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Onde estamos errando com nossos filhos?
Educação

Onde estamos errando
com nossos filhos?

Onde estamos errando com nossos filhos?

O juiz Antonin Scalia educou bem os seus nove filhos, mesmo vivendo em um ambiente saturado de imoralidade, como foram os anos da “revolução sexual”. O que ele fez que nós não estamos fazendo?

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Março de 2016Tempo de leitura: 9 minutos
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Antonin Scalia, o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos que morreu na metade do mês de fevereiro, criou os nove filhos durante o período auge da Revolução Sexual, nas décadas de 1960 e 1970. Apesar dos tempos difíceis, o saldo final da educação que concedeu foi bem positivo: do casamento de Antonin e Maureen, saíram um sacerdote — o padre Paul Scalia — e 36 netos.

Esse expressivo número dá exemplo de que, mesmo em um mundo que perdeu tragicamente não só a fé em Cristo, como a própria concepção do que seja família, é possível dar aos nossos filhos uma educação católica de verdade — e ainda por cima colher, nas futuras gerações, os frutos da boa criação que receberam. A pergunta que fica é: como fazer isso? Como formar eficazmente as nossas crianças e impedir que elas sejam levadas pelas marés de novidade que arrastam o homem moderno?

Alguns fatos da vida dos Scalia podem ajudar a iluminar esse caminho e mostrar, ao mesmo tempo, onde exatamente estamos errando na educação dos nossos filhos.

O amor aos filhos

A família Scalia apreciava a dádiva dos filhos, em primeiro lugar. Como eles mesmos admitem, em uma conhecida entrevista à jornalista Lesley Stahl, da CBS News: "Nós não tínhamos planejado ter nove filhos. Somos apenas bons e velhos católicos jogando o que se costumava chamar a 'roleta do Vaticano'". A jocosa expressão era usada por alguns para qualificar os métodos naturais de controle de natalidade, os únicos moralmente aceitos pela Igreja Católica. Como a relação dos dois estava sempre aberta a um novo filho — como é a prescrição do Papa Paulo VI na encíclica Humanae Vitae, de que "qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida" (n. 11) —, existia sempre o bendito "risco" (vamos chamar assim) de que viesse o segundo, o terceiro, o quarto... até que, enfim, eles chegassem aos nove.

Nove filhos, uma excelente família — mas certamente aparecerá alguém para chamar a família Scalia de "irresponsável". O que hoje em dia as pessoas chamam de irresponsabilidade, no entanto, é considerado pelo Autor Sagrado um grande dom: "Os filhos são a bênção do Senhor, o fruto das entranhas, sua dádiva. Como flechas que um guerreiro tem na mão, são os filhos de um casal de esposos jovens. Feliz aquele pai que com tais flechas consegue abastecer a sua aljava!" (Sl 126, 3-5). Como saímos disso para os mesquinhos pais de um filho só? Por que a mentalidade das famílias mudou tanto em tão pouco tempo, se até alguns anos atrás as famílias eram numerosas — e viam isso com bons olhos?

A resposta deve ser encontrada, sobretudo, na ilusão do dinheiro, porque a alegação que as pessoas hoje fazem para evitar filhos está sempre relacionada, direta ou indiretamente, a um problema material: um filho a mais é sempre "uma boca a mais", um item a mais no orçamento familiar. O parâmetro, a régua que os casais têm usado para medir as suas ações, está sempre guiada por essa lógica mesquinha, a qual, na verdade, denuncia a própria miséria moral em que estamos afundados. Afinal, se não temos nada mais a dar aos nossos filhos do que dinheiro, se essa é realmente a melhor coisa — ou, quem sabe, a única — que podemos passar às futuras gerações, enfim, "se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de lástima" (1 Cor 15, 19).

Não é verdade que o conforto e o dinheiro sejam o bem mais importante do matrimônio. A Igreja sempre ensinou, ao contrário, que a riqueza mais preciosa que um casal pode acumular são justamente os seus filhos! Foi o que disse o padre Paul Scalia, durante a Missa de Exéquias celebrada pela alma de seu pai, e é também o que ensinam o Papa Pio XI, na encíclica Casti Connubii — "Entre os benefícios do matrimônio ocupa o primeiro lugar a prole" (n. 12) —, o Concílio Vaticano II, na constituição Gaudium et Spes — "Os filhos são o dom mais excelente do Matrimônio" (n. 50) —, e o que confirmou o Papa Paulo VI, mesmo depois do Concílio. O próprio Jesus sugeriu o mesmo, quando disse: "Quem acolhe em meu nome uma destas crianças, a mim acolhe" (Mc 9, 37).

Ciente disso, a esposa e mãe de família Maureen Scalia não só zelou pela geração de seus filhos, mas também por sua educação — afinal, não basta simplesmente "pôr filhos no mundo", é preciso formá-los. Antonin considerava sua mulher "o produto da melhor decisão que havia feito em toda a sua vida". Foi ela quem criou os nove filhos do casal — admite o marido — "com mui pouca assistência" da parte dele. "E não há ninguém burro no grupo!", ele brincava. Também aqui é possível extrair uma grande lição dessa família: a de que as mulheres fazem muito bem quando decidem ficar em casa para cuidar de seus filhos. Sem dúvida, isso pressupõe também o compromisso e a dedicação dos homens de família em trazer o sustento para dentro de casa, porém nada justifica a "confusa ideia" feminista "de que as mulheres são livres quando servem seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos".

O fato de as mulheres terem "conquistado" o mercado de trabalho, como se diz, também configurou um fator decisivo para a redução do número de filhos por família em todo o mundo. Isso enfraquece dramaticamente os laços familiares e torna a comunidade familiar uma presa fácil para as ideologias externas. Os filhos de Antonin Scalia, pasmem, frequentaram escolas públicas e, "certamente, cresceram envolvidos por uma cultura que não dava suporte aos nossos valores". O que os salvou, então? "Fomos ajudados pelo fato de que éramos uma família muito grande", ele diz. Famílias numerosas são núcleos fortes e robustos; famílias pequenas são facilmente fagocitadas pelo mundo. Quanto mais crianças, portanto, tanto melhor.

A educação religiosa

A família Scalia educava com a fé e com o exemplo, em segundo lugar. Em artigo publicado em The Washington Post, Christopher Scalia, o oitavo filho do casal, dá um comovente testemunho de seu pai:

"Ele nos levava à Missa todo domingo. Trazia consigo o seu já gasto Missal Romano, com as páginas enrugadas por causa da água benta e cheias de cartões de oração de décadas. Seu comportamento durante a Missa não era sempre contido. Se ele discordava de uma posição do padre durante o sermão, ele se inclinava, olhava para minha mãe e franzia a testa ou balançava a cabeça. Assim ele demonstrava o seu desacordo com a homilia. Por outro lado, se gostava de um sermão, ele depois dizia o quanto ao sacerdote. Todos nós víamos quão importante era a Missa para ele, com seus olhos fechados e a cabeça abaixada enquanto se aprofundava na oração durante a consagração e após a Comunhão."

Esse pequeno relato do filho mais novo do casal é bastante revelador. Antonin Scalia não concordava com tudo o que ouvia quando ia à igreja. Ainda que Christopher não tenha dado detalhes do que fazia seu pai menear a cabeça enquanto sentava no banco da paróquia, ele certamente não é o único de nós a discordar do que escuta durante as homilias dominicais. Isso é para nós um testemunho da sua . Antonin estava convencido do poder dos Sacramentos, independentemente dos erros ou possíveis escorregões dos ministros da Igreja. Estava convicto da verdade da fé católica, mesmo quando os seus pregadores falhavam em demonstrar a sua grandeza. Estava na Missa todos os domingos por causa de Cristo presente na Comunhão, e não por causa dos homens.

Os seus filhos, vendo o comportamento do pai, seguiram o seu exemplo e, por terem recebido uma sólida formação religiosa, não desertaram nos momentos de crise. Mais do que isso, eles mesmos parecem ter repetido em suas respectivas famílias aquilo que viram acontecer em casa. Pressupondo que, com exceção de Paul, todos os outros Scalia se casaram, temos 8 matrimônios e 36 filhos, uma média de 4 a 5 filhos por casal. Ninguém pretende elevar a família Scalia aos altares, mas, em uma sociedade que se limita a um casal de filhos por casal e basta, o exemplo deles é realmente admirável.

Novamente, como eles conseguiram isso?

"Você não é todo o mundo!"

A família Scala era intransigente nos costumes, em último lugar. Em um período em que todos começaram a abandonar os trajes mais sociais para usar calça jeans, a família Scalia resistiu bravamente. Eugene, o filho mais velho, conta que "levou um tempo" para que seus pais finalmente os deixassem usar jeans na escola. "Nós dizíamos, 'Está todo mundo usando jeans', e eles diziam, 'Por que você quer ser como todo o mundo?'".

Hoje, o nível de decadência das roupas está bem além do normal. O jeans já não satisfaz, o clima é tropical e as alfaiatarias têm que cortar as pernas das calças. Tome-se como exemplo a notícia de meninas fazendo protestos para usarem "shortinho" no colégio. Qual é o argumento da vez? A resistência a este ente abstrato e desconhecido chamado "machismo" — mais uma variante da agressiva "luta dos sexos" que está por toda parte. O que essas adolescentes falham em perceber — e, juntamente com elas, as suas mães — é que usar uma roupa decente, cobrir com modéstia o corpo feminino, é uma forma de elas mesmas se protegerem! É verdade que o modo masculino de olhar para as mulheres precisa mudar, mas esse não é, nem de longe, o único aspecto do problema da objetificação da mulher: também elas são responsáveis pela imagem que passam para os outros. Certamente, ninguém se resume à roupa que veste, mas também a veste constitui parte importante do que uma pessoa é. No mais, Santo Tomás de Aquino fala sobre isso com propriedade em sua Suma Teológica.

Para não permitir que os seus filhos fossem arrastados pelas modas do momento, Antonin Scalia criou em sua casa uma cultura própria. "A primeira coisa que você precisa ensinar aos seus filhos é o que os meus pais costumavam me dizer o tempo todo: 'Você não é todo mundo. Nós temos as nossas próprias regras e elas não são as mesmas do mundo em muitos aspectos, e quanto mais cedo você aprender isso, tanto melhor.'", ele diz.

Esta é, sem dúvida, uma noção fundamental a passar para os nossos filhos nos dias de hoje: a de que eles não são como os outros, de que são diferentes e, por isso, devem realmente se comportar de maneira diferente. Eles estão no mundo, mas, assim como os cristãos de outras épocas, não pertencem a ele — são cidadãos do Céu. Nós todos, também dentro do matrimônio, somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16). Se o sal perder o seu sabor, não haverá com o que salgarmos.

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Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio
Espiritualidade

Coronavírus: uma ocasião
para redescobrir o poder do silêncio

Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio

Será um grande passo sairmos desse momento difícil tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso.

Stephen KokxTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Por mais estranho que possa parecer, uma das primeiras coisas que fiz depois de abraçar o catolicismo tradicional seis anos atrás, aos 27 anos, foi desligar o rádio do meu carro.

Até então, sempre que eu entrava no meu carro, eu ouvia os últimos lançamentos musicais do pop, do rock clássico ou do rap. A verdadeira questão não era se o rádio ou o CD player seriam ligados. A questão era simplesmente em que volume eu os colocaria.

Quando cheguei a uma compreensão mais profunda da fé católica  — graças, em parte, aos escritos de Santo Afonso —, fiquei menos atraído pelo mundo e por aquilo que ele considera como música.

As canções às quais eu recorria a fim de passar pelos altos e baixos da vida não tinham mais o mesmo significado. Passei a vê-las como nada mais do que formas cativantes de poluição sonora que, ao serem ouvidas, mesmo que por acaso, infelizmente acabavam permanecendo em minha mente pelas próximas 48 horas.

Então, eu abracei o silêncio. Quando dirigia, desligava o rádio e rezava, muitas vezes o Rosário. Nos momentos em que ouvia algo, era música clássica ou canto gregoriano.

Essa atitude exerceu um enorme impacto sobre a minha vida espiritual. Minha mente libertou-se da obsessão de conhecer os mais recentes artistas da indústria da música e suas canções entorpecentes. Passei lentamente de uma perspectiva naturalista da vida para uma mais sobrenatural que, acredito, permitiu que a graça fosse mais facilmente derramada em minha alma.

Suspeito que o surto de coronavírus esteja dando a milhões de pessoas a chance de experimentar algo semelhante ao que passei seis longos anos atrás.

Em todo o mundo, eventos esportivos foram cancelados. As salas de cinema estão fechadas. Bares, restaurantes e cassinos foram fechados. Os “entretenimentos” que prendiam as pessoas ao longo do dia de repente lhes foram tomados. Suas distrações, em outras palavras, foram reduzidas ao mínimo, e as coisas que, por muitos anos, lhes trouxeram uma falsa sensação de conforto não são mais capazes de consolá-las.

Que grande dádiva! Deus concedeu à humanidade a chance de apreciar o mundo como ele é, aproveitando a beleza do silêncio, em oposição ao que o Cardeal Robert Sarah chamou de “a ditadura do barulho”.

É também uma ocasião para milhões de almas perceberem que as muitas coisas às quais elas estão apegadas são, na realidade, armadilhas sem sentido que, muitas vezes, desviam sua atenção das coisas que realmente importam — sua fé, sua família e seus amigos.

Esse tipo de circunstância não ocorre com muita frequência. Na prática, para levar as pessoas a pensar na mudança das próprias vidas como o coronavírus as está forçando a fazer, seriam necessários milhões de missionários cristãos viajando para todos os cantos do mundo.

Infelizmente, eu aposto que, quando o surto terminar, nem todas as pessoas perceberão que muitas coisas que elas “amam” não passam, na verdade, de vícios sem sentido. Muitas simplesmente permanecerão relutantes, ou serão incapazes de libertar-se da vida cheia de distrações que estavam vivendo. “Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras” (Pr 26, 11).

Seria um grande passo se saíssemos disso tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso. O mais provável é que apenas olhem para trás e vejam este momento como um incômodo que toleraram contra a própria vontade, e não como uma ocasião que tiveram de abraçar com alegria a penitência que foram forçados a suportar, e de oferecê-la pela salvação das almas.

Seja como for, minha esperança é de que as pessoas em geral desliguem os rádios dos seus carros (e seus aparelhos de televisão), e se envolvam com atividades de lazer e hobbies que lhes preparem melhor a alma para receber a graça que o Deus todo-poderoso tanto deseja derramar em seus corações. Ler, cozinhar, pintar, caminhar, andar de bicicleta, escrever e cuidar do próprio jardim são, na minha opinião, os melhores lugares por onde começar.

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Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa
Liturgia

Mesmo sem fiéis, os padres
não só podem como devem rezar a Missa

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa

Rejeitar a Missa sem o povo é rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta, mas ela continua sendo real e eficaz, seja qual for o número dos presentes: mil, vinte ou nenhum.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)27 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Num artigo intitulado Private Mass does not fit with a contemporary understanding of Eucharist [lit., “Missa privada não combina com o entendimento contemporâneo sobre a Eucaristia”] (publicado primeiro em alemão no portal katholisch.de), três velhos e cansados “liturgistas” de Bonn, Erfurt e Münster bradam de suas “cátedras” acadêmicas contra a celebração da Missa sem a presença dos fiéis.

Esses acadêmicos não têm nada melhor a fazer senão tentar conservar o que consideram como “vitórias” do período pós-conciliar, quando a Missa, em vez de ser tratada como a renovação do sacrifício do Calvário e fonte de graça, foi reinterpretada como um evento social horizontal não muito diferente de uma assembleia protestante. O valor inerente do oferecimento diário, pelo padre, da Vítima perfeitamente agradável, para proveito espiritual dele e de toda a Igreja, foi minimizado em favor das concelebrações; e, em muitas ocasiões, os sacerdotes adquiriram o hábito de dizer a Missa apenas em caso de celebração pública.

Essa noção reducionista da Missa jamais foi pensada pela Santa Igreja Católica, e tampouco é pensada por ela hoje.

Quando tais erros começaram a aparecer depois do Concílio, o Papa Paulo VI os condenou com firmeza na encíclica Mysterium Fidei, de 1965. Ele afirmou: “Não é lícito, só para aduzirmos um exemplo, exaltar a Missa chamada ‘comunitária’, a ponto de se tirar a sua importância à Missa privada” (n. 11). Mais adiante no documento, ele fala sobre a “natureza pública e social de toda e qualquer Missa”:

Toda a Missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é ação privada, mas ação de Cristo e da Igreja. Esta, no sacrifício que oferece, aprende a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, e aplica, pela salvação do mundo inteiro, a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz. Na realidade qualquer Missa celebrada oferece-se não apenas pela salvação de alguns mas pela salvação do mundo inteiro. Donde se conclui: se muito convém que à celebração da Missa, quase por sua natureza, participe ativamente grande número de fiéis, não se deve condenar, mas sim aprovar, a Missa que um sacerdote, por justa causa e segundo as prescrições e tradições legítimas da Santa Igreja, reza privadamente, embora haja apenas um acólito para ajudar e responder; de tal Missa deriva grande abundância de graças particulares, para bem tanto do sacerdote, como do povo fiel e de toda a Igreja, e mesmo do mundo inteiro; graças estas, que não se obtêm em igual medida só por meio da Sagrada Comunhão (n. 32).

Rejeitar a Missa sem a presença dos fiéis não é nada mais nada menos que rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Não se trata de ter presente este ou aquele grupo de pessoas, mas de levar o mundo e todos os fiéis de volta ao Pai por meio de Jesus Cristo. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta —  é bom para eles —, mas ela continua sendo objetivamente real e eficaz independentemente do número de fiéis presentes (mil, vinte ou nenhum).

Também estamos nos esquecendo, porventura, de que a Missa é oferecida na presença dos santos anjos e em comunhão com os santos da Igreja triunfante, honrados com tanta frequência na liturgia e particularmente na Oração Eucarística? Um sacerdote “sozinho” em sua capela nunca está realmente sozinho; ele está sempre na companhia dos eleitos de Deus, “lutando não contra homens de carne e sangue, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal” (Ef 6, 12). Naturalmente, essa perspectiva cósmica — a mesma presente na Sacrosanctum Concilium e na tradição católica como um todo — depende da fé viva naquilo que o olho humano não é capaz de enxergar. Os progressistas alemães parecem reduzir tudo ao que pode ser visto e assim demonstram não ter fé no mundo invisível, que é muito mais real do que o mundo físico que nos circunda.

Além da referida encíclica de Paulo VI, encontramos incentivo à celebração da Missa de forma privada no atual Código de Direito Canônico (cf. cân. 902, 904 e 906), bem como em outros documentos do Magistério pós-conciliar. Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, por exemplo, João Paulo II ensina o seguinte:

Se a Eucaristia é centro e vértice da vida da Igreja, é-o igualmente do ministério sacerdotal. Por isso, com espírito repleto de gratidão a Jesus Cristo nosso Senhor, volto a afirmar que a Eucaristia é a principal e central razão de ser do sacramento do Sacerdócio, que nasceu efetivamente no momento da instituição da Eucaristia e juntamente com ela... Compreende-se, assim, quão importante seja para a sua vida espiritual, e depois para o bem da Igreja e do mundo, que o sacerdote ponha em prática a recomendação conciliar de celebrar diariamente a Eucaristia, porque, “mesmo que não possa ter a presença dos fiéis, é ato de Cristo e da Igreja” (Concílio Vaticano II, Presbyterorum Ordinis, 13). Deste modo, ele será capaz de vencer toda a dispersão ao longo do dia, encontrando no sacrifício eucarístico, verdadeiro centro da sua vida e do seu ministério, a energia espiritual necessária para enfrentar as diversas tarefas pastorais. Assim, os seus dias tornar-se-ão verdadeiramente eucarísticos (n. 31).

Bento XVI diz o mesmo em sua exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (2007):

A forma eucarística da existência cristã manifesta-se, sem dúvida, de modo particular no estado de vida sacerdotal. A espiritualidade sacerdotal é intrinsecamente eucarística... Uma vida espiritual intensa permitir-lhe-á entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e ajudá-lo-á a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias mesmo difíceis e obscuras. Para isso, juntamente com os padres do Sínodo, recomendo aos sacerdotes a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação (n. 80).

A Instrução Geral do Missal Romano, que rege as celebrações na Forma Ordinária, apresenta rubricas para a celebração da Santa Missa quando apenas um ministro está presente (n. 252-272) e para a celebração da Santa Missa sem a participação de um ministro (n. 254). O mesmo ocorre com as rubricas que regem a celebração da Forma Extraordinária. Disposições tão consistentes, feitas ao longo de séculos (antes e depois do Concílio Vaticano II, até o presente), não fariam sentido se esse cenário não fosse antevisto como uma prática necessária e louvável em determinadas situações. Evidentemente, não se trata de um abuso nem de uma ideia “fora de moda”, se nossos professores me permitem dizê-lo.

A oração de nosso Sumo e eterno Sacerdote é a mais santa e poderosa de todas, e a Missa é a sua oração salvífica e a sua oblação com aroma suave, oferecida pelas mãos de um ministro ordenado para o bem dos vivos e dos mortos e para a sua própria santificação. Se o sacerdote não for santo — se não buscar assiduamente a conformidade com Cristo Sumo Sacerdote —, o seu ministério será cada vez mais vazio, superficial e infrutífero. Isso não traz nenhum benefício para o povo de Deus.

Em épocas de perigo e dificuldade, os fiéis e seus ministros necessitam ainda mais da graça de Deus para que os apoie e os fortaleça. Privar a Igreja de um bem tão imenso quanto uma única Santa Missa, ou encorajar os sacerdotes a se privarem dela em qualquer dia, é sinal não de uma atitude sábia, mas de uma fé fraca, da renúncia ao sobrenatural, de uma caridade morna; é o mesmo que depositar a esperança neste mundo e em suas “soluções”. Independentemente de quais sejam os seus méritos, as soluções do mundo não são definitivas e não nos podem trazer a ajuda divina de que necessitamos.

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Dez conselhos de uma monja para tempos de confinamento
Espiritualidade

Dez conselhos de uma monja
para tempos de confinamento

Dez conselhos de uma monja para tempos de confinamento

Elas sabem de confinamento e reclusão mais do que ninguém. As carmelitas descalças de Cádiz oferecem seus conselhos, baseados em sua experiência de vida, aos que, agora, se veem obrigados a ficar em casa.

Uma monja anônimaTradução: Rui Jorge Martins (adaptado)26 de Março de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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1. Atitude de liberdade. — O mais importante é a atitude com que se vive, a interpretação pessoal que se faz da situação, a consciência de que não se trata de uma derrota. Paradoxalmente, esta pode ser uma oportunidade para descobrir a maior e mais genuína liberdade: a liberdade interior que ninguém pode tirar e que procede da própria pessoa. Num contexto em que as autoridades “obrigam” a estar em casa, a liberdade consiste na adesão voluntária, sabendo que é por um bem superior. É livre aquele que tem a capacidade de assumir a situação porque quer fazer o correto. Você não está “preso” em casa. Pelo contrário, optou por nela permanecer “livremente”.

2. A paz em que alma se expande. — Olhe para dentro de si mesmo. O espaço mais amplo para a pessoa se expandir e ser feliz está no seu coração. Não são necessários espaços exteriores; basta andar com soltura no próprio mundo. Dê asas à criatividade, escute suas próprias inspirações e encontre a beleza de que é capaz. Talvez ainda não tenha descoberto que da paz da alma brota vida, e a vida é criação de mais vida, comunicação de alegria e amor. Quando se acostumar a viver em si mesmo, já não irá querer sair.

 3. Não se descuide, a paz requer trabalho. — Exercite virtudes que requerem concentração e autoconhecimento, essas de que normalmente nos descuidamos quando estamos ocupados em nossos mil e um afazeres “externos”. É de como se encaram as próprias emoções e pensamentos, é da gestão dos sentidos e paixões que depende se vivemos no céu ou no inferno. Observe-se e domine-se porque, se se deixar levar pelo medo, pela tristeza ou pela apatia, dificilmente sairá delas, já que não há muitas evasões. Exerça disciplina sobre o seu coração: quando algum pensamento não lhe fizer bem, rejeite-o. Procure inclinar-se para tudo o que você percebe que vai lhe dando paz e alegria. A harmonia tem de se trabalhada.

4. Ame. — A prova de fogo destes dias será a convivência. Perante a crise causada pela pandemia, as pessoas ficam mais suscetíveis e inclusive irritáveis. É preciso ser muito paciente e usar muito o bom senso. Somos diferentes, cada qual tem uma sensibilidade distinta por múltiplas circunstâncias. Aceite e respeite as opiniões e sentimentos dos outros. É muito normal, quando se está em casa, a tendência a querer controlar tudo. Procure não fazer isso: seria causa de muitos conflitos e frustrações. Não dê importância às diferenças, potencialize as coisas que unem. O único terreno que realmente lhe pertence é sua própria pessoa, os seus pensamentos, palavras e emoções. Não controle, controle-se. É a partir do amor que irá extrair compreensão e empatia, vontade de dar e agradecimento ao receber. Respeite, acolha a fragilidade, desdramatize, viva e deixe viver.

5. Não mate o tempo. — Nada poderá lhe criar uma sensação tão grande de vazio e aborrecimento como passar o tempo inutilmente. É um inimigo gravíssimo que lhe poderá roubar a paz, e até colocá-lo em depressão. Faça um plano para estes dias e tente vivê-lo com disciplina. Descanso e ocupação não se opõem. Aproveite para descansar realizando atividades que relaxem ou que estimulem um ânimo positivo. Dê tempo às coisas simples: que o grão-de-bico se torne tenro, que a carne no forno demore até estar bem cozida… Temos tempo! Mesmo que um almoço lhe custe duas horas, desfrute ao prepará-lo e empenhe-se em que as coisas que você faz, por simples que sejam, tenham valor e uma finalidade. Nada de perder tempo sem sentido. “Matar o tempo” é matar a vida.

6. Alargue as suas fronteiras. — Quantas vezes deixamos de fazer o que devíamos por falta de tempo. Pois bem, agora temos tempo! Esse livro que lhe deram há três anos e que não leu, aquele que ainda não devolveu porque ficou pela metade… Se gosta de música, procure novos artistas, descubra novos gêneros. Gostaria de fazer uma viagem? Pense num país exótico e aprenda sobre a sua cultura e tradições… Temos internet também para isso. Se é pessoa de fé e oração, talvez não saiba o que rezar porque já esgotou tudo o que sabia. Por que não experimenta a Liturgia das Horas? Descarregue-a no celular; procure os escritos de algum santo. Com certeza vai encontrar muitas coisas que lhe encherão a alma de novas luzes. Não se conforme com o que conhece e sabe. Agora que há oportunidade, abra-se a novidades que acrescentem sabedoria e encham de alegria.

7. Para os mais sensíveis. — Nem todos dominam as emoções da mesma maneira. Haverá pessoas para quem, pela sua psicologia, lhes custará muito mais este confinamento do que a outras. As emoções não só provêm do interior; também aquilo que se vê, escuta, toca etc. influencia. Por isso, é preciso ser seletivo com aquilo que se recebe do exterior, para evitar entrar em círculos viciosos que levem ao desespero ou façam perder o controle. Evitem-se, na medida do possível, conversas pessimistas, discussões, caras amarradas, excesso de informação, filmes de terror ou intriga, desordem dentro de casa etc. 

Como não há muitas evasões que permitam mudar de chip, tudo o que entra no cérebro permanecerá nele mais tempo do que o habitual. Por isso, é preciso ter cuidado para não ficar obcecado ou dar espaço a uma emotividade negativa. O excesso de telas de computador também é mau, porque estimula excessivamente o cérebro, provocando mais nervosismo. É necessário dormir bem, mas, além da conta, pode causar a sensação de fracasso ou derrota. Um remédio muito bom para canalizar a energia e relaxar é dançar. Ponha uma boa música e divirta-se dançando. Nada como rir e divertir-se para “reiniciar” o sistema interior.

8. Não estamos isolados. — É importante compreender que não há motivo para nos sentirmos sós, pois não estamos. O amor e o carinho continuam, mesmo que o contato físico se tenha distanciado. Esta é uma oportunidade para viver a comunicação de forma mais profunda, mais íntima. Fale com quem está em casa com tranquilidade, sem pressas. Escute até que terminem, deixe que o diálogo faça crescer a confiança e as confidências construam cumplicidade. Diga aquilo que nunca tem tempo de dizer, conte o que sempre quis contar, fale de tudo e de nada, mas com carinho, que é o que chega à alma e nela faz ninho. Responda àquela mensagem de Natal que não agradeceu, à carta que emocionou e à qual estava preparando uma resposta, àquele e-mail de uma velha amizade… Procure palavras com beleza, tente dar expressão aos seus sentimentos mais nobres. Fale com o coração e crie laços muito mais profundos com os seus. Descobrirá que a distância não é ausência.

9. Dia de reflexão. — Para não se angustiar, também é conveniente procurar momentos de silêncio e solidão. Na organização do tempo para estes dias, inclua espaços de “oxigenação” individual. Quantas pessoas já disseram alguma vez: “Como eu gostaria de estar durante alguns dias num mosteiro!” Pois bem, a ocasião está aqui: em casa

Habitualmente as pessoas se cansam por causa da aceleração de suas horas, como se a rotina diária não desse tempo para assimilar o que se vive. Esperamos mudanças substanciais na sociedade: “Isto não pode continuar assim!” Agora, temos oportunidade para nos metermos num casulo como a lagarta que se converte em borboleta. Reflita, pense, medite… Que posso mudar em mim para ser melhor depois destes dias? A separação das coisas que normalmente temos entre mãos ajudará a ver se realmente estamos dando a devida atenção às que importam e não às que podem ser postas em segundo plano, quais são as insubstituíveis, etc. Um bom discernimento para melhorar fará com que estes dias sejam de muito proveito. Homens e mulheres novos depois desta crise.

10. Reze. — Só a oração (que é o vínculo de amizade com Deus) pode sustentar a vida em todas as situações, especialmente nas adversidades. Oração que, como diria Santa Teresa, “ainda que se diga à sobremesa, é o principal”. Orar é abrir-se a esse Outro que nos pode sustentar quando precisamos de ajuda, mas também quando estamos bem. Orar é sustentar outros que precisam. É a experiência mais universal do amor

Ore, fale com Deus, as horas passarão sem que se dê conta. Fale-lhe de tudo, Ele não se cansa de escutar; desafogue-se com Ele quando necessitar e — por que não? — deixe que também Ele se desafogue com você: é seu Pai, seu Irmão, seu Amigo. Exercite sua fé e sua confiança. Se deixou a relação com Deus logo depois da sua primeira comunhão, volte a experimentá-lo. Agora há tempo e serenidade para conversar com Ele. Talvez não acredite porque nunca o experimentou. E se tentar?...

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A morte de um bispo católico
Espiritualidade

A morte de um bispo católico

A morte de um bispo católico

Em 22 de março de 1956, morria Dom Francisco de Aquino Corrêa, arcebispo de Cuiabá. Em memória desse grande homem, eis uma crônica de seu falecimento e um poema de sua autoria, sobre a arte de bem morrer.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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64 anos atrás, no dia 22 de março de 1956, morria Dom Francisco de Aquino Corrêa, segundo arcebispo de Cuiabá. Como memória deste acontecimento e, ao mesmo tempo, piedosa lição de bem morrer, publicamos a seguir a crônica escrita pelo Padre Bruno Ricco, salesiano, que assistiu o bispo em sua partida para a eternidade [1]

Depois, publicamos também o poema In extremis, de autoria do próprio Dom Aquino [2]. Nesses versos, o bispo responde a uma poesia homônima de Olavo Bilac, mostrando como é superior o amor cristão aos efêmeros amores deste mundo passageiro.


Os últimos instantes do Arcebispo

Foi no dia 22 de março. Sabedor de que muito se agravara seu estado de saúde, corri imediatamente ao Sanatório de Santa Catarina, às 6h30min. Em lá chegando, preparava-se o enfermo para receber o Sagrado Viático, o que se efetuou às 18 horas. A hora misticamente sugestiva da “Ave Maria”. 

Antes, porém, lá pelas 16 horas, Dom Aquino perguntara à delicada Irmã Walburga: “Irmã, estou mal?” E a Irmã, com rude franqueza, necessária nessas horas, lhe respondeu: “Sim, Excelência. Quer receber a Extrema Unção?” Saiu-lhe espontânea a expressão que habitualmente tinha nos lábios “Que é isso?” e logo acrescentou: “Sim, quero…; é a terceira vez…”. 

Dom Aquino Corrêa.

Completamente senhor de todas as suas faculdades, acompanhou com profunda piedade as orações do Ritual. Dirigindo-se à Irmã enfermeira que o assistia, perguntou-lhe se o Viático podia ficar para as 20 horas. Respondeu-lhe a Irmã: “Já que tem que lutar, é melhor lutar com Nosso Senhor”. “— Então, que venha logo”. 

Achavam-se presentes os Reverendíssimos Padres José Fernandes Stringari, Diretor do Liceu Coração de Jesus, Pe. Teófilo Tworz, Vigário cooperador da Paróquia, o irmão leigo Carlos Godói e algumas Irmãs do Sanatório. 

Ajoelhamo-nos todos ao redor do leito do amado Arcebispo. 

Entra no quarto o Padre Capelão do Sanatório com o Sagrado Viático. 

Acompanhamos comovidos todo o desenrolar da cerimônia. 

O Senhor Arcebispo de Cuiabá recolhe-se, junta as mãos, concentra-se naquela piedade e fé eucarísticas que o caracterizavam. 

Notei que, nesse instante, Dom Aquino chorava. Pressentia a morte. Recebeu a Sagrada Comunhão com muito recolhimento, movendo continuamente os lábios em fervorosas preces

Depois de algum tempo, retiraram-se os Padres Diretor do Liceu e Teófilo. Permaneci o tempo todo ao lado do querido doente, fazendo o que é possível fazer nesse transe doloroso. Pedi-lhe uma bênção especial para a minha querida Paróquia. Fui prontamente atendido. Perguntando-lhe, alguma vez, como se sentia, dava como resposta: “Não estou bem”. 

A certa altura, sai-se com este verso de Bocage: “Saiba morrer, o que viver não soube!” Disse-lhe, então: “Mas V. Ex.ª soube viver; sempre viveu bem”. Ao que ele logo acrescentou: “Que os Anjos digam: Amém!

Pelas 19 horas, a fala começou a tornar-se dificultosa. Chamou diversas vezes pelo Bispo Auxiliar. Em dado momento me diz: “Que Dom Antônio comunique à Nunciatura…”. Certamente queria dizer: “o meu falecimento”. 

Telefono ao Liceu, chamando o Padre Diretor, porque o desenlace se precipitava. Do Palácio do Senhor Cardeal pedem informações, respondo que o Senhor Arcebispo tem poucos instantes de vida. 

Leio, então, a bela oração Anima Christi, sanctifica me, que ele acompanha com muita atenção. Para não cansá-lo, silencio. Pede-me, entretanto, que eu leia o hino Adoro te devote, composto por Santo Tomás de Aquino. Instantes depois, entra a Irmã Superiora do Sanatório. Com um sorriso franco, Dom Aquino agradece à Irmã e esta pede uma bênção para toda a comunidade. O Arcebispo traça a cruz por sobre a Superiora. 

Recordo-me que nos achávamos às vésperas da solenidade das Dores de Nossa Senhora (sexta-feira da Semana da Paixão) e juntos rezamos a Salve Rainha. Dom Aquino rezava continuamente. 

Leio as orações dos agonizantes por ele seguidas com plena lucidez de mente, e, às invocações, respondia Amém.

Chega Dom Paulo Rolim Loureiro, Bispo Auxiliar do Cardeal Mota, que o representa no momento. Dom Aquino já não fala. Faz gesto de beijar o Crucifixo que ele beija com unção.

Leio a oração: Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo (Parte, alma cristã, deste mundo). Nisso, com suas próprias mãos, firmes, apesar do corpo quase frio, Dom Aquino arrumou melhor o travesseiro, e inclinando a cabeça para o lado do coração, suspirou profundamente, pela última vez

Pusemos-lhe a vela acesa na mão. 

Nenhum gemido. Morreu como viveu: placidamente, na Santa Paz do Senhor.


In extremis
1944

(Resposta a Bilac)

Quero morrer, meu Deus, quanto tu bem quiseres:
Esplenda a primavera em rosas, malmequeres,
Ninhos cantando no ar, aos perfumes do vento,
E “asas tontas de luz, cortando o firmamento”;
Ou ruja em temporal, a mais rija invernada,
Sem uma flor sequer, na terra desolada.
Refulja o sol no céu, no campo, na floresta,
E entre orgias de luz, vibre o universo em festa;
Ou paire a noite, noite imensa, muda e seva,
E raio algum de luz, rasgue a profunda treva.
Que me importa este mundo e toda esta vaidade,
Quando a morte me abrir o lar da eternidade?
Que me importa esse amor, que geme e desespera,
A tremer ante a morte implacável e fera,
Entre gélidas mãos e bocas retorcidas
E olhos a marejar em lágrimas doridas?
Triste, bem triste amor, que a morte assim tão cedo,
Converte nesse horror, que é frio, espanto e medo!
O meu amor é outro, eterno e onipotente.
Amor dum Deus, amor, que não morre, nem mente,
Amor, que não tem noite, ocaso, nem inverno,
Mas vive no esplendor do dia sempiterno.
E embora, ó meu Jesus, eu seja um miserável,
Que hei, tanta vez, traído o teu beijo adorável,
Espero o teu perdão, espero o teu sorriso,
Espero o teu amor, no azul do paraíso.
Espero que Maria, a Mãe, que tu me deste,
Imagem virginal da bondade celeste,
Seja comigo, e junto ao leito da agonia,
Mãe de misericórdia, ore, ajude e sorria.
Então a morte, a morte atroz para os mundanos,
Ela, que é o fim fatal dos amores profanos,
Longe de me roubar o teu amor sagrado,
Dar-me-á, por esse amor, no céu, meu Bem-Amado,
Pura, santa, imortal, verdadeira e querida,
“A delícia da vida! A delícia da vida!”

Referências

  1. Pe. Bruno Ricco. Os últimos instantes do Arcebispo. São Paulo, 11 de abril de 1956. In: Pe. Pedro Cometti. Dom Aquino Corrêa: vida e obra, pp. 410-411.
  2. Dom Aquino Corrêa. “In extremis”. In: Nova et Vetera, Poética, v. 1, t. III, Edição do Centenário, pp. 141-142.

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