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A guerra que não podemos perder de vista
Espiritualidade

A guerra
que não podemos perder de vista

A guerra que não podemos perder de vista

Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada. Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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Se procurarmos na literatura cristã motivos para rezar e fazer jejum, não nos faltarão explicações, e uma melhor do que a outra. Mas a simplicidade com que Santo Tomás de Aquino trata do tema é incomparável.

Comentando o nono mandamento, o Aquinate ensina alguns meios de combater a concupiscência, contra a qual ele adverte ser importante “trabalhar muito”, já que estamos falando de um “inimigo familiar, que está dentro de nós”. E um desses meios é justamente a perseverança na oração. Ele explica:

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Estão aqui resumidos todos os tratados de teologia ascética e mística. Há dentro de nós uma batalha sendo travada, e é preciso jejuar (trabalho negativo) e rezar (trabalho positivo) para enfraquecer a carne e fortalecer o espírito, respectivamente.

Agora, atenção, porque o espírito de que fala Santo Tomás não é simplesmente a alma humana, mas, sim, o lugar onde Deus habita em nosso coração. Trata-se mais propriamente da graça, da vida divina e sobrenatural em nós. O que está em jogo nessa “luta constante” de que fala o Doutor Angélico, portanto, é nada menos do que o nosso estado de graça e a nossa salvação eterna, que se encontram o tempo todo ameaçados pelo drama do pecado e do afastamento de Deus. Não estamos falando de uma batalha qualquer, mas de um duelo de vida e morte (mors et vita duello), graça e desgraça, céu e inferno. 

Mas a pergunta que precisa ser feita é: ainda cremos nisso? Ainda temos fé nessas coisas que foram cridas pelos católicos de outros tempos e lugares, a ponto de muitos deles derramarem o próprio sangue só para não as negarem?

A questão é importante porque há uma doutrina errônea sendo propagada, infelizmente já absorvida por muitos católicos, segundo a qual uma bondade meramente teórica e natural basta para nos salvarmos. Essa ideia está “no ar”: é visível no desleixo com que tratamos os sacramentos, em especial a Eucaristia; na indiferença com que falamos da nossa religião, como se fossem todas iguais; e no modo laxo com que tantos, dentro da Igreja, falam de pecado e salvação. 

É como se a batalha de que falam o Doutor Angélico, todos os santos e o próprio Santo dos santos (cf. Mt 26, 41: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca”) fosse apenas uma metáfora, um “pano de fundo” geral para entendermos que é preciso ser bom e honesto, mas em linhas gerais, e não em todas as particularidades do que exigem os Mandamentos. (Para as nossas faltas, poderíamos contar com uma abstrata “misericórdia” superna, que tudo aceita, que tudo tolera, que tudo desculpa. Mesmo se não estivermos arrependidos dos nossos pecados. Mesmo se houvermos feito deles um projeto de vida. O céu não tem “alfândega” nem “controle de imigração” e o inferno… ah! “o inferno está vazio”.)

Nessa matéria, o correto seria dar ouvido àquilo que a Igreja sempre ensinou, porque é isso o que Jesus deixou a ela em última instância, de modo que apartar-se da doutrina católica de sempre nada mais é do que afastar-se da verdade de Cristo, que liberta e salva. O correto, portanto, seria: 

  • voltarmos a falar de inferno, porque o Evangelho fala dele (cf. Mt 18, 9: “É melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena”; Mt 23, 33: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?”; Mt 25, 46: “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna”); e
  • lembrarmos que há pecados bem comuns que privam da vida eterna (cf. 1Cor 6, 9: “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus”); 
  • que as pessoas precisam se arrepender verdadeiramente dos seus pecados para ganhar de volta a graça perdida; 
  • que precisam se confessar a um sacerdote para receber o perdão de Deus; e 
  • que, se não quiserem fazer isso, não devem se aproximar da mesa da Comunhão (cf. 1Cor 11, 28: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice”).  

Se olharmos para as Escrituras, para a história da Igreja, para a sua prática ao longo dos séculos, para o que ensinaram o Concílio de Trento e, reiterando essa doutrina, também o Papa São João Paulo II, especialmente na encíclica Veritatis Splendor e na exortação Reconciliatio et Poenitentia, seremos capazes de observar um crescimento orgânico da doutrina cristã, um desenvolvimento que ao longo dos séculos foi deixando mais claro o que no Evangelho estava enunciado em algumas poucas sentenças. É a semente humilde que se transformou em árvore frondosa.

Mas hoje… onde se fala de pecado, de Confissão, de estado de graça e de inferno? Em muitos lugares, a bela árvore da verdadeira doutrina católica foi substituída por um espantalho. Daí os relativismos e as concessões, os “panos quentes” e até mesmo a promoção e exaltação do mal. Por essas e outras a “nova igreja” que colocaram no lugar da santa Igreja Católica não fala mais nem de oração nem de jejum. A sua batalha não é mais a batalha espiritual de que falam Santo Tomás e Nosso Senhor; o inimigo da vez não é o diabo, o mundo e a carne, mas a opressão do “sistema”, as queimadas e desmatamentos e o que quer que interesse às causas do momento.

Contra esses ares de mudança que sufocam a Igreja, o que está ao nosso alcance fazer é, em primeiro lugar, crer. E crer não em qualquer coisa, mas somente naquilo que sabemos ser a doutrina sólida e segura deixada por Cristo Nosso Senhor aos Apóstolos e seus sucessores. Entre essas coisas nas quais devemos crer está o praelium continuum, a luta incessante que travam nesta vida a nossa carne corrompida e o Espírito Santo de Deus em nós. Não nos deixemos seduzir por um discurso que declara guerra aos quatro cantos do mundo, mas que deixa intacto nosso egoísmo, e talvez até o afague um pouco, com uma mentirinha religiosa bem elaborada aqui e acolá. 

Não, o que Cristo ensinou há dois mil anos continua valendo para nós hoje. Continua sendo necessário, para a nossa salvação, entrar pela porta estreita, mortificar os nossos sentidos, resistir às tentações e rezar com afinco pela nossa fidelidade. Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada (cf. Mt 10, 34). Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, perdendo a graça de Deus, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

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Penitência, penitência, penitência!
Espiritualidade

Penitência, penitência, penitência!

Penitência, penitência, penitência!

O terceiro segredo de Fátima fala de um anjo “com uma espada de fogo na mão esquerda” e “apontando com a mão direita para a terra” enquanto clama: “Penitência, penitência, penitência!” Mas qual o verdadeiro significado dessa mensagem?

Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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O terceiro segredo de Fátima fala de um anjo “com uma espada de fogo na mão esquerda” e “apontando com a mão direita para a terra” enquanto clama: “Penitência, penitência, penitência!

Ao ouvir a palavra “penitência”, as primeiras coisas que talvez nos venham à mente são as Ave-Marias das nossas confissões e as privações voluntárias das nossas quaresmas. Os católicos de outros tempos certamente tinham uma consciência mais viva do significado dessa palavra: eles tinham as Têmporas, um jejum rigoroso ao longo de toda a Quaresma e, ao contrário das condescendências que tantas vezes nos permitimos, abstinham-se de carne fielmente todas as sextas-feiras. É muito provável que o alerta do anjo de Fátima estivesse antevendo justamente o clima geral de relaxamento em que nos encontramos. “Penitência, penitência, penitência”, ele bradou, com voz forte: porque nunca precisamos tanto e porque nunca fizemos tão pouca.

Mas qual o verdadeiro sentido dessa palavra, da qual estão cheias as próprias Escrituras? O que Nosso Senhor queria de seus discípulos quando pregou: “Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo” (Mt 4, 17)?

Santo Tomás de Aquino nos recorda que a penitência é, sobretudo, uma virtude (STh III 85, 1): 

Fazer penitência é doer-se de algo cometido anteriormente. [Ora…,] a dor ou a tristeza pode ser considerada de duas maneiras. Primeira, enquanto é uma paixão do apetite sensitivo. E sob este aspecto, a penitência não é uma virtude, mas uma paixão. Segunda, enquanto é um ato da vontade. Nesse caso, ela implica certa escolha. E se esta é feita de maneira reta, pressupõe que seja um ato de virtude. Diz Aristóteles que a virtude é “um hábito de escolher conforme a reta razão”. Pertence, porém, à reta razão que alguém se doa daquilo de que se deve doer. E isso acontece na penitência [...]. Pois o penitente assume uma dor moderada dos pecados passados, com a intenção de afastá-los. Daí se segue que é claro ser a penitência [...] uma virtude ou ato de virtude. 

Há, portanto, penitências e penitências, arrependimentos e arrependimentos. O que importa entender é que o ato de simplesmente sentir remorso por algo cometido não necessariamente leva ao arrependimento que Cristo pediu no Evangelho. Prova disso foi Judas Iscariotes: ele realmente “se arrependeu” de ter vendido Nosso Senhor por trinta moedas de prata. Mas, eis a pergunta decisiva, o que fez com esse remorso que sentiu? Deixou-se aterrorizar por ele, considerou que não havia perdão para si, desesperou-se e (de acordo com a tradição) acabou se condenando. São Pedro, por sua vez, embora tivesse se doído de haver negado três vezes a Nosso Senhor, não ficou doido por isso. A traição afetou-lhe as emoções, sim, mas não lhe roubou a razão.

Também nós podemos “sentir muito”, como se costuma dizer, pelas coisas que fizemos no passado. Mas, para que a nossa penitência seja virtude, é preciso mais do que um simples sentimento

Compreender isso é importante não só para levar bem a nossa vida espiritual e sacramental (para se confessar bem, por exemplo, também o arrependimento exigido é o da virtude, não o do sentimento), mas para lidar com nossas frustrações, relacionar-se bem com os outros e até mesmo educar os próprios filhos. O que fazer diante de uma palavra mal dita a alguém que se ama, ou de um olhar atravessado que recebemos? Como reparar um erro na faculdade ou no trabalho? Como corrigir o defeito de uma criança levada? Em todas essas situações (inevitáveis no curso da vida), sentimentos nunca são o bastante. Na verdade, eles não só são insuficientes, como podem nos conduzir, muitas vezes, para caminhos errados. Pois ora não sentimos nada pelo que deveríamos sentir, ora sentimos muito pelo que não nos deveria preocupar… Nossas emoções são como um cavalo agitado, que é preciso domar e conduzir com a razão e o auxílio da graça de Deus.

No caso da penitência, o Doutor Angélico lembra que pertence à reta razão “que alguém se doa daquilo de que se deve doer”. Pois bem, à luz da fé nós sabemos: muito mais do que desgostar as pessoas e cometer algum erro acadêmico ou profissional, o que mais nos deve doer nessa vida é nos afastarmos de Deus pelo pecado, sobretudo o mortal. A virtude da penitência nos ensina, bem concretamente, o que São Bento resumiu em sua Regra: “Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e daí por diante emendar-se delas” (c. 4). 

A expressão “todos os dias”, usada por esse santo patriarca, talvez nos confunda num primeiro momento. Lembrar-se diuturnamente dos próprios pecados não seria torturar-se, remoer o passado, correndo o risco até de criar um “complexo de culpa”? 

Tudo depende da forma como essa lembrança é feita, evidentemente. Também aqui a sabedoria do Aquinate vem em nosso auxílio; perguntando-se “se a penitência deve durar até o fim da vida”, ele reflete o seguinte (STh III 84, 8): 

Há dois tipos de penitência: uma interior e outra exterior. A penitência interior faz-nos chorar o pecado cometido. Esta penitência deve continuar até o fim da vida. O homem sempre deve desgostar-se de ter pecado, pois se se comprazesse de ter pecado, já por este simples fato pecaria e perderia o fruto do perdão. Este desgosto de ter pecado causa dor naquele que é sujeito à dor, como é o caso do homem nesta vida. — Depois desta vida, porém, os santos não são sujeitos à dor. Por isto, o desagrado deles em relação aos pecados passados se faz sem tristeza segundo o dito do profeta: “As angústias do passado serão esquecidas” (Is 65, 16).

O penitente, “se se comprazesse de ter pecado, já por este simples fato pecaria e perderia o fruto do perdão”. Isso significa que a lembrança do pecado deve acontecer de forma a não nos colocar em perigo próximo de pecar novamente. Vale lembrar aqui um princípio de teologia moral por muitos esquecido: 

O gozo por um pecado cometido renova o mesmo pecado com todas as suas circunstâncias individuais. A razão é porque supõe a aprovação de uma má ação tal como foi executada, ou seja, com todas as suas circunstâncias. Se o pecador se gabasse ante outras pessoas do pecado cometido, teria de acrescentar [em confissão] a circunstância de escândalo [...] (Pe. Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1. Madri: BAC, 1996, p. 256).
“Madalena penitente”, por Murillo.

A lembrança do pecado passado deve vir, portanto, sempre acompanhada da dor de ter ofendido a Deus e merecido o inferno. Não basta lembrar quia peccavi nimis (“que pequei muitas vezes”, como dizemos no Confiteor); é preciso também bater no peito, ou seja, é preciso que essa memória nos doa. Assim como doeu a São Pedro haver negado três vezes a Nosso Senhor, após o que ele “chorou amargamente” (Lc 22, 62). Assim como doeu às santas Marias de Magdala e do Egito lembrar-se de seus terríveis pecados de juventude. Assim como doeram aos santos Jerônimo e Agostinho, igualmente, suas vidas passadas em lugares não menos imundos. 

Há inúmeras obras de arte retratando todos esses santos penitentes em lágrimas, com o olhar fixo numa imagem de Jesus crucificado, muitas vezes usando um cilício, flagelando-se ou batendo no peito com uma pedra. E, embora nem todos sejamos chamados a imitar essas mesmas penitências exteriores, o ato da vontade com o qual detestamos o pecado cometido e não mais o queremos cometer no futuro deve existir sempre.

A virtude da penitência figura, nesse sentido, não apenas como um medicamento para a doença que temos, mas também como uma vacina para nos proteger de males futuros. Nossa oração de pecadores arrependidos é a mesma do salmista: “Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois se o tenho ao meu lado não vacilo” (Sl 15, 8).

Sim, o que nos preserva do pecado é a lembrança contínua de Deus, a consciência permanente de que Ele nos vê, nos ama e quer-nos consigo, um dia, no Céu. Lá, como Santo Tomás mesmo nos recorda, as angústias do passado serão esquecidas. Mas enquanto o dia da morte não chega, é tempo de penitência. “Penitência, penitência, penitência”, como bradou o Anjo de Fátima. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, como rezamos no início de toda Santa Missa. Só quem perseverar até o fim nessa atitude de reconhecimento da própria miséria e contínua humilhação diante do Deus três vezes santo, poderá salvar a sua alma.

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Como o ataque dos protestantes a Maria desmantelou toda a sociedade
Virgem Maria

Como o ataque
dos protestantes a Maria
desmantelou toda a sociedade

Como o ataque dos protestantes a Maria desmantelou toda a sociedade

O culto a Nossa Senhora fez com que, ao longo de séculos, ficasse enraizado nas sociedades outrora cristãs um senso de humildade e de hierarquia. Até que veio o movimento protestante, com uma noção revolucionária e destruidora de igualitarismo...

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Desde a Queda, homens e mulheres ficaram aprisionados numa disputa por poder. Em lugar da norma da humildade e da caridade, criada por Deus, Adão e Eva escolheram a soberba e a rebelião contra o Criador e a revolta de um contra o outro. A soberba gera disputa de poder, porque só pode ser satisfeita com a ampliação deste através da realização da própria vontade. É o non serviam de Satanás. Assim, antes da vinda de Cristo, o Profeta clamou: “Senhor, estabelece sobre elas um legislador, para que os povos conheçam que são homens [miseráveis]” (Sl 9, 21).

Nosso Senhor estabeleceu uma nova criação quando veio ao mundo. Ele se tornou o novo Adão, e Maria a nova Eva. Nossa Senhora e Nosso Senhor não foram maculados pela ânsia de poder, pois não tinham o pecado original. Em vez de ser desobediente como Eva por orgulho, Maria se anulou por humildade: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Não se deixando vencer em humildade, Cristo “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 7). Na nova criação, a disputa de poder se transformou na luta para alcançar a humildade. Essa foi a “competição” da qual participaram os santos e cujo prêmio eles ganharam.

Maria e a autoridade viva de Cristo. — Cristo tornou definitiva no mundo a luta pela humildade precisamente por ter nascido de uma mulher, a fim de estabelecer um exemplo tangível de humildade, associando-o a uma autoridade viva. Deus se deu a conhecer não apenas como uma ideia abstrata ou uma realidade transcendental — algo que no cotidiano poderia ser destituído de toda autoridade verdadeira e viva pela disputa do poder e do orgulho. Em vez disso, Deus nos foi apresentado por meio de Maria a fim de que nos humilhássemos perante uma autoridade viva. São John Henry Newman fala dessa realidade (o contexto era o dos protestantes liberais de sua época):

O mundo aceita o fato de que Deus seja homem; esse reconhecimento lhe custa pouco, pois Deus está em todo lugar e é tudo (como o mundo pode dizer). Porém, reluta em confessar que Deus é o Filho de Maria. Essa relutância ocorre porque o mundo é imediatamente confrontado com um fato grave, que viola e abala sua própria descrença; a doutrina revelada assume sua verdadeira forma imediatamente e adquire uma realidade histórica; o Todo-poderoso é introduzido em seu próprio mundo numa determinada época e de um modo definido. Sonhos são interrompidos e sombras desaparecem; a verdade divina já não é uma expressão poética, um exagero devocional, uma economia mística ou uma representação mítica. “Não quiseste sacrifício nem oblação”, as sombras da Lei, “mas me formaste um corpo” [1].

Os hereges odeiam Maria porque é através dela que Cristo confronta pessoalmente suas opiniões arrogantes. A Encarnação fez com que Cristo se tornasse presente nos clérigos e na hierarquia da Igreja, responsável pela transmissão da Sagrada Tradição e à qual o herege jamais se submeterá. Por isso, as heresias do primeiro milênio procuraram atacar a Encarnação em Maria a fim de remover a autoridade viva e fundamental de Cristo em sua Igreja. A disputa de poder conduzida pelos hereges foi sempre combatida e derrotada por meio da luta pela humildade, enraizada na devoção à Tradição e à autoridade viva da Igreja, que se manifestou primeiro em Cristo e Maria.

Infelizmente, a igreja assíria, as igrejas orientais e as ortodoxas se separaram uma a uma da Igreja Católica por causa de muitos fatores, particularmente a disputa de poder. No entanto, como ainda preservam alguma reverência por Maria, permaneceu intacta a estrutura fundamental da autoridade viva na figura do bispo. A postura de humildade perante uma autoridade humana na pessoa de Maria ajudou a preservar essa mesma postura em relação ao bispo. Isso também salvaguardou a glória da feminilidade para as mulheres pertencentes às referidas igrejas, pois ainda lhes era possível ascender ao “trono verdadeiramente régio” bem como tornar-se virgens consagradas. “Mas”, continua Newman: 

[...] quando [os espíritos maus] vieram novamente dos reinos das trevas e tramaram a completa ruína da fé cristã no século XVI, não conseguiram encontrar meio mais certeiro para atingir seu odioso propósito do que o insulto e a blasfêmia contra as prerrogativas de Maria, pois sabiam muito bem que, se conseguissem fazer o mundo desonrar a Mãe, se seguiria a desonra do Filho. Tanto a Igreja como Satanás sabiam que Filho e Mãe não podiam ser separados, e a experiência de três séculos confirmou seu testemunho, pois os católicos que honraram a Mãe ainda cultuam o Filho, ao passo que os protestantes, que deixaram de confessar o Filho, começaram zombando da Mãe [2].

Aqui, Newman entende corretamente a relação entre a depreciação de Maria e os movimentos progressistas modernos de sua época, que também incluíam o feminismo e o marxismo, como veremos. Ao eliminar da vida cristã o culto a Maria, os protestantes conseguiram reintroduzir a disputa de poder no coração de cada família e de cada alma cristã. Ao eliminar Maria como canal da Encarnação, puderam remover a autoridade viva da Igreja e de Cristo, algo que levaria diretamente à completa eliminação da autoridade de Cristo Rei em toda a sociedade. 

A degradação das mulheres pelos protestantes. — O protestantismo foi, por meio de suas doutrinas fundamentais, uma tentativa de santificar a disputa de poder. Na vida cristã, tudo foi submetido a essa disputa. Assim, o culto à Virgem foi considerado uma disputa com Deus; o poder do sacerdote, uma competição com o sacerdócio do povo; e a autoridade da Igreja, uma disputa com os fiéis. 

Como a soberba vê no poder “a” fonte da dignidade, qualquer poder que não seja igualitário — portanto, qualquer tipo de hierarquia — é considerado um rival injusto.

A resposta protestante a essa suposta injustiça foi uma revolução constante cujo objetivo era tirar poder do “opressor injusto”. Em lugar do esforço para alcançar a humildade no seio da hierarquia conjugal, eclesial e estatal, os protestantes consideraram a rebelião (o orgulho) uma virtude. Porém, a depreciação da Mãe de Deus provocou diretamente a depreciação das mulheres. Assim como a exaltação de Maria deu origem à glória feminina em seu “trono verdadeiramente régio”, a remoção de Maria provocou a supressão do dever de honrar as mulheres.

O prestígio da mulher sofreu um revés incalculável com a abolição da veneração à Mãe de Deus e do culto prestado a ela, ambos levados a cabo pelo protestantismo. Com o desaparecimento da vida conventual, as mulheres deixaram de ter um status reconhecido na vida social fora do matrimônio, algo que lhes fora dado anteriormente pela vida religiosa [...]. Tão-logo foi suprimida a autoridade da Igreja, a postura do marido em relação à mulher tendeu a retornar ao ideal pagão do mestre e do dono em lugar de um afetuoso amigo, companheiro e protetor. Evidências claras da triste deterioração do prestígio da mulher podem ser vistas na literatura inglesa dos séculos XVII e XVIII, quando os efeitos destrutivos do protestantismo na vida social já podiam ser percebidos plenamente. A estima e o respeito cortês pelas mulheres [...], reflexo da inigualável glória da Rainha do Céu, desapareceu da literatura inglesa [...]. A mulher voltou a ser valorizada apenas por seu sexo; e aquela que não exercia atração sexual (ou deixara de fazê-lo) muitas vezes era alvo de piadas grosseiras demasiado repulsivas à mentalidade verdadeiramente cristã [3]. 

Foi desencadeada pelos homens protestantes — de forma imediata e previsível — uma licenciosidade indiscriminada. O matrimônio indissolúvel, a monogamia, os direitos e os deveres mútuos e específicos do casamento — que refreavam, pelo bem da mulher, a masculinidade decaída e dominadora — tinham como sólido fundamento a veneração a Maria e a Sagrada Tradição da Igreja. Com a eliminação de Maria e da Tradição, os homens protestantes puderam então satisfazer impunes sua luxúria. 

Isso se manifestou em todo o movimento protestante: das segundas “núpcias” adúlteras de Henrique VIII — públicas e recorrentes —, passando pelo casamento do monge Lutero com uma freira, até o defensor luterano Filipe I de Hesse, que teve duas mulheres, e os haréns libertinos de João de Leiden e Bernardo Rothmann. O próprio Lutero facilitou a destruição da virgindade e da castidade ao mesmo tempo que, como seus imitadores, desonrava a Virgem Maria: 

O contrabando de freiras se tornara uma das principais operações eclesiásticas do grupo dos reformados na Alemanha, e na década de 1520, Wittenberg (cidade natal de Lutero) tornou-se um de seus pontos de encontro prediletos [...]. A libido (e a consequente quebra de votos) foi o motor que puxou o trem da Reforma. Foi um modo excepcionalmente eficaz de organizar ex-sacerdotes para que se opusessem à Igreja [4].

Uma testemunha da época afirmou que “os conselhos de Lutero foram seguidos de tal forma que sem dúvida alguma havia mais castidade e honra ao matrimônio na Turquia do que entre os evangélicos [protestantes] na Alemanha” [5]. O próprio Lutero, por não ter conseguido encontrar um fundamento para a proibição geral da poligamia, eliminou a dignidade sacramental do matrimônio [6].

A Santa Madre Igreja responde. — Contra essa devassidão que desonrava Nossa Senhora e as mulheres em geral, o Concílio de Trento bradou em defesa do matrimônio indissolúvel, da virgindade e da castidade, reflexos da veneração essencial devida à Virgem Mãe:  

Se alguém disser que o matrimônio não é verdadeira e propriamente um dos sete sacramentos da lei evangélica instituída por Nosso Senhor […], seja anátema.

Se alguém disser que é lícito ao cristão ter muitas esposas ao mesmo tempo e que isso não é proibido por qualquer lei divina […], seja anátema.

Se alguém disser que a Igreja se engana por ter ensinado e por ensinar que, segundo a doutrina evangélica e apostólica, o vínculo matrimonial não pode ser dissolvido pelo adultério […], seja anátema.

Se alguém disser que os clérigos constituídos em ordens sacras e os regulares que professam solenemente a castidade podem contrair validamente matrimônio [...], seja anátema.

Se alguém disser que o estado conjugal se deve antepor ao estado da virgindade ou celibato, e que não é melhor nem mais beato permanecer no estado de virgindade e celibato do que contrair matrimônio, seja anátema [7].

Os excessos da devassidão dos revolucionários foram duramente reprimidos pelos decretos definitivos de Trento. O culto à Virgem Maria foi defendido com firmeza e, com ele, a ordem hierárquica da família, da Igreja e da sociedade. Sob o catolicismo, as mulheres ficaram protegidas, assim como à Virgem foi concedida a glória sagrada que lhe era devida. Trento se tornou o bastião da Igreja para resistir aos ataques de carnificina e do caos provocados pelos protestantes, que destruíram o tecido social e degradaram as mulheres, retirando-lhes a devida honra.

Como os cismáticos do Oriente, os protestantes conseguiram preservar alguma reverência por Cristo e pelas Sagradas Escrituras, que impediram que seu orgulho cego mais uma vez subjugasse completamente as mulheres à escravidão pagã. Caberia aos marxistas e às feministas cumprir esse objetivo.

Referências

  1. São John Henry Newman, Discourse 17, “The Glories of Mary for the Sake of Her Son”.
  2. Ibid.
  3. Rev. E. Cahill, S.J., The Framework of a Christian State, Roman Catholic Books, reimpressão de 1932, p. 432.
  4. E. Michael Jones, Degenerate Moderns: Modernity as Rationalized Sexual Misbehavior, Ignatius, 1993, p. 244.
  5. Heinirch Denifle, Luther and Lutherdom, Somerset, Ohio: Torch Press, 1917, p. 298, apud Michael Jones, op. cit., p. 245.
  6. “Confesso que não posso proibir uma pessoa de ter muitas esposas, pois isso não contradiz a Escritura. Se um homem deseja se casar com mais de uma mulher, deveria ser questionado se sua consciência está tranquila, para que possa fazê-lo de acordo com a palavra de Deus”. Martinho Lutero, De Wette II, 459, em: Hartmann Grisar, Luther, 1916, vol. 5, pp. 329-330. Embora tenha permitido a prática em princípio, Lutero não a incentivou. Para a perspectiva católica a respeito da poligamia permitida antes de Cristo, ver Santo Tomás e Santo Agostinho
  7. Sessão 24, Cânones 1, 2, 7, 9 e 10.

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Precisamos mesmo confessar ao padre pecado por pecado?
Doutrina

Precisamos mesmo
confessar ao padre pecado por pecado?

Precisamos mesmo confessar ao padre pecado por pecado?

É a lógica da Encarnação que exige a confissão detalhada dos pecados. Nosso Senhor expressou o seu amor por meio de palavras e atos concretos e específicos, confrontando o pecado não “em geral” ou “em teoria”, mas em pessoas particulares, na carne e na Cruz.

Pe. Paul ScaliaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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O Salmo 50 dá o tom. É o salmo penitencial por excelência, que concentra o nosso olhar no elemento mais importante do ato penitencial, a contrição: “Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido” (Sl 50, 19). 

Santo Tomás observa que a contrição “inclui virtualmente toda a penitência” (STh III 90, 3). Ela contém em germe as outras dimensões do sacramento da Penitência: confissão, reconciliação e satisfação. Essa verdade salienta a necessidade de aprofundarmos a nossa contrição, sobretudo quando nos preparamos para a Confissão.

Analisemos primeiro o caráter pessoal da autêntica contrição. Para nós, é tentador esconder-nos na multidão, participando das orações, liturgias e devoções penitenciais da Igreja sem realmente nos empenharmos. Mas isso não é o bastante. Não importa o quanto a Santa Madre Igreja possa nos exortar, conduzir na oração e interceder por nós. Em última análise, cada um de nós deve se arrepender pessoalmente. Há também outra razão por que a contrição cristã é pessoal. Ao contrário do arrependimento natural ou do remorso mundano, ela tem origem na consciência da ofensa à pessoa de Jesus Cristo, não a uma simples lei ou padrão ético.

A contrição fecunda surge do exame de consciência. Este, por sua vez, deveria ser um “intenso e corajoso inventário moral de nós mesmos”, para tomar emprestado um trecho dos Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos: intenso, porque exige refletir e recordar quando e como erramos; corajoso, porque exige superar o orgulho, a vergonha e a autojustificação. Devemos dar nomes aos bois, reconhecendo de maneira clara e sincera o que fizemos de errado.  

Há muitas ferramentas que nos ajudam no exame de consciência: os Dez Mandamentos, o duplo mandamento do amor (cf. Mc 12, 28-34), os sete pecados capitais etc. Independentemente do instrumento utilizado, o objetivo é discernir com precisão quais são os nossos pecados e quantas vezes os cometemos, isto é, em que medida falhamos em corresponder à bondade do Senhor.

A Igreja define a contrição de modo simples. É “uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar no futuro” (Catecismo da Igreja Católica, § 1451). Ora, isso difere do emocionalismo que as pessoas podem associar à contrição. Sim, os Evangelhos nos falam das lágrimas de Maria Madalena e do choro amargo de Pedro. Mas, ainda que tenham sua utilidade, tais emoções não são necessárias para a contrição. Necessários são o simples reconhecimento do pecado e a decisão de não mais cometê-lo.

A sobriedade da definição da Igreja revela a solicitude do Senhor com a nossa fraqueza. Ele sabe que os nossos sentimentos rebeldes e inconstantes podem nem sempre cooperar com a nossa contrição. Nem sempre nos sentimos arrependidos. Ele não exige, portanto, mais sentimentos do que aqueles que podemos oferecer. Isso também significa que não podemos esperar que tais emoções apareçam antes de identificarmos e decidirmos odiar os nossos pecados.

Por si mesma, a contrição tende naturalmente à confissão dos pecados. É uma necessidade que procede mais do coração humano do que da lei da Igreja. “Enquanto eu silenciei meu pecado, dentro de mim definhavam meus ossos e eu gemia por dias inteiros” (Sl 31, 3). Como mostram essas palavras do salmista, a tristeza humana sempre procura se manifestar. Do contrário, estamos fazendo violência contra nós mesmos.

Ora, a Igreja exige que confessemos os pecados mortais por sua espécie e número, algo que pode ter a aparência de legalismo e de ser contrário a esse desejo do coração humano: Qual a necessidade de coisas particulares? Por que especificar? Deus realmente se importa com tais detalhes? Ele é tão legalista assim? Não estaria mais interessado no relacionamento do que em coisas específicas?  

Tais perguntas revelam a tendência nociva do homem a evitar o específico e o concreto no arrependimento. Preferimos permanecer na superfície e nas generalidades (“Não fui bom… ofendi a Deus…”), quando podemos evitar exatamente o horror do que fizemos. No entanto, relacionamentos não são construídos com base em abstrações.

O amor procura ser definido e específico em sua manifestação. Nós amamos nos particulares ou não amamos de forma alguma. Infelizmente, também pecamos nos particulares. A nossa relação com Deus e com o próximo não é prejudicada por nós de forma abstrata ou teórica, mas por meio de pensamentos, palavras e atos específicos. Por isso, o coração, se está mesmo contrito, procura ser específico na confissão.

É a lógica da Encarnação, acima de tudo, que exige isso. O Verbo se fez carne. Nosso Senhor expressou o seu amor por meio de palavras e atos concretos e específicos. Ele não confrontou o pecado “em geral” ou “em teoria”, mas em pessoas particulares, na carne e na Cruz. A disciplina da Igreja, longe de impor um fardo externo, simplesmente faz eco às exigências do coração humano e do Sagrado Coração. A confissão não requer particulares apesar do relacionamento, mas por causa dele. 

A confissão sacramental também é um ato pessoal de fé, porque implica confiar na presença contínua de Cristo em sua Igreja e ministros. Não confessamos ao sacerdote por causa de seu mérito ou santidade, mas porque temos fé em que Cristo lhe confiou um poder sagrado.

Nós realmente cremos que o próprio Cristo age por meio do sacerdote, que lhe serve de instrumento. Assim, nesse sacramento fazemos uma dupla confissão: de culpa e de fé (culpa pelos nossos pecados e na ação de Cristo).

A contrição autêntica busca a reconciliação. Produz em nós o desejo de nos libertarmos dos nossos pecados e, principalmente, de nos reconciliarmos com Cristo. Assim, a contrição nos impele logicamente ao sacramento da reconciliação, que restaura nossa união com Ele. Qual será a medida real de nossa contrição, se não desejamos reconciliar-nos com Ele pelo meio que Ele mesmo estabeleceu?

Finalmente, a contrição nos leva não só à confissão e à reconciliação, mas também à satisfação e à expiação dos nossos pecados — em suma, a fazer penitência —, algo que pode parecer impossível. Afinal, ninguém pode reparar ou satisfazer por seus próprios pecados. Só o sacrifício perfeito de Jesus Cristo expia o pecado.

Não obstante, o penitente de fato oferece satisfação — não por seu próprio poder, mas por sua união com o Cristo sofredor; ou, antes, ele se torna partícipe do próprio ato de reparação de Cristo. É um fruto da reconciliação sacramental. O sacramento produz uma reconciliação tão real, uma tal ligação com Cristo, que o penitente se torna participante do único sacrifício perfeito de Cristo pelos nossos pecados. Fazer penitência em união com Cristo é, de fato, o auge da contrição do penitente. Essa participação na expiação e na tristeza de Cristo é o que a contrição procura expressar e oferecer desde o início.

“Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido” (Sl 50, 19). Continuemos essa oração para alcançar uma contrição mais profunda e perfeita, a fim de que a nossa recepção do sacramento da Penitência nos beneficie de forma mais frutuosa até a vida eterna.

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As iscas da indústria pornô para pescar o seu filho na internet
Sociedade

As iscas da indústria pornô
para pescar o seu filho na internet

As iscas da indústria pornô para pescar o seu filho na internet

À medida que mais e mais crianças começam a usar a internet, a indústria pornográfica utiliza o tempo delas online para atraí-las até sites pornográficos. Depois do primeiro clique, a sua inocência pode ser destruída. De uma vez para sempre.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Várias e várias vezes, ouvi pais me dizerem que seus filhos jamais buscariam pornografia na internet. Adolescentes? Talvez. Crianças? Nunca. Elas são muito inocentes. Ainda não pensam em sexo nem foram expostas ao que poderia estimular seu interesse pelo assunto. Portanto, as crianças podem continuar sendo crianças, e não há necessidade alguma de lhes manchar a inocência abordando tópicos como este.

Eu até acredito nesses pais. Muitos deles se esforçam para proporcionar aos filhos uma infância inocente, para que desfrutem das coisas simples da vida sem que suas pequenas mentes sejam manchadas por este conteúdo digital onipresente, mais maligno do que “adulto”.

No entanto, é essencial que os pais se dêem conta de uma coisa: seus filhos podem não estar procurando pornografia, mas a indústria pornográfica com certeza está à procura deles.

Muitos pais creem, equivocados, que tudo ficará bem desde que os filhos não busquem pornografia e a internet de casa esteja protegida. Eles talvez se surpreendam ao descobrir que a maioria das crianças tem seu primeiro contato com pornografia por acidente. Já ouvi essa história centenas de vezes em minhas palestras para jovens sobre pornografia, e um estudo recente confirmou não apenas que muitas crianças veem pornografia pela primeira vez por acidente, mas que a maior parte delas gostaria que isso nunca tivesse acontecido. Não se trata de saber se os seus filhos desejam ver pornografia, mas de saber se eles, querendo ou não, acabarão se deparando com ela.

De fato, como observei antes, empresas predatórias como PornHub já usaram títulos de desenhos animados (por exemplo, Dora, a aventureira e Patrulha canina) para dar nome a vídeos de pornografia explícita, a fim de que as crianças que buscam na internet temas inocentes acabem acessando páginas repletas de cenas degradantes. Quanto mais precoce for o vício, mais pornografia elas verão — e quanto mais elas virem, melhor será para empresas como PornHub. Suas contas bancárias crescem às custas da inocência roubada.  

Eles até fazem piada sobre isso. Na conta de PornHub no Instagram, por exemplo, foi compartilhada uma imagem do Bebê Yoda com o logotipo da empresa refletido em suas pupilas junto com a frase: “Dez segundos depois de meus pais saírem de casa”. Além de não verificar a idade ou o consentimento e de não fazer nada para manter as crianças longe do seu material vil, PornHub ri abertamente de ter as crianças como um público alvo

O portal Exodus Cry, que tem feito uma brilhante campanha para denunciar a cumplicidade de PornHub com o estupro e a exploração sexual, explicou como a empresa caça as crianças:

PornHub não possui sequer um botão de alerta para perguntar ao visitante se tem menos de dezoito anos. Por quê? Para eles, a idade é apenas um número.

A organização vai à caça em redes sociais populares como Tik Tok, Twitch, Snapchat, Periscope e muitas outras, usando modelos e vídeos como isca para seduzir crianças inocentes e tê-las em suas garras sádicas. Alguns desses sites e aplicativos possuem proteções inadequadas para crianças ou sequer têm restrições a práticas predatórias.

Há também as categorias. Em 2019, “adolescente” (teen) foi um dos principais termos procurados no site, junto com “cartoon”, “vinganças” e muitos outros. Não se enganem: PornHub está definindo e tirando proveito dos apetites sexuais de jovens e menores de idade.

Mas espere, a situação fica ainda pior. Os portais Collective Shout e Exodus Cry revelaram que, além de hospedar vídeos de estupro, abuso infantil e tráfico sexual (e não esqueçamos nunca que as pessoas acessam a plataforma em busca de satisfação sexual), PornHub tem uma coleção de “desenhos pornográficos virtuais ou animados, feitos com os personagens mais populares da Disney em cenas de sexo explícito”. Personagens como a Rapunzel, da animação Enrolados, aparecem amarrados e amordaçados, sem falar de muitos outros personagens favoritos que aparecem em cenas de abuso e violência. Repita-se: são personagens de desenhos infantis.

Sites de conteúdo pornográfico também inserem anúncios pop up em páginas de jogos eletrônicos frequentadas por crianças e adolescentes. Em minhas palestras, já perguntei diversas vezes a crianças quantas delas jogam na internet — e quantas foram expostas a alguma janela pop up com conteúdo explícito durante o jogo. Quase todas as mãos se levantam em resposta às duas perguntas. À medida que mais e mais crianças começam a usar a internet, a indústria da pornografia utiliza o tempo delas online para atraí-las até sites pornográficos. Depois do primeiro clique, a sua inocência pode ser destruída e elas podem ficar viciadas. Eis a história de quase toda uma geração. 

Escrevo tudo isso como um apelo aos pais. Por favor, monitorem seus filhos sempre que estiverem online. Por favor, falem com eles sobre pornografia de forma adequada à idade deles. Milhões de crianças foram expostas à pornografia sem o desejo ou o consentimento dos pais, muitos dos quais simplesmente ignoram que seus filhos já foram expostos a esse tipo de material.

É um aspecto repugnante e terrível da nossa cultura que discussões que há poucas décadas eram desnecessárias sejam, hoje, absolutamente imprescindíveis. Sim, elas são.

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