No dia em que celebramos a solenidade da Anunciação e da Encarnação do Verbo, recordo-me da primeira vez em que visitei a Santa Casa de Loreto. Já conhecia a história do milagre que levou, misteriosamente, a casa da Sagrada Família de Nazaré a esta cidade italiana, no século XIII. Fascinava-me pensar que os santos anjos haviam transladado aquelas paredes tão preciosas, protegendo-as. E quando eu tive a oportunidade de visitar a Itália, fiz questão de desviar a minha rota de viagem para conhecer o santuário.

No entanto, devido a um contratempo na viagem, atrasei-me e cheguei na basílica bem no horário em que estavam sendo fechadas as portas. Tinha vindo direto da estação ferroviária, a pé, carregando uma imensa mala roxa, correndo esbaforida, pensando que perderia a visita ao santuário. Diante das portas fechadas, implorei ao segurança que me deixasse entrar pelo menos para rezar uma Ave-Maria na Santa Casa. Ele tentou me fazer entrar no santuário clandestinamente, mas logo um frei franciscano veio gritando, em italiano, dizendo que a basílica já estava fechada. Meu coração doeu por dentro, pensando que havia vindo de tão longe, carregado aquela mala imensa morro acima, para não conseguir entrar no santuário por poucos minutos. Eu já estava lamentando interiormente o meu triste azar, quando uma voz interior me impulsionou dizendo: “Vá!”
Naquele momento, larguei minhas malas, me desvencilhei do segurança e entrei correndo no santuário, desviando do frade, que ficou esbravejando alguma coisa em italiano que não entendi. Percorri um longo corredor que levava ao interior da basílica e avistei a estrutura de mármore que protegia aquelas paredes tão preciosas. Adentrei a Santa Casa e me ajoelhei diante do altar. Ainda sem acreditar que havia conseguido entrar, vivi uma experiência inesquecível. Contemplei aquelas paredes de tijolos antigos, tão simples… Qualquer cortiço dos nossos dias teria mais conforto que aquela casinha que abrigou as três pessoas mais santas que já existiram neste mundo. É de uma humildade comovente. E diante de mim, escrito no altar, lia-se: Hic Verbum caro factum est — “Aqui, o Verbo se fez carne”. Aquela frase penetrou em mim como uma flecha. Sim, Deus entrou na história! E como um embrião! Deus quis fazer-se um “amontoado de células”, por amor a mim!
Ajoelhada naquele lugar santo, imaginando aquele momento que dividiu a história da humanidade, também vinha à minha mente toda a missão que Deus me confiou, como médica, na defesa da vida e da família. Todas as batalhas que enfrentávamos por lutar pela vida humana desde o momento da concepção.
Como alguém, diante do mistério da Encarnação, pode negar a sacralidade da vida, desde o seu primeiro instante? A vida humana nascente é tão sagrada para Deus que Ele próprio fez-se um nascituro.
Qualquer ciência que negue a dignidade da vida humana desde a concepção é mentirosa ou desonesta. Sabemos que é no momento da fecundação que é definida a identidade genética da pessoa, única e irrepetível. Nada mais é acrescentado geneticamente ao embrião após o momento da fecundação. Será apenas um processo de crescimento e diferenciação, em que o corpo da mãe será sua proteção, nutrição e abrigo.

O início da vida sempre foi entendido desta forma, até a década de 1960 [1]. Nesta época, surgia a primeira pílula (o Enovid), o primeiro DIU (o Lippes Loop), as primeiras experiências com células embrionárias e fertilização in vitro. Como justificar a manipulação desses embriões neste mercado altamente lucrativo? Como justificar os chamados “abortos ocultos” que podem ser causados pelo DIU ou pela pílula anticoncepcional (pois esses métodos podem agir impedindo a implantação do embrião já formado na tuba uterina)?
Para permitir que as pesquisas avançassem, a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) [2] e a International Federation of Gynecology and Obstetrics (FIGO) [3] mudaram o conceito de início da gravidez para o momento da implantação. Não houve uma busca pela verdade, mas uma adequação aos planos dos poderosos.
Essa redefinição foi a pequena brecha necessária para a implantação de uma “cultura da morte”. A contrecepção abriu as portas para o aborto. Em menos de 15 anos os Estados Unidos passaram de um país que proibia a contracepção para um país que permite às mães matar os próprios filhos em seus ventres. Atualmente existem países nos quais este assassinato é permitido até os nove meses de gestação. E em alguns lugares já se discute a liberação do infanticídio.
Como chegamos a este ponto? Quando decidimos ignorar, voluntariamente, a sacralidade da vida — sacralidade escondida naquela pobre casa em Loreto.
Pensando em tudo isso, ainda ajoelhada, uma grande paz invadiu minha alma. Uma experiência que nunca havia tido. Senti como se estivesse completamente protegida naquele lugar. Como se nada pudesse me ferir ou machucar. Naquela época, carregava comigo um peso constante de tantas batalhas que enfrentava nesta missão, pela vida e pelas famílias. Foi como se tudo, naquele instante, desaparecesse de mim, como se os próprios anjos afastassem todas as trevas, todas as ameaças. Como se nenhum mal pudesse entrar naquele lugar.

A certeza de que Deus me protegia, como protegeu a família de Nazaré; como protegeu aquelas paredes santas que testemunharam o maior amor do mundo. Deus protege suas famílias. E protege quem luta por elas.
Entreguei meu coração e minhas intenções ao pé daquele altar, quando notei o frade franciscano ao meu lado, expressando um misto de surpresa e indignação… Foram apenas alguns segundos em que tudo isso se passou interiormente.
Levantei-me já sorrindo, cheia de alegria por poder estar naquele lugar. E fiz um último pedido a Nossa Senhora: “Minha mãe, consiga uma carona para chegar ao meu hotel… A esta hora não haverá nenhum táxi e terei que voltar com aquela mala imensa morro abaixo…”
Os seguranças que me conduziram para fora da basílica já estavam rindo de toda a situação, como quem ri da arte de uma criança.
Perguntaram-me de onde eu vinha. Quando respondi que era brasileira, um deles começou a falar em português com entusiasmo. Havia morado por alguns anos em Fátima. E disse: “Espere alguns minutos que vou te levar de carro ao seu hotel. É muito longe para ir à noite com sua mala”.
Agradeci interiormente à Virgem Lauretana, que não somente enviou a carona que pedi, mas, além de tudo, conduzida por alguém que falava português!
Sim, de fato: Nossa Senhora protege quem luta pelas famílias. O caminho pode ser difícil, cheio de contratempos, malas pesadas e portas fechadas… E talvez até com alguns frades italianos esbravejando no caminho… Mas no fim, ela nos assiste e ampara.

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