A seleção brasileira é mundialmente conhecida como a “Amarelinha” ou a “Canarinho”, por conta da sua camisa principal amarelo-canário. Desde muitas décadas esse é o símbolo máximo do nosso time nacional, fazendo menção evidente a uma das cores da nossa bandeira, o amarelo da Casa Habsburgo, homenagem à Imperatriz Dona Leopoldina. Mas nem sempre foi assim.
Nas primeiras Copas do Mundo — que passaram a ser disputadas em 1930 —, o Brasil jogava de camisa branca com detalhes azuis. Isso até a famigerada tragédia do Maracanã, o Maracanazo. Em 1950 o mundial foi disputado no nosso país. Por essa ocasião, construiu-se na cidade do Rio de Janeiro o monumental Estádio do Maracanã, um dos maiores e mais imponentes do mundo. Erguia-se — conforme se suponha — o palco da nossa glória. Mas perdemos o último jogo, 2 a 1 para o Uruguai, e terminamos com o vice-campeonato. Uma derrota amaríssima que traumatizou toda uma geração de fãs do esporte bretão.
Deu-se que em 1958 chegamos novamente na final. A Copa era disputada na Suécia e decidiríamos contra o time da casa. O problema é que os suecos também jogam de amarelo e, no sorteio, coube a eles a primazia de jogar com o fardamento principal. A delegação brasileira desesperou-se, deprimiu-se: teríamos de disputar a finalíssima com a agourenta camisa branca.
Após a derrota do Maracanã, a camiseta branca ficou mal falada. Não era mais digna de confiança; havia se maculado com as lágrimas da nossa vergonha. Portanto, foi feito um concurso para escolher o nosso novo manto, e venceu aí o famoso conjunto: camisa amarelo-canário com calção azul e meião branco.
Foi com esse traje elegante que chegamos à final na Suécia, mas ficamos impedidos de disputar a taça com ele. Estávamos fadados a colocar-nos à prova com a melancólica camisa branca.
Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, temia pelo pior. O moral dos jogadores estava baixo; a penumbra da derrota parecia dominar a todos, dos roupeiros ao treinador. Era preciso fazer algo. E Paulo Machado, mais tarde apelidado como o Marechal da Vitória, colocou-se a rezar.
Feita a prece, ele ergueu os olhos e deparou-se com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, a Mãezinha envolta no seu manto celestial. Um manto azul. Era isso! Essa devia ser a cor de nossa camisa!
Os homens saíram em tropel pelas ruas de Estocolmo atrás das novas peças. Precisavam de 22 camisetas azuis minimamente apropriadas para a prática do esporte. Encontraram-nas. Agora era preciso bordar em cada uma delas o emblema da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) e o número dos nossos craques. O massagista Mário Américo e o médico Francisco Alves realizaram a tarefa.
Estava tudo pronto para entrarmos no Estádio Råsunda, naquela tarde de domingo. 29 de junho de 1958.
Com atuação de gala de Zagallo e do jovem Pelé, de apenas 17 anos, cada um responsável por dois gols, o Brasil fez 5 a 2 nos donos da casa, sob os olhos estupefatos do Rei Gustavo, e sagrou-se campeão do mundial pela primeira vez.
Foi a consagração do nosso manto sagrado, debaixo da proteção de Nossa Senhora.
Desde então, a seleção brasileira adotou oficialmente a camiseta azul como seu uniforme reserva, de modo que, mesmo com a paulatina secularização da sociedade e a politização do jogo de bola, temos, no esporte mais amado pelo nosso povo, um símbolo inapagável da nossa fé.
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