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Pornografia, prostituição e “mulheres de mentira”
Sociedade

Pornografia, prostituição
e “mulheres de mentira”

Pornografia, prostituição e “mulheres de mentira”

A pornografia não satisfaz mais. Estão chegando à América os bordéis com “bonecas sexuais”, feitas de silicone e aperfeiçoadas para parecerem o máximo possível com mulheres de verdade.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2018
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No ano passado, eu participei do programa de rádio de um amigo para discutir um dos assuntos mais estranhos sobre os quais já fui convidado a falar: a ascensão dos chamados “robôs sexuais”.

Em alguns países — sendo o Japão o mais notável deles —, esses robôs foram aperfeiçoados ao ponto de ficarem com a aparência muito próxima à forma humana e, apesar de serem o passo tecnológico seguinte em uma cultura tomada pela pornografia, eles têm sido anunciados por alguns como uma “válvula de escape” para as pessoas com desejos sexuais depravados. De fato, um dos outros convidados do programa, uma mulher, afirmou não ver problema em pedófilos que tivessem “bonecos sexuais de crianças” (algo já experimentado): melhor isso, ela disse, do que tê-los satisfazendo seus desejos machucando pessoas de verdade.

Na ocasião, eu discordei fortemente dessa perspectiva, destacando que muitas pessoas inicialmente pensaram que a pornografia violenta, também, poderia ser uma forma de impedir indivíduos com tendências violentas de satisfazer seus desejos com seres humanos reais; pensava-se que a pornografia poderia servir, ao contrário, como uma “válvula de escape” para esses desejos.

O que nós infelizmente descobrimos ao longo dos últimos anos é o exato oposto disso: a pornografia cria esses desejos perversos nas pessoas que inicialmente não os tinham, fortalece-os naqueles que já tinham tendências violentas, e inflama-os de forma a encorajar a sua prática. Em outras palavras, a pornografia não serve como um “escape”; serve, isso sim, para fortalecer ou até mesmo desencadear tendências sexuais violentas.

Com bonecas, é claro, isso pode se tornar ainda mais perigoso. Pessoas com fantasias sexuais depravadas poderão, possivelmente pela primeira vez, ver esses desejos satisfeitos de um modo físico e sensorial, se bem que com um “escape” não-humano. O resultado disso, eu apontei, é que nós estaremos encorajando e fortalecendo ainda mais esses desejos.

Com mais pesquisa depois, descobri que eu não era o único com esse argumento: um professor chegou a pedir ao governo britânico que barrasse a importação dessas bonecas, sublinhando o fato de que uma delas havia sido inclusive programada para “resistir a investidas” — autorizando o consumidor a tomar parte no que, em essência, é um estupro simulado. Esse tipo de coisa, ele notou, poderia encorajar comportamentos sexuais violentos.

Revisito aqui essa entrevista de rádio só porque o jornal canadense Toronto Star noticiou que a cidade de Toronto em breve terá o primeiro “bordel de bonecas sexuais” da América do Norte, oferecendo ao público uma variedade de bonecas sexuais feitas de silicone para aluguel. Eles planejam abrir o negócio em um shopping da cidade, e estão prometendo bonecas de várias etnias e de vários padrões de beleza, com preços que vão de 80 dólares canadenses por meia hora a 160 por duas bonecas.

O bordel promete que as bonecas terão aparência e sensibilidade de pessoas reais, e que haverá um processo triplo de higienização depois do uso por cada consumidor. Haverá uma equipe no “prostíbulo”, mas aparentemente eles não dirão palavra alguma aos consumidores para assegurar que sua experiência sexual não seja descarregada em um ser humano de verdade depois.

Na reportagem em questão, uma linha em particular chamou-me a atenção: “De acordo com o site Aura Dolls, a companhia por trás do bordel, a ideia é trazer uma nova forma de satisfazer as próprias necessidades sexuais ‘sem as muitas restrições e limitações com que pode vir uma companheira de verdade’.”

Entendeu? O que eles estão dizendo é que as “restrições e limitações” de uma parceira real — isto é, humana — não existem com uma boneca, e que todas as fantasias obscuras, esquisitas e violentas que não podem ser realizadas com uma pessoa real não precisam ser restringidas — elas podem ser realizadas com uma boneca de aparência humana. A mensagem é que esses desejos não precisam ser suprimidos — por 80 dólares, eles podem ser experimentados. Além do mais, quem pode dizer que qualquer desejo sexual é realmente errado em nossa cultura relativista e sexualmente liberal?

Nós já vimos isso antes. Por exemplo, uma das razões por que prostitutas recebem tanta violência de seus clientes é que — como um anônimo disse bem sucintamente em um relatório submetido à Câmara dos Comuns do Canadá durante um debate sobre prostituição — “com uma prostituta você pode fazer coisas que não faria com uma mulher de verdade”. Esse homem sequer parou para pensar no que ele disse, porque a pornografia objetifica e desumaniza as mulheres ao mesmo tempo em que inflama desejos exóticos que antes estavam “dormentes” ou sequer existiam.

O fenômeno dos “robôs sexuais” é simplesmente mais um passo nessa mesmo direção — e um passo ainda mais perigoso.

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Egoísmo, esterilidade e sacrilégio: a antirreligião de Satanás
Doutrina

Egoísmo, esterilidade e sacrilégio:
a antirreligião de Satanás

Egoísmo, esterilidade e sacrilégio: a antirreligião de Satanás

Assim como a Igreja existe para a salvação eterna de todos, Lúcifer construiu aos poucos uma antirreligião, um catolicismo falsificado, que tem como propósito a condenação de todos os homens ao inferno.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2018
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Nós já vimos como Lúcifer, recusando-se a servir ao Deus da fertilidade e do amor sacrificial, mereceu sua própria isolação e esterilidade eternas, e como ele sempre procura conduzir as almas dos homens ao seu reino de egoísmo. Em particular, a recusa de subordinar o natural ao sobrenatural é o traço que o define. Isso explica o porquê de ele odiar o celibato e a virgindade mais do que qualquer coisa neste mundo.

Satanás odeia o Matrimônio pela mesma razão: também ele consiste em uma vida de autossacrifício — possível apenas graças à bênção divina —, um estado destinado a multiplicar os filhos de Deus, que terão o potencial de receber a elevação sobrenatural da graça e gozar da glória celeste, da qual se privou o demônio. Quão misterioso é o poder, dado ao ser humano, de gerar vida! Ser convidado a associar-se ao Criador! Tomar parte na origem da própria criação ex nihilo: eis um poder que nenhum espírito angélico possui. Trata-se de uma participação direta no ato criador de Deus.

Como explica o grande teólogo tomista Scheeben, se Adão e Eva não tivessem pecado, eles teriam transmitido não apenas a vida natural a sua descendência, mas também a vida sobrenatural: seus filhos seriam concebidos e nasceriam em estado de graça. É por isso que o demônio odiava tanto nossos primeiros pais, resplendentes de graça como eram: ele sabia que, a partir de seus corpos, floresceria toda uma raça destinada à glória imortal juntamente com os anjos. Ainda que nós agora estejamos em uma condição decaída, e não mais demos à luz “filhos de Deus” [1], permanecem conosco o privilégio da procriação e a liberdade de cooperar com Cristo na santificação de nossos filhos.

Como o Papa Pio XI atesta com eloquência no maior documento pontifício já escrito sobre o Matrimônio e a família:

Para apreciar a grandeza deste benefício de Deus e a excelência do Matrimônio, basta considerar a dignidade do homem e a sublimidade do seu fim. Na verdade, o homem ultrapassa todas as outras criaturas visíveis, já pela excelência de sua natureza racional. Mas acresce que, se Deus quis as gerações dos homens, não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, o conhecessem, o amassem e o gozassem eternamente no Céu; em consequência da admirável elevação do homem, feito por Deus à ordem sobrenatural, este fim ultrapassa tudo o que “os olhos vêem, os ouvidos ouvem e o coração do homem pode conceber” (cf. 1Cor 2, 9). Por isso se vê facilmente quão grande dom da bondade divina e que precioso fruto do Matrimônio é a prole, nascida pela virtude onipotente de Deus e com a cooperação dos esposos […].

Embora os cônjuges cristãos, conquanto sejam santificados eles próprios, não possam transmitir a sua santificação aos filhos, porque a geração natural da vida se tornou, ao contrário, caminho de morte, pelo qual passa à prole o pecado original, eles participam, todavia, de algum modo, da condição da primeira união no paraíso terrestre, cabendo-lhes oferecer a sua prole à Igreja, a fim de que esta mãe fecundíssima de filhos de Deus a regenere pela água purificadora do Batismo para a justiça sobrenatural e a torne prole de membros de Cristo, participantes da glória, à qual todos aspiramos do íntimo do coração (Casti Connubii, 13-14).

Satanás fez o que estava a seu alcance para frustrar esse plano — e assim ele faz com cada um de nós, se o deixarmos agir. O diabo se opõe tanto à geração natural quanto à sobrenatural: ele procura impedir que homens e mulheres usem o dom de sua sexualidade para trazer mais vida ao mundo; ele procura convencê-los a matar o fruto que carregam; ele procura afastá-los da fonte de imortalidade que são os sacramentos da Igreja.

Odiando a procriação, ele reuniu todas as suas forças a fim ou de impedi-la por meio da contracepção ou de destruir os seus frutos por meio do aborto. A contracepção é uma abominação da desolação no meio do templo, que é o corpo humano santificado pelo Espírito Santo: através dela, o Deus que dá vida é expulso como se fosse um espírito mau, e em seu lugar é entronizado o espírito da luxúria e da avareza, que faz do ventre estéril sua casa, como uma igreja sem sacrário e sem Presença Real.

Contra o espírito demoníaco de egoísmo, os cônjuges cedem o direito que têm de autodeterminação sobre seus próprios corpos justamente quando prometem amor fiel um ao outro até a morte, venha o que vier. Cristo, também, é fiel à sua Igreja, aconteça o que acontecer, e nunca desiste de seus membros pecadores até que todas as pessoas destinadas à glória alcancem a Pátria.

À luz da fidelidade de Deus ao povo pecador de Israel, bem como da fidelidade de Cristo à sua Igreja ainda imperfeita, o divórcio não passa de uma ficção irredimível; o adultério, de uma abominação; e a Comunhão eucarística para “recasados”, de um ato de sacrilégio por meio do qual o Salvador é cuspido, flagelado, coroado de espinhos e crucificado no seu Santíssimo Sacramento.

Não nos iludamos a esse respeito: Lúcifer, com sua pseudopaciência de espírito imortal, construiu aos poucos uma antirreligião, um catolicismo falsificado, que tem como propósito a condenação eterna dos seres humanos, assim como a religião católica tem como propósito a salvação eterna de todos:

  • o divórcio, e com ele o adultério, é o antissacramento do Matrimônio;
  • a contracepção, e a partir dela o aborto, é o antissacramento do Batismo;
  • a autoindulgência da masturbação e da homossexualidade é o antissacramento da Confirmação, que produz autocontrole e fortaleza;
  • a eutanásia é o antissacramento da Extrema Unção;
  • no lugar do sacramento da Ordem, há a paternidade negligente e o feminismo que odeia os homens;
  • no lugar do sacramento da Penitência, há a satisfação hedonista de todo apetite corporal;
  • no lugar da Eucaristia, há a idolatria do mundo, da carne e do demônio.

Agora podemos enxergar melhor a ligação entre a frase da Irmã Lúcia, de que “a batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre o Matrimônio e a família”, e a condenação de Joviniano por negar a superioridade do celibato e da vida virginal consagrada a Deus. Falsas doutrinas sobre o Matrimônio e o “relaxamento” na disciplina do celibato clerical são dois flancos de um mesmo exército que sitia a Cidade de Deus nesta terra.

Qualquer palavra e ação contra a santidade do Matrimônio, o bem da família ou as elevadas vocações à vida religiosa e sacerdotal, tem sua origem no General do exército, no Inimigo da humanidade. Ao enfrentarmos a pior confusão doutrinal e laxismo moral que a Igreja jamais suportou, imploremos ao Senhor, poderoso na batalha (cf. Sl 23, 8), que salve o seu povo e abençoe sua herança (cf. Sl 27, 9).

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Fertilização “in vitro” com os dias contados!
Sociedade

Fertilização “in vitro”
com os dias contados!

Fertilização “in vitro” com os dias contados!

Quer ter filhos, mas não consegue? Conheça a “naprotecnologia”, uma alternativa católica e muito mais viável do que a “fecundação in vitro”, mas pouco conhecida devido ao preconceito dos médicos e ao lobby anticristão.

Rodolfo Casadei,  TempiTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2018
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Levando em conta a porcentagem de nascimentos entre casais que seguem os tratamentos, seu índice de êxito é o dobro em comparação à fecundação assistida; seu custo é onze vezes menor, apesar de ela ser realizada por poucos médicos em todo o mundo; ela foi boicotada pelos lobbies da proveta e tem sido ignorada pelos sistemas de saúde nacionais. A naprotecnologia nasceu nos Estados Unidos e chegou à Europa há alguns anos, mas segue enfrentando o preconceito de quem a considera uma abordagem confessional da medicina, condicionada por dogmas religiosos.

Nada mais longe da realidade. É verdade que as práticas da naprotecnologia conformam-se rigorosamente à bioética católica; todavia, está comprovado que sua abordagem do problema da esterilidade é científica e clinicamente mais rigorosa do que aquela praticada no âmbito da fecundação assistida. Até por isso ela é mais eficaz: as estatísticas o confirmam.

“A diferença entre a naprotecnologia e a fecundação in vitro consiste no fato de que na primeira a questão fundamental é o diagnóstico das causas de infertilidade”, explica Phill Boyle, ginecologista irlandês que ministra os cursos de formação em naprotecnologia para médicos de toda a Europa, em uma clínica da cidade de Galway. “O que se procura é uma explicação médica do por que um casal não consegue procriar, cuidando assim de eliminar o problema e ‘ajustar’ o mecanismo natural, devolvendo-lhe a harmonia.”

“No procedimento in vitro, ao contrário, o diagnóstico das causas não tem importância, os médicos querem simplesmente ‘ignorar o obstáculo’, levando a cabo uma fecundação artificial. Na naprotecnologia, o tratamento resolve o problema do casal, que depois pode ter outros filhos. Com o método in vitro, os cônjuges não se curam e seguem sendo um casal estéril, e para ter mais filhos deverão sempre confiar em um laboratório.”

A naprotecnologia é a verdadeira fecundação assistida”, ironiza a ginecologista Raffaella Pingitore, a maior especialista de língua italiana no método, e que atua na clínica Moncucco, na cidade suíça de Lugano. “No sentido de que assistimos a concepção do início ao fim, ou seja, desde a fase de distinção dos marcadores de fertilidade na mulher até as intervenções farmacológicas e/ou cirúrgicas necessárias para permitir que o casal chegue de um modo natural à concepção.”

O nome do método deriva do inglês natural procreation technology, “tecnologia de procriação natural”. Mais que uma tecnologia, é um conjunto de técnicas diagnósticas e intervenções médicas que tem como objetivo discernir a causa da infertilidade e sua remoção específica.

Começa-se com as tabelas do modelo Creighton, que descrevem o estado dos biomarcadores da fecundidade durante todo o ciclo menstrual da mulher, e que se baseiam principalmente na observação do estado do muco cervical, feita pela própria mulher. O pilar que sustenta toda a naprotecnologia é a capacidade da mulher de se observar: ela é formada para isso na parte inicial do percurso. As tabelas corretamente preenchidas, com o estado do muco cervical dia após dia e os outros dados, são a base de todos os passos sucessivos. A partir disso já é possível diagnosticar carências hormonais, insuficiências lúteas e outros problemas passíveis de serem tratados com a receita dos hormônios que faltam.

Se a infertilidade persiste, prossegue-se com o exame detalhado do nível dos hormônios no sangue, a ecografia da ovulação e a laparoscopia avançada. Podem ser necessárias, então, intervenções de microcirurgia das trompas ou de laparoscopia avançada para remover as partes prejudicadas pela endometriose. O resultado final é uma porcentagem de nascidos vivos entre 50 e 60% do total dos casais que realizam os tratamentos durante no máximo dois anos (mas a maior parte concebe no primeiro ano), contra uma média de 20 a 30% entre os que recorrem aos ciclos da fecundação in vitro (em geral, seis ciclos).

“Uma das coisas que mais me escandaliza é a ampla negligência que existe no diagnóstico das causas de infertilidade”, explica Raffaella Pingitore. “Hoje, depois de poucos exames práticos, a mulher é encaminhada aos centros de fecundação assistida. Chegamos ao ponto de, há alguns anos, a ‘Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva’ (American Society for Reproductive Medicine) ter declarado a insuficiência lútea como inexistente, porque não podia ser ‘cientificamente’ diagnosticada. Nós temos condições de diagnosticá-la porque envolvemos a mulher e pedimos a ela que observe e descreva diariamente o estado de seu muco cervical. Esse procedimento nos permite diagnosticar a insuficiência lútea. Mas isso para muitos médicos é impensável: eles se limitam a colher uma amostra no 21.º dia do ciclo menstrual para medir o nível de progesterona. Mas só 20% das pacientes têm um ciclo perfeitamente regular, pelo que esse dado é quase sempre inútil para o diagnóstico.”

“Nos Estados Unidos, em Omaha, no estado de Nebraska, iam visitar o doutor Thomas Hilgers, o verdadeiro criador da naprotecnologia, mulheres às quais a endometriose havia sido descartada depois de uma laparoscopia. Mas, realizando-se uma laparoscopia mais avançada, descobria-se que em 90% dos casos a endometriose existia. Comigo aconteceu muitas vezes a mesma coisa. Uma laparoscopia avançada deveria ser uma prática padrão nos testes de esterilidade, mas, por se tratar de uma intervenção cirúrgica, a hostilidade é grande.”

Que o recurso indiscriminado à fecundação assistida esteja associado à negligência diagnóstica, é algo que se deduz também pelo elevado número de pacientes que recorrem com sucesso à naprotecnologia depois de ciclos fracassados de fecundação in vitro. O doutor Boyle afirma que nos últimos seis anos, no grupo de suas pacientes com menos de 37 anos que já haviam tentado dois ciclos de fecundação assistida, o percentual das que conceberam graças ao método de procriação natural é de 40%.

Raffaella Pingitore conta sua experiência pessoal:

A paciente tinha 36 anos e desejava uma gravidez há oito anos; havia realizado no passado cinco ciclos de fecundação assistida sem êxito. Fiz com que ela registrasse a tabela dos marcadores de fertilidade, e notamos que havia uma fase satisfatória de muco fértil, mas os níveis hormonais estavam um pouco baixos, o que indicava uma ovulação um pouco defeituosa. Havia também sintomas de endometriose; realizei uma laparoscopia, encontrei a endometriose e coagulei os focos da doença no útero, nos ovários e nas trompas. Depois a submeti a uma terapia para que ela ficasse em menopausa durante seis meses: deste modo secavam-se bem todos os focos de endometriose que talvez ainda existissem; depois da terapia continuei com um fármaco, o Antaxone, com a dieta e com apoio da fase lútea com pequenas injeções de gonadotropina. Isso levou ao aumento dos hormônios, e no quarto mês de tratamento havia se alcançado um muco muito bom. No 17.º depois da ovulação realizamos o teste de gravidez, que resultou positivo.

O cuidado do profissional eticamente motivado pode mais do que as técnicas artificiais. Prova-o a história da doutora Pingitore, e provam-no as estatísticas do doutor Boyle. Na Irlanda, ao longo de quatro anos, o ginecologista curou 1.072 casais que há mais de cinco anos lutavam para ter um filho. A idade média das mulheres era de 36 anos, e quase um terço delas já havia tentado ter um filho com a fecundação in vitro. Após seis meses de tratamento naprotecnológico, a eficácia do método foi de 15,9%. Após um ano, 35,5%. Após um ano e meio, 48,5% das pacientes havia ficado grávida. Se o tratamento durava dois anos, quase 65% das pacientes chegavam à gravidez.

Com uma base de pacientes muito menor, a doutora Pingitore, no biênio 2009-2011, obteve uma média de 47,3%. Nos Estados Unidos (país onde não existem leis limitando o número de embriões fecundados que podem ser transferidos para o útero), os índices de sucesso da fecundação assistida depois de seis ciclos são os seguintes: 30-35% para mulheres com idade inferior aos 35 anos; 25% para mulheres entre os 35 e os 37 anos; 15-20% para mulheres entre os 38 e os 40; 6-10% para mulheres com idade superior aos 40 anos.

Depois temos a questão (de modo algum secundária) dos custos, ainda que na Itália ela seja pouco discutida porque, à parte as pacientes com plano privado de saúde, as despesas da fecundação assistida correm a cargo do sistema público de saúde. Em tempos de austeridade econômica e de efeitos deletérios da dívida pública, no entanto, um olhar à relação de custo-benefício deveria valer também para nós. O fato é que, se comparamos os custos de dois anos de tratamento naprotecnológico com os de seis ciclos de fecundação assistida, a segunda custa onze vezes mais do que a primeira.

Um único ciclo de fecundação in vitro custa na Itália em torno de 3.750 euros, mais 1.000 euros de medicação, pelo que seis ciclos custariam 28.500 euros, aos quais se acrescentam outros 800 para o congelamento e a manutenção dos embriões, e 1.200 para a transferência dos mesmos, em um total de 30.500 (R$ 131.812, hoje). Por outro lado, ainda que se alargasse para dois anos o tratamento com a naprotecnologia, seus custos são modestos: 300 euros para o curso de formação nos métodos naturais, 800 para as consultas médicas e 1.500 para os medicamentos, em um total de apenas 2.600 euros. É provável que os parlamentos e os ministros da saúde europeus não sejam muito sensíveis aos temas bioéticos, mas eles dificilmente poderão fingir-se de surdos a pedidos para que se verifique a relação de custo-benefício entre os dois métodos.

“A naprotecnologia tem tudo para se difundir, ainda que seja só por um discurso ligado aos custos, nos quais vão incluídos também os efeitos colaterais da prática de fecundação assistida: não nos esqueçamos que as crianças que nascem com esta técnica têm mais probabilidade de malformações e problemas de saúde do que aquelas que nascem de forma natural”, recorda Raffaella Pingitore. “Em primeiro lugar, porém, é necessário vencer o lobby da procriação assistida. Trata-se de um lobby bilionário, que enriquece centenas de pessoas e que não deixará tão facilmente que se lhe coloque o bastão entre as rodas.”

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Crise na Igreja? Estes dois santos podem ajudar!
Espiritualidade

Crise na Igreja?
Estes dois santos podem ajudar!

Crise na Igreja? Estes dois santos podem ajudar!

Os males que o Senhor permite que nos aconteçam são um chamado bem forte para nos despertar e fazer-nos redescobrir nossa identidade como discípulos de Cristo.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2018
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Nós temos sempre necessidade do exemplo e da doutrina dos santos para nos mantermos no caminho certo. Em outubro, a Igreja celebra as festas de muitos santos de elevada estatura. Dois deles, especialmente amados pelos católicos, são lembrados bem no começo do mês: Santa Teresinha do Menino Jesus (dia 1.º de outubro no novo calendário, e 3 no antigo) e São Francisco de Assis (4 de outubro em ambos).

Santa Teresinha ensina-nos a não deixar passar jamais as pequenas coisas, nas quais Deus se encontra conosco e através das quais nós demonstramos o amor que lhe temos.

São Francisco ensina-nos, por sua vez, que tudo não passa de uma grande perda em comparação com o amor extraordinário de Cristo crucificado.

Ambos tornaram-se santos por meio do caminho apertado (cf. Mt 7, 14), colocando Cristo cada vez mais em primeiro lugar e fugindo do pecado com cada vez mais determinação. Não é que Teresa e Francisco não tenham experimentado percalços ou fracassos — uma perfeição assim completa não é possível para nenhum ser humano decaído; como diz Santo Tomás, seremos totalmente perfeitos apenas na pátria celeste —, mas eles sabiam para onde estavam indo e como chegariam a seu destino, sem jamais se deixarem demover por qualquer obstáculo.

Nosso Senhor age poderosamente dentro de nós, mesmo com os entraves que nós mesmos tantas vezes colocamos à sua ação. Por isso, não devemos parar de entregar a Ele o nosso coração com aquele ato de vontade único, simples e fundamental de dizer: “Senhor, eu quero pertencer-vos, eu quero ser vosso por toda a eternidade. Fazei-me vosso pelo poder de vosso Espírito Santo.”

A raiz da atual crise por que passa a Igreja nada mais é do que a ausência de um desejo ardente por estar com Nosso Senhor Jesus Cristo e permanecer nEle hoje, todos os dias, até o dia final. É esse o fundamento da santidade e de absolutamente tudo na vida cristã. Sem esse desejo por uma união cada vez mais perfeita com Cristo, nosso Salvador, nada mais importa nem chega a fazer qualquer sentido. Eis o que temos de redescobrir — a começar por aqui, no meu e no seu próprio coração.

Os males que o Senhor está permitindo que nos aconteçam são um chamado bem forte para nos despertar e fazer-nos redescobrir nossa identidade e compromisso básicos como discípulos de Cristo. E porque geralmente o amor tem chances de se revelar mais nos pequenos do que nos grandes caminhos, como Santa Teresinha nos recorda, é preciso que nós nos humilhemos, buscando o Senhor todos os dias na oração — recorrendo à Confissão, à Missa, à adoração eucarística, bem como ao auxílio de Nossa Senhora e dos santos, não obstante os desânimos, aborrecimentos, maus sentimentos ou quaisquer outras coisas que tentem nos tirar do que nós sabemos ser nosso dever.

Nossa rotina diária parece incluir todo o tempo do mundo para o escrutínio intenso de notícias, para o “lançamento” de reclamações como se fôssemos navios em uma batalha naval, para a produção de análises que se encaixem aos fatos do dia e para o cultivo da ansiedade quase como uma atividade artística. Eu mesmo conheço bem a tentação de ser absorvido e se perder nessas coisas.

Não me entendam mal! É claro que existe um tempo para se manter atualizado com as notícias, para fazer críticas e análises de conjuntura, ainda que não seja por ansiedade ou angústia excessivas.

Eu acredito, porém, que Santa Teresinha e São Francisco nos diriam: Não se esqueça de reservar tempo, e cada vez mais tempo, para fazer uma oração recolhida, humilde, generosa e de coração pela Igreja e por todos os seus membros, desde o Papa até o mais simples dos leigos, ou por seja lá o que mais o esteja incomodando.

Faça isso por amor a Cristo, que amou e se entregou por você, e isso quando você era ainda um miserável pecador (cf. Gl 2, 20; Rm 5, 8). Rezar será muito mais eficaz para uma reforma verdadeira e duradoura da Igreja do que todo e qualquer “ativismo” com que estejamos habituados.

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Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil
Santos & Mártires

Seis lições dos mártires de
Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Quem são os santos protomártires do Brasil, qual a história do martírio que sofreram e o que têm eles a nos ensinar nos dias de hoje?

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2018
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Nos povoados de Cunhaú e Uruaçu, no estado do Rio Grande do Norte, em 1645, aconteceu um massacre perpetrado por invasores holandeses protestantes. Nesse episódio, morreram mártires inúmeros católicos, dentre os quais a Igreja elevou à honra dos altares 30 nomes: os sacerdotes André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, e incontáveis leigos, como Mateus Moreira, Estêvão Machado de Miranda e outros.

A memória desses santos, homens e mulheres de fé, deve ser celebrada em todo o Brasil no dia 3 de outubro, mas, infelizmente, poucos conhecem a sua história e menos ainda as lições que ela tem a nos passar.

1. Em primeiro lugar, o martírio de Cunhaú nos recorda a ligação íntima que os católicos têm com a Santa Missa dominical, ligação conhecida inclusive pelos inimigos da Igreja.

O morticínio que lá aconteceu, no dia 16 de julho, um domingo, foi precedido de uma convocação no dia anterior. Um servidor dos holandeses chamado Jacó Rabe e “conhecido de todos pelas suas frequentes incursões por aquelas paragens”

convocou, através de editais fixados nas portas da Igreja, todos os habitantes para uma reunião após a missa, a fim de transmitir-lhes ordens emanadas pelo Alto e Secreto Conselho Holandês. A intenção era aparentemente pacífica. Por isso, os moradores não levaram armas consigo porque, além de ser proibido o porte de armas pelas autoridades holandesas, tratava-se do cumprimento do preceito da missa dominical [1].

Ainda hoje, em muitos lugares da África e do Oriente Médio, os cristãos são com muita frequência vitimados justamente no domingo, durante a Missa. Alvos de terroristas muçulmanos, igrejas são bombardeadas e inúmeras pessoas mortas de uma vez só, enquanto oferecem a Deus o seu domingo, recordando a ressurreição de Nosso Senhor.

Nos países mais secularizados, porém, essa identidade está cada vez mais sob ameaça. A tendência é o ateísmo ou, quando muito, a adoção de uma crença intimista, que de católica tem muito pouco ou quase nada. Como consequência, as pessoas não vão mais à igreja, abandonam o culto público a Deus e levam a vida mais ou menos do mesmo modo: como se Ele não existisse.

A esta nossa época que se esqueceu de Deus é preciso lembrar: participar da Missa aos domingos é não só um preceito para os católicos, que estão obrigados a fazê-lo sob pena de pecado grave (para os que ainda acreditam em pecado, é claro), mas também um sinal muito forte de nossa pertença a Cristo e à Santa Igreja Católica. No mundo inteiro, no mesmo dia, professando a mesma fé e unidos sob a autoridade dos mesmos pastores, os católicos rezam juntos por suas vidas, suas famílias e pela salvação do mundo.

2. Mas voltemos ao relato do dia 16 de julho. Os calvinistas holandeses, em conluio com os indígenas, nem esperaram a Missa terminar para começarem a matança dos católicos.

Após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice, os fiéis foram tomados de grande espanto quando entraram no recinto da igreja Jacó Rabe à frente de um bando de soldados holandeses e índios tapuias e potiguares, todos bem armados.

As portas foram trancadas e a missa foi interrompida. Começou a grande chacina: foram trucidados e mortos o Padre André de Soveral e todos os que estavam na igreja, aproximadamente sessenta e nove pessoas.

Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelos flamengos com a ajuda dos tapuias e dos potiguares [2].

Ao matarem deste modo os católicos potiguares, logo “após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice”, os algozes protestantes nos apontam sem querer  para uma segunda lição, contida na doutrina católica sobre a Santa Missa: em toda celebração eucarística, atualiza-se sobre o altar o único sacrifício que Cristo ofereceu na cruz pela remissão dos pecados do mundo inteiro, e a esse sacrifício nós somos chamados a unir-nos, não só na oração da Missa, mas também com nossa vida.

Os mártires de Cunhaú tiveram essa oportunidade. Logo depois de ser oferecido de maneira incruenta pelo sacerdote “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, ofereceu-se na mesma igreja o sacrifício cruento dos fiéis, isto é, com derramamento de sangue. O Calvário se repetia novamente, agora no Brasil: antes havia sido a Cabeça, agora padecia o Corpo; naquele dia, as vítimas inocentes, ao invés de comungarem sacramentalmente, fizeram-no na carne, com seu sofrimento e sua morte.

Se a nossa vida não for também um oferecimento a Deus, como o desses mártires, não seremos capazes de compreender a fundo o mistério da Eucaristia. Aqui vale um ensinamento do venerável arcebispo norte-americano Fulton Sheen:

A Comunhão não é apenas uma incorporação na vida de Cristo, mas também uma incorporação na sua morte. [...] Acaso poderíamos receber toda a vida de Cristo, sem lhe darmos nada em troca? Acaso poderíamos esgotar o cálice, sem contribuir com algo para enchê-lo? Devemos receber o pão, sem oferecer o grão que deve ser moído; receber o vinho, sem dar as uvas que devem ser esmagadas? Se durante a nossa vida fôssemos sempre à Comunhão para receber a vida divina, e a levássemos conosco sem deixar nada em troca, seríamos parasitas do Corpo Místico de Cristo [3].

Mas de que espécie de oferecimento estaríamos falando? Seria necessário nos tornarmos mártires pelo sangue? Fulton Sheen responde:

Devemos, pois, levar conosco, para a mesa da Eucaristia, o espírito de sacrifício, a mortificação da inferioridade do nosso ser, as cruzes suportadas com paciência, a crucificação do nosso egoísmo, a morte da nossa concupiscência e inclusive a nossa falta de méritos para receber a Comunhão. Só nestas circunstâncias a Comunhão será o que realmente sempre deve ser [4].

Assim, ainda que não venhamos a entregar a nossa vida como esses valorosos homens de Deus, nem por isso estamos dispensados do chamado “martírio branco”, morrendo para nós mesmos nas pequenas coisas do dia a dia.

3. Prosseguindo agora para o relato do martírio de Uruaçu, ocorrido no dia 3 de outubro, vejam todos se não é de uma crueldade estarrecedora o que se deu:

Logo chamaram aos brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias que são incríveis; e não contentes com elas os ditos flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas [5].

Aqueles fiéis católicos, porém, mesmo padecendo todas essas torturas, como morriam? “Pedindo a Deus que tivesse deles misericórdia, e lhes perdoasse suas culpas e pecados, protestando que morriam firmes na santa fé católica crendo o que cria a Santa Madre Igreja de Roma” [6].

Com isso, aprendemos uma terceira lição: a de que, ao contrário do que prega um cristianismo “moderno”, não só não é verdade que todas as religiões são iguais, como dentro do próprio cristianismo não vale tudo. Dizer que tanto faz, por exemplo, ser católico ou protestante, é rir no túmulo dos mártires de Uruaçu, que preferiram morrer a abjurar da fé católica.

Mas por que não conseguimos entender mais a atitude dos mártires? Por que para nossos contemporâneos o massacre de Cunhaú e Uruaçu não passa de um episódio político ou de “intolerância religiosa”, sem nenhum significado maior? Porque, tragicamente, muitos deixaram de crer “na Santa Igreja Católica”, como professamos no Credo.

Quando não se acredita mais que a religião católica contém a verdade revelada por Deus para a nossa salvação, uma das primeiras coisas que se relativiza é o sangue dos mártires. Se todas as religiões são iguais, se tanto faz ir a uma igreja católica, a um templo protestante ou a um terreiro de umbanda, a verdade é que os mártires do Rio Grande do Norte morreram em vão e, com eles, toda uma multidão de homens e mulheres cultuados nos altares da Igreja.

Todos eles, no entanto, realmente acreditavam que era melhor morrer do que abandonar a fé católica e pecar contra Deus. Com isso, deram um testemunho eloquente da verdade que professavam. Por essa razão, o sangue deles é chamado “semente de novos cristãos”, porque as pessoas de fora da Igreja, vendo com que destemor os de dentro não hesitaram em dar a própria vida pelo que acreditavam, acabam convencidas da verdade e fazem-se católicos.

4. Entre as vítimas de Uruaçu, algumas receberam um tratamento especialmente cruel: os sacerdotes. Conforme os relatos da época, “o Pe. Ambrósio Francisco Ferro foi mais barbaramente atingido por causa de sua condição de sacerdote” [7]. Os outros 27 mártires canonizados eram leigos.

Disso se extrai uma quarta lição para nós, católicos: os sacerdotes são revestidos na Igreja de uma dignidade superior. O próprio inimigo o reconhece. Assim como foram eles os mais ferozmente atacados pelos hereges, quando Satanás procura destruir a Igreja, é contra os padres que ele investe de maneira especial.

O Santo Cura d’Ars explicava com muita simplicidade a importância do padre:

Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu [8].

Grandioso é o sacerdócio católico e, no entanto, quem foi que o revestiu de tamanha dignidade? Teria sido porventura a Igreja, ao longo dos séculos, “desejosa de poder”, como muitos pintam? Não, foi o próprio Cristo, ao eleger os Apóstolos, instituiu a hierarquia na Igreja. Quem observar a sua vida e o seu ministério público verá que por três anos o Senhor passou ensinando o povo, sim, curando-lhes as enfermidades, também; mas poderes especiais e outros ensinamentos específicos, só aos Apóstolos Ele reservou; o poder de consagrar a Eucaristia e absolver os pecadores, só a seus sacerdotes Ele confiou.

Se o próprio Deus feito carne instituiu o sacerdócio e cercou-o de tais privilégios, com que respeito e veneração não deveríamos pensar nos padres! Diante dos escândalos que infelizmente acontecem no clero, nossa época corre o risco de não dar o devido valor a essa pedra preciosa com que Cristo ornou a Igreja. A grande tentação de Satanás é fazer-nos desacreditar dos padres, para que, perdendo a fé no que eles são, percâmo-la também no Cristo que eles consagram e no perdão que eles ministram.

5. Por falar do sacramento da Eucaristia, foi justamente com uma profissão de fé na presença real de Jesus neste Santíssimo que morreu o mais famoso leigo dos mártires de Uruaçu: São Mateus Moreira. A ele “abriram pelas costas, e lhe tiraram também o coração e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento” [9].

Desse testemunho tiramos uma quinta lição: quem está presente nos sacrários de nossas igrejas não é ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Filho de Deus, a quem nós confessamos “nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, por quem todas as coisas foram feitas”.

O hábito de ir à Missa, especialmente para quem frequenta todos os dias este sacramento, pode criar uma “rotina” e fazer-nos esquecer da “sarça ardente” de que nos aproximamos quando subimos ao altar de Deus. Que o coração violentamente retirado do corpo de São Mateus Moreira nos faça lembrar com quanta violência também nós devemos sacar de nosso corpo a frieza, a mornidão e a indiferença na hora de receber a Sagrada Comunhão…!

6. Registremos, por fim, o martírio da família de Santo Estêvão Machado de Miranda, da qual podemos aprender uma sexta e derradeira lição para nossas vidas:

Casado com dona Bárbara, filha de Antônio Vilela Cid, [Estêvão] estava acompanhado da esposa, que foi poupada, e de quatro filhas, duas das quais foram sacrificadas juntas com o pai, e duas permaneceram vivas. Entre as que morreram, uma era criancinha de colo, com apenas dois meses, sendo a vítima mais jovem de todo o grupo de mártires. Da outra filha de Estêvão Machado, também martirizada, não se diz a idade. Quanto às duas que foram poupadas, conta-se que uma menina de sete anos abraçava-se ao pai, na hora da execução, e suplicava com grandes lamentações que não tirassem a vida de seu genitor.

Estêvão disse à menina: “Filha, diz a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos”. Depois do pai morto a menina cobriu-lhe o rosto com a saia, chorando e pedindo que também a matassem. Os algozes “trouxeram a menina à sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso” [10].

As últimas palavras de Estêvão (também ele protomártir) ensinaram à filha e ensinam a nós que, para um católico, a existência mais importante não é esta que passamos neste mundo, mas sim a do Céu. “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo”, diz o Apóstolo, “somos de todos os homens os mais dignos de lástima” (1Cor 15, 19).

É por isso que os cristãos devem lutar para educar bem e santamente os seus filhos; ou melhor, é por isso que eles devem tê-los em primeiro lugar. “Se Deus quis as gerações dos homens”, escreve o Papa Pio XI, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”. Por isso, os pais católicos, iluminados pela graça, têm de compreender que

não são destinados só a propagar e conservar na terra o gênero humano e não só também a formar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus, mas a dar filhos à Igreja, a procriar concidadãos dos santos e familiares de Deus (cf. Ef 2, 19), a fim de que o povo dedicado ao culto do nosso Deus e Salvador cresça cada vez mais, de dia para dia [11].

Que Santo Estêvão Machado, que entregou heroicamente a vida na frente da esposa e das filhas, interceda do Céu pelas famílias brasileiras, para que também nós sacrifiquemos nosso tempo, nosso conforto e nosso trabalho pela salvação de nossas casas. É a única forma de restaurarmos a fé nesta Terra de Santa Cruz. É a única forma de imitarmos verdadeiramente estes santos protomártires do Brasil.

Referências

  1. Francisco de Assis Pereira, Beato Mateus Pereira: patrono dos Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística e seus companheiros mártires, São Paulo: Paulinas, 2009, p. 43.
  2. Ibid., p. 44.
  3. Fulton Sheen, O Calvário e a Missa, Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 54.
  4. Ibid., p. 54-55.
  5. Lopo Curado Garro, “Breve, verdadeira, e autêntica relação das últimas tiranias e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande”, p. 151, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 58.
  6. Diego Lopes Santiago, “História da Guerra de Pernambuco”, p. 346, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 59.
  7. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 60.
  8. Abbé Bernard Nodet, Le Curé d’Ars, sa pensée, son cœur, Xavier Mappus, Foi Vivante, 1966, pp. 98-99.
  9. Lopo Curado Garro, “Breve…”, pp. 152-153, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 66.
  10. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 61.
  11. Papa Pio XI, Carta Encíclica Casti Connubii, 31 dez. 1930.

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