No dia 31 de maio de 1946, o então Cardeal Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, consagrava o Brasil ao Imaculado Coração de Maria.

Mas o que significou esse ato na época e o que ele significa para nós hoje? 

Em primeiro lugar, vale lembrar que não só o Brasil, mas também Portugal, ao qual estivemos ligados até 1822, sempre estiveram cobertos pelo manto materno de Nossa Senhora. 

Herança de Portugal

A começar pelo fato de que, muito antes de se firmar como nação independente, uma parte significativa do território português já era denominado “Terra de Santa Maria”, por circundar o famoso Castelo de Santa Maria da Feira — um antigo templo pagão transformado, com as guerras da Reconquista, em centro católico mariano, ao redor do qual o povo se reunia em feiras livres.

Estátua de D. Afonso Henriques no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, Portugal.

Foi nesses arredores que Dom Afonso Henriques se armou cavaleiro e começou a travar as batalhas que o levariam a proclamar-se pela primeira vez, em 1140, Rei de Portugal. Depois da vitória no Cerco de Lisboa, uma Missa pontifical de ação de graças a Nossa Senhora da Conceição inauguraria o reino recém-nascido (e a conquista seria confirmada em 1179 pela Bula Manifestis Probatum, do Papa Alexandre III).

Quando a dinastia afonsina entrou em crise sucessória no século XIV e, depois da Batalha de Aljubarrota, de 1385, começou a reinar em Portugal a dinastia de Avis (com a qual começaram as Grandes Navegações) o condestável São Nuno de Santa Maria (canonizado em 2009 pelo Papa Bento XVI) mandou construir em Vila Viçosa um templo dedicado a Nossa Senhora da Conceição

Quando Portugal voltou a ser independente, em 1640 — depois de 60 longos anos sob domínio espanhol —, quem assumiu o trono foi a Casa de Bragança. Seu primeiro chefe, Dom João IV, “o Restaurador”, jurou e proclamou solenemente Nossa Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos (o que incluía, na época, o Brasil). 

Na provisão régia — confirmada depois pelo próprio Papa —, o monarca prometeu “confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”. Depois, num ato profundamente simbólico, coroou a imagem da Virgem da Conceição, na mesma igreja de Vila Viçosa, e desde então os reis de Portugal nunca mais colocariam a coroa real em sua cabeça, como forma de reconhecer na Virgem Maria a única verdadeira soberana de todo o reino lusitano.

Era tão grande a fé lusitana na Imaculada Conceição que os acadêmicos da Universidade de Coimbra juravam solenemente defender este privilégio de Nossa Senhora, muito antes de ele ser proclamado dogma em 1854.

Imaculada Conceição e “Aparecida”

Nem é preciso dizer o quanto essa devoção se tornou cara também ao povo brasileiro, principalmente com a pesca milagrosa de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição no rio Paraíba, em 1717. Daí nasceu o culto à Virgem Aparecida

Em 1822, na viagem que fez antes de proclamar a Independência, Dom Pedro I passou por Guaratinguetá, aí visitou a capela de Nossa Senhora Aparecida e, segundo as crônicas da viagem, teria prometido fazê-la padroeira do território brasileiro independente. 

Mas o primeiro patronato de nossa nação coube, na verdade, a São Pedro de Alcântara, de quem nosso imperador tinha ganhado o nome, e a dedicação oficial à Virgem da Conceição Aparecida só aconteceria depois de proclamada a república, no início do século XX.

A princesa Isabel, no entanto, ao perceber já em 1888 que não se sentaria no trono imperial brasileiro, teria feito em peregrinação ao santuário de Aparecida uma oferta de grande significado: sua coroa, acompanhada de um bilhete. “Eu, diante de vós, sou uma princesa da terra e me curvo, pois sois a Rainha do céu — dizia ela — e vos dou tão pobre presente, que é uma coroa que seria igual à minha; se eu não me sentar no trono do Brasil, rogo que a Senhora se sente nele por mim e governe perpetuamente o Brasil”.

Efetivamente, no dia 8 de setembro de 1904 — durante o pontificado de São Pio X e por um decreto dele —, Nossa Senhora Aparecida foi coroada como “Rainha do Brasil”; e em 16 de julho de 1930, por fim, confirmou-se oficialmente seu patrocínio sobre o Brasil. 

A consagração de 31 de maio

Mas era preciso mais. Por isso, à luz do que fizera em 1942 o Papa Pio XII, consagrando o mundo ao Imaculado Coração de Maria, o então Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, quis repetir o mesmo ato em favor do Brasil, consagrando especialmente a nossa nação

Ora, quem consagra, torna algo sagrado, separa para Deus alguma coisa (em termos bem simples). Foi justamente o que quiseram fazer, e de fato fizeram, em 31 de maio de 1946, os bispos do Brasil, reunidos no Rio de Janeiro para a semana da Ação Católica. Eis a fórmula que eles utilizaram na ocasião

Ó Maria, Virgem amorosíssima e nossa Mãe, lançai um olhar benigno sobre o povo desta Nação, humilde parte da vossa grande família, que hoje se consagra ao Vosso Coração Imaculado. A isto nos move não só o nosso filial afeto para convosco, mas também a necessidade que sentimos de uma assistência vossa mais especial, nestes calamitosos tempos.

Vede, ó Maria, como se procura extinguir a fé em nossos corações com o gelo do indiferentismo e da incredulidade. Vós, que sois a Sede da Sabedoria, preservai-nos a todos da vã ciência do século, e conservai-nos inabaláveis na fé santíssima de Vosso Filho.

Vede as ciladas que em toda parte se armam aos bons costumes, contaminando todas as coisas com o mais desenfreado sensualismo. Purificai, ó Virgem Imaculada, de tantas impurezas a Terra; ou ao menos, conservai limpas as nossas famílias.

Vede como se tenta convulsionar a sociedade e lançá-la no torvelinho da rebelião contra toda a lei e autoridade.

Conservai, portanto, ó augusta Rainha nossa, entre as classes do vosso povo a ordem por Deus estabelecida, e não permitais que os conselhos dos ímpios prevaleçam. Finalmente, tende misericórdia da Igreja, ó Auxílio dos Cristãos; tende piedade do seu venerando Chefe; e apressai o momento em que a humanidade inteira seja um só rebanho sob um só Pastor.

Aceitai, pois, ó boa Mãe, a consagração que este povo faz hoje de si mesmo ao Vosso Coração materno; e, como prova de vosso benigno acolhimento, fazei que todos sintam a vossa proteção na vida e na morte. Assim seja.

Uma breve digressão sobre o dia 31 de maio. No calendário litúrgico antigo, era neste dia a festa de Nossa Senhora Rainha (instituída pelo Papa Pio XII). Pouco tempo depois, durante a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, essa celebração acabou transferida para a oitava da Assunção, isto é, o dia 22 de agosto, em que permanece até hoje. A ideia dos reformadores era deixar mais claro o nexo entre a realeza da Santíssima Virgem e a sua gloriosa assunção aos céus, de corpo e alma. 31 de maio continua a ser uma data mariana, mas agora se lembra nela a Visitação (de que antes se fazia lembrança no dia 2 de julho): adiantou-se a celebração deste acontecimento a fim de que, inserido entre a Anunciação (25 de março) e a Natividade de São João Batista (24 de junho), os eventos fossem ordenados no calendário assim como estão dispostos no Evangelho.

Mas voltemos à consagração. Ao ler a bela oração que se usou naquela oportunidade, podemos nos perguntar quais teriam sido os seus efeitos concretos em nossa nação, se de 1946 até aqui pouca melhora (se é que houve alguma) parece ter havido no Brasil em termos culturais e espirituais. 

A resposta está no fato de que consagrações assim não são atos mágicos. Como explicou Dom Athanasius Schneider ao falar da consagração da Rússia ao Imaculado Coração:

[Seu] efeito [...] não deve ser entendido como se fosse um sacramento, cujo efeito provém de sua celebração válida (ex opere operato). Um ato de consagração, teologicamente falando, é um sacramental (sacramentale), cujo efeito depende principalmente da oração impetratória da Igreja (ex opere operantis Ecclesiæ). A teologia católica especifica que os sacramentais (sacramentalia) não produzem a graça, mas são uma preparação para ela. Um ato de consagração não tem um efeito automático, imediato e espetacular ou sensacional. Deus, na sua soberana, sábia e misteriosa Providência, reserva a si o direito de determinar o tempo e o modo de realizar os efeitos de uma consagração.

Para uma reflexão mais detalhada do texto da consagração acima; e de como podemos viver efetivamente não só esta consagração, mas também o nosso Batismo (que é a primeira consagração de cada um de nós a Deus) e a nossa consagração a Nossa Senhora (que muitos fizemos seguindo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort), recomendamos a todos assistir à seguinte aula, que Padre Paulo Ricardo gravou por ocasião do 75.º aniversário da consagração do Brasil ao Imaculado Coração:

Aproveitemos a ocasião deste aniversário e consagremos à Jesus e sua divina Mãe, uma vez mais, a nós mesmos e a tudo que nos pertence.