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O homem que tentou abolir a santidade
Doutrina

O homem que tentou abolir a santidade

O homem que tentou abolir a santidade

“Depois da pregação da nossa doutrina”, admitiu Lutero ainda em vida, “os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio e vieram sete piores.”

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2018
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Quando Deus criou a humanidade, todos estavam chamados a conhecê-lO, amá-lO, fazer a sua vontade e um dia ir para o Céu. Mas, depois da Queda, o gênero humano tornou-se insensato, rebelde e escravo de paixões de toda espécie (cf. Tt 3, 3), e essa situação assim permaneceu até a Encarnação de Cristo. Assumindo a natureza humana em sua totalidade, exceto no pecado, Nosso Senhor abriu novamente as portas do Céu para os homens, tornando-os dignos da filiação divina pelo sacrifício redentor da Cruz.

Jesus mesmo providenciou um “batismo de regeneração e renovação” (cf. Tt 3, 5) para converter cada pecador em filho de Deus, herdeiro da vida eterna. E, em virtude da graça santificante recebida no Batismo, todos podem agora participar da vida sobrenatural, esforçando-se, como pede São Paulo, por se aperfeiçoarem na prática do bem (cf. Tt 3, 8).

Deus pede de nós um esforço pela santidade. Favorecendo-nos com seu amor, Ele espera uma resposta livre e sincera pelo exercício das virtudes e das boas obras.

Nestes últimos dois mil anos de história, a Igreja Católica teve a felicidade de testemunhar essa resposta na vida de muitos de seus filhos: homens e mulheres imbuídos de tal espírito heróico que se sacrificaram, dia e noite, por amor a Cristo e aos homens; um espetáculo público de pureza, bondade, fortaleza e generosidade. Como não se emocionar lendo a biografia de um Santo Tomás de Aquino, São Francisco de Assis ou Santa Teresa d’Ávila? Os santos foram aqueles que, auxiliados pela graça, guardaram livremente os mandamentos e a Palavra de Deus, e Ele mesmo veio fazer morada neles (cf. Jo 14, 23).

Bem diferente é a crônica do protestantismo. Baseados numa interpretação completamente absurda da Sagrada Escritura, os protestantes adotaram as teses luteranas da depravação total e da escravidão do livre arbítrio, razão pela qual eles não creem na santidade. Para Lutero, a natureza humana estaria tão corrompida, que ninguém teria condições de escolher livremente entre o bem e o mal. Ao contrário, todo e qualquer ato humano seria, ao fim e ao cabo, apenas mais uma perversão.

Mas, se os protestantes soubessem como o pai da Reforma chegou a essa ideia, pensariam duas vezes antes de lhe darem crédito. Lancemos, pois, um olhar à biografia de Lutero.

A sua entrada no seminário foi bastante indigesta, e não teve como impulso uma razão deveras vocacional. Antes disso, o reformador fez-se monge simplesmente para pagar uma promessa. Já no período de formação e depois como monge, o medo de seus pecados e a vontade escrupulosa de sentir-se perdoado por cada ferroada da concupiscência jogaram-no numa verdadeira paranoia; de fato, ele “era um sentimental e se preocupava doentiamente com o problema da predestinação, querendo sentir em si à fina força a certeza de que era um predestinado” [1].

Ademais, o monge reformador não conseguia distinguir entre tentação e pecado. Bastava um pensamento impuro, mesmo que não consentido, para que o homem se afundasse em desespero. Angustiado, atormentado pelo medo de padecer no inferno, Lutero procurou consolo nas Escrituras e leu: “O justo vive pela fé” (Rm 1, 17). E assim se deu a grande “descoberta” do reformador: a presunção de que a fé, e somente ela, seria necessária para a salvação, pois, como escreve o Apóstolo, “não há nenhum justo, não há sequer um. Não há um só que tenha inteligência, um só que busque a Deus” (Rm 3, 10-11).

Assim mesmo, então, sem aprofundar na teologia paulina, Lutero lançou-se contra a necessidade das boas obras, decretando o princípio da sola fide. Afinal, a interpretação que dera àquele versículo da Epístola aos Romanos lhe servia como justificação e apanágio.

Martinho Lutero no leito de morte.

Mas Lutero foi ainda mais longe. Para desculpar suas faltas, não teve pudor de blasfemar contra o Céu, imputando a responsabilidade de seus crimes não à sua vontade desordenada pelos vícios, mas à do próprio Criador: “Deus opera em nós o mal e o bem. Tudo o que fazemos, fazemo-lo não livremente, mas por pura necessidade” [2].

Doravante, a coleção de sandices só aumentou. Se Jesus exigia esforço para a passagem pela porta estreita, Lutero, por outro lado, aconselhava a rebeldia: “Se a consciência do pecado te acusa… não deves ouvi-la, mas contra a consciência e contra os teus sentimentos deves julgar que Deus não está irado” [3]. Se São Paulo mandava correr por uma coroa incorruptível, Lutero, por sua vez, incentivava ao pecado: “Temos que pecar enquanto somos o que somos” [4]. Se São Pedro dizia que a salvação custara o preço do Sangue de Cristo, Lutero considerava “como nos saiu barata a redenção de nossos pecados em um tal e tão grande Cordeiro” [5].

As consequências da teologia luterana não poderiam ter sido piores. A abolição da santidade e do esforço por uma vida sem pecados, radicada na prática das boas obras, levou os homens a uma pletora de imoralidades. É da pena do próprio Lutero esta confissão reveladora: “Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio e vieram sete piores” [6].

Mas só podia dar nisso. Sem livre arbítrio, não há imputabilidade, não há mérito, não há moral, e o homem se torna uma marionete nas mãos de um “deus” que supostamente quer a conversão de uns e a condenação de outros.

Ora, a Igreja Católica pregou durante 1500 anos sobre a responsabilidade dos homens por cada um de seus atos, exortando-os a uma vida de acordo com o Evangelho de Cristo. Para ajudá-los, ela os agraciou com a oração e a eficácia dos sacramentos de Nosso Senhor, pelos quais Ele nos comunica os méritos de Sua Paixão e a força para resistir às tentações do maligno.

E se, por um lado, o Magistério condenou o pelagianismo e as suas derivações, defendendo a precedência da graça sobre as decisões humanas, é verdade também que os Papas sempre defenderam a liberdade do homem como um pressuposto básico para a conversão e o amor a Deus. Do contrário, Nosso Senhor seria um tirano que faz violência contra as suas criaturas: umas Ele obriga ao amor e outras ao ódio.

Na verdade, o protesto de Lutero, se levado até as últimas consequências, anula completamente os efeitos da Paixão do Senhor, que se resumiria a uma manta sobre a devassidão humana. Não haveria regeneração, nem graça santificante. Lutero, no fim das contas, preferiu a “graça barata”.

Mas e os protestantes? Que será destes cristãos que não acreditam na santidade? Qual será o salário daqueles que se apartaram da Santa Igreja para ficar só com a fé sentimentalista do reformador?

No capítulo 25 de São Mateus, Jesus não nos pede para pecarmos fortemente e crermos mais forte ainda [7]. Ao contrário, Ele descreve o juízo final como um interrogatório sobre as obras de santidade: “Tive fome e me destes de comer”. Se o próprio Martinho Lutero não teve dificuldades em admitir que sua doutrina “expulsou um demônio” para chamar outros sete piores; se o rio, ao que tudo indica, está contaminado em sua nascente, talvez seja o momento de os protestantes repensarem a fonte onde vão buscar a sua água…

Referências

  1. Lúcio Navarro, Legítima interpretação da Bíblia. Recife: Campanha de Instrução Religiosa, 1958, p. 47.
  2. Martinho Lutero, Weimar XVIII-635.
  3. Idem, Weimar XXV-330.
  4. Idem, De Wette II-37.
  5. Ibidem.
  6. Martinho Lutero, Weimar XXVII-443.
  7. Cf. Idem, De Wette II-37.

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Por que a liturgia católica deve ser bela?
Liturgia

Por que a liturgia católica deve ser bela?

Por que a liturgia católica deve ser bela?

Existe hoje em dia uma estranha tendência a pensar que, tanto na vida quanto nos ritos religiosos, o aspecto exterior das coisas tem pouco valor, enquanto o “interior” é tudo o que realmente importa… Mas será assim mesmo?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Agosto de 2018
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Existe hoje em dia uma estranha tendência a pensar que o aspecto exterior das coisas tem pouco valor, enquanto o “interior” é tudo o que realmente importa. Por exemplo, desde que você seja uma pessoa “de bom coração”, tanto faz a sua aparência, como você se veste ou fala, de que tipo de música gosta ou (para irmos ainda mais longe) a religião que você professa.

Há nisso uma pontinha de verdade: a altura, o peso e a cor da pele não são, de fato, qualidades morais; pecadores e santos os há de todas as colorações, formatos e tamanhos.

O problema é que vira e mexe nos esquecemos de como o exterior brota do interior e pode, muitas vezes, revelar o que se esconde no coração. Uma pessoa boa irá vestir-se com modéstia, falará respeitosamente e apreciará um estilo de música que enobreça o caráter, ao invés de degradá-lo — e tudo isso por causa das disposições interiores do coração, ocultas a olhos humanos, mas descobertas aos de Deus. A religião, embora se manifeste, é claro, com palavras e gestos, está enraizada no mais íntimo da alma e expressa, exteriormente, quais são os valores e as prioridades de quem a professa.

O conhecido filósofo inglês Roger Scruton diz a esse propósito:

É bem verdade o que, em tom de gracejo, dizia Oscar Wilde: só quem é superficial não julga pelas aparências. Pois são estas, com efeito, que transmitem sentido e constituem o núcleo de nossas preocupações emocionais. Quando deparo com um rosto humano, essa experiência não dá origem a um estudo anatômico, nem a beleza do que vejo leva-me a pensar sobre os tendões, nervos e ossos que, em alguma medida, estruturam aquela face. Pelo contrário, deter-se no “crânio que está sob a pele” é ver tão-somente o corpo, e não a pessoa que por ele se expressa. E isso, portanto, é perder de vista a beleza do rosto.

Nossos antepassados da Idade Média, por conseguinte, jamais diriam — e com toda coerência — que “pela capa não se julga o livro”. Prova disso é que eles investiram montanhas de dinheiro na produção de ricos Evangeliários, com pesados feixes de ouro, cravejados de pedras preciosas, para que ficasse patente que aquele livro encerrava a Palavra de Deus e merecia, por isso mesmo, a nossa mais profunda veneração.

Também a sagrada liturgia contém a Palavra de Deus; e não só isso: a Missa, por incrível que pareça, contém o próprio Deus, o Verbo feito carne. Eis porque seria totalmente inadequado ao conteúdo mais profundo da liturgia que os ritos externos fossem tudo menos gloriosos, imponentes, belos, solenes, reverentes. Deveríamos poder julgar este “livro” por sua capa resplandecente, quer dizer, a Missa pela sua aparência, por seus aspectos musical, textual e cerimonial; deveríamos ser capazes de enxergar-lhe o coração em cada uma de suas ações. Não podemos “perder de vista a beleza do rosto”.

Insiste-se muito atualmente em que não temos de dar lá grande atenção às “exterioridades” da Missa; basta lembrar que “Jesus está presente”.

Tiremos logo as papas da língua: “isso não cola”.

Ao longo dos séculos, os cristãos ofereceram a Deus o melhor que podiam fazer na liturgia, sobretudo pela beleza alcançável pelas mais finas artes, a fim de que as almas dos fiéis pudessem dispor-se melhor para adorar e glorificar o Senhor. É nesse sentido que Santo Tomás de Aquino escreve que a liturgia não é para Deus, mas para nós. É claro que ela tem a Deus por fim; a liturgia sequer teria sentido se Deus não existisse e Cristo não fosse o Redentor por cujo sacrifício fomos salvos.

Mas a liturgia nada acrescenta a Deus e a Cristo, como se os fizesse “melhores”; eles já são infinitamente bons, santos e gloriosos. Na verdade, ela é um auxílio para nós, que oferecemos a Deus um sacrifício de louvor, na medida em que orienta nossas almas a Ele, nosso fim último, e alimenta nosso espírito com a verdade de sua presença e nossos corações com o fogo do seu amor.

Turíbulo.

Tudo isso se cumpre do modo mais perfeito numa liturgia que impressiona pelo cuidado com o altar e os vasos sagrados, pela nobreza dos gestos e das alfaias, pelo canto e as cerimônias. Ou seja, numa liturgia que, do início ao fim, manifesta profundamente a proximidade e a transcendência de Deus. Uma liturgia assim, celebrada com sacralidade, dificilmente servirá a fins e propósitos seculares, mas inspirará em quem a ela assistir respeito, encanto e espírito de oração.

Numa palavra, o homem, enquanto criatura intelectual e corpórea, tirará muito menos proveito de uma liturgia quer excessivamente “verbal e cerebral” quer superficialmente “pomposa” do que de uma liturgia que, além de rica em textos e cerimônias, esteja embebida de simbolismo. Eis o que são todas as liturgias cristãs históricas; eis o que não é, infelizmente, boa parte das liturgias católicas atuais.

Uma grata exceção a essa regra seria o crescente número de lugares em que se tem oferecido o rito romano tradicional, chamado também “forma extraordinária” da Missa. É um rito saturado de sacralidade que, por assim dizer, quase nos “obriga” a rezar, a mergulhar de cabeça nos mistérios de Cristo através dos gestos externos, à semelhança dos discípulos de Emaús, que reconheceram o Senhor durante a fração do pão (cf. Lc 24, 35). O rito litúrgico é como o pão milagrosamente multiplicado e dividido ao redor do mundo, oferecido na mesa dos reis e pobres que buscam um alimento imperecível. Quando partimos esse pão ao participar do rito, abrem-se-nos os olhos para reconhecer Cristo ressuscitado.

Matthew Schmitz notou o seguinte:

Assusta pensar que os líderes de uma fé ritualística tenham pensado ser possível deixar de lado as formas tradicionais de oração. Entre os poucos que viram a insensatez de um tal projeto, contavam-se muitos artistas, atentos como que por natureza ao que, embora pareça superficial, é no fundo imprescindível.

O escritor Nicholas Dávila disse mais ou menos o mesmo: “Quando a religião e a arte se divorciam, é difícil saber qual das duas se corrompeu primeiro”.

É por todos esses motivos que a liturgia não só pode como deve ser julgada “pela capa”, pela aparência — pois, como diz Aristóteles, a aparência da coisa aponta para a natureza e substância dela. A Igreja Católica deve cuidar não só do real, mas também das aparências. O ser humano chega ao conhecimento da verdade por meio dos sentidos; ele não pode formar conceitos sem imagens. Em matéria de religião, no encontro com o Deus encarnado nos mistérios de sua vida, morte e ressurreição, nossos sentidos, nossa memória, nossa imaginação e emoções desempenham um papel tão importante quanto nossa inteligência e vontade.

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Mulher, onde está o teu coração?
Sociedade

Mulher, onde está o teu coração?

Mulher, onde está o teu coração?

Quantas mulheres estão consagrando de coração toda a sua vida a Mamon, o deus deste mundo, sem colher nenhum dos benefícios que resultariam de uma vida dedicada ao verdadeiro Deus?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Agosto de 2018
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Um dia em Nova Jersey, anos atrás, encontrava-me em uma estação de trem esperando uma viagem para Nova Iorque. Enquanto observava as jovens mulheres bem vestidas à espera na estação, pensei comigo a caminho do trabalho: quantas dessas mulheres estão consagrando de coração toda a sua vida a Mamon, o deus deste mundo, sem colher nenhum dos benefícios que resultariam de uma vida dedicada ao verdadeiro Deus?

Elas são “celibatárias” de alguma forma, mas sem serem virgens; fazem sacrifícios dia após dia, mas não colhem deles nenhuma salvação; e, além disso, não trazem nenhuma alma imortal a este mundo. Elas podem até ter sexo, mas sem filhos; com isso, perdem a glória e o mérito supremos da mulher casada. Quando têm um filho, frequentemente delegam os cuidados a outra pessoa, perdendo a maior oportunidade e o maior privilégio de todos: criar e educar os próprios filhos.

Muitas mulheres modernas são um conjunto de contradições flagrantes: suas vidas são “consagradas”, mas a um falso deus que lhes rouba as bênçãos de uma fé virginal; elas se deitam com seus maridos, mas preferem a esterilidade; quando têm filhos, não cuidam deles nem os educam. Numa espécie de sátira da própria existência, elas são celibatárias defloradas, esposas estéreis e mães irresponsáveis — e tudo isso por escolha.

Em muitos sonetos, Shakespeare incentiva o leitor a gerar filhos, a fim de passar adiante a beleza que tem, ao invés de gastá-la consigo. Os sonetos partem do pressuposto de que a relação sexual é algo natural e felizmente associado à concepção de crianças; que o matrimônio, via de regra, conduz à formação de uma família (pensar de outro modo não faria nenhum sentido para alguém de cultura tradicional); que os cônjuges não só trarão filhos a este mundo, como dedicarão suas vidas inteiras a educá-los.

O que diria Shakespeare a essas mulheres na estação de trem? “Você deveria se casar”? Ora, muitas delas estão casadas, e ainda assim não têm nenhum filho. “Você deveria ter filhos”? Mas algumas delas os têm — um ou dois, número considerado “mais do que suficiente”. Em resumo, a estrutura inteira das relações sociais, responsabilidades morais as mais elementares, realidades humanas as mais básicas, tudo desapareceu; Shakespeare não teria praticamente nenhum modo de entrar no coração dessas pessoas.

Quero enfatizar que falo aqui apenas do que se pode chamar esterilidade voluntária, a esterilidade “de facto” escolhida por quem ou não quer filhos ou não deseja arcar com as responsabilidades de um compromisso. É evidente que aqueles que desejam mesmo ter filhos, mas não o podem, devem carregar essa cruz com a ajuda da graça divina, dado que a sua infertilidade não é querida, e muito menos culpável.

Não ter filhos, na verdade, para quem possui uma concepção digna do matrimônio e da vida humana, constitui a mais profunda dor e o mais terrível peso que se pode suportar. A perversidade da atitude moderna consiste em ver os filhos como uma derrota, um desperdício de vida.

Ao usar a metáfora da mãe para falar do terno amor de Deus (cf. Is 49, 15), o profeta Isaías parte do fato de o vínculo entre uma mãe e seus filhos ser conhecido e sentido como o mais forte, o mais sagrado, o mais íntimo dos vínculos humanos. Trata-se, talvez, do mais nobre modelo de amor a que podemos ter acesso. Por isso, Deus serve-se dele e espera ser facilmente compreendido. Se mulher nenhuma se esquece de um filho, como então Deus se esquecerá? Ao dizer: “Mesmo que uma mãe se esqueça, eu jamais me esquecerei de ti, diz o Senhor”, a Escritura faz uma reductio ad absurdum: nenhuma mãe digna do nome se esquece de seu filho; ora, se tal é assim, quanto mais Deus, que nos criou e sustenta no ser, não há de lembrar-se de nós?

Hoje, porém, a própria base dessa comparação, o belo vínculo natural entre mãe e filho, é abertamente ridicularizada e repudiada. Nós estamos, infelizmente, muito longe da imagem descrita pelo profeta Isaías, na qual o anelo da mãe por seu filho serve como imagem vívida das misericórdias de Deus para com o povo perdido e rebelde de Israel.

Em algum lugar do coração humano, não importa o quão cínico e calejado ele esteja, há uma brasa desse desejo ardente, uma fagulha desse amor. Nós precisamos fazer o máximo possível para manter acesa essa chama, procurando testemunhar continuamente o grande dom que é a vida humana, a beleza do amor paterno e materno e a alegria custosa, sim, mas profundamente gratificante de viver não para si, mas para os outros.

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Moral católica e contracepção: o Cardeal Sarah se pronuncia
Doutrina

Moral católica e contracepção:
o Cardeal Sarah se pronuncia

Moral católica e contracepção: o Cardeal Sarah se pronuncia

Acolher o ensino da Igreja sobre a contracepção, mais do que “uma questão de submissão e de obediência ao Papa”, é um ato de “escuta e acolhida da Palavra de Deus”.

La Nuova Bussola QuotidianaTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Agosto de 2018
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No último dia 4 de agosto, por ocasião do cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, Sua Eminência, o Cardeal Robert Sarah, ministrou uma conferência na abadia beneditina de Sainte Anne de Kergonan, na região da Bretanha, noroeste da França.

Colocamos à disposição de nossos leitores algumas passagens, traduzidas do texto em italiano para o português. O texto integral da conferência, em francês, pode ser baixado nesta página.


Um erro de perspectiva

Caros amigos e esposos, se vós, como cristãos, rejeitais a contracepção, não é, antes de tudo, porque “a Igreja o proíbe”, mas porque sabeis, através do ensinamento da Igreja, que a contracepção é intrinsecamente má, isto é, que ela destrói a verdade do amor e do relacionamento humano. Ela reduz a mulher a nada menos que um objeto de prazer, sempre disponível, seja qual for o momento e a circunstância, às pulsões sexuais do homem.

Uma verdade conforme a razão e atestada pela Revelação

É importante sublinhar que essa verdade do amor humano é acessível à razão humana. São João Paulo II recorda, de fato, que a afirmação segundo a qual “qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida” (HV 11), descreve a “verdade ontológica”, a “estrutura íntima” e “real” do ato conjugal [1].

É esse caráter de racionalidade que fundamenta a afirmação de Paulo VI e de João Paulo II: “As normas morais da Humanae Vitae fazem parte da lei natural. Todo homem de boa vontade é capaz de compreender que um comportamento contraceptivo é contrário à verdade humana do amor conjugal.”

Mas é necessário ir ainda mais longe. Com efeito, São João Paulo II afirma com veemência que a norma moral formulada na Humanae Vitae faz parte da Revelação divina:

A Igreja ensina esta norma, ainda que não esteja expressa formalmente (isto é, literalmente) na Sagrada Escritura; e o faz na certeza de que a interpretação dos preceitos da lei natural é de competência do Magistério.

Podemos, no entanto, dizer mais. Ainda que a norma moral, tal como formulada na encíclica Humanae Vitae, não se encontre literalmente na Sagrada Escritura, pelo fato de estar contida na Tradição e — como escreve o Papa Paulo VI — ter sido “muitas vezes exposta pelo Magistério” (HV 12) aos fiéis, resulta que essa norma corresponde ao conjunto da doutrina revelada contida nas fontes bíblicas (cf. HV 4). [2]

Tal afirmação é capital para compreender o erro de todos aqueles que pedem uma “mudança de disciplina”, de todos os que dizem que “a Igreja é muito dura” ou que “a Igreja deve adaptar-se”. Segundo a encíclica Humanae Vitae, a Igreja não faz outra coisa senão transmitir tudo quanto ela recebeu do próprio Deus. Ela não tem, e nem terá jamais, o poder de mudar nada.

Portanto, acolher a Humanae Vitae não é, antes de tudo, uma questão de submissão e de obediência ao Papa, mas de escuta e acolhida da Palavra de Deus, da bondosa revelação de Deus sobre o que somos e sobre o que devemos fazer para corresponder ao seu amor. O que está em questão, de fato, é a nossa vida teologal, a nossa vida de relacionamento com Deus. Os cardeais, os bispos e os teólogos que têm rejeitado a Humanae Vitae e encorajado os fiéis à rebelião contra a encíclica estão se colocando deliberada e publicamente em luta contra o próprio Deus. O mais grave é que eles convidam os fiéis a se oporem a Deus.

Três erros

O primeiro erro se encontra entre os fiéis e, em particular, entre os cônjuges. Alguns poderiam ter a impressão de que a Igreja lhes esteja impondo um peso insuportável, um fardo demasiado pesado que acabará por comprometer a sua própria liberdade.

Caros amigos, tal ideia é falsa! A Igreja não faz outra coisa senão transmitir a verdade recebida de Deus e conhecida por meio da razão. E só a verdade pode nos tornar livres!

É necessário dizer como a recusa das práticas e da mentalidade contraceptiva liberta os casais do peso do egoísmo. Uma vida segundo a verdade da sexualidade humana liberta do medo! Libera as energias do amor e nos faz felizes! Vós, que viveis isso, dizei-o, escrevei, dai o vosso testemunho! É a vossa missão de leigos! A Igreja conta convosco e confia-vos essa missão!

O segundo erro a evitar se encontra entre os teólogos moralistas. Guardai-vos daqueles que vos dizem que, quando a intenção geral do casal é reta, as circunstâncias podem justificar a escolha de métodos contraceptivos. Caros amigos, afirmações desse tipo são mentiras! E aqueles que vos ensinam tais aberrações “falsificam a Palavra de Deus” (2Cor 4, 2). Eles não falam em nome de Deus. Falam contra Deus e contra o ensinamento de Jesus.

Quando vos dizem: há situações concretas que podem justificar o recurso aos contraceptivos, mentem para vós! Pior ainda, fazem-vos mal, porque vos indicam um caminho que não conduz nem à felicidade nem à santidade!

Como é possível fingir que “em certas situações” uma atitude que contradiz a verdade profunda do amor humano se torne boa ou necessária? É impossível! “As circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção” [3].

Não se deve jamais opor a prática pastoral à verdade universal da lei moral. A pastoral concreta é sempre a procura dos meios mais apropriados para pôr em prática o ensinamento universal, jamais para o derrogar.

O terceiro erro a evitar se encontra nos pastores: sacerdotes e bispos. Como disse Paulo VI, “não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas” (HV 29). E, dirigindo-se aos bispos, o bem-aventurado Papa continuava:

Trabalhai com afinco e sem tréguas na salvaguarda e na santificação do matrimônio, para que ele seja sempre e cada vez mais vivido em toda a sua plenitude humana e cristã. Considerai esta missão como uma das vossas responsabilidades mais urgentes na hora atual (HV 30).

Paulo VI nos mostrou com sua encíclica um belo exemplo de caridade pastoral. Não tenhamos medo de o imitar! Nosso silêncio seria cúmplice e culpável. Não abandonemos os casais às sirenes enganadoras da facilidade!

Um caminho de santidade para os esposos

Eu gostaria de sublinhar, sobretudo, que o fundamento de toda santidade deve encontrar-se no amor a Deus. Ora, quem ama quer o mesmo que quer o amado. Amar a Deus significa querer aquilo que Ele quer. No cume da vida mística, fala-se de união das vontades, ou de comunhão da vontade.

Assim, Paulo VI encoraja os esposos a “conformarem a sua conduta às intenções criadoras de Deus” [4]. Nesta vontade de unir-se às intenções do Criador se encontra um verdadeiro caminho de união teologal com Deus e, ao mesmo tempo, de uma justa realização de si. É verdadeiramente amar a Deus amar aquilo que a sua sabedoria inscreveu na minha natureza. E isso conduz a um amor-próprio justo e realista.

Esse plano do Criador não se reduz à regularidade biológica. A fidelidade à ordem da criação compreende muito mais do que isso. A fidelidade ao projeto de Deus supõe o exercício de uma paternidade-maternidade responsável, que se exprime por meio de um uso inteligente dos ritmos [naturais] da fecundidade. Isso supõe uma colaboração entre os cônjuges, uma comunicação de escolhas comuns e livres, tomadas de forma consciente, iluminadas pela graça e pela oração perseverante, fundadas em uma generosidade de fundo, para que o casal assim decida se irá transmitir a vida ou, por justos motivos, espaçar os nascimentos.

Isso supõe um verdadeiro amor conjugal, uma verdadeira temperança e domínio de si, sobretudo no caso de decidir-se limitar a união conjugal aos períodos infecundos. Numa palavra, trata-se de uma “arte de viver”, de uma espiritualidade, de uma santidade propriamente conjugal!

Uma arte de viver

Enfatizar esse aspecto permite-nos desfazer um mal-entendido. Fala-se às vezes de “métodos naturais de regulação de natalidade”. Muitos crêem que tais métodos são “naturais” pelo fato de não recorrem a procedimentos artificiais, químicos ou mecânicos. Isso não é exato de todo.

Em vez de “métodos naturais”, deve-se falar, antes, de um exercício da fecundidade de acordo com a natureza humana. Esta supõe uma “maturidade no amor que não é imediata, senão que exige diálogo, escuta mútua e um particular domínio sobre as pulsões sexuais em uma caminhada de crescimento na virtude”, dirá Bento XVI. Por isso, pode-se falar de “vida segundo a ordem da natureza”, em conformidade com o projeto criador, apenas se um método natural de regulação dos nascimentos estiver integrado em um contexto de virtude conjugal.

Noutras palavras, os métodos naturais são uma base, mas pressupõem que são vividos [pelo cônjuges] em um contexto de virtude. Eles podem constituir uma porta, uma pedagogia para a descoberta dessa vida conjugal plena, mas não podem ser vividos materialmente, fora deste contexto de responsabilidade, generosidade e caridade que lhe é inerente.

Abrir-se à adoração

Compreender o projeto do Criador, abraçá-lo com o coração, supõe essa atitude espiritual profunda de gratidão e de adoração, que é um dom do Espírito Santo. Acolhendo com gratidão a ordem natural, esforçando-se por compreendê-la e amá-la, os esposos não só realizam seu amor nas virtudes, que consolidam sua mútua caridade, mas se abrem ainda mais à adoração contemplativa do Criador.

A Humanae Vitae abre uma estrada de santidade conjugal, uma pedagogia da adoração, de aceitação filial e reverente do plano divino. Assim, Deus mesmo é amado como Pai, seus dons são acolhidos com gratidão e veneração e os esposos experimentam sua afetuosa majestade. Bem se entende por que João Paulo II pôde afirmar que “o que se põe em questão, com a rejeição deste ensinamento, é a ideia mesma da santidade de Deus. […] Essas normas morais não são mais do que a exigência, da qual nenhuma circunstância histórica nos pode dispensar, da santidade de Deus, participada em concreto, não em abstrato, a cada pessoa humana” [5].

O régio caminho da cruz

Sim, queridos amigos, queridos esposos, não vos prego um caminho fácil. Anuncio-vos Jesus, e Jesus crucificado! Estimados esposos, convido-vos a que entreis neste régio caminho de santidade conjugal. Dias virão em que devereis seguir adiante não sem heroísmo de vossa parte. Dias virão em que palmilhareis o caminho da cruz. Penso na “cruz daqueles cuja fidelidade suscita escárnio, ironia e até perseguição” [6], na cruz das preocupações materiais que implica a generosa acolhida de novas vidas, na cruz das dificuldades da vida de casal, na cruz da continência e da espera durante alguns períodos.

A felicidade, a alegria perfeita dos vossos casamentos há de passar por aqui. Sei que isso não se dará sem sacrifício. No entanto, “as tentativas sempre recorrentes de viver um cristianismo sem sacrifício, um cristianismo aguado e sem corpo, estão destinadas ao fracasso” [7].

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“Satanás sabe o perigo de um homem que reza!”
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“Satanás sabe o perigo
de um homem que reza!”

“Satanás sabe o perigo de um homem que reza!”

“Nós não damos valor à oração, mas Satanás sabe o perigo de um homem que reza”. Isso e muito mais dia 20 de agosto, no novo curso de nosso site, “Engenharia da Santidade”!

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Agosto de 2018
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Em uma das aulas de nosso curso “Engenharia da Santidade”, Padre Paulo Ricardo conta como aprendeu do demônio algumas lições valiosas.

Mas calma lá… Não é que o demônio realmente tenha ensinado o padre, como um professor, com giz e régua na mão. Foi observando as reações do inimigo de Deus que o padre descobriu a importância de muitas coisas às quais as pessoas, em geral, não dão a devida atenção.

Uma dessas coisas é a chamada oração íntima. Nós muitas vezes damos de ombros para essa coisa de rezar, de se recolher e falar com Deus, mas a verdade é que, se nós não sabemos, “Satanás sabe o perigo que é um homem que reza”.

Por isso, e cientes de que “Engenharia da Santidade” será uma grande ajuda para transformar você em um verdadeiro homem e mulher de oração, é com muita alegria que apresentamos o teaser definitivo de nosso curso, a ser lançado, como você já sabe, na segunda-feira próxima, dia 20 de agosto.

Graças a Deus, nossos últimos vídeos de divulgação tiveram um ótimo alcance e, com isso, centenas de pessoas entraram conosco na expectativa deste conteúdo.

Agora, porém, é hora de divulgar mais do que nunca este material, a fim de que ainda mais pessoas queiram receber a “engenharia da santidade”, tal como Padre Paulo Ricardo aprendeu em anos de estudo, reflexão e principalmente… oração.

Mas, afinal, como fazer para participar deste curso?

Muitas pessoas entraram em contato conosco, perguntando se este curso seria pago. A resposta é o próprio Padre Paulo Ricardo quem dá:

Ou seja, Padre Paulo Ricardo está convencido de que, em meio a tanta informação espalhada (e perdida) no mundo virtual, só um grupo de alunos, organizado seriamente ao redor de um professor, pode levar a cabo o trabalho árduo de estudar a fundo e sistematicamente as coisas da fé.

Não se trata, portanto, de “cobrar pela Palavra de Deus”, afinal, como você sabe bem, mais de 80% de todo o nosso conteúdo de evangelização é gratuito e aberto a todas as pessoas. A maioria de nossos cursos é exclusiva para alunos porque são eles que ajudam a manter, com uma singela assinatura, todo o nosso apostolado na internet.

Se você ainda não sabe como funciona, é bem fácil entender: inscrevendo-se agora mesmo em nosso site, neste link, você faz uma assinatura que dá acesso irrestrito a todos os nossos cursos (que podem ser vistos aqui). É como se você, que chegou até aqui por causa deste novo curso, ganhasse de bônus toda uma biblioteca de formação católica!

Por isso, não espere 20 de agosto para se inscrever em nosso site! Junte-se ainda hoje à nossa família e venha estudar conosco, em profundidade, as coisas de Deus!

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