Em 1926, na semana do Natal, G. K. Chesterton escreveu um artigo sobre controle de natalidade, publicado no periódico Lansbury’s Labour Weekly. Ele explica a surpreendente história, hoje esquecida, do surgimento de uma política social para encorajar o controle de natalidade. Foi, na verdade, uma reação ao movimento pela justiça social e os direitos dos pobres. Eram os ricos que não queriam que os pobres tivessem filhos, pois os pobres reclamariam salários mais altos para alimentar famílias maiores

Chesterton diz que o método empregado por quem promove o controle de natalidade para lidar com a pobreza era muito simples: eliminar os pobres. 

Eis a questão que o aflige: “Por que o trabalhador não recebe um salário melhor? Por que a família do cortiço não tem uma casa melhor?” Para fugir a esta questão, ele não propõe uma casa maior, mas uma família menor. O dono do imóvel e o patrão dizem à sua maneira, calorosa e cheia de palavras bonitas: “Olhe, você não pode esperar que eu abra mão do meu dinheiro. Mas farei um sacrifício. Abrirei mão dos seus filhos.”

A elite rica invocou então a ciência para sustentar seus argumentos contra o fato de pessoas normais praticarem o ato natural de ter bebês. Citaram o teórico populacional Thomas Malthus, o primeiro a trazer à tona o sombrio fantasma da superpopulação e da disseminação da fome. O ataque malthusiano, diz Chesterton, 

foi uma de toda uma casta de desculpas científicas inventadas pelos ricos para negar a justiça aos pobres… Uma das desculpas era apelar para as Leis de Ferro de Economia Política, fazendo de conta que alguém havia provado em algum lugar (escrevendo uns números num quadro) que a injustiça não tem cura. Outra era um monte de disparates cruéis sobre darwinismo e certa luta pela vida, na base do “cada um por si e o diabo que leve quem ficar para trás”. Na verdade, foi uma luta por riqueza, na qual o diabo geralmente leva os primeiros. Todas essas desculpas eram uma tentativa de distorcer a nova ferramenta da ciência para convertê-la numa arma da velha tirania do dinheiro.
G. K. Chesterton.

Como o artigo de Chesterton foi recebido? Não foi atacado por ricos industrialistas nem por economistas defensores do capitalismo; tampouco por nerds munidos de estatísticas que apontavam para uma superpopulação. Foi atacado por uma feminista chamada Dora Russell, que se queixou de que Chesterton não falara sobre as mulheres. Ela disse ser evidente que nunca caíra sobre ele a responsabilidade de cuidar sozinho de uma família de onze pessoas, tendo de cozinhar, limpar a casa, lavar as roupas e fazer todos os reparos. Segundo ela, a preocupação de Chesterton com o “salário familiar” e com melhores casas não resolvia o problema, mas apenas organizava “um estado de pequenos patriarcas, cujas esposas são literalmente escravas, obrigadas a aceitar qualquer tamanho de família e dependentes da misericórdia dos maridos para receber o pão de cada dia”. Teria sido “essa estúpida organização social”, sustentava a sr.ª Russell, “a responsável por fazer com que as mães se revoltassem”. Ela defendeu o direito de as mulheres garantirem uma renda fora de casa e de terem à disposição uma “creche para nossos filhos, atendida por outras mães e mulheres solteiras com alguma formação”.

Chesterton responde admitindo primeiro nunca, de fato, ter sido mulher. “É bom esclarecer o mistério o mais cedo possível”. Mas, embora não soubesse o que é ser uma mãe obrigada a arrumar a casa e cozinhar para uma família grande por um baixo salário, acrescenta que “tampouco soube o que é ser um chefe que paga salários baixos e se justifica dizendo à mãe que não tenha uma família grande”. Ele lembra à sr.ª Russell que, no início de toda a discussão, “jaz o fato elementar de que reduzir o tamanho das famílias é uma razão alegada para reduzir os salários, e não uma razão para elevá-los”. Ela pode gostar dessa redução por outras razões e, se quiser, poderá “levar a discussão para outro rumo, sustentando por exemplo que as esposas de lares normais são escravas”.

O tema do controle de natalidade abarca muitas questões diferentes, mas as trata de maneira ruim. Como diz Chesterton, ele tem 

uma tão rica abundância de más qualidades e oferece uma tão variada gama de asneiras e degradações, que ninguém consegue lidar com todos os seus elementos horrendos de uma vez. Eu só lidei com sua origem extremamente desagradável. Disse que é puramente capitalista e reacionário. Mas este mal tem muitos outros aspectos: é impuro à luz dos instintos; não é natural em relação aos afetos; faz parte de uma tentativa de consumir a populaça numa rotina de charlatanismo médico e pseudociência; mistura-se à confusa ideia de que as mulheres são livres quando servem a seus patrões, mas escravas quando auxiliam seus maridos; ignora a existência de lares reais nos quais a prudência surge da livre vontade e do acordo.

Então Chesterton desmascara o próprio termo “controle de natalidade”. Não se trata de controle. 

É a ideia de que as pessoas deveriam ser, de certo modo, completa e totalmente descontroladas, desde que possam eximir-se de tudo o que seja positivo, criativo, inteligente e digno de um homem livre. É um nome dado a uma sucessão de diferentes expedientes (o que foi usado por último é sempre descrito como terrivelmente perigoso) pelos quais seria possível buscar o prazer de um processo natural, enquanto se frustra o próprio processo de forma violenta e antinatural.

O paralelo mais próximo e respeitável que se pode fazer é com o epicurista romano, que tomava eméticos durante todo o dia para poder comer cinco ou seis jantares de luxo em um só dia. Agora, qualquer homem de bom senso, livre da nebulosidade da ciência de jornal e das palavras compridas, dirá que uma operação como essa do epicurista, a longo prazo, provavelmente lhe fará mal à digestão e certamente lhe prejudicará o caráter. Os homens, por si sós, têm siso o bastante para saber quando um hábito cheira a perversão e perigo.

Quanto ao desejo da sr.ª Russell de um “direito” a uma renda fora de casa, Chesterton o chama “direito a ser uma escrava assalariada que trabalha sob ordens de um completo desconhecido porque calha de ele ser um homem rico”. Sua queixa sobre a maternidade não é “um queixar-se de condições desumanas, mas simplesmente um queixar-se sobre a vida humana”. Contratar outras mulheres para criar seus filhos representa um abismo entre o natural e o não natural. 

As feministas, contudo, triunfaram. Elas conseguiram seu controle de natalidade (inclusive o “expediente” do aborto), suas creches e seu direito a ser escravas assalariadas, em vez de esposas e mães. 

Mas os argumentos de Chesterton permanecem oportunos, como sempre, e ele reúne muitos temas de uma vez, num tipo de argumento que é certamente um peso para quem só consegue pensar numa coisa de cada vez. Todas elas estão ligadas, todas dizem respeito à dignidade da pessoa humana e todas demonstram a abrangência dos ensinamentos da Igreja Católica. Pouco a pouco, fomos esquecendo e negligenciando estes ensinamentos. Ignoramos o fato de que um sistema econômico imoral pavimentou o caminho para uma aceitação generalizada da contracepção. Nós aceitamos a contracepção, e agora ela levou à normalização do sexo anormal. Hábitos que levam à “perversão e ao perigo”, como diz Chesterton. E, subitamente, nos vimos lutando a batalha, antes impensável, pela preservação do casamento entendido como união entre um homem e uma mulher. 

Chesterton alertou que esse tema levaria, ao fim e ao cabo, a um “tremendo choque de controvérsia”. Ele viu um ponto brilhante na batalha que viria: “Quanto mais meus oponentes praticarem o controle de natalidade, menos deles existirão para lutar contra nós no futuro”.

O que tudo isso tem a ver com o Natal? Além do fato de que, há dois mil anos, uma jovem se viu diante de uma “gravidez inconveniente”, levou-a adiante e teve o bebê, há ainda outro evento significativo junto com o nascimento de Jesus: o Massacre dos Inocentes. Diz Chesterton: “Não sei se os promotores do controle de natalidade aprovam o Natal; mas um festim de Herodes, aquele grande especialista em população, pode muito bem ser feito para cair na mesma data”.