Eminências, Excelências, Monsenhores, para concluir estes Exercícios Espirituais, proponho-vos agora algumas modestas reflexões sobre as relações que existem entre o sacerdócio ministerial e o coração sacerdotal de Cristo. Essas relações são muito estreitas, porque a Nova Aliança, a cujo serviço está ordenado o sacerdócio, tem como centro e fonte o coração de Cristo. Na Carta aos Hebreus, ao fazer o paralelo entre o sacerdócio da Antiga Aliança e o da Nova Aliança, constata-se que o sacerdócio da Antiga era exterior, sem relação alguma com o coração. No Antigo Testamento, fala-se alguma vez do coração do rei: Salomão, por exemplo, pede a Deus que lhe conceda um coração dócil (cf. 1Rs 3, 9), e o livro dos Provérbios diz que “o coração do rei é um canal de água nas mãos do Senhor” (Pr 21, 1). Do coração do sacerdote, porém, não se fala jamais; o culto antigo não tem nenhuma relação com o coração. O culto está definido pela Lei, que se cumpre com ritos convencionais exteriores e oferecendo imolações de animais. O sacerdote deve cumprir os ritos, e basta.

Jesus substituiu esse culto exterior e convencional por um culto pessoal e existencial que parte do seu coração. O sacerdócio de Cristo realiza a Nova Aliança, que consiste no dom, aos crentes, de um coração novo, no qual se derramou um espírito novo: o Espírito Santo. Para fundar a Nova Aliança, Jesus aceitou uma transformação sacrificial do seu coração, para fazer dele propriamente um coração novo. Na Nova Aliança, o problema do sacerdócio e do culto é um problema do coração. Para aproximar-se de Deus, é necessário ter um coração digno de Deus, purificado, santo, verdadeiramente aberto e dócil às relações com Deus, ao amor que vem dele. Esse coração não existia; é a triste constatação de todo o Antigo Testamento: todos tiveram um coração extraviado, não houve nenhum que fosse verdadeiramente justo. Todos estavam manchados pelo pecado e, portanto, longe do Senhor, e eram indignos de ter uma relação com Ele, porque o seu coração não era perfeito. Num oráculo de Jeremias, Deus prometeu uma transformação do coração, dizendo: eis que a Nova Aliança será esta, escreverei a minha Lei em seu coração. Uma Lei escrita sobre pedra não podia produzir uma verdadeira união entre Deus e o povo, porque era algo exterior a Deus e exterior ao povo. A profecia de Jeremias anuncia, pois, que os crentes terão um coração dócil, disposto a fazer a vontade de Deus com amor, um coração disposto a entrar numa relação profunda e autêntica com Deus. Para exprimir isso de maneira mais radical, Ezequiel, em nome de Deus, prometia um coração novo, um espírito novo, porque não bastava escrever a lei de Deus no coração velho, era necessário mudar radicalmente o coração. Por isso, Deus dizia: “Dar-vos-ei um coração novo, porei dentro de vós um espírito novo, porei o meu espírito dentro de vós” (Ez 36, 26.27).

O Cardeal Albert Vanhoye, autor destas linhas.
O Cardeal Albert Vanhoye, autor destas linhas.

Para receber o Espírito de Deus é indispensável ter um coração novo. Segundo a Bíblia, o Espírito recebe-se no coração. Portanto, era necessário ter um coração humano plenamente aberto ao Espírito de Deus, disposto a uma verdadeira aliança com Deus, sem interpor nenhum obstáculo. Podemos ver na Carta aos Hebreus que Jesus aceitou a transformação do próprio coração para realizar essa promessa de Deus, para produzir um coração novo. O coração de Jesus, em certo sentido, é um coração perfeito desde o começo, unido ao Pai, disposto a sacrificar-se pelos homens. É um coração humano, que aceitou uma transformação para realizar plenamente o desígnio de Deus e para poder comunicar-nos um coração novo. Parece-me que o mistério da Redenção é precisamente este. O Filho de Deus tomou uma natureza humana que trazia o sinal do pecado. São Paulo fala de “uma semelhança de carne de pecado” (Rm 8, 3). Uma natureza humana, portanto, necessitada de transformação interior, e ele a tomou precisamente para realizar essa transformação, que não é exterior. Trata-se de transformar o coração, de obter para o homem um coração novo, verdadeiramente dócil a Deus e aberto ao amor que vem de Deus também para os outros.

Essa transformação realizou-se na paixão de Jesus. Sabemos todos que a paixão de Jesus foi um momento de grande dor, de grandes sofrimentos e de lutas interiores, sobretudo na agonia. Nela, vemos que Jesus tinha um coração humano, exposto aos sofrimentos e à angústia. Nessa angústia, assumiu a atitude de docilidade completa para com o Pai (“não se faça a minha vontade, mas a tua”), para a salvação dos irmãos. Jesus assumiu toda a dor da Paixão como uma ocasião de docilidade extraordinária do próprio coração à vontade do Pai. A Carta aos Hebreus diz que “aprendeu com os seus sofrimentos a obediência” (Hb 5, 8). Quis aprender não para si mesmo, mas para nós, para formar em si mesmo um coração dócil, sobre o qual a lei de Deus estivesse escrita; mais ainda, um coração completamente novo, um coração que não quer outra coisa senão obedecer ao Pai, fazer a sua vontade, pôr-se à sua disposição pela salvação dos irmãos. Devemos dar-nos conta do que Cristo fez na Redenção: aceitou verdadeiramente que o seu coração sofresse profundamente para ser transformado e para estar depois à disposição de todos os crentes como um coração novo, que nos comunica uma abertura completa a Deus e aos irmãos. O sacerdócio de Cristo está aqui: Cristo é sacerdote enquanto mediador da Nova Aliança, que consiste na transformação do coração. Jesus chegou a ser perfeito sacerdote graças à sua Paixão, com a qual o seu coração humano foi transformado, para que se convertesse no centro e na fonte da Nova Aliança.

Quando falamos do coração de Cristo, estamos verdadeiramente no centro da Revelação do Novo Testamento. Não se trata somente de uma revelação teórica, mas de uma atuação divina, que se efetuou no coração humano de Jesus. Se não chegamos até este ponto, permanecemos superficiais, não podemos apreciar plenamente a riqueza da Redenção, que agora temos à nossa disposição neste coração. A grande revelação é propriamente o amor que se manifestou na encarnação do Filho de Deus e na sua Paixão. Sem o amor, a Paixão não teria tido nenhum valor. Teria sido apenas um acontecimento trágico e escandaloso. Tudo foi transformado desde o interior, desde o coração. O que era externamente o mais oposto ao amor converteu-se em ocasião do amor maior, graças à generosidade do coração de Jesus. Não se podem imaginar circunstâncias mais contrárias a um progresso do amor: a injustiça, a crueldade, a traição. Todas as coisas que se opõem ao amor convertem-se, contudo, em ocasião de um amor maior, numa superação extraordinária. O segredo está no coração de Jesus, isto é, no amor de Jesus.

Quando falamos de coração, falamos de amor, mas de um amor vivido por um homem. Não se trata do amor divino anterior à Encarnação, mas do amor vivido pelo Filho de Deus na sua natureza humana, com os seus sofrimentos humanos, com os seus sentimentos e com as suas decisões humanas. Verdadeiramente, um coração que foi extremamente generoso, pois sofreu as circunstâncias mais adversas para fazer superabundar o amor.

“Sagrado Coração de Jesus”, por Pompeo Batoni.
“Sagrado Coração de Jesus”, por Pompeo Batoni.

Que este é o centro, demonstra-o também São Paulo quando fala do ágape, do amor, da caridade (cf. 1Cor 13). Para os coríntios, havia outras coisas que pareciam mais interessantes e mais importantes que a caridade: a profecia, os carismas extraordinários, o dom de línguas, a gnose, o conhecimento. Todas estas lhes pareciam mais importantes, mais divinas. São Paulo não hesitou, e disse: não, o conhecimento não tem nenhum valor sem o amor, “a ciência incha, o amor edifica” (1Cor 8, 1); “se não tiver amor”, não tenho nada, “nada sou” (1Cor 13, 2). Paulo pôs no centro o amor, que tem a sua fonte no coração de Cristo.

Todo o Novo Testamento se orienta nesse sentido, e mais exatamente no sentido da união das duas dimensões do amor: o amor a Deus e o amor aos irmãos. Esse é o ponto mais específico do Novo Testamento. O Antigo Testamento buscava o amor a Deus “de todo o coração”, mas não afirmava tão claramente a relação entre o amor a Deus e o amor ao próximo (cf. Ex 32, 26-29). Estabelecia-se essa relação, mas não com tanta força como em Cristo. Como já disse, em Cristo as duas dimensões da cruz, a vertical, que exprime a relação com Deus, e a horizontal, que exprime a relação conosco, formam uma unidade: são as duas dimensões do amor, unidas no centro do coração de Jesus, que manteve essas duas dimensões estritamente unidas apesar da tensão extrema que sofria. Assim, o seu coração chegou a ser e é realmente um coração sacerdotal, o coração do Sumo Sacerdote, coração do mediador da Nova Aliança.

O sacerdócio ordenado é sacramento do sacerdócio de Cristo, sacramento da mediação sacerdotal de Cristo. Por meio dos bispos e dos presbíteros, Cristo torna presente o seu sacerdócio e torna-o presente como mediação da Nova Aliança, pondo à disposição de todos o seu próprio coração. O sacerdócio ordenado tem, portanto, uma relação estreitíssima com o coração sacerdotal de Cristo: pode-se chamá-lo “sacramento do coração sacerdotal de Cristo”. Cristo, mediador da Nova Aliança, exerce a sua mediação, fundada sobre o seu coração, por meio de “ministros da Nova Aliança”, como diz São Paulo (2Cor 3, 5). Cristo, Bom Pastor que levou o próprio amor até o ato de dar a própria vida pelas ovelhas, cuida do seu rebanho por meio dos pastores da Igreja, que foram chamados a “apascentar o rebanho de Deus”, como indica São Pedro em sua Carta (cf. 1Pd 5, 2) e como diz São Paulo num discurso dos Atos dos Apóstolos (cf. At 20, 28).

“A Última Ceia”, por Carl Bloch.
“A Última Ceia”, por Carl Bloch.

O sacerdócio ordenado, como todos os sacramentos, é uma criação extraordinária de Cristo, uma expressão do seu amor. Naturalmente, o sacramento mais importante é a Eucaristia, mas a Eucaristia não é possível sem o sacerdote. Na celebração eucarística, não se dão somente o Corpo e o Sangue de Cristo, mas também a presença sacramental de Cristo, graças à presença do sacerdote. Isto é motivo de maravilha e de estupor: ver que Jesus criou essa sua presença sacramental não somente em objetos ou substâncias, mas também em nossas pessoas, ainda que sejamos indignos. Devemos, portanto, ser agradecidos e ter o sentimento da nossa responsabilidade.

Para ser sacramento de Cristo sacerdote, o bispo, o presbítero, deve estar unido ao coração de Cristo em suas duas disposições fundamentais: a docilidade para com Deus e a misericórdia para com os homens. Deve ter um coração filial para com Deus Pai e um coração fraterno para com as pessoas humanas. Uma mediação, com efeito, exerce-se entre as duas partes e requer boas relações do mediador com as duas partes. Na mediação sacerdotal, trata-se de pôr em relação o povo e Deus e, portanto, para o mediador são necessárias, de uma parte, boas relações com Deus e, de outra, com os irmãos. Essas relações, quando se trata de relações entre Deus e os homens, obtêm-se pondo-as no coração.

Jesus disse explicitamente que tem um coração “manso e humilde” (Mt 11, 29). Um coração humilde, isto é, dócil a Deus, filial, até a obediência da cruz. Um coração manso, isto é, fraterno, misericordioso. Quando Jesus define o seu próprio coração como manso e humilde, toca os dois aspectos da mediação sacerdotal: mostra que o seu coração é um coração sacerdotal, que estabelece as relações com Deus na humildade e as relações com os irmãos na mansidão. Quando a Carta aos Hebreus define o sacerdote, exprime de maneira semelhante o conteúdo dessas duas qualidades essenciais: a humildade de coração diante de Deus na docilidade profunda (cf. Hb 5, 4-5) e a mansidão de coração para com os homens na misericórdia (cf. Hb 5, 2). O coração filial de Cristo manifestou-se sobretudo na agonia do Getsêmani. Ali se vê até que ponto Jesus foi dócil ao Pai, com imenso amor, humilde. O coração fraterno de Cristo manifestou-se sobretudo na instituição da Eucaristia, quando Jesus se deu a si mesmo em alimento de comunhão fraterna. Mas não é possível fazer uma separação entre esses dois aspectos. Na agonia, Jesus manifesta-se também irmão nosso, porque toma sobre si toda a nossa angústia, a nossa situação desesperada, e faz-se assim “em tudo semelhante aos irmãos” (Hb 2, 17). E na instituição eucarística, Jesus mostrou-se também como Filho, que dá graças ao Pai e recebe do Pai toda a corrente de amor necessária para mudar a situação. Filiação e fraternidade estão intimamente unidas e são as duas virtudes fundamentais do coração sacerdotal de Cristo. O coração do sacerdote define-se pela união dessas duas disposições: docilidade filial e misericórdia fraterna.

“Agonia no Horto”, por Frans Schwartz.
“Agonia no Horto”, por Frans Schwartz.

[Imagem à esquerda: “Agonia no Horto”, por Frans Schwartz.]

Jesus quis unir os seus Apóstolos a essas duas relações fundamentais do seu coração. Na sua relação com o Pai, vemos a insistência de Jesus em dizer que veio não para fazer a sua vontade, mas a vontade do Pai (cf. Jo 5, 30; 6, 38). Vemos sobretudo que quer unir os seus Apóstolos a essa sua disposição de docilidade completa. Vemo-lo na agonia, quando pede aos Apóstolos que vigiem com ele: “Vigiai e orai” (Mt 26, 41). Antes, havia insistido na necessidade de serem dóceis ao Pai. No momento em que se encontra na provação, pede aos Apóstolos que compartilhem essa provação e essa disposição, e dá-lhes uma lição impressionante de docilidade cheia de amor filial, porque o seu grito “faça-se a tua vontade” (Mt 26, 42) não é a expressão de uma resignação, mas um grito de amor filial.

Por outro lado, quis unir os seus Apóstolos ao seu coração na misericórdia para com os pecadores. Isso se vê muitas vezes no evangelho, em particular na vocação de Mateus. Mateus era considerado pecador, porque era publicano. Jesus manifesta para com ele a sua misericórdia surpreendente, dizendo: “Segue-me” (Mt 9, 9). Uma honra extraordinária, não só a de ser considerado por Jesus como alguém a salvar, mas como um possível cooperador. Viu-se logo que essa vocação de Mateus foi a ocasião de mostrar que o apóstolo deve ser misericordioso com os pecadores, que os discípulos de Jesus devem ser misericordiosos. Mateus organiza um banquete com outros publicanos. Isso suscita a crítica dos fariseus, que dizem aos discípulos: por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores? Jesus responde com decisão: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores”. E Jesus cita a profecia de Oseias: “Ide aprender o que significa: misericórdia quero e não sacrifícios” (Mt 9, 11-13).

Os Apóstolos são assim associados ao movimento de misericórdia do coração de Cristo, fim da sua vocação. Jesus não busca o culto ritual exterior de santificação por meio da separação ritual; esse é o sistema antigo. Agora o verdadeiro culto realiza-se num movimento de misericórdia para com os irmãos, na docilidade plena ao amor do Pai.

O sacrifício de Cristo não foi um sacrifício à maneira antiga; foi um ato de misericórdia extrema, uma pena capital transformada pelo coração em oferta de misericórdia.

Pode-se também analisar o sacerdócio de outro modo. O sacerdócio de Cristo apresenta conjuntamente as três dimensões que correspondem às três funções, os três munera: de profeta, sacerdote e rei. Tudo isso entra na perspectiva da Carta aos Hebreus sobre o sacerdócio de Cristo:

  1. Cristo comunica melhor que os profetas a palavra de Deus. Deus falou-nos por meio do seu Filho; agora a palavra de Deus vem-nos por meio de Cristo, e esse é um aspecto fundamental do seu sacerdócio.
  2. Como sacerdote, Cristo santifica-nos comunicando-nos a vida divina.
  3. Como Rei, Cristo governa a Igreja e assegura-lhe a comunhão na unidade.

São três funções que pertencem ao sacerdócio de Cristo, Sumo Sacerdote, que as comunica ao sacerdócio ordenado, o qual deve comunicar a palavra de Deus, aspecto fundamental, deve comunicar a vida divina por meio dos sacramentos e deve assegurar a unidade, governando o povo de Deus. Pode-se ver no evangelho que também, para realizar essas três funções, Cristo quis associar os Apóstolos ao seu coração.

“O Sermão no Monte”, por Carl Bloch.
“O Sermão no Monte”, por Carl Bloch.

Vemos no evangelho de Marcos que, para Jesus, o ensinamento, isto é, a comunicação da palavra de Deus, é um ato de misericórdia sacerdotal. Escreve o evangelista: “E ao desembarcar, viu muita gente. Sentiu compaixão deles, pois estavam como ovelhas que não têm pastor, e pôs-se a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6, 34). Jesus ensina porque se comoveu vendo a situação da gente. Esse aspecto afetivo de misericórdia é a fonte da sua atividade de ensino, à qual ele associa os Apóstolos (cf. Mt 28, 19.20). Deve estar presente no ensinamento dos sacerdotes e dos bispos. Não se pode comunicar a palavra de Deus senão em união com o coração de Cristo, com a compaixão de Jesus e com a sua misericórdia sacerdotal.

A segunda função é comunicar a vida divina. Isso fica ilustrado nos evangelhos com o episódio da multiplicação dos pães. Os Apóstolos, ao entardecer, pedem a Jesus que despeça a gente para que, nas aldeias próximas, possam comprar alguma coisa para comer, mas Jesus responde: “Não têm por que ir embora; dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16). Encarregou-se aos Apóstolos a função de comunicar a vida. Jesus sente também compaixão pela gente que corre o risco de desfalecer no caminho e por isso toma em suas mãos os poucos pães que tem à disposição, dá graças, parte-os e dá-os aos seus discípulos para que os distribuam (cf. Mc 8, 1-6). Jesus associa, assim, os seus discípulos à sua atitude de amor generoso que quer comunicar a vida. Essas cenas, evidentemente, constituem uma prefiguração do dom eucarístico. Os evangelhos evidenciaram essa relação. Jesus, na Última Ceia, pôs nas mãos dos Apóstolos, e depois dos bispos e presbíteros, o seu próprio Corpo e o seu próprio Sangue, a fim de que pudessem distribuir a todos os fiéis a vida divina. Isso provém da sua compaixão, do seu coração.

Está claro que a Eucaristia é o dom mais extraordinário do coração de Jesus. Jesus põe o seu próprio coração à disposição dos sacerdotes com a missão de distribuir esse coração, assim como partiu o pão e o fez distribuir. Jesus dá o próprio coração, para que os sacerdotes possam dá-lo às outras pessoas e comunicar esse dom extraordinário. No fundo, a vida cristã consiste em receber em si mesmo o coração de Cristo.

“A Última Ceia”, por Juan de Juanes.
“A Última Ceia”, por Juan de Juanes.

O terceiro aspecto é assegurar a comunhão na unidade. Esse aspecto exprime-se no evangelho de Mateus com uma descrição do ministério do próprio Jesus, dizendo: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o evangelho do Reino e curando toda enfermidade e toda doença” (Mt 9, 35). Jesus depois constata a dispersão humana e “sente compaixão”. De novo: “E ao desembarcar, viu muita gente. Sentiu compaixão deles, pois estavam como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 36). O seu coração comove-se e agora quer associar os seus discípulos à grande obra de reunir o gênero humano. Então, diz aos seus discípulos: “A messe é muita e os operários, poucos. Rogai, pois, ao Dono da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9, 37-38).

A missão dos Doze narra-se imediatamente depois (Mt 10, 1-5ss) e encontra-se nesta luz. Essa missão foi percebida como um efeito da compaixão do coração de Jesus para com as multidões, no seu desejo de associar homens escolhidos a essa obra de unir na caridade.

Isto é propriamente uma das funções essenciais do sacerdócio: estruturar a unidade, tornar possível a unidade. E isso não é possível sem uma referência explícita ao coração de Jesus, isto é, ao amor de Cristo expresso pelo seu coração humano.

Reunir os homens na Igreja e governar a Igreja não pode ser obra de ambições ou de dominações. Deve ser um serviço inspirado pelo amor que provém do coração de Jesus. O próprio Jesus disse aos Apóstolos, quando discutiam pelo primeiro lugar: 

Sabeis que aqueles que são tidos como chefes das nações as dominam como senhores absolutos, e os grandes as oprimem com o seu poder. Mas não há de ser assim entre vós; ao contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós será escravo de todos, e quem quiser ser o primeiro entre vós será o servo de todos. O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida como resgate por muitos (Mc 10, 42-45; cf. Lc 22, 25-26).

Em todos esses exemplos vemos que o sacerdócio ordenado é constituído por um chamado a uma união íntima com o coração de Jesus. Parece-me que é mais importante falar da união com o coração de Jesus do que do culto ao Sagrado Coração. Certamente, o culto ao Sagrado Coração é aprovado pela Igreja e, portanto, é um elemento muito positivo; mas parece-me que o desejo do coração de Jesus é antes de tudo a união ao seu coração, não tanto o culto ao seu coração, que pode ter um aspecto exterior e, por isso, não satisfatório. A união ao coração de Jesus, ao contrário, parece-me algo essencial para o exercício do sacerdócio ministerial. Devemos pedir ao Senhor que nos conceda essa união intensa com Ele no amor filial ao Pai e no amor para com todas as pessoas confiadas ao nosso ministério.


Referências

  • Traduzido de: Card. Albert Vanhoye, Accogliamo Cristo nostro sommo sacerdote. Esercizi spirituali con Benedetto XVI. Libreria Editrice Vaticana, 2008, 200p.

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