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Um protestante pergunta sobre a transubstanciação
Doutrina

Um protestante
pergunta sobre a transubstanciação

Um protestante pergunta sobre a transubstanciação

A Igreja Católica inventou a transubstanciação? Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia ou Ele usou o sentido figurado quando disse: “Isto é o meu corpo”?

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2019Tempo de leitura: 13 minutos
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Um protestante entrou em contato conosco há alguns dias, demonstrando sinceridade e vontade de aprender algumas coisas acerca da Eucaristia. Por considerarmos que a resposta às suas indagações poderá ser de grande utilidade para todos os nossos leitores, decidimos torná-la pública.

Comecemos pelas questões que ele coloca, por ordem:

  1. ele questiona o termo transubstanciação, com o qual a Igreja procurou descrever o mistério que se dá neste sacramento; depois,
  2. ele argumenta, “baseando-se nas escrituras sagradas”, “que a Igreja primitiva não tinha problema algum de chamar os elementos pão e vinho ao invés de corpo e sangue”, e pergunta: “se de fato fosse corpo e sangue, por que não evidenciar isso no decorrer dos textos?”;
  3. ele cita o trecho de Jo 6, 53-55, no qual Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, e admite: “Esse texto poderia corroborar para a questão de realmente haver o milagre da transubstanciação”, não fosse Jo 6, 63 explicar que “o Espírito é que dá vida, a carne de nada aproveita”, com o que, ele supõe, a doutrina da transubstanciação fica comprometida;
  4. ele diz que o uso da expressão “Isto é o meu corpo”, presente nos Evangelhos e em 1Cor 11, 24, “não é algo tão explícito para comprovar a questão de que é de fato o corpo de Cristo”; e, por fim,
  5. ele argumenta que “milagres não são por si só provas”, certamente se referindo ao fenômeno dos milagres eucarísticos acontecidos na Igreja Católica, dos quais existem inúmeros exemplos ao redor do mundo.

Considerando que as questões, embora sejam cinco, lidam com três aspectos do problema, dividimos nossa resposta em três grupos de observações: primeiro, quanto à linguagem (1 e 2); segundo, quanto à interpretação das passagens relativas à Eucaristia (3 e 4); e, por fim, quanto aos milagres (5).

O problema da linguagem. — É evidente que na Igreja nascente não existia o termo “transubstanciação”. O Manual de Teologia Dogmática de Ludwig Ott fala de sua origem no século XII, ou seja, mais de um milênio após a morte de Cristo [1].

“Pronto”, o protestante mais afoito responderá, dando por encerrada a questão, “a Igreja Católica inventou a transubstanciação”.

Ora, não é porque a palavra transubstanciação passou a constar nos documentos da Igreja só a partir do segundo milênio que a realidade a que ela faz referência não existia já antes. Na verdade, foi justamente para proteger o que os cristãos desde o princípio acreditavam a respeito da Eucaristia que a Igreja passou a adotar esse termo em seus ensinamentos. É que barreiras de proteção normalmente só são necessárias diante de perigos e ameaças. São Pedro Apóstolo, ao dizer a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, estava claramente confessando a divindade de Cristo. Mas, quando alguns começaram a negar essa verdade, a Igreja no Concílio de Niceia se viu obrigada a incrementar a profissão de fé apostólica: Jesus Cristo passou a ser crido como o Filho “gerado, não criado, consubstancial ao Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz da Luz”. Não que Ele já não o fosse antes. Mas diante da ameaça dos arianos, que diziam ser Ele uma simples “criatura” do Pai, foi necessário ser mais específico, enfático e explícito.

Ora, o primeiro milênio praticamente não viu surgirem heresias eucarísticas. Daí o “menor cuidado”, por assim dizer, com as formulações a respeito desse sacramento. Mas se esse cuidado ainda não se via tão claramente no campo da linguagem, o zelo dos primeiros cristãos com a liturgia revestia-se de uma piedade verdadeiramente exemplar: havia clara consciência de se estar diante de um mistério tão grandioso, tão excelso, tão superior, que precisava ser velado de algum modo, escondido do olhar dos curiosos, preservado da incredulidade pagã. Era a chamada “disciplina do arcano” (disciplina arcani), que levou os cristãos a celebrarem secretamente a Eucaristia, para preservá-la.

A consciência do mistério traduz-se com muita simplicidade nos escritos dos Santos Padres. Notem todos que, mesmo não havendo ainda o termo “transubstanciação”, os elementos a que faz referência essa expressão já estavam todos presentes [2]: sabia-se que na consagração do pão e do vinho acontecia (i) a conversão de um e de outro no Corpo e Sangue de Cristo, (ii) operada por força das palavras do Senhor, (iii) ao mesmo tempo que se mantinham, por outro lado, certos aspectos do pão e do vinho — isto é, os seus “acidentes”.

O Papa Paulo VI faz uma ótima compilação dessas passagens em sua encíclica Mysterium Fidei (n. 50-53):

Assim instruído e acreditando com a maior certeza que aquilo que parece pão não é pão, apesar do sabor que tem, mas sim o Corpo de Cristo; e que o que parece vinho não é vinho, apesar de assim parecer ao gosto, mas sim o Sangue de Cristo... tu fortalece o teu coração, comendo aquele pão como coisa espiritual, e alegra a face da tua alma (São Cirilo de Jerusalém, Catech. 22, 9: PG 33, 1103).

Quem faz que as coisas oferecidas se tornem o Corpo e o Sangue de Cristo não é o homem, é Cristo que foi crucificado por nós. Como representante, pronuncia o sacerdote as palavras rituais; a eficácia e a graça vêm de Deus. Diz ‘isto é o meu Corpo’: esta palavra transforma as coisas oferecidas (São João Crisóstomo, De prodit. Iudae, Homil. 1, 6: PG 49, 380).

(Cristo) afirmou de maneira categórica ‘isto é o meu Corpo e isto é o meu Sangue’. Não vás tu julgar que as realidades visíveis são figura, mas fiques sabendo que Deus Onipotente transforma, de modo misterioso, algumas das coisas oferecidas, no Corpo e no Sangue de Cristo; quando destes participamos, recebemos a força vivificante e santificadora de Cristo (São Cirilo de Alexandria, In Matth. 26, 27: PG 72, 451).

Persuadamo-nos que já não temos o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou; e que a força da bênção é maior que a força da natureza, porque a bênção muda até a natureza [...]. A palavra de Cristo, que pode fazer do nada aquilo que não existia, não poderá mudar as coisas que existem naquilo que não eram? Criar coisas não é menos que mudá-las (Santo Ambrósio, De myster. 9, 50-52: PL 16, 422-424).

Esses testemunhos servem para nos mostrar como as doutrinas definidas pelo Magistério da Igreja não surgem por “geração espontânea”. Não é que, do dia para a noite, um sínodo ou um Concílio ecumênico tenha decidido “decretar” o dogma da transubstanciação. Não. Com o passar dos anos, vai crescendo na mente dos Doutores e no coração dos fiéis a compreensão das verdades de fé e, assim, quando surge no século XI um Berengário de Tours ousando ensinar que a Eucaristia não passa de um “símbolo”, o que faz a Igreja? Simplesmente o obriga a retratar-se, com uma fórmula já repleta de cuidados:

Eu, Berengário, creio [...] que o pão e o vinho que são postos sobre o altar, em virtude do mistério da santa oração e das palavras de nosso Redentor, são transformados, quanto à substância [substantialiter converti], na verdadeira e própria vivificante carne e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e que, depois da consagração, são o verdadeiro corpo de Cristo [verum Christi corpus], que nasceu da Virgem e para a salvação do mundo foi pendurado na cruz e está sentado à direita do Pai, e o verdadeiro sangue de Cristo [verum sanguinem Christi], que foi derramado do seu flanco (Profissão de Fé de Berengário de Tours, 11 fev. 1079: DH 700).

Por que agiu assim a Igreja? Porque ela tinha um mistério a guardar! A Eucaristia é um mistério do qual o Papa e os bispos em comunhão com ele são apenas depositários e, por isso, eles não tinham (e não têm) o direito de “manipular” essa realidade com qualquer linguagem, se isso significasse pôr em risco o ensinamento de Cristo e o que os cristãos sempre haviam entendido, desde o começo, como sendo o ensinamento de Cristo.

Mas o que os cristãos receberam de Cristo, afinal? Com essa pergunta, entramos em nosso segundo problema: a interpretação do texto bíblico.

O problema da interpretação bíblica. — Discutir exegese bíblica com protestantes é sempre um desafio, porque, não estando eles dispostos a aceitar a autoridade da Igreja Católica — a única estabelecida por Cristo Jesus —, só o que resta é o “livre exame”, ou a criação artificiosa de alguma autoridade humana para resolver as controvérsias que inevitavelmente surgem da leitura das Escrituras.

O trecho citado por nosso amigo protestante é, de fato, o mais forte de toda a Bíblia a respeito da Eucaristia: em Jo 6, 53-55, Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna.

Ora, palavras tão contundentes assim, de cuja literalidade Jesus fez questão de não “arredar o pé” em momento algum… “anuladas” por uma referência ao Espírito que dá vida e à carne que de nada aproveita?

Bom, se o leitor está disposto a se servir de qualquer versículo que seja para negar a transubstanciação… então aí está a oportunidade! Mas Santo Tomás de Aquino, a partir de São João Crisóstomo e de Santo Agostinho, dá ao versículo 63 uma interpretação muito mais em harmonia não só com o restante do discurso do pão da vida, mas com tudo o que a Igreja sempre creu a esse respeito:

Deve-se saber […] que as palavras de Cristo podem entender-se num duplo sentido: (a) em sentido espiritual e (b) em sentido corporal. E por isso diz: “O espírito é que vivifica”, isto é, “se entenderdes as palavras que vos disse segundo o espírito”, ou seja, segundo o seu sentido espiritual, “minhas palavras vos vivificarão”; “a carne de nada serve”, isto é, “se as entenderdes em sentido carnal, elas de nada vos aproveitarão: antes, vos farão mal”. Porque, como se diz em Rm 8, 12, “se viverdes segundo a carne, haveis de morrer”.

Pois bem, as palavras do Senhor a respeito de sua carne dada como comida entendem-se carnalmente quando se interpretam tal como as palavras soam externamente, e referidas à natureza da carne; e era deste modo que eles as entendiam [...]. Mas o Senhor dizia que se lhes havia de dar como alimento espiritual, não porque no sacramento do altar não esteja presente a verdadeira carne de Cristo, mas porque ela é consumida de um certo modo espiritual e divino. Assim, portanto, o sentido adequado destas palavras não é carnal, mas espiritual. Eis porque acrescenta: “As palavras que vos tenho dito”, a saber, acerca de minha carne dada como comida, “são espírito e vida”, ou seja, têm um sentido espiritual e, assim entendidas, dão vida. E não é estranho que tenham um sentido espiritual, porque são palavras vindas do Espírito Santo: “Fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito” (1Cor 14, 2). E é por isso que os mistérios de Cristo vivificam: “Jamais esquecerei vossos preceitos, porque por eles é que me dais a vida” (Sl 118, 93).

Mas, de acordo com Agostinho, essa passagem se explica de outro modo, pois isto que o Senhor disse: “a carne de nada serve”, refere-se à carne de Cristo. É evidente, com efeito, que a carne de Cristo, enquanto unida ao Verbo e ao Espírito, traz muito proveito e de todas as maneiras: do contrário, em vão o Verbo se teria feito carne, em vão o Pai o teria manifestado na carne [...]. E por isso se deve dizer que a carne de Cristo, considerada em si mesma, de nada serve, e não tem efeito mais benéfico que o de outra carne. De fato, se a carne de Cristo é separada, idealmente, da divindade e do Espírito Santo, não tem mais virtude do que outra carne; mas, se está unida ao Espírito e à divindade, é de proveito para muitos, porque faz os que a comem permanecerem em Cristo. Com efeito, é pelo Espírito de caridade que o homem permanece em Deus: “Nisso é que conhecemos que estamos nele e Ele em nós, por Ele nos ter dado o seu Espírito” (1Jo 4, 13). Eis porque diz o Senhor: este efeito (ou seja, o da vida eterna) que eu vos prometo, não deveis atribuí-lo à carne considerada em si mesma, pois a carne assim considerada de nada serve; mas, se o atribuirdes ao Espírito, e à divindade unida à carne, assim é que ela dá a vida eterna: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 25). E é por isso que acrescenta: “As palavras que vos tenho dito são espírito e vida”, isto é, devem ser referidas ao Espírito unido à carne; e, assim entendidas, são vida, a saber: vida da alma. Pois assim como o corpo vive com vida corporal graças ao espírito corporal, assim também a alma vive com vida espiritual graças ao Espírito Santo: “Enviai o vosso Espírito, e tudo será criado” (Sl 103, 5) (Comentário ao Evangelho de São João, VI, l. 8, n. 992-993, destaques nossos).

Riquíssimos de espiritualidade são esses comentários, e mais belo ainda é ver como eles se articulam com outros mistérios de nossa fé, como a união hipostática. Nosso Senhor, sendo o próprio Deus feito homem, dá-nos de sua carne justamente para nos fazer participantes de sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Assim, nós, católicos, quando comungamos (com fé e em estado de graça, é claro), tomamos parte na vida do próprio Deus, recebemos nesse banquete toda a força necessária para lutarmos contra o pecado e nos elevarmos acima de nossa condição decaída… É a Redenção que atua diretamente em nossa vida, transformando-nos nos santos que Deus quer que sejamos.

Quanto a “Isto é o meu corpo” ser expressão insuficiente para se defender a presença real de Cristo na Eucaristia, respondemos com Ludwig Ott que, aqui, vários fatores exigem a interpretação literal dessas palavras:

a) O texto das palavras. Não existe nada no texto que possa servir de fundamento para uma interpretação figurada, pois o pão e o vinho não são, nem por natureza nem por uso geral linguístico, símbolos do corpo e do sangue. A interpretação literal não encerra em si contradição alguma, uma vez que pressupõe, desde já, a fé na divindade de Cristo.

b) As circunstâncias. Cristo tinha de acomodar-se à mentalidade dos Apóstolos, que entenderam suas palavras tal como foram pronunciadas. Se não queria induzir ao erro toda a humanidade, tinha de servir-se de uma linguagem que não se prestasse a falsas interpretações, sobretudo naquela ocasião, quando ia instituir um sacramento e um ato de culto tão sublime, quando ia fundar a Nova Aliança e legar-nos seu testamento.

c) As conclusões práticas que deduz o apóstolo São Paulo das palavras da instituição. Diz o Apóstolo que quem recebe indignamente a Eucaristia peca contra o corpo e o sangue do Senhor; e quem a recebe dignamente faz-se participante do corpo e do sangue de Cristo (cf. 1Cor 10, 16; 11, 27ss) [...].

d) A insuficiência dos argumentos apresentados pelos adversários. Se é verdade que o verbo “é” tem em vários lugares da Escritura (v.g. Mt 13, 38: “o campo é o mundo”; cf. Jo 10, 7a; 15, 1; 1Cor 10, 4) um significado equivalente a “simboliza” ou “representa”, não é menos certo também que em tais casos o sentido figurado dessas passagens deduz-se sem dificuldade da natureza mesma do assunto (v.g., quando se trata de uma parábola ou alegoria) ou pelo uso geral da linguagem. Mas no relato sobre a instituição da Eucaristia não ocorre nenhuma dessas coisas [3].

O problema dos milagres. — É claro que, para quem não está disposto a crer, nem mil provas serão suficientes: pode-se-lhe mostrar a Bíblia, os testemunhos da Tradição, as manifestações do Magistério perene da Igreja e até os milagres eucarísticos ao longo dos séculos, verdadeiros “carimbos” de Deus para confirmar a autenticidade da fé católica na Eucaristia… mas será tudo em vão. Enquanto não estivermos dispostos a aceitar a autoridade do Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar, e que instituiu a Igreja Católica para guardar o depositum fidei…  serão em vão todas e quaisquer argumentações.

O que precisamos, no fundo, para aceitar a transubstanciação, é simplesmente de um ato de fé, como este: “Eu acredito que no Sacramento da Eucaristia está verdadeiramente presente Jesus Cristo, porque Ele mesmo o disse, e assim no-lo ensina a Santa Igreja” (Catecismo de S. Pio X, 596). Nada mais.

Isso pode parecer pouca coisa, caro leitor, mas é o passo decisivo… e, no momento extraordinário em que ele for dado, tenha a certeza de que Nosso Senhor, dos céus, estará lhe dirigindo as mesmas palavras que, um dia, ele pronunciou a São Pedro: “Bem-aventurado és”, meu filho, “porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17).

Referências

  1. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. 7.ª ed., Barcelona: Herder, 1969, p. 562.
  2. Cf. Id., p. 563, onde se fala dos elementos que compõem a noção “transubstanciação”.
  3. Cf. Id., pp. 557-558.

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Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás
Espiritualidade

Sagrado Coração:
nosso refúgio contra Satanás

Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás

Durante as mais terríveis tentações e ataques diabólicos, o Sagrado Coração de Jesus é um refúgio seguro. Eis aqui sete formas através das quais essa devoção pode nos proteger do pecado e do mal.

Kathleen BeckmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção nossa. É de Deus. É a devoção de Deus por nós”, escreve o Pe. James Kubicki, SJ, em seu livro A Heart on Fire [“Um Coração em Chamas”, sem tradução para o português]. Ele também nos lembra que a devoção ao Sagrado Coração não começou no século XVII com as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, uma religiosa visitandina — mas começou “antes do tempo, no Coração eterno de Deus”. Essa verdade ajuda-nos a alcançar a feliz redescoberta do amor perfeito de Deus por nós. Deus não precisa receber nosso amor de volta, mas, no mistério da misericórdia divina, Ele deseja nosso amor recíproco. Deus deseja uma comunhão amorosa e duradoura conosco. Embora nossos corações sejam frequentemente instáveis, esquecidos e temerosos, seu coração está voltado atentamente para nós.

Na cultura atual, tão carente de amor, nosso conceito de amor é facilmente distorcido, disperso e destruído. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma provisão poderosa contra a destruição do amor autêntico. Cristo está presente, vivo e atuante, e o seu Sagrado Coração entoa uma canção de amor que é exclusivamente pessoal.

O diabo, nosso velho inimigo (cf. Ef 6, 11-13; 2, 1-7, Zc 3, 1-2; 1Ts 2, 18; Ap 12, 10), trama metodicamente a destruição esmagadora do amor autêntico a Deus e ao próximo. A tentação diabólica busca a distorção da imagem de Deus, a dispersão do nosso objetivo eterno e a destruição do amor. Quando a alma experimenta a ausência de amor autêntico, ela prontamente sucumbe à sedução de tentações diabólicas. No ministério da Igreja de libertação e exorcismo, vemos isso com frequência. Um coração em chamas que, com e por amor divino, repele os demônios.

O Catecismo da Igreja (n. 385) aborda a realidade do mal e nossa necessidade de “fixar os olhos da fé naquele que é o seu único Vencedor”:

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza — que aparecem ligados às limitações próprias das criaturas — e, sobretudo, à questão do mal moral. De onde vem o mal? “Eu perguntava de onde vem o mal e não encontrava saída”, diz Santo Agostinho, e sua própria busca sofrida não encontrará saída, a não ser na conversão ao Deus vivo. Pois “o mistério da iniquidade” (2Ts 2, 7) só se explica à luz do “mistério da piedade”. A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que é o seu único Vencedor.

Quando fixamos nossos olhos e coração no Sagrado Coração de Jesus, percebemos que o coração de Deus é amoroso, onipotente, onisciente e protetor das criaturas amadas. O Sagrado Coração queima com um poder incompreensível para criar o bem e destruir o mal. Nosso foco é sempre o coração eucarístico de Deus, não a obra do diabo. Embora percebamos a batalha espiritual ao nosso redor e sejamos capazes de discernir bem os espíritos, interna e externamente, nossos corações devem comungar com o Sagrado Coração. Durante as terríveis tentações e os piores ataques diabólicos, o Sagrado Coração é um refúgio. Sobretudo na adoração, podemos olhar, rezar, dialogar, revigorar, discernir e ser preenchidos com o combustível da graça, para resistir ao diabo e proclamar a vitória de Cristo.

Proponho a seguir sete formas através das quais a devoção ao Sagrado Coração pode nos proteger do pecado e do mal.

1. Sagrado Coração: Encarnado. — A guerra eclodiu no Céu com a revelação do plano de Deus para a Encarnação do Verbo.

Detalhe da “Queda dos Anjos Rebeldes”, por Luca Giordano.

A rebelião de um terço dos seres angélicos (agora chamados demônios) ocorreu porque eles não aceitariam que o Filho de Deus se tornasse “carne” na forma humilde de uma criatura nascida de uma mulher. A devoção ao Sagrado Coração cultiva o amor encarnado. Honrar o Coração humano de Jesus Cristo, amar o Coração vivo do Verbo encarnado, capacita-nos a imitá-lo no amor ao Pai, a nós mesmos e aos outros. Isso frustra o plano do diabo de nos afastar de nosso Criador com dúvidas de que Deus é impessoal e desinteressado. Nosso coração, unido ao Coração de Cristo, torna-se uma fortaleza impenetrável. E os demônios até podem cercar a fortaleza, mas não podem entrar nela.

2. Sagrado Coração: Eucarístico. — Entramos no drama épico da maior história de amor de todos os tempos através da comunhão com Jesus na Eucaristia. Como os discípulos no caminho de Emaús, reconhecemos Jesus ao partir o pão. Reacender o “espanto” eucarístico é um termo que o Papa João Paulo II usou em sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Este espanto do coração humano acende o fogo do amor divino dentro de nós. Os demônios desprezam o Anfitrião humilde. De acordo com os santos, os demônios temem os discípulos que vivem uma vida eucarística intencional. O Sagrado Coração é o vaso de onde flui o precioso Sangue que salva vidas. O diabo trabalha incansavelmente para nos manter longe da Sagrada Comunhão. Para consternação dos demônios, que vivem amaldiçoando, a vida eucarística forma uma vestimenta de louvor que abençoa.

3. Sagrado Coração: Revelação. — Jesus Cristo encarnado revela o rosto e o coração de nosso Pai celestial. Precisamos desesperadamente dessa revelação da verdade para saber quem somos: filhos de Deus. Quando aceitamos a revelação de Jesus Cristo, conhecemos nossa dignidade e destino. Isso nos fundamenta na verdade para que, quando o Mentiroso, o Enganador e o Ladrão nos atacar, permaneçamos firmes na revelação da misericórdia de Deus. A devoção ao Sagrado Coração nos ajuda a lembrar a Revelação: o Evangelho do amor. O diabo planeja metodicamente como nos dispersar da Revelação e de sua relevância. Quando o diabo nos tenta para que duvidemos da existência de Deus, ou insinua que Ele é mau ou perverso, podemos voar para a proteção do Sagrado Coração, recordando a revelação do amor divino. Saber quem Deus diz que eu sou me fortalece para resistir às mentiras do diabo.

4. Sagrado Coração: Palavra. — O Papa Bento XVI nos recordou: “Nunca devemos esquecer que toda espiritualidade cristã autêntica e viva se baseia na Palavra de Deus proclamada, aceita, celebrada e meditada na Igreja” (Verbum Domini, n. 121). Desde o início, a Palavra é amor. A criação da humanidade é deliberadamente orquestrada para atrair todas as coisas a Deus, no qual está a satisfação de todos os desejos. Nas Escrituras, lemos sobre a vida de Cristo na terra; seus muitos encontros humanos onde o amor se manifestou. Seu Coração é tocado, Ele chora, cura, serve, dorme, come, reza — Ele entende homens e mulheres. Isso vai contra o demônio, que procura extinguir de nossa consciência a dignidade que nos foi dada por Deus. A Palavra tem um coração de amor infinito, voltado para você e para mim. O diabo odeia essa realidade porque ele vive na solidão e alheio ao amor.

5. Sagrado Coração: Altar de sacrifício. — O Sagrado Coração é um coração para os outros. O Pe. Simon Tugwell, OP, ensina: “A liturgia fielmente celebrada deve ser um itinerário de longo prazo na expansão do coração; torna-nos cada vez mais capazes da totalidade do amor que há no Coração de Cristo”. O sacrifício perfeito do amor de Cristo é perpetuado no altar. Essa é também a proclamação de sua vitória sobre o mal. O diabo, orgulho em pessoa, é desfeito pela humildade de Cristo no altar do sacrifício. Ame sacrifícios; Ele deu sua própria vida. O Sagrado Coração irradia amor que se dirige ao outro: os pobres, esquecidos, doentes e enlutados. Seu Coração morre e ressuscita por nossa causa. Orgulhosos e rancorosos, os demônios invejam o poder de Cristo para salvar por meio do amor sacrificial. Sempre que amamos com sacrifício, nossa armadura espiritual é fortalecida.

6. Sagrado Coração: Reparação. — “A verdadeira devoção ao Sagrado Coração depende de uma compreensão adequada da reparação, um antigo termo teológico que remete à correção, expiação, salvação e redenção”, explica o Pe. Kubicki. Em seu livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Bento XVI escreveu: “Deus não pode pura e simplesmente ignorar toda a desobediência dos homens, todo o mal da história, não pode tratá-lo como algo irrelevante e insignificante. Uma tal espécie de ‘misericórdia’, de ‘perdão incondicionado’, seria aquela ‘graça a baixo preço’ contra a qual se pronunciou com razão Dietrich Bonhoeffer, diante do abismo do mal do seu tempo”. Cristo pagou a dívida dos pecadores. Mas o pecado continua. Nós, que cremos, podemos nos unir à reparação de Cristo e oferecer nossos sofrimentos e sacrifícios para ajudar a reparar. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos ajuda a entrar no amor reparador de Cristo. Assim, marcamos território, subtraindo do diabo as tantas almas que ele levaria para o abismo.

7. Sagrado Coração: união com o Imaculado Coração. — A Igreja celebra a festa do Sagrado Coração na sexta-feira e a festa do Imaculado Coração no sábado para nos recordar a unidade que há entre elas. Jesus Cristo e sua Mãe Maria estão unidos na vontade do Pai e não podem ser separados. A devoção e a consagração ao Sagrado Coração de Jesus complementam espiritualmente a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Essa união sagrada constitui uma fonte de proteção contra os espíritos malignos. Entre o Sagrado Coração Eucarístico e o Coração virginal e Imaculado, há um espaço reservado para você e para mim, onde nenhum espírito maligno ousa entrar. Permaneçamos sob a proteção amorosa dessa união entre o Sagrado e o Imaculado Coração, onde estamos seguros enquanto caminhamos no vale da morte e do mal.

Essa devoção traz muitos frutos espirituais porque, como escreveu o Papa Bento XVI: “Nosso Deus não é um Deus remoto intangível em sua bem-aventurança. Nosso Deus tem um coração”. E o seu coração? A quem ele pertence?

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Junho, o mês dos irmãos
Santos & Mártires

Junho, o mês dos irmãos

Junho, o mês dos irmãos

“Esta é a verdadeira fraternidade: pela efusão do próprio sangue eles seguiram a Cristo”. Junho pode ser considerado “o mês dos irmãos”, pois nele encontramos um quarteto de mártires fraternos que conquistaram juntos a vida eterna.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos mais belos aspectos da liturgia romana tradicional é o rico calendário de santos que ela nos põe diante dos olhos, ano após ano. 

O calendário do moderno rito papal de Paulo VI, de 1969, removeu mais de 300 santos; ao mesmo tempo, reorientou a celebração da primeira parte da Missa em uma marcha mais regimentada através da Escritura, tornando opcional o uso dos “próprios” que se referiam aos santos. O resultado é uma liturgia que parece muito mais distante e separada do culto aos santos e de seus traços particulares, sem qualquer compensação de nos sentirmos mais próximos e ligados à adoração de Cristo, que é o Rei deles. 

Num paradoxo formidável, a intensa veneração que os santos recebem na Missa em latim — especialmente Nossa Senhora, mencionada dez ou onze vezes, em comparação com as menções no rito de Paulo VI, que vão de uma a quatro — realça de alguma forma a dignidade sublime do Filho de Deus, cuja face os santos contemplam e do qual todos eles são imagem, como heliotrópios seguindo o curso do Sol. O culto aos santos, longe de diminuir o senhorio de Cristo, manifesta antes o seu poder e extensão. Ele é muito maior quando vemos a grandeza da corte que o circunda

Há então, de tempos em tempos, “agrupamentos” especiais dentro da grande companhia dos santos, que encontramos organizados no calendário tradicional pelas misteriosas disposições da divina Providência. Um exemplo é o que eu gosto de chamar “o mês dos irmãos”, junho, onde encontramos um quarteto de irmãos de sangue que conquistaram juntos a vida eterna

Em 9 de junho, celebramos as festas dos santos Primo e Feliciano, assim descritos no Martirológio Romano

Em Nomento, na Sabina, o natalício dos santos Mártires Primo e Feliciano, irmãos, em tempo dos Imperadores Diocleciano e Maximiano. Estes gloriosos Mártires, já avançados em anos passados no serviço do Senhor, depois de suportarem, ora juntos, tormentos iguais e comuns, ora separados um do outro, tormentos diversos e esquisitos, finalmente mortos ambos à espada, por ordem de Promoto, Presidente de Nomento, consumaram o curso de sua feliz peleja; os seus corpos transladados mais tarde para Roma, foram colocados honorificamente na Igreja de santo Estêvão Protomártir, no Monte Célio.

Em 18 de junho, a festa de Santo Efrém, o Sírio, acompanha a comemoração dos santos Marcos e Marceliano, sobre os quais diz o mesmo Martirológio

Em Roma, na estrada Ardeatina, o natalício dos santos Mártires Marcos e Marceliano, irmãos, aos quais, presos e atados a um tronco, por ordem do juiz Fabiano, foram fincados nos pés agudos pregos; mas como não cessassem de louvar a Cristo, foram traspassados com lanças pelos lados, e com a glória do martírio, passaram aos reinos celestiais. 

Se for rezada a Missa para esses irmãos — embora o mais usual seja dizer a Missa de Santo Efrém, que foi adicionada ao calendário mais tarde —, este texto especial de Alleluia é recitado ou cantado: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae numquam pótuit violári certámine: qui, effúso sánguine, secúti sunt Dóminum. Allelúia, “Aleluia, aleluia. Esta é a verdadeira fraternidade, que a espada jamais pôde violar: foi pela efusão do próprio sangue que eles seguiram a Cristo. Aleluia”.

Em 19 de junho, festa de Santa Juliana Falconieri, comemoram-se os santos Gervásio e Protásio: 

Em Milão, os santos Mártires Gervásio e Protásio, irmãos, ao primeiro dos quais tanto tempo o Juiz Astásio mandou açoitar com látegos chumbados, que exalou o último suspiro; ao segundo, depois de espancá-lo com paus, mandou cortar a cabeça. Os corpos destes santos foram encontrados por santo Ambrósio, por divina revelação, banhados no próprio sangue e tão incorruptos como se tivessem sido mortos no mesmo dia; em cuja transladação, um cego, tocando o féretro, recobrou a vista, e muitos, vexados dos demônios, ficaram livres.

Por fim, cai no dia 26 de junho a memória dos santos João e Paulo, aos quais a devoção em Roma era tão forte, que seus nomes se acham no Cânon Romano. O Martirológio nos dá a respeito deles este breve relato: 

Em Roma, no monte Célio, os santos Mártires João e Paulo, irmãos, o primeiro dos quais era mordomo-mor e o segundo primicério de Constância Virgem, filha do Imperador Constantino, e ambos mais tarde, em tempo de Juliano Apóstata, foram mortos à espada e receberam a palma do martírio.

De modo notável, a Coleta desta última festa define uma nova forma de “fraternidade de sangue” que é alcançada pela fé em Cristo, o qual derramou o seu sangue por nós, e pelo derramamento do próprio sangue por Ele: 

Quáesumus, omnípotens Deus: ut nos gemináta laetítia hodiérnae festivitátis excípiat, quae de beatórum Joánnis et Pauli glorificatióne procédit; quos éadem fides et pássio vere fecit esse germános. Per Dóminum nostrum..., “Nós vos pedimos, ó Deus onipotente, que neste dia de festa sintamos a dupla alegria do triunfo dos bem-aventurados Paulo e João, os quais irmanou de verdade a mesma fé e martírio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo…”.
“Martírio dos Santos João e Paulo”, de Guercino.

O Gradual da Missa é tomada do Salmo 132: Ecce quam bonum, et quam iucúndum, habitáre fratres in unum, “Vede como é belo e agradável a vida harmoniosa entre irmãos”, e o Alleluia repete o de 9 de junho, em continuidade e complemento à ideia da Coleta: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae vicit mundi crímina: Christum secúta est, ínclyta tenens regna caeléstia. Allelúia, “Esta é a fraternidade verdadeira, que venceu o mundo, seguiu a Cristo e reina agora venturosa na glória do paraíso. Aleluia”.

Uma ironia final deve ser mencionada: muitos dos santos removidos por Paulo VI são santos que nós, católicos romanos, veneramos em comum com os cristãos ortodoxos do Oriente. É o caso de três desses pares de irmãos juninos: Marcos e Marceliano (cuja festa no calendário oriental é em 18 de dezembro), Gervásio e Protásio (celebrados pelo Oriente em 14 de outubro) e João e Paulo (observados no mesmo dia). Um dos mais danosos legados da reforma litúrgica foi, por um lado, o enxerto de elementos “bizantinizantes” estranhos no rito romano e, por outro, o expurgo de elementos genuinamente comuns que sempre estiveram presentes — um golpe tanto contra a fidelidade ao tipo quanto contra a fraternidade eclesiástica.

Haec est vera fraternitas: essa é a verdadeira fraternidade que une os mártires, que une todos os cristãos nos vínculos da fé e do sofrimento, onde quer que eles estejam, seja qual for seu status ou estado de vida. Em uma inversão da lógica do mundo, segundo a qual o sangue é mais espesso do que a água, a religião cristã nos mostra que a água é mais espessa que o sangue: a irmandade espiritual inaugurada pelo Batismo nos une mais profunda e eternamente que os laços da geração biológica e da cultura familiar. Na verdade, é precisamente o Batismo cristão de ambos os cônjuges que faz o seu amor humano natural e o seu ato de geração serem elevados ao nível da caridade e da fecundidade sobrenaturais no sacramento do Matrimônio, e é esse mesmo Batismo, vivido, que torna a família uma imagem da vida que têm em comum os santos no Céu.

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A obra-prima do Artista divino
Espiritualidade

A obra-prima do Artista divino

A obra-prima do Artista divino

Ao contrário dos escultores humanos, Deus não trabalha com matéria morta. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. O divino Artista nos deu a liberdade de corresponder (ou não) aos golpes de seu cinzel e ao suave toque de seus dedos.

Elizabeth A. MitchellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Dizem que Michelangelo era capaz de ver as figuras que ele esculpia através dos rudes blocos de mármore. Seu trabalho como escultor consistia em libertar a obra de arte da pedra e fazer a imagem vir à tona. Em correspondência praticamente perfeita com o arquétipo na mente de Michelangelo, sua imagem de Nossa Senhora da Piedade (a Pietà), dolente, silenciosa e amorosamente abandonada à Paixão de Nosso Senhor, irradia o poder de uma obra-prima.

O mesmo se dá com as imagens vivas trabalhadas pelo Artista divino.

O Senhor vê através de cada um de nós sua própria esperança pelo cumprimento perfeito de tudo o que Ele nos criou para ser. Para cada ser humano, há um arquétipo divino dentro do coração de Deus. Nós nos tornamos, em maior ou menor medida, a pessoa que Ele nos chamou a ser, e quando correspondemos mais de perto a seu perfeito ideal para nossas vidas, também nos tornamos uma obra de arte.

E há, todavia, uma diferença. Deus, o divino Artesão, não trabalha com matéria inanimada. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. Nosso Senhor infundiu em nós o seu Espírito Santo, deu-nos a liberdade de corresponder (ou não) a seus golpes artísticos. O gênio amoroso de nosso divino Artesão é que Ele trabalha com matéria viva, que respira e possui livre-arbítrio.

Santa Edith Stein trata desta colaboração entre o Artista divino e sua obra de arte viva no poema espiritual I Am Always in Your Midst [“Eu estou sempre em vosso meio”]:

O eterno Artesão… não mexe com matéria morta;
Na verdade, a sua maior alegria criativa é
Que, debaixo de sua mão, a imagem mexe,
Que a vida, para encontrá-lo, se derrama.
A vida que ele próprio colocou dentro dela
E que agora desde dentro lhe responde
Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo.
Assim ajudamos Deus em sua obra de arte [1].

“Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo”. Nós sabemos os momentos em que o Mestre Artesão nos molda com seu martelo. Já sentimos a natureza dura e contundente dos golpes. Quantas vezes não nos desviamos para evitar sua mira precisa e perfeita! E, então, o seu dedo acaricia. O fino acabamento é acrescentado imperceptivelmente com o menor e mais suave de seus pincéis.

O resultado desta colaboração é o esplendor da alma humana trazida para perto da beleza divina por meio da graça, imagens vivas que declaram o divino Amor ao qual corresponderam, ultrapassando até mesmo as mais impressionantes obras de arte materiais. E nós todos reconhecemos uma tal obra-prima, quando a encontramos.

As imagens vivas que encontrou ao longo de sua conversão chamaram Santa Edith Stein a refletir sobre a origem delas. Em Frankfurt, enquanto pretendia visitar os museus e a catedral, ela se viu paralisada diante de uma mulher que havia simplesmente se ajoelhado para rezar: 

Nós paramos na catedral por alguns minutos e, enquanto olhávamos ao redor com respeitoso silêncio, uma mulher carregando uma cesta de mercado apareceu e se ajoelhou em um dos bancos para rezar rapidamente. Aquilo foi algo inteiramente novo para mim… Jamais pude esquecer isso.

Essa modesta mulher não ficaria sabendo jamais do impacto profundo que seu ato de fé diário teria sobre uma grande mente filosófica à procura da verdade. Não foi um argumento teológico que convenceu Edith Stein da pessoa de Cristo, mas a conversa que ela testemunhou entre uma dona de casa e o seu Senhor.

Antes de entrar na vida religiosa, Edith Stein; antes de entrar na vida definitiva, Santa Teresa Benedita da Cruz.

Mais tarde, a própria Edith Stein se tornaria uma imagem viva, em sua disposição de sofrer o martírio no campo de concentração em Auschwitz. Durante suas horas finais, ela confortava as crianças cujas mães, perturbadas, não conseguiam lhes dar os cuidados convenientes. Conta-se, de fato, que em seus atos de amor e misericórdia ela parecia “uma Pietà viva”, ao carregar aquelas crianças sofridas nos braços, no lugar de Cristo. Com isso, ela dava testemunho pleno de sua fé no Senhor ao qual havia entregado a própria vida.

Nossa Senhora mesma, devotada tão profundamente ao Espírito Santo, viveu como uma obra-prima da Vontade Sacratíssima do Senhor em cada momento de sua vida. Seu Coração sempre foi um com o divino Coração. Sob o seu Imaculado Coração, o Coração divino tomou a carne de um coração humano. Assim, onde quer que estivesse Nossa Senhora, ali a vontade perfeita do Senhor para sua vida se fazia manifesta. Sua entrega fiel e de fé traz os nossos corações ao Coração de seu divino Filho, dispondo-nos a abraçar com total confiança o melhor e mais santo plano de Amor do Pai.

A força de uma tal obra-prima exige uma resposta à altura. Não podemos parar diante do vidro do museu, admirar a imagem e continuar nosso caminho. Precisamos ser mudados interiormente. Escreve Edith Stein: 

Dificilmente haverá um artista que, crendo, não tenha se sentido compelido a retratar Cristo na cruz ou carregando a cruz. Mas o Crucificado exige do artista mais que uma mera representação de sua imagem. Ele exige que o artista, assim como qualquer outra pessoa, o siga: que ele, ao mesmo tempo, se transforme e permita a si mesmo ser transformado numa imagem daquele que carrega a cruz e é crucificado.

Quando nós re-criamos dentro de nossas próprias vidas a verdade e a beleza que a imagem revelou, nós refletimos uma vez mais o majestoso esplendor da magnífica arte de Nosso Senhor. O próprio Cristo mostrou o caminho. Oferecendo a si mesmo aos golpes de martelo do guarda romano no monte Calvário, sua imolação se torna a nossa Redenção. A lança do centurião perfura-lhe o lado, do qual sangue e água jorram como sinal de purificação e da vida de seu Coração glorioso e trespassado, sempre pronto a acolher-nos.

Através dele nós vislumbramos o caminho perfeito. Com Ele, respondemos ao seu chamado, adorando, louvando e correspondendo à graça de sua Santa Cruz, a obra-prima de amor por meio da qual Ele redimiu o mundo.

Notas

  1. The eternal Artist… does not work on dead material; / His greatest creative joy in fact is / That under his hand the image stirs, / That life pours forth to meet him. / The life that he himself has placed within it / And that now answers him from within / To chisel blows or quiet finger stroke. / So we collaborate with God on his work of art. A tradução que fizemos foi feita a partir da versão inglesa do poema.

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Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja
Santos & Mártires

Religiosa morta em
sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Morta por ódio à fé, a religiosa italiana Maria Laura Mainetti teve seu martírio reconhecido pela Igreja. Ela foi vítima de “três meninas influenciadas por uma seita satânica”. As três haviam recebido aulas de catequese da irmã, quando mais novas.

Carol GlatzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Uma religiosa brutalmente esfaqueada em um sacrifício satânico foi beatificada como mártir no dia 6 de junho, na cidade do norte da Itália na qual ela servia.

O Papa Francisco exaltou a beatificação da irmã Maria Laura Mainetti, 60 anos, membro da Congregação das Filhas da Cruz, depois de rezar o Angelus no mesmo dia com peregrinos reunidos na Praça de São Pedro:  

[Ela foi] assassinada há vinte e um anos por três meninas influenciadas por uma seita satânica. Que crueldade! Precisamente ela, que amava os jovens mais do que qualquer outra coisa, e que amou e perdoou aquelas mesmas meninas, prisioneiras do mal. A irmã Maria Laura deixa-nos o seu programa de vida: “Fazer cada pequena coisa com fé, amor e entusiasmo”.

A cerimônia de beatificação aconteceu em Chiavenna, na diocese de Como, onde a irmã serviu como professora, catequista e líder de sua comunidade religiosa.

A irmã Maria Laura Mainetti, agora beata.

O Cardeal Marcello Semeraro, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia de beatificação e a Missa. No altar havia um relicário contendo uma pedra manchada com o sangue da beata; o material foi encontrado no lugar de seu assassinato. 

O Cardeal disse que a religiosa pediu a Deus a graça da “verdadeira caridade”, que significa amar a Deus mais que a si mesmo e ao próximo como a si mesmo.

Nascida em 20 de agosto de 1939, perto de Milão, ela sentiu o chamado à vocação religiosa depois que um padre lhe disse: “Tu deves fazer algo de belo pelos outros”.

Ela começou a dar aulas em 1960, em escolas elementares cuidadas por sua congregação, em diferentes cidades da Itália. Dedicou sua vida a prestar auxílio a pessoas marginalizadas, como dependentes químicos, delinquentes juvenis, miseráveis e prostitutas.

As assassinas da irmã Maria Laura foram três garotas que tiveram aulas de catequese com ela quando mais novas. De acordo com o depoimento que deram ao tribunal, as adolescentes — uma com 16 e duas com 17 anos — queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás e escolheram a irmã, ao invés do pároco, por ela ser franzina e mais fácil de atacar.

As três haviam planejado esfaquear a religiosa seis vezes para indicar o número bíblico da Besta, em 6 de junho de 2000, o sexto dia do sexto mês do ano.

Quando a atacaram e capturaram, a religiosa rezou pelas garotas, pedindo a Deus que as perdoasse

As jovens mulheres foram condenadas por homicídio, mas receberam sentenças reduzidas pois o tribunal determinou a sua insanidade parcial à época do crime. Liberadas da prisão, elas receberam novas identidades, passando a viver em cidades diferentes da Itália.

Em junho de 2020, o Papa reconheceu o martírio da irmã Maria Laura Mainetti, por ela sua morte in odium fidei, isto é, “por ódio à fé”. Agora, a canonização da religiosa depende do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão.


[Comentário de nossa equipe: Por que “as adolescentes queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás”? Porque queriam ajuntar ao crime de homicídio um pecado de sacrilégio. Pode ser que, aos olhos da Justiça secular, essa distinção tenha pouca importância. Mas, para as pessoas envolvidas com o mundo das trevas, ela faz toda a diferença: é um fato que realmente aumenta a gravidade da falta cometida. 

É por essa mesma razão que o furto das espécies eucarísticas consagradas não é um roubo qualquer; que a ofensa feita a um sacerdote é mais grave que a feita a um simples leigo etc. O que é santo, ou o que foi separado para o culto a Deus, tem maior valor. E o que o demônio puder fazer para “manchar” a obra de Deus, profanando as coisas (ou, no caso, as pessoas) consagradas a Ele, ele fará, como se pode ver.

O que deixa os anjos maus sem dúvida ainda mais revoltados, é que até mesmo os atos pecaminosos que eles incitam, no entanto, terminam redundando na glória de Deus e dos seus santos. Foi justamente o caso desta religiosa, agora beatificada pela Igreja. A brutalidade de que ela foi vítima, o perdão que concedeu a seus algozes na hora da morte, o sacrifício que ela, em seu coração, ofereceu a Deus — enquanto suas assassinas pensavam estar favorecendo o reino de Satanás… Tudo não passou de instrumentos nas mãos da divina Providência.

Para saber mais a respeito da ação dos anjos bons e maus, não se esqueça do curso que Pe. Paulo Ricardo está preparando justamente sobre esse assunto: “Anjos e Demônios”.]

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