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A Igreja Católica é intolerante?
Doutrina

A Igreja Católica é intolerante?

A Igreja Católica é intolerante?

Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Mas condenar a verdade à tolerância é o mesmo que sentenciá-la ao suicídio. Entenda neste texto, extraído de um antigo sermão, em que sentido a Igreja Católica é intolerante.

Cardeal Pie20 de Setembro de 2018
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Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante.

Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade, e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante.

É da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas.

Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 são 4?

Nada é tão exclusivo, meus irmãos, quanto a unidade. Ouvi a palavra de São Paulo: Unus Dominus, una fides, unum baptisma. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma.

Assim, a unidade divina que resplandece por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico, cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: Se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca.

E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos Apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo.

O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o de sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um decreto do senado, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes.

Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie eius, “Eis que surge o Senhor, e os ídolos estremecem diante de sua face” (Is 19, 1).

Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium.

Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo de fé, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática.

Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos de fé? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade.

Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: “Eu sou a verdade”, Ego sum veritas, é necessário, por uma consequência inevitável, que a Igreja de Cristo conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos, meus irmãos, com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil.

Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo de fé o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranquilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rousseau foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins.

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras.

A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina, meus irmãos, que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França.

— A que ponto de loucura chegamos então?

— Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma e, por consequência, intolerante, apartada de toda doutrina que não a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: Vos ex patre diabolo estis, “Vós sois de vosso pai, o diabo”. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as expressões que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque tendes a unidade e, porque sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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A paz é dos que temem a Deus
Espiritualidade

A paz é dos que temem a Deus

A paz é dos que temem a Deus

Neste mundo, é mais desejável e promissora a agitação dos “que estão acordados e vêem o perigo” de o barco afundar, do que a tranquilidade “fria, autossuficiente e orgulhosa” dos que não temem a Deus.

Beato John Henry NewmanTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2018
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Não hesitarei em expressar aqui minha firme convicção de que seria um ganho para este país se ele fosse muito mais supersticioso, mais intolerante, mais sombrio, mais violento em sua religião do que no presente ele tem demonstrado ser.

Não que eu considere desejáveis, é claro, os temperamentos aqui implicados, o que seria um evidente absurdo. Mas os considero infinitamente mais desejáveis e promissores do que uma obstinação pagã e uma tranquilidade fria, autossuficiente e orgulhosa.

Sem dúvida, a paz de espírito, uma consciência tranquila e um semblante alegre são um dom do Evangelho e o sinal de um cristão. Mas os mesmos efeitos (ou melhor, o que parecem ser os mesmos efeitos) podem advir de causas bem diferentes. Jonas dormiu em meio à tempestade, e o mesmo fez Nosso Senhor; mas um dormiu em uma segurança má, e o Outro na “paz que supera todo entendimento”. Os dois estados não podem ser confundidos; são perfeitamente distintos um do outro. Do mesmo modo, são distintas a calma do homem mundano e a do cristão.

Jonas e o grande peixe.

Considerai agora o exemplo dos tripulantes a bordo do navio. Eles gritaram a Jonas: “Que fazes aqui, dorminhoco?”, como também os Apóstolos disseram a Cristo: “Senhor, estamos perecendo.” Eis o caso dos supersticiosos: eles situam-se entre a falsa paz de Jonas e a verdadeira paz de Cristo; estão melhores do que aquela, ainda que estejam muito aquém desta.

Aplicando isso à atual religião do mundo civilizado, cheia como está de segurança e alegria, de decoro e benevolência, noto que essas características podem advir tanto de muita religião quanto de sua ausência; podem ser fruto de uma mente superficial e de uma consciência cega, ou daquela fé que está em paz com Deus por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De minha parte, vendo o que eu vejo do mundo, não tenho dúvidas de que o gênio de nossa época provém do sono de Jonas; e de que ele não passa, portanto, de uma fantasia de religião, muito inferior em dignidade ao alarme bem fundado dos supersticiosos, que estão acordados e vêem o perigo, ainda que não estejam tão avançados na fé a ponto de abraçar-lhe o remédio.

Eu não gostaria de ser duro, mas sabendo que “o mundo jaz no maligno”, considero altamente provável que vós, tanto quanto estais no mundo (como deveis estar, e nós todos estamos em alguma medida), estais, a maioria de vós, parcialmente infectados com esse seu erro, com essa religiosidade superficial, que é o resultado de uma consciência cega; e, por isso, eu me dirijo seriamente a vós. Acreditando na existência de uma praga geral na terra, julgo que vós provavelmente tendes vossa parte nos sofrimentos, os sofrimentos voluntários, que ela está espalhando entre nós.

O temor de Deus é o princípio da sabedoria: se vós, pecadores como sois, não O virdes como um fogo devorador e não vos aproximardes dEle com reverência e santo temor, não podereis sequer ver a porta estreita. Não quero que me indiqueis nenhum tempo particular de vossas vidas em que renunciastes ao mundo (como se costuma dizer) e vos convertestes. Isso é um engano. Temor e amor devem andar juntos; sempre o temor, sempre o amor, até o dia de vossa morte.

Sim, vós deveis saber o que é semear em lágrimas aqui, se quiserdes ceifar alegria na outra vida. Se não conhecerdes o peso de vossos pecados — e isso não apenas na mera imaginação, mas na prática; não apenas confessando-o em uma frase formal de lamentação, mas diariamente e no segredo do vosso coração —, não podereis abraçar a oferta de misericórdia que vos é prometida no Evangelho, por meio da morte de Cristo. Se não souberdes o que significa temer junto com os tripulantes aterrorizados ou com os Apóstolos, não podereis dormir com Cristo aos pés de vosso Pai celeste.

Por mais miseráveis que fossem as superstições das idades sombrias, por mais revoltantes que fossem as torturas agora comuns entre os pagãos do Oriente, melhor, muito melhor é torturar o próprio corpo todos os dias e fazer desta vida um inferno sobre a terra do que permanecer em uma breve tranquilidade aqui, até que a cova se abra larga abaixo de nós e nos desperte para uma consciência infrutífera e um remorso eternos. Pensai nas próprias palavras de Cristo: “Que pode dar o homem em troca de sua alma?” Novamente Ele diz: “Temei aquele que, havendo separado a alma do corpo, tem o poder de precipitar a um e a outro no inferno; sim, eu vos digo, a este temei.”

Não ouseis pensar que haveis chegado ao lugar mais profundo de vossos corações, pois vós não sabeis o mal que aí se oculta. Quanto tempo e com que sinceridade não deveis rezar, quantos anos não deveis passar em cuidadosa obediência, antes que tenhais qualquer direito a pôr de lado a tristeza e a exultar no Senhor? Em certo sentido podeis, de fato, consolar-vos com isso, pois, embora não ouseis ainda supor que estais no número dos reais eleitos de Cristo, a partir disso sabereis que Ele deseja vossa salvação, que Ele morreu por vós, que Ele lavou vossos pecados pelo Batismo e sempre vos ajudará; e esse pensamento vos deve alegrar, enquanto examinais e repassais vossas vidas e vos voltais para Deus em espírito de sacrifício.

Ao mesmo tempo, porém, enquanto estiverdes aqui, não podereis jamais estar certos da própria salvação e deveis, portanto, sempre temer enquanto tendes esperança. Vós conheceis cada vez mais os vossos pecados à medida que vedes a misericórdia de Deus em Cristo. E é este o verdadeiro estado cristão, bem como a melhor forma de aproximar-se do sono calmo e sereno de Cristo em meio à tempestade: não alegria perfeita e certeza do Céu, mas profunda resignação à vontade de Deus, entrega de nós mesmos a Ele, de corpo e alma; na esperança de que seremos salvos, sim, mas fixando nossos olhos mais sinceramente nEle do que em nós, isto é, agindo para a glória de Deus, procurando agradá-lO e dedicando-nos a Ele com obediência varonil e valorosas boas obras; e, então, ao olharmos para o nosso interior, pensando em nós mesmos com uma certa aversão e desprezo por sermos pecadores, mortificando nossa carne, contrariando nossos apetites e esperando tranquilamente aquele dia em que, se formos dignos, seremos despojados do nosso presente “eu” e renovados no Reino de Cristo.

Referências

  • Trecho do sermão “The Religion of the Day”, traduzido e levemente adaptado de “Parochial and Plain Sermons”, do B. John Henry Newman, v. 1, Longmans, Green and Co., London, 1907, pp. 320-324 (c. 24).

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O corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré
Santos & Mártires

O corpo incorrupto
de Santa Catarina Labouré

O corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré

Muitos já ouviram falar da Medalha Milagrosa, mas poucos conhecem o corpo igualmente milagroso de Catarina Labouré, a vidente de Nossa Senhora das Graças, encontrado intacto mais de 50 anos depois de sua morte.

Joan Carroll CruzTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Novembro de 2018
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Catarina Labouré, a vidente de Nossa Senhora a quem se deve a existência da Medalha Milagrosa, nasceu no seio de uma numerosa família de camponeses na pacífica vila de Fain-les-Moutiers, na França. Sua mãe morreu quando ela contava ainda nove anos de idade. Foi quando a menina tomou a bem-aventurada Virgem Maria por mãe e protetora. Piedosa desde a mais tenra infância, Catarina jejuava duas vezes por semana, não obstante as tarefas domésticas fatigantes que realizava na fazenda do pai. Além disso, participava diariamente da Santa Missa na capela das Irmãs da Caridade, a um quilômetro e meio de casa.

Havendo tomado a decisão de entrar para a vida religiosa, Catarina negou duas propostas de casamento, e seu pai, esperando desencorajar a filha, mandou-a viver junto com um irmão, que conduzia um restaurante em Paris, onde ela obedientemente servia às mesas. As circunstâncias, ao fim e ao cabo, permitiram que ela entrasse para a Ordem das Irmãs da Caridade, na Rue du Bac, em Paris, e foi ali que se cumpriu a sua vocação.

Como jovem postulante, ela costumava ver Nosso Senhor em frente ao Santíssimo Sacramento durante a Missa, e por três vezes teve visões místicas e simbólicas de São Vicente de Paulo sobre o relicário que continha seu coração incorrupto, conservado na capela da casa onde se deram todas as suas visões. Sem dúvida, as mais extraordinárias eram as que envolviam a Virgem Maria.

No dia 18 de julho de 1830, véspera da festa de São Vicente de Paulo, fundador de sua Ordem, Santa Catarina foi despertada durante a noite por seu anjo, que lhe apareceu com o aspecto de uma criança de cerca de cinco anos, toda radiante, e que a conduziu para dentro da capela. Ali ela recebeu a visita de Nossa Senhora, que tomou o assento reservado ao diretor das irmãs. Prostrando-se diante da aparição, Catarina recebeu a graça de pôr suas mãos dobradas sobre os joelhos da Virgem, que lhe disse: “Vem aos pés deste altar. Ali serão derramadas graças sobre ti e sobre todos os que pedirem por elas, ricos e pobres.”

A segunda aparição ocorreu em 27 de novembro de 1830, enquanto Catarina fazia sua meditação vespertina. Ao ouvir o farfalhar da seda, que ela reconheceu da primeira aparição, Catarina olhou para o lugar de onde vinha o som e contemplou a Santíssima Virgem de pé, na capela, próxima a uma imagem de São José. A pequena esfera que a aparição mantinha perto de seu coração lentamente desapareceu e imediatamente seus dedos se adornaram de anéis, e destes saíam raios de luz, símbolos das graças que ela concederia a todos os que lhas pedissem.

Devagar foi aparecendo em volta de Nossa Senhora uma moldura ovalada com letras brilhantes que diziam: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. No mesmo instante, uma voz dizia:

Tu deves cunhar uma medalha a partir deste modelo. As pessoas que a usarem depois de indulgenciada receberão grandes graças, especialmente se a usarem em torno do pescoço; graças serão distribuídas abundantemente sobre aqueles que tiverem confiança.

A visão voltou as costas a Catarina e então apareceu o monograma da Virgem, que é encontrado no verso da Medalha Milagrosa.

A terceira visão foi praticamente idêntica a esta segunda, com a diferença de a Virgem ter-se movido para cima do tabernáculo e atrás dele, lugar que é agora ocupado por uma imagem esculpida com base nessa visão.

Esta alma privilegiada reportou tais visões apenas a sua superiora e a seu diretor espiritual, e muitas dificuldades tiveram de ser superadas antes de as medalhas serem cunhadas e distribuídas.

Depois de sua profissão, Catarina foi mandada para o abrigo da Rue de Reuilly, onde passou os próximos 46 anos de sua vida, realizando os trabalhos mais servis e repugnantes em favor dos mais velhos e dos enfermos. Suas irmãs de congregação sabiam todas que uma no meio delas era a aclamada vidente da Medalha Milagrosa, mas a identidade de Catarina só foi revelada em seu leito de morte. Tendo predito por várias vezes que não chegaria a ver o ano de 1877, a santa morreu em 31 de dezembro de 1876.

Observando as leis de Paris a respeito do enterro em jazigos particulares, seu venerável corpo foi posto dentro de um caixão triplo, em uma cripta na capela da Rue de Reuilly, 77, onde permaneceu intocado por 56 anos. Logo em seguida ao anúncio de sua beatificação, deu-se o costumeiro reconhecimento das relíquias. Em 21 de março de 1933, uma delegação de médicos e sacerdotes juntou-se na cripta para a exumação. O caixão externo de madeira tinha caído aos pedaços, mas o segundo caixão, de chumbo, encontrava-se bem preservado e não foi sem grande dificuldade que conseguiram retirá-lo do exato lugar onde fora colocado e no qual permanecera por mais de meio século.

O caixão foi levado então a uma sala especialmente preparada para se examinar a relíquia. O agente funerário cortou a tampa do caixão chumbado e retirou-a, deixando entrever um caixão interno de madeira, que também estava aberto. Quando o médico suspendeu o pano que cobria o corpo, seus restos foram encontrados perfeitamente intactos. Uma testemunha ocular escreveu:

As mãos haviam deslizado para o lado, mas estavam brancas e em seu aspecto natural. O cordão do rosário havia apodrecido e as contas haviam se desprendido no caixão. A pele do rosto tinha a aparência levemente estriada, mas estava inteira. Os olhos e a boca estavam fechados [1].

Duas senhoras que haviam conhecido a Irmã Catarina reconheceram com facilidade as características de sua santa amiga.

O cirurgião da comunidade, Dr. Robert Didier, que foi testemunha da exumação, deixou registrado que:

…ao abrir o caixão, deparamos com uma massa acinzentada de serragem que havia tomado a forma do corpo; nessa superfície havia algumas evidências de mofo, mas nenhuma decomposição, apenas um odor levemente azedo.

Depois de remover a serragem cuidadosamente com a mão, era possível ver o pano mortuário; ele encontrava-se intacto, levemente úmido e podia ser facilmente retirado.

Limpo o corpo, tinha a aparência perfeitamente preservada, e em roupas que haviam mantido sua coloração e consistência normal.

As cornetas do hábito da religiosa haviam ficado sobre seu rosto, e isso, junto com o peso do pano mortuário e da serragem, fez achatar-se-lhe o nariz.

As mãos e o rosto tinham uma cor rosada com leves tons de marrom, mas também estavam intactos. Dois dedos da mão esquerda estavam um pouco enegrecidos, mas nós percebemos de imediato que a cor escura devia-se não à necrose do tecido, mas sim à tinta do hábito que havia passado para a mão do lado da rachadura do caixão de chumbo. Havendo apurados esses fatos, colocamos o pano de volta e fechamos o caixão para o traslado do corpo [2].

Após esse rápido exame, o corpo da santa foi trasladado em procissão solene para a casa principal das irmãs, onde foi recebido pelas irmãs, noviças e postulantes de sua Ordem, bem como pelos padres e noviços lazaristas. O caixão de chumbo, coberto com um tecido branco de seda no qual iam bordadas, em ambos os lados, imagens da Medalha Milagrosa, abria caminho em meio aos filhos e filhas de São Vicente de Paulo.

Às dez horas do dia seguinte, na presença de várias testemunhas, inclusive do cardeal e do cônego, que era o Promotor da Fé da Congregação dos Santos, o corpo foi mais uma vez desvelado em outra sala especialmente preparada para isso. O Dr. Didier registrou, então, o seguinte:

O corpo foi cuidadosamente retirado do caixão e colocado sobre uma mesa comprida.

O rosto, por conta de seu primeiro contato com o ar, havia se escurecido levemente desde o dia anterior; as roupas perfeitamente preservadas foram removidas com cuidado. Cabe notar que do lado esquerdo do corpo — o lado em contato com a rachadura do caixão de chumbo —, a roupa estava um pouco úmida e algumas partes do corpo (o braço esquerdo e o ombro) haviam experimentado um leve desgaste.

A pele nesta região estava um pouco inchada, enrijecida e exibia em sua superfície alguns resíduos esbranquiçados. Examinando o corpo, pudemos notar a perfeita flexibilidade dos braços e das pernas. Esses membros só haviam experimentado uma leve mumificação. A pele estava intacta e estriada por toda parte. Os músculos estavam preservados e podiam ser facilmente dissecados em uma aula de anatomia.

Nós cortamos o esterno ao meio. O osso mostrava uma consistência elástica e cartilaginosa e podia ser cortado com facilidade pela faca do cirurgião. Aberta a cavidade torácica, ficou-nos fácil remover o coração. Ele tinha encolhido bastante, mas manteve sua forma. Podíamos facilmente ver dentro dele os capilares fibrosos e restos das válvulas e músculos. Retiramos também algumas das costelas e a clavícula. Desmembramos os braços, que serão conservados à parte. As patelas dos joelhos foram removidas. Os dedos e as unhas dos pés encontravam-se em perfeitas condições. O cabelo permaneceu preso ao couro cabeludo.

Os olhos estavam em suas órbitas e as pálpebras meio fechadas. Nós podíamos afirmar que o globo ocular, mesmo caído e encolhido, achava-se íntegro, e até a coloração da íris, cinza azulada, permanecia.

Para garantir a preservação do corpo, injetamos uma solução de formaldeído, glicerina e ácido carbólico [3].

O corpo da santa foi colocado depois na capela da casa principal, sob o altar lateral de Nossa Senhora do Sol, onde repousa até hoje atrás de uma cobertura de vidro. As mãos erguidas e entrelaçadas por um rosário são feitas de cera. As mãos incorruptas da santa, que foram amputadas, são mantidas em um relicário especial, conservado agora no claustro das noviças, na casa principal. O coração da santa também foi colocado em um relicário especial, rica e reverentemente adornado, na capela da Rue de Reuilly, onde a santa havia rezado com tanta frequência enquanto cumpria seus deveres de estado.

A capela onde ocorreram as visões de Santa Catarina Labouré é, sem dúvida nenhuma, uma das mais veneradas no mundo, não só por ter recebido várias visitas de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa e de São Vicente de Paulo, mas também por haver nela várias relíquias preciosas:

  • próximo ao corpo incorrupto de Catarina, por exemplo, está o altar de São Vicente de Paulo, fundador da Ordem, na frente de cuja estátua está exposto um relicário contendo o seu coração;
  • do outro lado da capela, sobre o altar lateral, encontra-se outro relicário magnífico: uma estátua de cera contendo os ossos de Santa Luísa de Marillac, religiosa que fundou, junto com São Vicente, a congregação das Filhas da Caridade;
  • do lado do altar principal está a cadeira de veludo azul que a própria Virgem Maria tomou como assento em sua primeira aparição a Catarina Labouré (os que visitam a capela são autorizados a tocar e beijar a cadeira, e muitos deixam sobre ela pedacinhos de papel em que vão escritos seus pedidos de oração).

Santa Catarina foi canonizada em 27 de julho de 1947. Sua memória litúrgica é celebrada no dia 28 de novembro, um dia após a festa da Medalha Milagrosa.

Referências

  1. Rev. Edmond Crapez, C. M., Blessed Catherine Labouré, Daughter of Charity of St. Vincent de Paul (Emmitsburg, MD: St. Joseph’s Provicial House, 1933), pp. 235-36.
  2. Ibid., pp. 239-40.
  3. Ibid., pp. 240-41.

Notas

  • Traduzido e levemente adaptado de “The Incorruptibles”, Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 267-272.

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“Rei de tremenda majestade”
Liturgia

“Rei de tremenda majestade”

“Rei de tremenda majestade”

Celebrar a solenidade de Cristo Rei, ao fim do ano litúrgico, é celebrar o “Rei de tremenda majestade” diante do qual inevitavelmente teremos de comparecer ao término de nossa vida terrestre. Preparemo-nos!

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2018
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O que significa celebrar, ao fim do ano litúrgico, a solenidade de Cristo, Rei do Universo?

Para responder a esta questão, poderíamos repassar algumas das preciosas lições da encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, com a qual o Papa Pio XI estabeleceu para o mundo inteiro essa festa litúrgica. Poderíamos lembrar, por exemplo, que embora o reino de Cristo seja “principalmente espiritual” e se refira “às coisas espirituais” (n. 10), “erraria gravemente aquele que negasse a Cristo-homem o poder sobre todas as coisas humanas e temporais” (n. 11).

Poderíamos comentar a causa histórica dessa instituição: o crescimento do laicismo, que persegue os cristãos e condena-os a guardarem a sua fé em uma gaveta, sob a alegação de que “o Estado é laico”. Poderíamos citar, então, como em 1925 o mundo acabava de sair da Primeira Guerra Mundial e assistia à ascensão de governos fortemente contrários à Igreja e a sua missão espiritual; como nessa época surgiram o nacional-socialismo na Alemanha, o fascismo na Itália, o socialismo na Rússia e no leste da Europa, sem falar do regime anticlerical de Plutarco Elías Calles no México, que deu origem à Guerra dos Cristeros.

Mas, como o próprio Pio XI reconhece no documento em questão:

Mais do que os documentos solenes do Magistério eclesiástico, têm eficácia na informação do povo nas coisas da fé e no levantá-lo às alegrias interiores da vida as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos, o mais das vezes, são tomados em consideração por poucos homens eruditos, as festas, porém, comovem e ensinam a todos os fiéis; aqueles só falam uma vez, esses, porém, por assim dizer, todo ano e em perpétuo; aqueles impressionam, de maneira salutar, sobretudo a mente, estas, porém, não só a mente mas também o coração, enfim todo o homem. Na verdade, sendo o homem composto de alma e de corpo, precisa ser solicitado pelas solenidades exteriores, de forma que pela variedade e beleza dos ritos sagrados, receba no ânimo os ensinamentos divinos e, convertendo-os em substância e sangue, sirvam-lhes ao progresso de sua vida espiritual (n. 13).

Sendo nós compostos, portanto, de corpo e alma, e podendo ter acesso às riquezas da liturgia católica pelo menos através da internet, deixemo-nos solicitar “pela solenidades exteriores” com que a Igreja desde sempre adornou o culto divino:

No vídeo acima, extraído da composição de Mozart para a Missa de Exéquias, a orquestra impressiona-nos com um canto a Jesus Cristo, “Rei de tremenda majestade”. Rex treméndae maiestátis, qui salvándos salvas gratis, salva me, fons pietátis, diz o texto litúrgico. “Rei de tremenda majestade, que de graça salvais os que devem ser salvos, salvai-me, fonte de piedade”.

A sequência Dies irae, da qual é retirada esta breve oração, está presente na Missa pelos defuntos da Forma Extraordinária do Rito Romano. Na Forma Ordinária, porém, ainda é possível cantá-la como hino facultativo na última semana da Liturgia das Horas (a sua composição para o canto gregoriano pode ser ouvida e aprendida aqui). Em episódio do programa “Ao vivo com Pe. Paulo”, já tivemos a oportunidade de meditar sobre esse hino completo.

Celebrar a solenidade de Cristo Rei, ao fim do ano litúrgico, é celebrar o “Rei de tremenda majestade” diante do qual compareceremos ao término de nossa passagem neste mundo. O belo arranjo de Mozart pode nos ajudar a ter uma noção (ainda que muito insipiente) do que será esse encontro terrível e ao mesmo tempo consolador entre a misericórdia divina e a grande miséria que somos nós.

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