Por boca do profeta Jeremias, Deus repreendeu os pastores de Israel pela falsa doutrina e o mau exemplo (cf. Jr 23, 1-6). Eles permitiam às ovelhas desviar-se e substituir a Aliança de Deus pelas próprias opiniões, provocando erro e confusão. Quando veio Jesus, séculos mais tarde, o povo estava disperso como ovelhas sem pastor. Ele as amou e teve piedade delas, ensinando-as por palavras e exemplos (cf. Mc 6, 34).

No século passado, muitos líderes cristãos, inclusive sacerdotes e bispos católicos, negligenciaram ou enganaram seus rebanhos — o que se evidencia, de modo particular, pela ampla aceitação do individualismo, do subjetivismo e do consumismo, bem como pelo abandono das concepções cristãs de pessoa humana, sexualidade, matrimônio, família e sociedade.

Ao longo da história do povo de Deus, pastores e ovelhas se mostraram infiéis repetidas vezes, porque somos propensos ao erro, ao egoísmo e ao pecado. Por isso, cada um de nós e toda a Igreja temos sempre necessidade de purificação (semper purificanda), a fim de sermos aperfeiçoados em nosso conhecimento, amor e serviço generoso a Deus e ao próximo.

Para entender a crise atual, é preciso reconhecer que, antes da ordenação, nossos pastores eram ovelhas, educadas em famílias e paróquias específicas. Hoje, ensinam o erro intencionalmente na mesma proporção em que seus pais e pastores procuraram enganá-los. Mentiras foram e são ensinadas. Se isso não fosse frequente, nossas paróquias e famílias seriam muito diferentes. 

Geralmente, o clero e o laicato não alteram ou abandonam os ensinamentos de Jesus pelo desejo explícito de contradizer seu amor e sua verdade. Em vez disso, acreditam que suas experiências revelaram um sentido diferente do Evangelho, mais profundo e compatível com suas circunstâncias. Podem até mesmo ter aprendido crenças e práticas falsas em casa, na catequese ou no seminário. Naturalmente, também é possível que essas distorções sejam esforços egoístas de fazer a fé e a moral cristã corresponderem às próprias opiniões.

São Paulo chama a isso “conformar-se ao mundo”, e não a Cristo. Lidar com essa realidade em nossas vidas e na Igreja pode gerar tristeza, vergonha, confusão, frustração e raiva. Reagimos assim porque queremos que todos conheçam e amem a Deus e participem de sua vida abundante e eterna. Reconhecemos que viver segundo falsos caminhos (com ou sem culpa) é um perigo para nós e para os outros, e o que queremos é poupar a todos do sofrimento desnecessário causado pelo pecado. Queremos sobretudo que nossos pastores deem testemunho e suporte autênticos.

Mas se a nossa resposta ao erro e ao pecado não estiver enraizada no amor a Deus e ao próximo, poderá assumir formas corruptas que levam à negação (evitar lidar com o problema), ao desespero (por nos sentirmos impotentes) ou à ira (por ficarmos obcecados com a ideia de derrotar um mal sem solução). Só a união com Cristo nos pode dar a fortaleza e a caridade necessárias para ver e responder com a mesma autenticidade dele.

“O Bom Pastor”, por James Tissot.

Sabemos o que Jesus viu: pastores desobedientes e ovelhas dispersas; e sabemos como Ele respondeu: com uma compaixão nascida do amor. Sabemos o que Ele fez: ensinou dando testemunho da verdade e do amor de Deus e atraindo todos a si. Assim, permitiu que todos, pastores e ovelhas, participássemos de suas alegrias e tristezas, para além de tudo o que está certo e errado em nós, nos outros, na Igreja e no mundo.

A boa-nova é que não temos motivos para temer a verdade, nem mesmo quando ela revela situações prejudiciais ou catastróficas devidas ao erro e ao pecado. Podemos alegrar-nos e exultar com essa revelação, apesar das fortes e dolorosas emoções causadas por ela. Nossa alegria vem do fato de encararmos a verdade e de sabermos que Jesus está presente, atraindo-nos a si para que possamos participar de sua vida e dar uma resposta, arrependendo-nos do pecado, abandonando o erro e lidando da melhor maneira possível com tudo o que possa haver de errado em nossa vida e na Igreja.

Quando nos unimos a Cristo, nosso fardo se torna “leve” e não consegue nos esmagar como o fariam a negação e o desespero interminável. Ao contrário, ele nos dá esperança e vida — inclusive diante de males incorrigíveis deste lado do céu. Com Ele conseguimos aceitar a necessidade constante de purificação, enquanto admitimos e suportamos nossas falhas e as dos nossos pastores.

A tristeza sentida quando suportamos o mal não tomará conta de nós nem nos deixará paralisados. Em Jesus, ela se torna uma motivação contínua para permanecermos em combate, perseverando na oração e, se a Providência o permitir, corrigindo males concretos do nosso meio.

Essa purificação e essa tristeza podem ser suportadas, ainda que nossas vidas, famílias, paróquias, nação e cultura sejam destruídas em termos humanos, porque em Cristo nada pode nos separar de Deus e de seu amor. Na verdade, essa purificação e essa tristeza podem ser suportadas precisamente porque elas são o amor de Deus operando em nós à medida que lutamos com a nossa natureza caída e as nossas famílias, a Igreja e o mundo, que passam por períodos turbulentos. 

Portanto, diante dos desafios e sofrimentos da vida, não há necessidade de adaptar o Evangelho às nossas expectativas nem de desesperar por conta de escândalos e derrotas dolorosas. Precisamos apenas dar com alegria um testemunho diário de purificação e carregar a cruz com Ele. Isso é o Evangelho.

Evidentemente, nossos pastores desobedientes jamais aprenderam esse Evangelho, ou o esqueceram, ou decidiram subvertê-lo. Muitas ovelhas dispersas enfrentam o mesmo dilema. Perambulam inquietas, como cegos guiando cegos.

Ignorar, temer ou lamentar a situação não ajudará em nada. Tampouco ajudam as teorias da conspiração, as “soluções” simplistas e as discussões. Só descobriremos em Jesus a compaixão, a esperança e a força necessárias para sermos fiéis testemunhas dele, de sua verdade e de seu amor, se reconhecermos a realidade escandalosa, o erro e o pecado em nossas vidas. 

Guiados pela Providência, nosso testemunho poderá resolver ou não a crise de formas consideradas oportunas e satisfatórias, mas qualquer outra resposta com certeza será prejudicial e fútil para nós e para a Igreja. Temos de perseverar em nosso testemunho e rezar por nós e por nossos pastores: “Senhor Jesus, tende piedade de nós!”