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O que os filmes e a TV fazem com nossa alma?
Espiritualidade

O que os filmes e a TV
fazem com nossa alma?

O que os filmes e a TV fazem com nossa alma?

O entretenimento popular de nossa época trava uma guerra contra a ordem criada e contra nosso “castelo interior”. A agitação constante das imagens e dos ruídos mundanos distraem-nos da busca da única coisa que realmente importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Em sua Carta às Famílias Gratissimam Sane, de 1994, o Papa João Paulo II escreveu:

Conhecendo bem a ampla e profunda incidência dos meios de comunicação social, a Igreja não se cansa de acautelar os operadores da comunicação para os perigos de manipulação da verdade. De fato, que verdade poderá haver em filmes, espetáculos, programas rádio-televisivos onde prevalecem a pornografia e a violência? Será este um bom serviço à verdade do homem?

Essa é uma questão muito importante. As nossas atividades recreativas não nos deveriam restaurar, nossos lazeres não nos deveriam conduzir para a verdade mais profunda das coisas? Seria um mal se a mídia à qual damos a nossa atenção nos desviasse, de modos óbvios ou sutis, da virtude moral e intelectual, do amor à beleza e da verdade última para a qual fomos criados.

O Pe. Dominic Legge, dominicano, explica o porquê: 

Quando nós assistimos a atos de luxúria ou crueldade, nós tendemos a nos tornar mais luxuriosos e cruéis. O que você vê com os olhos, você acolhe na sua alma. Quanto do material de nossa época dito de “entretenimento” se enquadra nessa categoria? 

Com essa consideração, esse sacerdote está simplesmente seguindo os passos do Doutor Angélico, o qual escreve na Suma (STh II-II 167, 2 ad 2): 

O que torna perniciosa a assistência aos espetáculos é que, nas suas apresentações, eles inclinam o homem ao vício da lascívia ou da crueldade. Por isso, diz Crisóstomo, “esses espetáculos fazem os adúlteros e os impudicos”.

Outra consequência de se assistir a luxúria e crueldade exibidas explicitamente é que quem o faz torna-se indiferente ou até mesmo insensível a essas coisas, ficando entorpecido para o mal moral objetivo, e preguiçoso em reagir com o devido desgosto e arrependimento. Se eu assisto a estrelas de cinema fornicando ou assassinando, terei uma das três seguintes reações: ou sentirei simpatia pelo que elas estão fazendo — o que é algo pecaminoso para mim —, ou serei indiferente — o que também é pecaminoso —, ou sentirei repugnância. Este último sentimento é correto, mas nós não deveríamos sair por aí voluntariamente procurando por coisas repugnantes.

Além disso, já existe uma razão para se ter cautela e autocontrole com o quanto nós assistimos a essas coisas, e ela diz respeito à natureza dos meios de comunicação modernos. Os filmes, em particular, exercem um tipo de “mágica poderosa” porque preenchem nossa alma com imagens em alta definição, excessivamente atraentes (a que Aristóteles e S. Tomás chamavam “fantasmas”). A alma é incapaz de resistir a esse influxo e é modelada por sua influência. 

As telas de TV e cinema tendem a um estímulo excessivo das faculdades de um animal racional: vão muito para o animal e pouco para o racional. Elas apelam primeiramente aos sentidos da carne, induzindo assim a uma primazia prática da matéria sobre a mente. Nossa memória e imaginação tornam-se saturados com aquilo que vemos e ouvimos.

O Pe. A.-G. Sertillanges, em A vida intelectual, nota com precisão que a nós cabe prezar e proteger a pureza e a quietude interiores. É difícil para criaturas decaídas como nós permanecer sem mácula no meio de uma geração corrompida e manter nossas mentes fixas nas coisas do alto, como nos manda fazer a Escritura. Mais difícil ainda é adquirir o silêncio interior e o recolhimento necessários à oração. 

Imagine só, então, o que os grandes místicos diriam a respeito da televisão e dos filmes que nelas são exibidos. Pense em uma Santa Teresa de Jesus, em um São João da Cruz, em uma Santa Teresinha do Menino Jesus, ou em uma Santa Elisabete da Trindade: esses homens e mulheres não considerariam muito daquilo a que assistimos hoje, na melhor das hipóteses, uma colossal perda de tempo e, na pior delas, uma poluição da alma?

“Formando esse plano, terei usado de leviandade? Ou são puramente humanas as resoluções que tomo, de modo que haja em mim o ‘sim’ e depois o ‘não’? Deus é testemunha de que, quando vos dirijo a palavra, não existe um ‘sim’ e depois um ‘não’” (2Cor 1, 17-18).

“Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ação de graças” (Ef 5, 3-4). 

Se nós precisamos de argumentos sofisticados e oblíquos para justificar algo que estamos vendo ou ouvindo (ou, nesta matéria, lendo), nós muito provavelmente somos culpados de tentar dizer “sim” e “não” a Cristo. Como um cristão leva sua vida, como ele gasta o seu tempo, onde ele coloca a sua mente e o seu coração, devem ser coisas completamente consistentes com a fé que ele professa.

A mais forte das exortações nesse sentido encontra-se na Carta aos Filipenses (4, 8): “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos”. Aqui está implícito um alerta: não penseis, muito menos vos demoreis e mergulheis, no contrário dessas coisas, pois isso tornará vossas almas menos cristãs e menos plenamente humanas. Aqui se combate a falsa ideia de que o modo de se tornar “mais plenamente” alguém é ser “exposto” a um punhado de mal, ao menos indiretamente, a fim de que ele seja melhor entendido e combatido — o argumento fraco ao qual os defensores da mídia moderna recorrem com tanta frequência. 

Esse argumento tem uma certa força quando usado para retratos literários do mal, se eles forem de bom gosto, porque a potência de seu conteúdo é filtrada por meio do intelecto do leitor, o qual deve primeiro entender as palavras e os conceitos antes de poder, em alguma medida, recriar a cena em sua imaginação. O meio permite que o impacto visceral do mal seja mediado por um processo espiritual. Com um filme, no entanto, a imagem é captada diretamente pelos olhos, assim como os diálogos e a trilha sonora o são pelos ouvidos; há uma imediação que não filtra nem interpreta o conteúdo no ato de recebê-lo

Tampouco as consequências se limitam à esfera moral; elas se estendem também à esfera intelectual. Uma pessoa assiste a um filme “sem esforço” — e é exatamente esse o problema. Quantas pessoas hoje sabem entreter-se através do uso de suas próprias inteligências e imaginações? Por que somos tão passivos, dependentes de uma indústria gigante de fazer dinheiro que domina a cultura, ao invés de produzirmos, nós mesmos, belas coisas a nível local, ou ao menos assimilarmos ativamente uma obra de arte? 

Os filmes fazem o que é irreal parecer real — com o efeito gradual, talvez, de fazer o que é real parecer irreal. Os filmes e a vida terminam se misturando em uma fantasmagoria bruxuleante sem quaisquer consequências morais ou eternas

Nos cinemas, dezenas, centenas, milhares de pessoas ficam entorpecidas diante das telas bem à nossa frente: a vida é barata, e a violência é um bom entretenimento. Deveria nos surpreender que os homens de nossa época estejam preparados para descartar as vidas dos não-nascidos ou dos mais velhos? 

Conteúdo sexual explícito é uma excitação inegociável, e, em geral, o mal é tratado como um tempero da receita. Deveriam nos surpreender a promiscuidade, a baixeza e a excentricidade do comportamento sexual moderno, quando imagens disso são regularmente impressas nas imaginações de milhões de pessoas? Com nosso entretenimento, nós estamos descendo a um barbarismo pior que aquele dos antigos pagãos, porque eles, pelo menos, não tinham o benefício do cristianismo para os curar e elevar.

O que dizer diante disso? “Nunca assista a filmes ou à TV”? Não. Existem algumas excelentes produções artísticas, de fato, que não cedem ao mal gratuito. Mas a Palavra de Deus nos exorta à vigilância, ao discernimento cuidadoso, e uma santa intransigência com nossa própria tendência a sermos mesquinhos, arranjarmos desculpas e relaxarmos nossa conduta. Devemos adotar para todos os meios de comunicação a sábia atitude de São Basílio Magno para com os autores pagãos. Ele diz: 

Quando eles contam as palavras e os atos dos bons homens, vós deveis ao mesmo tempo amá-los e imitá-los, emulando fervorosamente tais condutas. Mas quando eles exibem condutas vis, deveis apartar-vos deles e tampar vossos ouvidos, como Ulisses fugiu do canto das sereias, pois a familiaridade com os maus escritos pavimenta o caminho para as más ações. A alma deve ser preservada, portanto, com grande cuidado, a fim de que pelo amor às letras não termine recebendo uma contaminação inconsciente, como o homem que toma veneno misturado com mel.

Se isso é verdade a respeito das letras — isto é, da literatura —, não é mil vezes mais verdade com relação aos filmes, à TV e a muitas outras modalidades do entretenimento popular de hoje em dia? 

Como cristãos, nós precisamos nos esforçar para juntar nossas energias e faculdades dispersas, focando-as na Santíssima Trindade que habita em nossa alma e que se mostra externamente na beleza da Criação. A modernidade em geral, e o entretenimento popular de modo particular, trava uma guerra contra a ordem criada e contra nossa interioridade, nosso “castelo interior”. A agitação constante das imagens e dos ruídos mundanos distraem-nos da busca do unum necessarium, a única coisa que realmente importa.

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Participar da Missa: você está fazendo isso errado!
Liturgia

Participar da Missa:
você está fazendo isso errado!

Participar da Missa: você está fazendo isso errado!

“O altar é um Calvário”: eis a consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recebemos nas redes sociais, alguns meses atrás, o seguinte comentário, como resposta ao nosso último texto sobre o latim na liturgia

O sacerdote orar em latim, de costas para os fiéis… Misericórdia! Minha avó contava que tinha pessoas que oravam o terço durante a missa, outras dormiam, ou seja, não participavam de nada do mistério da missa

Sim, você certamente já ouviu, também, algum comentário do gênero. Infelizmente, é essa a impressão que muitas pessoas, se não a maioria, têm sobre como era rezada a Santa Missa antes da reforma litúrgica após o Concílio Vaticano II. Não é raro que se ouça aqui e ali, inclusive a respeito das mudanças que sofreu o rito romano, alguém comparar a Missa de São Pio V a uma espécie de “Velho Testamento” da liturgia católica. Antes, o povo inteiro estava “à espera”, ansiando pelo acesso “pleno” aos mistérios sagrados, que se ocultavam sob uma língua incompreensível, um sacerdócio afastado do povo, uma Igreja “fria” e “imobilizada”, que não se comunicava efetivamente com os fiéis... Até que veio o Novus Ordo.

Sacerdote celebrando no rito romano antigo.

Por trás desse preconceito com a antiga liturgia e os antigos costumes católicos está uma visão de progresso malsã, que não raro pode colocar em xeque a própria infalibilidade da Igreja. Afinal, se Pentecostes foi “adiado” até 1969, por assim dizer, onde estava o Espírito Santo nesse meio tempo? Como fica a promessa de Nosso Senhor de que estaria com seus discípulos omnibus diebus, “todos os dias”, usque ad consummationem saeculi, “até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20)? 

O Papa emérito Bento XVI se manifestou diversas vezes contra essa visão, primeiro como Cardeal — em O Sal da Terra, por exemplo: “Uma comunidade põe-se a si mesma em xeque quando declara como estritamente proibido o que até então tinha tido como o mais sagrado e o mais elevado, e quando considera, por assim dizer, impróprio o desejo desse elemento” (Rio: Imago, 2005, p. 141) — e também depois, já Pontífice, ao autorizar amplamente a celebração da Missa antiga: “Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura”, disse ele na ocasião. “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”. Noutras palavras, se não conseguimos apreciar a liturgia antiga, o problema não era com a Igreja; é conosco.

Nossos antepassados conviveram por mais de 400 anos com a liturgia do Concílio de Trento e, considerando a quantidade de santos que se formaram na escola dessa divina liturgia, chega a soar como um insulto a acusação de que, ao longo desse tempo, as pessoas “não participavam de nada do mistério da missa”. 

Comece-se pelo fato de que o conceito que temos de participação [1] na liturgia é muitíssimo deficiente, quando não completamente equivocado

É deficiente porque, hoje, tendemos a pensar que só participa bem a pessoa que sabe todas as respostas da Missa de cor, que sabe entoar todos os cantos que o ministério de música puxar, que sabe a hora certa de ficar de pé, sentar e ajoelhar-se etc., quando, na verdade, uma pessoa pode estar fazendo tudo isso sem adentrar minimamente o mistério que está diante dela. A esse respeito, valeria a pena recordar, retomando uma lição de Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 83, 13), que na oração a atenção às palavras é menos importante que a atenção à presença de Deus. Na liturgia, que é a oração pública da Igreja, deve dar-se o mesmo: a ideia é que estejamos concentrados no Senhor; todo o resto é acessório e subordina-se a isso.

Mas tantas vezes nosso conceito de participação na liturgia é também equivocado. Quando a Constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, fez referência “àquela plena, consciente e ativa participação (actuosam participationem) nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão” (n. 14), é difícil imaginar que os Padres conciliares tenham pensado, por exemplo, em palminhas efusivas, performances coreográficas e uma assembleia dialogante, a todo o tempo respondendo ao sacerdote como num programa de auditório... 

Não, esse nunca foi o sentir da Igreja a respeito da divina liturgia. Tomar parte nos santos mistérios não significa posicionar-se como uma Marta agitada ao redor do altar, procurando algo que fazer. A atividade dos fiéis na igreja consiste muito mais na atitude contemplativa de Maria, que se põe “aos pés do Senhor para ouvi-lo falar” (Lc 10, 39).

Aqui é importante destacar o seguinte: cada um participa da Missa na medida de sua capacidade e da forma que lhe for mais conveniente. Não é correto impor a todo o povo fiel uma forma única de tomar parte nos mistérios sagrados, como se todas as outras fossem erradas… O respeito e a reverência, evidentemente, são devidos sempre, mas eles não se manifestam apenas no fiel que, com o Missal ou um folheto em mãos, responde ao padre, acompanha todas as orações e penetra-lhes o significado. Antigamente, era mesmo muito comum que as pessoas recitassem o Rosário durante a Missa ou praticassem outra forma de devoção que as ajudasse a acompanhar os santos mistérios. 

Sim, nossa visão atual de participação litúrgica deplora isso (o ar escandalizado do comentário que transcrevemos acima não nos deixa mentir), mas o costume era encarado com bastante naturalidade há não muito tempo. Fosse a Via-Sacra, algo sobre a Paixão do Senhor ou orações afins, o importante é que os fiéis, na quietude de seus bancos, se unissem ao sacerdote que oferecia o santo Sacrifício, oferecendo-se a si mesmos “em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus” (Rm 12, 1). Com a palavra a esse respeito, o Papa Pio XII:

Não poucos fiéis, com efeito, são incapazes de usar o “Missal Romano” ainda quando escrito em língua vulgar; nem todos são capazes de compreender corretamente, como convém, os ritos e as cerimônias litúrgicas. A inteligência, o caráter e a índole dos homens são tão vários e dissemelhantes que nem todos podem igualmente impressionar-se e serem guiados pelas orações, pelos cantos ou pelas ações sagradas feitas em comum. Além disso, as necessidades e as disposições das almas não são iguais em todos, nem ficam sempre as mesmas em cada um. Quem, pois, poderá dizer, levado por tal preconceito, que tantos cristãos não podem participar do sacrifício eucarístico e aproveitar-lhe os benefícios? Certamente que o podem fazer de outra maneira, e para alguns mais fácil: por exemplo, meditando piamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo exercícios de piedade e outras orações que, embora na forma difiram dos sagrados ritos, a eles todavia correspondem pela sua natureza (Mediator Dei, n. 98).

O problema, portanto — voltemos ao ponto inicial —, não era lá atrás com a Igreja; o problema é hoje, conosco. Essas práticas de piedade a que Pio XII faz referência, muito comuns no rito antigo, só floresceram graças a uma atmosfera de silêncio sagrado que agora, infeliz e tragicamente, já não existe na maior parte das liturgias católicas — seja como consequência de aspectos da própria reforma de 1969, seja como efeito da dissipação geral em que nos encontramos.

O que fazer, então? Pedir ao Papa que baixe um decreto mandando todos “fecharem a matraca” durante a Missa? De acordo com o Cardeal Robert Sarah, em seu O Poder  do Silêncio, essa está muito longe de ser a solução para a nossa crise atual:

O silêncio é uma atitude da alma. Ele não pode ser imposto por decreto sem parecer exagerado, vazio e artificial. Nas liturgias da Igreja, o silêncio não pode ser uma pausa entre dois rituais; ele em si é um ritual por completo, que a tudo envolve. Trata-se do tecido a partir do qual devem ser feitas todas as nossas liturgias. Nada nelas deve interromper a atmosfera silenciosa que constitui sua configuração natural (n. 250). 

O Prefeito do Culto Divino fala aqui a partir de sua consciência de fé, pois o silêncio brota naturalmente dos corações que se sabem na presença de Deus — e aqui está o grande segredo de tudo. Silenciar, para os animais, pode ser muito bem um simples “calar a boca”; para os seres humanos, porém, a ausência de barulho não quer dizer muita coisa. Quantas vezes, por exemplo, mesmo mudos, não nos encontramos interiormente agitados, com um sem-número de sons e imagens na cabeça? Se não houver um treinamento contínuo fora da liturgia, um verdadeiro cultivo da vida interior, nem sacerdotes nem o povo fiel serão capazes de reproduzir um silêncio autêntico e sagrado na Santa Missa.

É preciso também ter ao menos uma noção básica do que acontece na liturgia — coisa que, infelizmente, muita gente não tem. Curiosa e paradoxalmente, um pretexto muito difundido para se acabar com o latim na liturgia era de que o povo não entendia nada da Missa — ou, como colocou nosso comentarista, as pessoas “não participavam de nada do mistério”. Cabe-nos perguntar, porém, se agora, “rasgado o véu do templo”, alguma coisa realmente mudou. Será que passamos a entender mais, a participar melhor da Missa? 

O Pe. João Batista Reus reagia a esse argumento em seu Curso de Liturgia dizendo o seguinte: “A missa é uma ação, não um curso de instrução religiosa. No Calvário não havia explicações. O altar é um Calvário. Todo cristão sabe o que significa: imolar-se” (3.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1952, p. 53).

Pois bem, é disso que se trata. Sabemos o que significa imolar-se? Ou nos animalizamos a ponto de perder até isso?

Quando as Missas públicas voltarem ao fim da quarentena (em alguns lugares já estão retornando), acerquemo-nos do altar de nossas igrejas como quem se aproxima do Calvário, da Cruz de Cristo, da solene imolação que nos deu a salvação. É dessa consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Notas

  1. Há quem se pergunte se o correto é assistir ou participar da Santa Missa. Sobre isso, leia-se esse artigo do site Veritatis Splendor. De qualquer modo, há uma miríade de verbos que podem ser usados nesse contexto: a Missa se reza, se diz (no caso do padre), se escuta ou se ouve (no caso dos fiéis), dela se participa e a ela se assiste, e não há problema no uso de nenhum desses verbos, desde que sejam entendidos em um sentido concorde com o que orienta a Igreja sobre a santa liturgia.

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Uma ofensa ao bom senso
Sociedade

Uma ofensa ao bom senso

Uma ofensa ao bom senso

Ao colocar um homem “trans” para representar a paternidade, a empresa Natura sabia bem o que estava fazendo. Mas não é em campanhas de “cancelamento” na internet, e sim no exemplo dos santos, que vamos encontrar a melhor defesa dos valores cristãos.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Uma marca de cosméticos decide fazer uma campanha publicitária para o “dia dos pais”. Mas a campanha deveria ser original, provocativa, instigadora, de modo que não passasse despercebida. A propaganda, afinal de contas, sempre foi “a alma dos negócios”. Nada melhor, portanto, que conseguir uma grande repercussão na mídia, ainda que às custas de uma polêmica. E o que gera polêmica nos dias de hoje? Sim, questões de “gênero”.

Ao colocar um homem “trans” para representar a paternidade, a empresa Natura sabia muito bem o que estava fazendo. De um lado e do outro, os ânimos logo se acirraram, o pastor Silas Malafaia pediu boicote, a imprensa fez matérias e matérias a respeito, e os brasileiros, como de costume, produziram memes. Muitos memes. Enquanto isso, as ações da Natura na Bolsa subiram lindamente, registrando índices que a marca não obtinha há um bom tempo. Que os empresários do ramo atribuam esse resultado a outros fatores, é mero casuísmo. O fato é que a questão virou o assunto do momento, para bem ou para mal.

Em resposta à celeuma criada pela propaganda, o Pe. Júlio Lancelotti disparou: “O que ofende a tal moral cristã? O pai trans que cuida de seu filho? Ou o abandono, a fome, o desrespeito, o veto ao auxílio emergencial às mães que criam seus filhos sozinhas?” Para o sacerdote, devemos começar a “pensar com a cabeça” e “deixar de ser gado”.

Pensar com a cabeça. Quem conhece minimamente o Catecismo deve saber que a Igreja Católica não professa uma religião fideísta. Sem os exageros do racionalismo, os católicos defendemos bravamente o uso natural da razão para a investigação científica, investigação da verdade que as coisas carregam em si mesmas. Por isso, entre a fé e a ciência não pode haver desacordo, afirma o Concílio Vaticano I, “porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão” (Dei Filius, IV). Isso significa que os juízos do Magistério acerca de questões morais e bioéticas não são simplesmente repetições fundamentalistas de textos bíblicos, mas expressões autênticas do reto uso da inteligência, que se debruça sobre as coisas e extrai delas, por meio da meditação, sua mais profunda essência.

“Fé e Razão unidas”, de Ludwig Seitz.

Com efeito, a posição católica sobre sexualidade humana é, naturalmente, fruto desse estudo racional — sim, também iluminado pela fé, mas ainda racional —, que reflete a genuína natureza do homem e da mulher. Pela razão mesma, podemos encontrar a substância e os acidentes próprios de cada ser, pelo que temos uma identidade, que não pode ser manipulada a partir de um desejo inusitado. E ainda que o pensamento moderno ignore esses princípios, a fim de adaptar a realidade ao gosto pessoal de cada um, ninguém jamais poderá escapar disto: veritas est adæquatio intellectus et rei. A verdade não é criada pela razão humana, mas reconhecida e acolhida por esta. Apenas uma mente muito perturbada pode “fugir” dessa regra.

O problema com a peça publicitária em questão é, consequentemente, intelectual. Antes de ofender “a tal moral cristã”, por assim dizer, ela ofende o bom senso, a inteligência das pessoas, a razão natural e a natureza das coisas. Não existe cirurgia plástica ou propaganda capaz de mudar a natureza de um ser. A própria comunidade LGBT reconhece isso, ainda que sem perceber, quando se opõe a uma mulher “cis” interpretando um homem “trans” [1]. De fato, não é a mesma coisa. A sexualidade humana não é intercambiável como é a de alguns peixes. A perplexidade de grande parte do público, nesse sentido, é simplesmente a reação espontânea de quem percebe estar trocando gato por lebre. E perceber isso não é coisa de “gado”; é coisa de gente.

É um grande contrassenso, aliás, contrapor a ideia “do pai trans que cuida do filho” ao problema do “abandono” e da “fome” de algumas crianças, como se uma coisa justificasse a outra. Ora, muitos filhos de parceiros homossexuais são gerados por inseminação artificial ou fecundação in vitro, a partir de sêmen ou óvulo doados por anônimos. Nesses procedimentos, os médicos precisam desenvolver vários embriões para que ao menos um deles consiga “vingar”. É assim que muitos seres humanos acabam congelados em clínicas de fertilização, esperando pelo seu próximo comprador ou pelo descarte. Ações como essas, obviamente, não resolvem o problema de crianças abandonadas, por mais “bonito” e “engraçadinho” que seja um comercial. Ao contrário, elas só criam novos (e piores) dilemas.

De resto, a campanha da Natura é mais um capítulo, intencional ou não, de um projeto muito maior para a fabricação de um “novo normal”. É sobre isso que as pessoas precisam meditar antes de se lançarem em campanhas de “cancelamento” na internet. Ir à página de alguém, que é apenas mais uma personagem nessa história, para dizer palavras de ordem e xingamentos, não faz sentido, não é inteligente, nem caridoso. Comportamentos assim apenas reforçam a narrativa de que cristãos e conservadores são “homofóbicos”, “transfóbicos” etc. Isso significa, em velho jargão, dar “munição ao inimigo”.

A reação adequada à agenda do “novo normal” precisa inspirar-se no proceder de homens santos, que foram “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Nesse sentido, o testemunho de S. Carlos Lwanga, mártir de Uganda, é bastante eloquente para o nosso contexto, porque ele teve de resistir precisamente à imposição de uma “moral” sexual avessa à pureza e à castidade cristã. Para isso, ele não precisou recorrer a armas mundanas, ao ataque pessoal e ofensivo. S. Carlos Lwanga e seus companheiros apenas cumpriram aquilo que foi pedido por S. Paulo aos Filipenses: fizeram todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serem “irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa”, onde brilharam como luzeiros no mundo (2, 14–15).

Carlos estava entre os serviçais do rei de Uganda, quando conheceu a fé católica e decidiu receber os sacramentos. Por ser muito estimado por todo o séquito real, o superior da Sociedade dos Missionários da África designou-o para educar e proteger os pajens reais (jovens serviçais do rei). Carlos Lwanga tratou logo de os instruir na fé e na moral cristã, sobretudo para resguardá-los do assédio sexual dos membros da corte. Isso provocou a ira do rei: Mwanga viu-se diretamente lesado em seus direitos, uma vez que era comum os monarcas manterem relações com seus serviçais. E o cristianismo havia posto um fim a essa prática. 

A resposta foi fulminante. Mwanga fez um ultimato: ou seus pajens renegavam a fé, ou seriam mortos. Carlos Lwanga, percebendo o risco que sofriam, batizou os que ainda não haviam recebido os sacramentos e preparou-os para o martírio. Todos foram mortos. Lwanga, por sua vez, foi queimado vivo, na presença de seus 22 companheiros, em 3 de junho de 1886.

Notem os detalhes. Carlos Lwanga não levantou insurreições contra o rei, mas dedicou-se a formar a consciência dos jovens numa moral firme e agraciada pelos sacramentos. Ele não ousou “matar pela fé”: ele morreu por ela, o que faz toda a diferença. Não se pode acusá-lo de “fanatismo”, “histeria”, “intolerância” ou qualquer outro rótulo pejorativo, como adoram fazer as mentes liberais que ditam as regras nestes tempos. Um fanático, bem sabemos, age contra a humanidade. Ele decide, por meio de coação, quem deve viver ou morrer. O mártir, ao contrário, dá testemunho da verdade com o próprio sangue. O mártir é um herói da humanidade.

A ideologia de gênero é o rei Mwanga da nossa época. Não sendo capaz de provar a validade de suas teorias, necessita impor-se por meio de artifícios retóricos, como a propaganda, ou por delinquência intelectual com a inserção forçosa do tema nos currículos escolares: “Os homens, sabendo que suas obras são más, odiaram a luz e elaboraram teorias falsas para justificar seus pecados” [2]. Há mais: usam a força em nome da mentira. Assim, vemos pais presos por educarem seus filhos na correta sexualidade humanabispos amordaçados em seus direitos de expressão e cidadaniamanobras políticas odiosas para ludibriar a população acerca do assunto etc.

Qual deve ser, nesse contexto, a reação do discípulo de Cristo? A mesma dos santos: defender com firmeza a verdade, sem perder de vista o amor ao próximo, ainda que isso nos custe a execração pública ou mesmo a morte. Somos defensores da fé e da razão. Não precisamos — nem admitimos! — de homens bombas ou de mentiras para dar testemunho de nossas convicções. Aliás, bem dizia o Cardeal Ratzinger há alguns anos, “nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas” [3].

Peçamos, pois, a intercessão de S. Carlos Lwanga e seus companheiros nesta grande luta. Até o martírio, se preciso for!

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Uma reflexão sobre São João Maria Vianney
Santos & Mártires

Uma reflexão sobre
São João Maria Vianney

Uma reflexão sobre São João Maria Vianney

Embora os santos sejam a resposta para as crises do mundo, eles não ambicionam sê-lo — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles querem é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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No dia 4 de agosto de 1859 morria, em sua vila na França, João Batista Vianney, aos 73 anos de idade. A isso se seguiria uma das mais rápidas beatificações e canonizações da modernidade (antes das reformas desses processos, realizadas pelo Papa João Paulo II): Pio X beatificou o Cura d’Ars em 1905, e Pio XI o canonizou em 3 de maio de 1925. 

Há uma famosa citação de São Josemaria Escrivá, de que as crises no mundo são crises de santos (cf. Caminho, 301). Podemos concordar entusiasticamente com a afirmação sem entender precisamente o que ela significa. Seu sentido parece variar tanto quanto podem variar o indivíduo, a crise e a própria santidade. Pensemos em exemplos pertinentes: São Juan Diego, São Thomas More, São John Henry Newman, Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II. Hoje, porém, vamos refletir sobre São João Maria Vianney.

Olhando para trás, Vianney parece ser um dos muitos grandes sacerdotes e religiosos educados logo após a Revolução Francesa e o Período do Terror. Ele testemunhou a execução de sacerdotes e o fechamento de igrejas sob ordens das autoridades civis. Para ele, no entanto, a necessidade de sacerdotes tornou-se mais palpável, não menos. E ele não estava só: entre os que foram ordenados ao diaconato com ele em Lyon estavam Marcelino Champagnat (canonizado por João Paulo II em 1999) e Jean-Claude Colin — fundador dos Maristas.

Embora os santos sejam a resposta para as crises, eles não ambicionam ser “respostas para crises” — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles desejam é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises. O biógrafo de São João Vianney, Joseph Vianney, interpreta sob esse prisma os famosos esforços dele com o latim e a filosofia.

De uma perspectiva humana, diz Joseph, alguém poderia ter pensado que a crise na França teria sido enfrentada com mais eficácia por uma apologética brilhante na Sorbonne, ou por uma oratória atraente na catedral de Notre-Dame. Mas a Igreja precisava ainda mais de pastores do campo “para demonstrar com a santidade de suas vidas a verdade do Evangelho, no qual as pessoas já não acreditavam mais. A criança de Dardilly fora escolhida dentre todas as outras para ser o modelo daqueles sacerdotes santos, que são indispensáveis para a execução do plano divino”.

Posteriormente, um clérigo levou ao confessionário em Ars um complexo caso de consciência para pedir aconselhamento ao Cura. Ele viu, então, um problema, que havia deixado perplexos os maiores especialistas em teologia moral, ser resolvido de pronto pelo simples pastor, com elegância e persuasão. Questionado por seu irmão no sacerdócio sobre onde havia adquirido um conhecimento teológico tão perspicaz, o santo respondeu apontando para seu genuflexório.

O Cura estava profundamente convencido de suas indignidades, não recebia consolações por causa de sua virtude e orava com fervor para jamais ser alvo de atenção. Por exemplo, através de suas orações, milhares de peregrinos que se dirigiam a Ars eram curados de doenças físicas. Mas, aparentemente, em resposta às orações dele, as pessoas raramente eram curadas no local. Em vez disso, ele lhes dizia para retornarem a casa e fazerem a novena de Santa Filomena — e, no nono dia, elas ficavam curadas, sem alarde e estando bem longe de Ars.

É bastante conhecido o fato de que ele passava de 16 a 17 horas por dia no confessionário. Esse número já é, por si mesmo, impressionante o suficiente. Mas é preciso lembrar, também, de que não havia sistema de aquecimento em sua igreja. Ele costumava gracejar que, no fim do dia, durante o inverno, ele primeiro via os seus pés para só depois os sentir. Dizia ele que costumava apalpar os pés para ter certeza de que ainda estavam lá.

No calor intenso do verão, os peregrinos que esperavam na fila podiam sair da igreja por um momento a fim de tomar um pouco de ar fresco e não desmaiar. Ele, porém, ficava o tempo inteiro atrás de uma cortina, numa caixa, sentindo o hálito dos penitentes e muitas vezes o seu odor, já que a maioria deles era pobre.

E então ele se punha a escutar pecados por 16 ou 17 horas. Era essa a grande causa de seu sofrimento. “Sou tomado pela melancolia nesta terra miserável”, disse ele certa vez a um companheiro no sacerdócio, “minha alma se entristece até à morte. Meus ouvidos não escutam senão coisas dolorosas que me tomam o coração de tristeza”. Seu biógrafo compara a situação a São Pedro sendo obrigado a testemunhar a Paixão 17 horas por dia.

Ele dormia em tábuas por apenas algumas horas na noite e tinha de suportar uma dor crônica. Somente a graça e o amor podem explicar a energia que ele tinha ao longo do dia. Não era possível que uma pessoa sobrevivesse por meios naturais ingerindo uma quantidade tão pequena de comida. Numa etapa posterior de sua vida, por obediência ele passou a comer um pouco de pão e tomar um pouco de leite após a Missa. Seu biógrafo narra este incidente emblemático: “Irmão Jerônimo, que muitas vezes estava presente nessa ligeira refeição, logo percebeu que ele sempre comia primeiro o pão e depois tomava o leite. ‘Mas, senhor cura’, observou um dia quando notou a dificuldade com que o pão era engolido, ‘seria muito melhor se molhasse o pão no leite’. ‘Sim, eu sei’, foi a sua resposta gentil.” 

E era muito mais difícil para um pároco do que para um religioso, ele dizia: “Um sacerdote precisa de reflexão, oração e união íntima com Deus. O cura, no entanto, vive no mundo; ele conversa, envolve-se com política, lê os jornais, fica com a cabeça cheia deles; depois, lê o breviário e celebra a Missa, e infelizmente faz isso como se fosse uma coisa comum!”

De fato… infelizmente! As palavras dele se aplicam a leigos e a sacerdotes seculares. E “estas crises mundiais são crises de santos”.

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Orações para discernir a própria vocação
Oração

Orações para discernir a própria vocação

Orações para discernir a própria vocação

Aos que ainda estão escolhendo o próprio estado de vida, oferecemos abaixo algumas orações a fim de pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e constância para percorrê-lo até o fim.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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“Na empresa da própria santificação”, escreve o Pe. Antonio Royo Marín, “cada um há de pôr a suprema esperança de sua vida, o máximo interesse, empregando todas as forças recebidas de Deus segundo a medida do dom de Cristo. Só a este preço alcançará o cristão sua plena perfeição sobrenatural, que se traduzirá depois em um peso incomensurável de glória para toda a eternidade” (2Cor 4, 17) [1].

Mas esse belo empreendimento, o único que realmente vale a pena, não se leva a cabo de forma genérica, impalpável, no limbo dos “bons desejos”, mas nas circunstâncias concretas em que o Senhor põe a cada um de nós. Por isso, poucas coisas são tão necessárias ao fiel do que escolher o gênero de vida em que há de realizar, com matizes próprios, a única santidade cristã, a mesma que cultivam, substancialmente, os sacerdotes, no estado eclesiástico; os religiosos, na vida consagrada; os esposos e pais, nas ocupações da família; e os leigos celibatários, como fermentos de pureza na massa da sociedade.

Ora, como nenhuma decisão séria que tenha ressonâncias de eternidade deve ser feita com leviandade e sem reflexão, a escolha do próprio estado de vida, convém prepará-la com muita oração, imitando nisso o exemplo de Cristo, que dirigia ao Pai frequentes orações antes dos principais momentos de sua missão na terra. Com a intenção de ajudar os leitores que ainda estão discernindo a própria vocação, oferecemos abaixo algumas orações para pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e a constância para percorrê-lo até o fim.


Orações para discernir e escolher o estado de vida
(Coeleste palmetum, XXXII, pp. 365–366)

1. Oração a Deus Pai para pedir a divina sabedoria e o Espírito Santo (cf. Sb 9). — Deus eterno e todo-poderoso, que todas as coisas criastes pela Vossa palavra e que, por Vossa sabedoria, formastes o homem: fazei-a descer do Vosso santo céu e enviai-a do trono de Vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que Vos agrada. Que homem pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus não lhe enviais o Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra.

Hino Vinde, Espírito Santo. — Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra. — Oremos: Ó Deus, que instruíste os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos amar, no mesmo Espírito, o que é reto e gozar sempre a sua consolação. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

2. Oração a Jesus, para oferecer-se com indiferença a todos os estados. — Eis-me aqui, ó meu Jesus, de pé diante de Vós, indiferente a todos os estados; seguirei sem demora aquele a que Vós me chamardes. Quereis que deixe minha terra, família e casa paterna? Meu coração está firme! Nem a pátria nem os parentes, nem riquezas nem cobiças me hão de reter. Quereis que, tendo a tudo abdicado, Vos sirva na pobreza, na castidade e na obediência religiosa? Meu coração está firme! Quereis que viva em estado eclesiástico? Meu coração está firme! Só Vos peço não me permitais ali chegar por vias ilícitas nem ali viver indignamente. Chamai-me antes deste mundo a Vós por uma morte súbita! Quereis que viva célibe no mundo ou contraia santo matrimônio? Dai-me conhecer Vosso beneplácito: meu coração está firme! Às alegrias e tristezas, às doçuras e asperezas me ofereço. Estou pronto a ir convosco tanto para a prisão como para a morte (cf. Lc 22, 33).

3. Oração à Bem-aventurada Virgem. — A vós, ó Estrela do Mar, entre as vagas instáveis desta vida, elevo meu olhar! Dirigi, ó Mãe da Eterna Luz, o meu coração ao Polo, vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e guiai-me àquele estado de vida em que eu dignamente sirva a este mesmo Filho vosso e chegue, enfim, ao tão ansiado porto da pátria celeste. Amém.

4. Oração ao Anjo da guarda. — Ó meu Anjo, a cuja tutela fui confiado por Deus; ó guia e companheiro de minha peregrinação, assisti-me neste tão grave negócio de minha salvação! Mostrai-me que caminho devo escolher para alcançar o fim para o qual fui criado, isto é, a eterna bem-aventurança, a fim de merecer contemplar e louvar convosco o meu Deus para sempre. Amém.

5. Oração para perseverar no bom propósito. — Ó benigníssimo Deus, mostrastes-me o caminho que hei de trilhar; manifestastes-me Vossos juízos e leis, dando-me saber que desejais ser servido neste estado… Concedei-me, pois, a Vossa graça, para perseverar constante neste meu propósito e alcançar a eterna salvação. Amém.

Referências

  1. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 28.

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