A Ascensão de Jesus Cristo, relatada nos Evangelhos de Marcos e Lucas e mencionada em todo o Novo Testamento, pode ser considerada, em certa medida, uma incômoda anedota na doutrina católica. “Tendo dito isto, elevou-se à vista deles, e uma nuvem o ocultou aos seus olhos” (At 1,9). 

Algo em relação à Ascensão é quase inimaginável, até mesmo para um milagre — algo quase fabuloso: é a ideia e a imagem de Jesus “voando”. Para quem se sente embaraçado com a Ascensão, aceitá-la parece implicar uma espécie de fantasia mítica ou de devaneio. As pessoas realmente conseguem levar a sério o relato de um homem a flutuar em direção às nuvens? A Ascensão compensa o risco de alienar aqueles que são influenciados por um realismo cínico?

Estamos falando da fé, afinal de contas, e não de um conto de fadas. Podemos descartar esse relato de Jesus a elevar-se aos céus?

C. S. Lewis tratou da mesma questão em [sua obra] Milagres:

Poderemos simplesmente ignorar a história da Ascensão? A resposta será positiva apenas se considerarmos as aparições da Ressurreição como as de um fantasma ou uma alucinação. Pois um espectro pode desvanecer-se, mas uma entidade objetiva deve ir para outro lugar, algo precisa acontecer a ela. E se o corpo ressurreto não fosse objetivo, então todos nós (cristãos ou não cristãos) deveríamos inventar alguma explicação para o desaparecimento do cadáver. E todos os cristãos precisariam explicar por que Deus teria enviado ou permitido uma “visão” ou “fantasma” cujo comportamento parecia quase exclusivamente dirigido a convencer os discípulos de que não era realmente isso, mas um ente material. Se fosse uma visão, tratar-se-ia então da visão mais sistematicamente enganadora e mentirosa de que se tem registro. Mas se fosse real, então algo teria lhe acontecido depois que deixou de aparecer. Não podemos eliminar a Ascensão sem colocar alguma coisa em seu lugar.

Lewis chama a atenção para a importância da dimensão física da Ressurreição, ressaltando que, como esta, a Ascensão exigia um corpo — ponto que não pode ser omitido. Embora a Ascensão de Cristo seja um momento de transcendência espiritual talvez difícil de relatar ou ao qual não seja fácil responder, também é um mistério material. Em outras palavras, a Ascensão diz respeito tanto ao corpo quanto à alma. O Papa emérito Bento XVI escreveu em Dogma e Anúncio:

Que significa, portanto, a Ascensão de Cristo? Significa que cremos que, em Cristo, o homem — o ser homem do qual todos temos parte — entrou no mais íntimo de Deus de modo inaudito e novo. Significa que o homem acha lugar em Deus para sempre

O propósito do milagre da Ascensão é mostrar o caminho de tudo o que é corpóreo. Foi um milagre físico com um corpo físico que ilustrou um relacionamento sobrenatural e eterno: “Estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). 

A Ascensão confirma e completa a Ressurreição de um modo que vai além do mero simbolismo. Como está relacionada a um corpo tangível, possui uma dimensão tangível. O corpo de Cristo desapareceu do túmulo e depois reapareceu antes de desaparecer novamente quarenta dias depois.

Contudo, fez mais do que simplesmente desaparecer. Foi deslocado. Foi para algum lugar e até hoje está em algum lugar. É este segundo desaparecimento que deixa perplexa a sensibilidade contemporânea, pois, de certo modo, é mais estranho que o primeiro. Há uma espécie de solenidade na ideia de um homem que volta dos mortos; mas há uma espécie de “frivolidade” na ideia de um homem que sobe até o céu.

O ponto é exatamente o fato de que tal carnalidade espiritual pode estimular a incredulidade humana e desafiar o pensador científico. Milagres têm uma dimensão factual, física e espiritual, e sua ruptura com as leis da natureza deve ser considerada matéria de fé e de fato. G. K. Chesterton escreveu em Ortodoxia

Concluo que milagres realmente acontecem. Sou forçado a concluir isso por causa de uma conspiração de fatos: o fato de que os homens que encontram elfos ou anjos não são os místicos e os sonhadores doentios, mas os pescadores, fazendeiros e todos os homens que são ao mesmo tempo vulgares e prudentes; o fato de que todos nós conhecemos homens que testemunharam acontecimentos do mundo espiritual, embora não sejam espíritas; o fato de a própria ciência reconhecer essas coisas cada vez mais todos os dias. A ciência inclusive reconhecerá a Ascensão se a chamarmos de Levitação, e provavelmente reconhecerá a Ressurreição quando pensar numa nova palavra para se referir a ela

Chesterton está de acordo: o milagre da Ascensão não pode ser simplesmente descartado por causa da dimensão material do homem. A promessa de exaltação extraordinária e de esplendor sobrenatural tem relevância não só espiritual, mas também física. Embora, no momento da Ressurreição, o corpo de Jesus tenha sido glorificado para além da experiência normal da natureza, Ele manteve um corpo que, de algum modo velado, ainda se assemelhava ao corpo que tinha.

Ícone oriental retratando a Ascensão do Senhor.

Sem dúvida era diferente a relação corpórea que Jesus tinha com o tempo e o espaço; porém, Ele não estava fora deles. Embora às vezes perambulasse como um “espectro”, Jesus fazia questão de mostrar aos discípulos que não era espectral, como observou Lewis. Ofereceu as mãos para que seus amigos pudessem tocá-las e segurá-las e os olhos deles pudessem ver e crer. Comeu e bebeu com eles. Era feito de carne e sangue. Havia a intenção clara e cuidadosa de confirmar esses fatos físicos tendo em vista o fato espiritual que ocorreria em breve. 

Da Anunciação à Ascensão, há uma dimensão concreta da Encarnação mais difícil de aceitar do que a natureza mística dos milagres de Nosso Senhor. Porém, como mostra Nossa Senhora, é necessário ter fé para afirmar que a Deus nada é impossível, embora algumas coisas possam parecer improváveis.

Ainda que a mente moderna tenha dificuldades de acreditar na história de um homem que subiu aos céus, em algum lugar acima de nós, e aí Ele está, como Filho de Deus, assentado à direita do Pai, esse é o desafio de conciliar a fé com os fatos. O suporte da razão está presente, considerando-se o bom senso envolvido na comunicação de uma promessa física a criaturas físicas, mas sempre deve haver algo no reino da fé.

A Ascensão de Jesus Cristo não é simplesmente um glorioso finale para a história da salvação humana; é, antes, seu início glorioso. Ao deixar a Terra, Nosso Senhor alcançou o homem como jamais o fizera antes. Pelo mistério da Ascensão, Jesus deu à Igreja um sinal milagroso de que Ele não está longe, e de que o corpo humano que abriga o espírito do homem é algo que pertence a Deus.

Como disse o Papa São Gregório Magno sobre a importância da Ascensão corpórea de Nosso Senhor: 

A intercessão de Cristo consiste nisto: Ele se mostra perpetuamente diante do Pai eterno na humanidade que assumira para a nossa salvação; e enquanto não deixa de se mostrar, abre o caminho para a nossa redenção na vida eterna. 

Mesmo que os lógicos (e, aliás, os teólogos) possam demonstrar que não é possível alcançar o céu por meio de um voo pelas nuvens, isso não torna o relato da Ascensão embaraçoso ou marginal. As pessoas precisam de símbolos e sinais sólidos. Precisam conectar um Deus infinito e sempre presente a um céu infinito e sempre presente. O caminho da redenção existe para as pessoas que vivem no mundo, não para almas sem corpo. É exterior e interior, com limites definidos e mistérios divinos. O homem precisa de coisas corpóreas a fim de ser atraído para o divino. Precisa de encarnações tanto quanto precisava da Encarnação. 

O Verbo encarnado, portanto, age em conformidade com o princípio de harmonia entre o físico e o espiritual, e esta é a razão pela qual não podemos simplesmente descartar o relato da Ascensão.