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O que “Game of Thrones” tem a ver com pornografia?
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O que “Game of Thrones”
tem a ver com pornografia?

O que “Game of Thrones” tem a ver com pornografia?

“Game of Thrones”, o seriado de maior sucesso atualmente no mundo, diz muito sobre a nossa cultura e sobre o modo como estamos tratando as nossas mulheres.

Noah FilipiakTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Maio de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
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O seriado de sucesso Game of Thrones, da HBO, recebeu 26 estatuetas do Emmy, incluindo o prêmio de "melhor série dramática" em 2015, e tem 18,6 milhões de pessoas assistindo a cada episódio da série — um recorde para o canal HBO —, praticamente a mesma população de Nova Iorque, o terceiro estado mais populoso dos Estados Unidos. Esse é um número muito grande, que abrange muitas pessoas e indica uma forte influência cultural.

O que faz as pessoas assistirem a Game of Thrones? Certamente, a atuação artística, o enredo, as personagens, a trama, as batalhas, os dragões e, é claro, as cenas exageradas e gratuitas de nudez e de sexo (incluindo uma cena longa e explícita de estupro que virou notícia ano passado).

Assim como o fenômeno de "Cinquenta Tons de Cinza", tudo isso traz à tona o problema do sexo como entretenimento de massa. O que faz um filme pornô ser "pornografia" e Game of Thrones ser um ícone premiado e bem-sucedido da cultura popular?

Ambos têm uma história e ambos são eróticos. Eu suponho que a diferença esteja em Game of Thrones ter mais enredo do que sexo, razão pela qual ele é considerado um drama e não um "pornô", já que pornografia tem mais sexo do que enredo. Alguém também poderá dizer que o propósito de Game of Thrones é artístico, enquanto o propósito de um filme pornô é o prazer sexual. Ainda que essa seja uma afirmação bem subjetiva, que muitos na indústria pornográfica poderiam facilmente refutar, o propósito de ambas as coisas, no fim das contas, é o dinheiro, mas essa é uma outra história.

Será que a população de todo o estado de Nova Iorque admitiria abertamente assistir a pornografia, "adorar" assistir, discutir o assunto com os amigos e até comentar as histórias de seus "pornôs" na linha do tempo do Facebook?

É óbvio que não.

Mas o que é pornografia, afinal? Você simplesmente sabe o que é antes de assistir? Então, por que ainda assiste, mesmo sabendo do que se trata?

Muitas pessoas diriam que folhear uma revista adulta é ver pornografia. Mais pessoas ainda, se descobrissem que os seus filhos estão na Internet procurando vídeos (com nudez ou sexo explícitos) ou fotos eróticas (em que a mente dos seus filhos estaria simplesmente fazendo o resto do serviço), certamente chamariam isso de "pornô".

E se alguém cortasse uma das cenas de sexo explícito de Game of Thrones e pusesse só aquela cena online, separada em si mesma de toda a trama e enredo, e o seu filho baixasse esse vídeo, você chamaria isso de pornografia?

Sim, você chamaria.

Por que, então, quando se cobrem essas cenas com o glitz e o glamour da HBO, tudo de repente se torna socialmente aceitável? Será que é porque, na verdade, as pessoas adoram pornografia, mas não querem admitir publicamente? Elas não querem surfar nos sites obscenos da Internet, mas se conseguirem o seu "pornô" via HBO (ou via Netflix), tudo bem, o que elas querem é um jeito de guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Querem ter "pornô" sem o estigma social; "pornô" que a sua esposa deixe você assistir; "pornô" que seja possível racionalizar.

Nós somos realmente muito bons em enganar-nos a nós mesmos e geralmente aproveitamos a primeira oportunidade que temos para fazê-lo. O que é triste e irônico a respeito de Game of Thrones é que, ainda que as atrizes recebam muito mais salário, prêmios e fama que as atrizes pornográficas, elas continuam sendo seres humanos e o efeito emocional que tudo isso tem nelas é o mesmo. A maioria delas jamais admitirá o fato, mas a verdade permanece.

Triste e irônico é que, vez ou outra, algumas dessas atrizes de renome admitam sentir nojo por estarem presentes nessas cenas de sexo, mas o insaciável vício da nossa cultura por pornografia é sempre demais para que pensemos em mudar a nossa forma de retratar o sexo.

Há pouco tempo, a atriz Emilia Clarke virou notícia ao revelar a um jornal britânico que "não suportava" as cenas de sexo das quais ela participou em Game of Thrones. O artigo conta que "Emilia, que interpreta a princesa exilada Daenerys Targaryen, se recusou a aparecer seminua de novo dois anos atrás". Ela "teria dito aos diretores do programa que 'queria ficar conhecida por sua atuação, e não por seus seios'."

Há, evidentemente, muita hipocrisia nessas falas da atriz. Digo isso não como um julgamento pessoal, mas como prova do fato de que a nossa cultura quer "o melhor dos dois mundos" quando o assunto é sexo. Ficar nua nas telas foi o que fez a fama da atriz e o que explica em grande parte a popularidade desse seriado. É muita incoerência.

Se você quer descobrir a verdade e saber como as coisas realmente são vistas pelo público, basta entrar no "mundo mágico" dos comentários da Internet. Uma das respostas ao artigo sobre Emilia Clarke diz o seguinte: "Nós não assistimos a você por sua atuação, querida".

Isso é o que realmente acontece quando essas atrizes de Hollywood pensam estarem fazendo "nu artístico" com seus corpos: na verdade, o que elas estão fazendo é criando um vínculo sexual com milhões de homens, assim como as Escrituras nos dizem que acontece durante o sexo: "Os dois serão uma só carne" ( Gn 2, 24; 1 Cor 6, 16). Nos Evangelhos, Jesus nos diz que pensar em ter sexo com outra mulher que não a sua esposa é o mesmo que cometer adultério no coração (cf. Mt 5, 28). Por isso, nós não deveríamos ficar surpresos com respostas desse tipo.

Assim como acontece com sexo casual, há milhões de homens por aí interessados em Clarke apenas pelo seu corpo. O anúncio feito pela atriz, de que não irá mais expor-se, equivale ao término de uma relação casual. Você pode cobrir esses episódios com o quanto de "arte" quiser, mas eles não passarão de um "corpo despido" para a maior parte dos homens que assistirem.

E se você acha que pode de alguma forma filtrar a pornografia e ter apenas a "arte", você é tão iludido e incoerente quanto. Pornografia sempre faz o mesmo com as pessoas: assim que entra em cena, joga fora toda a sua humanidade e dignidade. Tudo o que resta são pedaços de carne sendo consumidos por outros seres humanos.

Você não pode ao mesmo tempo manter a dignidade de alguém enquanto a usa para o seu próprio prazer. Ou assiste a pornografia ou trata as pessoas dignamente.

Escolha com sabedoria.

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A cura para a “masculinidade tóxica”
Sociedade

A cura para a “masculinidade tóxica”

A cura para a “masculinidade tóxica”

Para a maior parte das feministas, o problema da chamada “masculinidade tóxica” é o patriarcado: seria preciso abolir desde a noção de família natural até as próprias diferenças sexuais. Mas o cristianismo tem uma resposta diferente a oferecer.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Durante muito tempo, e em boa parte das civilizações, a masculinidade esteve associada a virtudes como coragem, resiliência, disciplina etc., coisas que seriam necessárias para um menino tornar-se “homem de verdade”. Por isso, várias dessas civilizações possuíam códigos de honra e rituais de passagem, que os rapazes mais jovens do grupo precisavam cumprir para ganhar o respeito não só do líder da tribo, mas também das mulheres.

De modo geral, a vocação masculina costumava ser resumida em três palavras-chave:  “procriar”, “prover” e “proteger”. Com o passar do tempo, no entanto, esse código passou por mudanças e agora, entre tantas discussões sociais, políticas e sexuais, encontra-se no centro do debate. Se, em outras épocas, alguém poderia afirmar tranquilamente que “a masculinidade faz do mundo um lugar mais seguro”, como fez o ator Juliano Cazarré, em seu Instagram, hoje isso pode causar não só escândalo como uma enxurrada de críticas ao patriarcalismo ou, como quer a novilíngua, à “masculinidade tóxica”.

Em outro comentário, Cazarré teve de explicar que, calma lá, “masculinidade não é equivalente a machismo, a feminicídio, a patriarcalismo” etc., mas “significa agir com coragem mesmo quando se tem medo”, “ajudar quem precisa”, “valorizar as virtudes cardeais” e “fazer algo em vez de ficar parado reclamando da vida”. O óbvio, porém, não é mais tão óbvio assim, sobretudo quando a linha entre masculinidade e machismo tornou-se, aparentemente, tão tênue.

A origem da barbárie. — O censo mais recente sobre feminicídio no Brasil revelou que, durante a pandemia, os casos cresceram 22% em 12 estados. Também, nos últimos anos, aumentou o número de mães solteiras. Além desses dados, outros números são igualmente preocupantes: homens são as principais vítimas de homicídio e a maior população carcerária do Brasil. Geralmente, eles têm uma expectativa de vida inferior à das mulheres, sendo mais propensos que elas à dependência química e a cometer suicídios. Para completar, são cada vez mais comuns rapazes com problemas de disfunção erétil e ejaculação precoce.

Na origem dessa barbárie, vários estudiosos acusam o “machismo estrutural” de reforçar entre os homens a ideia de que eles “podem tudo”, que é da natureza deles a “brutalidade” e que, por isso, eles têm o direito de usar as mulheres e depois largá-las; podem dominá-las, tratando-as como uma propriedade ou, em situações extremas, matando-as. E esse machismo teria representatividade justamente em lugares como a família, a Igreja, a política e a arte, que, segundo eles, defendem uma ideia de homem “agressivo”, “dominador”, “predador”, entre outros estereótipos.

“Você pode ser masculino sem ser tóxico, ‘mano’”. Palavras de ordem comuns em manifestações feministas nos EUA.

De fato, a chamada cultura pop está repleta de ícones masculinos baseados na ideia do “predador sexual”, que se deita com quantas mulheres quiser, apenas por supostamente ser forte, viril e derrotar os inimigos da história. Que sejam esses, inclusive, os protagonistas dos filmes mais vistos das plataformas de streaming não é mero acaso: “Exalta-se entre os homens a baixeza” (Sl 11, 8). Ao fim e ao cabo, trata-se de mais do mesmo na indústria cinematográfica: sexo, sexo e sexo.

É fácil perceber a relação entre essas representações masculinas e o comportamento machista de muitos homens, considerando que a pornografia é a teoria e o estupro, a prática. Produções desse gênero, longe de falar da complementaridade e respeito entre sexos, só o que fazem é exibir o domínio de um sobre o outro. Seja como for, não há dúvida de que a exposição constante a cenas de sexo, explícitas ou não, provoca uma séria alteração no cérebro masculino. E se os homens são, em sua maioria, consumidores frenéticos dessa droga, a consequência inevitável é que tais comportamentos se reproduzam na vida real, em maior ou menor medida. Prova disso são os escândalos de abuso que assolaram Hollywood nos últimos anos e fizeram a Academia revisar boa parte de sua política.

Quanto à acusação que se faz aqui e ali à Igreja, no entanto, é difícil acreditar que homens se masturbando dentro de transportes públicos (notícia que tem se tornado, infelizmente, muito comum), tenham se sentido autorizados a fazê-lo depois de uma homilia dominical. Na verdade, há quem considere o cristianismo uma religião mais feminina que masculina. Mas o fato de a Igreja ser comandada hierarquicamente apenas por homens e ter, em sua pregação, um discurso sobre papéis institucionais e diferença entre os sexos seria o suficiente para sustentar um “machismo estrutural” e “simbólico”. Ao menos, é o que pensam muitas feministas.

Os remédios para o machismo. — A discussão torna-se, a partir daqui, mais melindrosa e fora do senso comum. Para grande parte das feministas, a reação adequada à “masculinidade tóxica” seria abolir toda e qualquer mentalidade considerada patriarcal, desde a noção de família à convicção de que existe uma natureza humana que faz os homens serem biologicamente diferentes de mulheres. O esforço, portanto, deveria ser o de construir socialmente novos “papéis de gênero”, enfraquecendo os códigos de masculinidade que falam em “procriar”, “prover” e “proteger”. Uma tendência disso pode ser vista no vestuário ou no cinema, com roupas masculinas cada vez mais emasculadas e filmes cujos protagonistas homens têm personalidades bem suaves e frágeis — quando não imbecis.

É uma guerra cultural. As feministas mais radicais acreditam que, entre o homem que usa a força para “prover” e “proteger” sua família e o que a utiliza para abusar de mulheres, parece, em tese, não haver diferença alguma, senão de grau: enquanto o último representaria o estágio mais avançado do troglodita, o primeiro esconderia seu machismo sob a fachada de “pai de família”. A violência de um é física: ele oprime com o punho; a do outro é institucional: ele oprime com o olhar. Assim, a única solução para a masculinidade seria transformá-la ao ponto de não restar sombra do tal “macho alfa”. Em outras palavras, é a abolição da testosterona.

Acontece que uma coisa é a ideologia e outra, a realidade: homens menos viris não são necessariamente menos opressores. Ao contrário, eles podem ser bem mais onerosos sobre suas famílias, sobre seus filhos e sobre a sociedade, quando não têm desafios para enfrentar, quando não decidem assumir responsabilidades e empregar as próprias habilidades para promover o bem e formar o caráter. No fundo, grande parte da violência masculina, hoje em dia, se deve ao vazio que os homens sentem, por não saberem mais que papel desempenhar na sociedade, o que lhes causa enorme ansiedade e frustração. Os homens não querem mais ser homens.

Homens censurando uma mulher, J. K. Rowling, por ela afirmar o óbvio — sim, mulheres menstruam — sem considerar o disparate — “há muitos homens transsexuais que menstruam, e muitas mulheres trans que não” — é a quintessência do machismo. Porque se, antes, era considerado abuso que os homens quisessem “proteger” e “prover” suas esposas, que se dirá agora de homens que forçam juridicamente, e com apoio da mídia mainstream, mulheres a relativizar algo tão íntimo como o ciclo menstrual, para se adequarem a novos “papéis de gênero”? É a intromissão total sobre o corpo da mulher, a imposição arbitrária da imaginação sobre a realidade, imposição dos fetiches sexuais sobre a natureza biológica. Enquanto muitas feministas se preocupam com os Rosários dos católicos contra o aborto, é a ideologia de gênero que lhes arranca o útero e a garganta.

Nesse contexto, cresce ainda o fenômeno chamado MGTOW (sigla para Men Going Their Own Way; em português: “Homens seguindo o seu próprio caminho”), que reúne homens que preferem não criar nenhum vínculo com mulheres, a fim de conservar seus negócios, patrimônios e independência. Eles podem até manter relações sexuais com elas, mas jamais as assumirão como namoradas ou esposas.

Curados pelo amor. — No fim das contas, em toda essa balbúrdia, para a qual parece não haver solução, há no entanto quem ainda acredite no amor dos homens: “Toda mulher quer amar e ser amada por homens em sua vida. Seja gay ou hétero, bissexual ou celibatária, ela deseja sentir o amor de seu pai, avô, tio, irmão ou amigo” [1]. Essa não é a afirmação de uma mulher “bela, recatada e do lar”, mas de uma feminista dissidente, bell hooks (sim, com minúsculas), que, para além da ideologia, percebe que os homens têm um papel necessário na vida familiar, na criação dos filhos e no mundo feminino.

Em The will to change (em português: “Desejo de mudança”), a ativista fala de sua infância e de como ela, criada num lar onde a figura paterna era muito severa, desejava que as mãos de seu pai a abraçassem, abrigassem e protegessem, tocando-a com ternura e cuidado. A partir de sua experiência, ela afirma que a abordagem sobre a masculinidade deve focar não na ideia negativa do “poder” dos homens — como fazem muitas feministas —, mas na capacidade deles para o amor. Para hooks, dentro da cultura atual, na qual se prega tanto a dominação de um pelo outro, a escolha pelo amor é a atitude mais heroica. 

A escritora feminista bell hooks.

A observação de hooks é que muitos meninos crescem pressionados a serem fortes e resilientes, como se essas fossem as virtudes principais, mas eles não são ensinados a lidar com a vida interior. Eles têm dos demais homens, bem como dos seus colegas, ou até de suas mães, a cobrança para que cumpram seus papéis sociais sem, por outro lado, o suporte para aceitarem o próprio temperamento e os limites pessoais. É como se tivessem de desenvolver uma ataraxia, o que se expressa frequentemente pelo imperativo: “Seja homem”. E quando não correspondem a essas expectativas, acabam expressando a própria dor por meio da violência, da sexualidade, do vício etc.

“Para amar os meninos corretamente”, insiste ela, “devemos valorizar sua vida interior o suficiente para construirmos mundos, tanto privados quanto públicos, onde seu direito à totalidade possa ser consistentemente comemorado e afirmado, onde a necessidade deles de amar e serem amados possa ser satisfeita” [2]. Portanto, ela conclui que “apenas uma revolução dos valores em nossa nação acabará com a violência masculina, e essa revolução deve ser necessariamente baseada numa ética do amor” [3].

A descoberta de bell hooks é fantástica, sem dúvida. No entanto, vem com certo atraso. Um século antes da publicação de The will to change, o livro de outro autor, Chesterton, já falava do “dano mais terrível” que as virtudes, “isoladas uma da outra”, causavam ao mundo. Em Ortodoxia, o jornalista dizia que “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas” circulando por aí sozinhas [4]. É por isso que, quando falamos da fortaleza masculina e da missão de “prover” e “proteger”, somos facilmente identificados com o machismo. Para a sociedade atual, à fortaleza não está unida a virtude da caridade. E é por isso também que, para reagir ao machismo, muitas feministas preferem aniquilar a masculinidade em vez de redimi-la pelo amor, como fez Cristo.

A masculinidade do homem cristão. — É uma pena que, por conta de sua experiência particular, hooks veja na Igreja apenas o sinal de um patriarcalismo e de uma mentalidade machista e misógina. Mas, data venia, é preciso dizer que, se há no mundo alguma instituição que lutou, desde o início, para ensinar aos homens a virtude do amor, essa instituição se chama Igreja Católica. E as confusões a esse respeito se dão simplesmente porque, não sabendo interpretar os paradoxos do cristianismo, muitos não entendem como São Paulo pode, na mesma carta, pedir a submissão das mulheres aos seus maridos e, logo em seguida, dizer aos maridos que amem suas esposas como Cristo amou a Igreja. Mas tudo se explica neste versículo: “Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo” (Ef 4, 21).

Quando Davi disse para Salomão “ser homem”, ele associou a masculinidade não tanto à força física — porque Deus não se deleita com músculos, diz o salmista (147, 10) — quanto à obediência aos preceitos divinos. Nesse sentido, a escolha dos doze Apóstolos significou uma revolução de todo o código de masculinidade, pois Cristo chamou homens fracos e débeis aos olhos do mundo, para ensiná-los que: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10, 43). Nosso Senhor substituiu a lei de talião — “olho por olho, dente por dente” — pela máxima da caridade — “que vos amei uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).

De fato, Jesus curou a crise entre o homem e a mulher, que não é uma crise de sistemas patriarcais ou matriarcais, como se a mera substituição de um pelo outro resolvesse algo, mas uma crise antropológica e espiritual, que vem desde a Queda no Éden: “A teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará” (Gn 3, 16). Essa foi uma das consequências do pecado original, que só pode ser remediado pela graça do amor de Deus. Restaurados em Cristo, a relação entre o homem e a mulher deixa de ser a de “senhor e escrava” para converter-se na de “senhor e senhora”. É um serviço mútuo em que cada um empenha suas qualidades para a edificação amorosa do próximo.

No romance Quo Vadis, que conta a história dos primeiros cristãos, a diferença entre a masculinidade cristã e a do paganismo é notável. Enquanto o general Marcus Vinícius, chefe das tropas romanas, sente-se no direito de possuir a jovem Lígia, simplesmente por defender a nação e ser um homem com feitos heroicos, o cristão Ursus, um homem fisicamente robusto, recusa-se a utilizar a força para espetáculos de gladiadores. “Eu não luto”, responde ele a uma proposta de Marcus Vinícius, “porque é pecado matar”. Ursus só utiliza a força para proteger Lígia numa arena, quando os dois, por serem discípulos de Jesus, são jogados à sorte das feras. Com isso, o homem cristão mostra ao general pagão que a força dele não é para conquistar troféus e prêmios neste mundo, mas a graça do amor de Deus e a vida eterna. 

E essa, sem dúvida, é a masculinidade que faz do mundo um lugar mais seguro.

Referências

  1. bell hooks, The will to change: men, masculinity and love. New York: Atria Books, 2004 (versão eletrônica).
  2. Id.
  3. Id.
  4. G.K. Chesterton, Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 31.

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O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós
Espiritualidade

O que não podíamos,
o Sangue de Cristo fez por nós

O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós

“Que poderei retribuir ao Senhor...?” O Salmo 115, que a Igreja por séculos fez constar em sua Liturgia, tem uma lição a nos passar: o sacrifício que não podíamos oferecer a Deus, Ele mesmo veio oferecer em nosso lugar.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A virtude da religião, explica Santo Tomás de Aquino, é o hábito da justiça pelo qual damos ao Deus Todo-Poderoso o que lhe devemos como nosso Criador e Senhor: seu direito à adoração adequada, tanto em nossas ações externas (por exemplo, louvando-o com os lábios, curvando-nos diante dele) e atos internos (como a humilde submissão da mente e do coração em adoração). Como Ele é nosso Criador e soberano Senhor, de quem dependemos em nosso ser e em nossa vida, em nossas atividades e para a nossa felicidade, a Ele nós devemos tudo: cada parte de nós mesmos, corpo e alma.

Esse retorno não é algo que possamos fazer tal como Ele merece, mas podemos dar o máximo que é possível a uma criatura. Para o homem antes da Queda, essa virtude teria assumido a forma de um “sacrifício racional”, no qual ele não apenas ofereceria a Deus adoração, louvor e ação de graças, mas também a silenciosa homenagem de todas as criaturas. Ao fazerem isso em determinados horários todos os dias, permanecendo sempre em comunhão de amor e confiança, Adão e Eva, antes da Queda, tinham uma vida religiosa perfeita.

A Queda mudou tudo. Agora, o homem age contra aquilo que deve a Deus — age, na verdade, na medida do possível, contra o próprio Deus, pois o Senhor, que está presente em suas leis, é amado quando são obedecidas, mas desprezado, quando desobedecidas. Adão e Eva agora vivem em um mundo que se voltou contra eles, como eles mesmo se voltaram contra o seu Criador e Senhor. Eles precisam trabalhar para sobreviver, sofrendo no trabalho, sofrendo no nascimento. Eles se cansam, se frustram e vacilam. O pior de tudo é que, quando se voltam para Deus, não é com a familiaridade íntima de uma criança, mas com a consciência abalada de um renegado, tentando compensar uma ofensa de gravidade quase infinita.

Para os filhos caídos de Adão, portanto, a virtude da religião deve necessariamente assumir a forma de um culto sacrificial pelo qual Deus é honrado e também aplacado. O derramamento de sangue simboliza a morte da própria vontade egoísta: derramar a vida, dolorosamente, para restaurar o que foi perdido e mostrar que pertence apenas a Deus. “Sem derramamento de sangue, não há perdão dos pecados” (Hb 9, 22).

Deus deu a Israel a Antiga Lei como um sistema, uma forma estabelecida de adoração que tornaria necessária a vinda de um Mediador e Redentor, de alguém que, em si mesmo, pudesse oferecer a Deus uma adoração verdadeiramente digna de seus direitos sobre toda a Criação. Poder-se-ia chamar toda a Antiga Lei de grande “ritual do ofertório”, pelo qual a vítima foi preparada na presciência de Deus, em antecipação à vinda do Messias, o Cordeiro de Deus. A consagração corresponde à morte deste Cordeiro no altar da Cruz. A Comunhão significa tomar parte na salvação que nos foi adquirida ao preço do seu Sangue precioso.

Somente Cristo, portanto, realiza de modo perfeito a virtude da religião, e nós temos o privilégio incomparável de sermos inseridos em sua própria adoração. A Missa latina tradicional expressa essa verdade em um momento pungente, escondido da vista do leigo, mas não do seu conhecimento, caso ele acompanhe as orações em um missal.

Quando está prestes a tomar o Preciosíssimo Sangue, o sacerdote no rito antigo pronuncia o verso do Salmo: Quid retribuam Domino pro omnibus, quae retribuit mihi? (Sl 115, 12), “Que poderei retribuir ao Senhor por todas as coisas que ele me deu?” Ele pega o cálice com mais dois versos: Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo. Laudans invocabo Dominum, et ab inimicis meis salvus ero (Sl 115, 4; 17, 4), “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”.

Em seguida, ele se benze com o cálice em forma de cruz e, segurando a patena sob ele, toma o Preciosíssimo Sangue após pronunciar as palavras: Sanguis Domini nostri Jesu Christi custodiat animam meam in vitam aeternam, “Que o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo preserve a minha alma para a vida eterna”.

Em STh II-II 80, 1, Santo Tomás cita o Sl 115, 12: “Que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me deu?”, como testemunho bíblico da virtude da religião, pela qual damos o que podemos ao Senhor, embora nunca possamos dar o suficiente, pois nunca lhe retribuímos um dom equivalente ao que Ele nos deu. A colocação deste versículo no ponto mais alto da Missa, em que se bebe o Sangue do Senhor, enfatiza o aspecto da justiça na Liturgia. O homem se esforça para voltar-se a Deus, e o melhor retorno que ele pode fazer é, de fato, comungar o Corpo de Jesus Cristo e permitir que Ele mesmo agradeça ao Pai dentro e através de quem comunga.

É por isso que o sacerdote, logo em seguida, acrescenta: “Beberei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor”. O Justo e Santo vem, por misericórdia, habitar em seu interior, para que o homem possa, unido a Cristo, oferecer-se a Deus como uma oblação digna. O cristão incorporado a Cristo tem o “Deus de Deus, luz da luz”, dentro de si, e entre o Pai e o Filho há o amor mais elevado e a mais sublime justiça, como se cada um deles estivesse eternamente dando ao outro a sua perfeita retribuição. O Pai não apenas gera o Filho, mas nele se compraz e o recebe no amor eterno e recíproco que é o Espírito Santo. A Sagrada Comunhão coloca o fiel nesta circumincessão ou habitação mútua das Pessoas divinas. É por isso que o cálice é mencionado como “calicem salutis perpetuae”: o cálice da salvação eterna.

É como se esse pequeno ritual nos estivesse dizendo: “Sim, ó homem, para vós é impossível retribuir justamente ao Senhor por tudo o que Ele vos deu”, mas “a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).

Como ensina a Madre Matilde do Santíssimo Sacramento (1614–1698):

A Missa é um mistério inefável no qual o Pai eterno recebe homenagens infinitas: nela Ele é adorado, amado e louvado como merece; e é por isso que somos aconselhados a receber a Comunhão com frequência, a fim de cumprirmos para com Deus, por meio de Jesus, todas as nossas obrigações. Isso é impossível sem Jesus Cristo, que entra em nós para realizar o mesmo sacrifício da Santa Missa.

A sequência dos versículos do Salmo, uma vez sorvido o cálice, conclui apropriadamente: “Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”. Que motivo de louvor: receber o próprio Senhor, Aquele a quem clamamos! Que proteção contra nossos inimigos! O Senhor nos salvará, porque, na Santa Comunhão, Ele vem habitar em nós, aplicar-nos os méritos de sua morte e aumentar nossa participação em sua vida ressuscitada.

A tristeza dos católicos por não poderem assistir à Missa e receber Nosso Senhor sacramentalmente deve intensificar nosso desejo espiritual pelo santo sacrifício e por uma participação cada vez mais frutuosa, sempre que o Senhor quiser que tenhamos de novo a felicidade de participar do seu banquete. Somos chamados a fazer o que pudermos e a nos entregar nas mãos de Deus, usando as palavras de nosso Salvador na Cruz: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23, 46).

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Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino
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Sagrado Coração,
venha a nós o vosso Reino

Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino

Os católicos não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Entre nós está a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus. Nele está a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles quais forem.

Jane StannusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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À Espera dos Bárbaros”, poema de Konstantínos Kaváfis sobre o colapso da civilização, descreve uma Roma tão desanimada e desmoralizada, que já quase não possui esperança alguma. Ela se agarra aos bárbaros como a sua última tábua de salvação — há rumores de que as hordas barbáricas se aproximam, sem dúvida para saquear e queimar, mas também para construir, talvez, um novo império a partir das ruínas do antigo.  

Mas numa mudança repentina que se assemelha a um soco, Kaváfis puxa o tapete de Roma. Não há bárbaros. De nada adiantará que se reúnam, esperando por ventos e turbilhões fora do reino que venham a determinar o seu destino. Se há qualquer salvação para Roma, ela deve vir de dentro.

Ao observar nossas nações e a Igreja, nós, católicos, nos perguntamos onde foi parar a vitalidade da nossa fé. Onde está o ardor missionário que converterá a América e o mundo? Onde está o ímpeto que deveria levar os católicos de hoje a perseverar na prática da religião e na transmissão de uma fé vibrante para a geração vindoura? Onde estão o destemor e a firmeza das eras da fé, que eram como anéis de luz a cingir o mundo?

Talvez devêssemos tentar aproveitar uma força vital de nossa própria época. Que movimento vigoroso poderíamos acolher em nosso meio a fim de conferir nova relevância à nossa Igreja? Talvez devêssemos acolher o Antifa em nossas igrejas e apoiar os seus membros na luta por justiça social. Ou poderíamos explorar o vigor do movimento pró-imigração, ou o movimento ambientalista, ou talvez montar o irascível touro do marxismo. “Um dia”, escreveu Teilhard de Chardin num ímpeto de otimismo prepotente, “depois de dominar os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, deveremos dominar para Deus as energias do amor, e então, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o fogo”. 

Palavras radiantes. Mas toda essa procura fora da Igreja de Cristo por sinais dos tempos, energias do amor, forças da história e ventos de mudança equivale simplesmente a aguardar a chegada dos bárbaros. Somos cidadãos decrépitos de um império moribundo ou membros vivos do Corpo Místico de Cristo?

Esse Corpo Místico possui o centro pulsante das forças do verdadeiro amor: o Sagrado Coração de Jesus, no qual encontramos a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles políticos, filosóficos ou espirituais. Não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Temos entre nós a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a solução para as nossas sociedades cada vez mais confusas e divididas. Somente o amor de Cristo e a sua bondade podem mudar os corações cheios de ódio e as mentes dominadas por ideias errôneas e falsos juízos. Sua autoridade amorosa pode ensinar os nossos policiais, pais e líderes a combinar mansidão e força. Na encíclica Haurietis Aquas, de 1956, Pio XII disse que o Sagrado Coração de Jesus “é a escola mais eficaz do amor de Deus”, que é “o fundamento sobre o qual o reino de Deus é construído nos corações dos indivíduos, das famílias e das nações”.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a cura para as nossas personalidades feridas e fraturadas. Seu divino Coração de carne nos ensina a bondade da humanidade física e nos ajuda a rejeitar teorias gnósticas que, por desprezar completamente o corpo humano, afirmam que a vontade humana é livre para o modificar e redefinir como quiser, ou para o eliminar através da eutanásia ou do aborto. Sua humanidade perfeita nos faz ter a esperança de que, por meio de seu amor e de sua graça, as nossas feridas e erros, sejam eles resultado das nossas ações ou da injustiça e crueldade de outras pessoas, podem ser curados.   

Os nossos problemas políticos também podem ser resolvidos se recorrermos ao Sagrado Coração. Leão XIII escreveu com tristeza na encíclica Annum Sacrum, de 1899, que trata da separação entre Igreja e Estado: “Essa política tende praticamente à eliminação da fé cristã em nosso meio e, se fosse possível, à eliminação de Deus mesmo da terra”. No entanto, é por meio de Cristo, como nos diz São Paulo, que aprouve ao Pai “reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Col 1, 20). Como poderemos ter paz na terra sem o Príncipe da Paz?

Em sentido oposto, como os papas ensinaram diversas vezes e como Pio XI reiterou na encíclica Quas Primas, em 1925: “Quando os homens reconhecerem, na vida pública como na privada, que Cristo é Rei, a sociedade finalmente receberá as maiores bênçãos da verdadeira liberdade, da disciplina bem ordenada, da paz e da harmonia”. Esse reconhecimento não requer uma mudança de regime. Tanto as estruturas democráticas quanto as monárquicas possuem a capacidade e o dever de reconhecer que toda lei tem por fundamento a lei de Cristo; toda justiça, a justiça de Cristo; e toda ordem, a ordem de Cristo.

Eles devem, além disso, reconhecer de modo formal que Cristo é o Rei dos reis e o governante de todas as nações, com o que só estarão reconhecendo a realidade daquilo que é. Pois o Filho de Deus nos governa independentemente de nós escolhermos ou não, em nossa fantasia de grandeza, reconhecer esse fato; mas a nossa busca por ordem e justiça estará condenada desde o início se nos recusarmos a fundamentá-la no amor que move o sol e todas as estrelas.  

Amigos católicos, parem de esperar pelos bárbaros. Temos no seio da Igreja uma fonte de vitalidade, uma força de amor suficiente para transformar todas as coisas em Cristo: o Sacratíssimo Coração de Jesus, com a sua divindade e humanidade, os seus santos poderes legislativos e judiciários, a sua realeza sagrada e infinita.

Essa é a maior das causas e a única, pois contém o que é bom e digno em todas as causas menores, excluindo todo o resto. Essa é a energia de amor que temos de aproveitar caso queiramos mudar o mundo.

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Contra tudo e contra todos: o triunfo da Igreja Católica no Japão
História da Igreja

Contra tudo e contra todos:
o triunfo da Igreja Católica no Japão

Contra tudo e contra todos: o triunfo da Igreja Católica no Japão

Os católicos japoneses realizaram uma das maiores façanhas da história da salvação: resistir por 250 anos a uma campanha de aniquilação, sem nenhum sacerdote, transmitindo fielmente a fé ao longo de uma dúzia de gerações e em isolamento total.

Church MilitantTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Junho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Uma das demonstrações mais extraordinárias de fidelidade de todos os tempos é também uma das mais desconhecidas. Isso é trágico não apenas porque a história da Igreja Católica no Japão é importante por direito próprio, mas pelo que ela tem a nos ensinar sobre esperança.

O cristianismo (que por séculos foi exclusivamente católico romano) foi levado ao litoral japonês por São Francisco Xavier por volta da metade do século XVI. Após algumas tentativas e erros, ao longo das cinco décadas seguintes centenas de milhares de japoneses se converteram à fé. O catolicismo no Japão começou a prosperar e florescer. A cidade portuária de Nagasaki tornou-se um próspero centro para católicos.

No entanto, essa era de ouro só foi possível porque o Japão passava por uma enorme guerra civil que já durava um século: o Período Sengoku. Senhores da guerra, chamados daimiôs, estavam muito ocupados em lutas intestinas para se preocuparem com ameaças externas. A chegada dos portugueses levou riqueza e armas de fogo a muitos deles. Os europeus foram tolerados por causa do afluxo de riquezas e dos armamentos de ponta que traziam consigo. E aonde quer que fossem, levavam também o catolicismo. Comunidades cristãs começaram a brotar em todas as partes das ilhas japonesas.

São Francisco Xavier, o primeiro a quem os católicos japoneses devem o dom da fé. Imagem de Maryland, EUA.

Mas a oposição ao catolicismo já começava a se cristalizar. Na Batalha de Nagashino em 1575, mosquetes europeus foram decisivos para a derrota de Takeda Shingen e seu clã. A batalha facilitou o eventual surgimento do clã Tokugawa, que viria a ser catastrófico para os católicos.

Em 1600, o Período Sengoku estava se acalmando, e a violência esporádica contra cristãos já havia começado três anos antes. O clã Tokugawa finalmente obteve o controle de toda a nação e o seu líder foi transformado em xogum, comandante do exército.

Com um Japão unido, o xogunato Tokugawa começou a prestar atenção ao que ocorria no restante do Pacífico. Naquele momento, os poderes europeus apropriavam-se da riqueza material da Ásia e colonizavam a China e as Filipinas de forma agressiva. Temendo que o cristianismo fosse uma ferramenta das nações ocidentais e recordando o papel que os europeus tiveram no Período Sengoku, os japoneses começaram a reprimir os católicos. 

O catolicismo também entrou em conflito com muitas sensibilidades japonesas. O conceito de inferno e a dura condenação da atividade homossexual (que naquela época era muito comum no Japão) eram ofensivos a muitos japoneses. Essas características fizeram do catolicismo um alvo fácil para autoridades que desejavam classificá-las como “não-japonesas”. Os católicos romanos no Japão seriam perseguidos, de forma muito concreta, em parte por causa de sua rejeição da homossexualidade. O catolicismo era visto como uma afronta às religiões tradicionais predominantes, um ataque aos valores japoneses e algo traiçoeiro.

Em 1614, a perseguição tornou-se política oficial. Todos os missionários e todo o clero foram expulsos, e todos os convertidos deveriam ser mortos. Qualquer membro do clero que ousasse permanecer era executado.

O xogunato teve êxito ao decapitar completamente a Igreja Católica no Japão. Em poucos anos, todos os sacerdotes foram assassinados ou banidos. Os cristãos remanescentes foram obrigados a viver na clandestinidade. Aqueles que eram identificados eram torturados e executados.

Entretanto, durante a década de 1630, o Japão começou a fechar-se completamente para o mundo exterior, rompendo todo contato com nações estrangeiras. Qualquer estrangeiro que desembarcasse em solo japonês era condenado à morte. Todo japonês que deixava o país era proibido de retornar.

Em 1644, o último jesuíta remanescente foi arrancado de seu esconderijo e morto. A partir daquele momento, os leigos católicos no Japão ficaram completamente sozinhos, sem sacerdotes e sem qualquer possibilidade de comunicação com Roma. O Japão entrou num período de trevas.

Nem mesmo o império romano e o muçulmano, ou as polícias estatais da União Soviética e da Alemanha Oriental conseguiram suprimir o cristianismo de forma tão absoluta. Para os católicos japoneses sobreviventes, aqueles expurgos foram apenas o começo.

Todos os que se mantinham obstinadamente fiéis à fé eram condenados à morte, apenas descobertos. As execuções realizadas pelas autoridades japonesas eram brutais o suficiente para causar desconforto no mais cruel torturador romano. Muitos métodos são demasiado repulsivos para serem narrados aqui. Os afortunados eram crucificados, decapitados ou queimados vivos. Muitos outros tinham um fim terrível após dias de tortura.

Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. A hediondez da morte que os mártires sofreram só era igualada pela coragem que demonstravam quando chegava a sua hora. Durante o extermínio do clero, sacerdotes abençoavam as multidões à medida que caminhavam para a sua execução, prometendo que outros mestres viriam substituí-los (ao fim e ao cabo, a promessa deles se cumpriria). Os que eram queimados beijavam a estaca a que eram atados, agradecidos por serem considerados dignos de sofrer o martírio pela fé.   

São Paulo Miki, uma das primeiras vítimas da violência anticristã, chegou a proferir um sermão da cruz, uma façanha física incrível se considerarmos os efeitos da crucifixão no sistema respiratório. 

A Igreja no Japão teve de se adaptar para sobreviver. Entrou na clandestinidade, e os católicos japoneses passaram a ser conhecidos como Kakure Kirishitans ou “cristãos ocultos”. As primeiras coisas eliminadas foram a Bíblia e outros textos (inclusive litúrgicos). Os católicos tiveram de suprimir todas as provas físicas de sua existência. A Bíblia, os ritos litúrgicos e a própria fé tiveram de ser memorizados e transmitidos oralmente.

Todas as imagens ou símbolos eram feitos de modo que parecessem artefatos budistas ou xintoístas. Esculturas de Jesus eram feitas de tal maneira que Ele ficasse parecido com Buda. Toda representação visual de Nossa Senhora era feita do mesmo modo.

Até o culto litúrgico era camuflado. As celebrações litúrgicas (não havia sacerdotes para oferecer a Missa) assumiam várias superficialidades budistas enquanto conservavam sua essência católica.

Quando o rastro dos católicos esfriava, o governo japonês decidia expô-los. Exigia que os cidadãos recebessem um certificado da hierarquia budista, afirmando a sua conformidade religiosa.

Além disso, as autoridades começaram a instituir uma política chamada Fumi-e. A população era obrigada a pisar em imagens de Cristo e da Virgem Maria. Qualquer um que recusasse a fazê-lo era torturado até renunciar à fé. Os que não aceitavam eram executados. Os católicos enfrentavam uma variedade repugnante de mortes. Eram inclusive arremessados em vulcões ativos.

A Igreja resistiu. Os que eram forçados a passar pelo Fumi-e “batizavam-no”, por assim dizer, considerando-o uma prática litúrgica que celebrava o perdão de Cristo.

Essa situação permaneceu inalterada por 250 anos. A Igreja no Japão só saiu das sombras quando o país voltou a abrir as portas para o mundo na metade do século XIX.

O Pe. Bernard-Thadée Petitjean foi um dos primeiros a pisar em solo japonês após a reabertura das fronteiras. Quando lá chegou, em 1865, foi abordado por uma mulher que lhe perguntou se era sacerdote do Papa em Roma. Surpreso por ela saber o que era um sacerdote, e mais ainda o Papa, ele avançou. Uma vez convencida da identidade dele, ela apresentou-o à igreja clandestina, uma comunidade semiatrofiada espiritualmente, mas perseverante, que em dois séculos e meio jamais havia visto um sacerdote

O Pe. Petitjean descobriu que os católicos ocultos do Japão realizaram uma das maiores façanhas da história da salvação. Resistindo por 250 anos a uma campanha de aniquilação, sem nenhum sacerdote, os japoneses conseguiram transmitir a fé ao longo de uma dúzia de gerações em total isolamento. O rito romano do batismo e o calendário litúrgico permaneceram intactos. Quando a interdição do catolicismo foi suspensa em 1867, mais de 30 mil católicos saíram do anonimato. Hoje o Japão tem 500 mil católicos.

Vivemos em tempos obscuros, e não vemos bons sinais quanto ao futuro. Mas os mártires e os católicos ocultos do Japão mostram-nos que a fé pode perdurar mesmo quando somos minoria e, despojados de nossos pais espirituais, somos cercados e caçados como animais.

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