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Quem marchou pelas mulheres nos Estados Unidos?
Pró-VidaPolítica

Quem marchou pelas
mulheres nos Estados Unidos?

Quem marchou pelas mulheres nos Estados Unidos?

Mesmo a mídia e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Fevereiro de 2017Tempo de leitura: 4 minutos
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Um dia após a cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, centenas de milhares de mulheres tomaram as ruas de Washington D.C. para protestar contra suas posições políticas com relação ao aborto e a outros temas que lhe custaram uma enorme dor de cabeça durante o período de campanha. A Marcha das Mulheres, como foi chamada pelos seus organizadores, contou com amplo apoio de organizações filantrópicas, de artistas e, sobretudo, da mídia, que, aliás, fez questão de repercutir a mensagem do protesto para o mundo inteiro. No Brasil, um jornal de grande circulação disse que a marcha representaria a "alma feminina".

"Não aceitem esta nova era de tirania em que não apenas as mulheres estão em perigo, mas todas as pessoas marginalizadas. A revolução começa aqui, este é o começo de uma mudança muito necessária", vociferou a cantora Madonna durante sua participação no evento. Madonna só se esqueceu de explicar, porém, como a Marcha das Mulheres pretende combater essa marginalização se seus próprios organizadores marginalizam quem discorda deles, como no caso do veto à participação de mulheres pró-vidano evento. Nesta nova revolução, é preciso perguntar, mulheres que não tratem seus bebês como apenas mais uma parte de seu corpo serão respeitadas?

A resposta é não. Desde que a ativista Adrienne Germain convenceu John Rockefeller III a investir em pesquisas sociológicas que mudassem o pensamento das mulheres a respeito da maternidade, os movimentos feministas tornaram-se apenas uma massa de manobra nas mãos dos grupos globalistas que querem o controle populacional. A defesa dos tais "direitos reprodutivos" não é uma questão de "alma feminina", mas de marketing para diminuir o número de gestações; não é a pessoa da mulher que interessa, mas o seu útero. É por isso que enquanto Scarlett Johansson discursava na Marcha das Mulheres a favor da Planned Parenthood, essa mesma instituição negava a uma gestante o serviço de pré-natal: "Nós fazemos controle de natalidade, sabe, essas coisas… aborto, nós não fazemos pré-natal". E isso, atenção, é muito mais misógino que qualquer conversa de Donald Trump.

Os jornais erram, mais uma vez, ao vincularem a "alma feminina" à defesa do aborto, como se a Marcha das Mulheres fosse o único grito de protesto ecoado nos Estados Unidos naquelas semanas. Outra marcha ocorreu poucos dias depois, também em Washington, reunindo dezenas de milhares de pessoas, principalmente jovens, para protestarem contra a "cultura da morte", que, desde a famosa decisão "Roe vs. Wade", em 1973, já ceifou a vida de mais de 58 milhões de bebês, mortos em clínicas de aborto. Embora os jornais insistissem em ignorá-la, como denunciou o presidente Donald Trump, a Marcha pela Vida, de fato, tem despertado uma nova geração de homens e mulheres americanos, cuja mentalidade não segue a corrente do hedonismo e do relativismo, mas dos valores perenes da dignidade humana. E esta é a "geração pró-vida" que promete pôr fim a "Roe vs. Wade" nos Estados Unidos.

A primeira Marcha pela Vida aconteceu em janeiro de 1974, graças aos esforços da ativista católica Nellie Gray. Convicta de que toda vida humana deve ser valorizada e protegida, Gray decidiu abandonar sua carreira para dedicar-se exclusivamente à causa pró-vida e à organização anual da marcha. O evento logo arrebanhou uma enorme quantidade de pró-vidas e inspirou outros movimentos ao redor do mundo. Em 2013, poucos dias após a posse de Barack Obama, a Marcha pela Vida reuniu mais de 600 mil pessoas na capital americana para reivindicar o fim do aborto e opor-se às medidas antinatalistas do então presidente democrata. Neste ano, o evento contou com a participação do atual vice-presidente, Mike Pence, e de outros membros do governo republicano. "A vida está vencendo outra vez nos Estados Unidos", comemorou Pence durante seu discurso, fazendo referência à medida assinada por Trump, que pôs fim ao financiamento de ONGs pró-aborto no exterior.

A influência da Marcha pela Vida sobre a cultura americana é reconhecida pelos próprios defensores do aborto. Em 2010, a feminista Nancy Keenan declarou seu espanto acerca da quantidade de jovens presentes na edição da marcha daquele ano, que reuniu 400 mil pessoas: "Eu apenas pensei, meu Deus, eles são tão jovens… há tantos deles e são tão jovens". A Revista Time, por sua vez, publicou uma longa reportagem no aniversário de 40 anos da lei "Roe vs Wade", analisando como os ativistas pró-aborto têm regredido desde 1973: "Conseguir um aborto na América é, em alguns lugares, mais difícil hoje do que em qualquer lugar desde que se tornou um direito constitucionalmente protegido 40 anos atrás".

É claro, portanto, que a Marcha das Mulheres está longe de representar a "alma feminina", como tentaram vender os jornais. Contra fatos não há fake news. Mesmo a enorme campanha midiática e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida. Trata-se do que disse a atual presidente do movimento, Jeanne Mancini: "Ser pró-vida é ser pró-mulher". Essa é a verdadeira "alma feminina".

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Indulgências “pro defunctis” prorrogadas devido à COVID-19
Igreja Católica

Indulgências “pro defunctis”
prorrogadas devido à COVID-19

Indulgências “pro defunctis” prorrogadas devido à COVID-19

Neste ano, devido à pandemia do novo coronavírus, as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos, que normalmente se ganham nos oito primeiros dias de novembro, poderão lucrar-se ao longo de todo o mês das almas.

Santa SéTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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DECRETO

Neste ano, por causa da pandemia da doença de COVID-19,
as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos
prorrogam-se por todo o mês de novembro,
comutadas as condições e obras pias, em vista da segurança do povo cristão

Chegaram há pouco a esta Penitenciaria Apostólica muitas súplicas da parte de sagrados pastores, pelas quais se pedia que neste ano, por causa da pandemia da doença de COVID-19, se comutassem as obras para lucrar as indulgências plenárias aplicáveis somente às almas do Purgatório, segundo a norma do Manual de Indulgências (conc. 29, §1). Por isso, a mesma Penitenciaria Apostólica, por especial mandado do SS. Padre, o Papa Francisco, de bom grado determinou e deliberou, para evitar aglomerações, proibidas ou ao menos desaconselhadas em algumas nações e territórios, que neste ano: 

a) A indulgência plenária para os que piedosamente visitarem cemitérios e, ainda que apenas mentalmente, rezarem pelos defuntos — limitada, segundo a norma, apenas aos oito primeiros dias de novembro —, possa, para comodidade dos fiéis, ser transferida dentro do mês de novembro para outro período de até oito dias, ainda que descontínuos, de livre escolha de cada fiel;

b) A indulgência plenária do dia 2 de novembro, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, para os que piedosamente visitarem uma igreja ou oratório e ali recitarem um Pai-nosso e um Creio, possa ser transferida não somente para o domingo anterior ou posterior ou para o dia da solenidade de Todos os Santos, mas também para outro dia, dentro do mês de novembro, de livre escolha de cada fiel; 

Os idosos, os doentes e os que, por causa grave, não podem sair de casa (v.gr., por força de decretos que proíbam os fiéis de se reunirem nos lugares sagrados), poderão lucrar a indulgência plenária, desde que, unindo-se em ânimo e voto aos que fizerem as piedosas visitas de que se falou acima, tendo detestado os próprios pecados e feito a intenção de cumprir, assim que possível, as três condições de costume (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do sumo Pontífice), recitem diante de qualquer imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou da Bem-aventurada Virgem Maria piedosas preces pelos defuntos (v.gr., as Laudes e as Vésperas do Ofício dos defuntos, o Rosário mariano, a coroa da Divina Misericórdia, e outras preces pelos defuntos mais caras aos fiéis), ou leiam, a título de leitura espiritual, o Evangelho da Liturgia dos defuntos, ou realizem uma obra de misericórdia, entregando a Deus clemente suas dores ou os incômodos da própria vida.

A fim, pois, de tornar mais fácil, por caridade pastoral, o acesso ao perdão divino, alcançável pelas chaves da Igreja, esta Penitenciaria roga insistentemente que os sacerdotes legitimamente facultados, de ânimo pronto e generoso, celebrem a Penitência e administrem a sagrada comunhão aos doentes.

No entanto, no que diz respeito às condições espirituais para lucrar plenamente a indulgência, está sempre em vigor a Nota desta Penitenciaria Apostólica sobre a celebração do sacramento da Reconciliação em tempos de pandemia da doença de COVID-19.

Por último, uma vez que as almas do Purgatório são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis, sobretudo pelo santo sacrifício do Altar (cf. Concílio de Trento, sess. 25.ª, Decreto sobre o Purgatório), roga-se insistentemente a todos os sacerdotes que, no dia da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, celebrem a Missa três vezes, segundo a norma da Constituição Apostólica “Incruentum Altaris”, do Papa Bento XV, de venerável memória, do dia 10 ago. 1915.

Valerá o presente Decreto por todo o mês de novembro, não obstante quaisquer disposições em contrário.

Dado em Roma, nas dependências da Penitenciaria Apostólica, no dia 22 de outubro de 2020, na memória de S. João Paulo II.

Maurus Card. Piacenza
Penitenciário-Mor

Christophorus Nykiel
Regente

Notas

  • Esta tradução foi feita por nossa equipe a partir do original latino do decreto da Penitenciaria Apostólica, tornado disponível pelo site do Boletim da Sala da Imprensa da Santa Sé. Não se trata, portanto, da tradução oficial do documento.

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Teria Jesus permitido o divórcio?
Doutrina

Teria Jesus permitido o divórcio?

Teria Jesus permitido o divórcio?

O que quis dizer Nosso Senhor quando afirmou que “todo aquele que repudiar a sua mulher, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério”? Seria essa difícil passagem do Evangelho uma exceção à regra de que o matrimônio é indissolúvel?

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Em Mt 19, 9, existem traduções protestantes, e a Vulgata (se não me engano) diz que o divórcio é permitido em caso de fornicação do cônjuge, mas as traduções católicas dizem que só em caso de casamento nulo. Os protestantes atuais se divorciam e casam-se novamente, já na Igreja Católica só se separa com casamento nulo ou morte. Qual a tradução correta? E por que essa suposta ‘brecha’ só aparece em Mateus?”

Resposta: Sua pergunta toca num ponto delicado e importante da doutrina cristã, razão por que merece uma resposta um pouco mais detalhada [1]. Esperamos que os pontos abaixo sejam suficientes para esclarecer a dúvida. A resposta traduz, quase literalmente, a lição de um biblista (cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ, vol. 1, n. 206) e a de um teólogo moral (D. Prümmer, Manuale Theologiæ Moralis, vol. 3, n. 662) a esse respeito.

1) No Antigo Testamento. — A antiga Lei (cf. Dt 24, 1) permitia aos judeus despedir a esposa por “qualquer coisa inconveniente” (em latim, na Vulgata: propter aliquam fœditatem; em hebraico: ‘erwah = “nudez”, quer dizer, “indecência”), entregando-lhe um libelo de repúdio. No tempo de Cristo, a escola rabínica Shammai ensinava que apenas em caso de adultério seria lícito o repúdio; a escola Hillel, contudo, pervertendo o sentido e as palavras da Lei, opinava que a mulher poderia ser despedida por qualquer motivo.

“Casamento em Caná”, de Murillo.

2) No Novo Testamento. — Na Nova Lei, Cristo proíbe três coisas: a) despedir a esposa sem justa causa, isto é, por outro motivo que não seja adultério [2]; b) atentar um novo matrimônio enquanto ainda vive a primeira (e legítima) esposa; c) e tomar em casamento a esposa de outro, despedida pelo primeiro (e legítimo) marido. Portanto, a palavra que lemos no Evangelho (em latim, dimittere; em português: “despedir”, “rejeitar” etc.) não significa a dissolução do vínculo matrimonial, mas apenas a chamada separação “de cama e mesa” (tori et mensæ), também chamada separação de corpos, como se explicará melhor a seguir. O próprio direito da Igreja prevê e regula essa possibilidade, ao admitir certas causas legítimas de separação com permanência do vínculo (cf. Código de Direito Canônico, Cân. 1151-1155).

3) Uma exceção à regra? — No entanto, essa doutrina parece incompatível com o trecho de Mt 19, 9, onde se lê a seguinte cláusula, aparentemente restritiva: em grego, μὴ ἐπὶ πορνείᾳ; em latim, nisi ob fornicationem; em português, literalmente, “exceto no caso de fornicação”. Daqui, com efeito, parece seguir-se a conclusão contrária, a saber: “Quem despedir sua esposa em caso de fornicação e casar-se com outra não comete adultério”, o que contradiz a doutrina constante da Igreja Católica sobre a indissolubilidade do matrimônio. Como entendê-lo? Tratar-se-ia de uma exceção à proibição do divórcio?

4) Solução. — Muitos protestantes e cismáticos orientais pensam que sim e, por esse motivo, permitem o divórcio, com dissolução do vínculo, quando algum dos cônjuges comete adultério. E alguns deles, como é sabido, permitem às vezes até mais de um divórcio. Mas essa passagem, se bem entendida, não admite nenhuma interpretação “permissiva”.

a) A interpretação tradicional. — De todas as explicações do texto, a melhor, mais antiga e comum é a que refere S. Tomás de Aquino: “Aquela exceção (‘exceto no caso de…’), que está nas palavras do Senhor, se refere à demissão (dimissio, ou seja, ao ato de despedir ou afastar do convívio doméstico) da esposa” (In IV Sent. dist. 35, q. 1, a. 5 ad 4). O sentido das palavras do Senhor, por conseguinte, é este: não é lícito despedir o cônjuge, exceto no caso de ele cometer adultério; mas, mesmo nesta hipótese, não é lícito contrair novas núpcias. Se, portanto, alguém contrair outro matrimônio enquanto ainda vive a parte adúltera, também comete adultério.

b) Confirmação bíblica. — Isto é confirmado pelas passagens paralelas de S. Marcos e S. Lucas, nas quais Jesus se expressa em sentido absoluto, sem fazer nenhuma limitação: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério” (Mc 10, 11s); “Todo o que abandonar sua mulher e casar com outra comete adultério; e quem se casar com a mulher rejeitada, comete adultério também” (Lc 16, 18). Ouça-se ainda o que S. Paulo, que com certeza entendia as palavras de Cristo, dizia aos casais cristãos: “Aos casados mando (não eu, mas o Senhor) que a mulher não se separe do marido. E, se ela estiver separada, que fique sem se casar, ou que se reconcilie com seu marido. Igualmente, o marido não repudie sua mulher” (1Cor 7, 10s) [3].

c) Conclusão. — Em suma, a cláusula μὴ ἐπὶ πορνείᾳ (“exceto no caso de fornicação”) se refere apenas ao primeiro membro da oração (isto é, ao ato de despedir ou rejeitar), mas não ao segundo (isto é, ao ato de desposar), de maneira que o sentido é: “Todo aquele que rejeita sua mulher (posto a salvo o vínculo matrimonial), o que porém não é lícito a menos que ela cometa adultério, e desposa uma outra, comete adultério. E aquele que desposa uma mulher rejeitada, comete também adultério”. Aqui, pouco importa que se interprete o termo πορνεία como “adultério” ou “fornicação”, já que a palavra significa, em sentido amplo, qualquer imoralidade sexual e, neste contexto, qualquer ato contra a fidelidade conjugal: de fato, não é possível a uma pessoa legitimamente casada cometer um pecado de fornicação que não seja, eo ipso, adultério.

5) Observações. a) Qualquer tradução católica (e, portanto, fiel à ortodoxia cristã) da Bíblia há de preservar esse sentido. É o que fazem, v.gr., as versões da Ave-Maria [4], que utilizamos ao longo desta resposta, e do Pe. Matos Soares, que a verte assim: “Eu, pois, digo-vos que todo aquele que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que se casar com uma repudiada, comete adultério”.

b) Lembramos por fim que, segundo alguns autores, constitui verdade de fé divina e católica definida (portanto, um dogma em sentido estrito) a doutrina segundo a qual o vínculo matrimonial é intrinsecamente indissolúvel, mesmo em caso de adultério (cf. Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, vol. 2, n. 491). Daí a Igreja ter sempre ensinado que nenhum matrimônio válido, rato e consumado pode ser dissolvido quanto ao vínculo (que, fora dos casos em que cabe a aplicação do chamado “privilégio paulino”, só se desfaz com a morte de um dos cônjuges) por qualquer poder ou autoridade humana, nem mesmo pelo Sumo Pontífice.

Notas

  1. Recomendamos também a leitura da resposta de D. Estêvão Bettencourt, OSB, a pergunta semelhante. Está disponível em: Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, nov. de 1957 (VII), p. 14ss.
  2. O que não exclui — como o demonstra a prática da Igreja — outras razões proporcionalmente graves que põem em sério risco a paz doméstica e a integridade (física, moral e espiritual) do cônjuge ou dos filhos (cf. CDC, Cân. 1153, §1).
  3. O Apóstolo S. Paulo referenda a indissolubilidade do matrimônio cristão não só com sua própria autoridade apostólica, mas também com o mandamento expresso de Cristo: “Mando, não eu, mas o Senhor” (cf. Mt 5, 32). Logo, essas palavras têm força de lei, e não de simples conselho, como poderia fazer crer a alguns a tradução em português, que não preserva de todo o caráter preceptivo da frase: “que fique sem se casar”, como se também fosse possível se casar. Na verdade, o Apóstolo estabelece somente duas alternativas ao cônjuge despedido: ou manere innuptus (isto é, não contrair mais núpcias), ou alteri reconciliari (isto é, fazer as pazes com o outro). — Tampouco se pode objetar que, nos vv. 12-13, S. Paulo abre a possibilidade do divórcio por simplesmente recomendar, pelo uso do subjuntivo exortativo (em latim: non dimittat; em grego: μὴ ἀφιέτω; em português: “não repudie”), que o marido não despeça a mulher, uma vez que, nos vv. 12-13, o Apóstolo se dirige aos “demais” (em latim: ceteris; em grego: τοῖς λοιποῖς), ou seja, aos casais em que uma parte ainda é infiel (não batizada), ao passo que, nos vv. 10-11, ele se havia dirigido aos casais cristãos. Ora, um matrimônio contraído na infidelidade torna-se rato quando ao menos uma das partes abraça a fé cristã, e a parte infiel aceita coabitar com a outra sem contumélia do Criador. Nestes casos, e é deles que fala o Apóstolo, já não é possível despedir licitamente a parte infiel.
  4. Mas com a seguinte ressalva: πορνεία, ao contrário do que se lê na Ave-Maria, não significa aqui “matrimônio falso”, isto é, ilegítimo, mas “fornicação” ou “imoralidade sexual”. É evidente, por outra parte, que, se um matrimônio é falso, não há propriamente vínculo nem, portanto, uma relação conjugal per si indissolúvel. Quando se constata a ilegitimidade de um matrimônio, constata-se com isto a inexistência de verdadeiro vínculo marital. É o que faz a Igreja nos processos de reconhecimento de nulidade (e não de “anulação”).

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São João Paulo II conhecia os perigos de uma antropologia ruim
Sociedade

São João Paulo II conhecia
os perigos de uma antropologia ruim

São João Paulo II conhecia os perigos de uma antropologia ruim

O marxismo e o socialismo são falhos não porque seus ideais sejam muito elevados, mas porque eles se baseiam numa visão de pessoa humana que é deficiente, inadequada e, sobretudo, perigosa. São João Paulo II sabia muito bem disso.

Steve GreeneTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Pesquisas mostrando que a maioria dos jovens americanos da geração do milênio (millennials) é simpática ao socialismo têm gerado preocupações ou esperanças, a depender de quem é o alvo da pergunta. Mas, independentemente do que o mundo secular pensa, os católicos não podem afirmar esse erro. Marxismo e socialismo são essencialmente falhos não porque seus ideais são muito elevados, mas porque se baseiam numa antropologia (ou visão da pessoa humana) deficiente.     

Talvez nenhuma pessoa tenha compreendido tão bem as consequências terríveis da antropologia marxista quanto São João Paulo II. O jovem Karol cresceu numa Polônia governada sucessivamente pelas tiranias da Alemanha nazista e do império comunista russo. Portanto, viu de perto o poder destrutivo de ideias terríveis. Ele perdeu amigos de infância judeus sob a ocupação nazista, e quando era um jovem seminarista, ajudou a liderar uma resistência pacífica contra os soviéticos ao preservar as tradições polonesas por meio do estudo e de um grupo de artistas clandestino.

Talentoso filósofo e sacerdote católico, Wojtyla trouxe uma dimensão única à contemplação dos horrores do século XX, que causaram a morte de dezenas de milhões de pessoas. E quando se tornou Papa João Paulo II, sua dolorosa experiência e seus estudos iluminaram seja a sua contemplação diuturna do mistério do amor e da personalidade humanas, seja o ensino magisterial que surgiu dessa contemplação. 

Em outras palavras, a experiência de João Paulo II o tornou imune às alegações de que o socialismo é o caminho para a justiça e a paz. O que no papel parece um paraíso é na prática terreno fértil para monstros

São João Paulo II, que estudou filosofia por toda a vida, concentrou seu trabalho acadêmico no desenvolvimento de um sólido personalismo — a visão de que a pessoa humana é a chave para destravar e compreender os mistérios mais profundos da realidade. Criada homem e mulher à imagem e semelhança de Deus e dotada de intelecto e vontade para conhecer a verdade e escolher o bem, a pessoa humana é, na visão de João Paulo II, a porta pela qual podemos entrar tanto na contemplação da Santíssima Trindade quanto na reta ordenação de todas as sociedades humanas.

Em contrapartida, Marx via a pessoa humana como mero acidente material — um resultado aleatório e involuntário de forças físicas cegas que operam num universo desprovido do divino. Para Marx e seu parceiro de conspiração, Friedrich Engels, a revolução socialista se baseia na crença de que o homem é um produto das forças socioeconômicas que o circundam, e que ele se desenvolve de forma mais adequada como peça produtiva de um coletivo mais amplo. Não se trata de um indivíduo, mas de uma matéria a ser transformada em algo que possa ser útil ao Estado e garantir a igualdade econômica e a utopia imaginada pelos fundadores do socialismo.

Chega a ser um eufemismo grosseiro considerar essa ideia de humanidade deficiente, inadequada e (já que ideias têm consequências) perigosa.

Tendo vivido e sofrido em dois sucessivos regimes socialistas, São João Paulo II não encontrou dificuldades para identificar os erros e mentiras delas. Sua experiência o levou a pensar de modo mais profundo e claro sobre a verdade da pessoa humana, e então ensiná-la e pregá-la com eloquência e poder singulares.

As reflexões de João Paulo sobre a “antropologia adequada” da Igreja — uma verdadeira e completa compreensão da origem, natureza e destino da pessoa humana — perpassam boa parte de sua obra, mas talvez sejam apresentadas de modo mais completo e convincente em sua obra magna sobre o amor e a personalidade humana: a Teologia do Corpo. Esse trabalho é composto por suas catequeses profundamente contemplativas sobre a verdade da pessoa humana, partindo do coração e da mente da Igreja, e talvez forneça o antídoto mais forte ao socialismo e às diversas outras antropologias deletérias disponíveis em nossa cultura, cada vez mais pós-cristã.  

Para São João Paulo II, uma pessoa humana jamais poderia ser — como Marx propôs — apenas um produto aleatório e involuntário de forças cegas da física e da evolução, o qual só serviria para ser transformado numa engrenagem útil no maquinário de um Estado coletivista. Cada pessoa é um dom, uma expressão singular e irrepetível do amor vivificador do Deus trinitário. Cada vida humana é uma aventura permeada de sentido, propósito e dignidade, uma história de amor única com origem e destino divinos.

O socialismo sempre propôs que o cidadão existe para o Estado; um ser humano é uma coisa a ser usada para o bem do Estado e como extensão de seu poder e prosperidade. Mas Karol Wojtyla viveu sob os efeitos desumanizadores dessa infame visão da pessoa humana; ele conheceu suas consequências destruidoras. Em vez disso, São João Paulo II propôs novamente a profunda e transformadora verdade de que toda pessoa humana é literalmente amada desde a eternidade em sua existência, e que cada um de nós é infinitamente precioso para Deus. Somos criados em comunhão e solidariedade com outros, e ao Estado cabe manter e defender a identidade e a dignidade de cada pessoa (ambas são dons divinos), em vez de determiná-las. O socialismo afirma que a pessoa existe para o Estado, e o catolicismo afirma que o Estado existe para a pessoa.

Na ideologia socialista, o valor de um ser humano só é determinado pelo que ele tem a oferecer ao Estado. Para João Paulo II, cada pessoa humana é insubstituível, indispensável e tem valor infinito, independentemente de suas capacidades, de sua produtividade ou contribuição material. Ele sabia por fé, razão e experiência que toda vez que o cálculo do valor de uma pessoa é feito por outros seres humanos, os direitos fundamentais dela são ameaçados. Se é o Estado que concede dignidade e direitos às pessoas, ele também pode negá-los ou retirá-los.

Também é interessante observar as razões que sempre levaram os regimes socialistas e comunistas a promover o ateísmo e a supressão da fé cristã. O socialismo é, de fato, a deificação do Estado; essa ideologia o põe acima de todos os outros compromissos e comunidades, exigindo adesão absoluta a suas ordens e prioridades. Para Marx e seus protegidos, todas as outras comunidades e compromissos humanos — com Deus, com o cônjuge, com a família e com a Igreja — devem ser eliminados da sociedade para dar prioridade ao Estado todo-poderoso. Para os socialistas, cada homem é propriedade do Estado coletivista. 

Aqui novamente São João Paulo II enxergou com uma clareza aguda a ameaça que a verdadeira antropologia cristã representava para o projeto marxista. Na tradição católica, a pessoa, a família e a fé são todas comunidades e compromissos que existem antes do Estado, tanto em termos cronológicos como segundo a ordem natural das coisas. Deus criou pessoas, o matrimônio e a família como meios naturais por meio dos quais novas pessoas passam a existir, são amadas e formadas. O Estado, por outro lado, é um construto humano, uma realidade temporária pela qual as pessoas passam em sua estrada rumo à vida que virá.

A ênfase na alternativa católica à antropologia socialista é apenas uma parcela do legado vivo de São João Paulo II. Ao longo de seu ministério como sacerdote, bispo e Papa, ele proclamou e defendeu a dignidade e o valor únicos e irrepetíveis de cada pessoa humana, e jamais se esqueceu dos horrores perpetrados pelos socialistas da Alemanha nazista e da Rússia soviética. Quando garoto, Karol Wojtyla sobreviveu ao terror da ocupação socialista. Como Papa, o grande São João Paulo combateu o erro da antropologia socialista com a verdade, a bondade e a beleza da fé católica.   

Papa São João Paulo II,
rogai por nós!

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O que é o pecado do respeito humano?
Doutrina

O que é o pecado
do respeito humano?

O que é o pecado do respeito humano?

De certo ângulo, o “respeito humano” parece uma coisa boa. Afinal, devemos respeitar, honrar e valorizar-nos uns aos outros. O problema é quando nos preocupamos mais com o que as pessoas pensam de nós do que com a vontade de Deus a nosso respeito.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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De certo ângulo, o “respeito humano” parece uma coisa boa. Afinal, devemos respeitar, honrar e valorizar-nos uns aos outros. O que, então, significa o pecado do respeito humano? É aquele pecado em que tememos o homem mais do que a Deus; estamos mais preocupados com o que as pessoas pensam de nós do que com o que Deus pensa de nós. Este é um medo profano e pecaminoso, que está na raiz de muitos de nossos pecados, tanto de obras quanto de omissão.

Consideremos alguns exemplos:

  • Um homem se dirige a um grupo de colegas de trabalho que estão falando sobre o chefe e também, de forma inadequada, sobre algumas mulheres do escritório. Ele sabe que os comentários depreciativos sobre o chefe são injustos ou até mesmo falsos. Ele também sabe que falar sobre as mulheres do escritório usando imagens sexuais grosseiras e referências lascivas é errado. Mas, por querer “se encaixar”, ele entra na conversa e participa do que sabe que está errado. Ele ri das piadas inapropriadas e não tenta dirigir a conversa em uma direção mais apropriada. Ele faz isso porque tem medo de ser rejeitado e está mais preocupado com o que seus colegas de trabalho pensam dele do que com o que Deus pensa dele. Ele teme o homem mais do que a Deus. O fato de Deus estar descontente com suas ações é menos importante do que qualquer colega.
  • Uma jovem mulher sabe que sexo antes do casamento é errado e desagradável a Deus. No entanto, ela já namorou vários homens e dormiu com a maioria deles. Ela faz isso, em parte, porque teme ser rejeitada. Talvez, se ela não ceder aos desejos dos rapazes que namora, eles a rejeitem e ela fique sozinha. Ela acha que uma mulher “tem que fazer isso” para ser popular e desejável. Ela teme o homem mais do que a Deus. O que os outros pensam é mais importante para ela do que o que Deus pensa. Ela pode muito bem minimizar a importância de seu pecado dizendo a si mesma: “Bem, Deus entende”. Mas, ao mesmo tempo, maximiza a importância de acabar desagradando a homens fracos e falíveis, pensando que desagradá-los seria uma catástrofe. Ela respeita — isto é, teme — o homem mais do que a Deus.
  • Um padre de uma paróquia tem um mandato de Deus e da Igreja para pregar em seu nome, mas ele reluta em pregar as coisas “difíceis”. Afinal, falar de coisas como aborto, fornicação, divórcio, contracepção, homossexualidade e eutanásia deixa algumas pessoas chateadas. Ele teme isso, tem medo de ofender as pessoas, tem medo de ser mal interpretado. Uma vez, quando falou sobre o aborto (porque o bispo mandara), alguns paroquianos vieram até ele e disseram que ele não deveria trazer política para o púlpito. Certa feita, quando pregou sobre o problema do divórcio (o tema do Evangelho daquele dia), uma mulher (divorciada) se aproximou dele após a Missa dizendo que se sentia magoada e “excluída”. Experiências como essas levaram o padre a “jogar com segurança”. Ele sempre começa a homilia com uma piada e as pessoas parecem amá-lo por isso. Ele escolhe pregar apenas sobre abstrações e generalidades. Ele exorta as pessoas a serem um pouco mais gentis, um pouco mais generosas, mas evita ser específico. Ele faz isso porque teme mais o homem do que a Deus. Que Deus possa ficar triste por seu povo não estar ouvindo a verdade sobre questões morais importantes ou recebendo instrução adequada é um medo vago e distante para esse sacerdote; mas uma pessoa levantando a sobrancelha ao que ele diz é o suficiente para lhe amargar a semana inteira. Por isso, ele fica em silêncio como profeta, e passa a agradar as pessoas. Ele respeita — teme — o homem mais do que a Deus. 
  • Uma mãe sabe que deve criar seus filhos no temor do Senhor e educá-los de maneira piedosa, mas, oh! os protestos quando ela os manda fazer as tarefas, ou ir para a cama, ou fazer o dever de casa! É ruim suportar a raiva e a decepção deles. Ela também se lembra de como seus pais foram severos e de como ela jurou que seria mais amigável com os próprios filhos. Então, aos poucos, ela vai deixando sua autoridade diminuir, e os filhos, na maioria das vezes, conseguem o que querem. O marido não tem pulso firme e quer ser visto como um “cara legal” pelos filhos e amigos. A insistência de Deus na oração, disciplina e respeito pelos mais velhos dá lugar ao que os filhos desejam. O mais velho, adolescente, não quer mais ir à Missa. Mas, afinal, “você não pode impor a religião às crianças”, pensam. Aqui também os pais temem mais os filhos do que a Deus. Têm mais respeito pelos filhos do que por Deus.

Eis alguns exemplos do pecado do respeito humano. Isso está profundamente presente em nossa natureza ferida e leva a muitos outros pecados. Muitas pessoas estão desesperadas por atenção, respeito, aceitação e aprovação de outros. Muitas delas, porém (até mesmo religiosos praticantes), relutam em se preocupar com o que Deus pensa deles ou se Ele aprova seu comportamento.

Deus tem uma solução direta para isso: devemos temê-lo, e a ninguém mais. Há um velho ditado que diz: “Se eu me ajoelhar diante de Deus, poderei estar de pé diante de qualquer homem”. É mais fácil temer (respeitar) um só do que muitos. Quanto mais aprendemos a temer (respeitar) a Deus, menos nos preocupamos com o que os outros pensam. Este não é um convite para se tornar um sociopata, que não se importa com o que os outros pensam. Devemos ser educados, cuidar de nós mesmos e não provocar brigas intencionalmente. Mas, no fim das contas, somos instruídos pelo Senhor a nos libertar do terrível medo daquilo que os outros pensam.

Dizer que essa é uma solução simples refere-se mais à sua descrição que à sua execução. Porque, com efeito, não é fácil livrar-se desse impulso tão profundo; na verdade, leva a vida toda. O primeiro passo para a cura é admitir que temos um problema. Então, começamos a vê-lo como realmente é, entender seus movimentos e permitir que o Senhor nos liberte continuamente.

Sejamos também claros: o temor do Senhor aconselhado aqui não é um temor servil e acovardado. Se, porém, isso é tudo o que uma pessoa pode dar agora, é melhor do que não ter medo algum! A verdadeira finalidade é termos um temor filial de Deus, temendo ofendê-lo porque o amamos. Este tipo de medo do Senhor nos mantém deslumbrados. Trata-se de ter uma reverência a Ele, enraizada em um profundo amor e gratidão. Por causa desse amor e gratidão, tememos ofendê-lo mais do que ofender a qualquer outro [1].

Talvez algumas citações da Escritura, que tratam de vários aspectos do problema do respeito humano e do remédio do santo temor, sejam uma conclusão adequada para esta reflexão:

  • “Pelo temor do Senhor evita-se o mal” (Pr 16, 6).
  • “Que teu coração não inveje os pecadores, mas permaneça sempre no temor do Senhor” (Pr 23, 17).
  • Vale mais o pouco com o temor do Senhor que um grande tesouro com a inquietação” (Pv 15, 16).
  • “O seu temor, sempre presente aos vossos olhos, vos preserve de pecar” (Ex 20, 20).
  • “Terrível sois, quem vos poderá resistir, diante do furor de vossa cólera” (Sl 75, 8).
  • “Terrível é Deus na assembleia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam” (Sl 88, 8).
  • “Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, porque o Senhor me sustenta. Nada temo diante desta multidão de povo, que de todos os lados se dirige contra mim” (Sl 3, 6s).
  • “Eu lhes darei um só coração e um mesmo destino, a fim de que sempre me reverenciem, para o seu próprio bem e de seus descendentes” (Jr 32, 39).
  • “Aproximaram-se dele e disseram-lhe: ‘Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade’” (Mc 12, 14).
  • Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!” (Lc 6, 26).
  • “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na sua glória, na glória de seu Pai e dos santos anjos” (Lc 9, 26).
  • “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28).
  • Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 18s).
  • “A mim pouco se me dá ser julgado por vós ou por tribunal humano, pois nem eu me julgo a mim mesmo. De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor” (1Cor 4, 3s).
  • “De ora em diante ninguém me moleste, porque trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6, 17).
  • “Compenetrados do temor do Senhor, procuramos persuadir os homens. Estamos a descoberto aos o­lhos de Deus, e espero que o estejamos também ante as vossas consciências” (2Cor 5, 11).

Notas

  1. A teologia católica costuma distinguir duas classes de temor: a) o chamado temor servil, pelo qual se teme a Deus como a quem pune ou inflige uma pena devida a uma culpa atual; b) e o chamado temor filial, pelo qual se teme a Deus como Pai, a quem não se quer ofender ou desagradar pela culpa, seja atual ou possível. Daí se vê que, se o temor servil se refere a Deus enquanto princípio ativo da pena, o filial a Ele se refere como termo do qual se teme separar por qualquer culpa (cf. S. Tomás de Aquino, STh II-II 19, 5 ad 2). — É também doutrina católica, fundada no ensinamento explícito tanto da S. Escritura quanto do Magistério eclesiástico, que o temor, seja servil ou filial, tem por raiz ou causa própria os atos elícitos da : “Também os demônios creem e tremem” (Tg 2, 19). E a razão disso é a seguinte: o movimento de temor é causado no apetite inferior ou superior pela apreensão sensitiva ou intelectiva de um mal iminente ao qual não se pode facilmente resistir; ora, a fé produz em quem crê a apreensão intelectiva de um mal divino iminente ao qual não se pode facilmente resistir (no caso do temor servil, apreende-se o mal de pena enquanto há de ser infligido por Deus ofendido; no caso do filial, apreende-se o mal que é separar-se de Deus como Pai pela culpa); logo, a fé causa o temor de Deus em quem crê (cf. Pe. Santiago Ramírez, De fide, §§678.681ss). — Donde se segue que o melhor meio de crescer no temor de Deus é por atos frequentes de fé: “A fé ensina aos fiéis no que propriamente consiste o pecado e como ele é, propriamente, uma ofensa a Deus; ensina também que Deus é justíssimo e preparado para punir com penas proporcionais os pecados mortais das criaturas. Estas penas são tanto de dano quanto de sentido, ambas de certo modo infinitas. E porque a fé ensina também que Deus é onipotente e, consequentemente, que ninguém pode fugir das mãos dele, segue-se no pecador a representação de um mal infinito que não pode ser evitado enquanto permanece o pecado, e por isso naturalmente causa em quem crê o temor deste mal, segundo aquilo: ‘É horrendo cair nas mãos do Deus vivo’ (Hb 10, 31)” (Id., ibid.) (Nota da Equipe CNP).
  2. A pintura acima é um detalhe de “A Segunda Negação de São Pedro”, por James Tissot.

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