CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Pais perdem guarda dos filhos por serem “muito cristãos”
SociedadeNotícias

Pais perdem guarda dos filhos
por serem “muito cristãos”

Pais perdem guarda dos filhos por serem “muito cristãos”

“Pátria Educadora” na Noruega: acusados de “radicalismo e doutrinação cristã”, Ruth e Marius Bodnariu foram afastados dos seus cinco filhos pelo departamento de “proteção à infância” do país.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Dezembro de 2015
imprimir

Em um ato flagrante de abuso de poder, o governo da Noruega tomou cinco crianças de sua família, depois de os seus pais serem acusados de "radicalismo e doutrinação cristã". Ruth e Marius Bodnariu estão desde o dia 16 de novembro sem os filhos – dois meninos, duas meninas e um bebê, ainda em fase de amamentação –, que foram transferidos a diferentes lares adotivos, por decisão do Barnevernet, o departamento de "proteção à infância" da Noruega. Uma petição online pedindo o retorno das crianças à sua família já foi assinada por mais de 35 mil pessoas.

De acordo com Daniel Bodnariu, irmão de Marius, toda a confusão começou com uma denúncia "feita pela diretora da escola onde as meninas estavam". As acusações – que ele revela em uma página do Facebook criada justamente para esse propósito – são estarrecedoras:

"A diretora chamou o Barnevernet expressando 'preocupações': as meninas contaram-lhe que estavam sendo disciplinadas em casa. Na sua mensagem, ela também disse que os pais são fiéis cristãos, 'muito cristãos', e que a avó tem uma forte convicção de que Deus castiga o pecado, o que, na opinião dela, cria uma inabilidade nas crianças. De acordo com a declaração da diretora, os tios e tias das meninas compartilham da mesma crença. A denúncia também diz que, ainda que as garotas sejam notáveis por seus bons resultados na escola e que a diretora não acredite que elas sejam abusadas fisicamente em casa, ela acha que os pais precisam de 'ajuda' e orientação do Barnevernet para criar os seus filhos."

Depois da queixa da escola, todas as coisas aconteceram muito rápido.

No dia 16 de novembro, as duas filhas mais velhas, Eliana e Naomi, foram literalmente "raptadas" da escola, sem o conhecimento dos pais. O Barnevernet ainda foi à casa da família, levou embora Matthew e John – sem nenhum mandado judicial –, e conduziu Ruth e o bebê para a delegacia. Marius, que estava no trabalho, também foi levado para um interrogatório. Depois de várias horas, o casal foi autorizado a voltar para casa, mas somente com Ezekiel, o filho de três meses.

No dia seguinte, porém, os agentes do Estado voltaram à casa dos Bodnariu e levaram também o bebê de três meses. A alegação era de que a mãe se tratava de uma pessoa "perigosa". Na mesma hora, a mãe foi avisada de que seus outros quatro filhos tinham sido colocados em diferentes casas adotivas e que já teriam se adaptado ao lugar, não sentindo mais a falta dos pais (!).

Depois de consultar um advogado, o casal obteve acesso ao documento com as acusações legais preenchidas contra eles. Entre outras coisas, havia a denúncia de que os pais e avós da família eram "cristãos radicais" e que estavam "doutrinando os filhos".

Até o momento, o casal Bodnariu ainda está separado de seus cinco filhos. Ruth e Marius estão impedidos de ver os quatro mais velhos e a mãe só pode ver o pequeno Ezekiel esporadicamente. "O que eles não entendem é por que os seus filhos foram tirados de si sem serem previamente alertados", explica Daniel, no Facebook. "Por que foram tratados como criminosos ou maus pais – como os adictos em drogas e alcóolatras? Por que ainda lhe estão sendo negados os seus direitos como pais, que deveriam prevalecer contra qualquer direito que o Estado possa presumir?"

Não é a primeira vez que o departamento de "proteção à infância" da Noruega é acusado de intrometer-se indevidamente na vida das famílias, com alguns líderes políticos chegando a qualificar o Barnevernet de "nazista". Diante de episódios como esses, é realmente difícil não evocar as cruéis imagens dos regimes totalitários do século XX, que, detendo a "fórmula" de uma sociedade perfeita, tentaram impô-la a todo o custo, desprezando as instituições e os direitos mais elementares dos indivíduos.

No rol desses "princípios inegociáveis" – os quais, longe de serem meramente religiosos, constituem normas de direito natural –, o Papa Bento XVI não se cansava de elencar a "tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos". A Igreja leva tão a sério essa verdade, que Santo Tomás de Aquino, ainda na Idade Média, condenava que se ministrasse o batismo a filhos de pais judios, reconhecendo que as crianças "estão sob o cuidado dos pais segundo o direito natural". São os pais, portanto, que devem formar os próprios filhos, cabendo ao Estado um papel simplesmente subsidiário, alternativo, nesse processo. Daqui o problema do slogan "Pátria Educadora", adotado recentemente pelo governo federal brasileiro. A Educadora por excelência é a família, não o Estado.

Na verdade, o caso da família Bodnariu revela um drama crescente nos países nórdicos, dominados por um secularismo anticristão agressivo e por um Estado cada vez maior e mais autoritário. Na Suécia, por exemplo, as crianças não são mais criadas por um pai e uma mãe, mas por "funcionários públicos" das "creches do Estado". Lá, assim como em outros lugares dominados por uma ferrenha engenharia social, a "Pátria Educadora", mais que um projeto, é já uma triste realidade.

Tragicamente, a ascensão e fortalecimento da educação estatal é acompanhada por uma crise familiar praticamente sem precedentes na história humana. Com a ausência da figura paterna e as mulheres cada vez mais fora de casa, os filhos vão sendo empurrados para escanteio. Como alertou recentemente o Papa Francisco, os pais e as mães "se auto-exilaram da educação dos próprios filhos" e, por outro lado, "multiplicaram-se os assim chamados 'especialistas', que passaram a ocupar o papel dos pais até nos aspectos mais íntimos da educação". Também a "cultura da morte" se alimenta de tudo isso. Sem o profundo desprezo de nossos contemporâneos pela paternidade, de fato, dificilmente seria possível falar de uma "indústria" em torno da prática do aborto e dos métodos anticoncepcionais.

A todo esse show de horrores se juntam o ódio e a intolerância flagrantes à religião cristã. Nunca se ouviu falar tanto de "liberdade" – as pessoas "são livres" para fumar maconha, para ter sexo com quem quiserem, para matar os próprios filhos, para dizer que homem e mulher são meras "construções sociais" – e, no entanto, quando uma família decide ensinar aos seus membros as verdades da fé cristã – ou simplesmente que "Deus castiga o pecado" –, o Estado rouba-lhes os filhos. Há liberdade para tudo, menos para ser cristão. Não se pode dizer que Deus castiga, se não quem castiga é o Estado.

"Há muitos casos de abuso dentro das famílias", reconhece Daniel Bodnariu. "Obviamente, esses casos devem ser punidos. Mas é uma enorme responsabilidade ser capaz de discernir quando realmente há ou não um abuso, porque, ao não fazer isso apropriadamente, você pode destruir uma família".

É o que está acontecendo com os Bodnariu, na Noruega, e é o que pode acontecer em todo o globo, caso os pais não despertem com urgência para o seu imperativo – e intransferível! – dever de educar os próprios filhos. Só isso pode dar jeito à farsa totalitária da "Pátria Educadora".

Notas

  • Atualização: Depois de mais de 200 dias separada, a família Bodnariu finalmente foi reunida de volta, no dia 14 de junho de 2016. Tudo indica que, agora, eles estejam vivendo na Romênia (país natal de Marius), longe das intervenções totalitárias do departamento de "proteção à infância" da Noruega:

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

As pessoas continuarão casadas no céu?
Doutrina

As pessoas continuarão casadas no céu?

As pessoas continuarão casadas no céu?

No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2019
imprimir

É comum, depois da morte do marido ou da mulher, que os viúvos me façam perguntas parecidas com esta:

Eu perdi recentemente o meu marido, de 46 anos, e desejo muito reencontrá-lo um dia. Mas algumas pessoas têm-me dito que, com a morte dele, o nosso casamento acabou e que Jesus disse que não seremos mais esposos nem considerados marido e mulher no céu. Para mim, isso é muito difícil de entender. No céu, nós iremos nos conhecer? Haverá entre nós alguma relação especial?

É fácil sentir a dor com que a pergunta é formulada. Trata-se, talvez, de uma dor desnecessária, nascida de uma leitura excessivamente estrita das palavras de Jesus no Evangelho segundo São Marcos. Ali, Jesus está respondendo a uma questão hipotética levantada pelos saduceus sobre uma mulher que fora casada sucessivamente com sete irmãos, nenhum dos quais lhe deu filhos. Os saduceus formulam o problema não tanto para atacar o matrimônio como para mostrar o aparente “absurdo” da ressurreição dos mortos. Jesus contesta da seguinte maneira: 

Vieram ter com ele os saduceus, que afirmam não haver ressurreição, e perguntaram-lhe: “Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher sem filhos, seu irmão despose a viúva e suscite posteridade a seu irmão. Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência. Então, o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, a quem desses pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher”.

Jesus respondeu-lhes: “Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’ (Ex 3, 6)? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12, 18-27).

A primeira coisa que devemos notar é que Jesus se refere ao matrimônio apenas de passagem. Sua resposta à estranha pergunta dos saduceus pretende ser um solene ensinamento sobre a realidade da ressurreição dos mortos. Nela, portanto, Jesus não desenvolve com profundidade uma doutrina sobre a experiência que terão os esposos no céu.

Por isso, não devemos ser apressados e afirmar que um casamento duradouro nesta vida não terá valor algum na futura. No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos. Decerto, os que foram casados neste mundo terão no céu uma união muito mais perfeita: eles se entenderão e amarão plenamente e terão uma intimidade espiritual muito maior do que poderiam ter um dia sequer imaginado. E eles estarão assim tão unidos porque, antes de tudo, estiveram unidos a Deus: com, em e por meio de Deus, eles estarão unidos numa união perfeitíssima. Isso também se aplica aos nossos outros relacionamentos familiares e de amizade, cada um segundo o que lhe é próprio e perfeito. Os casados, é claro, o terão em grau supremo, já que os vínculos matrimoniais são abençoados na terra com graças especiais.

Eis o que diz Tertuliano, escritor dos primeiros séculos da Igreja:

Além do que, havemos de estar unidos às nossas falecidas esposas, porque estamos destinados a um melhor estado […], a uma união espiritual […]. Por conseguinte, os que estamos unidos a Deus hemos de permanecer juntos […]. Na vida eterna, portanto, Deus não irá separar os que Ele uniu nesta vida, na qual Ele mesmo proíbe que se separem” (Sobre a monogamia, 10). 

Na verdade, alguns aspectos do matrimônio terminam mesmo com a morte de um dos esposos. Por exemplo, os votos matrimoniais que unem o casal em um relacionamento exclusivo só permanecem válidos até a morte de um deles. Logo, a morte do cônjuge permite, sim, ao esposo supérstite casar outra vez. Em alguns casos, aliás, sobretudo nos nossos tempos, as segundas núpcias podem até ser necessárias aos viúvos por motivos financeiros ou familiares. 

Ora, que o casamento termine quando um dos esposos morre é algo que diz respeito mais às realidades terrenas do que às celestes. Mas daí não se segue que um casamento contraído na terra não tenha mais valor no céu. Mesmo que uma pessoa se case novamente após a morte do primeiro esposo, não há dúvida de que ambos os relacionamentos se tornarão perfeitos no céu, sem exceção. Como a união espiritual entre eles será perfeita, não haverá ciúmes nem ressentimentos entre o primeiro e o segundo cônjuge.

No entanto, ao responder aos saduceus, Jesus afirma claramente que não haverá no céu novos matrimônios. Não haverá nem sinos nem cerimônias, porque o céu já é, por definição, a grande boda entre Cristo e sua Esposa, a Igreja.

Além disso, nesta vida, os homens e as mulheres se dão em casamento, fundamentalmente, para a propagação da espécie humana mediante a geração de novas vidas. E esta necessidade não mais existirá no céu, onde a morte não tem lugar. Os Padres da Igreja enfatizam este ponto em seus escritos:

  • “Com efeito, quando ressuscitarem dentre os mortos, eles já não se casarão nem se darão em casamento, mas serão como os anjos do céu, como disse o Senhor. Haverá certa restauração celeste e angelical à vida, de modo que não mais sofreremos nem mudaremos; e é por esta razão que irá cessar o matrimônio. De fato, este existe agora em função do nosso estado decaído e porque é necessário que as gerações se sucedam. Um dia, porém, seremos como os anjos do céu, nos quais não há sucessão de gerações e cuja raça dura para sempre” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Na ressurreição, os homens serão como os anjos de Deus, isto é, nenhum homem lá poderá morrer, nenhum irá nascer: não haverá crianças nem velhos” (Pseudo-Jerônimo, citado em Catena Aurea).
  • “Ora, o matrimônio existe para a geração de filhos, estes existem para a sucessão de gerações, e esta é necessária por causa da morte do indivíduo. Ora, onde não há morte, não há casamentos; e, por isso, os filhos da ressurreição serão como os anjos de Deus” (Agostinho, citado em Catena Aurea).

Quanto ao fato de que viveremos como anjos, o Senhor se refere à imortalidade, mas também a que não haverá mais necessidade de relações sexuais. Isso pode parecer frustrante para algumas pessoas, sobretudo nesta nossa época superssexualizada. No entanto, a intimidade entre os esposos no céu será muito maior do que qualquer união meramente física. Haverá entre eles uma alegria tão grande que tornará opacos os demais prazeres. Aqui também os Padres da Igreja são unânimes:

  • “Nosso Senhor nos indica que na ressurreição não haverá relações carnais” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Dado que será destruída toda luxúria carnal […], os homens se tornarão semelhantes aos santos anjos” (Cirilo de Alexandria, Hom. 136 super Luc.).

Os casais devem olhar com esperança para um relacionamento que será pleno e perfeito no céu, e não uma vaga lembrança. Embora, é verdade, os aspectos jurídicos do matrimônio cheguem ao fim com a morte, a união de vida e corações não passará. Em Cristo, permanece uma conexão espiritual, uma aliança de amor que se estende dos céus à terra, e no céu o Senhor irá com certeza levar à plenitude o que Ele uniu na terra, dando aos esposos uma alegria e união inimagináveis:

Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo (Ct 6, 7-8).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar
Virgem Maria

Cinco lições
que a Assunção tem a nos ensinar

Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar

A bela festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
imprimir

Diante da enxurrada de males que inundam hoje a Igreja de Cristo, acabamos facilmente perdendo de vista o que deve ser para nós um consolo e estímulo constantes à prática da virtude: a única finalidade dos nossos esforços é a vida eterna no Reino de Deus, a Jerusalém celeste, a Igreja em sua perfeição materna e imaculada, junto de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de todos os anjos e santos.

O caminho que devemos percorrer até lá chegar é a caridade e a busca da santidade. E a belíssima festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Esta festa tem muito a ensinar; consideremos, porém, somente cinco coisas:

1) Em primeiro lugar, não temos morada definitiva nesta terra, este vale de lágrimas mortal, passageiro, infestado de pecados. Em sua imutável eternidade, Deus pensou em cada um de nós, criou-nos para si mesmo e colocou-nos no jardim deste mundo para cultivá-lo e guardá-lo, até que chegasse o momento de conduzir-nos àquele grande e belo paraíso do qual este mundo é sombra opaca, ou precipitar-nos para todo o sempre no inferno, por causa da nossa preguiça, desobediência e desprezo pelo chamado que nos fizera o nosso Criador.

Mas por que — alguém poderia pensar — temos nós de permanecer neste mundo por algum tempo antes de sermos elevados à morada eterna dos santos? Os seres humanos, sendo criaturas racionais, devem alcançar seu próprio fim passo a passo, e não de imediato, com um único ato (como foi o caso dos anjos, logo após serem criados). A condição humana, tal como Deus a quis, consiste em crescer até a maturidade, em crescer no conhecimento e na entrega de si mesmo. A nossa vida na terra, portanto, é uma escola de virtudes, de oração e amor, é um período de prova para saber o que realmente valemos e para onde queremos ir por toda a eternidade. E vemos que Nossa Senhora foi a melhor aluna desta escola: é aquela que escutou o Pai, recebeu sua Palavra e a deu livremente ao mundo.

A Assunção da Virgem, pintada por Murillo.

2) Em segundo, a nossa condição real não é a de um fantasma, nem a de uma ideia ou de um anjo, puramente espiritual. Não, somos feitos de carne e osso, somos o ponto de encontro entre o visível e o invisível. O Verbo se faz carne para redimir e divinizar este animal racional que somos nós, para lhe aperfeiçoar tanto a racionalidade como a animalidade. Em Cristo ressuscitado vemos, pois, perfeição tanto de espírito como de matéria. Eis aí o nosso destino: ressuscitar dos mortos, com nossas carnes íntegras e nossa alma unida ao corpo — a pessoa humana inteira, criada por Deus do pó da terra e insuflada com o sopro divino.

É o que já aconteceu com a Virgem Maria: ela, que não conheceu a corrupção do pecado, não havia de conhecer a corrupção do sepulcro; ela, em cujo ventre habitou a Palavra viva e vivificante, não havia de ser acorrentada pela morte: antes, pelo contrário, em toda a beleza de sua natureza humana, intacta, íntegra e cheia de graça, ela foi assunta em corpo e alma à glória do céu, tendo já alcançado plenamente a promessa da ressurreição.

3) Em terceiro lugar, a festa da Assunção nos ensina que as leis da natureza, por terem em Deus sua origem última, não limitam o poder e a vontade divina. Nossa Senhora foi elevada aos céus, contrariando assim o que chamamos de “leis físicas”, mas em total harmonia com a lei suprema que é a vontade de Deus. Ela entrou em outra dimensão, que não é medida pelo movimento de corpos corruptíveis e pelo tempo que eles levam para ir de um lugar a outro, uma dimensão muito acima do nosso espaço e tempo. Assim também aconteceu com Nosso Senhor em sua Ascensão, isto é, quando Ele subiu ao céu e “uma nuvem o ocultou aos olhos” dos Apóstolos (At 1, 9). Foi o jeito que o evangelista encontrou de dizer que Jesus saiu deste mundo criado e entrou na dimensão própria de Deus, a sua “terra pátria”, misteriosa e inefável, oculta a olhos mortais, mas agora aberta, graças à sua Paixão e Cruz, a quantos forem salvos.

4) Em quarto, a festa de hoje nos ensina a enorme dignidade do corpo humano, templo do Espírito Santo, que não deveríamos nunca profanar com lascívia ou impureza, desfigurar com mutilação e tatuagens, destruir com vícios e indolências, idolatrar com certa obsessão por esportes e exercícios, nem aparentemente desprezar pela cremação de seus restos mortais. O corpo é a digníssima morada de uma alma imortal e do Corpo de Cristo na Santíssima Eucaristia; é o digníssimo instrumento de que Deus se serve para transmitir a vida humana; é o meio essencial por que realizamos obras de caridade espiritual e material. E é este mesmo corpo que há de ressuscitar no último dia. Não é o corpo, contudo, que nos faz humanos nem aquilo em virtude do qual nos tornamos filhos de Deus: isto quem o faz é a nossa alma espiritual, que dá vida ao corpo e, por meio dos sacramentos, recebe o dom da graça santificante. Reconhecer o valor do corpo à luz de sua ordenação à alma e à vida eterna é a chave para debelar vários males atuais que tão mal fazem à carne.

5) Em quinto e último lugar, a Assunção nos revela que Nossa Senhora está perto, muito perto de Nosso Senhor: ela vê nossas necessidades e intercede por nós junto a Ele, assim como fizera outrora nas bodas de Caná: “Eles não têm mais vinho”. Ela sabe do que precisamos, ela escuta os pedidos de seus filhos e lhes providencia o necessário, como faria toda mãe amorosa, e ela é a mais amorosa de todas. E Jesus, que já sabe do que precisamos, como já sabia da falta de vinho nas bodas de Caná, está disposto a ouvir sua Mãe, dando-lhe assim a dignidade de cooperar para a nossa salvação.

A Assunção, pois, traz Nossa Senhora para mais perto de nós do que nunca, justamente por elevá-la para junto do Senhor, que está presente sempre e em todos os lugares. Não temos nada a temer, porque temos uma Mãe tão atenciosa e um Redentor tão generoso.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

E se Tarcísio fosse seu filho?
Santos & Mártires

E se Tarcísio fosse seu filho?

E se Tarcísio fosse seu filho?

“Bonito o relato do martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? E se o jovem Tarcísio fosse seu filho? Você, como pai, o incentivaria à obediência ou à traição?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
imprimir

São Tarcísio — cuja memória a Igreja propõe à nossa meditação no mesmo dia em que celebra a Assunção da Santíssima Virgem Maria aos céus, dia 15 de agosto — morreu defendendo a Eucaristia, como se sabe. Os antecedentes de seu martírio mostram ainda que ele o fez não “em um ímpeto”, mas de maneira consciente, decidida, meditada de antemão. O Papa emérito Bento XVI chegou a contar os detalhes da história em uma de suas audiências

Certo dia, quando o sacerdote perguntou, como geralmente fazia, quem estava disposto a levar a Eucaristia aos outros irmãos e irmãs que a esperavam, o jovem Tarcísio ergueu-se e disse: “Envia-me a mim!”. Aquele rapaz parecia demasiado jovem para um serviço tão exigente! “A minha juventude — retorquiu Tarcísio — será a melhor salvaguarda para a Eucaristia”. Persuadido, o sacerdote confiou-lhe então aquele Pão precioso, dizendo-lhe: “Tarcísio, recorda-te que um tesouro celestial está a ser confiado aos teus frágeis cuidados. Evita os caminhos frequentados e não te esqueças de que as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos. Conservarás com fidelidade e segurança os Sagrados Mistérios?”. “Morrerei — respondeu com determinação Tarcísio — antes de os ceder!”.

O restante desse episódio todos conhecemos:

Ao longo do caminho, encontrou pela estrada alguns amigos que, aproximando-se dele, lhe pediram para se unir a ele. Quando a sua resposta foi negativa eles — que eram pagãos — começaram a suspeitar e a insistir, e observaram que ele apertava ao peito algo que parecia defender. Em vão procuraram arrancar-lhe o que ele trazia; a luta fez-se cada vez mais furiosa, sobretudo quando vieram a saber que Tarcísio era cristão; começaram a dar-lhe pontapés e lançaram-lhe pedras, mas ele não cedeu. Em agonia, foi levado ao sacerdote por um oficial pretoriano chamado Quadrato que, ocultamente, também viria a tornar-se cristão. Chegou ali sem vida, mas apertado ao peito ainda conservava um pequeno pedaço de linho com a Eucaristia. Foi sepultado imediatamente nas Catacumbas de São Calisto.

O Papa Dâmaso mandou fazer uma inscrição para o túmulo de São Tarcísio, segundo a qual o jovem morreu no ano 257. O Martirológio Romano fixa a sua data no dia 15 de agosto, e no mesmo Martirológio inclui-se também uma bonita tradição oral, segundo a qual no corpo de São Tarcísio não foi encontrado o Santíssimo Sacramento, nem nas mãos, nem na sua roupa. Explicou-se que a partícula consagrada, defendida com a vida pelo pequeno mártir, se tinha tornado carne da sua carne, formando de tal modo com o seu corpo uma única hóstia imaculada, oferecida a Deus.

Esse bonito relato — que grupos de acólitos e coroinhas talvez até saibam de cor, dado que São Tarcísio é seu padroeiro — precisa ser meditado em toda a sua profundidade, porque, à luz de um exame meramente natural e humano, o que esse jovem romano fez não tem lógica. Não pode compreender essa história, de fato, quem não é católico, quem não crê no mistério da Eucaristia, quem não crê que o pão consagrado pelo sacerdote na Santa Missa não é mais pão, mas o Corpo e o Sangue do próprio Deus humanado. 

Sim, porque, em meio aos pontapés e pedradas de que Tarcísio era alvo, fosse aquele um pão qualquer, ele teria o dever de o entregar a seus perseguidores, a fim de se manter vivo. Afinal, na hierarquia dos bens criados, a vida humana possui muito mais dignidade que uma coisa e, no caso, um alimento. Mas Tarcísio tinha , e fé católica. Ele havia aprendido da Igreja que aquilo que trazia nas mãos não era uma coisa, mas um homem; e não um homem qualquer, mas Jesus Cristo, Deus que se fez homem. Diante disso, o quadro se invertia completa e infinitamente: Tarcísio tinha, diante de si, a própria vida e a de Deus; a sua humanidade e a de Cristo. Era preciso, pois, preservar aquele cujo “amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4), e morrer mártir.

“Coisa bela”, podemos dizer, e de fato é. Santo Tomás de Aquino explica em sua Suma Teológica (II-II, 124, 3 c.) que:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque, tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos”. 

Não nos basta, porém, reconhecer a beleza do ato de São Tarcísio. Os episódios da vida dos santos são-nos propostos não só para que os admiremos, mas também para que os imitemos, senão em sua literalidade, ao menos nas virtudes que os inspiraram.

Por exemplo, imagine a senhora, mãe, imagine o senhor, pai, que Tarcísio fosse seu filho. “Bonito o martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? O senhor e a senhora são católicos, crêem na presença real de Jesus na Eucaristia, vão à Missa todos os domingos, comungam com frequência… Mas o que aconselhariam a seu filho, caso ele se achasse em situação semelhante à deste mártir dos primeiros séculos? Melhor: que grito desesperado o sr. e a sra. dariam a seu filho nessa circunstância? Dir-lhe-iam, com a mãe dos Santos Macabeus: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (2Mb 7, 27.29)? Ou pedir-lhe-iam, como o tio de São José Sánchez del Río, que ele simplesmente fizesse o que seus algozes o instavam a fazer, só para se ver livre da morte?

Pintura digital de S. Tarcísio, por Gabrielle Schadt.

Sim, essa é uma situação extrema, e não seríamos capazes de fazer o correto contando apenas com nossas forças: o martírio, e a aceitação dele, só são possíveis com a graça de Deus. Sem ela, seríamos reféns da fraqueza de nossa carne. Fôssemos os pais de Tarcísio, nossa natureza, nossos sentimentos, a afeição natural que temos por nossos filhos, inevitavelmente nos compeliriam ao grito do “Poupai-o”; só a fé poderia nos fazer agir de modo diferente, e não qualquer fé, mas a da Igreja, isto é: a fé de que Deus se faz realmente presente nas espécies eucarísticas; a fé de que conservar em nosso coração a graça de Deus vale mais do que conservar todos os bens criados, inclusive a própria vida; a fé de que Deus recompensa os atos heroicos que fazemos por seu amor, e pune, por outro lado, as covardias a que cedemos, se movidos por nossa carne.

Mas e nós, cremos nisso?  

A começar pela Eucaristia: como são tratadas em nossas igrejas as hóstias consagradas, em cujas mínimas partículas acreditamos estar nada menos do que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus? Lidamos com esse sacramento conscientes de que “as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos”? Comungamos como quem ama de verdade a Nosso Senhor, ou entramos na procissão da Comunhão como quem participa de um rito qualquer? Comungamos discernindo o que vamos receber, ou como quem vai atrás de um simples “pedaço de pão”?

E quanto à nossa vida: como lidamos com as nossas próprias misérias? Como tratamos a vida sobrenatural da graça em nós, e que olhar temos para o pecado? Será que nós cremos realmente que é melhor morrer a cometer um só, um único pecado mortal que seja? Cremos que, por mais que haja sacerdotes à disposição, por mais que possamos sempre recorrer ao tribunal da misericórdia de Deus, devemos tomar muito cuidado para não abusar do perdão de Deus e transformar nossos arrependimentos e confissões em rotina, ou em um “ritual” puramente externo e superficial? Ignoramos, ou fingimos ignorar, que “a misericórdia foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela”?

Só por nos incitar a esse exame de consciência celebrar os mártires é um aprendizado valioso. A teologia do martírio é muito necessária para nós e para a nossa época, tão carentes que somos de virtudes, tão frios que somos na caridade, tão condescendentes que somos com o mal… Deus pede de nós o heroísmo de homens como São Tarcísio, como os Santos Macabeus do Antigo Testamento, como São José Sánchez del Río, e não a pusilanimidade e a covardia em que tantas vezes estamos afundados! Deus nos dá a sua graça não só para que levantemos, mas também para que deixemos de cair. E a nossa perseverança constitui uma espécie de “martírio silencioso”, de quem diz a Deus, dia após dia: “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2).

Quanto a nossos filhos, a vida sobrenatural que eles receberam no dia de seu batismo deve ser o bem mais precioso que eles têm a guardar — e nisso consiste a essência de uma boa educação, uma educação verdadeiramente católica. Por que do que adiantará, por exemplo, termos dado cultura a nossos filhos (coisa boa, e que ninguém negará que o seja); do que adiantará que tenhamos feito deles pessoas letradas, cheias de erudição, e que tenham se tornado “bons cidadãos” no futuro, se na eternidade eles se tornarem moradores do inferno, porque levaram esta vida decisiva na lama do pecado mortal? 

É por raciocinarem assim, com fé, que tantos pais têm preferido tirar os seus filhos do atual sistema educacional para educá-los em casa: porque eles sabem que o bem da alma de seus filhos — que o mundo a todo custo quer engolir — vale mais do que tudo. É por causa dessa fé que tantos santos pediam a Deus que levassem seus filhos deste mundo antes de eles cometerem um único pecado grave

Se ainda não chegamos a esse ponto, a essa disposição de entrega, convençamo-nos ao menos da necessidade de pedir a graça de querê-lo. Nós não nascemos para este mundo, tampouco devemos criar nossos filhos para ele. “Se Deus quis as gerações dos homens”, ensina o Papa Pio XI em sua encíclica Casti connubii, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Por que viver a modéstia?
Doutrina

Por que viver a modéstia?

Por que viver a modéstia?

Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um “quem”, não como um “quê”. A virtude da modéstia é uma proteção contra um sem número de perigos; desprezá-la, porém, um convite a uma multidão de pecados.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
imprimir

Em meu último artigo sobre modéstia, defini essa virtude e expliquei por que ela é essencial, e não opcional, à vida cristã. Ela está longe, é fato, de ser a virtude mais importante; mas, ainda assim, vivê-la é uma proteção contra um sem número de perigos, enquanto desprezá-la é um convite a uma multidão de pecados.

A modéstia é uma profunda necessidade humana. Por isso, não é possível rejeitá-la senão à custa da própria integridade e autoestima. Quantas mulheres não haverá por aí, feridas em sua dignidade, assombradas pela lembrança de terem sido usadas uma e outra vez apenas por causa de seus corpos? São vítimas de má instrução, de má educação, de maus conselhos. São mulheres carentes de modéstia, virtude intimamente vinculada ao fato e à percepção da dignidade humana. E por terem sofrido a falta que faz tal virtude, dela necessitam ainda mais para poder recuperar sua dignidade e a consciência do quanto valem, simplesmente por serem pessoas, que merecem ser amadas por si mesmas. Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um quem, não como um quê.

O cristão é chamado a proclamar a primazia do divino sobre o humano e deste sobre o animal. Reconhecemos, assim, a bondade natural e a capacidade de tornar-se santo de todo corpo animado por uma alma imortal, criada à imagem e semelhança de Deus: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7); “Vós me tecestes no seio de minha mãe […], nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas” (Sl 138, 13.14).

O corpo é criação de Deus, templo do Espírito Santo, purificado e ungido no batismo, herdeiro da promessa de ressuscitar um dia para a eterna bem-aventurança. A nossa aparência e o nosso comportamento deveriam ser testemunhas da verdade caracteristicamente católica — atestada com toda a clareza no Novo Testamento — de que tanto o matrimônio como o celibato honram o corpo humano como algo digno de amor, como canal da graça e sinal sagrado, quando consagrado pelos sacramentos de Jesus Cristo: “O corpo não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o corpo” (1Cor 6, 13).

Quer se trate do corpo físico, do corpo político ou do Corpo místico, cada um deles é, à sua maneira, uma unidade composta de várias partes distintas, distribuídas e relacionadas hierarquicamente. A pessoa humana, neste sentido, consiste numa hierarquia de elementos que lhe compõem a personalidade: há muitos níveis e camadas do “eu”, e nem todas elas devem estar à mostra. Um igualitarismo antropológico radical, que atribui igual valor ao corpo e à alma, ou às diferentes potências da alma — pondo, por exemplo, a imaginação ou a vontade no mesmo nível que a inteligência —, não está menos equivocado do que o igualitarismo político ou eclesiológico. 

A dimensão corporal da pessoa é inseparável do seu significado sacramental, sobretudo quando falamos do corpo nu. Este é o dom mais expressivo que os esposos podem oferecer um ao outro. Ao darem seus corpos, eles se doam a si mesmos, já que o corpo não é apenas algo que “possuo”, como se fora outra propriedade mais, mas parte daquilo que eu sou. A pessoa humana não “está” em um corpo, senão que ela é corporal: somos seres encarnados. Eis o que Santo Tomás nos tem a dizer a esse respeito:

Por que há no corpo natural tantos membros: mãos, pés, boca e assim por diante? Porque tais membros servem às diferentes funções da alma. Ora, a alma, enquanto tal, é causa e princípio desses membros, que são o que a alma é virtualmente. Com efeito, o corpo está feito para alma, e não ao contrário. Por isso, o corpo físico é como que certa plenitude da alma.

Por conseguinte, o corpo, mais do que qualquer outro dom que se possa dar, há de ser descoberto e possuído somente por aquele ou aquela a quem ele houver sido consagrado solenemente, à semelhança da Eucaristia, que, sendo o corpo verdadeiro de Cristo, há de ser recebido apenas pelo batizado que estiver unido a Cristo pela caridade. O corpo do marido, ensina São Paulo, já não pertence a ele, mas à sua esposa, e o corpo desta ao marido (cf. 1Cor 7, 4).

Vale a pena refletir sobre o estreito vínculo sacramental que une os esposos e a completa modéstia, a sensibilidade de alma, por ele exigida. A modéstia é uma virtude essencial, não porque os corpos ou as paixões sejam, em si mesmos, coisa vergonhosa, mas porque a bondade que lhes corresponde e o poder que têm de servir como ministros da graça impõem o dever de protegê-los de todo abuso, manipulação e desordem. Recordemos as belas palavras de São Paulo, tão exaltadas, tão cheias de amor por tudo o que Deus criou e redimiu: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Os seres humanos somos chamados a guardar o segredo da nossa personalidade, dom precioso que recebemos de Deus, mistério que não devemos expor para “consumo público”. Aos namorados e noivos, aos recém-casados e esposos de longa data foi confiada uma verdade divina, que eles têm o dever de defender contra as forças hostis que ameaçam profaná-la. Homem e mulher, no fundo, são dois segredos a serem compartilhados no amor; são como uma câmara íntima, que não deve ser escancarada, como uma praça pública: deve, pelo contrário, ser tratada com reverência, como se estivéssemos diante de um santuário ou do sacrário de uma igreja.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.