O que “Game of Thrones” tem a ver com pornografia?
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
O que “Game of Thrones” tem a ver com pornografia?
Sociedade

O que “Game of Thrones”
tem a ver com pornografia?

O que “Game of Thrones” tem a ver com pornografia?

“Game of Thrones”, o seriado de maior sucesso atualmente no mundo, diz muito sobre a nossa cultura e sobre o modo como estamos tratando as nossas mulheres.

Noah FilipiakTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Maio de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

O seriado de sucesso Game of Thrones, da HBO, recebeu 26 estatuetas do Emmy, incluindo o prêmio de "melhor série dramática" em 2015, e tem 18,6 milhões de pessoas assistindo a cada episódio da série — um recorde para o canal HBO —, praticamente a mesma população de Nova Iorque, o terceiro estado mais populoso dos Estados Unidos. Esse é um número muito grande, que abrange muitas pessoas e indica uma forte influência cultural.

O que faz as pessoas assistirem a Game of Thrones? Certamente, a atuação artística, o enredo, as personagens, a trama, as batalhas, os dragões e, é claro, as cenas exageradas e gratuitas de nudez e de sexo (incluindo uma cena longa e explícita de estupro que virou notícia ano passado).

Assim como o fenômeno de "Cinquenta Tons de Cinza", tudo isso traz à tona o problema do sexo como entretenimento de massa. O que faz um filme pornô ser "pornografia" e Game of Thrones ser um ícone premiado e bem-sucedido da cultura popular?

Ambos têm uma história e ambos são eróticos. Eu suponho que a diferença esteja em Game of Thrones ter mais enredo do que sexo, razão pela qual ele é considerado um drama e não um "pornô", já que pornografia tem mais sexo do que enredo. Alguém também poderá dizer que o propósito de Game of Thrones é artístico, enquanto o propósito de um filme pornô é o prazer sexual. Ainda que essa seja uma afirmação bem subjetiva, que muitos na indústria pornográfica poderiam facilmente refutar, o propósito de ambas as coisas, no fim das contas, é o dinheiro, mas essa é uma outra história.

Será que a população de todo o estado de Nova Iorque admitiria abertamente assistir a pornografia, "adorar" assistir, discutir o assunto com os amigos e até comentar as histórias de seus "pornôs" na linha do tempo do Facebook?

É óbvio que não.

Mas o que é pornografia, afinal? Você simplesmente sabe o que é antes de assistir? Então, por que ainda assiste, mesmo sabendo do que se trata?

Muitas pessoas diriam que folhear uma revista adulta é ver pornografia. Mais pessoas ainda, se descobrissem que os seus filhos estão na Internet procurando vídeos (com nudez ou sexo explícitos) ou fotos eróticas (em que a mente dos seus filhos estaria simplesmente fazendo o resto do serviço), certamente chamariam isso de "pornô".

E se alguém cortasse uma das cenas de sexo explícito de Game of Thrones e pusesse só aquela cena online, separada em si mesma de toda a trama e enredo, e o seu filho baixasse esse vídeo, você chamaria isso de pornografia?

Sim, você chamaria.

Por que, então, quando se cobrem essas cenas com o glitz e o glamour da HBO, tudo de repente se torna socialmente aceitável? Será que é porque, na verdade, as pessoas adoram pornografia, mas não querem admitir publicamente? Elas não querem surfar nos sites obscenos da Internet, mas se conseguirem o seu "pornô" via HBO (ou via Netflix), tudo bem, o que elas querem é um jeito de guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Querem ter "pornô" sem o estigma social; "pornô" que a sua esposa deixe você assistir; "pornô" que seja possível racionalizar.

Nós somos realmente muito bons em enganar-nos a nós mesmos e geralmente aproveitamos a primeira oportunidade que temos para fazê-lo. O que é triste e irônico a respeito de Game of Thrones é que, ainda que as atrizes recebam muito mais salário, prêmios e fama que as atrizes pornográficas, elas continuam sendo seres humanos e o efeito emocional que tudo isso tem nelas é o mesmo. A maioria delas jamais admitirá o fato, mas a verdade permanece.

Triste e irônico é que, vez ou outra, algumas dessas atrizes de renome admitam sentir nojo por estarem presentes nessas cenas de sexo, mas o insaciável vício da nossa cultura por pornografia é sempre demais para que pensemos em mudar a nossa forma de retratar o sexo.

Há pouco tempo, a atriz Emilia Clarke virou notícia ao revelar a um jornal britânico que "não suportava" as cenas de sexo das quais ela participou em Game of Thrones. O artigo conta que "Emilia, que interpreta a princesa exilada Daenerys Targaryen, se recusou a aparecer seminua de novo dois anos atrás". Ela "teria dito aos diretores do programa que 'queria ficar conhecida por sua atuação, e não por seus seios'."

Há, evidentemente, muita hipocrisia nessas falas da atriz. Digo isso não como um julgamento pessoal, mas como prova do fato de que a nossa cultura quer "o melhor dos dois mundos" quando o assunto é sexo. Ficar nua nas telas foi o que fez a fama da atriz e o que explica em grande parte a popularidade desse seriado. É muita incoerência.

Se você quer descobrir a verdade e saber como as coisas realmente são vistas pelo público, basta entrar no "mundo mágico" dos comentários da Internet. Uma das respostas ao artigo sobre Emilia Clarke diz o seguinte: "Nós não assistimos a você por sua atuação, querida".

Isso é o que realmente acontece quando essas atrizes de Hollywood pensam estarem fazendo "nu artístico" com seus corpos: na verdade, o que elas estão fazendo é criando um vínculo sexual com milhões de homens, assim como as Escrituras nos dizem que acontece durante o sexo: "Os dois serão uma só carne" ( Gn 2, 24; 1 Cor 6, 16). Nos Evangelhos, Jesus nos diz que pensar em ter sexo com outra mulher que não a sua esposa é o mesmo que cometer adultério no coração (cf. Mt 5, 28). Por isso, nós não deveríamos ficar surpresos com respostas desse tipo.

Assim como acontece com sexo casual, há milhões de homens por aí interessados em Clarke apenas pelo seu corpo. O anúncio feito pela atriz, de que não irá mais expor-se, equivale ao término de uma relação casual. Você pode cobrir esses episódios com o quanto de "arte" quiser, mas eles não passarão de um "corpo despido" para a maior parte dos homens que assistirem.

E se você acha que pode de alguma forma filtrar a pornografia e ter apenas a "arte", você é tão iludido e incoerente quanto. Pornografia sempre faz o mesmo com as pessoas: assim que entra em cena, joga fora toda a sua humanidade e dignidade. Tudo o que resta são pedaços de carne sendo consumidos por outros seres humanos.

Você não pode ao mesmo tempo manter a dignidade de alguém enquanto a usa para o seu próprio prazer. Ou assiste a pornografia ou trata as pessoas dignamente.

Escolha com sabedoria.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Muito antes do “Superman” homossexual...
Sociedade

Muito antes do
“Superman” homossexual...

Muito antes do “Superman” homossexual...

Muito antes de o Super-homem “sair do armário”, nossos problemas começaram quando passamos a praticar uma indiscriminada tolerância para com o pecado de nossos filhos — ou pior: quando abandonamos a própria noção de pecado.

Pedro Penitente27 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

[Este texto não é de autoria nem do Pe. Paulo Ricardo nem da Equipe Christo Nihil Praeponere, como se pode depreender do tom bastante pessoal com que foi escrito.]

Minha avó foi uma dessas pessoas que se converteu na idade adulta. Quando passou a conhecer a fundo a doutrina da Igreja, já havia criado todos os filhos. Por isso, na adolescência deles, se angustiou muito com a vida de pecado que levavam.

Seu filho mais novo, por exemplo, começou a namorar muito jovem e, como os demais de nossa época, tinha uma vida sexual ativa com a própria namorada. Minha avó sabia e não deixava de o advertir: dizia que aquilo estava errado, que aos olhos de Deus eles estavam no pecado etc. Seus conselhos, no entanto, só encontravam ouvidos moucos.

Um dia, porém, na sala da casa dela, meu tio decidiu estender um colchão em frente à TV, para ele e a namorada deitarem. A ideia era só essa mesma, e nada aconteceu além disso. Mas minha avó não podia deixar aquilo passar. (A essa altura, nem é preciso dizer que, para ela, era simplesmente impensável permitir que seu filho e a namorada dormissem juntos dentro de sua casa. Isso não era sequer uma hipótese.)

Voltando à história. Depois que a namorada de meu tio já tinha saído, minha avó e meu avô chamaram o meu tio num canto e lhe disseram o seguinte: “Olha, meu filho, nós já lhe dissemos várias vezes que não está certo o jeito que você e sua namorada estão namorando… Vocês estão fora da lei de Deus e nós sabemos disso. Mas dentro da nossa casa nós exigimos respeito. Nunca mais faça o que você fez hoje.”

Minha avó e meu avô nunca mais precisaram tocar no assunto. À época, meu tio continuou namorando errado — mas na casa dela os limites estavam bem claros. 

* * *

Lembrei-me dessa história hoje, enquanto lia o triste episódio da retaliação que sofreu um jogador brasileiro de vôlei por protestar contra o Superman “bissexual” nas histórias em quadrinhos. A única coisa que ele fez foi publicar um print da notícia em sua rede social, com o seguinte comentário: “A [sic] é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar…”. Como resposta a sua manifestação, o clube onde ele joga decidiu afastá-lo, multá-lo e ainda pedir uma retratação pública de sua parte.

O episódio é lamentável porque ilustra muito bem o clima ditatorial em que nos encontramos. Não é mais permitido às pessoas ter e manifestar uma opinião diferente da que é propagada pela mídia e pelas instituições em geral. Qualquer mínima divergência é imediatamente recriminada, punida, silenciada.

O caso em questão diz respeito diretamente a nós, que seguimos Nosso Senhor Jesus Cristo e a doutrina moral católica. A Bíblia, por exemplo, está repleta de passagens condenando a prática homossexual. Vão censurar também a ela? Até quando os cristãos e suas posições terão lugar no “Admirável Mundo Novo” que está sendo forjado por nossos magistrados, jornalistas e engenheiros sociais?

* * *

Ao mesmo tempo, porém, “o buraco é mais embaixo”, como se costuma dizer. A um primeiro olhar, a história que contei de minha avó não tem nada a ver com o caso do “Super-homo”. 

Mas a verdade é que o problema que estamos examinando tem bem pouco a ver com a homossexualidade e seus praticantes. O grande mal mesmo começa lá atrás, quando os cristãos começaram a praticar uma indiscriminada tolerância para com o pecado de seus filhos. Pior: quando começaram a abandonar a própria noção de pecado. 

Primeiro foram as novelas, que introduziram em nossas casas o divórcio e a ideia de que não é preciso casar para se relacionar sexualmente com outra pessoa. A tudo isso nossos antepassados assistiram impassíveis, permitindo que as imagens nas telas penetrassem a mente de seus filhos para sempre. Eis a educação que a maior parte de nossas gerações passadas recebeu.

Depois vieram os programas indecentes de domingo à tarde, uma pornografia soft, destinada a educar os homens para a “sacanagem” e as mulheres para a completa imodéstia no vestir. Também contra isso, nossos pais nada falaram. 

Agora temos a internet, e o que antes se ministrava em gotas se converteu numa verdadeira enxurrada. Depois de toda a dessensibilização moral que sofreram nossos antepassados, agora um pai de família não consegue nem mesmo “torcer o nariz” para um herói dos quadrinhos que decidiu “sair do armário”.

É claro que, no meio de tudo isso, há vários outros fatores em ação, como nosso sistema educacional falido, repleto de ideias progressistas e irreligiosas; o abandono da moral católica por grande parte do clero; e uma virulenta ocupação de espaços e postos de poder por pessoas que, literalmente, se crêem acima do bem e do mal.

A primeira pedra que rolou lá em cima, porém, e deu origem a toda essa avalanche, foi justamente o abandono da sadia moral católica. Porque nos fechamos muito tempo atrás à Palavra de Deus, que estabelece na própria natureza das coisas o que é certo e o que é errado, agora nossas mãos estão atadas diante dos poderes deste mundo, que tomaram o lugar de Deus e determinam agora, a seu bel-prazer, o que é bom e o que é mau, o que se pode dizer e o que não se pode.

Antes do Superman, portanto, muita água já passou debaixo da ponte. Você mesmo talvez tenha escutado a história de minha avó e achado um exagero a reação dela à “aventura” do meu tio… Mas eram atitudes como a dela que nos impediam de chegar ao estado em que nos encontramos hoje.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

“Se é um símbolo, que se dane”
Doutrina

“Se é um símbolo, que se dane”

“Se é um símbolo, que se dane”

Para os protestantes, a Eucaristia é apenas um “símbolo” de Jesus, uma “representação” da Última Ceia, um “teatro” piedoso. Mas qual seria, então, a “grande coisa” a respeito deste sacramento? O que de mais haveria nele?

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Se há uma coisa em que os protestantes são praticamente unânimes é a certeza de que os católicos somos idólatras. Mas não simplesmente por causa do culto aos santos e à Virgem Maria, como poderíamos pensar num primeiro momento. A principal “idolatria” de que somos culpados, e que eles não toleram, é o culto de adoração ao sacramento da Eucaristia.

Desta acusação porém não temos com o que nos defender, senão com o que disse o próprio Jesus a respeito de seu Corpo e de seu Sangue, que Ele nos daria como alimento: “Minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6, 55). No discurso sobre o pão da vida, Nosso Senhor não fez uma parábola. Quando disse que todos deveriam consumir a sua carne, usou o verbo “comer” — que São Jerônimo verteu para o latim manducare, “mastigar”. Os discípulos mesmo compreenderam o “escândalo” daquelas palavras. Justamente por isso, dali em diante, muitos deixaram de o seguir (cf. Jo 6, 66). 

Na Última Ceia, com os Apóstolos, fiel ao que havia dito, não deixou mais uma vez a mínima margem a dúvidas: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu sangue” — e não: Isto simboliza o meu corpo, ou: Este líquido representa o meu sangue.

Também São Paulo, ao narrar o modo como os cristãos já celebravam os santos mistérios, disse transmitir simplesmente o que ele mesmo recebera (cf. 1Cor 11, 23). Ajuntou ainda que quem comesse e bebesse daquele pão e daquele cálice sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, estaria a comer e beber a própria condenação. Ora, se os elementos da Eucaristia fossem meros “símbolos”, por que uma pena tão grave — o inferno! — a quem deles abusasse?

São Justino, mártir do século II, foi ainda mais enfático ao descrever a Santa Missa. Sobre o momento da comunhão eucarística, ele dizia:

Em seguida, ao que preside aos irmãos é trazido pão e um copo de água e de vinho; tendo-os recebido, ele louva e glorifica ao Pai pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e dá graças abundantes por estes dons dele recebidos. Depois que ele terminou as preces e a ação de graças, o povo todo aclama: Amém, que na língua hebraica é o mesmo que Assim seja. Pois bem, depois que aquele que preside terminou as preces e a ação de graças, e povo todo aclamou, os que entre nós são chamados diáconos distribuem a cada um dos presentes e levam aos ausentes o pão, o vinho e a água sobre os quais se deram graças… E não os tomamos como pão comum nem como bebida comum, senão que, assim como o Verbo de Deus feito carne, Jesus Cristo, nosso salvador, teve carne e sangue para a nossa salvação, assim também nos ensinaram que aquela alimentos — sobre os quais, pela prece que contêm as palavras dele, se deram graças e pela qual nosso sangue e nossas carnes, pela mutação, são nutridos —, são a carne e o sangue do mesmo Jesus encarnado (Apologias I 65-66: PG 6, 427-430; J 128s).

Só com as referências acima fica muito nítida a continuidade na doutrina eucarística da Igreja, e ela se verifica ainda nos primeiros anos da história cristã, mostrando que se trata de uma doutrina apostólica, antiquíssima, original. A acusação protestante de que idolatramos um “pedaço de pão” e um “cálice de vinho” não tem, pois, fundamento algum. Não é que prestemos culto de adoração a elementos inanimados; nós adoramos a Deus presente neles, pois Ele mesmo disse que ali estaria quando seus Apóstolos, repetindo o que Ele fez, dissessem suas palavras.

As coisas estão invertidas, portanto: não somos nós os idólatras; são os protestantes que estão em dívida com Deus, por não obedecer à doutrina eucarística por Ele estabelecida dois mil anos atrás.

Para eles, a Eucaristia é apenas uma “representação”, um “teatro” piedoso. Mas qual seria então a “grande coisa” a respeito deste sacramento? O que de mais haveria nele?

A escritora norte-americana Flannery O’Connor, católica, compreendera bem essa interrogação e fez questão de expô-la, certa vez, em um jantar com protestantes:

Certa vez, cinco ou seis anos atrás, alguns amigos me levaram para jantar com Mary McCarthy e seu esposo, o senhor Broadwater. (Ela escreveu aquele livro, A Charmed Life.) Deixou a Igreja aos 15 anos e é uma grande intelectual… Eu não havia ainda aberto minha boca, não me havendo em tal companhia nada que dizer. As pessoas que me levaram foram Robert Lowell e sua agora esposa Elizabeth Hardwick. Ter a mim ali presente era como ter um cachorro que, tendo sido treinado para dizer umas poucas palavras, acabou vencido pelo desconforto e as esqueceu. Bem, quase de manhã a conversa se voltou para a Eucaristia — que eu, como católica, obviamente deveria defender. A senhora Broadwater disse que, quando era criança e recebeu a Hóstia, pensara nela como sendo o Espírito Santo, por ser a pessoa “mais portátil” da Trindade; agora, ela pensava nela como um símbolo — e um muito bom, ela sugeria. Eu disse então, com uma voz bem trêmula: “Bem, se é um símbolo, que se dane” [Well, if it’s a symbol, to the hell with it]. Essa foi toda a defesa de que fui capaz, mas percebo agora que isso sempre será tudo que terei a dizer a esse respeito, fora de uma história, além de que esse é o centro da existência para mim; todo o resto da vida é prescindível.

As palavras desta mulher podem parecer fortes e até exageradas e desnecessárias, mas elas vão ao núcleo da nossa fé. O pão com que o povo de Israel fôra alimentado no deserto, por exemplo, caía literalmente do céu; não sem razão foi chamado pelo Autor Sagrado “pão dos anjos” (cf. Sl 77, 25). Ora, se a Eucaristia não passasse de um “símbolo” — como queria a interlocutora de Flannery O’Connor e como querem ainda hoje as denominações protestantes —, como não dizer que o antigo alimento mosaico era muito superior a ele? Não tinha dito o próprio Cristo, porém, ser Ele o verdadeiro “pão da vida”, do qual o maná não era senão uma figura? Os protestantes, com sua falta de fé eucarística, não terminam rebaixando, na prática, o Novo Testamento, a Nova Aliança?

São esses os verdadeiros questionamentos que precisam ser feitos. Nós católicos somos, de fato, ousados em nossa devoção eucarística e não tememos ser chamados de idólatras por isso. Mas ao nosso lado está o testemunho inequívoco das Escrituras e da Tradição ao longo dos séculos. Os protestantes, ao contrário, o que têm?


Neste mês de novembro, você tem um encontro marcado com Pe. Paulo Ricardo para conhecer “A Divina Eucaristia e seus Milagres”, nosso mais novo lançamento. Cadastre-se em nossa lista de interessados, clicando aqui, e fique por dentro do que lhe estamos preparando!

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Querem tirar o “sexo” das certidões de nascimento!
Sociedade

Querem tirar o “sexo”
das certidões de nascimento!

Querem tirar o “sexo” das certidões de nascimento!

Segundo associação médica dos Estados Unidos, informar o sexo dos bebês em um documento público perpetuaria “uma visão segundo a qual a designação do sexo é permanente, além de não reconhecer o espectro médico da identidade de gênero”.

Thomas GriffinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Recentemente, nos Estados Unidos, a American Medical Association House of Delegates (uma espécie de corpo legislativo da AMA, “Associação Médica Americana”) publicou uma declaração pedindo que “sexo” seja removido das certidões de nascimento como designação legal. Sandra Fryhofer, presidente do conselho da AMA, afirmou: “Designar o sexo masculino ou feminino nas certidões de nascimento e tornar pública essa informação implica perpetuar uma visão segundo a qual a designação do sexo é permanente, além de não reconhecer o espectro médico da identidade de gênero”. 

Na mesma declaração, a AMA pede que o sexo só “seja visível para uso médico e estatístico”. 

Claramente, o mundo da medicina parece ter-se tornado esquizofrênico. É irracional afirmar que o sexo é baseado na ciência e, ao mesmo tempo, que os sentimentos de uma pessoa podem superar a ciência. Estão esquecendo a realidade do sexo e como ela revela aquilo para o que foi feita a pessoa humana. A permanência é temida por nossa cultura porque leva ao sacrifício. Porém, a negligência do sacrifício conduz a relacionamentos sem amor e a vidas frustradas.

São João Paulo II.

Em setembro de 1979, o Papa São João Paulo II deu início às suas catequeses de Teologia do Corpo durante suas audiências gerais. Desse modo, iniciou um movimento de reconhecimento da santidade da pessoa humana enquanto descrevia o modo como o corpo revela nossa natureza. — Quem sou eu? Por que estou aqui? Como descrever a conexão entre meu corpo e minha alma? Como posso ser realmente feliz nesta vida?

As palavras dele tratam do sexo, mas também realçam o fato de que a ação sacrificial é a chave para a realização humana. O mundo atual é um parque de diversões para homens e mulheres que declaram poder ser quem quiserem e fazer o que bem entenderem. A liberdade sem limites é proposta como chave para destravar a verdadeira felicidade e realização das pessoas. A imposição da ética sexual contemporânea (a saber: quando se trata do corpo humano, não há certo e errado) é combatida da forma mais bela e pungente pela descrição que o Santo Padre faz do amor como dom de si. 

Aqui o Papa se inspirou em sua leitura de São João da Cruz e foi revigorado pelas palavras da Gaudium et Spes a respeito da identidade da pessoa humana, cujas raízes residem no fato de ela ter sido criada à imagem de Deus. João da Cruz explicou que os seres humanos só conseguem encontrar a verdadeira felicidade e realização quando reconhecem e vivenciam seu relacionamento com Deus como “um ciclo de mútua doação” [1].

“Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (Gaudium et Spes, 24). A espiritualidade de João da Cruz e essa afirmação do Vaticano II formaram a expressão e o fundamento da forma como João Paulo II compreende a pessoa humana.

Numa luta por apagar tudo o que faça referência à ideia de permanência, nossa cultura — e agora a AMA — deseja erradicar algo que está literalmente escrito em nossos corpos: o sexo. A tentativa de fazer isso tem a ver com a má interpretação daquilo que nos faz felizes e com a sobreposição de nossos sentimentos à nossa capacidade de nos sacrificar.

O ato conjugal é por natureza destinado a personificar a natureza radicalmente bela do amor sacrificial. Esse sacrifício acontece na relação sexual (na completa doação do corpo e da alma ao cônjuge), mas os esposos também são chamados a vivê-lo em todos os momentos de seu casamento (lavando a louça, cuidando dos filhos, permanecendo num emprego desagradável etc.). O sacrifício é necessário por causa daquele que nos criou e por causa de quem é Deus

A Trindade é o exemplo mais perfeito e excelente de amor, e como a pessoa humana é feita “semelhante a Deus”, só podemos nos realizar quando nos doamos de forma sincera. Por natureza, Deus dá de forma incondicional, por perfeito amor e em perfeita comunhão. Por essa razão, o amor deve ser permanente.

O sacrifício pode ser posto em prática no matrimônio (e deveria sê-lo), mas somos chamados a viver dessa firme atitude em relação a todos os que conhecemos — do chefe irritante no trabalho ao vizinho que sempre parece ser rude, e do sujeito que nos ultrapassa na estrada à pessoa no mercado cuja grosseria fica aparente a todo momento. Sacrifício significa que jamais podemos tratar alguém de um modo menos digno do que essa pessoa merece. Sua natureza humana implica que ela seja tratada com o devido respeito, e sim, com amor. 

Isso é observado de modo intenso no ato que gera novas vidas, mas também deve ser vivido fora do quarto. O amor entre marido e mulher é tão grande que, quando praticam o ato conjugal, participam da criação de uma nova pessoa com uma alma imortal. Homem e mulher fornecem a matéria, enquanto Deus infunde a alma. Nesse ápice da ação humana, vemos a beleza do que acontece quando nos doamos completamente.

O sentido esponsal do corpo (que homem e mulher podem doar livremente e que, ao fazê-lo, encontram seu verdadeiro eu) é personificado pelo fato de esse ato de amor impessoal ser tão grande, que seus efeitos duram para sempre (ou seja, outra pessoa humana é criada). Segundo estatísticas, a maioria dos casais faz uso de contraceptivos, e muitas crianças são concebidas apesar dessa barreira. Apesar de o amor do casal privar-se de algo e não ser plenamente sacrifical, a natureza do ato age não obstante essa carência. 

A natureza profunda da semelhança da pessoa humana em relação a Deus, bem como  o poder incomparável do ato conjugal, exigem uma reverência em relação ao corpo, a qual lhe realça o caráter sagrado. Ao mesmo tempo, a Teologia do Corpo nos leva a realizar sacrifícios por todas as pessoas que conhecemos. Quando fazemos isso (de formas concretas, que até podem parecer mundanas), trilhamos o caminho que conduz à santidade da vida e à alegria definitiva. Portanto, a AMA não entende de modo incorreto apenas a teologia, mas também como nossos corpos revelam quem somos.

Apesar de tantas pessoas se sentirem incompletas e lutarem contra a ansiedade e a depressão, a resposta a todos os nossos desejos reside no Pai que criou o universo, no Filho que deu sua vida por amor e no Espírito Santo que anima a Igreja.

A resposta também está em nossos corpos e na complementaridade entre homem e mulher: fomos feitos para a comunhão com outros e com Deus, e essa união é alcançada por meio de um dom de si sincero de nós mesmos, radical e permanente.

Referências

  1. A expressão, de Michael Waldstein, está contida na introdução que ele escreveu para o livro John Paul II. Man and Woman He Created Them. Boston: Pauline, 2006, p. 29.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Novena ao Beato Carlos da Áustria
Oração

Novena ao
Beato Carlos da Áustria

Novena ao Beato Carlos da Áustria

Diferente das novenas comuns, esta é um conjunto de meditações sobre diferentes aspectos da vida e espiritualidade do Beato Carlos da Áustria. Sua festa litúrgica se celebra em 21 de outubro, data de seu casamento com a Serva de Deus Zita.

Mons. Reinhard KnittelTradução: Irmã Joana da Cruz, O.C.D.12 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 27 minutos
imprimir

Mais do que uma novena comum, o texto a seguir — escrito pelo Mons. Reinhard Knittel [1] e vertido para a língua portuguesa pela Irmã Joana da Cruz, O.C.D. — é um conjunto de nove meditações sobre diferentes aspectos do perfil espiritual do Beato Imperador Carlos da Áustria. 

Tratando de temas como a devoção do monarca ao Sagrado Coração de Jesus e à Santíssima Virgem Maria, suas virtudes como governante e pai de família e sua conformidade à vontade de Deus, tais reflexões não só falam profundamente ao homem moderno, como nos dão a conhecer melhor a figura deste grande confessor, convidando-nos à imitação de suas virtudes.

Às meditações seguem-se algumas orações para cada um dos dias, que podem ser acompanhadas, ainda, por uma ladainha devocional em honra ao Beato Carlos da Áustria [2]. Embora ele tenha falecido em 1.º de abril de 1922, sua festa litúrgica se celebra no dia 21 de outubro — data em que ele e a Serva de Deus Zita se casaram.


I. Veneração para com o Santíssimo Sacramento

O Beato Carlos viveu sob a glória do Santíssimo Sacramento. Os raios de graça que procediam deste resplendor atraíram-no, e agradava-lhe visitar o tabernáculo. Quer cansado devido às solicitações do governo, quer como o modo usual de iniciar seu dia, ele buscava orientação e consolo diante de Jesus Cristo no tabernáculo. Em todos os lugares em que viveu, procurou ter uma capela privada onde o Santíssimo Sacramento pudesse ser conservado. Sua devoção para com a Eucaristia manifestou-se mesmo em pequenos detalhes, como na sua preocupação para que a lamparina do santuário nunca estivesse apagada. Várias vezes durante o dia, ele costumava dizer: “Preciso ir ver se a lamparina do altar ainda está queimando”. Quando dizia isso, todos sabiam que ficaria afastado por algum tempo, rezando de joelhos diante do Santíssimo Sacramento.

Sua oração e meditação eram tão profundas que, não raro, ele não percebia o que estava acontecendo ao seu redor. Por exemplo, com frequência, ficava tão absorto em oração que não se dava conta de que a cesta da coleta estava sendo passada. Com o intuito de não perturbá-lo, a Imperatriz Zita persuadiu-o a segurar sua oferta na mão desde o início da Missa, de modo que ela poderia, assim, cutucar seu braço para que ele lançasse o dinheiro na cesta no momento oportuno.

O Padre Maurus Carnot, O.S.B., testemunhou a respeito do Imperador Carlos: 

Em Disentis [Suíça], não importava se estava nevando ou se havia acúmulos de neve no caminho, era sempre pontual para a Santa Missa na Igreja de Santa Maria, onde recebia a Santa Comunhão durante as Missas em que o Príncipe Herdeiro Otto, com seus cabelos cacheados de criança, servia como coroinha…

Durante a doença que levou o Imperador à morte, ele teve os mais fortes desejos de receber, com frequência, a Santa Comunhão. A Santa Missa era regularmente celebrada na sala contígua ao seu quarto de enfermo. No início, a porta era deixada entreaberta, de maneira que ele pudesse assistir à Missa sem perder a privacidade ou pôr outras pessoas em risco de contágio, mas logo pediu para que a porta fosse deixada bem aberta, dizendo: “Desejo muito ver o altar!” Tinha tanto respeito para com a Eucaristia que, certa vez, ia privar-se de recebê-la por temer que seus constantes acessos de tosse viessem a profanar a hóstia. É de se notar que, durante os ritos sagrados, sua tosse cessou completamente e ele pôde comungar. 

Em outra ocasião, durante a Missa, ele sentiu-se impelido pelo Senhor a receber a Comunhão. Quando disse à Imperatriz Zita que comunicasse ao sacerdote que ele desejava comungar, ela lhe respondeu que isso seria impossível, pois a Condessa Mensdorff iria receber a única hóstia consagrada. Não houve meios de dissuadir o Imperador Carlos e, então, a Imperatriz Zita dirigiu-se ao sacerdote e viu que também ele deveria ter ouvido uma voz interior, pois tinha consagrado mais uma hóstia para o Imperador.

Assim como o Imperador Carlos viveu, assim também morreu. Durante a vida, ele estava unido a Nosso Senhor Eucarístico, e o Santíssimo Sacramento foi o centro de sua vida quando de sua morte. Meia hora antes de falecer, desejou receber a Santa Comunhão. Embora suas feições estivessem pálidas e macilentas devido à longa e extenuante luta contra a doença, seu rosto resplandeceu de alegria quando recebeu a Eucaristia. Este brilho permaneceu em sua fisionomia depois da morte. Nos derradeiros momentos do Imperador, o Padre Zsámboki segurou o Santíssimo Sacramento diante de seus olhos e, na presença da Eucaristia, ele pronunciou suas últimas palavras: “Seja feita a vossa vontade. Jesus, Jesus, vinde!” Com seu último suspiro, disse baixinho: “Jesus!”

Agora, ele já entrou naquela luz eterna simbolizada pela lamparina do santuário, da qual ele tão esmeradamente cuidou em sua capela.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, conforme o maravilhoso exemplo do vosso servo, o Imperador Carlos, irei visitar-vos frequentemente no tabernáculo e receber-vos com alegria e desejo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

II. Um Imperador devoto do Sagrado Coração de Jesus

“Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso”. No dia 2 de outubro de 1918, o Beato Carlos consagrou sua pessoa e sua família ao Sagrado Coração de Jesus.

Mediante seu sofrimento por ser mal compreendido, difamado e perseguido, mediante sua disposição para sacrificar a própria vida em favor de seus povos, mediante seu exílio e, ainda, mediante a penosa doença que o conduziu à morte, o Imperador Carlos permitiu que seu coração fosse forjado em união com o Sagrado Coração de Jesus.

Mesmo no exílio e doente, ele levou muito a peito e com grande seriedade seus deveres de monarca e pai de seus povos. Em virtude de sua enfermidade, a Imperatriz Zita lia-lhe os jornais, mas percebia que os artigos excitavam-no e faziam-no preocupar-se muito. Insistiu com ele para que não lhe pedisse para fazer-lhe as leituras, pois aquilo não era bom para sua saúde. Mas o Imperador Carlos replicou: “Estar informado é meu dever, não meu prazer. Por favor, leia!

Sua devoção para com o Sagrado Coração de Jesus fortaleceu-o durante sua dolorosa e última doença. Em seu leito de enfermo, disse à Condessa Mensdorff: “É tão bom ter fé no Sagrado Coração de Jesus! Se não fosse isso, seria impossível suportar esses sofrimentos”.

O Beato Carlos, por toda a sua vida e também durante sua doença, trouxe, debaixo do seu travesseiro, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Certa vez, quando a Imperatriz Zita quis que ele conseguisse ter um pouco do tão necessário sono, ela tirou o quadro de debaixo do travesseiro e segurou-o diante dos olhos do Imperador, dizendo-lhe que era absolutamente necessário que ele dormisse e que, portanto, deveria pedir isso ao Senhor. O Imperador fixou seus olhos na imagem e, premente, mas devotamente, disse: “Meu amado Salvador, por favor, concedei-me dormir”. Então, ele pôde adormecer e repousar por três bem necessárias horas.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, conforme o maravilhoso exemplo do vosso servo, o Imperador Carlos, também eu desejo consagrar-me ao vosso Sagrado Coração. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

III. Uma vida de sacrifício

“Não há maior prova de amor que dar a vida pelo amigo”. Na época em que o Beato Imperador Carlos partiu exilado para a Ilha da Madeira, sua vida já era uma vida feita de sacrifícios pelos outros.

Ele perdera sua pátria, seu Império e seu trono. Seu próprio povo confiscou-lhe a fortuna privada e suas propriedades. Sem dinheiro, sem amigos e sem condições de ganhar a vida, tinha de sustentar a esposa, sete filhos e mais um outro ainda por nascer. Foi forçado a viver, sob a vigilância estrangeira, numa ilha distante, numa casa desagradavelmente úmida que não tinha condições de ser habitada. Contudo, apesar de todas essas provações, ele estava heroicamente pronto a sacrificar-se pelos outros.

O único sacrifício que ainda lhe restava fazer era o de oferecer sua vida. Por meio de suas orações, convenceu-se de que Deus desejava que ele fizesse esse sacrifício final pela salvação de seus povos.

Ao longo de toda sua existência, e durante suas tribulações, o Imperador comungava todos os dias, sempre que possível. Mesmo no final de sua vida, levou avante este costume e, em união com a hóstia sobre a patena, que se torna o Santo Sacrifício do Divino Cordeiro de Deus, ia oferecer-se completamente à vontade do Pai pela salvação de seus povos.

A igreja favorita do Imperador na Ilha da Madeira era a de Nossa Senhora do Monte, a qual podia ser avistada a milhas de distância. Certa vez, ele estava conversando com sua esposa enquanto tinham a igreja diante deles. Declarou, então, que Deus lhe pedia que desse sua vida pelo bem de seus povos. A Imperatriz, aturdida, ficou sem palavras, mas com um olhar resoluto, o Imperador fitou a igreja e disse: “Eu o farei!”

Logo depois disso, Deus aceitou o voto do Imperador. Repentinamente, ele caiu doente e sofreu uma morte precoce. As proféticas palavras pronunciadas pelo Papa São Pio X, no encontro com Carlos quando este era ainda um jovem Arquiduque, tiveram seu cumprimento: 

Abençôo o Arquiduque Carlos, que será o futuro Imperador da Áustria e que ajudará a conduzir suas terras e seus povos a uma grande glória, trazendo-lhes muitas bênçãos. Mas isso não será conhecido a não ser depois de sua morte.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, agradeço-vos pelo sacrifício que o Imperador Carlos fez de sua vida. Ajudai-me a seguir seu abnegado exemplo e não vos recusar nenhum dos sacrifícios que vierdes a me pedir. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

IV. Partilhar da Paixão de Cristo — Grandeza no sofrimento

Embora o Imperador Carlos tenha sido forçado a viver no exílio e tenha tido de se mudar com sua família para uma casa pequena e apertada no alto de uma montanha em Funchal, ele manteve uma atitude positiva e uma alegre disposição. Àqueles que lhe perguntavam, haveria de responder: “Estamos, imerecidamente, muito bem”. Seguindo o exemplo de Cristo, ele, de boa vontade, tomou sua própria cruz pela salvação de seus povos. Ofereceu seus sofrimentos a Cristo crucificado: seu exílio; sua preocupação pelo bem-estar de sua pátria e de seus povos; sua preocupação com sua família, que estava habitando numa casa úmida, sem aquecimento e má mobiliada, e à qual faltavam, além disso, comida e recursos médicos.

O Beato Carlos e sua esposa, Zita, em uma fotografia de 1921.

Como Cristo suportou os escárnios dos soldados trazendo a coroa de espinhos, o manto de púrpura e a cana, assim também o Beato Carlos sofreu a zombaria de seus inimigos. Ele, trazendo os emblemas, participou misticamente da Paixão de Cristo através do sofrimento causado pela condenação proveniente de seus próprios Ministros e pelo seu exílio. Até mesmo a traição por parte daqueles que lhe eram mais próximos não lhe foi poupada.

E, no entanto, em meio a tudo isso, o Imperador Carlos podia ainda dizer: “Agradeço ao nosso amável Deus tudo o que Ele me envia”.

Como Jesus suou sangue no Horto das Oliveiras, também o Imperador Carlos sofreu terrivelmente de suores no decorrer de sua última doença. Numa crise particularmente forte, disse à Arquiduquesa Maria Teresa: “Vovó, eu lhe peço: ajude-me a não suar tanto!” Ao que ela retrucou: “Os médicos dizem que é bom para você”. O Imperador Carlos respondeu: “Mas, temo que não vou conseguir suportar isso por muito mais tempo”. Então, a Arquiduquesa apontou para o crucifixo que ele segurava em suas mãos e afirmou: “...por nós, Ele suou sangue”. Seus olhos seguiram aquele gesto. Ele fixou demoradamente o crucifixo e, em seguida, aquiesceu balançando a cabeça várias vezes. A partir daquele momento, o Beato Carlos nunca mais voltou a falar a respeito dessa sua aflição, embora continuasse a padecer com esses suores até sua morte.

Sua doença agravou-se e seus sofrimentos incluíram respiração ofegante, infecções nos braços em virtude das muitas injeções que lhe foram aplicadas, queimaduras provenientes dos emplastos de mostarda, além de outras quatro grandes queimaduras no pescoço e nos ombros onde lhe foram aplicados vesicatórios. Sua cabeça precisou ficar apoiada, pois estava muito fraco para mantê-la erguida por si só. E, apesar desses sofrimentos pessoais, ele ainda mantinha-se atento e preocupado com os outros — em especial com seus filhos — e com a possibilidade de que sua doença pudesse ser contagiosa.

Os médicos que o atendiam afirmaram que nunca tinham visto tamanha força de vontade como observaram no Imperador. Ele exerceu um notável autodomínio durante toda a sua doença, e suas capacidades mentais não se alteraram apesar das febres e da intensa dor. Notaram que, por uma única vez, o Imperador deslizou e cumprimentou-os em alemão, ao invés de usar a língua que lhes era comum: o francês.

O Beato Carlos rezou constantemente até o derradeiro instante. Os médicos, que acabaram se sentindo muito orgulhosos de seu paciente Imperial, choraram como crianças ao constatar que não poderiam evitar a sua morte ou aliviar-lhe a dor e o sofrimento. Antes de morrer, ele afirmou: “Declaro que o Manifesto de Novembro é nulo e inválido porque foi forçado. Ninguém pode negar ou anular o fato de que eu sou o Rei Coroado da Hungria”.

Às 10h da manhã, o Imperador disse: “Preciso sofrer tanto assim para que meus povos possam se unir novamente”. Então, logo depois do meio-dia, às 12h23min, os sofrimentos do Imperador cessaram para sempre.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, o Imperador Carlos percorreu humildemente o caminho da cruz convosco. Ajudai-me a seguir seu exemplo e a carregar, por vosso amor, as cruzes do meu dia a dia. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

V. “Amai os vossos inimigos”

O Imperador viveu heroicamente o mandamento do amor aos inimigos. Durante toda a sua vida, ele, continuamente e de maneira exemplar, perdoou aos outros. De fato, o Imperador Carlos sofreu muito por causa de mentiras, difamações e muitas injustiças ao longo de toda a sua existência. E ainda, o último exemplo de seu perdão aos outros foram as palavras pronunciadas no seu leito de morte: “Perdôo a todos os meus inimigos, a todos os que me difamaram e a todos que trabalharam contra mim”.

Aos 5 de abril de 1925, Rodolfo Brougier, antigo ajudante de campo, escreveu suas memórias a respeito do Imperador Carlos antes de sua ascensão ao trono, em 1916: 

[Ele tinha] uma autêntica fé em Deus, era de coração bom e generoso, encantadoramente agradável, incansavelmente fiel ao dever e possuía uma excepcional aptidão para a liderança militar. Sua disposição naturalmente humilde e sincera foi fortalecida por sua adequada educação. Ele não tinha ares, nem a necessidade de estar representando para o povo. Com a mais desafetada satisfação, aceitou seu pesado fardo, embora esse peso já o estivesse sobrecarregando. A coragem do Arquiduque e a falta de medo com relação à própria segurança pessoal já eram bem conhecidas e admitidas; o desdém pelo perigo que sua pessoa poderia correr permaneceu uma de suas características como Imperador, mesmo durante os tempos difíceis.

Por outro lado, o Beato Carlos sentia-se completamente responsável pelo bem-estar de seus súditos: 

Seu comportamento de pura caridade, ao lado de sua profunda fé, constituiu a principal força motriz de sua persistente luta pela paz. Em 1916, na qualidade de Herdeiro Presuntivo, ele já considerava sua meta fundamental a obtenção de um rápido e digno fim da guerra. Desde o primeiro dia de sua ascensão ao trono, ele empenhou todos os seus esforços em favor desta meta: proteger os povos do Império de ulteriores sacrifícios e governar como um Imperador da paz sobre uma Áustria rejuvenescida.

É difícil acreditar que um homem com tais virtudes e nobre caráter pôde ser objeto de tão amargas oposições e calúnias, de modo que a honra de seu bom nome pudesse ser destruída. O Imperador não só sofreu o confisco de suas propriedades privadas, mas também seu bom nome foi destruído por mentiras e falsidades.

A Sagrada Escritura ensina que o grau de santidade pode ser medido pela capacidade de amar o próprio inimigo. À luz deste critério, podemos assegurar que o Beato Carlos atingiu um alto grau de virtude.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, vós nos ensinais no Pai-nosso a perdoarmos as ofensas dos outros de modo que também as nossas ofensas sejam perdoadas. Ajudai-me a imitar o exemplo do Imperador Carlos para que eu venha a perdoar todas as injustiças cometidas contra mim. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

VI. Pai dedicado

Um dos maiores sofrimentos do Imperador Carlos foi a separação de seus filhos, quando ele e a Imperatriz Zita foram exilados. As crianças permaneceram na Suíça até que a Imperatriz Zita, com muitas restrições, pôde viajar e trazê-las consigo para a Ilha da Madeira.

O texto a seguir é um relato do reencontro da família: 

No dia 2 de fevereiro, [o Imperador Carlos] encontrou a Imperatriz Zita e seus filhos — exceto o Arquiduque Roberto [porque estava se recuperando de uma cirurgia de apêndice] — para acompanhá-los, bem como à Arquiduquesa Maria Teresa, até Funchal. O Imperador Carlos estava de pé no píer. A alegria das crianças era indescritível, ao cumprimentá-lo, com exuberantes abraços, quando ele subiu a bordo do navio. Lágrimas rolaram sobre a face do Imperador, enquanto carregava em seus braços o pequeno Arquiduque Rodolfo pela escada do costado. Os criados que vieram com as crianças ficaram chocados ao ver quão cansado e envelhecido tinha se tornado o seu soberano. Mas era impossível ver algum sinal de amargura em seu rosto ou ouvi-lo dizer qualquer palavra ríspida.

Durante a doença que o conduziu à morte, o Imperador sentia grande prazer quando podia escutar, de seu leito de enfermo, as vozes de seus filhos através da janela, e se, quando os chamava em alta voz, eles conseguiam ouvi-lo.

No transcorrer de sua fatal doença, mostrou-se atencioso e preocupado pelo bem-estar dos outros e de seus filhos, devido ao perigo de contágio e ao trauma por vê-lo assim tão enfermo. De todos eles, apenas o Arquiduque Otto, na qualidade de seu Herdeiro, foi chamado ao seu leito de morte, pois ele desejava dar ao jovem Arquiduque o exemplo de como um monarca e um católico se depara com a morte. Como Otto chorasse soluçando ao ver seu pai lutando com a morte, ele foi confortado por sua mãe. O Imperador quis poupar às demais crianças o contágio e os traumas.

Uma das últimas orações que o Imperador pronunciou pouco antes de morrer foi por todos os seus filhos, os quais mencionou por nome, colocando-os sob a especial proteção do Senhor. A Arquiduquesa Maria Teresa ouviu, por acaso, o Imperador rezando por eles e dá o seguinte relato: 

“Meu amado Salvador, protegei os nossos filhos: Otto, Mädi, Roberto, Felix, Carlos Luís... Quem, mesmo, vem depois?’ A Imperatriz o ajudou: ‘Rodolfo’. ‘Rodolfo, Lotti e, especialmente, o mais novo pequenino [a Imperatriz estava esperando a Arquiduquesa Elisabete, que nasceu depois da morte do Imperador]. Preservai-os no corpo e na alma, e deixai-os antes morrer que cometer um pecado mortal. Amém. Seja feita a vossa vontade. Amém”.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço por o Beato Carlos ter amado sua família e a ter confiado à vossa vontade e ao vosso plano divino, pelo qual ele tanto prezava. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

VII. O Soberano

Testemunhas louvam o profundo senso de dever do Beato Carlos. Ele concebia o cargo de Imperador que lhe fora confiado como uma missão sagrada e via-se a si mesmo como um pai para seus povos. Durante uma conversa com o Conde Polzer-Hoditz, aos 28 de abril de 1917, o Imperador disse: “Tudo se resume simplesmente em ajudar tanto quanto se pode ajudar. Como Imperador, devo dar o bom exemplo. Se todos apenas praticassem seus deveres de cristão, não haveria tanto ódio e miséria no mundo”. 

Seu amor pelo próximo foi exemplar. Para aliviar o sofrimento de seu povo esgotado pela guerra, o Imperador Carlos ordenou que os cavalos e carroças do palácio fossem colocados a serviço da entrega de carvão à população vienense; doou grande parte de sua fortuna particular; e até mesmo deu roupas de seu próprio uso para os necessitados.

Em 1914, no início da guerra, o futuro Imperador declarou para uma multidão que se reunira, à frente do Palácio de Hetzendorff, apoiando a guerra: 

Todos aqueles que me conhecem, sabem como eu amo a Áustria e a Hungria. Não posso recuar no momento de sua necessidade. Todos aqueles que me conhecem sabem também o quanto eu sou um soldado e como fui treinado para situações de guerra. Contudo, eu simplesmente não posso entender como as pessoas podem acolher esta guerra — ainda que justa — com tanto júbilo. A guerra, afinal, é algo pavoroso. 

Em 1938, o Dr. Friedrich Funder escreveu a respeito do Imperador Carlos: 

Ele foi o único Chefe de Estado que buscou incessantemente os meios para terminar a guerra... e fez isso usando todo o seu ser, com amigos e inimigos. Se as circunstâncias tivessem corrido segundo o desejo e os esforços do Imperador Carlos, milhões de vidas perdidas nas batalhas — e não só austríacas — teriam sido poupadas, a terrível degradação do povo alemão teria sido evitada e a Europa teria gozado de uma paz duradoura até os nossos dias.

O Imperador Carlos tinha a mais íntima convicção de que Deus lhe havia confiado a coroa e, por causa desta certeza, a coroação real na Hungria teve um grande significado para ele. Passados cinquenta anos deste acontecimento, a Imperatriz Zita referiu-se assim à coroação: 

Aquilo que mais nos impressionou em toda a cerimônia foi o tocante lado litúrgico que a perpassava — em especial, os juramentos que o Rei pronunciou, diante do altar, antes de sua unção, de preservar a justiça para todos e de lutar pela paz. Este sagrado compromisso imputado na catedral era exatamente o programa político que ele gostaria de levar avante a partir do trono. Ambos sentimos isso de modo tão forte que quase nenhuma palavra foi necessária entre nós [3].

O rito da coroação é descrito pela Dr.ª Maria Holbacher: 

Mediante o rito sagrado, o qual é liturgicamente conferido “pela graça de Deus” como um sacramental, ele se torna soberano e fica impregnado da graça divina para assumir o específico posto de sua alta vocação, de modo que venha a governar os povos a ele confiados na paz e prosperidade, para a salvação deles. A cerimônia da coroação se dá antes do ofertório da Santa Missa e é semelhante à Profissão Solene, à Ordenação Sacerdotal, à Benção dos Abades e à Consagração dos Bispos, nas quais o candidato prostra-se no chão diante do altar, enquanto se reza a Ladainha de todos os santos. O Primaz da Hungria, Arcebispo de Esztergom, preside o rito da coroação e celebra a Missa. Depois de uma longa oração, durante a qual o candidato à coroação permanece em pé, ele é ungido com o sagrado crisma e investido com os emblemas e insígnias reais, enquanto cada uma de suas sagradas obrigações é citada individualmente. O procedimento é esse para que o candidato compreenda claramente que as normas e expectativas das obrigações éticas e das ações morais são tão altas que a capacidade humana sozinha é incapaz de realizá-las sem o auxílio divino.

A fidelidade do Beato Carlos como monarca ungido é distintiva. Ele preferiu ser mal julgado, difamado, exilado e reduzido à completa pobreza a ser desleal ao juramento de sua coroação. Estava pessoalmente convicto de que nunca haveria de abdicar, pois tinha recebido, de modo irrevogável, a coroa das mãos de Deus, através dos representantes da Igreja.

O Padre Maurus Carnot, O.S.B., que assistia pastoralmente o Imperador Carlos quando de seu exílio na Suíça, ouviu-o declarar com determinação: “Eu jamais renunciarei o juramento de minha coroação. A Coroa de Santo Estêvão é sagrada para mim. Podem tirar-me a vida, mas nunca, nunca, nunca poderão tirar meu juramento e a santa Coroa”.

A Imperatriz Zita seguiu o exemplo de seu marido por toda a sua vida e permaneceu firme em sua recusa a abdicar.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço pela fidelidade do Imperador Carlos à sua vocação. Ajudai-me para que também eu possa cumprir fielmente minhas responsabilidades. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

VIII. Fiel cumprimento da vontade de Deus

O Imperador Carlos procurou a vontade de Deus em tudo quanto fez. Para ele, esta era a regra mais importante de sua vida e de suas ações. Testemunhas falam também de seu amor pela castidade e de sua absoluta recusa em tolerar uma linguagem indecente na sua presença.

Em seu leito de morte, disse à Imperatriz Zita: 

“Zangar-se? Lamentar-se? Quando se conhece a vontade de Deus, tudo está bem”. E, pouco depois: “Agora, quero dizer-lhe com absoluta franqueza como se dá comigo: Todo o meu empenho sempre foi reconhecer claramente, em tudo, a vontade de Deus e segui-la da maneira mais perfeita”. E depois de algum tempo, repetiu: “Apenas não nos lamentemos”.

A frase “Seja feita a vossa vontade!” foi um princípio orientador na vida do Beato Carlos e ele a repetiu pouco antes de depor sua alma nas mãos do Criador. Com Cristo, o Imperador Carlos podia dizer: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou”. Tinha recebido a incumbência de dirigir seus povos como regente de Deus, e como tal, este nobre monarca subordinou-se e deu-se a si mesmo em humilde serviço. Estava preparado para o Céu, e esta foi a razão pela qual o Senhor o pôde chamar para junto de si.

Para ele, os outros sempre estavam na frente; ele sempre vinha por último. Sob este aspecto, o Imperador Carlos é um bom exemplo de um homem devoto da Virgem Maria, que deu o seu fiat e disse: “Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Sua alma pura espelhava o fiat da Mãe de Deus.

Mesmo na sua última doença e num delírio febril, ele só pensava em cumprir suas obrigações: 

Ora [estava preocupado] com as crianças vienenses para as quais tentava conseguir leite, ora com um soldado checo internado num hospital militar e que ardia em sede. E estava sempre atormentado com a negligenciada evacuação da Transilvânia antes da invasão romena, assunto que fora causa de violentas batalhas verbais entre ele e o Conde Tisza. 

O Imperador Carlos seguiu o exemplo de seu Senhor e Salvador, que sofreu sozinho no Horto das Oliveiras, e em meio às suas maiores provações, bebeu com Cristo o cálice do sofrimento. Aceitou a vontade de seu Pai em suas grandíssimas aflições — as quais, todas, excederam os padrões da normalidade — e, ainda, apesar de tudo isso, o Beato Carlos podia dizer: “Agradeço ao nosso amável Deus por tudo o que ele me envia”.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço pelo fiat do Imperador Carlos em todas as situações de sua vida. Ajudai-me a reconhecer a vossa vontade em minha vida e a segui-la. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.

IX. A Bem-aventurada Virgem Maria

No dia de seu falecimento, o Imperador perguntou à sua esposa que dia era aquele. “O dia da Mãe do Senhor”, respondeu a Imperatriz. “Então, sábado”, ele confirmou contente. Depois de sua morte, o corpo do Imperador Carlos foi colocado na igreja mariana de Nossa Senhora do Monte, na Ilha da Madeira, onde jaz ainda hoje.

Por toda a vida, o manto protetor de Maria envolveu o Imperador Carlos, como se pode perceber nos acontecimentos mais relevantes de sua existência. 

O dia 19 de novembro [dia de sua chegada na Ilha da Madeira] era um sábado. Muitas das datas mais importantes da vida do Imperador se deram em sábados. Ele foi crismado num sábado; atingiu sua maioridade e casou-se em dias de sábado; foi coroado Rei da Hungria num sábado. Foi também num sábado que o Rei retornou à pátria húngara em sua primeira tentativa de restaurar a monarquia, e foi num sábado, depois que a segunda tentativa de restauração húngara tinha fracassado, que ele se negou, com terríveis conseqüências, a renunciar a todos os direitos do trono. Foi num fatídico sábado que a família mudou-se para a brumosa atmosfera do Monte; e o último dia da vida do Imperador, 1.º de abril de 1922 — quando Deus chamou seu fiel servo de volta à casa —, era um sábado.

Com o Terço nas mãos, o Imperador Carlos combateu espiritualmente as batalhas de sua vida. É exemplar o fato de que ele rezava o Terço, fielmente, todos os dias. Sim, as contas do Terço, que ele recebeu do Papa São Pio X, haveriam de deslizar por entre seus dedos quando ele rezava suas orações quotidianas. Negócios de governo poderiam estar urgentemente exigindo sua atenção; contudo, o Imperador ainda arranjava tempo, de modo que tivesse para si ao menos meia hora para rezar o Terço.

Como fiel filho de Maria, ele honrou sua Mãe do céu imitando-a. Modéstia, humildade e uma natureza aberta, amiga e cativante foram algumas das virtudes que ele cultivou dentro de si. Estima da vontade de Deus, devoção a uma profunda vida de oração e devoções marianas eram normas fundamentais em sua vida. Como um amável monarca e pai, ele permitiu que seu coração fosse transpassado por uma espada de dor, tal como o coração da Bem-aventurada Mãe foi transpassado quando ela estava de pé junto à cruz de seu Filho.

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu vos agradeço pelos maternais cuidados de Maria na vida do Imperador Carlos. Ajudai-me para que eu possa seguir fiel e devotamente o seu exemplo de rezar o Terço todos os dias. Ouvi minhas súplicas e atendei o meu pedido (menciona-se, aqui, a intenção), por intercessão do Beato Imperador Carlos da Áustria.


Ladainha em honra ao Beato Carlos da Áustria

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos

Pai celeste que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho Redentor do mundo que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade que sois um só Deus, tende piedade de nós

Santa Maria, concebida sem pecado, rogai por nós.
Beato Carlos, esposo amoroso, rogai por nós.
Beato Carlos, pai dedicado,
Beato Carlos, modelo de cavaleiro,
Beato Carlos, cavalheiro exemplar,
Beato Carlos, sucessor de Santo Estêvão,
Beato Carlos, adorável Imperador,
Beato Carlos, santo Rei,
Beato Carlos, Soberano Apostólico,
Beato Carlos, Majestade leal em tudo,
Beato Carlos, sempre fiel ao juramento de sua coroação,
Beato Carlos, glória da casa dos Habsburgos,
Beato Carlos, defensor da fé católica,
Beato Carlos, adorador de Cristo no Santíssimo Sacramento,
Beato Carlos, devoto do Sagrado Coração de Jesus,
Beato Carlos, devoto da Bem-aventurada Virgem Maria,
Beato Carlos, que vos unistes à Paixão de Cristo,
Beato Carlos, que sofrestes em silêncio,
Beato Carlos, que sempre vos conduzistes com graça e ponderação,
Beato Carlos, que sacrificastes tudo por vossos súditos,
Beato Carlos, que promovestes a paz entre as nações,
Beato Carlos, injustamente difamado e traído,
Beato Carlos, injustamente forçado ao exílio,
Beato Carlos, apartado de vossos filhos,
Beato Carlos, que perdoastes a todos os vossos inimigos,
Beato Carlos, que enfrentastes a morte com nobreza e como um verdadeiro cristão,
Beato Carlos, que abraçastes a morte com plena confiança em Jesus,
Beato Carlos, cuja intercessão curou os enfermos,

℣. Rogai por nós, Beato Carlos,
℟. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo

Oremos: Rogai por nós, Beato Imperador Carlos, para que não desanimemos ante as dificuldades de nossas vidas. Que através de vossa presença e intercessão sempre edifiquemos os outros pela nossa boa conduta e, mesmo nas situações mais difíceis, sempre demos graças e glória a Deus. Corroborai as nossas orações com a eficácia da vossa intercessão e deponde no Sagrado Coração de Jesus, no qual tínheis tanta confiança, a nós e a nossas intenções. 

Ouvi, Senhor Jesus Cristo, as orações que vos apresentamos através de vosso fiel servo, o Beato Carlos da Áustria, e que, por sua presença e intercessão, não só sejamos perdoados de todos os nossos pecados, mas também, se não forem contrárias à vossa divina vontade, sejam aceitas as nossas intenções. Pedimos ainda a graça para que o Beato Carlos da Áustria possa, muito em breve, ser elevado às honras da canonização, para a glória do vosso santo nome. Amém.

Referências

  1. O texto da novena é de autoria do Mons. Reinhard Knittel, mas foi publicado originalmente em: Hans Karl Zeβner-Spitzenberg. Ein Kaiser stirbt. Edizioni Lins-Verlag, Altenstadt.
  2. Esta oração, composta por Angelo A. Sedacca, é de uso privado.
  3. Excerto de: Gordon Brook-Shepherd. The Last Habsburg. Weybright and Talley: New York, 1968.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.