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Os transgêneros precisam mesmo “mudar” de sexo?
Sociedade

Os transgêneros precisam
mesmo “mudar” de sexo?

Os transgêneros precisam mesmo “mudar” de sexo?

Se o transgenerismo requer tratamento médico, como argumentam os próprios advogados da “mudança” de sexo, não estamos falando, então, de uma doença? Como uma condição assim pode formar a base da identidade de alguém?

Chad Felix Greene,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Outubro de 2017
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Em uma discussão recente no Twitter, o militar norte-americano Bradley Manning — militar norte-americano que ficou famoso por "mudar" de sexo e trocar o seu nome para "Chelsea" — argumentou que o "tratamento" dos transgêneros é necessário para a saúde individual deles, "porque", declarou Chelsea, "não oferecer atenção médica para pessoas trans é fatal".

O argumento de Bradley não é isolado. Quando Joshua Alcorn — "Leelah", como queria ser chamado — cometeu suicídio em 2014, com apenas 17 anos, os ativistas LGBT imediatamente culparam os pais dele e a sociedade em geral por causarem a tragédia. Zack Ford, do site Think Progress, escreveu:

A morte de Leelah Alcorn era uma tragédia evitável. Tratava-se de uma garota de 17 anos com total acesso a todas as informações disponíveis no século XXI sobre identidade de gênero, incluindo muitos meios seguros e efetivos de transição. Mas, como ela mesma escreveu antes de se suicidar atropelada por um trator nesta semana, não havia nenhuma esperança ligada a essas possibilidades — nenhuma confiança de que ela conseguiria, na verdade, ficar melhor. Ela havia desistido de implorar por ajuda.

Apesar de os pais apoiarem a identidade de gênero do jovem rapaz, eles, no entanto, pediram-lhe para que esperasse até os 18 anos para começar a transição. Eles não concordavam em pagar por isso mais cedo. Daí Alcorn se matou.

O argumento pode ser resumido da seguinte maneira: sem tratamento médico (cirurgias caras e terapias hormonais para a vida inteira), aceitação social, uso correto do prenome e acesso livre aos banheiros, as pessoas trans nunca estariam confortáveis em seus corpos ou na sociedade. Por conseguinte, elas estariam em sério risco de suicídio e, portanto, constituiria uma injustiça não tornar esses tratamentos acessíveis; o crime de matar pessoas trans poderia inclusive ser imputado àqueles que não tomam esses passos.

Esse argumento, usado por Bradley, Zack e tantos outros, pretende barrar qualquer crítica — ou mesmo questionamento — sobre a ideologia de gênero, mas, no fim das contas, ele acaba levantando mais perguntas do que respostas.

A mídia de esquerda está espantosamente equivocada quanto ao que a identidade de gênero realmente significa. Identidade de gênero pode ser ou um "conhecimento mais íntimo", ou uma matéria de desequilíbrio hormonal, resultado de um cérebro masculino em um corpo feminino; pode ser um cérebro transexual ou talvez uma característica hereditária e muitas outras possibilidades, dependendo da pessoa a quem você pergunta. De acordo com alguns, gênero é um estado inato e permanente; para outros, uma consciência fluida que deve mudar com o passar dos dias. Como pode ser que uma condição assim tão difícil de definir com precisão possa ser universalmente declarada como letal sem tratamento médico?

Ademais, se o transgenerismo requer tratamento médico, como pode formar a base da identidade de alguém? Evidentemente, pessoas trans e suas aliadas têm insistido com grande indignação que sua condição não é doentia, mas é difícil enxergar como essa conclusão pode ser evitada, quando se insiste tanto que elas devem receber tratamento ou isso será fatal para elas.

Doenças que exigem tratamento não constituem a identidade de ninguém. Ser soropositivo, por exemplo, é uma condição que requer tratamento médico. Eu não me identifico como soropositivo como se isso fizesse de mim uma pessoa inteiramente nova. Trata-se de uma condição que eu preciso tratar para viver e ser saudável. Pois bem, o que se passa com os transgêneros não é a mesma coisa?

O objetivo de maior parte das pessoas transgêneras é viver como o sexo oposto. Se isso não fosse verdade, não haveria qualquer preocupação quanto ao “acesso à saúde” ou a cuidados médicos. Se alguém pudesse simplesmente se satisfazer com qualquer identidade de gênero que fosse sentida como a mais apropriada em dado momento, uma intervenção médica seria meramente cosmética. Portanto, se concordarmos que as pessoas que se identificam como transgêneras desejam pertencer ao sexo oposto para atingir o máximo de suas capacidades — argumentando que, internamente, elas já pertencem ao sexo oposto —, temos de aceitar, então, que o estado ideal para todos os indivíduos é o que eles chamam de “cisgênero”, isto é, quando gênero e sexo se encontram naturalmente alinhados.

Em minha experiência, essa afirmação é vista como odiosa e intolerante. Sugerir que as pessoas que se identificam como transgêneras desejam ser “como quaisquer outras”, “normais” ou — ouso dizer — “saudáveis”, através do alinhamento de seus gêneros e sexos, significa sugerir que uma identidade transgênero seria, em si mesma, um estado de erro. Mas, de novo, é isso o que parece ser pressuposto pelo argumento de que uma intervenção médica é assim tão vital ao ponto de, sem ela, uma pessoa vir a cometer suicídio.

Para atingir a saúde e a estabilidade mentais, portanto, uma pessoa trans deve ter seu gênero e seu sexo tão proximamente alinhados quanto possível. Por que, então, realizar uma mudança física de sexo a fim de alinhá-lo ao gênero com o qual a pessoa se vê? Por que não deveria ser o gênero aquilo que muda?

Parece ser muito mais razoável — e medicamente ético — alcançar esta homeostase, este equilíbrio, pela mudança do gênero, para adequar a pessoa ao que já está estabelecido por seu sexo. Uma mulher que toma testosterona, por exemplo, deve continuar tomando esse hormônio; do contrário, suas desejadas características sexuais masculinas secundárias irão desaparecer (apesar de que, se ela removeu seus ovários, seu corpo não será capaz de produzir estrogênio e trazer de volta suas características sexuais femininas). Como muitos homens trans preferem manter seus órgãos reprodutivos para engravidarem, esse risco é ainda maior. A agressiva e persistente tentativa do corpo de retornar a seu estado anterior, apesar das intervenções médicas para superá-lo, indica que aquele primeiro estado é "natural". O corpo está sendo medicamente forçado a se adaptar a condições que não lhe convém experimentar.

Se o estado ideal é o de homeostase, em que o gênero e o sexo são os mesmos, então por que as pessoas trans deveriam passar suas vidas inteiras forçando seus corpos a se adaptarem a condições que elas não são capazes de manter por si mesmas? Parece ser muito mais razoável reconhecer que o sexo físico com que se nasceu é o padrão ao qual a percepção interna de uma pessoa deveria ser alinhada. Logicamente, um transgênero que sofre devido ao desalinhamento de seu gênero e de seu sexo físico não seria igualmente feliz alinhando seu gênero a seu sexo, se o resultado final fosse o seu gênero e o seu sexo serem os mesmos? Por que a única opção aceitável seria forçar, através de deformações físicas dramáticas, o corpo a adaptar-se à mente e não o contrário?

As pessoas transgêneras se encontram extremamente inseguras. E precisam de ajuda.

Alguns advogados da causa trans presumidamente responderiam que o sexo é que deve mudar em vez do gênero porque o sexo "pode" mudar, ao passo que tentativas de mudar o gênero costumam terminar de maneira trágica. Mas essa resposta é desnecessariamente pessimista.

Eu, pessoalmente, tive disforia de gênero e passei pela transição no início de meus 20 anos. Tenho consciência do esforço emocional que fazem as pessoas nessas circunstâncias e sou solidário ao sentimento de frustração e de desespero que muitas delas experimentam. Mas sou consciente também da poderosa percepção que eu tive de poder controlar, sozinho, o modo como eu enxergava o mundo. Mesmo se preferisse ser feminino, eu entendo que meu corpo é masculino, e, portanto, o plano de ação mais efetivo e saudável é alinhar minha percepção de gênero àquele estado que é imutável. Tenho sido em grande parte bem sucedido nisso. Hoje, eu me sinto completamente integrado e não apenas confortável com meu corpo masculino, como também vejo dentro de mim uma alegria na busca de um progresso físico na masculinidade.

Uma verdade inconveniente é que muitas pesquisas, incluindo um estudo sueco de 2011, indicam que a taxa de suicídio entre transgêneros permanece alta mesmo após a cirurgia de mudança de sexo (o estudo relata que pessoas que fizeram a cirurgia têm 19 vezes mais chances de morrer por suicídio do que a população geral). Por sua vez, o National Center for Transgender Equality ("Centro Nacional para Igualdade de Gênero"), dos Estados Unidos, informou que, em 2015, 40% das pessoas que se identificavam como transgêneras haviam tentado se suicidarA comunidade LGBT luta ativamente contra esses estudos e procura sufocar as vozes de pessoas que, como eu, têm escolhido o alinhamento natural ou se arrependido de fazer a transição para o outro sexo. Atualmente, a comunidade médica não tem interesse nenhum seja em reconhecer os perigos e o impacto a longo prazo das terapias de transição, seja em iniciar estudos que possam encontrar uma cura ou uma solução subjacente ao problema. Quem sugerir que esse é um problema médico por ser resolvido acaba sendo acusado de incitar o genocídio.

Mas problemas médicos precisam realmente ser tratados. Se a disforia de gênero é, de fato, naturalmente fatal sem um tratamento, a única solução médica é achar uma cura que exponha o corpo à menor de todas as chances de risco. Obviamente, o certo seria corrigir o problema biológico e/ou enfrentar o problema psicológico por trás da própria disforia.

O movimento LGBT construiu uma civilização ao redor do conceito de ser “quem você é”, apesar de todos os esforços de julgamento e perseguição. Indivíduos transgêneros frequentemente me dizem que agora encontraram o seu “verdadeiro gênero”. Advogados da causa, como Zack Ford e outros, rotineiramente reclamam que o extremismo social impede o indivíduo trans de viver uma vida completamente feliz. Mas no centro dessa tempestade obstinada de indignação está, ao contrário, a realidade silenciosa de que essas pessoas se encontram extremamente inseguras.

Não podemos esquecer a real tragédia de tudo isso. Pessoas sofrendo de verdadeira angústia mental estão sendo induzidas a achar que, com cirurgia adequada, com camuflagem, com aceitação social, com proteção legal, com campanhas de educação e por aí vai, elas finalmente se sentirão como pessoas completas. Pior ainda, são levadas a acreditar que a única razão pela qual elas continuam a sofrer se deve à intolerância e ao ódio daqueles à sua volta. O método atual para enfrentar este problema só está tornando as coisas piores. Um bom tratamento, ao contrário, precisa enfrentar o coração do problema.

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A Transfiguração tem alguma coisa a ver com o Espiritismo?
Doutrina

A Transfiguração tem
alguma coisa a ver com o Espiritismo?

A Transfiguração tem alguma coisa a ver com o Espiritismo?

Ao ser visto conversando com Moisés e Elias, estaria Nosso Senhor nos ensinando, por acaso, a falar com os mortos?

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Fevereiro de 2018
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Recebemos por esses dias a seguinte pergunta, à qual queremos dar especial atenção agora, porque, além de ser uma dúvida compartilhada por muitas pessoas, envolve o evangelho da Transfiguração do Senhor, proclamado pela Igreja neste domingo:

Padre, sou católico e totalmente contrário ao espiritismo. Tenho notado que muita gente por ignorância está cada vez mais acreditando nesta doutrina. Sempre digo que, se a pessoa acredita no espiritismo, deve jogar a Bíblia fora, porque não encontrei nenhuma passagem onde Jesus menciona coisas do tipo “morrer e se reencarnar para a evolução” (muito mencionado pelos espíritas).

Mas tem uma passagem na Bíblia com a qual eu não gostaria de ser pego “de surpresa” por um espírita, que é a passagem em que Jesus, no monte Tabor, conversa com Moisés e Elias (cf. Mt 17, 3; Mc 9, 4; Lc 9, 30). Como posso me defender de um espírita e argumentar que este momento não tem nada a ver com espiritismo?

Para responder a esta questão, partamos, em primeiro lugar, de um fato já reconhecido por nosso interlocutor: em nenhuma passagem contida nos Evangelhos Jesus ensina a reencarnação. Muito pelo contrário, são vários os lugares em que encontraremos ensinamentos destoando dessa que é a principal crença do espiritismo. Veja-se, por exemplo, o que diz Hb 9, 27: que “está determinado que os homens morram uma só vez, e depois vem o julgamento”; ou ainda, o que o próprio Senhor ensina na parábola do pobre Lázaro e do rico banqueteador (cf. Lc 16, 19-31), a saber, que as pessoas morrem e vão ou para o Céu ou para o Inferno, sem “novas vidas” nem mudança de destino.

O episódio da Transfiguração, no entanto, seria interpretado pelos espíritas de modo a defender não tanto a reencarnação, mas a comunicação com os mortos. Falando com o patriarca Moisés, falecido há muitíssimo tempo, e com o profeta Elias, arrebatado aos céus sem notícia de morte (cf. 2Rs 2, 1-12), Nosso Senhor talvez estivesse querendo ensinar seus discípulos a estabelecerem contato com as almas do além.

O primeiro modo de rebater essa distorção dos Evangelhos seria apelar para a unidade das Sagradas Escrituras, já que em diversos trechos bíblicos Deus condena expressamente a evocação dos mortos e, sendo Jesus Cristo seu Filho, em tudo obediente à sua vontade, não poderia Ele ensinar uma coisa tão explicitamente contrária à Lei.

A Transfiguração, por Carl Bloch.

Na verdade, como explica Santo Tomás de Aquino em seu comentário à Transfiguração [1], a própria aparição de Moisés no monte Tabor tinha como finalidade confirmar, para os discípulos, o fato de que Cristo não tinha vindo para abolir a Lei de Moisés, mas para levá-la à perfeição, como ele próprio já havia defendido em seu Sermão da Montanha (cf. Mt 5, 17).

Porém, como os espíritas não compartilham com os cristãos a fé na inerrância das Escrituras, esse argumento seria de pouca ou nenhuma valia. Mesmo aceitando, de qualquer modo, que o Antigo e também o Novo Testamento condenem o contato com os mortos, um espírita poderia muito bem dizer: “Tudo bem, mas, se é proibido, por que Jesus está falando com Moisés e Elias?

Simplesmente porque existe uma grande diferença entre uma aparição do além por iniciativa divina e uma tentativa humana de provocá-la, por meio da evocação das almas de pessoas falecidas. De fato, não consta nos Evangelhos que Jesus, Pedro, Tiago e João tenham se reunido para fazer “baixar” no monte os espíritos de Elias e Moisés, como sói acontecer em sessões espíritas. Moisés e Elias “apareceram-lhes”, como está escrito, por pura vontade de Deus, que operou aquele milagre diante dos três apóstolos para confirmar-lhes a fé na divindade de Jesus (outra verdade, a propósito, na qual os espíritas não acreditam).

Lembremo-nos, neste sentido, de uma orientação oportuníssima do Frei Boaventura Kloppenburg, grande estudioso do assunto:

A Bíblia menciona várias vezes aparições perceptíveis de espíritos do além. Assim o evangelista Lucas nos relata que “o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Entrando na casa onde ela estava, disse-lhe: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 26-28). Jesus ressuscitado apareceu a Saulo a caminho de Damasco e falou com ele (cf. At 9). A Igreja aprovou aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em Fátima.

Trata-se, nestes casos, evidentemente, de comunicações perceptíveis vindas do além. A fé cristã, por conseguinte, admite não somente a mera possibilidade de comunicações sensíveis, mas afirma fatos reais deste tipo de trato entre o além e o aquém.

Não devemos, porém, esquecer que Lucas nos informa que o Anjo “foi enviado por Deus”. Quem negará a Deus todo-poderoso a capacidade de enviar-nos seus mensageiros? Quando Deus manda, a iniciativa é sua; e a conseqüente manifestação do além toma para nós um caráter espontâneo. Bem outra é a situação quando a iniciativa é nossa, querendo nós provocar alguma conversação com entidade do além. [2]

Esse esclarecimento aos católicos é muitíssimo importante para afastar a ideia, muito difundida em nosso país, de que qualquer coisa que seja espiritual tenha algo a ver com espiritismo. Quem nunca ouviu, por exemplo, pessoas tratarem o tema da “vida após a morte” — praticamente onipresente nos Evangelhos — como se fosse uma “novidade” trazida pelo espiritismo ou um “tabu” para a Igreja Católica?

Não, ainda que o principal expoente do espiritismo, no Brasil e no mundo, tenha escrito um “Evangelho segundo o Espiritismo”, a doutrina espiritual de Cristo não tem nada a ver com isso. Basta examinar um pouco os Evangelhos, os ensinamentos de sempre do Magistério da Igreja, para ver a tremenda discrepância entre o que pregava Cristo e o que escreveu Allan Kardec; entre o que revelou, de um lado, o próprio Verbo de Deus encarnado e o que “revelou”, de outro, uma legião de espíritos pretensamente desencarnados.

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Precisamos acreditar em “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?
Doutrina

Precisamos acreditar em “tudo o que
crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

Precisamos acreditar em “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

A pergunta pode parecer uma obviedade para os mais próximos e banal para os mais arredios, mas é a linha que divide os verdadeiros dos falsos católicos.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Fevereiro de 2018
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Antigamente, quando as crianças recebiam as primeiras instruções na fé católica, elas aprendiam a rezar uma fórmula denominada “ato de fé”. As versões da oração variam um pouco, mas uma delas, indulgenciada pela Igreja e facilmente encontrada na internet, diz o seguinte:

Eu creio firmemente que há um só Deus, em três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar e ao terceiro dia ressuscitou. Creio em tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica, porque Deus, Verdade infalível, o revelou. Nesta crença quero viver e morrer.

Trata-se de uma oração simples e em plena conformidade com o que professamos no “Creio”, mas, tragicamente, muitos de nossos católicos não seriam mais capazes de fazê-la, pelo menos não de coração sincero e acreditando realmente em tudo o que ela diz.

Afinal de contas, muitos de nós aprendemos no colégio que uma coisa é Jesus Cristo, que veio ao mundo e, como adoram dizer, “não fundou religião nenhuma”; e outra coisa é a Igreja Católica, que apareceu muito tempo depois e que está “cheia de erros”, “de pecados” e de não se sabe mais o quê.

Para boa parcela de nossos católicos hoje, crer em “tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica”, assim, sem mais nem menos, sem saber detalhadamente do que se está falando, soará como “fé cega”, obscurantismo medieval ou até coisa pior.

Mas não tem nada a ver com isso. O problema da “pulga atrás da orelha” de muitos católicos deve-se a um fator chamado ignorância. Infelizmente, nossas catequeses não têm sido muito eficazes em ensinar, tanto a crianças e jovens quanto a adultos, o que seja realmente a realidade da fé.

Por isso, vamos explicar, primeiro, com um exemplo do nosso mundo. Suponhamos que você não tenha ido jamais à Dinamarca. Um grande amigo seu já foi e dá testemunho: ela existe. O seu atlas geográfico, produzido por gente bem mais entendida que seu amigo, também retrata a Dinamarca no mapa da Europa: ela existe. Há por que duvidar? Certamente não. Ainda que nunca tenha posto os pés em território dinamarquês, você é capaz de admitir sem muita dificuldade: “Sim, eu creio, a Dinamarca existe”.

Com a fé católica acontece algo semelhante. Quando dizemos todos os domingos na Missa: “Creio”, o que estamos dizendo é que acreditamos nas verdades reveladas por uma pessoa muito mais confiável que seu melhor amigo e muito mais sábia que o mais competente cientista: Deus.

A comparação com a Dinamarca, como se pode ver, tem seus limites. A fé que prestamos a Deus é de natureza totalmente diferente da que temos na Dinamarca:

  1. Primeiro, porque, como visto, quem nos revela a existência da Dinamarca são seres humanos, falíveis e capazes de enganar (imagine, por exemplo, que todos os geógrafos estivessem “conspirando” em relação à Dinamarca); na fé católica, porém, quem nos revela as coisas é a própria Verdade, Deus, “o qual não pode enganar-se nem enganar” a ninguém [1].
  2. Segundo, porque a Dinamarca é uma realidade humana; as verdades que dizem respeito a Deus, no entanto, todas superam a própria natureza criada, são sobrenaturais.
  3. Como consequência desta segunda diferença, temos de admitir a dificuldade que existe, de nossa parte, em crer nas verdades sobrenaturais, que transcendem a nossa capacidade racional. Por essa razão, mais do que um simples esforço humano, todo ato de fé que o homem realiza só pode acontecer por ação da graça divina. Todo católico que diz com sinceridade: “Creio”, é tocado invisivelmente pela mão de Deus, que ajuda a sua inteligência e fortalece a sua vontade a dar um “sim” a tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica.

Mas a expressão “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” ainda permanece difícil e insiste em incomodar. É necessário aceitar tudo mesmo, sem restrições? E a Igreja mesma, como entra nessa “equação” da fé?

“Cristo entregando as chaves do Céu a São Pedro”, por Pedro Paulo Rubens.

Para responder a essa questão, é preciso recordar o modo escolhido por Deus para nos revelar as suas verdades. O princípio da Carta aos Hebreus diz que, “muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora a nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (1, 1-2). Depois de todas as revelações que vemos contidas no Antigo Testamento, então, Deus “selou” seu contato com a humanidade, por assim dizer, enviando-nos seu Filho, Jesus Cristo.

Ora, já que com isso Ele quis salvar todos os homens, e não só os de dois mil anos atrás, era necessário que fosse instituído um meio, visível e do qual as pessoas pudessem facilmente se servir, para sua mensagem permanecer preservada ao longo das gerações. Esse instrumento, como ficará claro a quem estudar as Escrituras e investigar a transmissão dos ensinamentos dos primeiros cristãos, é nada mais nada menos do que a Igreja.

A Igreja:

  • presente na pessoa dos Apóstolos, a quem foi dito: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18, 18), e ainda: “Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos rejeita, a mim rejeita, e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10, 16); e
  • presente especialmente na pessoa do Papa, o único a quem foi dito: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” (Mt 16, 18-19), e ainda: “Confirma teus irmãos” (Lc 22, 32), e enfim: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 16).

Ao instituir a Igreja, Nosso Senhor quis dar aos homens a segurança de que aquilo que Ele tinha ensinado a seus discípulos seria propagado fielmente. Para isso, Ele mesmo cuidou de dar aos Apóstolos a assistência do Espírito Santo (cf. Jo 16, 7-15) e de garantir-lhes sua presença até a consumação dos séculos (cf. Mt 28, 20).

De fato, até o presente, o único grupo de cristãos que crê nas mesmas coisas e rejeita as mesmas coisas, como acontecia na Igreja primitiva, é a Igreja Católica. O protestantismo, desde que nasceu, dividiu-se em um sem-número de filiais sem uniformidade alguma de fé nem de culto.

São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, rogai por nós!

O problema da Igreja, como se vê, não é muito difícil de confrontar. Quem quer que se dedique a um estudo sério e desapaixonado de sua história e de sua doutrina, verá que não é possível haver verdadeiro cristianismo fora da religião católica. Nas breves palavras de um filósofo citado certa feita pelo Pe. Leonel Franca: “Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes”.

Vejamos agora, então, o porquê do “tudo”. Por que só é realmente católico quem aceita “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

Nada que Santo Tomás de Aquino não resolva [2]. Sim, é preciso aceitar tudo. E a razão é muito simples. Se o que Deus quis revelar à humanidade para a sua salvação está confiado de uma vez por todas à Igreja Católica, com segurança inabalável, garantida pelo próprio Senhor, alguém ainda duvida que devemos crer em “tudo o que ela crê e ensina”?

É evidente que não se trata de defender todo e qualquer ato ou declaração feito por um Apóstolo, por um bispo ou mesmo por um Papa. Pedro, por exemplo, “negou” Jesus três vezes. Quem ousaria dizer que essa sua atitude seria um modelo a se seguir ou, pior ainda, uma parte do Magistério infalível da Igreja?

Quando nos referimos às coisas que se devem crer, estamos falando daquilo que ficou definido, desde os tempos apostólicos, no Credo; das verdades de fé que foram solenemente proclamadas pelos Pontífices Romanos ao longo da história [3]; e das realidades que foram incontestavelmente definidas por Nosso Senhor nos próprios Evangelhos.

Porque, se Deus nos revelou tudo o que é necessário à nossa salvação e confiou este “depósito da fé” à Igreja, não nos é lícito pegar uma ou duas verdades e dizer: “Aceito todo o resto, mas com isto eu não posso concordar”.

Não, o nome disso é heresia. É o pecado de quem quer “escolher”, das verdades que foram reveladas por Deus, aquela que lhe desagrada ou que não lhe cai bem. Ou acreditamos tanto na virgindade perpétua da Virgem Maria quanto na indissolubilidade do Matrimônio ou, então, somos católicos à nossa própria medida, e não à medida de Cristo.

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática “Dei Filius” (24 abr. 1870), c. 3: DH 3008.
  2. “É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade.” (S. Th. II-II, q. 5, a. 3, co.)
  3. “O Papa se pronuncia ex cathedra, ou infalivelmente, quando ele fala: (1) como Doutor Universal; (2) em nome e com a autoridade dos Apóstolos; (3) em um ponto de fé e moral; (4) com o propósito de obrigar cada membro da Igreja a aceitar e acreditar em sua decisão.” (Cardeal John Henry Newman, The True Notion of Papal Infallibility)

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Nossos tempos são os últimos? A Irmã Lúcia responde
Virgem Maria

Nossos tempos são os últimos?
A Irmã Lúcia responde

Nossos tempos são os últimos? A Irmã Lúcia responde

Irmã Lúcia, 1957: “Por três motivos me deu a entender a Santíssima Virgem que estamos no fim do tempo”. Ei-los aqui.

Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado,  Apelos de Nossa Senhora21 de Fevereiro de 2018
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No dia 26 de dezembro de 1957, o padre Agustín Fuentes, sacerdote da diocese de Veracruz (México) e vice-postulador das causas de beatificação de Santa Jacinta e São Francisco Marto, falou amplamente com a Irmã Lúcia no convento de Coimbra, em Portugal. Ao voltar ao México fez uma conferência sobre este encontro, referindo-se às palavras da Irmã Lúcia.

O padre Joaquín Maria Alonso [1] sublinhou que o relato da conferência foi publicado “com todas as garantias de autenticidade e com a devida aprovação episcopal, incluindo a do Bispo de Fátima” [2].

Seguem abaixo, na íntegra, tal como publicadas no site português Apelos de Nossa Senhora, as palavras ditas pela Irmã Lúcia ao pe. Agustín. Na ocasião, o sacerdote afirma que encontrara a vidente de Fátima “muito triste, muito pálida e abatida”. Eis o que ela lhe revelou.


Senhor Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus: os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem; os maus, porque, não vendo que o castigo de Deus já paira sobre eles por causa dos seus pecados, continuam também no seu caminho de maldade, sem fazer caso desta Mensagem. Mas creia-me, Senhor Padre, Deus vai castigar o mundo, e vai castigá-lo de uma maneira tremenda. O castigo do Céu está iminente.

Senhor Padre, o que falta para 1960? E o que sucederá então? Será uma coisa muito triste para todos, e não uma coisa alegre, se, antes, o mundo não fizer oração e penitência. Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, só o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas resolveram não o conhecer para não serem influenciados. Esta é a terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora, que ficará em segredo até 1960.

Diga-lhes, Senhor Padre, que a Santíssima Virgem repetidas vezes nos disse, tanto aos meus primos Francisco e Jacinta como a mim, que várias nações desaparecerão da face da terra. Disse que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação.

Senhor Padre, o demônio está a travar uma batalha decisiva contra a Virgem Maria. E como sabe que é o que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira o demônio deixa também o campo das almas dos fiéis desamparado e mais facilmente se apodera delas.

O que aflige o Imaculado Coração de Maria e o Sagrado Coração de Jesus é a queda das almas dos Religiosos e dos Sacerdotes. O demônio sabe que os religiosos e os sacerdotes que caem da sua bela vocação arrastam numerosas almas para o inferno. O demônio quer tomar posse das almas consagradas. Tenta corrompê-las para adormecer as almas dos leigos e levá-las deste modo à impenitência final.

Utiliza todos os truques, chegando ao ponto de sugerir um atraso na entrada na vida religiosa. O que resulta disto é a esterilidade da vida interior, e entre os leigos uma frieza (falta de entusiasmo) quanto a renunciar aos prazeres e dedicar-se totalmente a Deus.

Senhor Padre, não esperemos que venha de Roma um chamamento à penitência, da parte do Santo Padre, para todo o mundo; nem esperemos também que tal apelo venha da parte dos Senhores Bispos para cada uma das Dioceses; nem sequer, ainda, das Congregações Religiosas. Não. Nosso Senhor usou já muitos destes meios e ninguém fez caso deles. Por isso, agora… agora que cada um de nós comece por si próprio a sua reforma espiritual: que tem que salvar não só a sua alma mas também todas as almas que Deus pôs no seu caminho...

O demônio faz tudo o que está em seu poder para nos distrair e nos retirar o amor à oração; seremos todos salvos ou seremos todos condenados.

Senhor Padre, a Santíssima Virgem não me disse que nos encontramos nos últimos tempos do mundo, mas deu-mo a entender por três motivos:

O primeiro, porque me disse que o demônio está a travar uma batalha decisiva contra a Virgem Maria e uma batalha decisiva é uma batalha final, onde se vai saber de que lado será a vitória e de que lado será a derrota. Por isso, agora, ou somos de Deus ou somos do demônio: não há meio termo.

Lúcia e Jacinta.

O segundo, porque me disse, tanto aos meus primos como a mim, que eram dois os últimos remédios que Deus dava ao mundo: o Santo Rosário e a devoção ao Coração Imaculado de Maria; e, se são os últimos remédios, quer dizer que são mesmo os últimos, que já não vai haver outros.

E o terceiro porque sempre nos planos da Divina Providência, quando Deus vai castigar o mundo, esgota primeiro todos os outros meios; depois, ao ver que o mundo não fez caso de nenhum deles, só então (como diríamos no nosso modo imperfeito de falar) é que Sua Mãe Santíssima nos apresenta, envolto num certo temor, o último meio de salvação. Porque se desprezarmos e repelirmos este último meio, já não obteremos o perdão do Céu: porque cometemos um pecado a que no Evangelho é costume chamar “pecado contra o Espírito Santo” e que consiste em recusar abertamente, com todo o conhecimento e vontade, a salvação que nos é entregue em mãos; e também porque Nosso Senhor é muito bom Filho, e não permite que ofendamos e desprezemos Sua Mãe Santíssima, tendo como testemunho patente a história de vários séculos da Igreja que, com exemplos terríveis, nos mostra como Nosso Senhor saiu sempre em defesa da Honra de Sua Mãe Santíssima.

São dois os meios para salvar o mundo: a oração e o sacrifício. Olhe, Senhor Padre, a Santíssima Virgem, nestes últimos tempos em que vivemos, deu uma nova eficácia à oração do Santo Rosário. De tal maneira que agora não há problema, por mais difícil que seja, seja temporal ou, sobretudo, espiritual, que se refira à vida pessoal de cada um de nós; ou à vida das nossas famílias, sejam as famílias do mundo, sejam as Comunidades Religiosas; ou à vida dos povos e das nações. Não há problema, repito, por mais difícil que seja, que não possamos resolver agora com a oração do Santo Rosário. Com o Santo Rosário nos salvaremos, nos santificaremos, consolaremos a Nosso Senhor e obteremos a salvação de muitas almas.

E depois, a devoção ao Imaculado Coração de Maria, Mãe Santíssima, vendo nós Nela a sede da clemência, da bondade e do perdão, e a porta segura para entrar no Céu. Diga-lhes também, Senhor Padre, que os meus primos Francisco e Jacinta sacrificaram-se porque viram a Santíssima Virgem sempre muito triste em todas as Suas aparições. Nunca Se sorriu para nós; e essa tristeza e essa angústia que notávamos na Santíssima Virgem, por causa das ofensas a Deus e dos castigos que ameaçavam os pecadores, sentíamo-las até à alma. E nem sabíamos o que mais inventar para encontrarmos, na nossa imaginação infantil, meios de fazer oração e sacrifícios.

Notas

  1. O padre J. M. Alonso, sacerdote claretiano, foi nomeado pelo Bispo de Leiria-Fátima, D. João Venâncio (1954-1972), para ser arquivista oficial de Fátima. Escreveu uma obra monumental sobre as Aparições de Fátima, intitulada Textos e estudos críticos sobre Fátima. Este trabalho, que compreende 24 volumes, contendo 5793 documentos, foi completado em 1975, mas a sua publicação foi proibida pelo bispo sucessor, D. Alberto Cosme do Amaral. Na década de 1990, os dois primeiros volumes foram publicados, mas não integralmente.
  2. O encontro do Pe. Agustín Fuentes com a Irmã Lúcia, e a conferência sobre este encontro, foi documentado em profundidade por Frère Michel de la Sainte Trinité no vol. III da sua obra Toute la Vérité sur Fátima. Em junho de 1981, depois de ter pregado um retiro na Bretanha, o Padre Superior Georges de Nantes confiou ao Frère Michel a tarefa de estudar num modo científico e exaustivo as Aparições de Nossa Senhora em Fátima, bem como os seus pedidos, e a relevância da Sua Mensagem para os nossos tempos.

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Mediunidade: o que ensina a Igreja?
Doutrina

Mediunidade: o que ensina a Igreja?

Mediunidade: o que ensina a Igreja?

Qual é, com clareza, a posição oficial da Igreja a respeito da chamada “mediunidade”? Existem pronunciamentos do Magistério sobre a causa e a natureza desses fenômenos?

Frei Boaventura Kloppenburg21 de Fevereiro de 2018
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Este texto do Frei Boaventura Kloppenburg visa complementar outros, já publicados neste espaço, sobre o tema do espiritismo.

Para bem entendê-lo, porém, julgamos ser necessário que se leve em conta uma diferença sutil, feita pelo próprio bispo no início desta matéria, entre os “fenômenos mediúnicos” considerados em si mesmos, a interpretação que o espiritismo lhes dá e, ainda, a doutrina espírita.

A distinção é importante porque, ao dizer no item 1, abaixo, que “a Igreja nunca se pronunciou” sobre “a causa dos fenômenos mediúnicos”, Frei Boaventura não está se referindo à doutrina espírita, esta sim amplamente condenada pelo Magistério da Igreja. Quando o mesmo autor diz, ainda, que “nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos fenômenos mediúnicos — nem mesmo a interpretação espírita — foi censurada, rejeitada ou condenada oficialmente pela Igreja”, é importante separar, de um lado, o juízo espírita a respeito da mediunidade e, de outro, os princípios com os quais esse mesmo juízo é formulado.

Embora seja verdade que não existe nenhum pronunciamento oficial do Magistério condenando a interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos, não é demais lembrar que existe, sim, por outro lado, uma série de ensinamentos magisteriais que fulminam muitos pontos doutrinais chave supostos, formalmente, pela interpretação que os espíritas dão da chamada “mediunidade”.

Basta recordar, por exemplo, as diversas declarações condenatórias que, ao longo dos séculos, a Igreja lançou contra as doutrinas preexistencialistas, ou seja, que afirmavam a preexistência da alma humana à criação do corpo. Tampouco faz falta elencar os vários documentos em que se confessa a fé comum da Igreja na criação direta da alma por Deus a partir do nada. As Sagradas Escrituras, além do mais, dão testemunho claro e inequívoco da unicidade da vida humana.

É claro, pois, que nada disso é compatível com os pressupostos teóricos com que o espiritismo, ao menos o de corte kardecista, pretende defender sua interpretação dos fenômenos mediúnicos.


Convém deixar bem clara a posição oficial da Igreja perante a fenomenologia do espiritismo. Pois tem havido confusão acerca deste ponto. E para evitar possíveis falsas interpretações, adjetivarei estes fenômenos simplesmente como “mediúnicos” e não como “espíritas”, visto que este último termo já especifica determinada interpretação do fenômeno.

Creio poder compendiar nos seguintes itens a posição oficial da Igreja:

1. Por seu magistério oficial a Igreja nunca se pronunciou nem sobre a verdade histórica, nem sobre a natureza, nem sobre a causa dos fenômenos mediúnicos ou próprios do espiritismo; por isso:

a) nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos fenômenos mediúnicos — nem mesmo a interpretação espírita — foi censurada, rejeitada ou condenada oficialmente pela Igreja;

b) não corresponde à verdade dizer que a Igreja endossa oficialmente a interpretação que vê nos fenômenos mediúnicos uma intervenção preternatural do demônio;

c) jamais a Igreja proibiu o estudo ou a investigação científica dos fenômenos mediúnicos.

O católico não está absolutamente proibido de estudar a metapsíquica ou a parapsicologia; pelo contrário, seria até muito de desejar que também os cientistas católicos e as universidades católicas se ocupassem mais intensa e sistematicamente com a fenomenologia mediúnica ou parapsíquica, seja para verificar sua verdade histórica, seja para investigar sua verdade filosófica ou sua causa.

2. O que a Igreja faz, fez e continuará a fazer, por ser esta sua missão específica, é recordar o mandamento divino que proíbe evocar os mortos ou outros espíritos quaisquer. Esta proibição vem de Deus, não da Igreja, que não tem nem autoridade nem competência para modificar ou revogar uma lei, determinação ou proibição divina.

Por isso:

a) Os defensores da interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos não podem provocar, eles mesmos, novos fenômenos desta natureza, ainda que seja para fins de estudos; a razão disso é evidente: a provocação do fenômeno implicaria necessariamente uma evocação dos espíritos, ao menos na intenção. E isso foi proibido por Deus. Para fins de estudo, o homem não pode fazer coisas ilícitas e proibidas por Deus.

b) Como toda sessão espírita tem a finalidade própria e essencial de evocar espíritos ou de provocar a obtenção de comunicações ou mensagens do além, toda e qualquer sessão espírita é um ato de formal desobediência a uma lei divina e, por isso, gravemente proibida e pecaminosa.

c) Para resolver a questão moral da prática do espiritismo, pouco importa saber se os espíritas de fato conseguem ou não evocar espíritos em suas sessões; pois se o conseguem, não há dúvida a respeito da evocação e, por conseguinte, da desobediência; se não o conseguem, é certo que eles têm ao menos a intenção, o propósito ou a vontade deliberada de evocar e, portanto, de transgredir um mandamento divino; e isso basta para um pecado formal.

“Sessão espírita de hipnose”, por Richard Bergh.

d) É, pois, a maliciosa ou pecaminosa intenção de querer evocar espíritos que torna ilícita e moralmente má a provocação de fenômenos mediúnicos em sessões espíritas, ainda que de fato sejam fenômenos puramente naturais e sem relação alguma com espíritos não-encarnados ou desencarnados.

e) Havendo, porém, certeza de que determinado fenômeno mediúnico ou metapsíquico é natural, e excluída expressamente a pecaminosa intenção de evocar qualquer espírito (bom ou mau, pouco importa), será lícito provocar o fenômeno, contanto que não seja prejudicial para a saúde. Parece, porém, que a repetição freqüente de certos fenômenos psíquicos (o transe, a escrita automática, a mesa dançante, o sonambulismo provocado etc.) pode causar perturbações psíquicas, desencadear distúrbios mentais em indivíduos predispostos, preparar o automatismo, concorrer para as alucinações, alterar as secreções internas, produzir delírios, prejudicar o sistema nervoso etc. Por isso, tais fenômenos devem ser provocados com muito critério, cautela e moderação, não em ambiente popular para distrair, mas em meios científicos para estudar.

Aqui convém recordar também a moção unânime aprovada pelo II Congresso Internacional de Ciências Psíquicas, reunido em Varsóvia, em 1922:

Considerando que os fenômenos metapsíquicos devem ser estudados por sociedades científicas e em laboratórios adequados, o Congresso emite um voto para que todas as produções ‘mediúnicas’, em salas de conferências, assim como as demonstrações públicas dos fenômenos ditos ‘ocultos’, sejam proibidas, legalmente, em todos os países, em virtude da influência nociva que podem exercer sobre o estado psíquico e nervoso das pessoas mais ou menos sensíveis que a elas assistem.

É necessário lembrar também a advertência feita por Pio XII numa alocução à Sociedade Italiana de Anestesiologia (24-2-1957). Reconhecia o papa a liceidade da hipnose “praticada pelo médico, ao serviço de um fim clínico, observando as precauções que a ciência e a moral médicas requerem, tanto do médico que a emprega, como do paciente que a aceita”. Pio XII insistia então no seguinte aviso:

Mas não queremos que se estenda, pura e simplesmente, à hipnose em geral o que dissemos da hipnose ao serviço do médico. Com efeito, esta, como objeto de investigação científica, não pode ser estudada por quem quer, mas por um sábio e dentro dos limites morais que valem para toda atividade científica. Não é este o caso de qualquer círculo de leigos ou eclesiásticos que a praticassem como coisa interessante, a título de pura experiência ou mesmo por simples passatempo.

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