O dia 19 de outubro marca o aniversário do sequestro do Beato Jerzy Popiełuszko (1947–1984). O jovem sacerdote, capelão do sindicato polonês Solidariedade, foi detido pela polícia secreta comunista quando retornava a Varsóvia após um ofício religioso em Bydgoszcz. Ele e o motorista foram capturados, mas este conseguiu escapar. Popiełuszko foi jogado no porta-malas. Ele também tentou escapar, mas foi espancado até ficar inconsciente. Ao fim e ao cabo, foi reanimado, torturado e executado (amarraram-no de tal modo que seus movimentos apertavam o nó de forca em seu pescoço). Com o corpo atado e preso a pedras, o padre foi arremessado numa represa no Rio Vístula para morrer afogado. Seu corpo foi recuperado no dia 30 de outubro.

Não tinha sido o primeiro ataque ao Pe. Popiełuszko. Ele sofrera um atentado poucos dias antes, quando arremessaram uma pedra no para-brisa de seu carro. Antes disso, foram plantadas armas no quarto da casa paroquial para que ele fosse acusado de inimigo do Estado. Ele já tinha sido “entrevistado” pelo promotor. 

Os “crimes” de Popiełuszko foram defender os direitos inalienáveis de seu povo: o direito de associação, de formar sindicatos livres e o direito à própria cultura. Ele era inflexível quanto à natureza não-violenta de sua resistência — o jovem sacerdote adotou o lema: “Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem” (Rm 12, 21).

Solidariedade era uma ameaça ao regime socialista na Polônia, tanto do ponto de vista de seus cidadãos (expondo a hipocrisia de um autoproclamado regime de “trabalhadores e camponeses” que era rejeitado pelos próprios trabalhadores) como do ponto de vista da União Soviética (cuja “assistência fraternal” aos moldes da que havia ocorrido na Hungria em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968 era temida pelos comunistas de Varsóvia). Os comunistas de Varsóvia haviam alimentado a esperança de extinguir o Solidariedade quando o General Wojciech Jaruzelski declarou  guerra ao próprio país, impondo a lei marcial em 13 de dezembro de 1981. Os ativistas do Solidariedade foram presos; o sindicato foi posto na ilegalidade e seu nome não devia ser pronunciado.   

O Pe. Popiełuszko não recebeu esse memorando.

Ele agiu com o Solidariedade tanto durante o período de legalidade do sindicato (de agosto de 1980 a dezembro de 1981) quanto depois que a associação foi banida. A arma escolhida por ele foi a oração.

Mural comemorando os 30 anos do “Solidariedade”, em 2010. No mesmo ano, o Pe. Popiełuszko foi beatificado por Bento XVI.

Pe. Popiełuszko se tornou o principal celebrante de uma “Missa pela Pátria”, rezada mensalmente na Igreja de Santo Estanislau em Varsóvia. A Missa era oferecida pelas intenções dos presos e mortos, pela Polônia e até por seus opressores. As homilias mensais dele focavam em direitos humanos básicos, recordando às pessoas que ao menos alguns de seus direitos preexistiam e não dependiam de qualquer governo. Entre eles estava o direito de associação.

A popularidade dos esforços e da pregação do Pe. Popiełuszko se espalhou como um incêndio por toda a Polônia, e o público da Missa pela Pátria só aumentava. Longe de relegar o Solidariedade ao esquecimento histórico, o frágil sacerdote na verdade manteve o movimento no centro das atenções. Nem a persuasão nem a intimidação podiam dissuadi-lo.   

Do ponto de vista do Ocidente e da Cortina de Ferro hoje inexistente, podemos nos alinhar instintivamente ao trabalho de Popiełuszko. Mas é sempre fácil ser engenheiro de obra pronta.

Em outubro de 1984, poucas pessoas esperavam que, cinco anos depois, a Polônia emergiria de seus 45 anos de pesadelo comunista. Em outubro de 1984, o septuagenário Konstantin Chernenko havia sucedido há pouco o chefe da KGB Yuri Andropov como cabeça da União Soviética. Mãos de ferro (ainda que um pouco esclerosadas) pareciam ser o padrão da época.

Do ponto de vista legal, Popiełuszko era foco de interesse acusatório. Em dezembro de 1983, teve início uma investigação acusatória focada no “abuso da liberdade de consciência e religião porque… [ele dizia em seus sermões que] o governo faz uso de falsidades, hipocrisia e mentiras, e por meio de leis antidemocráticas destrói a dignidade humana…”

César sempre considerou problemática a liberdade de consciência. Reconhecer que “a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus…” (Gaudium et Spes, 16), como o fez o Vaticano II, significa reconhecer que um homem tem outras lealdades para além de César, e que são relativos seus pretensos direitos sobre ele. A Sagrada Escritura pode ordenar dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, mas Deus sempre continua sendo Deus e sempre estará acima de César. Na verdade, assim como as leis de César são inerentemente limitadas, o mesmo acontece com o próprio homem: “No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer” (Gaudium et Spes, ibid.). A consciência é sagrada, mas a dignidade humana vem de Deus.

Os Pais Fundadores dos Estados Unidos reconheceram isso ao admitir que as pessoas “receberam do Criador certos direitos inalienáveis”. Quando César os viola, perde o direito de exigir obediência. César, no entanto, é propenso à apoteose [isto é, à autodivinização]: ao arrogar para si a soberania, ele insiste em determinar quando a consciência pode exigir algo e quando não pode.

O Beato Jerzy Popiełuszko.

Pe. Jerzy Popiełuszko disse não a isso. Ele não estava desvinculado da realidade. Conhecia muito bem as realidades geopolíticas nas quais ele e seu país se encontravam. Mas também reconheceu — tal como diria Václav Havel mais tarde — que o homem não precisa “viver na mentira”. César pode até estar presente, mas não deve ser confundido com Deus, menos ainda lisonjeado como uma deidade beneficente.

Popiełuszko não defendeu o uso da violência. Na verdade, ele falou explicitamente em combater o mal com o bem. Não propôs o recurso à violência, mas era um revolucionário: propunha uma revolução da consciência que se recusava a “viver na mentira”. Clamava por uma revolução da consciência que reconhecesse os direitos humanos como dons de Deus, e não do governo. Clamava por uma revolução do espírito que reconhecesse isto: a dignidade humana vem do fato de o homem ser feito à imagem e semelhança de Deus

Hoje, os direitos de consciência estão se tornando cada vez mais um assunto controverso no próprio Ocidente, pois César procura impor seus próprios valores como preço da cidadania. Talvez não sejamos chamados a dar o mesmo testemunho do Pe. Popiełuszko, mas seu exemplo de defesa dos direitos de consciência deve nos inspirar. Ele enxergava no homem mais do que simples matéria: enxergava a imagem d’Aquele a quem devia sua total lealdade e a quem serviu fielmente até a morte.  

Estaremos prontos para defender esses direitos quando César os negar, na verdade, quando estiver disposto a penalizar aqueles que o desafiam?

A festa do Pe. Popiełuszko coincide com a festa dos mártires norte-americanos, jesuítas franceses martirizados pela fé no século XVII [i]. A morte de Isaac Jogues, João de Brébeuf e seus companheiros foi, sob muitos aspectos, tão sádica quanto a de Popiełuszko. Também eles foram testemunhas de Deus ao reconhecer o nobre chamado daqueles com quem viviam e em meio aos quais morreram. O sacerdote-mártir continua sendo um tesouro especial da Igreja.

Notas

  1. Os mártires norte-americanos são João de Brébeuf e Isaac Jogues, presbíteros, e Gabriel Lalemant, Antônio Daniel, Carlos Garnier, Natal Chabanel, Renato Goupil e João de la Lande. O dia do martírio deste último, 19 de outubro, foi escolhido no atual Calendário Romano para celebrar a memória de todos. No rito antigo, a memória dos mártires era feita no dia 26 de setembro. Por sua importância local, esses santos só são lembrados na América do Norte. (N.T.)