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Um Filho que vive para o Pai
Espiritualidade

Um Filho que vive para o Pai

Um Filho que vive para o Pai

A vida inteira de Jesus, em sua oração, em seu apostolado, em seu sacrifício diário e vicário, não se orienta a outra coisa senão à honra e ao amor de seu Pai eterno.

Francisco de VizmanosTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2018
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Toda a vida de Jesus, desde as suas primeiras palavras de jovem no Templo (cf. Lc 2, 49) até as últimas na cruz (cf. Lc 23, 46), orienta-se como fim exclusivo à honra de seu Pai eterno, de tal modo que, à véspera de sua paixão, Ele pôde resumi-la nesta frase que lhe dirige: “Glorifiquei-te sobre a terra; acabei a obra que me deste a fazer” (Jo 17, 4).

Para este fim, pôs em prática com máxima intensidade tudo quanto se refere:

  1. à inteligência, na oração;
  2. ao afeto, no amor; e
  3. às obras, na plena consagração de si mesmo ao Pai.

1. A oração de Jesus ao Pai

É uma oração contínua, íntima e elevadíssima. Já se disse com muito acerto que a vida de Jesus foi vida de oração, vida em oração, vida fruto da oração, vida que era oração vivente [1].

Jesus ora ao amanhecer (cf. Mc 1, 35), ao longo do dia, ao entardecer (cf. Mt 14, 23), durante toda a noite (cf. Lc 6, 12; 21, 37; 22, 39; Jo 8, 1; 18, 2 etc.). Ora no Templo (cf. Lc 2, 49), no deserto (cf. Mc 1, 35; Lc 5, 16), na montanha (cf. Mt 14, 23; Lc 6, 12; 9, 28), no horto das Oliveiras (cf. Lc 22, 39), no caminho junto aos discípulos (cf. Lc 9, 18).

Ora por ocasião de qualquer uma de suas ações: no batismo, antes da eleição dos Apóstolos, da promessa do primado, da transfiguração, do anúncio da Eucaristia, de sua instituição, depois da Última Ceia, nas angústias do horto, no suplício da cruz e no momento de morrer [2].

Ora por todos: pelas crianças (cf. Mt 19, 13-15), pelos doentes (cf. Mt 7, 34), por Pedro (cf. Lc 22, 31s), pelos discípulos presentes e futuros (cf. Jo 17), pelos verdugos (cf. Lc 23, 34) etc. Encarnou em si mesmo o conselho que havia de dar aos demais: “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Lc 18, 1).

Na oração de Jesus palpita um sentimento muito íntimo de reverência a seu Pai, que se transfunde em votos pela glória do Pai (cf. Jo 12, 27; 17, 1-26), em bênçãos a Deus (cf. Lc 10, 21; Mt 11, 25-30), em ação de graças (cf. Jo 11, 41; Mt 15, 36 etc.), em entrega de si mesmo a Deus (cf. Lc 23, 46). De toda a sua oração transborda juntamente um afeto simples e filial.

Nos Evangelhos nos estão conservadas oito orações de Jesus, todas as quais, à exceção de uma, que é a mera recitação de um salmo (cf. Mc 15, 34; Sl 21, 2), começam com a afetuosa palavra Pai. Assim Ele ensinaria a orar também os seus discípulos na oração dominical por excelência (cf. Mt 6, 9).

2. O afeto de amor ao Pai

Basta dizer que todas as manifestações de sua vida ressumam um amor ardente por seu Pai, tanto quando contempla a Deus como quando contempla os outros homens ou o mundo inanimado.

“A Santíssima Trindade”, de um artista anônimo.

a) Quando contempla a Deus, reduz tudo a uma só frase: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e todo o teu espírito” (Mt 22, 27), e dificilmente se encontrará em toda a literatura religiosa uma oração mais ternamente amorosa do que a oração sacerdotal com que se dirige a seu eterno Pai, saboreando aquela união íntima de amor com a qual Ele está no Pai e seu Pai nele, como exemplo para a união de todos os que o seguirem (cf. Jo 17, 21).

b) Quando contempla os homens, vê neles o rosto de Deus, de quem são filhos, aos quais o Pai ama de verdade (cf. Jo 16, 27); sobre os quais exerce uma providência solícita (cf. Mt 6, 26.32; 10; 29, 31); cujas orações escuta, mesmo no mais escondido (cf. Mt 6, 6; 7, 11); cujas boas obras recompensa (cf. Mt 6, 18), cujas mentes, mesmo as dos mais humildes, ilumina (cf. Mt 11, 23); e em favor dos quais entregou seu próprio Filho unigênito (cf. Jo 3, 16) e enviará o Espírito Santo (cf. Jo 14, 16).

O amor de Jesus aos homens nasce do amor a Deus, transforma-se em amor a Deus e em cada um deles ama a seu Pai. Por isso, para Jesus, o preceito de amar a Deus e ao próximo é o mesmo, e todos os mandamentos do Pai se identificam com este mandamento de amor aos nossos semelhantes. Os próprios racionalistas não deixam de admirar como algo extraordinário este espírito de Jesus [3].

c) Quando contempla o mundo inanimado, Jesus se aproxima dele com ternura de amor a seu Pai. Os menores detalhes da natureza fomentam nele este amor a Deus. Observa as aves do céu, às quais o Pai dá alimento; os lírios do campo, cujos vestidos urde; a erva do vale, que Ele veste esplendidamente; a luz do sol, que envia sobre justos e pecadores; a chuva, com a qual fecunda as plantações; o grão de trigo, que Ele transforma em espiga (cf. Mt 6, 26.34; Jo 12, 24).

Não é que Jesus desconhecesse as forças naturais que produzem todos estes fenômenos, mas prescinde delas para ver somente o amor providente de seu Pai. Ele vê na semente lançada pelo lavrador a palavra de Deus depositada nas almas para a sua frutificação; no grão de mostarda que germina, a extensão do reino de Deus; na rede do pescador, as almas escolhidas para a vida eterna. Tudo nele provoca o amor a seu Pai.

3. Consagração de si mesmo ao Pai

É uma consagração absoluta. Todas as suas forças, físicas ou espirituais, sua vida inteira, estão ordenadas a cumprir o encargo que o Pai lhe confiou: a instauração do reino de Deus. Nada terreno lhe interessa. Daí que a razão única de sua ação é a vontade de seu Pai.

Um afeto de obediência foi o seu primeiro ato ao entrar neste mundo; toda a sua vida resumiu-se àquela frase sua: “Eu faço sempre aquilo que é do agrado de meu Pai” (Jo 8, 29); submeteu-se à paixão com aquela fórmula: “Não se faça como eu quero, mas, sim, como tu queres” (Mt 26, 39); e assim pôde ressoar seu último alento naquele “Tudo está consumado” (Jo 19, 30).

Na realização de seu ideal, teve de despender uma força de vontade admirável para superar as dificuldades que se lhe opuseram na fundação do reino de Deus pela incompreensão dos Apóstolos, as concepções políticas do povo e a oposição dos escribas, fariseus e sacerdotes, o que culminou nos horrores de sua paixão e morte. A esta precedera uma vida de extenuação por suas longas horas de oração, sobretudo noturnas, e seus contínuos trabalhos apostólicos.

Referências

  • O presente artigo é um tradução de F. de Vizmanos; I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 385-387, nn. 642-646. A tradução portuguesa dos versículos bíblicos aqui citados foi extraída da versão do Pe. Matos Soares.

Notas

  1. Cf. H. Felder, Jesus Christus. Apologie seiner Messianität und Gottheit. Paderborn, 1924, vol. 2, p. 262.
  2. Recordem-se, por exemplo, as passagens Lc 3, 21; 6, 12; 9, 18; 9, 29; Mt 14, 23, junto com Jo 6, 16; Mt 26, 26.30.39-44; 27, 46; Lc 23, 46; 24, 30.50 etc.
  3. Por exemplo, F. Nietzsche diz que quem propôs pela primeira vez este amor ao homem por amor a Deus é o “o homem que voou mais alto que todos os outros até agora e errou no mais delicioso dos mundos” (Além do Bem e do Mal, trad. port. de M. Pugliesi, n. 60).

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O canto gregoriano ressurgirá!
Liturgia

O canto gregoriano ressurgirá!

O canto gregoriano ressurgirá!

O acesso ao canto gregoriano nunca foi tão fácil para aqueles que o procuram. Por isso, o grande tesouro da música litúrgica não desaparecerá; ressurgirá novamente das cinzas à medida que a Igreja recuperar a sacralidade de seu culto.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019
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Poucos documentos tiveram um impacto tão duradouro no cultivo da música sacra quanto o motu proprio de São Pio X Tra le Sollecitudini, promulgado em 22 de novembro de 1903, festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos.

O Papa pretendia, com a escrita desse motu proprio, dar início a uma reforma geral da música sacra na vida da Igreja. Sua ideia de reforma não implicava rejeitar o passado e adotar novidades (parece que isso foi justamente o que muitos católicos pensaram ao longo dos últimos cinquenta anos), mas antes retornar de modo resoluto à fonte da Tradição e deixar que o fluxo veloz dessa água pura limpasse os resíduos acumulados em períodos decadentes. 

Ao falar em períodos decadentes, São Pio X não tinha em mente a Idade Média, a era gloriosa da Cristandade, que os liturgistas do pós-guerra consideraram, de modo geral, um distanciamento da simplicidade familiar dos primeiros cristãos. Como Pio XII viria a afirmar 44 anos depois na encíclica Mediator Dei, o Espírito Santo estimula desenvolvimentos litúrgicos em cada época como novos caminhos para santificar o povo de Deus. Tais desenvolvimentos formam uma linha contínua.

Assim, o que acontece num século posterior reforça e elabora o que já está presente in nucleo. Por exemplo, a mudança, em tempos remotos, de uma espécie de Comunhão na mão — não da maneira como é praticada hoje, como Dom Athanasius Schneider mostra cuidadosamente em seus livros Dominus Est e Christus Vincit — para a Comunhão na boca foi um desenvolvimento orgânico que surgiu da própria reverência e adoração à Eucaristia, as quais já estavam presentes e cresciam sob a influência do Espírito Santo. 

Corrupções também podem ocorrer quando uma nova característica ou prática contradiz a letra ou o espírito do que já está estabelecido. Assim, para usar o mesmo exemplo, a reintrodução da Comunhão na mão foi uma clara corrupção, não um desenvolvimento ou uma restauração. Mais importante para nosso tema: a introdução de estilos operísticos ornamentados na Missa, durante os períodos clássico e romântico, foi uma corrupção porque transformou a liturgia num concerto e a desviou de sua orientação sobrenatural.

Esta era a perspectiva de São Pio X: embora sem dúvida fosse um admirador da música de Haydn, Mozart e de compositores italianos em si mesma, considerava seu estilo inadequado para o templo de Deus e os santos mistérios representados nela. Como explica o documento Tra le Sollecitudini, Deus já havia estabelecido com generosidade uma música intensamente contemplativa para a liturgia do rito romano, a saber, o canto gregoriano, um tipo de música que cresceu de modo orgânico com esse rito, sempre o embelezou e dá o tom para toda a música sacra adequada para o templo de Deus.

Os ensinamentos de São Pio X moldaram decisivamente o magistério posterior, de seus sucessores Pio XI e Pio XII, passando pela Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, até a exortação apostólica Sacramentum Caritatis, de Bento XVI. Em todos esses documentos encontramos um reconhecimento irrestrito da primazia do canto gregoriano para o rito romano, embora composições de outros estilos sejam bem-vindas, contanto que estejam em harmonia com a ação litúrgica — algo que, infelizmente, não pode ser dito da maior parte daquilo que passa por “música de igreja” atualmente.

A nobre perspectiva de São Pio X não é irrealista ou inalcançável. Ao longo da primeira metade do século XX e durante boa parte da década de 1960, escolas de todo o mundo ensinavam canto gregoriano às crianças, sacerdotes cantavam a Missa solene (embora a Missa rezada fosse mais popular) e comunidades religiosas cantavam o Ofício Divino. O canto gregoriano era uma característica tão proeminente do catolicismo, que Hollywood criava “atmosferas católicas” instantaneamente com poucos segundos de canto. 

Talvez alguns se surpreendam com o fato de que Thomas Merton, que se tornou tão controverso no período mais tardio de sua vida, por causa de seu envolvimento com política e atividades inter-religiosas, tenha se oposto firmemente ao abandono do latim e do canto. Como disse em 1964 a Dom Inácio Gillet, Abade Geral dos Cistercienses de Estrita Observância:

Isto é o que penso sobre o latim e o canto gregoriano: são obras de arte que nos proporcionam uma experiência monástica e cristã insubstituível. Têm força, energia e profundidade sem precedentes. Todos os ofícios em inglês que foram propostos são muito pobres — além disso, não é de modo algum difícil tornar o latim e o canto compreensíveis e valorizados. De modo geral, no noviciado, sou bem-sucedido nesse quesito, naturalmente com algumas exceções, que não os compreendem bem. No entanto, tenho de acrescentar algo mais sério. Como se sabe, tenho muitos amigos artistas, poetas, autores, editores etc. Ora, eles são perfeitamente capazes de apreciar nosso canto e mesmo nosso latim. Mas todos, sem exceção, estão escandalizados e aflitos quando lhes digo que este Ofício e esta Missa provavelmente não estarão mais aqui em dez anos. Isso é péssimo. Os monges não compreendem o tesouro que possuem e o jogam fora a fim de buscar algo diferente. Os leigos, por sua vez, que na sua maioria sequer são cristãos, são capazes de amar essa arte inigualável.

A dificuldade veio, mais propriamente, de uma falsa noção de “atualização” ou modernização — perspectiva que ganhou influência lentamente e, ao fim e ao cabo, dominou a reforma litúrgica e sua implementação, segundo a qual as antigas formas de oração e modos de arte são estranhas ao homem moderno, alienantes, excessivamente rigorosas e uma tentação para o elitismo e o escapismo. Porém, esse juízo tão negativo não parece ter sido comum entre muitos católicos, que não pediram que sua herança cultural lhes fosse tirada, nem é a prática dos católicos hoje, que redescobrem essas coisas e admiram sua beleza e pertinência, como as criteriosas “pessoas do mundo” das quais Merton fala. 

A vida nos faz lembrar repetidas vezes da verdade contida neste ditado de Chesterton: “O ideal cristão não foi experimentado e considerado deficiente. Descobriram que ele era difícil e o deixaram de lado.” Peço licença ao grande homem para adaptar sua afirmação: O ideal gregoriano para a música litúrgica não foi experimentado e considerado deficiente. Descobriram que ele era difícil e o deixaram de lado. Porém, mesmo neste caso podemos questionar seu grau de dificuldade. 

Sim, os próprios (cantos variáveis para domingos específicos ou festas) são bastante desafiadores e requerem uma schola treinada. Porém, o Ordinário da Missa — Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Agnus Dei — e as respostas comuns podem e são frequentemente cantadas com gosto por todos, inclusive as crianças, que reproduzem intuitivamente o que escutam. Por trabalhar há 30 anos como diretor de coral juvenil e por ter ensinado canto e trabalhado com pessoas que o ensinaram a todo tipo de gente, conheço a realidade: descobriram que ele era indesejado e o deixaram de lado. Sempre que é desejado, o gregoriano prospera e beneficia a todos.

O acesso ao canto gregoriano nunca foi tão fácil para aqueles que o procuram. Todos os antigos livros de canto litúrgico foram reeditados; todos os livros da Abadia de Solesmes para a forma ordinária ainda estão disponíveis; com um clique é possível escutar online ou imprimir a maioria dos cânticos; tutoriais gratuitos podem orientar a auto-aprendizagem, e oficinas com grande assistência ocorrem anualmente. O grande tesouro da música litúrgica não desaparecerá; ressurgirá novamente das cinzas à medida que a Igreja recuperar a sacralidade de seu culto.

Embora haja sinais promissores de que a música litúrgica católica, após décadas de secularização lucrativa e banalidade horizontal, esteja começando a passar por uma verdadeira renovação em continuidade com a Tradição da Igreja, a forma como a música é executada na maioria das paróquias indica que ainda estamos longe de uma implementação universal dos sólidos princípios de São Pio X. De acordo com muitos estudiosos, a principal característica da modernidade é seu “profundo pluralismo”, e essa mentalidade parece existir entre católicos no que diz respeito ao culto litúrgico: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho” (Is 53, 6). 

Que as orações de Santa Cecília e São Pio X nos inspirem a venerar novamente “o ícone musical do catolicismo romano” (Joseph Swain), para a glória de Deus e a santificação das almas.

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Deus me vê, mas e eu?
Espiritualidade

Deus me vê, mas e eu?

Deus me vê, mas e eu?

Considerar a presença de Deus é um chamado constante à retidão de vida. Se Ele está sempre comigo, então devo ser sempre fiel, pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019
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E se tivéssemos permanente consciência de que Deus está a nos olhar o tempo todo, aonde quer que vamos? 

É com o coração exultante que o autor dos Salmos meditava sobre esse mistério. Todo o Salmo 138, por exemplo — “Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto…” —, não passa de um grande louvor à onisciência e onipresença divinas. O porquê de louvá-las, é o próprio salmista quem no-lo apresenta, ao finalizar com estes versos: “Senhor, sondai-me, conhecei meu coração, examinai-me e provai meus pensamentos! Vede bem se não estou no mau caminho, e conduzi-me no caminho para a vida!” (v. 23-24). Noutro lugar o salmista dirá, já não em forma de súplica, mas em tom declaratório: “Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois se o tenho ao meu lado não vacilo!” (Sl 15, 8). 

Ou seja, considerar a presença de Deus é um chamado constante à fidelidade, à retidão de vida, à vigilância. Se Ele está sempre comigo, se em lugar algum posso me ocultar de seu espírito, se não há lugar para onde fugir de sua face (cf. Sl 138, 7), então devo ser sempre fiel, preocupar-me em agir retamente o tempo todo, estar pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Mas entenda-se bem: qual o conceito que temos de descanso? É o de quem chega exausto a casa após um dia inteiro de trabalho e pode, até que enfim, meter-se uma bermuda, enfiar o chinelo de dedo e despejar-se tranquilo na poltrona. Durante todo o dia, o bom trabalhador foi solicitado, cobrado, exigido… À noite, porém, ele quer descansar, alheio a tudo e a todos, sem que lhe solicitem, cobrem ou exijam nada.

Agora, veja o pai de família se pode comportar-se assim, tendo em casa uma esposa, tão ou mais cansada do que ele, para ajudar e um punhado de filhos, repletos de energia, para educar, sem falar de tantas coisas da casa que inevitavelmente quebrarão e ele terá de consertar. Não, não há descanso para o pai de família, não pelo menos se ele quiser servir bem os de sua casa… Pois bem, se tantos agem dessa forma movidos por um amor meramente humano, por que deveriam ser menos generosos os cristãos, os servos do Deus vivo, que trazem dentro de si (ou deveriam trazer), ardente, intensa, inextinguível, cada vez maior, a chama da caridade divina?

E, no entanto, aonde têm ido os nossos corações? Por que (des)caminhos têm errado? Para onde vão dirigidos os nossos pensamentos? Com que estão sendo gastas nossas energias?

Comecemos pela tortura que pode representar para muitos a ideia de um Deus onisciente e onipresente, que observa todos os nossos passos. Diante dessa verdade, o que muitos gostariam de fazer? Cantar um salmo ou um hino de louvor? 

Para o homem justo do Antigo Testamento, até que sim; para o homem redimido por Cristo, curado e libertado no Sangue de Nosso Senhor, pode até ser. Para Adão, porém, e para a maior parte da humanidade que ainda ignora o Evangelho, a atitude mais provável seria esconder-se atrás de um arbusto ou, pior, rebelar-se abertamente contra o Criador. Em sua malícia, em seu desejo de pecar, o que muitos gostariam de fazer mesmo (e tantos outros efetivamente fazem) é proclamar que Deus não existe, só para viverem a seu modo e “sem consequências”.

A esse respeito, o Pe. Reginald Garrigou-Lagrange dá-nos conta de que 

Uma serva de Deus ouviu um dia estas palavras: “Eu vos dei uma religião de vida, e vós a fizestes uma religião de fórmulas. Eu sou um criador de felicidade e vós fizestes de mim um tirano, não vendo nos meus preceitos senão aquilo que vos desagrada” [1]. 

Ou seja, o que acontece a muitos de nós é nos servirmos do parâmetro errado. Ao invés de pedirmos com o salmista: “Examinai-me, Senhor, provai-me os pensamentos! Vede se não estou no mau caminho!”, voltamos o olhar primeiro à nossa vontade e, a partir disso, julgamos todo o resto. Ao invés de nos voltarmos humildemente para Deus, conformando-nos a Ele, esperamos o contrário: que Ele mude os seus decretos para nos agradar. Não estamos buscando a Deus, em suma, mas a nós mesmos

Poderíamos entrar aqui em considerações intermináveis a respeito de como não estamos dispostos a renunciar a nossos gostos ou opiniões para aceitarmos o ensinamento moral da Igreja em tantos temas… Mas aproveitemos o mês de novembro para falar dos novíssimos e resumir toda a questão. Quando formos julgados, no último dia, a quem prestaremos contas, afinal: a Deus ou a nós mesmos? O juízo será com base nas leis de Deus ou nas regras que nós mesmos criamos para nos livrar dele e da difícil tarefa de nossa santificação? 

Ora, se o tribunal é de Deus, se é Ele o parâmetro com que seremos julgados na eternidade, por que não começar já agora a se colocar debaixo desse olhar e clamar: “Examinai-me, Senhor! Julgai meus pensamentos! Vede se não estou no mau caminho hoje, porque naquele dia, Senhor, no dia de minha morte, pode ser tarde demais”?

Aqui podemos compreender melhor o que significa estar na presença de Deus. Trata-se de reproduzir, a todo instante, nosso julgamento particular, pedindo a Ele perdão pelas falhas em que caímos cotidianamente e, ao mesmo tempo, luz para que sejamos preservados dos pecados futuros. Significa abaixar constantemente a cabeça e reconhecer: não sou eu quem faz as leis, não sou eu quem determina o que é certo e o que é errado, não sou eu quem define o bem e o mal, não serei eu a julgar-me no último dia. Há um Outro a quem eu devo prestar contas. 

Se tivermos sempre o Senhor deste modo ante os nossos olhos, não só nos mostrando o caminho correto, mas dando-nos a graça para percorrê-lo, como havemos de vacilar? Se nos lembrarmos constantemente do Rei de tremenda majestade, Rex tremendae majestatis, que nos julgará, como não havemos de excitar em nós o temor de Deus, que é o princípio da sabedoria (cf. Pr 9, 10)? 

E se é verdade, ainda, que “no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34), como não havemos de pensar que o menor de nossos atos, mesmo o mais insignificante deles, carrega consigo todo o peso da eternidade?

Referências

  1. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. port. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 13.

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Quando uma alma do Purgatório vem nos visitar...
Espiritualidade

Quando uma alma
do Purgatório vem nos visitar...

Quando uma alma do Purgatório vem nos visitar...

Para que não se esfrie o nosso zelo em socorrer as benditas almas do Purgatório, principalmente com a Missa, Deus não se cansa de multiplicar prodígios. Eis aqui dois deles, relatados por sacerdotes de confiança do século XIX.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Novembro de 2019
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Nada se conforma mais ao espírito cristão do que oferecer o Santo Sacrifício para o alívio das almas dos defuntos, e seria um grande infortúnio se o zelo dos fiéis esfriasse nesse campo. Deus parece multiplicar prodígios a fim de impedir que cedamos a um relaxamento tão catastrófico [1]. O seguinte incidente é confirmado por um sacerdote da diocese de Bruges, na Bélgica, digno de confiança, que o recebeu de sua fonte primária, e em cujo depoimento se pode ver a certeza plena de uma testemunha ocular do fato.

Em 13 de outubro de 1849, faleceu com 52 anos na paróquia de Ardoye, em Flandres, uma senhora chamada Eugenie Van de Kerckove, cujo marido, John Wybo, era fazendeiro. Era uma mulher piedosa e caridosa, pois dava esmolas com uma generosidade proporcional aos seus recursos. Até o final da vida, nutriu uma intensa devoção à Santíssima Virgem e semanalmente, às sextas e sábados, praticava a abstinência de carne para honrá-la. Embora sua conduta não tenha sido livre de certas falhas domésticas, noutros aspectos ela levou uma vida exemplar e edificante.

Uma criada chamada Bárbara Vennecke, de 28 anos, moça virtuosa e devota que assistira a patroa em sua última doença, continuou a servir seu mestre, John Wybo, viúvo de Eugenie.

Cerca de três semanas depois de seu falecimento, a defunta apareceu para sua criada sob as seguintes circunstâncias: era tarde da noite; Bárbara dormia tranquilamente quando escutou claramente alguém lhe chamar três vezes pelo nome. Acordou de um salto e viu sua senhora diante de si, sentada no lado da cama, usando um uniforme de trabalho composto por uma saia e um paletó curto. Diante dessa visão, embora tomada de perplexidade, Bárbara não ficou nada assustada, por estranho que pareça, e manteve sua presença de espírito. A aparição se dirigiu a ela: “Bárbara”, disse, apenas pronunciando seu nome. “O que deseja, Eugenie?”, replicou a criada. A senhora disse: “Pegue aquele pequeno rastelo que eu lhe pedia para guardar e mexa o monte de areia no quartinho — você sabe a qual me refiro. Lá você encontrará uma quantia em dinheiro. Use-a para oferecer Missas em minha intenção (dois francos para cada uma), pois ainda estou sofrendo.” “Farei isso, Eugenie”, respondeu Bárbara, e no mesmo instante a aparição sumiu. A criada, ainda muito calma, dormiu outra vez e repousou tranquilamente até a manhã.

Ao despertar, Bárbara achou que fora enganada por um sonho, mas tinha ficado tão impressionada, estava tão desperta, tinha visto sua antiga senhora numa forma tão distinta, tão cheia de vida, tinha recebido dos lábios dela orientações tão precisas, que não podia deixar de mencionar [o fato]. “Nossos sonhos não são assim. Vi minha senhora pessoalmente; ela apareceu diante de mim e falou comigo. Não é um sonho, mas algo real.”         

Portanto, tal como fora orientada, pegou o rastelo, revirou a areia e retirou uma bolsa que continha o total de quinhentos francos. 

Diante de tais circunstâncias estranhas e extraordinárias, a boa garota viu-se na obrigação de buscar aconselhamento com seu pastor e foi até ele para contar tudo o que tinha acontecido. O venerável Abbe R., então pároco de Ardoye, respondeu que as Missas solicitadas pela alma da defunta deveriam ser celebradas, mas para que o dinheiro fosse usado era necessário obter o consentimento do fazendeiro, John Wybo, que prontamente aceitou que a quantia fosse usada para um propósito tão sagrado. Então, as Missas foram celebradas e por cada uma foi dada a quantia de dois francos. 

Chamamos a atenção para a circunstância da taxa, porque ela correspondia ao piedoso costume da falecida. A taxa para o oferecimento de uma Missa determinada pelo tarifário diocesano era cerca de um franco e meio, mas a esposa de Wybo, por consideração com o clero, obrigado naquele período de escassez a ajudar muitos pobres, oferecia dois francos por cada Missa que mandava celebrar, segundo seu costume.

Dois meses depois da aparição, Bárbara foi novamente despertada durante a noite. Desta vez, seu quarto estava iluminado por uma luz intensa, e sua senhora, bela e revigorada como nos tempos de juventude, vestida com um manto de resplandecente alvura, apareceu diante dela, olhando-a com um sorriso amável. “Bárbara”, disse ela com uma voz clara e audível, “muito obrigada; estou livre”. Desapareceu depois de dizer essas palavras, e o quarto ficou escuro como antes. A criada, impressionada com o que testemunhara, foi tomada de alegria. A aparição deixou uma viva impressão na mente dela, e até hoje ela preserva uma lembrança consoladora do episódio. Esses detalhes foram contados por ela, com a aprovação do venerável Abbe L., que era vigário em Ardoye quando os fatos ocorreram.

No início de suas conferências sobre a imortalidade da alma, proferidas alguns anos antes de sua morte para os alunos de Soreze, o célebre Padre Lacordaire relatou o incidente a seguir.

O príncipe polonês de X., incrédulo e materialista confesso, havia acabado de escrever uma obra contra a imortalidade da alma. Estava prestes a enviá-la para a gráfica, quando um dia, caminhando por seu parque, uma mulher com o rosto banhado em lágrimas jogou-se aos pés dele e lhe disse num tom de profunda tristeza: “Meu bom príncipe, meu marido faleceu há pouco. Neste momento, a alma dele talvez esteja sofrendo no Purgatório. Sou tão pobre, que não tenho sequer a pequena quantia necessária para mandar celebrar uma Missa por ele. Por caridade, peço seu auxílio em nome de meu pobre marido.”

Embora o cavalheiro estivesse convencido de que a mulher fora enganada por sua credulidade, não teve coragem de lhe negar ajuda. Depositou na mão dela uma moeda de ouro. Tomada de alegria, a mulher foi correndo para a igreja e implorou ao sacerdote que oferecesse algumas Missas pelo repouso da alma de seu marido. Cinco dias depois, no início da noite, o príncipe, isolado em seu escritório, revisava o manuscrito do livro e retocava alguns detalhes quando, ao levantar os olhos, viu perto de si um homem usando um traje de camponês. “Príncipe”, disse o visitante desconhecido, “vim para lhe agradecer. Sou marido daquela pobre mulher que outro dia lhe implorou por esmola, a fim de que pudesse mandar oferecer o Santo Sacrifício da Missa pelo repouso de minha alma. Sua caridade foi agradável a Deus: foi Ele quem me permitiu vir para lhe agradecer.” 

Ditas essas palavras, o camponês desapareceu como uma sombra. A emoção do príncipe foi indescritível. Por isso, atirou sua obra ao fogo e aderiu de forma tão plena à verdade, que sua conversão foi perfeita. Ele perseverou até a morte.  

Notas

  1. Já dissemos isto aqui em outra ocasião, mas não custa repetir. Uma coisa são as visões e aparições do além que, por permissão divina, acontecem aos homens; outra bem diferente são as evocações, provocadas pelos homens, em sessões espíritas: aquelas, além de serem raras, lembram-nos a importância de sufragarmos as santas almas do Purgatório com nossas orações; estas, pelo contrário, brotam quase sempre de uma curiosidade malsã e, além disso, constituem uma grave desobediência à lei de Deus (Nota da Equipe CNP).

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Transubstanciação: um guia para iniciantes
Doutrina

Transubstanciação:
um guia para iniciantes

Transubstanciação: um guia para iniciantes

Ao longo dos séculos a Igreja se apropriou de um sólido arcabouço conceitual e filosófico que lhe permitiu explicar de forma racional o mais belo e profundo dos mistérios que ela guarda: o Santíssimo Sacramento.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Novembro de 2019
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A presença real de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia é um dos maiores mistérios da nossa fé. De fato, quando o sacerdote celebra a Missa segundo o rito romano tradicional, ele sussurra estas palavras enquanto consagra o Precioso Sangue: Mysterium fidei. Ao longo dos milênios, a Igreja Católica meditou com amor sobre esse mistério, e seus grandes teólogos, embora reconhecendo com humildade os limites da razão para sondar o que é divino e sobrenatural, foram, não obstante, capazes de apresentar uma defesa razoável dele contra todas as objeções que a incredulidade e a heresia lhe fizeram

No mundo moderno, onde imperam o materialismo, o cientificismo e o ceticismo, a mudança misteriosa chamada pela Igreja de transubstanciação possui seus escarnecedores e pretensos desmistificadores — até mesmo em suas fileiras há dissidentes ocultos ou de facto, como os modernistas que povoam muitas universidades, seminários ou chancelarias católicas. Como católicos que procuram compreender e viver a fé de modo mais profundo, precisamos nos apropriar da sensata filosofia da realidade que fornece à Igreja matérias-primas para definições dogmáticas. Se fizermos isso, teremos maiores chances de chegar a um pensamento lúcido sobre essa admirável obra de Deus e, deste modo, atingir uma posição que nos permita falar dela para outras pessoas.

É por essa razão que ofereço aqui um guia para iniciantes sobre a transubstanciação. Não será uma leitura fácil. Os mistérios da fé desafiam nossa razão limitada e débil até o ponto de ruptura, mas sem rompê-la. Ao contrário de um músculo, que fica cansado ou mesmo machucado pelo uso, nossa mente se fortalece à medida que a usamos, como Aristóteles afirmou há muito tempo. Menciono Aristóteles, o filósofo racional por excelência, não apenas por ser meu filósofo grego favorito (todos devem ter um favorito), mas porque na realidade ele legou a Santo Tomás as ferramentas conceituais para debater a transubstanciação. Embora o mistério jamais deixe de ser uma maravilha e um milagre que supera todo o pensamento humano, pode ser explicado à mente de modo que não mais pareça uma contradição ou impossibilidade colossal.

Um breve manual de filosofia

Como é fundamental para a doutrina da Igreja sobre a transubstanciação a distinção entre “substância” e “acidente”, qualquer um que procure compreender de modo mais profundo os sagrados mistérios fará bem em empregar um pouco de tempo para compreender a que se referem esses termos.

A distinção entre “substância” e “acidente”, apesar do aspecto técnico dos termos, baseia-se na experiência cotidiana. Embora o uso moderno restrinja com frequência o significado de “substância” aos elementos ou substâncias químicas, e o de “acidente” a um evento não intencional e geralmente prejudicial, seu sentido filosófico é muito amplo. A palavra “substância” diz respeito a qualquer ente individual, a qualquer coisa que exista em e por si mesma — como, por exemplo, um homem, um cavalo, uma planta, uma pedra — e tem uma natureza própria (diferentemente de um banco, por exemplo, que, embora tenha uma definição, não possui natureza própria, mas é o resultado de uma arte que junta diferentes substâncias naturais).

O termo “substância” deriva de sua função: é “aquilo que está por baixo” (latim substantia; grego hypostasis), em contraste com o “acidental” (latim accidens; grego: symbebekos), “aquilo que sucede à, acontece com, pertence à” substância. Uma substância existe em si, ao contrário do que existe numa substância. Cor, formato, peso, conhecimento, virtude, paternidade, filiação são exemplos de coisas que existem numa substância, não em si mesmas. Cor, formato e peso existem verdadeiramente, mas como pertencentes a algo que é colorido, tem formato ou peso. Nunca vemos a brancura, mas antes um cavalo branco ou uma cadeira branca; nunca vemos a justiça, mas antes um homem justo ou uma lei justa [1]. Quando dizemos que alguém tem 1,82m de altura, queremos dizer que seu tamanho é uma quantidade de sua substância: ele tem 1,82m de altura. A paternidade não existe separada de uma pessoa em relação a outra. O conhecimento só tem existência na mente daquele que conhece; é um acidente próprio de sua alma. 

Há dois tipos de acidente: o genérico (acidente não próprio) e o acidente próprio, também conhecido como “propriedade”. Acidentes não próprios podem vir a ser e desaparecer na mesma substância. É o que acontece com um homem pálido, que pode ficar moreno por causa do bronzeamento, ou com um homem sem conhecimento musical, que pode se tornar um músico e, pela falta de treinamento, pode perder esse hábito. Um acidente próprio, por outro lado, está enraizado em e deriva da natureza de uma substância, de modo que está sempre presente quando a substância está presente (por exemplo, a capacidade de rir ou de falar, que deriva da natureza racional do homem). São chamados acidentes porque existem apenas numa substância, mas são chamados propriedades porque são próprios de certo tipo de substâncias e sempre as acompanham. Portanto, seria um equívoco definir “acidente” como aquilo que pode ser ou não ser; alguns acidentes são permanentes e outros, mutáveis. A noção importante na definição de “acidente” é a seguinte: ele existe em, ou é próprio de, um sujeito subjacente. (A única exceção é o mistério da Eucaristia, no qual, pelo poder divino, os acidentes do pão e do vinho existem sem um sujeito subjacente, como veremos abaixo.)

Acidentes são, portanto, sempre distintos da substância, que é a fonte de sua existência. Se não existisse nenhum animal racional, não haveria nenhum fundamento para as propriedades da fala e do riso ou para acidentes como alto, corajoso, musical etc [2].

Como obtemos nosso conhecimento sobre a realidade por meio dos nossos sentidos, só conseguimos perceber diretamente as características acidentais das coisas. Não obstante, a existência da substância é inferida facilmente a partir de nossa experiência dos entes individuais (este homem, este cavalo) e da impossibilidade de uma qualidade abstrata (brancura, musicalidade, justiça, altura) existir separada de um sujeito ou indivíduo modificado por ela. Os acidentes que percebemos apontam para um nível mais fundamental de existência que lhes permite existir. Uma pessoa pode mudar de cor ou de peso, adquirir ou perder virtudes sem deixar de ser a mesma pessoa; substância é o princípio permanente que subjaz a todas as outras características.

Isso nos leva a um sentido mais amplo de substância: aquilo que verdadeiramente é, o fundamento essencial, ao contrário daquilo que é mutável ou derivado. Neste sentido, a natureza ou essência de uma coisa é às vezes chamada de “sua substância”, porque a natureza ou essência é aquilo que faz uma coisa ser o que ela é — e, por extensão, a existência [ou o ser] de uma coisa pode ser chamada de substância. Quando o termo “substância” é usado nesses sentidos ampliados, já não significa a contraparte ou o fundamento com respeito aos acidentes; deste modo, quando Deus é chamado de substância, ou as Pessoas da Trindade são chamadas de hypostases, ou falamos da união hipostática entre as naturezas humana e divina em Jesus Cristo, não sugerimos que haja acidentes correspondentes próprios da existência de Deus ou do Verbo. Coisas que são acidentes na alma de uma criatura racional (como seu conhecimento e suas virtudes) são, em Deus, idênticas ao seu ser. 

O termo “substância” foi incorporado à teologia cristã desde muito cedo em controvérsias a respeito da Encarnação e da Santíssima Trindade. O Concílio de Niceia (325), ao defender a divindade de Cristo, afirma que o Filho é homoousian (latim consubstantialis) — isto é, da mesma substância, da mesma essência divina — em oposição aos arianos, que o chamavam homoiousian, “de substância parecida” [3]. Na Idade Média, quando o mistério da Eucaristia como verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo foi questionado por Berengário de Tours, os termos substância e acidente foram empregados para formular a doutrina ortodoxa.

O milagre da transubstanciação

Por ser o mistério central de nossa fé, “fonte e ápice da vida cristã”, a Igreja considera a Sagrada Eucaristia o objeto de sua mais profunda adoração e mais rigorosa vigilância [4]. Temos de pressupor duas verdades a fim de compreender por que a Igreja usa o termo “transubstanciação” para o milagre que ocorre no momento da consagração: primeiro, que a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue de Cristo; segundo, como contrapartida necessária, que pão e vinho realmente se transformam em Corpo e Sangue.

Ambas as verdades são ensinadas na Sagrada Escritura [5] e atestadas de modo inequívoco pelos Padres da Igreja do Ocidente e do Oriente. Os autores gregos se referem à mudança que ocorre nos dons como metousiosis, ou mudança de uma substância (ousia) em outra; até hoje os teólogos ortodoxos orientais que permanecem fiéis à herança patrística estão fundamentalmente de acordo com o dogma católico, mesmo que usem uma terminologia diferente e menos precisa [6]. O termo latino transubstantiatio apareceu no final do século XI e foi apresentado oficialmente no IV Concílio de Latrão (1215). Opondo-se às heresias eucarísticas dos autodenominados reformadores, o Concílio de Trento (1545-1563) reafirmou solenemente a doutrina, observando que seu significado, senão o termo especial, foi sempre e em todos os lugares a fé comum da Igreja.

A substância de uma coisa é o que ela é de modo mais fundamental enquanto certo tipo de coisa (por exemplo, o pão resulta da mistura de farinha, óleo, sal etc.), distinguindo-se de seus vários acidentes ou características (cor, sabor, cheiro, formato, tamanho, localização e assim por diante) [7]. Normalmente, os acidentes de uma coisa indicam sua substância; a cor e o sabor do pão nos levam a realizar a esperada inferência de que é pão. A transubstanciação é justamente considerada milagrosa no sentido mais forte do termo, isto é, trata-se de algo que está completamente fora do curso ordinário da natureza, porque nessa mudança misteriosa os acidentes ou características do pão e do vinho permanecem, enquanto a substância interior, a realidade essencial, torna-se algo completamente diferente. Como ensina o Concílio de Trento, no momento da consagração, em virtude das palavras eficazes de Nosso Senhor proferidas por seu ministro, a substância inteira do pão é transformada na substância inteira do Corpo de Cristo, e a substância inteira do vinho é transformada na substância inteira do Sangue de Cristo. Pão e vinho enquanto tais deixam de existir, e a plena realidade de Cristo se torna presente sob suas aparências, cuja permanência nos dá a possibilidade de consumir os dons divinos. Os acidentes do pão e do vinho, portanto, permanecem sem qualquer substância à qual possam inerir, e a substância de Jesus Cristo se torna presente sem que os seus acidentes ou características sejam sensíveis para nós.

Devemos nos maravilhar com a conveniência dos meios escolhidos por Nosso Senhor: pão e vinho são fontes evidentes de nutrição para o corpo. Portanto, simbolizam perfeitamente o alimento espiritual que a alma recebe na Sagrada Comunhão. Os acidentes duradouros desses alimentos permitem que o comungante receba de modo incruento o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor e, consequentemente, sua alma e divindade, de um modo adequado a nós e às nossas capacidades. Quando recebemos a Sagrada Comunhão, o Senhor do céu e da terra vem habitar em nós do modo mais íntimo, abençoando nossa alma e corpo com a santidade de sua divina humanidade. Enquanto o corpo humano transforma o alimento comum em sua própria substância, ao recebermos Cristo dignamente nós somos envolvidos por sua graça e transformados gradualmente em sua imagem e semelhança.

Como por meio das palavras da consagração o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor se tornam verdadeiramente presentes enquanto carne e sangue do Senhor ressuscitado no céu, a hóstia consagrada necessariamente contém também — “por concomitância”, para usar a linguagem de Santo Tomás e do Concílio de Trento — seu Sangue, Alma e Divindade, pois estes são inseparáveis daqueles [8]. Eles sempre acompanham o Corpo (o verbo concomitare significa apenas atender, acompanhar, ir junto). O mesmo vale para o vinho, que é transformado em Sangue de Cristo em virtude das palavras da consagração, mas no qual estão presentes, por concomitância, o Corpo, a Alma e a Divindade do Salvador. Essa é a razão pela qual a comunhão apenas sob uma espécie, pão ou vinho, não diminui em nada a recepção do Cristo inteiro, Verbo feito carne, ainda que a significação do valor de sinal do sacramento seja mais completa na recepção sob as duas espécies, algo que a Igreja Católica considerou adequado limitar ao sacerdote que oferece o sacrifício [9].

Objeções e respostas

Alguns levantaram a objeção de que o uso de “substância e acidente” na definição do mistério da Eucaristia faz uso ilegítimo de categorias filosóficas pagãs que não foram reveladas na Sagrada Escritura ou não são encontradas explicitamente antes dos pensadores escolásticos da Idade Média. Em seus esforços para defender o mais sagrado dos mistérios, a Igreja, assim dizem, cingiu-se a distinções humanas discutíveis em vez de se satisfazer com um simples ato de fé na presença de Cristo.

Alguém poderia responder, de início, que os termos “Encarnação” e “Trindade” também não são mencionados na Sagrada Escritura, mas não são menos verdadeiros por causa disso. Porém, para ser mais preciso, essa objeção não consegue perceber que a distinção entre substância e acidente deriva da experiência comum e da estrutura da realidade. A Igreja usa terminologia filosófica sempre que capta alguma verdade inquestionável sobre o mundo em que vivemos ou a fé que professamos. O Papa Paulo VI, na encíclica Mysterium Fidei, de 1965, explicou que a Igreja encontrou uma linguagem universal com a qual pode apresentar e defender com sucesso seus ensinamentos: 

Essas fórmulas, como as outras que a Igreja usa para enunciar os dogmas de fé, exprimem conceitos que não estão ligados a uma forma de cultura, a determinada fase do progresso científico, a uma ou outra escola teológica, mas apresentam aquilo que o espírito humano, na sua experiência universal e necessária, atinge da realidade, exprimindo-o em termos apropriados e sempre os mesmos, recebidos da linguagem ou vulgar ou erudita. São, portanto, fórmulas inteligíveis em todos os tempos e lugares (n. 24).

Mesmo que a Igreja não imponha a física aristotélica per se, percebe que o mistério da Eucaristia pode ser corretamente definido em termos originalmente apresentados por Aristóteles. Ela definiu de modo solene que a maravilhosa e singular mudança que ocorre no momento da consagração é chamada, de forma mais apropriada e correta, transubstanciação. Respondendo ao Sínodo de Pistoia (1786), que afirmou que a teoria da transubstanciação é uma “questão puramente escolástica”, o Papa Pio VI reafirmou, ao contrário, que todos os fiéis deveriam ser instruídos nela

A encíclica Mysterium Fidei, do Papa Paulo VI, emitiu um severo alerta contra a desvalorização ou substituição do termo “transubstanciação”, condenando particularmente duas inovações: a “transfinalização” (isto é, a ideia de que as palavras da consagração mudam a finalidade ou propósito do pão e do vinho, que então passam a desempenhar a função de estimular a fé no amor de Cristo) e a “transignificação” (isto é, a ideia de que as palavras da consagração mudam o sentido do pão e do vinho, que então ganham um significado simbólico ausente na comida humana comum). Tais teorias fazem eco aos erros dos reformadores protestantes, que negaram a real transformação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo e, consequentemente, rejeitaram a Presença Real ou negaram a completa transformação dos dons, insistindo em que depois da consagração, pão e vinho permanecem, junto ou ao lado do Corpo e do Sangue recém-apresentados (uma teoria conhecida como consubstanciação). Foram precisamente tais heresias que o Concílio de Trento anatematizou a fim de salvaguardar o mais profundo mistério do amor divino. Além disso, quando rejeita a consubstanciação, a Igreja está na verdade defendendo a razão, pois dizer que a mesma coisa é tanto a substância inteira de Cristo e a substância inteira de pão é uma contradição em termos: uma impossibilidade metafísica. 

Outra objeção é assim apresentada: Deus não estaria nos “enganando”, uma vez que Jesus Cristo está realmente presente, mas não pode ser percebido de modo algum como presente? Por que o Salvador escolheria dar-se a nós sob aparências diferentes e enganosas? 

A resposta prática é a seguinte: considerando a intenção do Senhor de nos alimentar consigo, só poderíamos comer seu Corpo e beber seu Sangue de modo digno se fossem disponibilizados ao modo de comida e bebida comuns. Mas a resposta mais profunda é que a Eucaristia, como mistério supremo da fé, convida-nos a depositar toda a nossa confiança na inerrante Palavra de Deus, o Deus da misericórdia, que dignou-se vir ao mundo como uma criança indefesa, cuja divindade não poderia ser reconhecida pelos sentidos humanos (cf. Jo 1, 9-13; Mt 16, 17). A presença oculta de Cristo no altar é a um tempo o maior gesto de misericórdia para com os pecadores (cf. Mt 26, 28) e o maior desafio para os discípulos, que devem discernir Cristo na fração do pão (cf. Lc 24, 35), ou não o encontrarão em lugar algum, mesmo que Ele apareça e caminhe ao lado deles. Se temos de exercitar a virtude sobrenatural da fé para aceitar todos os mistérios de nossa santa religião — a Trindade, a Encarnação, o nascimento virginal, a ressurreição —, temos de exercer essa virtude sobretudo ao adorarmos e nos aproximarmos do Deus escondido sob as humildes aparências dos dons consagrados. Nosso Senhor disse a Tomé: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que, mesmo sem ter visto, creem” que verdadeiramente ressuscitei dos mortos (Jo 20, 29). Ele nos diz em cada Missa: “Felizes aqueles que, mesmo sem ter visto, creem” que estou realmente aqui, no meio de vós, cumprindo minha promessa de estar “convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). 

Uma pessoa com treinamento filosófico poderia objetar que uma substância não pode mudar sem seus acidentes ou aparências também mudarem; deste modo, se pão e vinho deixarem de existir, sua aparência também deverá deixar de existir, e se Jesus se fizer presente, sua aparência também deverá estar presente. 

Santo Tomás responde: Deus é a causa primeira e absoluta de tudo o que existe — inclusive da existência das substâncias e seus acidentes —, e qualquer que seja a causa primeira e absoluta de um ente composto também será a causa de seus aspectos ou componentes tomados um a um. Portanto, Ele é capaz, em sua onipotência, de fazer com que uma substância exista por si mesma sem as suas características sensíveis costumeiras, e de sustentar os acidentes separados de seu sujeito habitual. O Criador que traz à existência e mantém nela tanto o ferro como seus acidentes (superfície brilhante, dureza, durabilidade) pode, se quiser, fazer com que as características do ferro permaneçam, ao mesmo tempo que retira a substância que subjaz a elas. Não deveria ser difícil aceitar que Ele pode fazer isso quando consideramos que Deus, ao criar o mundo, os anjos e cada alma humana, criou o ente a partir do nada (ex nihilo) — um ato que ultrapassa qualquer milagre. A objeção só é válida até onde chega nossa experiência comum, pois a Eucaristia é uma exceção absoluta, sobre a qual temos de ser instruídos por Nosso Senhor e seus Apóstolos. Em relação a todos os outros entes, é verdade que substância e acidentes sempre estão juntos, mas no mistério do Santíssimo Sacramento Deus quis que ficassem separados por um ato de seu poder invencível

Há outra objeção ligada a essa: como o Corpo de Cristo pode estar em mais de um local simultaneamente? Cristo não seria multiplicado de forma impossível nas muitas hóstias? 

Resposta: somente os acidentes do pão e do vinho estão divididos e distribuídos, e apenas os acidentes podem perecer com o tempo, tal como sucede no estômago do comungante. O Salvador glorificado no céu, sem sofrer divisão ou mudança, faz-se inteiramente presente na Eucaristia, que é verdadeiramente uma porque sua substância é verdadeiramente uma. O ensinamento de São Paulo — “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10, 16-17) — mostra que o mesmo e único Pão da Vida, o próprio Jesus (cf. Jo 6, 35), é recebido pelos cristãos sob as aparências daquele pão físico que pode ser partido e distribuído. Embora a comparação seja limitada, até um simples homem pode estar presente ao mesmo tempo em diferentes lugares e segundo modos distintos: numa chamada telefônica por conferência, uma pessoa está presente para si de um modo e presente para outros de outra maneira, sem que ela deixe de ser a mesma pessoa. Na Sagrada Eucaristia, Nosso Senhor está presente de um modo sacramental que permite a multipresença ou multilocalização. 

Finalmente, algumas pessoas acham que a doutrina da transubstanciação se tornou indefensável diante da “ciência moderna”. As ciências empíricas dos séculos recentes, no entanto, não fizeram nada mais que fornecer uma grande quantidade de informações detalhadas sobre o mesmo mundo no qual os antigos e os medievais viveram, o mesmo mundo em que todos vivemos e que experimentamos. Jamais poderá haver qualquer conflito sobre o curso normal dos acontecimentos e a constituição ordinária das substâncias no mundo natural. Assim como a pessoa religiosa que comunga sente sabor do pão, mas sabe por fé que recebe a Jesus Cristo, a análise química feita numa hóstia consagrada (Deus não permita que isso ocorra) apontaria obviamente para as características acidentais do pão — coisa que o católico sempre soube. Nem os cinco sentidos do homem nem os mais avançados instrumentos da ciência empírica podem atingir a substância interna das coisas; eles só conseguem conhecer e registrar os acidentes, as aparências, as qualidades e as quantidades, que, na Eucaristia, continuam sendo o que eram antes da transubstanciação.

A hostilidade que um empirista moderno pode manifestar em relação à Eucaristia tem raízes numa rejeição axiomática, prévia, da existência de Deus ou da própria possibilidade de haver milagres, isto é, eventos que não se enquadram nos acontecimentos ordinários que obedecem às leis e ao curso da natureza. Esses erros devem ser combatidos num campo de batalha mais amplo. Uma vez demonstrada a existência de Deus e as perfeições infinitas de sua natureza, torna-se impossível negar a possibilidade de milagres, pois como o Deus que cria e sustenta todas as coisas pode fazer o que quiser com elas, e como Jesus Cristo é verdadeiro Deus, segue-se imediatamente que Ele pode realizar o milagre da transubstanciação por meio do poder infinito de sua divindade, um poder ao qual o sacerdote tem acesso especial por meio de sua conformação sacramental a Cristo, Sumo Sacerdote.

A recente pesquisa do Pew Research Center que indicou um enorme colapso da fé dos católicos na Presença Real certamente nos mostra ao menos duas coisas: primeiro, o modo como a maioria dos católicos têm prestado culto a Deus não os ajuda a captar as verdades dogmáticas que a Igreja confessa; segundo, todos os católicos — independentemente da riqueza ou pobreza com que nossas liturgias retratam os mistérios da fé — precisamos fazer mais do que ir à igreja uma vez por semana, se quisermos conhecer, amar e viver nossa sagrada religião. O estudo é parte disso, e Santo Tomás de Aquino é nosso guia de confiança.

Notas

  1. Uma expressão como “Veremos a justiça?” significa: veremos a coisa justa ser feita nesta situação?
  2. Há também dois níveis de substância. Substância primeira é aquilo de que temos falado: uma coisa individual dotada de existência, aquele determinado homem, cavalo ou árvore. Substância segunda é o gênero ou espécie de um indivíduo. “Animal” ou “planta” podem ser chamados de substância, mas como no mundo só há animais e plantas individuais, “substância” refere-se, de modo mais apropriado, a coisas que realmente existem, e não às espécies ou gêneros delas.
  3. A expressão “um i não faz diferença” é uma indelicadeza racionalista contra a precisão teológica dos nossos antepassados. Um i faz toda diferença entre o cristianismo e o paganismo elegante de Ário. 
  4. Ver Lumen Gentium 11, Catecismo da Igreja Católica 1324. Dificilmente poderíamos culpar a doutrina oficial da Igreja por muitas vezes serem deficiente essa adoração e vigilância, particularmente nas últimas décadas. Esse fenômeno resulta mais da decadência da autoridade, da falta de disciplina eficaz e da gradual perda do senso de Tradição entre os fiéis, tal como Romano Amerio documentou em seu livro Iota Unum
  5. Ver, inter alia, Jo 6, 48-60; Mt 26, 26-28; Mc 14, 22-24; Lc 22, 19-20; 1Cor 10, 16-17; 11, 23-29.
  6. Naturalmente, eles consideram sua imprecisão linguística uma grande virtude, mas este não é o lugar para iniciar um debate sobre os motivos pelos quais estão equivocados.
  7. Embora o pão não seja uma substância produzida pela natureza, mas uma mistura de ingredientes naturais reunidos pelo homem e submetida a cozimento, o resultado final não é um mero conglomerado de ingredientes, a menos que algo dê errado no processo; é um algo reconhecível de modo consistente, para o qual não temos dificuldade de assinalar um nome. 
  8. Inseparáveis agora que Cristo está ressuscitado e a morte não tem mais domínio sobre Ele. A humanidade que recebemos na Eucaristia é ressurrecta, glorificada, completa e imperecível. Quando na Quinta-Feira Santa Jesus celebrou a Eucaristia pela primeira vez, a humanidade recebida pelos discípulos era passível (capaz de sofrer). Santo Tomás chega inclusive a dizer que, se a Eucaristia tivesse sido oferecida durante o intervalo entre a morte de Cristo e a ressurreição, a hóstia teria contido o Corpo com a Divindade, mas sem o Sangue ou a Alma, e o cálice teria contido o Sangue com a Divindade, mas sem o Corpo ou a Alma. Tudo isso é simplesmente a aplicação do princípio de que a Eucaristia contém a substância de Cristo tal como Ele é
  9. Desde o Concílio Vaticano II, a prática da comunhão sob duas espécies [para os fiéis] foi amplamente disseminada na Igreja latina. Está além do escopo deste artigo a defesa da tradição e a crítica a essa peça de antiquarismo.

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