Toda a vida de Jesus, desde as suas primeiras palavras de jovem no Templo (cf. Lc 2, 49) até as últimas na cruz (cf. Lc 23, 46), orienta-se como fim exclusivo à honra de seu Pai eterno, de tal modo que, à véspera de sua paixão, Ele pôde resumi-la nesta frase que lhe dirige: “Glorifiquei-te sobre a terra; acabei a obra que me deste a fazer” (Jo 17, 4).

Para este fim, pôs em prática com máxima intensidade tudo quanto se refere:

  1. à inteligência, na oração;
  2. ao afeto, no amor; e
  3. às obras, na plena consagração de si mesmo ao Pai.

1. A oração de Jesus ao Pai

É uma oração contínua, íntima e elevadíssima. Já se disse com muito acerto que a vida de Jesus foi vida de oração, vida em oração, vida fruto da oração, vida que era oração vivente [1].

Jesus ora ao amanhecer (cf. Mc 1, 35), ao longo do dia, ao entardecer (cf. Mt 14, 23), durante toda a noite (cf. Lc 6, 12; 21, 37; 22, 39; Jo 8, 1; 18, 2 etc.). Ora no Templo (cf. Lc 2, 49), no deserto (cf. Mc 1, 35; Lc 5, 16), na montanha (cf. Mt 14, 23; Lc 6, 12; 9, 28), no horto das Oliveiras (cf. Lc 22, 39), no caminho junto aos discípulos (cf. Lc 9, 18).

Ora por ocasião de qualquer uma de suas ações: no batismo, antes da eleição dos Apóstolos, da promessa do primado, da transfiguração, do anúncio da Eucaristia, de sua instituição, depois da Última Ceia, nas angústias do horto, no suplício da cruz e no momento de morrer [2].

Ora por todos: pelas crianças (cf. Mt 19, 13-15), pelos doentes (cf. Mt 7, 34), por Pedro (cf. Lc 22, 31s), pelos discípulos presentes e futuros (cf. Jo 17), pelos verdugos (cf. Lc 23, 34) etc. Encarnou em si mesmo o conselho que havia de dar aos demais: “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Lc 18, 1).

Na oração de Jesus palpita um sentimento muito íntimo de reverência a seu Pai, que se transfunde em votos pela glória do Pai (cf. Jo 12, 27; 17, 1-26), em bênçãos a Deus (cf. Lc 10, 21; Mt 11, 25-30), em ação de graças (cf. Jo 11, 41; Mt 15, 36 etc.), em entrega de si mesmo a Deus (cf. Lc 23, 46). De toda a sua oração transborda juntamente um afeto simples e filial.

Nos Evangelhos nos estão conservadas oito orações de Jesus, todas as quais, à exceção de uma, que é a mera recitação de um salmo (cf. Mc 15, 34; Sl 21, 2), começam com a afetuosa palavra Pai. Assim Ele ensinaria a orar também os seus discípulos na oração dominical por excelência (cf. Mt 6, 9).

2. O afeto de amor ao Pai

Basta dizer que todas as manifestações de sua vida ressumam um amor ardente por seu Pai, tanto quando contempla a Deus como quando contempla os outros homens ou o mundo inanimado.

“A Santíssima Trindade”, de um artista anônimo.

a) Quando contempla a Deus, reduz tudo a uma só frase: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e todo o teu espírito” (Mt 22, 27), e dificilmente se encontrará em toda a literatura religiosa uma oração mais ternamente amorosa do que a oração sacerdotal com que se dirige a seu eterno Pai, saboreando aquela união íntima de amor com a qual Ele está no Pai e seu Pai nele, como exemplo para a união de todos os que o seguirem (cf. Jo 17, 21).

b) Quando contempla os homens, vê neles o rosto de Deus, de quem são filhos, aos quais o Pai ama de verdade (cf. Jo 16, 27); sobre os quais exerce uma providência solícita (cf. Mt 6, 26.32; 10; 29, 31); cujas orações escuta, mesmo no mais escondido (cf. Mt 6, 6; 7, 11); cujas boas obras recompensa (cf. Mt 6, 18), cujas mentes, mesmo as dos mais humildes, ilumina (cf. Mt 11, 23); e em favor dos quais entregou seu próprio Filho unigênito (cf. Jo 3, 16) e enviará o Espírito Santo (cf. Jo 14, 16).

O amor de Jesus aos homens nasce do amor a Deus, transforma-se em amor a Deus e em cada um deles ama a seu Pai. Por isso, para Jesus, o preceito de amar a Deus e ao próximo é o mesmo, e todos os mandamentos do Pai se identificam com este mandamento de amor aos nossos semelhantes. Os próprios racionalistas não deixam de admirar como algo extraordinário este espírito de Jesus [3].

c) Quando contempla o mundo inanimado, Jesus se aproxima dele com ternura de amor a seu Pai. Os menores detalhes da natureza fomentam nele este amor a Deus. Observa as aves do céu, às quais o Pai dá alimento; os lírios do campo, cujos vestidos urde; a erva do vale, que Ele veste esplendidamente; a luz do sol, que envia sobre justos e pecadores; a chuva, com a qual fecunda as plantações; o grão de trigo, que Ele transforma em espiga (cf. Mt 6, 26.34; Jo 12, 24).

Não é que Jesus desconhecesse as forças naturais que produzem todos estes fenômenos, mas prescinde delas para ver somente o amor providente de seu Pai. Ele vê na semente lançada pelo lavrador a palavra de Deus depositada nas almas para a sua frutificação; no grão de mostarda que germina, a extensão do reino de Deus; na rede do pescador, as almas escolhidas para a vida eterna. Tudo nele provoca o amor a seu Pai.

3. Consagração de si mesmo ao Pai

É uma consagração absoluta. Todas as suas forças, físicas ou espirituais, sua vida inteira, estão ordenadas a cumprir o encargo que o Pai lhe confiou: a instauração do reino de Deus. Nada terreno lhe interessa. Daí que a razão única de sua ação é a vontade de seu Pai.

Um afeto de obediência foi o seu primeiro ato ao entrar neste mundo; toda a sua vida resumiu-se àquela frase sua: “Eu faço sempre aquilo que é do agrado de meu Pai” (Jo 8, 29); submeteu-se à paixão com aquela fórmula: “Não se faça como eu quero, mas, sim, como tu queres” (Mt 26, 39); e assim pôde ressoar seu último alento naquele “Tudo está consumado” (Jo 19, 30).

Na realização de seu ideal, teve de despender uma força de vontade admirável para superar as dificuldades que se lhe opuseram na fundação do reino de Deus pela incompreensão dos Apóstolos, as concepções políticas do povo e a oposição dos escribas, fariseus e sacerdotes, o que culminou nos horrores de sua paixão e morte. A esta precedera uma vida de extenuação por suas longas horas de oração, sobretudo noturnas, e seus contínuos trabalhos apostólicos.

Referências

  • O presente artigo é um tradução de F. de Vizmanos; I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 385-387, nn. 642-646. A tradução portuguesa dos versículos bíblicos aqui citados foi extraída da versão do Pe. Matos Soares.

Notas

  1. Cf. H. Felder, Jesus Christus. Apologie seiner Messianität und Gottheit. Paderborn, 1924, vol. 2, p. 262.
  2. Recordem-se, por exemplo, as passagens Lc 3, 21; 6, 12; 9, 18; 9, 29; Mt 14, 23, junto com Jo 6, 16; Mt 26, 26.30.39-44; 27, 46; Lc 23, 46; 24, 30.50 etc.
  3. Por exemplo, F. Nietzsche diz que quem propôs pela primeira vez este amor ao homem por amor a Deus é o “o homem que voou mais alto que todos os outros até agora e errou no mais delicioso dos mundos” (Além do Bem e do Mal, trad. port. de M. Pugliesi, n. 60).