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Precisamos falar das mentiras sobre a legalização do aborto
Sociedade

Precisamos falar das mentiras
sobre a legalização do aborto

Precisamos falar das mentiras sobre a legalização do aborto

Há anos o movimento abortista utiliza jogos linguísticos para manipular a opinião pública

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2014
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"Mas a hora vem, a hora chegou, em que a vocação da mulher se realiza em plenitude (...) Por isso, no momento em que a humanidade conhece uma mudança tão profunda, as mulheres iluminadas do espírito do Evangelho tanto podem ajudar para que a humanidade não decaia" [1]. Assim se expressavam os padres conciliares ao término do Concílio Vaticano II, vislumbrando o sublime chamado da mulher perante a sociedade: a irradiação do amor. Mas essa, infelizmente, parece não ser a proposta de alguns meios de comunicação, que rezam mais na cartilha das grandes empreiteiras do aborto que nas máximas do decálogo.

Na sua edição de novembro, a revista TPM lançou uma campanha humilhante na internet, a fim de despertar um famigerado debate a respeito da legalização do aborto [2]. Com a hashtag # precisamosfalarsobreaborto, a publicação incentivou seus leitores a postarem supostos números e pesquisas sobre o tema nas redes sociais, além de fotos com o cartaz do movimento. À ideia, como era de se esperar, somaram-se vozes de alguns artistas já nacionalmente conhecidos por suas posições, no mínimo, controversas.

Um dos sinais de decadência de uma sociedade, dizia o filósofo Mário Ferreira dos Santos, é quando, em assuntos importantes, a população passa a dar ouvidos a artistas e atletas [3]. A revista TPM é a mesma que em 2007, durante a visita do Papa Bento XVI ao Brasil, fazia chacota de católicos e cristãos dizendo-se "super a favor do amor. Mas, sim, a gente já deve ter feito várias piadas sobre casamento" [4]. Na reportagem agora em questão, o auge da vigarice intelectual sai da boca de um comediante — sim, segundo a TPM, alguém muito relevante para palpitar neste assunto: "Um dia, espero, ainda vamos achar a proibição do aborto um absurdo, assim como achamos um absurdo a escravidão ou o holocausto". Esta é a lógica da delinquência: impedir que um bebê seja assassinado pela própria mãe é o mesmo que segregar negros e brancos ou mandar judeus para câmaras de gás. Eis os nossos "formadores de opinião". Eis a voz de quem encontra eco nos meios de comunicação brasileiros.

Prestem atenção: aborto significa retalhar uma vida indefesa. E, vá lá, ainda que não se pudesse dizer com toda certeza se o embrião em desenvolvimento é ou não um ser humano — embora os estudos de embriologia já não manifestem qualquer dúvida sobre a humanidade do feto —, seríamos do mesmo modo obrigados a optar pela via da prudência, isto é, a preservação da vida, pois existiria a possibilidade de se tratar de um ser humano. Olavo de Carvalho está certo quando diz: "À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio" [5]. A lei moral exige isso. Os defensores do aborto, por outro lado, não só se recusam a admitir um debate franco a respeito do início da vida, mas também, não se sabe com que autoridade, assumem a responsabilidade de escolher quem merece ou não viver. Isso não é diálogo, isso é imposição, como bem observou o editorial do jornal Gazeta do Povo: apesar do título, a campanha da revista pede debate, "mas não dá espaço aos argumentos pró-vida e já indica qual deveria ser o seu resultado: o apoio à descriminalização" [6]. Não é preciso ser nenhum filósofo para perceber a trapaça.

TPM diz: "A cada dois dias uma brasileira morre em decorrência de um aborto ilegal". É falso. Segundo dados do próprio SUS — os quais podem ser acessados por qualquer indivíduo que tenha acesso à internet —, o número de mortes anuais por aborto ilegal no Brasil não chega a cinquenta [7]. No ano de 2012, foram registradas 69 mortes por aborto: 13 foram espontâneos, 11 para a classificação "outros tipos de aborto", 40 por razões "não especificadas" e apenas 5 por falhas durante o procedimento. Outra mentira que se costuma aventar: o número de abortos ilegais é consequência da legislação vigente, que restringe a prática. Ora, seguindo esse raciocínio, teríamos de descriminalizar o homicídio por causa dos 60 mil assassinatos que ocorrem todos os anos no Brasil. Trata-se, evidentemente, de uma grande boçalidade. A Rússia, onde o aborto é legalizado desde a era soviética, viu-se obrigada a impor limites à sua atual legislação, dada a quantidade absurda de abortamentos realizados no país: o número de abortos é maior que o de nascimentos [8].

De fato, o principal entrave para estas discussões é justamente o lobby que se faz em cima de números e pesquisas duvidosas. Há anos o movimento abortista utiliza jogos linguísticos para manipular a opinião pública. Na década de 1970, o falecido médico americano Bernard Nathanson — até então conhecido como o "rei do aborto" — ficou horrorizado ao perceber, por meio do ultrassom, o que ocorria com o feto durante a operação. A sua descoberta resultou no famoso documentário "O grito silencioso" [9]. Anos mais tarde, ele revelaria a farsa a respeito dos números de abortos clandestinos nos Estados Unidos [10]:

É uma tática importante. Dizíamos, em 1968, que na América se praticavam um milhão de abortos clandestinos, quando sabíamos que estes não ultrapassavam de cem mil, mas esse número não nos servia e multiplicamos por dez para chamar a atenção. Também repetíamos constantemente que as mortes maternas por aborto clandestino se aproximavam de dez mil, quando sabíamos que eram apenas duzentas, mas esse número era muito pequeno para a propaganda. Esta tática do engano e da grande mentira se se repete constantemente acaba sendo aceita como verdade.

Com efeito, a revista TPM presta um enorme desserviço à sociedade brasileira, sobretudo às mulheres, ao reproduzir dados e opiniões de ONGs que, sabe-se muito, são, no mais das vezes, grandes parceiras das fundações internacionais — cujas intenções são, inegavelmente, o controle da natalidade [11]. Primeiro, é um atentado à soberania nacional. Segundo — e mais importante —, um crime contra a dignidade humana. Raciocinem: que mais pode gerar gravidezes indesejadas e, por conseguinte, abortos — sejam legais sejam ilegais — que o estímulo à "cultura do descarte", como denuncia o Papa Francisco? A própria revista TPM admite: "nunca fomos a favor de casar virgem". O Brasil segue na lista dos países onde os jovens iniciam a vida sexual mais cedo. Ora, o recorde não se deve a outra coisa senão à so called "educação sexual". Desde o ensino fundamental, os adolescentes são ensinados a se considerarem uma espécie de mercadoria para comprar e vender. E a mídia em geral é a principal promotora desse tipo de comportamento, incentivando a pornografia, o adultério, relações promíscuas etc. Eles inoculam o veneno para sugerirem o remédio.

Ademais, diferentemente da propaganda que se faz, é preciso frisar que a legalização do aborto não se trata de uma iniciativa em defesa das mulheres pobres. Ao contrário, é uma clara vertente da ciência eugenista. Basta lembrar, por exemplo, o projeto macabro idealizado pela senhora Margaret Sanger, a fundadora da poderosa Federação Internacional de Paternidade Planejada (IPPF). Ela dizia: "Nós queremos exterminar a população negra" [12]. Hoje, nos Estados Unidos, 40% das gravidezes de mulheres negras terminam interrompidas graças a essa política [13]. Diga-se o óbvio: não são os pró-vida que se assemelham aos nazistas.

O lamentável caso de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, a jovem de 27 anos que veio a falecer após complicações durante um aborto clandestino, tendo depois o corpo mutilado pelos assassinos, apenas elucida o que João Paulo II já havia observado na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem [14]:

O fato narrado no Evangelho de João pode apresentar-se em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com "o seu pecado", enquanto por detrás deste "seu" pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo "pecado do outro", antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio: aparece como não responsável pelo "pecado do outro"! Às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, a mulher paga pelo próprio pecado (pode acontecer que seja ela, em certos casos, a culpada pelo pecado do homem como "pecado do outro"), mas paga ela só e paga sozinha! Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas "mães solteiras" das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, "se livram" da criança antes do seu nascimento. "Livram-se": mas a que preço? A opinião pública de hoje tenta, de várias maneiras, "anular" o mal deste pecado; normalmente, porém, a consciência da mulher não consegue esquecer que tirou a vida do próprio filho, porque não consegue apagar a disponibilidade a acolher a vida, inscrita no seu "ethos" desde o "princípio".

Infelizmente, essa opinião pública denunciada pelo Santo Padre é a mesma a instrumentalizar a morte de Jandira para a causa abortista. Assim, induzem muitas mulheres ao erro, submetendo-as à pressão machista, a qual, vejam só, as feministas juram combater. No documentário Blood Money, há vários depoimentos de mulheres que se submeteram a um aborto e ainda hoje vivem as sequelas físicas e psíquicas do crime [15]. A Igreja não é alheia a esse sofrimento. É justamente por conhecer o coração das mulheres que o Magistério se manifesta inegociavelmente a favor da vida. Já ficou provado: aborto não é solução. É, antes, um dos problemas. Por isso, mais do que falar sobre aborto, é preciso falar das mentiras que geralmente estão associadas às suas propostas de legalização. A revista TPM precisa descobrir isso.

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A Transfiguração tem alguma coisa a ver com o Espiritismo?
Doutrina

A Transfiguração tem
alguma coisa a ver com o Espiritismo?

A Transfiguração tem alguma coisa a ver com o Espiritismo?

Ao ser visto conversando com Moisés e Elias, estaria Nosso Senhor nos ensinando, por acaso, a falar com os mortos?

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Fevereiro de 2018
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Recebemos por esses dias a seguinte pergunta, à qual queremos dar especial atenção agora, porque, além de ser uma dúvida compartilhada por muitas pessoas, envolve o evangelho da Transfiguração do Senhor, proclamado pela Igreja neste domingo:

Padre, sou católico e totalmente contrário ao espiritismo. Tenho notado que muita gente por ignorância está cada vez mais acreditando nesta doutrina. Sempre digo que, se a pessoa acredita no espiritismo, deve jogar a Bíblia fora, porque não encontrei nenhuma passagem onde Jesus menciona coisas do tipo “morrer e se reencarnar para a evolução” (muito mencionado pelos espíritas).

Mas tem uma passagem na Bíblia com a qual eu não gostaria de ser pego “de surpresa” por um espírita, que é a passagem em que Jesus, no monte Tabor, conversa com Moisés e Elias (cf. Mt 17, 3; Mc 9, 4; Lc 9, 30). Como posso me defender de um espírita e argumentar que este momento não tem nada a ver com espiritismo?

Para responder a esta questão, partamos, em primeiro lugar, de um fato já reconhecido por nosso interlocutor: em nenhuma passagem contida nos Evangelhos Jesus ensina a reencarnação. Muito pelo contrário, são vários os lugares em que encontraremos ensinamentos destoando dessa que é a principal crença do espiritismo. Veja-se, por exemplo, o que diz Hb 9, 27: que “está determinado que os homens morram uma só vez, e depois vem o julgamento”; ou ainda, o que o próprio Senhor ensina na parábola do pobre Lázaro e do rico banqueteador (cf. Lc 16, 19-31), a saber, que as pessoas morrem e vão ou para o Céu ou para o Inferno, sem “novas vidas” nem mudança de destino.

O episódio da Transfiguração, no entanto, seria interpretado pelos espíritas de modo a defender não tanto a reencarnação, mas a comunicação com os mortos. Falando com o patriarca Moisés, falecido há muitíssimo tempo, e com o profeta Elias, arrebatado aos céus sem notícia de morte (cf. 2Rs 2, 1-12), Nosso Senhor talvez estivesse querendo ensinar seus discípulos a estabelecerem contato com as almas do além.

O primeiro modo de rebater essa distorção dos Evangelhos seria apelar para a unidade das Sagradas Escrituras, já que em diversos trechos bíblicos Deus condena expressamente a evocação dos mortos e, sendo Jesus Cristo seu Filho, em tudo obediente à sua vontade, não poderia Ele ensinar uma coisa tão explicitamente contrária à Lei.

A Transfiguração, por Carl Bloch.

Na verdade, como explica Santo Tomás de Aquino em seu comentário à Transfiguração [1], a própria aparição de Moisés no monte Tabor tinha como finalidade confirmar, para os discípulos, o fato de que Cristo não tinha vindo para abolir a Lei de Moisés, mas para levá-la à perfeição, como ele próprio já havia defendido em seu Sermão da Montanha (cf. Mt 5, 17).

Porém, como os espíritas não compartilham com os cristãos a fé na inerrância das Escrituras, esse argumento seria de pouca ou nenhuma valia. Mesmo aceitando, de qualquer modo, que o Antigo e também o Novo Testamento condenem o contato com os mortos, um espírita poderia muito bem dizer: “Tudo bem, mas, se é proibido, por que Jesus está falando com Moisés e Elias?

Simplesmente porque existe uma grande diferença entre uma aparição do além por iniciativa divina e uma tentativa humana de provocá-la, por meio da evocação das almas de pessoas falecidas. De fato, não consta nos Evangelhos que Jesus, Pedro, Tiago e João tenham se reunido para fazer “baixar” no monte os espíritos de Elias e Moisés, como sói acontecer em sessões espíritas. Moisés e Elias “apareceram-lhes”, como está escrito, por pura vontade de Deus, que operou aquele milagre diante dos três apóstolos para confirmar-lhes a fé na divindade de Jesus (outra verdade, a propósito, na qual os espíritas não acreditam).

Lembremo-nos, neste sentido, de uma orientação oportuníssima do Frei Boaventura Kloppenburg, grande estudioso do assunto:

A Bíblia menciona várias vezes aparições perceptíveis de espíritos do além. Assim o evangelista Lucas nos relata que “o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Entrando na casa onde ela estava, disse-lhe: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 26-28). Jesus ressuscitado apareceu a Saulo a caminho de Damasco e falou com ele (cf. At 9). A Igreja aprovou aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em Fátima.

Trata-se, nestes casos, evidentemente, de comunicações perceptíveis vindas do além. A fé cristã, por conseguinte, admite não somente a mera possibilidade de comunicações sensíveis, mas afirma fatos reais deste tipo de trato entre o além e o aquém.

Não devemos, porém, esquecer que Lucas nos informa que o Anjo “foi enviado por Deus”. Quem negará a Deus todo-poderoso a capacidade de enviar-nos seus mensageiros? Quando Deus manda, a iniciativa é sua; e a conseqüente manifestação do além toma para nós um caráter espontâneo. Bem outra é a situação quando a iniciativa é nossa, querendo nós provocar alguma conversação com entidade do além. [2]

Esse esclarecimento aos católicos é muitíssimo importante para afastar a ideia, muito difundida em nosso país, de que qualquer coisa que seja espiritual tenha algo a ver com espiritismo. Quem nunca ouviu, por exemplo, pessoas tratarem o tema da “vida após a morte” — praticamente onipresente nos Evangelhos — como se fosse uma “novidade” trazida pelo espiritismo ou um “tabu” para a Igreja Católica?

Não, ainda que o principal expoente do espiritismo, no Brasil e no mundo, tenha escrito um “Evangelho segundo o Espiritismo”, a doutrina espiritual de Cristo não tem nada a ver com isso. Basta examinar um pouco os Evangelhos, os ensinamentos de sempre do Magistério da Igreja, para ver a tremenda discrepância entre o que pregava Cristo e o que escreveu Allan Kardec; entre o que revelou, de um lado, o próprio Verbo de Deus encarnado e o que “revelou”, de outro, uma legião de espíritos pretensamente desencarnados.

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Precisamos acreditar em “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?
Doutrina

Precisamos acreditar em “tudo o que
crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

Precisamos acreditar em “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

A pergunta pode parecer uma obviedade para os mais próximos e banal para os mais arredios, mas é a linha que divide os verdadeiros dos falsos católicos.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Fevereiro de 2018
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Antigamente, quando as crianças recebiam as primeiras instruções na fé católica, elas aprendiam a rezar uma fórmula denominada “ato de fé”. As versões da oração variam um pouco, mas uma delas, indulgenciada pela Igreja e facilmente encontrada na internet, diz o seguinte:

Eu creio firmemente que há um só Deus, em três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar e ao terceiro dia ressuscitou. Creio em tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica, porque Deus, Verdade infalível, o revelou. Nesta crença quero viver e morrer.

Trata-se de uma oração simples e em plena conformidade com o que professamos no “Creio”, mas, tragicamente, muitos de nossos católicos não seriam mais capazes de fazê-la, pelo menos não de coração sincero e acreditando realmente em tudo o que ela diz.

Afinal de contas, muitos de nós aprendemos no colégio que uma coisa é Jesus Cristo, que veio ao mundo e, como adoram dizer, “não fundou religião nenhuma”; e outra coisa é a Igreja Católica, que apareceu muito tempo depois e que está “cheia de erros”, “de pecados” e de não se sabe mais o quê.

Para boa parcela de nossos católicos hoje, crer em “tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica”, assim, sem mais nem menos, sem saber detalhadamente do que se está falando, soará como “fé cega”, obscurantismo medieval ou até coisa pior.

Mas não tem nada a ver com isso. O problema da “pulga atrás da orelha” de muitos católicos deve-se a um fator chamado ignorância. Infelizmente, nossas catequeses não têm sido muito eficazes em ensinar, tanto a crianças e jovens quanto a adultos, o que seja realmente a realidade da fé.

Por isso, vamos explicar, primeiro, com um exemplo do nosso mundo. Suponhamos que você não tenha ido jamais à Dinamarca. Um grande amigo seu já foi e dá testemunho: ela existe. O seu atlas geográfico, produzido por gente bem mais entendida que seu amigo, também retrata a Dinamarca no mapa da Europa: ela existe. Há por que duvidar? Certamente não. Ainda que nunca tenha posto os pés em território dinamarquês, você é capaz de admitir sem muita dificuldade: “Sim, eu creio, a Dinamarca existe”.

Com a fé católica acontece algo semelhante. Quando dizemos todos os domingos na Missa: “Creio”, o que estamos dizendo é que acreditamos nas verdades reveladas por uma pessoa muito mais confiável que seu melhor amigo e muito mais sábia que o mais competente cientista: Deus.

A comparação com a Dinamarca, como se pode ver, tem seus limites. A fé que prestamos a Deus é de natureza totalmente diferente da que temos na Dinamarca:

  1. Primeiro, porque, como visto, quem nos revela a existência da Dinamarca são seres humanos, falíveis e capazes de enganar (imagine, por exemplo, que todos os geógrafos estivessem “conspirando” em relação à Dinamarca); na fé católica, porém, quem nos revela as coisas é a própria Verdade, Deus, “o qual não pode enganar-se nem enganar” a ninguém [1].
  2. Segundo, porque a Dinamarca é uma realidade humana; as verdades que dizem respeito a Deus, no entanto, todas superam a própria natureza criada, são sobrenaturais.
  3. Como consequência desta segunda diferença, temos de admitir a dificuldade que existe, de nossa parte, em crer nas verdades sobrenaturais, que transcendem a nossa capacidade racional. Por essa razão, mais do que um simples esforço humano, todo ato de fé que o homem realiza só pode acontecer por ação da graça divina. Todo católico que diz com sinceridade: “Creio”, é tocado invisivelmente pela mão de Deus, que ajuda a sua inteligência e fortalece a sua vontade a dar um “sim” a tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica.

Mas a expressão “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” ainda permanece difícil e insiste em incomodar. É necessário aceitar tudo mesmo, sem restrições? E a Igreja mesma, como entra nessa “equação” da fé?

“Cristo entregando as chaves do Céu a São Pedro”, por Pedro Paulo Rubens.

Para responder a essa questão, é preciso recordar o modo escolhido por Deus para nos revelar as suas verdades. O princípio da Carta aos Hebreus diz que, “muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora a nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (1, 1-2). Depois de todas as revelações que vemos contidas no Antigo Testamento, então, Deus “selou” seu contato com a humanidade, por assim dizer, enviando-nos seu Filho, Jesus Cristo.

Ora, já que com isso Ele quis salvar todos os homens, e não só os de dois mil anos atrás, era necessário que fosse instituído um meio, visível e do qual as pessoas pudessem facilmente se servir, para sua mensagem permanecer preservada ao longo das gerações. Esse instrumento, como ficará claro a quem estudar as Escrituras e investigar a transmissão dos ensinamentos dos primeiros cristãos, é nada mais nada menos do que a Igreja.

A Igreja:

  • presente na pessoa dos Apóstolos, a quem foi dito: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18, 18), e ainda: “Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos rejeita, a mim rejeita, e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10, 16); e
  • presente especialmente na pessoa do Papa, o único a quem foi dito: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” (Mt 16, 18-19), e ainda: “Confirma teus irmãos” (Lc 22, 32), e enfim: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 16).

Ao instituir a Igreja, Nosso Senhor quis dar aos homens a segurança de que aquilo que Ele tinha ensinado a seus discípulos seria propagado fielmente. Para isso, Ele mesmo cuidou de dar aos Apóstolos a assistência do Espírito Santo (cf. Jo 16, 7-15) e de garantir-lhes sua presença até a consumação dos séculos (cf. Mt 28, 20).

De fato, até o presente, o único grupo de cristãos que crê nas mesmas coisas e rejeita as mesmas coisas, como acontecia na Igreja primitiva, é a Igreja Católica. O protestantismo, desde que nasceu, dividiu-se em um sem-número de filiais sem uniformidade alguma de fé nem de culto.

São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, rogai por nós!

O problema da Igreja, como se vê, não é muito difícil de confrontar. Quem quer que se dedique a um estudo sério e desapaixonado de sua história e de sua doutrina, verá que não é possível haver verdadeiro cristianismo fora da religião católica. Nas breves palavras de um filósofo citado certa feita pelo Pe. Leonel Franca: “Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes”.

Vejamos agora, então, o porquê do “tudo”. Por que só é realmente católico quem aceita “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

Nada que Santo Tomás de Aquino não resolva [2]. Sim, é preciso aceitar tudo. E a razão é muito simples. Se o que Deus quis revelar à humanidade para a sua salvação está confiado de uma vez por todas à Igreja Católica, com segurança inabalável, garantida pelo próprio Senhor, alguém ainda duvida que devemos crer em “tudo o que ela crê e ensina”?

É evidente que não se trata de defender todo e qualquer ato ou declaração feito por um Apóstolo, por um bispo ou mesmo por um Papa. Pedro, por exemplo, “negou” Jesus três vezes. Quem ousaria dizer que essa sua atitude seria um modelo a se seguir ou, pior ainda, uma parte do Magistério infalível da Igreja?

Quando nos referimos às coisas que se devem crer, estamos falando daquilo que ficou definido, desde os tempos apostólicos, no Credo; das verdades de fé que foram solenemente proclamadas pelos Pontífices Romanos ao longo da história [3]; e das realidades que foram incontestavelmente definidas por Nosso Senhor nos próprios Evangelhos.

Porque, se Deus nos revelou tudo o que é necessário à nossa salvação e confiou este “depósito da fé” à Igreja, não nos é lícito pegar uma ou duas verdades e dizer: “Aceito todo o resto, mas com isto eu não posso concordar”.

Não, o nome disso é heresia. É o pecado de quem quer “escolher”, das verdades que foram reveladas por Deus, aquela que lhe desagrada ou que não lhe cai bem. Ou acreditamos tanto na virgindade perpétua da Virgem Maria quanto na indissolubilidade do Matrimônio ou, então, somos católicos à nossa própria medida, e não à medida de Cristo.

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática “Dei Filius” (24 abr. 1870), c. 3: DH 3008.
  2. “É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade.” (S. Th. II-II, q. 5, a. 3, co.)
  3. “O Papa se pronuncia ex cathedra, ou infalivelmente, quando ele fala: (1) como Doutor Universal; (2) em nome e com a autoridade dos Apóstolos; (3) em um ponto de fé e moral; (4) com o propósito de obrigar cada membro da Igreja a aceitar e acreditar em sua decisão.” (Cardeal John Henry Newman, The True Notion of Papal Infallibility)

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Nossos tempos são os últimos? A Irmã Lúcia responde
Virgem Maria

Nossos tempos são os últimos?
A Irmã Lúcia responde

Nossos tempos são os últimos? A Irmã Lúcia responde

Irmã Lúcia, 1957: “Por três motivos me deu a entender a Santíssima Virgem que estamos no fim do tempo”. Ei-los aqui.

Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado,  Apelos de Nossa Senhora21 de Fevereiro de 2018
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No dia 26 de dezembro de 1957, o padre Agustín Fuentes, sacerdote da diocese de Veracruz (México) e vice-postulador das causas de beatificação de Santa Jacinta e São Francisco Marto, falou amplamente com a Irmã Lúcia no convento de Coimbra, em Portugal. Ao voltar ao México fez uma conferência sobre este encontro, referindo-se às palavras da Irmã Lúcia.

O padre Joaquín Maria Alonso [1] sublinhou que o relato da conferência foi publicado “com todas as garantias de autenticidade e com a devida aprovação episcopal, incluindo a do Bispo de Fátima” [2].

Seguem abaixo, na íntegra, tal como publicadas no site português Apelos de Nossa Senhora, as palavras ditas pela Irmã Lúcia ao pe. Agustín. Na ocasião, o sacerdote afirma que encontrara a vidente de Fátima “muito triste, muito pálida e abatida”. Eis o que ela lhe revelou.


Senhor Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, por ninguém fazer caso da Sua Mensagem, nem os bons nem os maus: os bons, porque continuam no seu caminho de bondade, mas sem fazer caso desta Mensagem; os maus, porque, não vendo que o castigo de Deus já paira sobre eles por causa dos seus pecados, continuam também no seu caminho de maldade, sem fazer caso desta Mensagem. Mas creia-me, Senhor Padre, Deus vai castigar o mundo, e vai castigá-lo de uma maneira tremenda. O castigo do Céu está iminente.

Senhor Padre, o que falta para 1960? E o que sucederá então? Será uma coisa muito triste para todos, e não uma coisa alegre, se, antes, o mundo não fizer oração e penitência. Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, só o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas resolveram não o conhecer para não serem influenciados. Esta é a terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora, que ficará em segredo até 1960.

Diga-lhes, Senhor Padre, que a Santíssima Virgem repetidas vezes nos disse, tanto aos meus primos Francisco e Jacinta como a mim, que várias nações desaparecerão da face da terra. Disse que a Rússia seria o instrumento do castigo do Céu para todo o mundo, se antes não alcançássemos a conversão dessa pobre nação.

Senhor Padre, o demônio está a travar uma batalha decisiva contra a Virgem Maria. E como sabe que é o que mais ofende a Deus e o que, em menos tempo, lhe fará ganhar um maior número de almas, trata de ganhar para si as almas consagradas a Deus, pois que desta maneira o demônio deixa também o campo das almas dos fiéis desamparado e mais facilmente se apodera delas.

O que aflige o Imaculado Coração de Maria e o Sagrado Coração de Jesus é a queda das almas dos Religiosos e dos Sacerdotes. O demônio sabe que os religiosos e os sacerdotes que caem da sua bela vocação arrastam numerosas almas para o inferno. O demônio quer tomar posse das almas consagradas. Tenta corrompê-las para adormecer as almas dos leigos e levá-las deste modo à impenitência final.

Utiliza todos os truques, chegando ao ponto de sugerir um atraso na entrada na vida religiosa. O que resulta disto é a esterilidade da vida interior, e entre os leigos uma frieza (falta de entusiasmo) quanto a renunciar aos prazeres e dedicar-se totalmente a Deus.

Senhor Padre, não esperemos que venha de Roma um chamamento à penitência, da parte do Santo Padre, para todo o mundo; nem esperemos também que tal apelo venha da parte dos Senhores Bispos para cada uma das Dioceses; nem sequer, ainda, das Congregações Religiosas. Não. Nosso Senhor usou já muitos destes meios e ninguém fez caso deles. Por isso, agora… agora que cada um de nós comece por si próprio a sua reforma espiritual: que tem que salvar não só a sua alma mas também todas as almas que Deus pôs no seu caminho...

O demônio faz tudo o que está em seu poder para nos distrair e nos retirar o amor à oração; seremos todos salvos ou seremos todos condenados.

Senhor Padre, a Santíssima Virgem não me disse que nos encontramos nos últimos tempos do mundo, mas deu-mo a entender por três motivos:

O primeiro, porque me disse que o demônio está a travar uma batalha decisiva contra a Virgem Maria e uma batalha decisiva é uma batalha final, onde se vai saber de que lado será a vitória e de que lado será a derrota. Por isso, agora, ou somos de Deus ou somos do demônio: não há meio termo.

Lúcia e Jacinta.

O segundo, porque me disse, tanto aos meus primos como a mim, que eram dois os últimos remédios que Deus dava ao mundo: o Santo Rosário e a devoção ao Coração Imaculado de Maria; e, se são os últimos remédios, quer dizer que são mesmo os últimos, que já não vai haver outros.

E o terceiro porque sempre nos planos da Divina Providência, quando Deus vai castigar o mundo, esgota primeiro todos os outros meios; depois, ao ver que o mundo não fez caso de nenhum deles, só então (como diríamos no nosso modo imperfeito de falar) é que Sua Mãe Santíssima nos apresenta, envolto num certo temor, o último meio de salvação. Porque se desprezarmos e repelirmos este último meio, já não obteremos o perdão do Céu: porque cometemos um pecado a que no Evangelho é costume chamar “pecado contra o Espírito Santo” e que consiste em recusar abertamente, com todo o conhecimento e vontade, a salvação que nos é entregue em mãos; e também porque Nosso Senhor é muito bom Filho, e não permite que ofendamos e desprezemos Sua Mãe Santíssima, tendo como testemunho patente a história de vários séculos da Igreja que, com exemplos terríveis, nos mostra como Nosso Senhor saiu sempre em defesa da Honra de Sua Mãe Santíssima.

São dois os meios para salvar o mundo: a oração e o sacrifício. Olhe, Senhor Padre, a Santíssima Virgem, nestes últimos tempos em que vivemos, deu uma nova eficácia à oração do Santo Rosário. De tal maneira que agora não há problema, por mais difícil que seja, seja temporal ou, sobretudo, espiritual, que se refira à vida pessoal de cada um de nós; ou à vida das nossas famílias, sejam as famílias do mundo, sejam as Comunidades Religiosas; ou à vida dos povos e das nações. Não há problema, repito, por mais difícil que seja, que não possamos resolver agora com a oração do Santo Rosário. Com o Santo Rosário nos salvaremos, nos santificaremos, consolaremos a Nosso Senhor e obteremos a salvação de muitas almas.

E depois, a devoção ao Imaculado Coração de Maria, Mãe Santíssima, vendo nós Nela a sede da clemência, da bondade e do perdão, e a porta segura para entrar no Céu. Diga-lhes também, Senhor Padre, que os meus primos Francisco e Jacinta sacrificaram-se porque viram a Santíssima Virgem sempre muito triste em todas as Suas aparições. Nunca Se sorriu para nós; e essa tristeza e essa angústia que notávamos na Santíssima Virgem, por causa das ofensas a Deus e dos castigos que ameaçavam os pecadores, sentíamo-las até à alma. E nem sabíamos o que mais inventar para encontrarmos, na nossa imaginação infantil, meios de fazer oração e sacrifícios.

Notas

  1. O padre J. M. Alonso, sacerdote claretiano, foi nomeado pelo Bispo de Leiria-Fátima, D. João Venâncio (1954-1972), para ser arquivista oficial de Fátima. Escreveu uma obra monumental sobre as Aparições de Fátima, intitulada Textos e estudos críticos sobre Fátima. Este trabalho, que compreende 24 volumes, contendo 5793 documentos, foi completado em 1975, mas a sua publicação foi proibida pelo bispo sucessor, D. Alberto Cosme do Amaral. Na década de 1990, os dois primeiros volumes foram publicados, mas não integralmente.
  2. O encontro do Pe. Agustín Fuentes com a Irmã Lúcia, e a conferência sobre este encontro, foi documentado em profundidade por Frère Michel de la Sainte Trinité no vol. III da sua obra Toute la Vérité sur Fátima. Em junho de 1981, depois de ter pregado um retiro na Bretanha, o Padre Superior Georges de Nantes confiou ao Frère Michel a tarefa de estudar num modo científico e exaustivo as Aparições de Nossa Senhora em Fátima, bem como os seus pedidos, e a relevância da Sua Mensagem para os nossos tempos.

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Mediunidade: o que ensina a Igreja?
Doutrina

Mediunidade: o que ensina a Igreja?

Mediunidade: o que ensina a Igreja?

Qual é, com clareza, a posição oficial da Igreja a respeito da chamada “mediunidade”? Existem pronunciamentos do Magistério sobre a causa e a natureza desses fenômenos?

Frei Boaventura Kloppenburg21 de Fevereiro de 2018
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Este texto do Frei Boaventura Kloppenburg visa complementar outros, já publicados neste espaço, sobre o tema do espiritismo.

Para bem entendê-lo, porém, julgamos ser necessário que se leve em conta uma diferença sutil, feita pelo próprio bispo no início desta matéria, entre os “fenômenos mediúnicos” considerados em si mesmos, a interpretação que o espiritismo lhes dá e, ainda, a doutrina espírita.

A distinção é importante porque, ao dizer no item 1, abaixo, que “a Igreja nunca se pronunciou” sobre “a causa dos fenômenos mediúnicos”, Frei Boaventura não está se referindo à doutrina espírita, esta sim amplamente condenada pelo Magistério da Igreja. Quando o mesmo autor diz, ainda, que “nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos fenômenos mediúnicos — nem mesmo a interpretação espírita — foi censurada, rejeitada ou condenada oficialmente pela Igreja”, é importante separar, de um lado, o juízo espírita a respeito da mediunidade e, de outro, os princípios com os quais esse mesmo juízo é formulado.

Embora seja verdade que não existe nenhum pronunciamento oficial do Magistério condenando a interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos, não é demais lembrar que existe, sim, por outro lado, uma série de ensinamentos magisteriais que fulminam muitos pontos doutrinais chave supostos, formalmente, pela interpretação que os espíritas dão da chamada “mediunidade”.

Basta recordar, por exemplo, as diversas declarações condenatórias que, ao longo dos séculos, a Igreja lançou contra as doutrinas preexistencialistas, ou seja, que afirmavam a preexistência da alma humana à criação do corpo. Tampouco faz falta elencar os vários documentos em que se confessa a fé comum da Igreja na criação direta da alma por Deus a partir do nada. As Sagradas Escrituras, além do mais, dão testemunho claro e inequívoco da unicidade da vida humana.

É claro, pois, que nada disso é compatível com os pressupostos teóricos com que o espiritismo, ao menos o de corte kardecista, pretende defender sua interpretação dos fenômenos mediúnicos.


Convém deixar bem clara a posição oficial da Igreja perante a fenomenologia do espiritismo. Pois tem havido confusão acerca deste ponto. E para evitar possíveis falsas interpretações, adjetivarei estes fenômenos simplesmente como “mediúnicos” e não como “espíritas”, visto que este último termo já especifica determinada interpretação do fenômeno.

Creio poder compendiar nos seguintes itens a posição oficial da Igreja:

1. Por seu magistério oficial a Igreja nunca se pronunciou nem sobre a verdade histórica, nem sobre a natureza, nem sobre a causa dos fenômenos mediúnicos ou próprios do espiritismo; por isso:

a) nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos fenômenos mediúnicos — nem mesmo a interpretação espírita — foi censurada, rejeitada ou condenada oficialmente pela Igreja;

b) não corresponde à verdade dizer que a Igreja endossa oficialmente a interpretação que vê nos fenômenos mediúnicos uma intervenção preternatural do demônio;

c) jamais a Igreja proibiu o estudo ou a investigação científica dos fenômenos mediúnicos.

O católico não está absolutamente proibido de estudar a metapsíquica ou a parapsicologia; pelo contrário, seria até muito de desejar que também os cientistas católicos e as universidades católicas se ocupassem mais intensa e sistematicamente com a fenomenologia mediúnica ou parapsíquica, seja para verificar sua verdade histórica, seja para investigar sua verdade filosófica ou sua causa.

2. O que a Igreja faz, fez e continuará a fazer, por ser esta sua missão específica, é recordar o mandamento divino que proíbe evocar os mortos ou outros espíritos quaisquer. Esta proibição vem de Deus, não da Igreja, que não tem nem autoridade nem competência para modificar ou revogar uma lei, determinação ou proibição divina.

Por isso:

a) Os defensores da interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos não podem provocar, eles mesmos, novos fenômenos desta natureza, ainda que seja para fins de estudos; a razão disso é evidente: a provocação do fenômeno implicaria necessariamente uma evocação dos espíritos, ao menos na intenção. E isso foi proibido por Deus. Para fins de estudo, o homem não pode fazer coisas ilícitas e proibidas por Deus.

b) Como toda sessão espírita tem a finalidade própria e essencial de evocar espíritos ou de provocar a obtenção de comunicações ou mensagens do além, toda e qualquer sessão espírita é um ato de formal desobediência a uma lei divina e, por isso, gravemente proibida e pecaminosa.

c) Para resolver a questão moral da prática do espiritismo, pouco importa saber se os espíritas de fato conseguem ou não evocar espíritos em suas sessões; pois se o conseguem, não há dúvida a respeito da evocação e, por conseguinte, da desobediência; se não o conseguem, é certo que eles têm ao menos a intenção, o propósito ou a vontade deliberada de evocar e, portanto, de transgredir um mandamento divino; e isso basta para um pecado formal.

“Sessão espírita de hipnose”, por Richard Bergh.

d) É, pois, a maliciosa ou pecaminosa intenção de querer evocar espíritos que torna ilícita e moralmente má a provocação de fenômenos mediúnicos em sessões espíritas, ainda que de fato sejam fenômenos puramente naturais e sem relação alguma com espíritos não-encarnados ou desencarnados.

e) Havendo, porém, certeza de que determinado fenômeno mediúnico ou metapsíquico é natural, e excluída expressamente a pecaminosa intenção de evocar qualquer espírito (bom ou mau, pouco importa), será lícito provocar o fenômeno, contanto que não seja prejudicial para a saúde. Parece, porém, que a repetição freqüente de certos fenômenos psíquicos (o transe, a escrita automática, a mesa dançante, o sonambulismo provocado etc.) pode causar perturbações psíquicas, desencadear distúrbios mentais em indivíduos predispostos, preparar o automatismo, concorrer para as alucinações, alterar as secreções internas, produzir delírios, prejudicar o sistema nervoso etc. Por isso, tais fenômenos devem ser provocados com muito critério, cautela e moderação, não em ambiente popular para distrair, mas em meios científicos para estudar.

Aqui convém recordar também a moção unânime aprovada pelo II Congresso Internacional de Ciências Psíquicas, reunido em Varsóvia, em 1922:

Considerando que os fenômenos metapsíquicos devem ser estudados por sociedades científicas e em laboratórios adequados, o Congresso emite um voto para que todas as produções ‘mediúnicas’, em salas de conferências, assim como as demonstrações públicas dos fenômenos ditos ‘ocultos’, sejam proibidas, legalmente, em todos os países, em virtude da influência nociva que podem exercer sobre o estado psíquico e nervoso das pessoas mais ou menos sensíveis que a elas assistem.

É necessário lembrar também a advertência feita por Pio XII numa alocução à Sociedade Italiana de Anestesiologia (24-2-1957). Reconhecia o papa a liceidade da hipnose “praticada pelo médico, ao serviço de um fim clínico, observando as precauções que a ciência e a moral médicas requerem, tanto do médico que a emprega, como do paciente que a aceita”. Pio XII insistia então no seguinte aviso:

Mas não queremos que se estenda, pura e simplesmente, à hipnose em geral o que dissemos da hipnose ao serviço do médico. Com efeito, esta, como objeto de investigação científica, não pode ser estudada por quem quer, mas por um sábio e dentro dos limites morais que valem para toda atividade científica. Não é este o caso de qualquer círculo de leigos ou eclesiásticos que a praticassem como coisa interessante, a título de pura experiência ou mesmo por simples passatempo.

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