individual; é por meio de seu Corpo Místico, ou de sua Igreja, que Ele vem aos homens em sua vida mística incorporada.

Cristo está vivo agora! Ele continua agora a ensinar, a governar, a santificar — como fez na Judeia e na Galileia. O seu Corpo Místico, a Igreja, existiu por todo o Império Romano antes que um único dos Evangelhos fosse escrito. Foi o Novo Testamento que veio da Igreja, e não a Igreja que veio do Novo Testamento. Este Corpo possuía os quatro sinais distintivos da vida:

  • tinha unidade, porque vivificado por uma só Alma, um só Espírito, dom do Pentecostes. E se a unidade em doutrina e autoridade é a força centrípeta que torna a vida da Igreja una,
  • a catolicidade é a força centrífuga que a habilita a expandir-se e a absorver a humanidade remida, sem distinção de raça ou cor.
  • A terceira nota da Igreja é a santidade, que lhe assegura duração, contanto que se conserve sã, pura e livre da peste da heresia e do cisma. Esta santidade não está em cada membro, mas, antes, na Igreja inteira. E porque a alma da Igreja é o Espírito Santo, será Ele o instrumento divino da santificação das almas. A luz do sol não se polui quando os raios atravessam uma janela suja; do mesmo modo, os sacramentos não perdem a sua eficácia santificadora, mesmo quando os instrumentos humanos desses sacramentos se encontram manchados.
  • Finalmente, temos a obra da apostolicidade. Em biologia, omne vivum ex vivo, ou “toda vida vem da vida”. Assim, também, o Corpo Místico de Cristo é apostólico, porque historicamente está enraizado em Cristo, e não em um homem separado dele pelos séculos. Foi por isso que a Igreja nascente se reuniu para eleger um sucessor de Judas, testemunha da Ressurreição e companheiro dos Apóstolos. “Há homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, começando desde o batismo de João até ao tempo em que Jesus se apartou de nós. Agora, é preciso que um deles se junte a nós para ser testemunha da sua Ressurreição” (At 1, 21-22).

Assim, Cristo, que se “esvaziou” a si mesmo na Encarnação, teve agora a sua “plenitude” no Pentecostes. A kenosis, ou humilhação, é uma das facetas da sua Pessoa; o pleroma, ou a continuação de sua vida, na sua Noiva, Esposa, em seu Corpo Místico, a Igreja, é outra. Assim como o desaparecimento da luz e do calor do sol faz a terra gritar pela sua energia radiante, assim o abatimento do amor de Cristo encontra o seu complemento no que São Paulo chama a sua “plenitude” — a Igreja.

Muita gente julga que acreditaria em Cristo, se tivesse vivido no seu tempo. Mas a verdade é que isso não lhes traria grande vantagem. Aqueles que agora não o reconhecem como divino, vivo no seu Corpo Místico, também não o reconheceriam como divino, vivo no seu Corpo físico.

Se há escândalos nas células do seu Corpo Místico, também houve escândalos no seu Corpo físico; num e noutro caso, sobressai de tal modo o humano, que em momentos de fraqueza ou Crucifixão, é necessária uma força moral para descobrir a Divindade.

Nos tempos da Galileia, era necessária uma fé apoiada em motivos de credibilidade para acreditar no Reino que Ele vinha estabelecer, ou no seu Corpo Místico, através do qual Ele santificaria os homens por seu Espírito, depois da Crucifixão. Hoje, requer-se uma fé apoiada nos mesmos motivos de credibilidade, para acreditar na Cabeça, ou Cristo invisível, o qual governa, ensina e santifica por meio da sua Cabeça visível e do seu Corpo, a Igreja. Num e noutro caso, é preciso “levantar-se”. Nosso Senhor disse a Nicodemos que, para remir os homens, tinha de ser “levantado” na Cruz; para santificar os homens no Espírito, teve de “elevar-se” ao Céu na Ascensão.

Cristo continua, pois, a andar pelo mundo, no seu Corpo Místico, como andava outrora no seu Corpo físico. O Evangelho foi a pré-história da Igreja, como a Igreja é a pós-história do Evangelho. Continuam a ser-lhe negadas as estalagens, como em Belém; novos Herodes, com nomes soviéticos e chineses, perseguem-no com a espada; surgem outros Satãs, tentando desviá-lo do caminho da Cruz e da mortificação, pelos atalhos da popularidade; oferecem-lhe Domingos de Ramos de grandes triunfos, mas só como prelúdios de Sextas-feiras Santas; atiram contra Ele novas acusações (e não raro pelas pessoas religiosas, como no seu tempo) — que é inimigo de César, antipatriota, pervertedor da nação; de fora é apedrejado, de dentro atacado por falsos irmãos; não faltam sequer os Judas escolhidos para Apóstolos, que o atraiçoam e o entregam ao inimigo; alguns dos discípulos que se gloriavam do seu nome já abandonaram a sua companhia, porque — como fizeram os seus antecessores — acham que a sua doutrina, particularmente no que diz respeito ao Pão da Vida, é “dura”.

Mas, por que não há morte sem Ressurreição, o seu Corpo Místico terá, no decurso da história, mil mortes e mil Ressurreições. Os sinos dobrarão continuamente pela sua execução, mas a execução será eternamente adiada. Virá, finalmente, o dia em que se levantará uma perseguição universal contra o seu Corpo Místico, e será levado à morte como foi antes, “padecendo sob Pôncio Pilatos”, padecendo sob o poder onipotente do Estado. Mas, no fim, cumprir-se-á tudo o que estava predito de Abraão e Jerusalém, na sua perfeição espiritual, quando Ele for glorificado no seu Corpo Místico, como foi glorificado no seu Corpo físico. Foi assim que João Apóstolo o descreveu:

“Vem comigo”, disse ele, “e eu te mostrarei a esposa cujo esposo é o Cordeiro”. E ele transportou-me em espírito a uma grande montanha e me mostrou a Cidade Santa de Jerusalém que descia do Céu da presença de Deus, revestida da glória de Deus.

A luz que brilhava sobre ela era semelhante a uma pedra preciosa, ao jaspe quando se parece com o cristal; e estava rodeada por muro grande e alto, com doze portas, e nas portas, doze anjos, e com uns nomes gravados que são os nomes das doze tribos de Israel, três destas portas estavam a oriente, três ao norte, três ao sul e três a ocidente. E não vi templo algum nela, porque o Senhor Todo Poderoso e o Cordeiro são o templo. E a cidade não precisa de sol, ou lua para a iluminar, porque a glória de Deus brilha sobre ela e sua lâmpada é o Cordeiro.

E as nações caminharão à sua luz, e os reis da terra lhe trarão o seu tributo de louvor e honra, e as portas não se fecharão jamais (não haverá nela noite). As nações entrarão nela com honra e louvor… Assim seja. Vem, Senhor Jesus. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. (Ap 21, 9-14; 22-26; 22, 20-21)

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de: Fulton Sheen, “Vida de Cristo”, São Paulo: Molokai, 2018, pp. 717-725.

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Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar
Virgem Maria

Cinco lições
que a Assunção tem a nos ensinar

Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar

A bela festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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Diante da enxurrada de males que inundam hoje a Igreja de Cristo, acabamos facilmente perdendo de vista o que deve ser para nós um consolo e estímulo constantes à prática da virtude: a única finalidade dos nossos esforços é a vida eterna no Reino de Deus, a Jerusalém celeste, a Igreja em sua perfeição materna e imaculada, junto de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de todos os anjos e santos.

O caminho que devemos percorrer até lá chegar é a caridade e a busca da santidade. E a belíssima festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Esta festa tem muito a ensinar; consideremos, porém, somente cinco coisas:

1) Em primeiro lugar, não temos morada definitiva nesta terra, este vale de lágrimas mortal, passageiro, infestado de pecados. Em sua imutável eternidade, Deus pensou em cada um de nós, criou-nos para si mesmo e colocou-nos no jardim deste mundo para cultivá-lo e guardá-lo, até que chegasse o momento de conduzir-nos àquele grande e belo paraíso do qual este mundo é sombra opaca, ou precipitar-nos para todo o sempre no inferno, por causa da nossa preguiça, desobediência e desprezo pelo chamado que nos fizera o nosso Criador.

Mas por que — alguém poderia pensar — temos nós de permanecer neste mundo por algum tempo antes de sermos elevados à morada eterna dos santos? Os seres humanos, sendo criaturas racionais, devem alcançar seu próprio fim passo a passo, e não de imediato, com um único ato (como foi o caso dos anjos, logo após serem criados). A condição humana, tal como Deus a quis, consiste em crescer até a maturidade, em crescer no conhecimento e na entrega de si mesmo. A nossa vida na terra, portanto, é uma escola de virtudes, de oração e amor, é um período de prova para saber o que realmente valemos e para onde queremos ir por toda a eternidade. E vemos que Nossa Senhora foi a melhor aluna desta escola: é aquela que escutou o Pai, recebeu sua Palavra e a deu livremente ao mundo.

A Assunção da Virgem, pintada por Murillo.

2) Em segundo, a nossa condição real não é a de um fantasma, nem a de uma ideia ou de um anjo, puramente espiritual. Não, somos feitos de carne e osso, somos o ponto de encontro entre o visível e o invisível. O Verbo se faz carne para redimir e divinizar este animal racional que somos nós, para lhe aperfeiçoar tanto a racionalidade como a animalidade. Em Cristo ressuscitado vemos, pois, perfeição tanto de espírito como de matéria. Eis aí o nosso destino: ressuscitar dos mortos, com nossas carnes íntegras e nossa alma unida ao corpo — a pessoa humana inteira, criada por Deus do pó da terra e insuflada com o sopro divino.

É o que já aconteceu com a Virgem Maria: ela, que não conheceu a corrupção do pecado, não havia de conhecer a corrupção do sepulcro; ela, em cujo ventre habitou a Palavra viva e vivificante, não havia de ser acorrentada pela morte: antes, pelo contrário, em toda a beleza de sua natureza humana, intacta, íntegra e cheia de graça, ela foi assunta em corpo e alma à glória do céu, tendo já alcançado plenamente a promessa da ressurreição.

3) Em terceiro lugar, a festa da Assunção nos ensina que as leis da natureza, por terem em Deus sua origem última, não limitam o poder e a vontade divina. Nossa Senhora foi elevada aos céus, contrariando assim o que chamamos de “leis físicas”, mas em total harmonia com a lei suprema que é a vontade de Deus. Ela entrou em outra dimensão, que não é medida pelo movimento de corpos corruptíveis e pelo tempo que eles levam para ir de um lugar a outro, uma dimensão muito acima do nosso espaço e tempo. Assim também aconteceu com Nosso Senhor em sua Ascensão, isto é, quando Ele subiu ao céu e “uma nuvem o ocultou aos olhos” dos Apóstolos (At 1, 9). Foi o jeito que o evangelista encontrou de dizer que Jesus saiu deste mundo criado e entrou na dimensão própria de Deus, a sua “terra pátria”, misteriosa e inefável, oculta a olhos mortais, mas agora aberta, graças à sua Paixão e Cruz, a quantos forem salvos.

4) Em quarto, a festa de hoje nos ensina a enorme dignidade do corpo humano, templo do Espírito Santo, que não deveríamos nunca profanar com lascívia ou impureza, desfigurar com mutilação e tatuagens, destruir com vícios e indolências, idolatrar com certa obsessão por esportes e exercícios, nem aparentemente desprezar pela cremação de seus restos mortais. O corpo é a digníssima morada de uma alma imortal e do Corpo de Cristo na Santíssima Eucaristia; é o digníssimo instrumento de que Deus se serve para transmitir a vida humana; é o meio essencial por que realizamos obras de caridade espiritual e material. E é este mesmo corpo que há de ressuscitar no último dia. Não é o corpo, contudo, que nos faz humanos nem aquilo em virtude do qual nos tornamos filhos de Deus: isto quem o faz é a nossa alma espiritual, que dá vida ao corpo e, por meio dos sacramentos, recebe o dom da graça santificante. Reconhecer o valor do corpo à luz de sua ordenação à alma e à vida eterna é a chave para debelar vários males atuais que tão mal fazem à carne.

5) Em quinto e último lugar, a Assunção nos revela que Nossa Senhora está perto, muito perto de Nosso Senhor: ela vê nossas necessidades e intercede por nós junto a Ele, assim como fizera outrora nas bodas de Caná: “Eles não têm mais vinho”. Ela sabe do que precisamos, ela escuta os pedidos de seus filhos e lhes providencia o necessário, como faria toda mãe amorosa, e ela é a mais amorosa de todas. E Jesus, que já sabe do que precisamos, como já sabia da falta de vinho nas bodas de Caná, está disposto a ouvir sua Mãe, dando-lhe assim a dignidade de cooperar para a nossa salvação.

A Assunção, pois, traz Nossa Senhora para mais perto de nós do que nunca, justamente por elevá-la para junto do Senhor, que está presente sempre e em todos os lugares. Não temos nada a temer, porque temos uma Mãe tão atenciosa e um Redentor tão generoso.

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E se Tarcísio fosse seu filho?
Santos & Mártires

E se Tarcísio fosse seu filho?

E se Tarcísio fosse seu filho?

“Bonito o relato do martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? E se o jovem Tarcísio fosse seu filho? Você, como pai, o incentivaria à obediência ou à traição?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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São Tarcísio — cuja memória a Igreja propõe à nossa meditação no mesmo dia em que celebra a Assunção da Santíssima Virgem Maria aos céus, dia 15 de agosto — morreu defendendo a Eucaristia, como se sabe. Os antecedentes de seu martírio mostram ainda que ele o fez não “em um ímpeto”, mas de maneira consciente, decidida, meditada de antemão. O Papa emérito Bento XVI chegou a contar os detalhes da história em uma de suas audiências

Certo dia, quando o sacerdote perguntou, como geralmente fazia, quem estava disposto a levar a Eucaristia aos outros irmãos e irmãs que a esperavam, o jovem Tarcísio ergueu-se e disse: “Envia-me a mim!”. Aquele rapaz parecia demasiado jovem para um serviço tão exigente! “A minha juventude — retorquiu Tarcísio — será a melhor salvaguarda para a Eucaristia”. Persuadido, o sacerdote confiou-lhe então aquele Pão precioso, dizendo-lhe: “Tarcísio, recorda-te que um tesouro celestial está a ser confiado aos teus frágeis cuidados. Evita os caminhos frequentados e não te esqueças de que as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos. Conservarás com fidelidade e segurança os Sagrados Mistérios?”. “Morrerei — respondeu com determinação Tarcísio — antes de os ceder!”.

O restante desse episódio todos conhecemos:

Ao longo do caminho, encontrou pela estrada alguns amigos que, aproximando-se dele, lhe pediram para se unir a ele. Quando a sua resposta foi negativa eles — que eram pagãos — começaram a suspeitar e a insistir, e observaram que ele apertava ao peito algo que parecia defender. Em vão procuraram arrancar-lhe o que ele trazia; a luta fez-se cada vez mais furiosa, sobretudo quando vieram a saber que Tarcísio era cristão; começaram a dar-lhe pontapés e lançaram-lhe pedras, mas ele não cedeu. Em agonia, foi levado ao sacerdote por um oficial pretoriano chamado Quadrato que, ocultamente, também viria a tornar-se cristão. Chegou ali sem vida, mas apertado ao peito ainda conservava um pequeno pedaço de linho com a Eucaristia. Foi sepultado imediatamente nas Catacumbas de São Calisto.

O Papa Dâmaso mandou fazer uma inscrição para o túmulo de São Tarcísio, segundo a qual o jovem morreu no ano 257. O Martirológio Romano fixa a sua data no dia 15 de agosto, e no mesmo Martirológio inclui-se também uma bonita tradição oral, segundo a qual no corpo de São Tarcísio não foi encontrado o Santíssimo Sacramento, nem nas mãos, nem na sua roupa. Explicou-se que a partícula consagrada, defendida com a vida pelo pequeno mártir, se tinha tornado carne da sua carne, formando de tal modo com o seu corpo uma única hóstia imaculada, oferecida a Deus.

Esse bonito relato — que grupos de acólitos e coroinhas talvez até saibam de cor, dado que São Tarcísio é seu padroeiro — precisa ser meditado em toda a sua profundidade, porque, à luz de um exame meramente natural e humano, o que esse jovem romano fez não tem lógica. Não pode compreender essa história, de fato, quem não é católico, quem não crê no mistério da Eucaristia, quem não crê que o pão consagrado pelo sacerdote na Santa Missa não é mais pão, mas o Corpo e o Sangue do próprio Deus humanado. 

Sim, porque, em meio aos pontapés e pedradas de que Tarcísio era alvo, fosse aquele um pão qualquer, ele teria o dever de o entregar a seus perseguidores, a fim de se manter vivo. Afinal, na hierarquia dos bens criados, a vida humana possui muito mais dignidade que uma coisa e, no caso, um alimento. Mas Tarcísio tinha , e fé católica. Ele havia aprendido da Igreja que aquilo que trazia nas mãos não era uma coisa, mas um homem; e não um homem qualquer, mas Jesus Cristo, Deus que se fez homem. Diante disso, o quadro se invertia completa e infinitamente: Tarcísio tinha, diante de si, a própria vida e a de Deus; a sua humanidade e a de Cristo. Era preciso, pois, preservar aquele cujo “amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4), e morrer mártir.

“Coisa bela”, podemos dizer, e de fato é. Santo Tomás de Aquino explica em sua Suma Teológica (II-II, 124, 3 c.) que:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque, tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos”. 

Não nos basta, porém, reconhecer a beleza do ato de São Tarcísio. Os episódios da vida dos santos são-nos propostos não só para que os admiremos, mas também para que os imitemos, senão em sua literalidade, ao menos nas virtudes que os inspiraram.

Por exemplo, imagine a senhora, mãe, imagine o senhor, pai, que Tarcísio fosse seu filho. “Bonito o martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? O senhor e a senhora são católicos, crêem na presença real de Jesus na Eucaristia, vão à Missa todos os domingos, comungam com frequência… Mas o que aconselhariam a seu filho, caso ele se achasse em situação semelhante à deste mártir dos primeiros séculos? Melhor: que grito desesperado o sr. e a sra. dariam a seu filho nessa circunstância? Dir-lhe-iam, com a mãe dos Santos Macabeus: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (2Mb 7, 27.29)? Ou pedir-lhe-iam, como o tio de São José Sánchez del Río, que ele simplesmente fizesse o que seus algozes o instavam a fazer, só para se ver livre da morte?

Pintura digital de S. Tarcísio, por Gabrielle Schadt.

Sim, essa é uma situação extrema, e não seríamos capazes de fazer o correto contando apenas com nossas forças: o martírio, e a aceitação dele, só são possíveis com a graça de Deus. Sem ela, seríamos reféns da fraqueza de nossa carne. Fôssemos os pais de Tarcísio, nossa natureza, nossos sentimentos, a afeição natural que temos por nossos filhos, inevitavelmente nos compeliriam ao grito do “Poupai-o”; só a fé poderia nos fazer agir de modo diferente, e não qualquer fé, mas a da Igreja, isto é: a fé de que Deus se faz realmente presente nas espécies eucarísticas; a fé de que conservar em nosso coração a graça de Deus vale mais do que conservar todos os bens criados, inclusive a própria vida; a fé de que Deus recompensa os atos heroicos que fazemos por seu amor, e pune, por outro lado, as covardias a que cedemos, se movidos por nossa carne.

Mas e nós, cremos nisso?  

A começar pela Eucaristia: como são tratadas em nossas igrejas as hóstias consagradas, em cujas mínimas partículas acreditamos estar nada menos do que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus? Lidamos com esse sacramento conscientes de que “as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos”? Comungamos como quem ama de verdade a Nosso Senhor, ou entramos na procissão da Comunhão como quem participa de um rito qualquer? Comungamos discernindo o que vamos receber, ou como quem vai atrás de um simples “pedaço de pão”?

E quanto à nossa vida: como lidamos com as nossas próprias misérias? Como tratamos a vida sobrenatural da graça em nós, e que olhar temos para o pecado? Será que nós cremos realmente que é melhor morrer a cometer um só, um único pecado mortal que seja? Cremos que, por mais que haja sacerdotes à disposição, por mais que possamos sempre recorrer ao tribunal da misericórdia de Deus, devemos tomar muito cuidado para não abusar do perdão de Deus e transformar nossos arrependimentos e confissões em rotina, ou em um “ritual” puramente externo e superficial? Ignoramos, ou fingimos ignorar, que “a misericórdia foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela”?

Só por nos incitar a esse exame de consciência celebrar os mártires é um aprendizado valioso. A teologia do martírio é muito necessária para nós e para a nossa época, tão carentes que somos de virtudes, tão frios que somos na caridade, tão condescendentes que somos com o mal… Deus pede de nós o heroísmo de homens como São Tarcísio, como os Santos Macabeus do Antigo Testamento, como São José Sánchez del Río, e não a pusilanimidade e a covardia em que tantas vezes estamos afundados! Deus nos dá a sua graça não só para que levantemos, mas também para que deixemos de cair. E a nossa perseverança constitui uma espécie de “martírio silencioso”, de quem diz a Deus, dia após dia: “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2).

Quanto a nossos filhos, a vida sobrenatural que eles receberam no dia de seu batismo deve ser o bem mais precioso que eles têm a guardar — e nisso consiste a essência de uma boa educação, uma educação verdadeiramente católica. Por que do que adiantará, por exemplo, termos dado cultura a nossos filhos (coisa boa, e que ninguém negará que o seja); do que adiantará que tenhamos feito deles pessoas letradas, cheias de erudição, e que tenham se tornado “bons cidadãos” no futuro, se na eternidade eles se tornarem moradores do inferno, porque levaram esta vida decisiva na lama do pecado mortal? 

É por raciocinarem assim, com fé, que tantos pais têm preferido tirar os seus filhos do atual sistema educacional para educá-los em casa: porque eles sabem que o bem da alma de seus filhos — que o mundo a todo custo quer engolir — vale mais do que tudo. É por causa dessa fé que tantos santos pediam a Deus que levassem seus filhos deste mundo antes de eles cometerem um único pecado grave

Se ainda não chegamos a esse ponto, a essa disposição de entrega, convençamo-nos ao menos da necessidade de pedir a graça de querê-lo. Nós não nascemos para este mundo, tampouco devemos criar nossos filhos para ele. “Se Deus quis as gerações dos homens”, ensina o Papa Pio XI em sua encíclica Casti connubii, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”.

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Por que viver a modéstia?
Doutrina

Por que viver a modéstia?

Por que viver a modéstia?

Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um “quem”, não como um “quê”. A virtude da modéstia é uma proteção contra um sem número de perigos; desprezá-la, porém, um convite a uma multidão de pecados.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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Em meu último artigo sobre modéstia, defini essa virtude e expliquei por que ela é essencial, e não opcional, à vida cristã. Ela está longe, é fato, de ser a virtude mais importante; mas, ainda assim, vivê-la é uma proteção contra um sem número de perigos, enquanto desprezá-la é um convite a uma multidão de pecados.

A modéstia é uma profunda necessidade humana. Por isso, não é possível rejeitá-la senão à custa da própria integridade e autoestima. Quantas mulheres não haverá por aí, feridas em sua dignidade, assombradas pela lembrança de terem sido usadas uma e outra vez apenas por causa de seus corpos? São vítimas de má instrução, de má educação, de maus conselhos. São mulheres carentes de modéstia, virtude intimamente vinculada ao fato e à percepção da dignidade humana. E por terem sofrido a falta que faz tal virtude, dela necessitam ainda mais para poder recuperar sua dignidade e a consciência do quanto valem, simplesmente por serem pessoas, que merecem ser amadas por si mesmas. Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um quem, não como um quê.

O cristão é chamado a proclamar a primazia do divino sobre o humano e deste sobre o animal. Reconhecemos, assim, a bondade natural e a capacidade de tornar-se santo de todo corpo animado por uma alma imortal, criada à imagem e semelhança de Deus: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7); “Vós me tecestes no seio de minha mãe […], nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas” (Sl 138, 13.14).

O corpo é criação de Deus, templo do Espírito Santo, purificado e ungido no batismo, herdeiro da promessa de ressuscitar um dia para a eterna bem-aventurança. A nossa aparência e o nosso comportamento deveriam ser testemunhas da verdade caracteristicamente católica — atestada com toda a clareza no Novo Testamento — de que tanto o matrimônio como o celibato honram o corpo humano como algo digno de amor, como canal da graça e sinal sagrado, quando consagrado pelos sacramentos de Jesus Cristo: “O corpo não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o corpo” (1Cor 6, 13).

Quer se trate do corpo físico, do corpo político ou do Corpo místico, cada um deles é, à sua maneira, uma unidade composta de várias partes distintas, distribuídas e relacionadas hierarquicamente. A pessoa humana, neste sentido, consiste numa hierarquia de elementos que lhe compõem a personalidade: há muitos níveis e camadas do “eu”, e nem todas elas devem estar à mostra. Um igualitarismo antropológico radical, que atribui igual valor ao corpo e à alma, ou às diferentes potências da alma — pondo, por exemplo, a imaginação ou a vontade no mesmo nível que a inteligência —, não está menos equivocado do que o igualitarismo político ou eclesiológico. 

A dimensão corporal da pessoa é inseparável do seu significado sacramental, sobretudo quando falamos do corpo nu. Este é o dom mais expressivo que os esposos podem oferecer um ao outro. Ao darem seus corpos, eles se doam a si mesmos, já que o corpo não é apenas algo que “possuo”, como se fora outra propriedade mais, mas parte daquilo que eu sou. A pessoa humana não “está” em um corpo, senão que ela é corporal: somos seres encarnados. Eis o que Santo Tomás nos tem a dizer a esse respeito:

Por que há no corpo natural tantos membros: mãos, pés, boca e assim por diante? Porque tais membros servem às diferentes funções da alma. Ora, a alma, enquanto tal, é causa e princípio desses membros, que são o que a alma é virtualmente. Com efeito, o corpo está feito para alma, e não ao contrário. Por isso, o corpo físico é como que certa plenitude da alma.

Por conseguinte, o corpo, mais do que qualquer outro dom que se possa dar, há de ser descoberto e possuído somente por aquele ou aquela a quem ele houver sido consagrado solenemente, à semelhança da Eucaristia, que, sendo o corpo verdadeiro de Cristo, há de ser recebido apenas pelo batizado que estiver unido a Cristo pela caridade. O corpo do marido, ensina São Paulo, já não pertence a ele, mas à sua esposa, e o corpo desta ao marido (cf. 1Cor 7, 4).

Vale a pena refletir sobre o estreito vínculo sacramental que une os esposos e a completa modéstia, a sensibilidade de alma, por ele exigida. A modéstia é uma virtude essencial, não porque os corpos ou as paixões sejam, em si mesmos, coisa vergonhosa, mas porque a bondade que lhes corresponde e o poder que têm de servir como ministros da graça impõem o dever de protegê-los de todo abuso, manipulação e desordem. Recordemos as belas palavras de São Paulo, tão exaltadas, tão cheias de amor por tudo o que Deus criou e redimiu: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Os seres humanos somos chamados a guardar o segredo da nossa personalidade, dom precioso que recebemos de Deus, mistério que não devemos expor para “consumo público”. Aos namorados e noivos, aos recém-casados e esposos de longa data foi confiada uma verdade divina, que eles têm o dever de defender contra as forças hostis que ameaçam profaná-la. Homem e mulher, no fundo, são dois segredos a serem compartilhados no amor; são como uma câmara íntima, que não deve ser escancarada, como uma praça pública: deve, pelo contrário, ser tratada com reverência, como se estivéssemos diante de um santuário ou do sacrário de uma igreja.

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As mentiras da TV, as profecias da Igreja e as almas de nossos filhos
Sociedade

As mentiras da TV,
as profecias da Igreja
e as almas de nossos filhos

As mentiras da TV, as profecias da Igreja e as almas de nossos filhos

As telas das TVs e dos smartphones estão acesas e prontas para contar um monte de mentiras a você e à sua família… E você, vai fazer algo, ou ficar de braços cruzados?

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Agosto de 2019
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Continuemos a falar da verdadeira hipnose que exercem sobre nossas mentes os programas de TV, as novelas, os filmes e séries da Netflix e entretenimentos do gênero. É um tema grave, urgente, inesgotável e que merece, mais do que nunca, a nossa consideração.

Como já dito, não se trata de condenar esses espetáculos como imorais per se, pois não o são; deve-se reconhecer todavia que, “infelizmente, no atual estado de coisas, é geralmente para o mal que o cinema exerce sua influência” (Vigilanti cura, 26) — palavras do Papa Pio XI, numa das primeiras manifestações magisteriais sobre os meios de comunicação, no longínquo ano de 1936. 

Vinte anos mais tarde, seria a vez de Pio XII prenunciar “gravíssimos danos individuais e sociais” como consequência do mau uso da recém-chegada televisão (cf. Miranda prorsus, 144). Quase na mesma época, outro Pio, o santo de Pietrelcina, reagia igualmente desconfiado à chegada da TV aos lares católicos. Conta-se que, quando surgiu o aparelho, ele “ficou furioso”, e “a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: ‘Verá que uso farão dela!’”. 

É a previsão de três homens do século passado, que hoje podemos muito bem tachar de “ultrapassada”, mas que, por se ter baseado em uma visão correta da natureza humana, demonstrou-se plenamente acertada. O que esses piedosos homens disseram do cinema e da TV foi uma verdadeira profecia.

Mas o que eles disseram mesmo? Entre outras coisas, que: 

  • estavam se apresentando “falsas normas de vida ao espírito impressionável e facilmente excitado da mocidade” (Vigilanti cura, 11);
  • os maus filmes produzem “um mal enorme” nas almas: “por glorificarem o vício e as paixões, são ocasiões de pecado; desviam a mocidade do caminho da virtude; revelam a vida debaixo de um falso prisma; ofuscam e enfraquecem o ideal da perfeição; destroem o amor puro, o respeito devido ao casamento, as íntimas relações do convívio doméstico” (Vigilanti cura, 21); e que
  • se devia evitar no cinema “aquelas atitudes tendenciosas e parciais que poderiam favorecer no público conceitos errôneos da vida e do comportamento humano” (Miranda prorsus, 48).

Perceba-se a insistência com que os Papas falam aqui de “erro” e “falsidade”. Esqueça-se por um instante o enorme tempo que as pessoas da nossa época perdem com a TV, as novelas, os filmes e os seriados. O principal alerta do Magistério da Igreja quanto a esses programas, desde o princípio, são justamente as “falsas normas de vida”, a vida apresentada “debaixo de um falso prisma”, os “conceitos errôneos da vida e do comportamento humano”: em resumo, os meios de comunicação mentem.

Se mentem, é porque há uma verdade

Aqui é preciso lembrar uma coisa: a Igreja Católica, em sua missão de ensinar, não se limita a apresentar uma “visão de mundo” qualquer às pessoas, com e sem a qual a vida delas continua a mesma. Não é que, na escola da vida, ela seja uma criança de sala de aula com uma resposta a oferecer às perguntas que fazem os homens, e aqui e ali encontraremos respostas tão boas ou até melhores que a dela, como se o “catolicismo romano” fosse uma religião, ou um credo a mais no mundo… Não! Quem investigar as fontes da Revelação e os próprios documentos do Magistério verá que a pretensão da Igreja é muito maior do que essa: ela clama para si o título de “mãe e mestra”; a Escritura chama-lhe “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 15); os Santos Padres não lhe economizam elogios; e o Papa Paulo VI, em tempos recentes, disse a seu respeito que era rerum humanarum peritissima, isto é, “peritíssima em humanidade” (Populorum Progressio, 13). 

É claro que, se qualquer pessoa ou instituição simplesmente dissesse isso de si mesma, sem mais nem menos, a coisa mais natural do mundo seria perguntarmos com que credenciais, afinal de contas, tal pessoa ou tal instituição se arroga tais títulos. 

No caso, se perguntarmos isso à Igreja, ela dirá simplesmente, como disse seu Fundador dois mil anos atrás: “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16). Ela dirá: “Não ensino a verdade porque a tenha inventado, mas porque a recebi. E recebi-a não de um líder qualquer, mas do próprio Deus feito homem, Jesus Cristo”.

Se a Igreja dissesse, portanto, confrontando as inúmeras mentiras propagadas pela mídia: “Essa é a minha opinião”, “Nós temos um ‘ponto de vista’”, “Eu acho que isso está errado”, essa postura seria, por si só, a sua destruição. A Igreja, em matéria de fé e moral, não tem uma “contribuição” a dar: ela tem, isso sim, a verdade a ensinar, o remédio infalível a entregar aos homens, sem os quais eles inevitavelmente perecerão. Se a Igreja se limitasse a levantar a mão e apresentar, “como quem não quer nada”, uma respostinha qualquer na sala das religiões, só com isso ela já estaria se condenando a si mesma, traindo a missão que lhe confiou o seu Fundador.

Mas não, a Igreja sabe que estão sendo apresentadas nos meios de comunicação “falsas normas de vida”, que a vida dos homens ali é apresentada “debaixo de um falso prisma” e que estão sendo propagados aos quatro ventos, por áudio e imagem, “conceitos errôneos da vida e do comportamento humano”; e ela o sabe justamente por saber quais são as verdadeiras normas de vida: sabe sob qual prisma deve ser enxergada a realidade, sabe quais são os conceitos certos da vida e do comportamento humano e sabe não porque tenha, meio que às apalpadelas, descoberto o “caminho das pedras”, mas sim porque recebeu de Jesus Cristo, Deus feito homem, todo o necessário para que o homem seja feliz neste mundo e no que há de vir

É importante repetir isso porque essa é a base para darmos ouvidos ao que diz a Igreja. Sem essa convicção de fé, de que ela é custodiadora da Revelação divina, trataremos a Igreja justamente como quem trata um programa de TV, uma série ou um filme da Netflix

A que mentiras nos referimos?

Mas de que “falsas normas de vida”, afinal, estamos falando? 

São inúmeras e elas abrangem todo o espectro das coisas humanas, mas, como Pio XI falava especificamente das “ocasiões de pecado”, da destruição do “amor puro, o respeito devido ao casamento, as íntimas relações do convívio doméstico”, tratemos logo desse espinhoso assunto: os meios de comunicação travam uma batalha contra a castidade, contra o sexto e o nono mandamentos, contra a sexualidade tal como ela foi criada e ordenada por Deus.

E a nós, católicos, não é muito difícil percebê-lo. Quem já não sentiu a dificuldade de procurar um bom filme a que assistir em família, sem ter a preocupação de ser bombardeado por cenas de nudez ou sexo gratuitas? 

Mas se o problema fosse esse, bastaria dar uma olhada na classificação indicativa dos espetáculos, e pronto. Hoje, porém, mesmo quando um filme ou uma série não exiba gratuitamente cenas indevidas (pornográficas, sejamos claros), as ideias pornográficas ainda estão lá — e tanto mais perigosas quanto mais sutis e passíveis de circular livremente, como se material inofensivo fosse... Os personagens que, sejam os homens “galinhas” ou as mulheres de vida fácil, em diálogo e em toda a sua vida só o que fazem é pensar em obter prazer sexual, ou o máximo de parceiros sexuais que conseguir… estão ensinando pornografia aos casais que se sentam em frente à televisão. (E de quebra aos seus filhos também.) Os casais que se traem e se divorciam como quem troca de roupa estão ensinando a tratar o casamento como algo descartável… e a endeusar o sexo e o prazer como o máximo dos valores, exatamente como os sites pornográficos fazem.

“Mas eu assisto e nada disso me afeta”. A quem diz esse tipo de coisa seria importante lembrar que os primeiros a declará-lo, colocando-se de modo deliberado na ocasião de pecar, são justamente os primeiros a cair. Além do mais, dizer que o que entra por nossos sentidos, dia após dia, talvez por horas a fio, em nada nos afetará a vida, é no mínimo ingenuidade e, na pior das hipóteses, autoengano. Será que deveríamos lembrar a essas pessoas o combate constante, intenso, imparável, entre carne e espírito que se trava dentro de nós? E que se facilitarmos, perderemos? E que o que está em jogo não é dinheiro (antes fosse), não é só o tempo que perdemos, mas a nossa própria alma e salvação eterna?

“Nada disso me afeta”, diz o homem e a mulher “fortes” diante da tela, mas eles não se dão conta de que os personagens ateus e perversos dos programas a que assistem vão pouco a pouco moldando seu modo de vida. O ator da novela ou da sua série favorita não reza; daí a pouco o pai de família tampouco se entrega à oração. A atriz da novela ou do filme só o que faz é correr atrás mais da própria aparência que das virtudes; daí a pouco a mãe de família está fazendo o mesmo, sem sequer perceber. A ficção do mundo vai pouco a pouco entrando na cabeça das famílias... e então é questão de tempo para que a fé da família seja “minada”, e são os dogmas da Igreja, os Mandamentos e a vida de oração que terminam se transformando em ficção. Tudo porque gastamos o tempo integral de nossa vida real presos a uma tela de smartphone, de TV ou de seja lá o que for.

Um combate que começa na família

O que fazer, concretamente? 

É possível começar limitando o tempo diante das telas, é possível fazer muitas coisas. Mas uma medida que decididamente deveríamos tomar é esta: “abster-se de ver filmes que ofendam a verdade e a moral cristã” (Vigilanti cura, n. 34). Porque — sejamos humildes, e não condescendentes com nossas fraquezas — nós somos os primeiros a precisar de conversão; nós somos os primeiros a ter necessidade de olhar para bons exemplos e modelos em que nos inspirarmos; e além disso, ai de nós, com quem nossos filhos estão aprendendo a ser adultos? Será que não estamos destruindo a vida — ou pior, a alma — de nossos filhos com nossa negligência nesta matéria?

O Papa Pio XII se horrorizava decênios atrás “pensando que, por meio da televisão, se poderá introduzir até dentro das paredes domésticas aquela atmosfera envenenada de materialismo, de fatuidade, e de hedonismo, que infelizmente tantas vezes se respira em muitas salas de cinema” (Miranda prorsus, 66). Ora, por que o que só em pensamento o horrorizava, hoje em dia, passando-se bem diante dos nossos olhos, em nada nos comove? Com nossa total despreocupação quanto aos “amigos que introduzimos no santuário da família” (cf. Miranda prorsus, 115), não nos teríamos tornado insensíveis ao mal? 

A vigilância prudente e avisada de quem recebe em sua casa a transmissão é insubstituível. A moderação no uso da televisão, a admissão prudente dos filhos a presenciar programas segundo a sua idade, a formação do caráter e do reto juízo acerca dos espetáculos vistos e, finalmente, o afastá-los dos programas inconvenientes, incumbem, como grave dever de consciência, aos pais e aos educadores.

Bem sabemos que especialmente este último ponto poderá criar situações delicadas e difíceis, e o sentido pedagógico muitas vezes exigirá dos pais darem bom exemplo também com o sacrifício pessoal em renunciarem a determinados programas. Mas seria porventura demasiado pedir aos pais um sacrifício, quando está em jogo o bem supremo dos filhos? (Miranda prorsus, 150-151)

Ah, os nossos filhos…! Se andamos tão despreocupados com nossas almas a ponto de deixar que nossos sentidos acessem qualquer lixo que se passa em uma rede de TV aberta ou em uma Netflix, que pelo menos nos preocupe, que pelo menos nos intimide, que pelo menos nos acorde de nossa letargia pensar nas almas dos nossos filhos, a quem amamos (ou deveríamos amar) mais do que a tudo o que possuímos nesta vida! “Seria porventura demasiado pedir aos pais um sacrifício” de evitar um programa menos puro, uma série demoníaca, um filme cheio de ideias pornográficas, “quando está em jogo o bem supremo dos filhos?”

Mas se para você já não existem, ou já não fazem sentido, as distinções entre “bem” e “mal”, “verdade” e “mentira”, “pureza” e “indecência”; se você decretou, em sua suprema indiferença, que “não pode julgar” o que deve e o que não deve entrar em sua cabeça, ou mesmo em sua casa… só o que resta é clamar a misericórdia de Deus por você. Essa atitude demonstra que você já deixou de crer no que crê e ensina a Santa Igreja Católica. Por isso, qualquer “norma de vida” que a TV lhe apresenta já o seduz, já o envolve, já o fascina. Você deixou de acreditar no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó (porque desprezou os Mandamentos); deixou de acreditar no Deus de Jesus Cristo (porque acha que “vale tudo” em matéria religiosa); deixou de acreditar no Deus dos santos e santas da Igreja... e, como consequência, você passou a acreditar em qualquer coisa.

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