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São José, o patriarcado e os homens de hoje
Espiritualidade

São José,
o patriarcado e os homens de hoje

São José, o patriarcado e os homens de hoje

O patriarcado é uma coisa ruim? Entenda nesta matéria por que as famílias precisam de homens e como eles podem se tornar pais segundo o coração puríssimo de São José.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Março de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Na oitava da solenidade de São José, a liturgia da Igreja põe-nos diante dos olhos o mistério da Encarnação do Verbo de Deus, com a solenidade da Anunciação. E tudo isso em plena Quaresma. É como se nossos pés se detivessem às portas de Jerusalém... e voltássemos a Nazaré, à infância do Salvador, ao Natal.

Nestas linhas, porém, queremos meditar antes sobre um dado da natureza humana. É que a figura de São José, ao lado de Maria e de Jesus — das quais temos abundantes exemplos na arte sacra — vem nos recordar, especialmente a essa nossa época louca e revolucionária, que as famílias precisam de pais, de figuras masculinas (homens!) que as conduzam e liderem; vem nos lembrar que o patriarcado (não obstante a distorção moderna sofrida pelo termo) é uma coisa boa e deve ser conservado.

Muitos argumentos poderiam ser empregados aqui para confirmar essa verdade, argumentos extraídos da simples observação da natureza humana, vindos da psicologia, da antropologia e de outras ciências. Mas, a princípio, às pessoas da Igreja, lembremos tão somente que Deus, querendo vir à terra, confiou-se à responsabilidade de um patriarca; e ainda Ele, moldando a criatura mais perfeita que jamais existiu — a Virgem Maria —, confiou-a igualmente a um homem. Os dois maiores dons com que a humanidade seria agraciada, portanto, sob a tutela de um varão, e a ele submissos. Eis a nobilíssima missão de São José. Eis a verdade que o mundo moderno, se não faz questão de negar, faz o possível ao menos para calar, ignorar ou deixar que morra no esquecimento.

De fato, a releitura que muitos em nossa época, sem fé, tentam fazer da Encarnação é que Jesus teria sido fruto de uma “produção independente”. Numa tentativa patética talvez de justificar a desestruturação por que passam hoje as famílias, a imagem que se vende muitas vezes de Maria Santíssima é a de uma “mãe solteira”, desamparada, que dá à luz um filho nos escombros de uma pobre gruta e sem assistência humana quase nenhuma — São José sempre à parte, sempre coadjuvante, sempre deixado de lado.

À parte os elementos de verdade contidos nessa narrativa — pois é fato que o Filho de Deus quis descer à terra e, na falta de hospedagem, abrigar-se na simplicidade de uma estrebaria —, está muito longe da verdade insinuar que tenha sido nulo ou desprezível o papel de São José no mistério da Encarnação. Vale lembrar que um anjo visitou-lhe em sonho, instruindo-o sobre o que deveria fazer em relação à mulher e ao Menino e, além disso, nas palavras de São Beda, o Venerável, sua escolha foi providencial ad famam Mariae conservandam, isto é, “para salvaguardar a reputação de Maria” [1]. Sim, porque embora os esponsais de Maria e José deixassem como que “velada” a concepção virginal de Cristo, explica Santo Ambrósio, “o Senhor preferiu que alguns duvidassem da sua origem antes que do pudor de sua Mãe” [2]. Em suma, como escreve o Padre Federico Suárez:

Para um cristão que acredita em Cristo, que crê que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o fato de Deus ter escolhido José para esposo da Virgem Maria e pai legal de Jesus é motivo suficiente para pensar que, apesar de tudo, talvez não tenha sido um homem tão vulgar e comum, uma vez que o próprio Deus o escolheu — mais ainda, o criou — para desempenhar uma das missões mais difíceis e de maior responsabilidade jamais confiada a um homem [3].

O fato de ter sido um homem a zelar pela Sagrada Família, no entanto, de ter sido um homem a conduzi-la de Nazaré a Belém, e dali ao Egito, e dali de volta a Nazaré... não é mais tão óbvio quanto noutras épocas. Existe até mesmo a tentação, por parte de alguns, de relegar o papel masculino na família e na sociedade a uma mera “construção social”, tão passível de transformação quanto um hábito ou qualquer moda do momento.

Mas, não estivéssemos cegados por mentiras como a ideologia de gênero, nós seríamos capazes de ver inscrita na natureza uma ordem e uma harmonia irretocáveis: homem e mulher foram colocados desde o princípio para reinar no mundo criado, um com a cabeça e outra com o coração, um com a razão e outra com os sentimentos, um com a força física que desafia e outra com a força emocional que consola, complementaridade indispensável para a formação integral do ser humano.

É por isso que, antes de falar propriamente das virtudes de São José, importa falarmos primeiro de sua virilidade e de seu papel como pai e esposo; importa falarmos simplesmente de sua presença, já que nossa sociedade experimenta cada vez mais a ausência dos homens, justamente nos postos que mais exigiriam sua atuação…

“São José com o Menino Jesus”, de Murillo.

Sim, porque não adianta rebelar-se contra a ordem natural das coisas e pedir, seja dentro de um movimento social institucionalizado, seja através de gestos e palavras no dia-a-dia, a extinção do patriarcado ou a abolição da masculinidade. “A presença de estruturas mundanas de dominação bruta e egoística deveria não manchar, mas sim acentuar fortemente a honra e o esplendor de um patriarcado cristão caracterizado pelo serviço amoroso e pela liderança sacrificial” [4].

Dizendo de outro modo, não é porque há homens que bebem, batem em suas esposas e não educam os seus filhos que se deve pedir o fim da família e da união entre homem e mulher. O marxismo viu na chamada “família burguesa” uma estrutura essencial de dominação, mas só o fez porque olhou para a família a partir de seus vícios e de sua degradação, ao invés de olhar para o projeto original do Criador e para as famílias que o colocaram em prática.

Da parte dos homens, cabe, é claro, tomar o cuidado de não repetir os mesmos erros pelos quais caíram e fracassaram, principalmente em suas casas, tantos de nossos pais. Se sobram no mundo (e à nossa volta, bem próximos de nós) homens adúlteros, beberrões, covardes, violentos, ladrões e moles, sejamos nós o contrário de tudo isso e lutemos com afinco para ser puros (não só no corpo, mas principalmente de coração), sóbrios, corajosos, pacíficos, honestos e fortes. Essa é a melhor forma (se não a única) de lutar contra a ideologia feminista que propugna pela “liberação” e o “empoderamento” da mulher e pelo fim da autoridade paterna. De nada adianta, de fato, vencer-lhes os argumentos, se continuamos a reforçar, com nossos atos, exatamente as razões pelas quais elas odeiam o patriarcado — e que no fundo não constituem o patriarcado cristão, mas justamente a sua corrupção.

“Corrompeu-se o patriarcado, então?”, alguém poderá indagar. “E quando foi que ele existiu, por assim dizer, em sua forma pura?”

A resposta a essa pergunta infelizmente não é das mais animadoras, pois, mesmo nos tempos em que o cristianismo era o “fermento” da sociedade, o sexo masculino como um todo sempre teve grande dificuldade em observar a palavra de Cristo que diz: “Todo aquele que rejeita sua mulher e desposa uma outra, comete adultério” (Mt 19, 9). “É um triste fato”, nesse sentido, “que nos antigos centros da cristandade, e notavelmente em países de predominância católica, ter uma amante fosse, e ainda seja, um estilo de vida aceito” [5]. De fato, essa fidelidade de que fala o Evangelho sempre foi uma virtude de poucos homens, de modo que não é exagero algum afirmar que, historicamente falando, “nunca antes houve um patriarcado cristão culturalmente estabelecido” [6].

Nosso parâmetro, no entanto, não é esta ou aquela época da história; nós não nos devemos guiar pela “média” do que foram os homens de outros tempos e de outros lugares. (Do contrário, seríamos apenas “medianos”, ou pior: medíocres.) Nossa medida deve ser, sempre, os poucos corações que seguiram o Evangelho de Cristo, os poucos homens que foram patriarcas no verdadeiro sentido da palavra, pois é de Deus que provém toda paternidade no céu e na terra (cf. Ef 3, 15). Nosso modelo de patriarcado não é o coração impuro de Adão, mas o Sagrado Coração de Jesus, novo Adão; não é o coração decaído de nosso primeiro pai, mas sim o coração puríssimo do Patriarca da Sagrada Família, São José. Eis os homens que devemos imitar, eis o tipo de coração a que devemos elevar os nossos.

Para começarmos essa ascensão, porém, para implantarmos em nossa época um patriarcado realmente cristão, comecemos do básico. É evidente que abandonar a “gandaia” não é tudo. Um homem que não trai a sua esposa, que não gasta as suas horas no boteco, que não espanca sua companheira e que tampouco dilapida o patrimônio da família não está fazendo, no fundo, mais do que a sua obrigação. Mas ninguém deve subestimar a importância de falar sobre essas coisas, pois são esses pecados grosseiros que aprisionam a maior parte da humanidade — e, custa-nos dizer, maior parte das pessoas que vão à igreja também.

Noutras palavras, para que os seres humanos vivam plenamente o amor, é preciso que eles passem pela experiência da “primeira liberdade”, como diz Santo Agostinho:

A primeira liberdade consiste em estar isento de crimes [...] como são o homicídio, o adultério, a fornicação, o furto, a fraude, o sacrilégio e assim por diante. Quando alguém começa a não ter estes crimes (e nenhum cristão os deve ter), começa a levantar a cabeça para a liberdade, mas isto é apenas o início da liberdade, não a liberdade perfeita [7].

Se queremos resgatar a masculinidade, portanto, comecemos com o básico: deixando a vida de pecados mortais. Ninguém se iluda com uma “restauração do patriarcado” que prescinda de conversão, que prescinda de uma vida interior, que prescinda de uma mudança de mentalidade e de uma vida cristã seriamente vivida. Ninguém pode vencer a sua natureza decaída contando com as próprias forças. Ninguém pode viver o dom de uma paternidade autêntica se não for, primeiro, obediente ao nosso Pai dos céus.

Foi esse o grande segredo de São José. E é também esse o caminho para sermos patriarcas como ele foi.


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Referências

  1. Citado em Suma Teológica, III, q. 28, a. 1, ad 1.
  2. Id., III, q. 29, a. 1, ad 2.
  3. José, Esposo de Maria, Lisboa: Rei dos Livros/Prumo, 1986, p. 15.
  4. G. C. Dilsaver, The Three Marks of Manhood: How to Be Priest, Prophet and King of Your Family, Charlotte: TAN Books, 2012, viii.
  5. Ibid., p. 100.
  6. Ibid., p. 101.
  7. In Iohannis Evangelium Tractatus, 41, 9-10: CCL 36, 363, citado por S. João Paulo II em Veritatis Splendor, 6 ago. 1993, n. 13, nota 23.

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Três Ps que os homens precisam imitar em São José
Espiritualidade

Três Ps que os homens
precisam imitar em São José

Três Ps que os homens precisam imitar em São José

São José foi dado a todos como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dela provêm todas as outras virtudes que ele possui. Destas, porém, três são especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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“Não é por acaso”, eu disse a Miguel, “que toda igreja católica tem uma imagem de São José na frente” [1].

Miguel tinha vindo se confessar e buscar aconselhamento para superar seus fracassos como marido e pai. Ele foi pego na armadilha da pornografia e da ambição. Ele tomou algumas decisões fáceis, mas ruins. O estresse se acumulou e o apego ao trabalho começou a piorar. Miguel começou a negligenciar a relação com sua esposa e filhos — considerando-os um fardo e um incômodo. Por causa disso, sua esposa estava ameaçando pedir o divórcio. Miguel, então, veio me procurar porque a realidade o havia atingido como um banho de água fria.

“São José”, continuei, “nos é dado como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dessa fidelidade provêm todas as outras virtudes que ele possui”.

No Evangelho de São Mateus, São José é descrito como “um homem justo”. Outras versões traduzem o texto dizendo que ele era “fiel à Lei”. Em outras palavras, José se submeteu à lei de Deus, e foi essa obediência essencial e fidelidade à vontade de Deus que formou o alicerce de sua vida. São José viveu de fato aquele versículo do Evangelho que diz: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6, 33).

A fidelidade de São José, como pai adotivo de Jesus, deu origem a uma série de outras virtudes, mas há três, que vemos nas narrativas do Natal, especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

1. Pureza. — A primeira virtude que nasce da fidelidade de São José é a pureza. Numa época em que a pornografia e a imoralidade desenfreada propagam-se ao nosso redor, a pureza pode parecer passiva e covarde. Mas a pureza passiva e fraca não é uma virtude masculina. Em vez disso, a verdadeira pureza é forte. A verdadeira pureza está enraizada não apenas no ato de evitar o pecado sexual, mas numa fidelidade positiva e operante.

O homem fiel à esposa e ao chamado cristão à castidade percorre um caminho de liberdade e força. Uma pureza enraizada na fidelidade à vontade de Deus e ao caminho divino revela uma sexualidade totalmente madura e integrada. O homem viril e puro num sentido positivo compreende o impulso fecundo da sexualidade e o trata como uma força poderosa em sua vida — não simplesmente como um brinquedo, ou algo a ser temido e reprimido. Essa pureza positiva, em São José, estava presente na aceitação da Virgem Maria como sua esposa, na sua capacidade de se abster de relações sexuais com ela e na poderosa canalização de sua sexualidade para o serviço de um amor maior.

“O Sonho de São José”, por Antonio Palomino.

2. Paciência. — A segunda virtude que se desenvolve com a fidelidade de São José é a paciência. São José é um protótipo do homem forte e silencioso. Ele olha e espera. Observa a situação com atenção. Ele é capaz de parar, olhar e ouvir. Ele não reage impulsivamente, mas se contém, para poder agir com cuidado, no momento certo, após considerar todos os fatos.

A paciência de José cresce com a fidelidade, porque toda a sua vida esteve enraizada na lei de Deus. Por meio de uma vida de estudo e oração, um homem judeu da geração de José aprendia a ouvir a Deus, confiar nele e, depois, obedecer-lhe. Para desenvolver uma vida espiritual tão profunda são necessários trabalho árduo, perseverança e paciência — uma virtude que vemos em seu cuidadoso zelo com Maria e o Menino Jesus, e que precisamos desenvolver em nosso mundo altamente sobrecarregado, impulsivo e acelerado.

3. Prudência. — A terceira virtude erigida sobre o alicerce da fidelidade de São José é a prudência, que consiste no discernimento sábio e cuidadoso que nos permite escolher o caminho certo. Constata-se a prudência de São José quando ele encontra abrigo para Maria, que estava prestes a dar à luz. Também a sua escolha de fugir para o Egito e retornar apenas quando fosse seguro revela um guardião de Cristo prudente, maduro e sábio. Mais uma vez, a virtude da prudência de São José está enraizada em sua fidelidade, porque sua profunda confiança na providência de Deus o capacita a correr riscos e fazer as escolhas certas, sabendo que Deus cuida de tudo.

A narrativa do Natal é maravilhosa não apenas porque está carregada de elementos sobrenaturais, como um nascimento milagroso, anjos e uma estrela-guia, mas também porque está repleta da força extraordinária de pessoas ordinárias como São José. A pureza, a paciência e a prudência que ele demonstra são um lembrete para pessoas como Miguel, que estão lutando com as responsabilidades do casamento e da paternidade. O casamento dele estava uma bagunça porque ele carecia de pureza, paciência e prudência; e ele não tinha essas virtudes porque lhe faltava primeiro aquela profunda fidelidade a Deus, da qual essas virtudes se originam. Quando fui capaz de orientá-lo a redefinir as prioridades de sua vida e a desenvolver uma devoção genuína a São José, começamos a ver essas mesmas virtudes florescerem na vida dele e sua vida familiar começou a tomar a direção certa.

As festividades de Natal, que acabamos de viver, são uma oportunidade não apenas para encher a barriga e reunir a família e os amigos [2]. Precisamos também redefinir nossas prioridades, determinar mais uma vez que edificaremos nossa casa sobre o alicerce de Cristo e, a exemplo de São José, assegurar que toda a nossa vida gire em torno do Menino que está sobre a manjedoura.

Notas

  1. Embora seja frequente a presença de imagens de São José nas igrejas, infelizmente não são todas que a possuem. Em todo o caso, entende-se a colocação do autor no sentido de que “deveriam ter”, visto ser ele o Patrono da Igreja Católica. Além disso, o padre fala a partir do contexto dos Estados Unidos, onde ele mora.
  2. Sobre a importância de estender as comemorações do tempo do Natal, cf. Peter Kwasniewski, Até quando devemos festejar o Natal?.

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Novena a São João Bosco
Oração

Novena a São João Bosco

Novena a São João Bosco

Esta novena a São João Bosco pode ser feita a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 22 a 30 de janeiro, dias que precedem a sua memória litúrgica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Esta novena a São João Bosco, “pai e mestre da juventude”, pode ser feita a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 22 a 30 de janeiro, dias que precedem a sua memória litúrgica. 

O texto abaixo encontra-se relativamente difundido na internet. Nossa equipe ficou responsável apenas por revisá-lo e organizá-lo melhor. A novena, em si, divide-se em três partes: 1.º, uma inicial, a ser feita todos os dias; 2.º, uma própria do dia; e, 3.º, uma última, também comum a todos os dias. Quem preferir, também pode acessar a novena neste arquivo .pdf.


Oração Inicial
(todos os dias)

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Vinde Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor. 

℣. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado,
℟. E renovareis a face da terra.

Oremos: Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis
com a luz do Espírito Santo,
fazei que apreciemos retamente todas as coisas,
segundo o mesmo Espírito,
e gozemos sempre da sua consolação.
Por Cristo Senhor Nosso. Amém.

Oração a Dom Bosco

Ó Glorioso São João Bosco,
quando estáveis nesta terra,
não havia ninguém que, acudindo a vós,
não fosse por vós mesmo
benignamente recebido, consolado e ajudado.
Agora no céu, onde a caridade atinge a perfeição,
quanto deve arder vosso grande coração
em amor aos necessitados!
Vede, pois, as minhas presentes necessidades
e ajudai-me, obtendo-me do Senhor a graça...
(pede-se a graça).
Também vós haveis experimentado durante a vida
as privações, as enfermidades, as contradições,
a incerteza do porvir, as ingratidões, as afrontas,
as calúnias, as perseguições e sabeis que coisa é sofrer.
Por isso, ó Dom Bosco santo,
volvei até mim vosso bondoso olhar
e obtende do Senhor quanto vos peço,
se for vantajoso para minha alma;
e se assim não o for, obtende alguma outra graça
que me seja ainda mais útil
e uma conformidade filial à divina vontade
em todas as coisas,
ao mesmo tempo que uma vida virtuosa
e uma santa morte. Amém.


Primeiro Dia

“Quereis que o Senhor vos conceda muitas graças? Visitai-o frequentemente. Quereis que Ele vos conceda poucas? Visitai-o raramente.”

Glorioso São João Bosco, pelo amor ardente que tivestes a Jesus Sacramentado e pelo zelo com que propagastes seu culto, sobretudo com a assistência da Santa Missa, com a Comunhão frequente e com a visita cotidiana ao Santíssimo Sacramento; alcançai-nos a graça de crescer cada vez mais no amor e na prática de tão santas devoções, e de terminar nossos dias fortalecidos e confortados pelo celestial alimento da Divina Eucaristia.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Segundo Dia

“Quem confia em Maria nunca ficará desiludido”

Glorioso São João Bosco, pelo amor que tivestes à Virgem Auxiliadora, vossa mãe e mestra; alcançai-nos uma verdadeira e constante devoção a tão dulcíssima mãe, a fim de que, como filhos seus devotíssimos, possamos merecer seu valioso patrocínio nesta vida e de um modo especial na hora de nossa morte.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Terceiro Dia

“A oração é o primeiro alimento, como o pão é o alimento do corpo. Há que rezar com uma ilimitada esperança de ser ouvidos”

Glorioso São João Bosco, pelo amor filial que tivestes à Santa Igreja e ao Sumo Pontífice, a quem defendestes constantemente; alcançai-nos a graça de ser sempre dignos filhos da Igreja Católica, e de amar o Papa e venerar nele a infalibilidade de Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Quarto Dia

“Em cada manhã entregai a Deus as ocupações do dia; e fazei cada coisa como se fosse a última da vossa vida”

Glorioso São João Bosco, pelo grande amor com que amastes a juventude, fazendo-se pai e mestre dela, e pelos heroicos sacrifícios que fizestes por sua salvação; fazei que também nós amemos com um amor santo e generoso a esta porção eleita do Sagrado Coração de Jesus, e que em todo jovem contemplemos a pessoa adorável de nosso divino Salvador.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Quinto Dia

“A oração faz violência ao coração de Deus”

Glorioso São João Bosco, vós que, a fim de continuar a estender sempre mais vosso santo apostolado, fundastes a Sociedade Salesiana e o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora; fazei que os membros destas duas famílias religiosas estejam sempre cheios de vosso espírito e sejam fiéis imitadores de vossas heroicas virtudes.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Sexto Dia

“Dom Bosco, em sua vida, jamais será capaz de afastar quem lhe peça para ficar com ele”

Glorioso São João Bosco, vós que a fim de obter no mundo mais abundantes frutos de exercício da fé e de terníssima caridade, instituístes a União dos Cooperadores Salesianos; fazei que estes sejam sempre modelos das virtudes cristãs e providenciais ajudantes de vossas obras.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Sétimo Dia

“Ajude sempre os seus colegas. Mesmo que lhe custe sacrifício. A santidade está toda aqui”

Glorioso São João Bosco, vós que amastes com amor inefável a todas as almas, e que para salvá-las enviastes vossos filhos até os últimos confins da terra; fazei que também nós pensemos continuamente na salvação de nossas almas e cooperemos com todos os meios possíveis para salvar tantos pobres irmãos nossos.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Oitavo Dia

“Amem muito a castidade. Lembrem-se, para conservá-la é precioso trabalhar e rezar.”

Glorioso São João Bosco, vós que amastes com um amor de predileção a bela virtude da pureza, e a tomastes como exemplo, com a palavra e com os escritos; fazei que também nós, enamorados de tão indispensável virtude, a pratiquemos constantemente e a difundamos com todas nossas forças.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Nono Dia

“Quem perseverar até o fim, será salvo”

Glorioso São João Bosco, vós que fostes sempre tão compassivo com as humanas desventuras, dirigi um olhar a nós, tão necessitados de vosso auxílio. Fazei descer sobre nós e sobre nossas famílias as maternais bênçãos de Maria Auxiliadora; alcançai-nos todas aquelas graças espirituais e temporais de que necessitamos: intercedei por nós na vida e na morte, a fim de que possamos cantar eternamente as divinas misericórdias no Paraíso Celestial.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.


Oração Final
(todos os dias)

Deus, qui sanctum Joánnem Confessórem tuum
adolescéntium patrem et magístrum excitásti,
ac per eum, auxiliatríce Vírgine María,
novas in Ecclésia tua famílias floréscere voluísti:
concéde, quǽsumus;
ut, eódem caritátis igne succénsi,
ánimas quǽrere, tibíque soli servíre valeámus.
Per Dóminum nostrum Iesum Christum, Filium tuum:
Qui tecum vivit et regnat
in unitáte Spíritus Sancti, Deus:
per omnia sǽcula sǽculorum. ℟. Amen.

Ó Deus, que suscitaste São João, vosso Confessor,
como pai e mestre dos jovens
e por ele, auxiliado pela Virgem Maria,
quisestes florescessem novas famílias em vossa Igreja,
concedei, vos rogamos,
que, inflamados pelo mesmo fogo da caridade,
busquemos as almas
e a vós somente sirvamos.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que convosco vive e reina
na unidade do Espírito Santo. ℟. Amém.

Oração a Nossa Senhora Auxiliadora
(composta por São João Bosco)

O Maria, Vergine potente,
Tu grande illustre presidio della Chiesa;
Tu aiuto meraviglioso dei Cristiani;
Tu terribile come esercito schierato a battaglia;
Tu sola hai distrutto ogni eresia in tutto il mondo;
Tu nelle angustie, nelle lotte, nelle strettezze
difendici dal nemico e nell'ora della morte
accogli l'anima nostra in Paradiso!
Amen.

Ó Maria, Virgem poderosa,
vós, grande e ilustre defensora da Igreja;
vós, Auxílio maravilhoso dos cristãos,
vós, terrível como um exército em ordem de batalha;
vós, que, sozinha, destruístes toda heresia no mundo inteiro;
nas angústias, nas lutas, nas aflições,
defendei-nos do inimigo;
e, na hora da morte,
acolhei a nossa alma no Paraíso!
Amém.

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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“Não coma um demônio”
Espiritualidade

“Não coma um demônio”

“Não coma um demônio”

Relato de um exorcista nos dá uma razão a mais para sempre rezar antes das refeições. Não pode haver melhor remédio para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão procurando a quem devorar”, do que a bênção e o refúgio em Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Por que rezar antes das refeições? Já publicamos aqui um texto a esse respeito, ensinando o valor dessa prática principalmente na educação das crianças. Hoje, queremos apresentar uma reflexão um pouco diferente, contendo o interessante relato de um padre exorcista. Seu nome é Mons. Stephen Rossetti e ele mantém na internet uma espécie de “diário”, com histórias muito interessantes de seu ministério. Esta, em particular, tem um título particularmente intrigante: Don’t eat a demon — literalmente, “não coma um demônio”. Eis o que ele conta:

Eu estava almoçando com uma de nossas fiéis leigas agraciadas [por Deus com dons extraordinários]. Temos várias delas. Essa pessoa [em particular] tem o dom de realmente ver demônios. Os pratos de comida foram colocados pela serviçal à nossa frente, mas ela não começou a comer. Foi notável. Finalmente, ela levantou os olhos e disse: “O sr. não vai abençoar a comida?

Pelo modo de ela proceder, eu sabia que algo estava acontecendo. Respondi: “Algo errado com a comida?” Ela acenou com a cabeça, mas nada disse. “Há alguns demônios sobre ela?”, perguntei-lhe. “Sim”, ela disse. Dei [então] a típica bênção sobre os alimentos. Ela disse que os demônios rapidamente saíram. De novo, ao chegar a sobremesa, ela hesitou. “Há demônios sobre ela também?”, perguntei-lhe de novo. “Sim”, ela disse. Desta vez, fiz com que ela dissesse a bênção, e eles saíram.

Isso pode fazer você se perguntar: o que se passou na cozinha?! Bem, esse foi um raro incidente (até onde sei) de demônios sobre a comida vistos por ela. Suspeito que algum dos cozinheiros tenha amaldiçoado o alimento antes de ele sair. Pode parecer estranho, mas tenho descoberto que há mais pessoas amaldiçoando coisas, e envolvidas em práticas ocultistas, do que eu esperava.

Se eu tivesse ingerido a comida sobre a qual estavam os demônios, não sei ao certo o que teria acontecido. Sem dúvida não teria sido algo agradável. Eu decerto teria tido uma indigestão ou algo do tipo.

Moral da história: não vá a lugar algum sem o seu próprio místico! [Risada.] Ao mesmo tempo, você pode imaginar como eu fiquei bem mais atento à bênção sobre os alimentos antes de comê-los… Quem deseja comer um demônio, afinal [1]?

Antes de tratar da bênção sobre os alimentos propriamente dita, falemos um pouco do valor que realmente têm os malefícios feitos por outrem contra nós. Infelizmente, nessa matéria, muito facilmente as pessoas tendem ao extremo da credulidade e da superstição, atribuindo a determinados ritos e entidades um poder que eles definitivamente não têm. Sobre isso, vale a pena considerar o que escreveu certa vez o Fr. Boaventura Kloppenburg:

Para nós cristãos […] não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão da eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas forças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a ele, pode ajoelhar-se perante Satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. É o “mistério da iniquidade”, o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: o homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes (Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, p. 22s).

Na mesma linha, o Pe. Royo Marín admite que “são raríssimos os verdadeiros malefícios (ainda que, de fato, possam dar-se) e não se deve facilmente dar crédito às calamidades que sem fundamento se atribuem aos feiticeiros” (Teología moral para seglares, vol. 1. Madri: BAC, 1996, p. 356).

O verdadeiro malefício

Em suma, esse ato de invocar os demônios para prejudicar os outros tem sempre um valor relativo. Essas coisas não funcionam como “sacramentos às avessas”; as palavras de bruxos e feiticeiros não necessariamente operam o que significam. E por um motivo bem simples: também os anjos decaídos, invocados por essas pessoas, estão submetidos à ordem da divina Providência. Muito antes de ser adversários de Deus, os demônios são criaturas; seu poder é sempre muitíssimo limitado, e até a sua liberdade de ação é aproveitada por Deus em favor dos eleitos, como diz o Apóstolo: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Portanto, não devemos nos preocupar: até os fios de cabelo de nossas cabeças estão todos contados (cf. Lc 12, 7). Assim como o justo Jó não foi acossado por Satanás sem antes apresentar-se diante de Deus e pedir-lhe permissão para agir, nós não estamos simplesmente à mercê dos espíritos maus, como se eles fossem “minideuses” onipotentes e o Deus único e verdadeiro nada pudesse contra eles. 

Consideremos também que o pior malefício que pode nos atingir é aquele que nós mesmos provocamos, quando caímos no pecado ou fazemos dele um projeto de vida. Eis o verdadeiro mal, do qual temos de pedir todos os dias a Deus que nos livre. 

Se as coisas não vão bem em nossa vida, desenganemo-nos de pensar que a culpa é do “mau olhado” do vizinho ou dos “trabalhos” que alguém fez para nós. Nossos pecados pessoais têm um papel muito mais importante na nossa ruína do que a suposta “inveja” dos outros. Nosso pior inimigo não são os satanistas, nem o próprio Satanás, pois nem este nem aqueles têm o poder de precipitar-nos no inferno; na maioria esmagadora das vezes, somos nós, com nossos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, que causamos nossa própria desgraça — primeiro nesta vida, mas depois, e principalmente, na outra.

Como proceder diante da maldição?

Mas concedamos: talvez tenhamos sido, sim, alvo de um verdadeiro malefício. 

Neste caso, pensemos que ele só nos adveio depois de uma misteriosa permissão de Deus. E Ele não permite mal algum do qual não nos possa tirar um bem maior. Para Jó, a perda dos bens, da família e até da própria saúde só o fez crescer ainda mais na fé e na confiança em Deus. Habacuc, por sua vez, num cântico que a Igreja entoa pelos séculos em seu Ofício Divino, profetiza que se alegrará mesmo em meio às privações:

Porque a figueira não florescerá,
e as vinhas não deitarão os seus gomos.
Faltará o fruto da oliveira,
e os campos não darão de comer.
As ovelhas serão arrebatadas do aprisco,
e não haverá bois nos estábulos.
Eu, porém, me regozijarei no Senhor,
e exultarei em Deus, meu salvador (Hab 3, 17s).

Para nós, porém, o que será? Como reagiremos quando a desolação bater à nossa porta; quando, por assim dizer, a “maldição” nos visitar?

“A Oração Antes da Refeição”, de Jan Steen.

A história acima mostra como uma pequena bênção anulou uma maldição. Que instrumento tão simples e, ao mesmo tempo, tão eficaz Deus colocou em nossas mãos: uma refeição contaminada, pelas palavras constitutivas de um sacerdote, ou mesmo pela simples oração invocativa de um leigo, torna-se abençoada. Não é extraordinário? Quantos males não poderíamos evitar, e quantos bens não poderíamos ganhar, se simplesmente buscássemos rezar mais, invocando a proteção divina sobre nossos lares, abençoando nossos filhos ao chegarem e ao saírem de casa, fazendo uma prece pelo bom sucesso de uma viagem, consagrando nossos dias e noites a Deus e, também, orando em família antes e após as refeições? Alguém duvida de que muitas desgraças se abatem sobre nós, sobretudo as de ordem espiritual, justamente porque deixamos de nos encomendar a Deus e à sua proteção?

Que remédio pode haver melhor, portanto, para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8), do que a bênção e o refúgio em Deus? Só Ele, afinal de contas, pode fazer superabundar a graça onde, antes, abundou o mal. Só Ele é capaz de realmente afugentar os demônios dos “pratos” da nossa vida.

Isso envolve, evidentemente, muito mais do que uma simples oração antes e após as refeições. Mas tampouco caiamos na tentação de desprezar essas pequenas coisas. Se você ainda não tem o costume de rezar ao comer, comece hoje mesmo. Talvez nós e nossos familiares estranhemos no começo, talvez uma vez ou outra acabemos esquecendo de rezar e tenhamos de o fazer com um bocado de comida já dentro da boca... Mas, à medida que esse ato salutar se converter em hábito, veremos como, em pouco tempo, já não conseguiremos mais levar nada à boca sem antes agradecer a Deus o alimento que Ele nos dá e as graças de que Ele nos cumula todos os dias de nossa vida.

Abaixo, disponibilizamos um formulário simples de Benedictio mensae, em latim e português, para uso de todos. (Quem quiser incrementar sua oração em latim com alguns salmos e versículos bíblicos, ou com partituras para a bênção e ação de graças cantadas, pode acessar este arquivo, produzido pelos monges beneditinos de Norcia.)

1. Bênção antes das refeições.Bénedic, Dómine, nos et haec tua dona quae de tua largitáte sumus sumptúri. Per Christum Dóminum nostrum. ℟. Ámen. | Abençoai-nos, Senhor, a nós e a estes dons que da vossa liberalidade recebemos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.
Ante prándium: ℣. Mensae caeléstis partíceps faciat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Almoço: ℣. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial. ℟. Amém.
Ante cénam: ℣. Ad cénam vitae aetérnae perdúcat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Jantar: ℣. Que o Rei da eterna glória nos conduza à Ceia da vida eterna. ℟. Amém.

2. Bênção depois das refeições.Agimus tibi grátias, omnípotens Deus, pro univérsis benefíciis tuis, qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. ℟. Ámen. | Nós vos damos graças, Deus onipotente, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. ℟. Amém.
℣. Deus det nobis suam pacem. ℟. Et vitam aetérnam. Ámen. | ℣. Que Deus nos dê a sua paz. ℟. E a vida eterna. Amém.

Notas

  1. Evidentemente, nenhum católico é obrigado a acreditar nessa história. Só a apresentamos na esperança de trazer algumas lições frutuosas para nossos leitores. Quem achar, porém, que ela nada acrescenta à sua própria vida, simplesmente a ignore, segundo aquilo do Apóstolo: Omnia legentes, quae bona sunt tenentes, “Examinai tudo, ficai com o que é bom”.

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