Antes de estudarmos as chamadas virtudes teologais, é necessário considerar primeiro duas coisas: (I) os diversos modos de significá-las, ou seja, os distintos nomes por que são conhecidas, (II) e a realidade significada por tais nomes.

I. Nome. — Quanto aos modos de significação, deve-se saber que as virtudes teologais costumam ser designadas de duas maneiras: 1) em geral (lato sensu), por referência quer ao sujeito, quer à causa, quer ao meio por que são conhecidas, e 2) em particular (stricto sensu), em função do objeto ou da forma própria de cada uma delas. Assim:

1) Em geral ou em sentido amplo, as virtudes teologais podem ser designadas como:

  • Virtudes católicas, em razão de seu sujeito, por serem próprias do fiel cristão;
  • Virtudes infusas, em razão de sua causa, que é Deus pela graça;
  • Virtudes teológicas, em razão do meio por que são conhecidas, que é a divina revelação.

2) Em sentido estrito, as virtudes teologais costumam ser designadas em função de sua forma ou objeto próprio, e por isso se distinguem em:

  • , cujo objeto é a Verdade primeira dita ou comunicada;
  • Esperança, cujo objeto é a suma Bondade enquanto bem para nós [1];
  • Caridade, cujo objeto é a suma Bondade enquanto bem em si mesmo.

II. Realidade. — Quanto às realidades significadas por tais nomes, cumpre saber o seguinte: 1) se existem (an sint); 2) o que são (quid sint); 3) por que e como se dividem; 4) e que tipo de ordem se pode estabelecer entre elas. Assim:

1) É de fé que existem virtudes teologais, ao modo de hábitos operativos infusos, responsáveis por nos unirem a Deus, nosso fim último sobrenatural. A Igreja, com efeito, o ensinou em uma multidão de documentos ao longo dos séculos [2].

2) É doutrina certa que estes hábitos versam sobre o fim, que é Deus em si mesmo, e por isso se distinguem das virtudes morais infusas, que têm por objeto os meios, isto é, as criaturas. No entanto, é possível que essa doutrina seja ao menos próxima da fé, em virtude do teor das palavras de Bento XII na Constituição “Benedictus Deus” [3].

3) Há três virtudes teologais por cujos atos nos unimos a Deus [4], já que são três os principais atos de nossas duas potências espirituais, o intelecto e a vontade:

  • A fé, que é um hábito do intelecto, nos une a Deus pelo ato de entendimento (intelligere), por anuência às verdades reveladas.
  • Na vontade radicam outros dois hábitos: α) a esperança, cujo ato é querer (velle) ou aspirar a Deus como bem sumamente árduo, mas possível; β) e a caridade, cujo ato é propriamente o amor a este bem. A esperança, portanto, se distingue da caridade como o movimento em direção ao fim (motus in finem) se distingue da conformidade do apetite com o fim (coaptatio ad finem) [5].

4) Por último, entre as três virtudes teologais se pode distinguir uma dupla ordem: a) uma ordem de prioridade ou geração, fundada nos atos próprios de cada uma delas por analogia com os atos correspondentes das potências em que radicam; b) e uma ordem de perfeição ou dignidade, fundada no aspecto formal sob o qual atingem o seu objeto, isto é, Deus em si mesmo [6]. Nesse sentido:

  • Na ordem da geração, primeiro vem a fé, depois a esperança e por último a caridade, assim como primeiro é o conhecimento, depois a volição imperfeita (ou tendencial) e por último a volição perfeita (conformativa ou fruitiva). Com efeito, assim como a vontade só pode apetecer e chegar à posse do bem, se lho apresentar antes o intelecto (nihil volitum nisi præcognitum), do mesmo modo a esperança só pode querer e a caridade só pode amar a Deus se ele for conhecido pela fé.
  • Na ordem da perfeição, primeiro vem a caridade, que tem a Deus por objeto enquanto bem divino a ser amado em si mesmo com amor de benevolência; depois vem a fé, que tem a Deus por objeto enquanto verdade divina a ser conhecida sob a luz da graça; e por último vem a esperança, que tem a Deus por objeto enquanto bem divino a ser apetecido com amor de concupiscência.

Ora, dado que um ato é tanto mais meritório quanto mais perfeita é a virtude de que é ato [7], pode-se estabelecer um terceiro critério de ordenação entre as virtudes teologais, também do ângulo da perfeição. Assim, a virtude mais perfeita de todas é a caridade, cujo ato é o amor a Deus em si mesmo, ao passo que a esperança é agora mais perfeita do que a , já que a esperança de certa forma direciona ou move os nossos afetos a Deus, enquanto pela fé é Deus quem passa a estar presente em nós ao modo de objeto conhecido (cf. STh I-II 68, 8 c.).

Daí dizer S. Paulo, em 1Cor 13, 13, que a caridade, das três virtudes teologais, é a maior, pois ela não só se especifica por um objeto formal, de certo ângulo, mais excelente como também aperfeiçoa os atos das outras duas, tornando-os meritórios, por certo influxo informativo, da vida eterna [8].

Notas

  1. Na verdade, embora a esperança se refira, sim, a Deus sob a razão de bem divino nosso (amável, portanto, com amor de concupiscência), o seu objeto formal próprio é a onipotência divina auxiliante, na medida em que conota a misericórdia e a fidelidade de Deus para conosco. Em outras palavras, o que desejamos ou aquilo a que tendemos pelo ato de esperança teologal é Deus enquanto bem ausente, futuro e sumamente árduo, mas alcançável com o auxílio de sua onipotência, auxílio que ele mesmo nos prometeu: “Na esperan­ça da vida eterna prometida em tempos longínquos por Deus veraz e fiel” (Tt 1, 2); “Ante a promessa de Deus”, Abraão “não vacilou, não desconfiou […]. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4, 20s).
  2. Cf., entre outros, Inocêncio III, Carta “Maiores Ecclesiæ causas”, de 1201 (DH 780s); Concílio de Vienne, Constituição “Fidei catholicæ”, de 6 mai. 1312 (DH 904); Concílio de Trento, Sessão 6.ª, de 13 jan. 1547, “Decreto sobre a justificação”, cap. 7 (DH 1530s); Concílio Vaticano I, Constituição “Dei Filius”, de 24 abr. 1870, cap. 3 (DH 3008); Catecismo Romano, II, cap. 2, n. 50: “A graça […] é acompanhada pelo sublime cortejo de todas as virtudes, que Deus infunde na alma juntamente com a graça”.
  3. Diz pois o sumo Pontífice que a “visão da essência divina e a sua fruição fazem cessar nelas”, isto é, nas almas dos bem-aventurados, “os atos de fé e de esperança, enquanto a fé e a esperança são propriamente virtudes teologais” (DH 1001), quer dizer, na medida em que são virtudes que têm a Deus em si mesmo como objeto próprio, mas enquanto Verdade não vista (fé) e Bem ainda não possuído (esperança).
  4. A divisão tripartite das virtudes teologais é ponto pacífico e absolutamente certo, embora, ao que tudo indica, não tenha sido nunca objeto de uma definição expressa e solene do Magistério eclesiástico. Mas o fato de a Igreja nunca ter definido que existem três, e somente três, virtudes teologais não nos autoriza a supor que existam outras além delas. Com efeito, assim como não admitimos em Deus mais do que três pessoas, por não nos ter sido revelada nenhuma outra, nem reconhecemos, pela mesma razão, mais do que sete sacramentos da nova Lei, tampouco devemos admitir mais do que as três virtudes teologais de que nos falam as fontes da revelação: “Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade: as três” (1Cor 13, 13).
  5. Eis o que ensina o Doutor Angélico a esse respeito: “A vontade se ordena a um fim quanto ao movimento de intenção, a ele tendendo como a algo possível de conseguir, o que compete à esperança, e quanto a certa união espiritual, pela qual é, de certo modo, transformada em tal fim, o que se dá pela caridade. Com efeito, o apetite de cada coisa naturalmente se move e tende a um fim que lhe é conatural, e este movimento provém de certa conformidade da coisa com o seu fim” (STh I-II 62, 3 c.). — É evidente, porém, que essa conformidade ou união espiritual que a caridade importa com seu fim, isto é, com Deus, difere segundo o estado, porquanto uma é a conformidade que se pode ter in via (onde amamos e possuímos a Deus, mas apenas de certo modo e  imperfeitamente) e outra é a conformidade que se pode ter in patria (onde os bem-aventurados amam a Deus e o possuem perfeitamente, cada um segundo a própria capacidade ou potência dilectiva). Com efeito, “diz-se que algo é amado na medida em que o apetite do amante está para ele como para o seu bem. Logo, a relação ou conformidade mesma do apetite a algo como ao seu bem chama-se amor. Ora, tudo o que se ordena a algo como ao seu bem de certo modo o tem presente e unido a si segundo certa semelhança, ao menos de proporção, assim como a forma está de certo modo na matéria, enquanto tem aptidão e ordem a ela” (In De divinis nom. c. 4, l. 9).
  6. Não se pode, evidentemente, estabelecer um critério de ordenação entre elas a partir da pura e simples razão de “hábito” (quoad ipsos habitus), uma vez que Deus infunde juntas as três virtudes teologais ao justificar o ímpio: “Hæc omnia simul infusa accipit homo […]: fidem, spem et caritatem” (Concílio de Trento, loc. cit.).
  7. Cf. S. Tomás de Aquino, Quodlib. 6, 6 c.: “[…] um ato pode dizer-se mais meritório duplamente. De um modo, pelo gênero da obra; e assim é mais meritório o ato que é de uma virtude mais excelente (v.gr., é mais meritório, em si, um ato de religião que um de beneficência) […]. De outro modo, pode um ato dizer-se mais meritório por proceder de maior caridade, embora ela seja menor (isto é, menos meritório em si) por seu gênero (v.gr., pode ser mais meritório um ato de beneficência imperado por caridade mais intensa que um realizado apenas por religião)”; STh II-II 88, 6 c.: “É melhor e mais meritória a obra de uma virtude mais nobre. Por isso, o ato de uma virtude inferior é melhor e mais meritório quando é imperado por uma virtude superior, cujo ato se realiza por império, assim como o ato de fé ou de esperança é melhor se for imperado pela caridade”.
  8. Este artigo é uma adaptação resumida e, em alguns pontos, ampliada de Pe. Santiago Ramírez, De fide divina. Salamanca: San Esteban, 1994, pp. 4-11, nn. 6-18.