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A Missa é a Missa, “seja lá como for”?
Liturgia

A Missa é a Missa, “seja lá como for”?

A Missa é a Missa, “seja lá como for”?

Sim, a Sagrada Eucaristia é sempre a Sagrada Eucaristia, mas e nós? Estamos nos acercando deste augusto mistério com a reverência, o temor, a concentração e a efusão de beleza devidas ao Santíssimo Sacramento?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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É comum que os católicos amantes da liturgia tradicional — ou que pelo menos desejam ver a moderna celebrada em clara continuidade com a precedente — ouçam de algumas pessoas algo parecido com isto:

Você está fazendo muito caso de coisas marginais. Não importa a forma ou o estilo, é a mesma Eucaristia, não? No latim ou em língua vernácula, Tridentina ou Novus Ordo, cantada ou rezada, em um auditório na América ou em uma catedral na Europa, a Eucaristia ainda está presente, e ainda somos alimentados por ela. Comparado a isso, nada mais realmente importa, não acha? O resto é acidental, externo, discutível, mutável. Na verdade, alguém que se prende a cerimônias, rubricas, cantos e por aí vai, só demonstra estar alheio ao que é essencial. Afinal de contas, seja como for, a Missa é a Missa.

O problema com essa forma de pensar é que ela subestima radicalmente quer a influência que tem sobre aquilo em que cremos o modo como adoramos (lex orandi, lex credendi), quer a disposição em que nos é capaz de colocar para receber Nosso Senhor um espírito correto de adoração e humildade. Ela reflete a antropologia materialista moderna onde nada importa a não ser “finalizar o trabalho”; se ele é feito de maneira nobre ou medíocre parece não fazer a mínima importância. Ela demonstra, ainda, uma incrível ingenuidade quanto à sutil interseção da economia sacramental com a psicologia humana. E representa, por fim, uma ruptura com vinte séculos de pensamento e prática católicas.

Sim, a Sagrada Eucaristia é sempre a Sagrada Eucaristia, mas e nós? Estamos nos acercando deste augusto mistério com a reverência silenciosa, o temor vivo de Deus, a solene concentração e a generosa efusão de beleza que são devidas ao Sanctissimum? E se não estamos, por que não o fazemos? O que isso diz a respeito da pureza da nossa fé e do ardor da nossa caridade? Teriam os sagrados mistérios cessado de nos impressionar, de nos encher de admiração, de nos colocar de joelhos, de requerer o melhor da nossa cultura? Com quem temos brincado — com Deus ou com nós mesmos? 

A Missa é sempre a Missa no que diz respeito à confecção da Eucaristia, mas uma Missa que tem como marca a reverência e a solenidade é muito diferente para nós e para o nosso relacionamento com Deus do que uma Missa rápida e insípida, ou uma que seja longa e cheia de abusos. Na verdade, se deformamos demais os aspectos ditos “externos” da Missa, terminamos por minar nossa fé na presença real de Jesus na Eucaristia.

O Santíssimo Sacramento é o maior tesouro da Igreja, o seu dom mais precioso, o seu maior mistério, a sua maior fonte de prodígios, o seu segredo mais privilegiado. É o coração pulsante de toda a sua vida apostólica e contemplativa. E o santo sacrifício da Missa é o único meio através do qual esse dom chega até nós, renovado para cada geração de discípulos. Desonre a Santa Missa ou abuse dela, faça-a parecer menos bela e misteriosa do que ela é, e você estará tirando a honra e abusando de ninguém menos que Aquele que vem até nós, e só através dela; você estará deformando a fé e os fiéis.

A música sacra é a veste da palavra — e que bela veste ela deve ser, para ser digna dessa divina pronúncia! O templo é o lugar em que Nosso Senhor eucarístico vem fazer sua morada: Emanuel, Deus conosco. Também ele deve parecer o que de fato é, sem lugar a confusões. Paramentos, objetos, ações rituais — em suma, tudo o que diz respeito à ação litúrgica — devem ser como o Corpo e o Sangue de Cristo: santo, sagrado, separado. Tudo o que não é o Senhor deve ser o seu trono visível, o seu domínio sagrado, belo, solene e admirável, a fim de que tomemos consciência: estamos recebendo nosso Rei quando Ele vem ao seu Reino. 

Por isso, na próxima vez que alguém lhe disser: “A Missa é a Missa, seja lá como for”, considere responder assim: “Jesus não é Jesus, Ele é o Filho de Deus, o Rei de todas as coisas, o Juiz dos vivos e mortos; e a Missa não é a Missa, ela é o santo sacrifício do Calvário presente de novo em nosso meio. E assim como qualquer pessoa sã cairia de joelhos diante de Jesus e daria a Ele o melhor possível de si, nós todos devemos fazer o mesmo com o santo sacrifício da Missa, durante o qual nós verdadeiramente nos prostramos diante do Senhor do céu e da terra — e isso é o mínimo que se deve exigir de todo sacerdote e leigo católico que ousar colocar os seus pés em uma igreja”.

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A Páscoa falsificada
Espiritualidade

A Páscoa falsificada

A Páscoa falsificada

A Páscoa é o maior triunfo de Deus porque é a vitória da Cruz. Aí reside a alegria crescente do Terceiro Dia, e ela ressoará pelos corredores da eternidade. Não há separação possível: o Crucificado é o Ressuscitado. O resto são falsificações.

Fr. John A. PerriconeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Para celebrar devidamente a Páscoa, talvez tenhamos de recordar A pregação e as ações do Anticristo, obra-prima de Luca Signorelli, de 1499. Hoje ela se encontra na capela de São Brício, na cidade italiana de Orvieto. À primeira vista, Cristo parece estar em primeiro plano. Até que o observador percebe que aquele não é Cristo de jeito nenhum, mas um impostor. Mais do que isso: trata-se do Anticristo; Satanás, na verdade. Mas como se pode constatar isso? Só um olhar católico instruído poderia sabê-lo. 

O diabo aponta para o seu coração. Mas não seria esse um gesto comum do Salvador desde as admiráveis revelações do Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque? Sim, mas algo está visivelmente faltando: não há chagas no corpo de Cristo. Nos muitos simulacros de Cristo ao longo dos séculos, a pele lisa desprovida das feridas do Gólgota entrega que se trata de um falso Salvador. Só aquelas chagas distinguem a presença do verdadeiro Redentor; os outros são falsificados.

O cristianismo falsificado sempre se compraz em mostrar o coração de Cristo, mas não o seu coração trespassado. Deste simbolismo aparentemente inofensivo provém o credo invertido do cristianismo falsificado. Ele está centrado não no amor sacrificial, mas no “amô” sentimental, uma tentação perene para todos os filhos decaídos de Adão e Eva. Mesmo Albert Camus, um existencialista por completo, ecoou essa verdade quando escreveu: “As gerações futuras serão capazes de sintetizar a nossa cultura em duas proposições: eles fornicavam e liam os jornais”. Esse falso cristianismo vira a verdade do Evangelho do avesso, ditando a bonomia como seu imperativo de ferro.

Essa inversão cômica da grandeza da cruz deixava desgostoso o jornalista Graham Greene e fazia-o dizer, com impaciência e delicioso desprezo: “Quando ouço o apelo ao amor fraternal, penso em Caim e Abel”. Ao invés de Cristo crucificado, eles pregam sentenciosamente os jargões de sua cultura decadente misturados com clichês que sufocam ao invés de corrigir. O vazio deles é captado por T. S. Eliot em A canção de amor de J. Alfred Prufrock, com escárnio perfeito: “Medi minha vida em colheres de café”. O destino final dos que se casam com esse cristianismo falsificado é afundar com cada vez mais segurança no pântano da autossatisfação.

Detalhe de “A pregação e as ações do Anticristo”, de Luca Signorelli.

Estamos diante de uma traição grosseira da Páscoa. Esta é o maior triunfo de Deus porque é a vitória da Cruz. Aí reside a alegria crescente do Terceiro Dia, e ela ressoará pelos corredores da eternidade. Não há separação possível: o Crucificado é o Ressuscitado.

Durante a época do Grande Terror, aquele resultado imediato do encerramento do Concílio Vaticano II, armou-se um grande esforço para apagar boa parte do cristianismo histórico. Frases de efeito estéreis tomaram o lugar da doutrina imemorial. Uma das mais insípidas foi uma recém-cunhada atribuição dada aos católicos: um povo pascal. Tão vaga quanto juvenil, ela apreendia o todo do cristianismo falsificado: uma identidade “religiosa” sem o Calvário. A frase estéril felizmente desapareceu, mas seu espírito não. Ele paira sobre muitas igrejas e liturgias como alcatrão gotejante. Infelizmente, ele entra na alma de forma lenta mas efetiva, corrompendo-a.

Página após página, os santos Evangelhos desmentem essa fraude. Quando Cristo se senta sobre o túmulo vazio, Ele o faz ostentando as chagas de sua crucificação como troféus. Pois seu corpo ressuscitado é seu corpo crucificado; a vitória da Ressurreição é a proclamação do triunfo do Gólgota. No cenáculo, Nosso Senhor encontra o hesitante Tomé como um general vitorioso que retorna da batalha. Recorde o que faz o Salvador: Ele coloca as mãos do apóstolo nos buracos onde a lança perfurou e os pregos trespassaram. Note que, assim que o Salvador oferece “paz” aos Apóstolos, Ele lhes mostra suas chagas. Tal gesto é um golpe retumbante naqueles que desejam efeminar Cristo e neutralizar seu apelo revigorante a que tomemos a nossa cruz e o sigamos.

Sorrisos melosos, linguagem inclusiva e canções alegres simplesmente não são o bastante. Eles desaparecem como ciscos de poeira em um incêndio. Mesmo agora, Cristo está sentado à direita de seu Pai, no Céu, com corpo glorificado, ainda mais belo graças às insígnias do Calvário — as santas chagas que, no ensinamento de Santo Tomás, “iluminam os recintos do céu como rubis e safiras”.

O Venerável Fulton Sheen escreveu certa vez que a Via Pacis é a Via Crucis, “o caminho da paz é o da cruz”. Esta é a sua versão da antiga jaculatória: Ave crux, spes unica, “Salve cruz, única esperança”. Sem a cruz, a vida carece de alegria, esperança e paz. Aqui o paradoxo do cristianismo atinge o homem moderno como um cometa veloz, deixando-o atordoado. O grande bispo continua com palavras que facilmente desmascaram o cristianismo falsificado: “Deus odeia a paz naqueles que foram destinados para a guerra”. Os católicos secularizados veem nisso um grande exagero. Eles guincham: “Somos uma religião de paz”. Mas, para manter esse tipo de inanidade, eles precisam confrontar o próprio Deus: “Pensais que vim trazer a paz ao mundo? Vim para trazer não a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). Que guerra? Que espada? A única verdadeira: a guerra contra o pecado; contra o erro e as mentiras do mundo; contra nossa fraquezas e transigências; nossas complacências e indulgências. Essas são as únicas guerras dignas de ser travadas. É a vitória nessas guerras que traz a paz.

Que os bons católicos se deleitem nas alegrias de Cristo ressuscitado. Não nos cansemos de repetir a antífona antiga: Christus resurrexit! Vere resurrexit! — “Cristo ressuscitou! Ressuscitou realmente!” Deleitemo-nos no mistério do sepulcro vazio. Mas não nos esqueçamos de onde vem essa perfeita vitória divina — apenas da derrota retumbante de Satanás e de seu reino infernal. E isto pela arma da Cruz invencível de Cristo. Cuidado com o Cristo falsificado. Ele irá cortejar os desavisados com mensagens que repousam confortavelmente sobre a natureza decaída do homem. Ele irá usar uma linguagem de reaproximação com o espírito do mundo. E ela soará, oh! tão razoável, oh! tão doce

Fiquem apenas com o verdadeiro Cristo ressuscitado, aquele que nos convida a descansar sobre as suas chagas. Insistam apenas em Deus.

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Uma homilia de Pio XII para uma Páscoa especial
Espiritualidade

Uma homilia de Pio XII
para uma Páscoa especial

Uma homilia de Pio XII para uma Páscoa especial

“Reconheçam todos que não pode haver serena tranquilidade para as almas, os povos e as nações, a não ser que todas as coisas se componham segundo aquela reta ordem que nasce dos preceitos evangélicos e é confirmada e sustentada pela graça divina.”

Papa Pio XIITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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No solene dia da Páscoa, em pleno Jubileu de 1950, durante a Missa de Ressurreição na Basílica de São Pedro, o Papa Pio XII leu em latim uma breve mas tocante homilia para os fiéis ali presentes. Recordando a doutrina do Corpo místico, o Pontífice ensinava que é impossível haver uma ordem civil justa e serena se não reina na alma dos cidadãos a justiça e a paz que só a graça influencia, só a obediência a uma Lei mais alta sustenta.

Eis a íntegra desta homilia, proferida em 11 de abril de 1950. Seu texto original, em latim, encontra-se disponível no site do Vaticano (cf., também, AAS 42 (1950) 279-282). A tradução para a língua portuguesa foi feita por nossa equipe.


Homilia do Papa Pio XII para o solene dia da Páscoa,
proferida durante a Missa na Basílica Vaticana aos 11 de abril de 1950

Veneráveis Irmãos, diletos filhos,

Enquanto hoje comemoramos cheios de veneração o divino Redentor, que ressurge triunfante da morte, vem à Nossa mente aquela palavra plena de suma sabedoria do Apóstolo dos gentios, ao escrever sobre Cristo: “Foi entregue pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4, 25). Ele, com efeito, pelos suplícios que livremente suportou e derramando até a morte seu preciosíssimo sangue, expiou os nossos pecados e restituiu-nos, redimidos da escravidão do demônio, à liberdade dos filhos de Deus.

Quando, porém, se ergueu vitorioso do sepulcro, não só alimentou e confirmou a fé dos Apóstolos e a nossa, não só, por seu exemplo, nos convidou a caminhar consigo até o Céu e, refulgindo em corpo glorioso, nos mostrou algo da futura bem-aventurança eterna, mas derramou também a mancheias seus divinos carismas e ordenou à Igreja por si constituída que nutrisse com a graça superna e conduzisse à vida nova todos os homens que de bom grado obedecessem aos seus preceitos. Por esta razão, como aguda e lucidamente nota o Doutor Angélico, “quanto […] à eficiência, que é pela virtude divina, tanto a paixão de Cristo quanto a ressurreição são causa da justificação […], mas, quanto à exemplaridade, propriamente a paixão e morte de Cristo é causa da remissão da culpa, pela qual morremos ao pecado; a ressurreição de Cristo, porém, é causa da vida nova, que é pela graça, ou justificação” (STh III 56, 2 ad 4).

Todos nós, pois, que ao longo dos últimos dias, especialmente durante a Semana Santa, recordando piedosamente as dores e angústias de Jesus Cristo, éramos incitados de modo particular a purificar a alma de suas manchas e a dar morte a nossos pecados — os quais, aliás, foram a causa da divina Redenção —, hoje, nesta superna luz da Páscoa e com efusiva alegria, somos chamados àquela restauração e renovação de vida a que os próprios mistérios celebrados suavissimamente nos impelem. Somos o Corpo místico de Jesus Cristo; aonde pois se dirigiu a glória da Cabeça, para lá é chamada a esperança também do Corpo. “Assim como Cristo ressuscitou dos mortos […], assim nós vivamos uma vida nova” (Rm 6, 4). E do mesmo modo que “Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais, nem a morte terá sobre ele mais domínio” (Rm 6, 9), assim também nós, movidos por seu exemplo e fortalecidos por sua graça, não só nos despojemos “do homem velho, o qual se corrompe pelas paixões enganadoras” (Ef 4, 22), mas também “nos renovemos no nosso espírito e nos nossos pensamentos, e revistamo-nos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeiras” (Ef 4, 24).

Estas belíssimas palavras e exortações do Apóstolo dos gentios parecem, de modo particularíssimo, oportunas às solenidades pascais deste Ano Sacro, enquanto os cristãos do mundo inteiro — abertos os tesouros espirituais da Igreja —, são chamados não só a expiar seus pecados, não só a uma forma de vida mais perfeita, mas também a se esforçar com empenho para que todos, purificados de suas culpas e depondo seus erros e preconceitos, se aproximem de bom grado e de boa vontade do único que é o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14, 6). Reconheçam todos que não pode haver serena tranquilidade para as almas, os povos e as nações, a não ser que todas as coisas se componham segundo aquela reta ordem que nasce dos preceitos evangélicos e é confirmada e sustentada pela graça divina.

Meditem no que Cristo diz aos Apóstolos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou, como a dá o mundo” (Jo 14, 27).

Quantos crimes, quantas discórdias, quantas mortes e guerras — como temos experimentado com enorme tristeza — provêm de terem os homens abandonado aquele reto caminho que o divino Redentor indicou com o fulgor de sua luz e consagrou com seu sangue derramado! A ele pois há que se voltar privada e publicamente. E com mente atenta se deve considerar que não pode uma sólida paz governar as cidades sem antes moderar e dirigir primeiro as almas dos cidadãos. É necessário, por conseguinte, coibir com firmeza os apetites túrbidos e desordenados, fazê-los obedientes à razão e esta, enfim, a Deus e à lei divina. A este propósito nos ensina com acerto, embora fosse pagão, o maior orador romano: “A estas perturbações, que a insensatez arroja à vida dos homens e incita qual certas Fúrias, há que resistir com todas as forças e recursos, se queremos isto: viver o que foi dado à vida tranquila e placidamente” (Cícero, Tusc. III 11). Ora, destes “males a cura está posta somente na virtude” (Id., IV 15). Viva pois nas almas, floresça no ambiente doméstico, triunfe na sociedade civil a virtude cristã, a única da qual é lícito esperar aquela renovação dos costumes e a reta e ordenada restauração das coisas públicas que é desejo de todos os bons. Cristo, como bem sabeis, não apenas — o que os filósofos fazem — nos ensina a virtude, senão que também nos exorta com seu exemplo a trabalhar por adquiri-la; excita-nos a vontade, fortalecendo-a com sua graça superna; e, proposto o prêmio da felicidade celeste, nos atrai e impele. Se todos o seguirem, poderão gozar aquela serenidade interna que é a perfeição da alegria (cf. S. Tomás, STh I-II 70, 3), ainda que devam tolerar angústias, perseguições e a injustiça dos homens, porque lhes sucederá o mesmo que sucedeu outrora aos Apóstolos, que “saíam da presença do Sinédrio, contentes por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5, 41).

E, além disso, se de fato todos possuírem esta paz interna e verdadeira, que se funda na lei divina e é alimentada pela divina graça, então não há dúvida de que também a “ordenada concórdia” (S. Agostinho, De civ. Dei XIX, 13) — extintos os ódios, sedados os maus desejos e feita, segundo os imperativos da justiça e da caridade, uma melhor distribuição das riquezas — poderá felizmente nascer para as ordens civis, os povos e as nações. 

É o que Nós, com preces suplicantes, imploramos ao divino Redentor, a quem hoje celebramos ressuscitado e vencedor da morte, enquanto a vós, Veneráveis Irmãos e diletos filhos, repetimos aquelas belíssimas palavras do Apóstolo dos gentios, tão apropriadas para este dia solene: “Alegrai-vos, procurai ser perfeitos, encorajai-vos, tende o mesmo sentir, vivei em paz, e o Deus da caridade e da paz será convosco” (2Cor 13, 11). Amém.

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O corpo incorrupto de Santa Bernadete de Lourdes
Santos & Mártires

O corpo incorrupto de
Santa Bernadete de Lourdes

O corpo incorrupto de Santa Bernadete de Lourdes

Basta observar o corpo intacto de Bernadete Soubirous, em seu relicário, para ter diante de si todos os eventos extraordinários de Lourdes. Aí, de alguma forma, essa vidente de Nossa Senhora está viva. E suas mensagens ressoam com a mesma clareza daqueles dias...

Pe. Andre RavierTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2021Tempo de leitura: 16 minutos
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Em 1925, camadas muito finas de cera foram colocadas sobre o rosto e as mãos do corpo de Santa Bernadete, a fim de disfarçar-lhe os olhos e o nariz fundos, bem como o tom enegrecido do rosto e das mãos [1]. Mas durante a primeira exumação do corpo, em 1909, o rosto de Bernadete era de um “branco opaco”, não era ainda possível ver profundidade em seus olhos e ela tinha as mãos “perfeitamente intactas”. Só o nariz se encontrava já “dilatado e cheio de rugas”. Bernadete — ou Irmã Marie-Bernard, como era conhecida dentro de seu convento — morrera a 16 de abril de 1879, com 35 anos, na Enfermaria Santa Cruz do Convento de São Gildard, sem que seu corpo fosse embalsamado ou tratado de forma especial.

Nascida em uma família humilde que pouco a pouco caiu na extrema miséria, Bernadete sempre foi uma criança frágil. Desde a mais tenra idade sofria com problemas digestivos e, em 1855, depois de escapar de uma epidemia de cólera, passou a sofrer dolorosos ataques de asma. A má saúde quase lhe custou, de maneira definitiva, o ingresso na vida religiosa. Instada por monsenhor Forcade a aceitar Bernadete, a madre Louise Ferrand, superiora das Irmãs de Nevers, respondeu: “Monsenhor, ela será um pilar de nossa enfermaria.”

Santa Bernadete, em fotografia de 1861 ou 1862.

Por pelo menos três vezes ao longo de sua curta existência Bernadete recebeu os últimos sacramentos. Além da asma, ela foi gradualmente acometida por outras doenças, entre as quais uma tuberculose nos pulmões e um tumor tuberculoso no joelho direito. Na manhã de quarta-feira, dia 16 de abril de 1879, sua dor piorou muito. Pouco depois das 11h, sentindo-se quase asfixiada, Bernadete foi levada para uma poltrona, onde se sentou com os pés sobre um escabelo, em frente a uma lareira ardente. Ela morreu por volta das 15h15min. 

As autoridades civis permitiram que seu corpo ficasse exposto para veneração pública até o sábado, 19 de abril, quando ele foi finalmente “depositado em uma urna funerária de chumbo e de carvalho, selada na presença de testemunhas que assinaram um registro dos eventos”. Entre as testemunhas se encontrava “o juiz de paz Devraine e os agentes policiais Saget e Moyen”. 

As Irmãs de São Gildard, com o apoio do bispo de Nevers, solicitaram permissão às autoridades para sepultar o corpo de Bernadete em uma pequena capela dedicada a São José, no interior do convento em que viviam. A permissão foi concedida em 25 de abril de 1879 e, no dia 30 seguinte, a prefeitura local aprovou a escolha do lugar para o enterro. Imediatamente eles começaram a preparar o túmulo e, em 30 de maio de 1879, com uma cerimônia bastante simples, a urna de Bernadete foi finalmente transferida para a cripta da capela.

Primeira exumação, 22 de setembro de 1909. — No outono de 1909, estava completo o trabalho da comissão episcopal de investigar a reputação de Bernadete quanto à santidade, virtudes e milagres com vistas à canonização. O próximo passo era a primeira “identificação do corpo”, como era chamada, que envolvia tanto a identificação de acordo com a lei civil e canônica quanto a verificação do estado do cadáver.

O corpo foi exumado pela primeira vez numa quarta-feira, 22 de setembro de 1909. Os registros oficiais, que se mantêm nos arquivos de Saint Gildard, tornam possível acompanhar quase que passo a passo os procedimentos de identificação. 

O monsenhor Gauthey, bispo de Nevers, e o tribunal eclesiástico adentraram a capela principal do convento às 8h30min da manhã. Uma mesa foi posta na entrada do santuário, e sobre ela os santos Evangelhos. Uma por uma, as três testemunhas (o Abade Perreau, a madre superiora da Ordem, Marie-Josephine Forestier, e sua representante), os médicos (drs. Jourdan e David), os pedreiros Gavillon e Boue e os carpinteiros Cognet e Mary juraram dizer a verdade. 

O grupo se dirigiu então para o interior da capela. O prefeito e o vice-prefeito fizeram questão de cumprir eles mesmos as formalidades legais da ocasião. Assim que a pedra foi levantada do jazigo, o caixão ficou imediatamente visível. Ele foi carregado para uma sala devidamente preparada para isso e colocado sobre dois cavaletes cobertos por um tecido. A um lado se encontrava uma mesa coberta com um pano branco. O corpo — ou, se fosse o caso, os ossos — de Bernadete devia ser colocado sobre ela. 

A urna de madeira foi desparafusada e a de chumbo aberta, revelando o corpo de Bernadete em estado de perfeita conservação. Não havia sequer traço de mau cheiro. As irmãs que a haviam enterrado trinta anos antes notaram apenas que suas mãos haviam caído levemente para a esquerda. Mas as palavras do cirurgião e do médico, pronunciadas sob juramento, falam por si mesmas: 

O caixão foi aberto na presença do bispo de Nevers, do prefeito da cidade, de seu principal sucessor, de vários canonistas, bem como de nós mesmos. Não notamos nenhum mau cheiro. O corpo se encontrava vestido com o hábito da Ordem à qual pertencia Bernadete. O hábito estava úmido. Apenas o rosto, as mãos e os antebraços estavam descobertos.

A cabeça estava inclinada para a esquerda. O rosto era de um branco opaco. A pele estava grudada nos músculos e estes aderiram aos ossos. As órbitas oculares estavam cobertas pelas pálpebras. As sobrancelhas estavam retas na pele e grudadas às arcadas acima dos olhos. Os cílios da pálpebra direita estavam presos à pele. O nariz estava dilatado e enrugado. A boca se encontrava levemente aberta e era possível ver os dentes ainda no lugar. As mãos, cruzadas sobre o seu peito, estavam perfeitamente preservadas, bem como as unhas. As mãos ainda seguravam um rosário enferrujado. Chamavam atenção as veias nos antebraços.

Como as mãos, os pés estavam enrugados e as unhas dos pés ainda estavam intactas (uma delas foi arrancada quando o cadáver foi lavado). Quando os hábitos foram removidos e o véu foi levantado da cabeça, era possível ver o todo do corpo emurchecido, rígido e esticado em cada membro.

Verificou-se que o cabelo, que havia sido cortado curto, estava preso à cabeça e ainda ligado ao crânio; que as orelhas estavam em um estado de perfeita conservação; e que o lado esquerdo do corpo achava-se levemente mais alto que o direito do quadril para cima.

O estômago cedeu e estava esticado, como o resto do corpo. Ele parecia um papelão quando atingido.

O joelho esquerdo não era tão grande quanto o esquerdo. Sobressaíam-se as costelas, bem como os músculos nos membros.

Achava-se tão rígido o corpo, a ponto de ser possível virá-lo e revirá-lo para ser lavado.

As partes inferiores do corpo haviam se tornado levemente enegrecidas. Isso parece ter sido resultado do carbono, do qual grandes quantidades foram encontradas no caixão.

Como prova de tudo isso, redigimos devidamente a presente declaração, na qual tudo está registrado com veracidade.

Nevers, 22 de setembro de 1909.

Drs. Ch. David, A. Jourdan.

As religiosas procederam à lavagem do corpo e depositaram-no em um novo caixão forrado com zinco e acolchoado com seda branca. Nas poucas horas em que ficou exposto ao ar, o corpo havia começado a enegrecer. O duplo caixão foi fechado, soldado, parafusado e lacrado com sete selos. 

Os trabalhadores mais uma vez colocaram o corpo de Bernadete na sepultura. Eram 17h30min quando todo o processo havia terminado. 

O fato de o corpo de Bernadete ter-se encontrado em estado de perfeita conservação não necessariamente é milagroso. Sabe-se que cadáveres se decompõem menos em certos tipos de solo e gradualmente se mumificam. Deve-se notar, no entanto, que no caso de Bernadete esse estado de mumificação é bastante surpreendente. Suas enfermidades e o estado de seu corpo quando morreu, a umidade na sepultura da capela de São José (seu hábito estava úmido, o rosário oxidado e o crucifixo esverdeado), tudo aparentemente devia conduzir à desintegração de sua carne. Deveríamos alegrar-nos, portanto, de que Bernadete se tenha beneficiado de um fenômeno biológico tão raro. Mas não se trata de um “milagre” no sentido estrito da palavra.

Segunda exumação, 3 de abril de 1919. — Em 13 de agosto de 1913, o Papa Pio X, em consequência de uma decisão da Congregação dos Ritos, autorizou a introdução da causa de beatificação e canonização de Bernadete Soubirous e assinou o decreto de venerabilidade. A guerra estourou e tornou-se impossível retomar o caso novamente de maneira imediata, o que só se deu em 1918, quando já era bispo de Nevers o monsenhor Chatelus. Isso tornou necessária outra identificação do corpo da agora Venerável Bernadete. Pediu-se aos drs. Talon e Comte que procedessem ao exame, que se deu em 3 de abril de 1919, na presença do bispo de Nevers, do comissário de polícia, dos representantes municipais e dos membros do tribunal eclesiástico. 

Tudo se encontrava do mesmo modo quando da primeira exumação. Fizeram-se os devidos juramentos, abriu-se a sepultura, o corpo foi transferido para um novo caixão e enterrado novamente, tudo em atenção à lei canônica e à lei civil. Depois de examinarem o corpo, os médicos se retiraram sozinhos para salas separadas a fim de escreverem seus registros pessoais, sem que pudessem consultar os relatórios um do outro. 

Os dois relatórios coincidiam perfeitamente entre si e também com o relatório de 1909 dos doutores Jourdan e David. Só havia um novo elemento relativo ao estado do corpo: a presença de “manchas de mofo e de uma camada de sal, que parecia ser de cálcio”, e que provavelmente fora resultado da primeira lavagem do corpo, quando da primeira exumação. Citamos a seguir apenas as primeiras linhas do relatório do dr. Comte: 

Quando o caixão foi aberto, o corpo aparentava estar absolutamente intacto e desprovido de mau odor. (Dr. Talon foi mais específico: “Não havia cheiro algum de putrefação e nenhum dos presentes experimentou qualquer desconforto.”) O corpo está praticamente mumificado, coberto com manchas de mofo e notáveis camadas salinas, que parecem ser de cálcio. O esqueleto está completo e seria possível transportá-lo para uma mesa sem qualquer dificuldade. A pele desapareceu em alguns lugares, mas ainda está presente na maior parte do corpo. Algumas das veias ainda estão visíveis.

Às 17h daquele dia o corpo foi enterrado de novo na capela de São José, na presença do bispo, da madre Forestier e do comissário de polícia. 

Terceira exumação, 18 de abril de 1925. — Em 18 de novembro de 1923, o Papa reconheceu a autenticidade das virtudes de Bernadete e estava aberto o caminho para sua beatificação.

Uma terceira e última identificação do corpo era requerida para a sua declaração como beata. As relíquias, que teriam como destino Roma, Lourdes e casas da Ordem, seriam retiradas durante essa exumação.

Os drs. Talon e Comte foram novamente requisitados para examinar o corpo, e seria o dr. Comte, cirurgião, a remover-lhe as relíquias.

A cerimônia se deu em 18 de abril de 1925, quarenta e seis anos e dois dias após a morte de Bernadete. Realizou-se privadamente, como a lei canônica exige que aconteça quando a beatificação ainda não foi declarada. Estavam presentes as religiosas da comunidade, o bispo, os vigários gerais, o tribunal eclesiástico, duas testemunhas “instrumentais”, os dois médicos, o comissário de polícia Mabille e, representando as autoridades municipais, Leon Bruneton.

Às 8h30min, na capela do convento, os dois médicos, cujo trabalho era examinar o corpo para a identificação oficial, e os pedreiros e carpinteiros que deveriam abrir o jazigo e tirar o caixão fizeram os juramentos de rotina sobre os Evangelhos.

“Eu juro e prometo fielmente desempenhar o encargo que me foi designado”, declararam os médicos, “e dizer a verdade nas respostas que der às questões que me forem colocadas e nas declarações escritas sobre o exame do corpo da Venerável Serva de Deus, Irmã Marie-Bernard Soubirous, e na retirada de suas relíquias. Isto prometo e faço voto de cumprir. Ajudem-me Deus e os santos Evangelhos.” Cada um dos operários também fez um juramento: “Com minha mão sobre os Evangelhos de Deus eu juro e prometo fielmente desempenhar o encargo que me foi designado. Ajudem-me Deus e os santos Evangelhos.”

O grupo, então, buscou o caixão de Bernadete na capela de São José em procissão e conduziu-o à capela de Santa Helena.

A seguir algumas passagens do relatório do dr. Comte: 

A pedido do bispo de Nevers, separei e removi a seção posterior da quinta e sexta costelas direitas como relíquias; notei que havia uma massa resistente e dura no tórax, que era o fígado coberto pelo diafragma. Também retirei um pedaço do diafragma e do fígado embaixo dele como relíquias, e posso afirmar que esse órgão estava em um estado notável de preservação. Também removi os dois ossos da patela aos quais a pele estava ligada e os quais estavam cobertos com mais matéria de cálcio aderente.

Por fim, removi os fragmentos musculares direitos e esquerdos da parte externa das coxas. Também esses músculos se encontravam em ótimo estado de preservação e não pareciam estar minimamente putrefeitos

A partir dessa verificação concluí que o corpo da Venerável Bernadete está intacto; o esqueleto, completo; os músculos, apesar de atrofiados, estão bem preservados; só a pele, que murchou, parece ter sofrido os efeitos da umidade no caixão. Ela assumiu uma cor cinzenta e está coberta com manchas de mofo e um número considerável de cristais e sais de cálcio; mas o corpo não parece ter-se putrefeito, nem se verificou qualquer decomposição do cadáver, ainda que isso fosse o normal a se esperar depois de um período tão longo dentro de uma vala escavada na terra.

Três anos depois, em 1928, o dr. Comte publicou um “relatório sobre a exumação da Beata Bernadete” na segunda edição do Bulletin de l’Association medical de Notre-Dame de Lourdes, onde escreveu: 

Eu gostaria de ter aberto o lado esquerdo do tórax para retirar as costelas como relíquias e, então, remover o coração, cuja preservação estou certo de que aconteceu. No entanto, o tronco estava levemente apoiado sobre o braço esquerdo, e teria sido bastante difícil tentar chegar ao coração sem causar muitos danos perceptíveis ao corpo. Como a madre superiora exprimiu o desejo de que o coração da santa fosse mantido com o restante do corpo, e o bispo não insistiu, desisti da ideia de abrir o lado esquerdo do tórax e contentei-me em remover as duas costelas direitas, que estavam mais acessíveis.

O cirurgião ficou particularmente impressionado com o estado de preservação do fígado:

O que me impressionou durante a verificação, é claro, foi o estado de perfeita preservação do esqueleto, dos tecidos fibrosos dos músculos (ainda firmes e flexíveis), dos ligamentos e da pele e, sobretudo, a condição totalmente inesperada do fígado depois de 46 anos. O normal seria que esse órgão, basicamente macio e com tendência a se desintegrar, tivesse se decomposto bem rapidamente ou se enrijecesse e assumisse uma consistência calcária. Apesar disso, quando cortado, ele se encontrava macio e com a consistência praticamente normal. Ressaltei isso a todos que estavam presentes, observando que aquele não parecia ser um fenômeno natural

Concluída a fase cirúrgica, o dr. Comte envolveu o corpo com ataduras, deixando livres apenas o rosto e as mãos. O corpo de Bernadete foi então colocado de volta no esquife, mas descoberto. A essa altura, uma impressão precisa da face foi moldada, a fim de que a empresa Pierre Imans, de Paris, confeccionasse uma máscara de cera clara para ela, tomando como base as impressões e algumas fotos genuínas. O temor era de que, por mais que o corpo se encontrasse mumificado, a coloração enegrecida do rosto e os olhos e o nariz encovados causassem ao público uma impressão desagradável.

Também se fizeram impressões das mãos, pelos mesmos motivos, tomando-se cuidado para não alterar de modo algum a posição delas no caixão.

O corpo foi deixado na capela de Santa Helena, mas as portas de acesso a ela foram fechadas e seladas, a fim de que ninguém entrasse. As religiosas que quisessem rezar perto do corpo de Bernadete só podiam vê-la através de uma divisória de vidro. 

Em 14 de junho de 1925, o Papa Pio XI oficialmente beatificou Bernadete. Mas, como não estivesse pronta a urna para o corpo — a qual estava sendo feita no ateliê da empresa de Armand Caillat Cateland, em Lion —, até o dia 18 de julho não foi possível colocar Bernadete em seu relicário. A cerimônia, ao chegar a data, foi bem simples. Uma vez que as autoridades eclesiásticas se certificaram de que tudo na capela de Santa Helena fora deixado como no dia 18 de abril, as religiosas vestiram o corpo de Bernadete com um novo hábito. O escultor tomou as máscaras de cera, feitas com base nas impressões, e colocou-as sobre o rosto e as mãos. Então o corpo foi trasladado numa maca branca até a sala das noviças. Cantou-se por fim o Ofício das Virgens, e o corpo foi depositado em seu relicário.

Na noite de 3 de agosto, a urna foi cerimonialmente transferida da sala das noviças até a capela do convento de São Gildard. Nos três dias subsequentes, 4, 5 e 6, rezaram-se Missas solenes em honra de Bernadete.

Foi em agosto de 1925 que se iniciaram as longas peregrinações dos amigos de Santa Bernadete. Entre eles sempre houve muitos turistas, movidos por pura curiosidade, e até céticos se unindo à multidão que reza.

O corpo de Santa Bernadete, repousando em seu relicário.

“Mas é esse realmente o corpo de Bernadete?”, eles perguntam. “Se é realmente o corpo dela, então ele não foi embalsamado?”

Respostas suficientes a essas questões encontram-se nos relatórios médicos das três exumações, todas elas realizadas sob o rigor do direito canônico e na presença de autoridades civis e eclesiásticas. Sim, é o corpo de Bernadete — intacto — que se encontra no relicário. “É como se estivesse mumificado”, para citar os médicos. Apenas algumas relíquias foram retiradas. Excelentes máscaras de cera foram colocadas sobre a face e as mãos, moldadas a partir de impressões tiradas diretamente do corpo e respaldadas por documentos fotográficos autênticos. Quem quer que viesse a contestar o estado desse corpo, por mais surpreendente que ele possa parecer, estaria questionando a sinceridade de pessoas cujo testemunho é normalmente considerado de autoridade: médicos, policiais, testemunhas juramentadas e membros do tribunal da Igreja.

Sim, esse é o corpo de Bernadete, na mesma atitude de meditação e oração em que ela viveu. É esse o rosto que se levantou dezoito vezes para avistar a “Senhora de Massabielle”; são essas as mãos que manusearam o rosário antes e durante as aparições; são esses os dedos que, ao arranhar a terra, fizeram aparecer uma milagrosa primavera; são esses os ouvidos que escutaram a mensagem e os lábios que repetiram o nome da Senhora ao padre Peyramale: “Eu sou a Imaculada Conceição”. É esse, também, o coração que carregou tão grande amor a Jesus Cristo, à Virgem Maria e aos pecadores. Basta observar esse corpo no relicário para ter diante de si todos os eventos extraordinários de Lourdes: algo da graça de Massabielle toca a alma de quem quer que o visite.

No metal ao redor do relicário encontram-se gravadas estas palavras: “A Virgem”.

Mas era necessário? Uma voz silenciosa alcança o mais profundo do nosso ser através deste corpo frágil, que parece estar absorto em Deus. Aqui Bernadete está presente. Aqui ela está rezando. Aqui está dando o seu testemunho. Ousamos dizer até: aqui, de alguma forma, Bernadete está viva. E as suas mensagens ressoam com a mesma clareza do primeiro dia: aqui Bernadete está cumprindo, dia após dia, diante de cada peregrino que a visita, a missão que a “Imaculada Conceição” lhe deu em nome de Deus. Bernadete nos lembra que Ele é Amor e não se cansa jamais de chamar-nos, a fim de que saiamos das trevas de nosso pecado para a sua Luz maravilhosa.

Notas

  1. Este texto foi baseado nos documentos presentes nos arquivos do convento de Saint Gildard, da diocese e da cidade francesa de Nevers (N.A.).

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Uma cronologia das aparições de Jesus Ressuscitado
Doutrina

Uma cronologia das
aparições de Jesus Ressuscitado

Uma cronologia das aparições de Jesus Ressuscitado

Como entender a sequência das aparições de Jesus Ressuscitado? Após anos de meditação, este sacerdote apresenta uma provável cronologia dos acontecimentos pascais, com base nos Santos Evangelhos e uma pitada de especulação.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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[Este texto é de autoria do Mons. Charles Pope. Em sua tradução para a língua portuguesa, foi levemente adaptado, aqui e ali.]

Quando lemos os relatos da Ressurreição no Novo Testamento, temos o desafio de colocar as cenas juntas, de forma que a sequência dos eventos se desenvolva em ordem lógica. Isso se deve a que nenhum Evangelho apresenta todas ou mesmo a maioria das informações. Alguns dados também parecem conflitantes. Mas esses conflitos são, em geral, apenas aparentes, e não conflitos de fato. Outra dificuldade em pôr os fatos lado a lado de maneira coerente é que a sucessão deles não fica clara em alguns relatos. Lucas e João são os mais precisos quanto ao tempo dos eventos descritos, enquanto Mateus e Marcos fornecem poucos parâmetros. Tanto os Atos dos Apóstolos quanto Paulo também oferecem relatos em que a sucessão dos acontecimentos nem sempre fica clara.

Pintura no interior de Saint-Joseph-des-Carmes, igreja parisiense.

Apesar disso, quero propor uma possível e, ouso afirmar, até mesmo provável sequência dos acontecimentos da Ressurreição. O trabalho é meu e não afirmo que o cenário seja certo ou se apóie em alguma autoridade antiga reconhecida [1].

Minha proposta é simplesmente o resultado de mais de 31 anos de oração e meditação sobre os eventos sucedidos nos quarenta dias entre a Ressurreição do Senhor e sua Ascensão. Minhas reflexões baseiam-se o mais solidamente possível na Bíblia, com uma pitada de especulação.

Compreendo que minha proposta irá irritar alguns estudiosos bíblicos modernos que parecem insistir em que seria errado tentar qualquer síntese dos textos, já que os próprios autores não pretenderam fazer uma.

Mesmo assim, prossigo com minha ousadia, na esperança de que o fiel se beneficie com isso e ache a síntese interessante. Considere-a pelo que ela é: a obra de um pastor desconhecido que rezou e procurou seguir com cuidado a sequência dos quarenta dias.

I. A manhã do primeiro dia

  1. Bem cedo pela manhã, um grupo de mulheres, incluindo Maria Madalena, aproxima-se do túmulo para concluir os costumes funerários em honra a Jesus (cf. Mt 28, 1; Mc 16, 1; Jo 20, 1).
  2. Elas veem o sepulcro aberto e ficam alarmadas.
  3. Maria Madalena corre para contar a Pedro e João a notícia sobre prováveis ladrões de túmulo (cf. Jo 20, 2).
  4. As mulheres que permanecem no túmulo encontram um anjo, que lhes declara que Jesus ressuscitou e que elas devem contar isso aos irmãos (cf. Mc 16, 5; Lc 24, 4; Mt 28, 5).
  5. A princípio, as mulheres ficam assustadas e saem da tumba com medo de falar (cf. Mc 16, 8).
  6. Recuperada a coragem, elas decidem ir até os Apóstolos (cf. Lc 24, 9; Mt 28, 8).
  7. Enquanto isso, Pedro e João vão ao túmulo para averiguar a alegação de Maria Madalena. Esta, que segue atrás deles, chega de volta ao túmulo, enquanto Pedro e João ainda estão lá. Pedro e João descobrem o túmulo vazio; eles não encontram nenhum anjo. João acredita na ressurreição. Não sabemos a que conclusão chegou Pedro.
  8. As outras mulheres relatam aos demais Apóstolos o que o anjo na tumba lhes tinha dito. Pedro e João ainda não voltaram do túmulo, e os outros Apóstolos, a princípio, desprezam a história das mulheres (cf. Lc 24, 9-11).
  9. Maria Madalena, demorando-se no túmulo, chora e tem medo. Ao olhar para dentro da tumba, vê dois anjos que lhe perguntam o motivo do choro. Jesus então se aproxima dela por trás. Sem olhar diretamente para Jesus, ela supõe que seja o jardineiro. Quando Ele a chama pelo nome, Maria reconhece-lhe a voz, vira-se e o vê. Cheia de alegria, ela tenta abraçá-lo. É a 1.ª aparição (cf. Jo 20, 16).
  10. Jesus envia Maria de volta aos Apóstolos com a notícia, a fim de prepará-los para seu aparecimento mais tarde naquele dia (cf. Jo 20, 17).
  11. As outras mulheres deixaram os Apóstolos e estão a caminho, possivelmente de volta para casa. Jesus lhes aparece (cf. Mt 28, 9) (depois de ter despedido Maria Madalena). Ele também as envia de volta aos Apóstolos com a notícia de que Ele ressuscitara e os verá em breve. É a 2.ª aparição.

II. A tarde e a noite do primeiro dia

  1. Mais tarde naquele dia, dois discípulos a caminho de Emaús refletem sobre os rumores da Ressurreição de Jesus. Cristo então vem por trás deles, mas eles não conseguem reconhecê-lo. Primeiro, Jesus explica-lhes as Escrituras; em seguida, senta-se à mesa com eles e celebra a Eucaristia [2], que é quando seus olhos se abrem e eles o reconhecem no partir do pão. É a 3.ª aparição (cf. Lc 24, 13-30).
  2. Os dois discípulos voltam naquela mesma noite a Jerusalém e se dirigem aos Onze. No início, aos Apóstolos não acreditam, assim como não tinham acreditado nas mulheres (cf. Mc 16, 13). No entanto, os discípulos continuam a relatar o que vivenciaram. Em algum momento, Pedro se afasta dos outros (talvez para uma caminhada?). O Senhor aparece a Pedro. É a 4.ª aparição (cf. Lc 24, 34; 1Cor 15, 5). Pedro informa os outros dez, que então acreditam. Assim, os discípulos de Emaús (ainda com os Apóstolos) são agora informados (talvez como uma desculpa) de que, de fato, é verdade que Jesus ressuscitou (cf. Lc 24, 34).
  3. Quase ao mesmo tempo, Jesus aparece naquela pequena reunião dos Apóstolos e dos dois discípulos de Emaús. É a 5.ª aparição. Tomé está ausente, embora o texto lucano diga que a aparição foi para “os onze” (o que, provavelmente, é apenas uma forma abreviada de designar os Apóstolos como grupo). Eles se assustam, mas Jesus os tranquiliza e explica-lhes as Escrituras (cf. Lc 24, 36ss).
  4. Há certo debate quanto ao fato de Ele ter ou não aparecido a eles uma segunda vez naquela noite. Os relatos de João e de Lucas têm descrições significativamente diferentes sobre a aparição naquela primeira noite de domingo. É apenas uma recontagem distinta sobre a mesma aparição ou trata-se de uma aparição totalmente independente? Não é possível dizer com certeza. Mesmo assim, uma vez que as descrições são tão diferentes, podemos chamá-la de 6.ª aparição (Jo 20, 19ss), embora seja provavelmente a mesma 5.ª aparição.

III. Intervalo

  1. Não há nenhum relato bíblico sobre aparições de Jesus a alguém durante a semana seguinte. O próximo relato da ressurreição diz: “Oito dias depois”, ou seja, no domingo seguinte.
  2. Sabemos que os Apóstolos disseram a Tomé que tinham visto o Senhor, mas ele se recusou a acreditar (cf. Jo 20, 24).
  3. Os Apóstolos estavam nervosos porque Jesus não aparecera novamente a cada dia? Não o sabemos; não há relatos sobre o que aconteceu nesse intervalo.

IV. Uma semana depois, no segundo domingo

  • Jesus aparece mais uma vez (é a 7.ª aparição) aos Apóstolos reunidos. Desta vez Tomé está com eles. Nosso Senhor chama Tomé à fé, e naquele momento ele professa que Jesus é seu Senhor e seu Deus (cf. Jo 20, 24-29).

V. Segundo intervalo

  • Os Apóstolos tinham recebido instruções para voltar à Galileia (cf. Mt 28, 10; Mc 16, 7), onde veriam Jesus. Eles passaram parte desse intervalo viajando 60 milhas para o norte, viagem que teria levado um tempo considerável. Podemos imaginá-los em viagem para o norte durante esses dias intermediários.

VI. Algum tempo depois

  1. O prazo da próxima aparição é um tanto vago. João diz apenas: “depois disso”. Provavelmente, é uma questão de dias ou de uma semana, na melhor das hipóteses. A cena se passa no mar da Galileia; nem todos estão presentes. Alguns Apóstolos foram pescar, e Jesus os chama da beira do lago. Eles voltam à praia e o veem (é a 8.ª aparição). Pedro tem um diálogo comovente com Jesus e é encarregado de cuidar do rebanho de Cristo (cf. Jo 21).
  2. A aparição aos 500. — De todas as aparições, pode-se pensar que esta teria sido a registrada com mais detalhes, já que foi testemunhada por um grande número de pessoas. Sobre isso, parece que muitos relatos teriam existido e que pelo menos um deles deveria ter entrado nas Escrituras. No entanto, a única coisa que se diz é que ela de fato aconteceu. Paulo a menciona em 1Cor 15, 6: “Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos).” É a 9.ª aparição. Onde isso aconteceu? Como foi? Qual foi a reação? Nós simplesmente não o sabemos. Isso prova mais uma vez que a Bíblia não é um livro de história no sentido convencional. Em vez disso, é um relato altamente seletivo do que aconteceu, não um relato completo. A Bíblia não afirma ser algo que ela não é. E está claro que ela é em um livro seletivo (cf. Jo 20, 30: “Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro”).
  3. A aparição a Tiago. — Aqui, novamente, não temos uma descrição da aparição, mas apenas uma observação de Paulo, que diz que ela de fato aconteceu: “Depois, Ele apareceu a Tiago” (1Cor 15, 7). É a 10.ª aparição. O tempo dessa aparição não fica claro. Sabemos apenas que ela aconteceu depois da aparição aos 500 e antes da aparição final aos Apóstolos.

VII. Os outros quarenta dias

  1. Jesus certamente fez outras aparições aos discípulos. Lucas o atesta nos Atos dos Apóstolos quando escreve: “A eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus” (At 1, 3).
  2. Nesse período, talvez haja uma aparição que possamos atribuir especificamente a este tempo, como registrado por Mateus (cf. 28, 16ss) e Marcos (cf. 16, 14ss). Ela aconteceu no “topo de uma montanha na Galileia”. Marcos acrescenta que eles estavam reclinados à mesa. Refiro-me a esta aparição (período de tempo incerto) como a 11.ª aparição. É aqui que Jesus lhes dá a grande missão de evangelizar. Embora o texto de Marcos pareça indicar que Jesus foi elevado aos céus desta montanha, a conclusão é precipitada, pois Marcos só indica que Jesus ascendeu apenas “depois de ter falado com eles” (Mc 16, 19) [3].
  3. Evidentemente, Jesus também os convocou de volta a Jerusalém, pelo menos ao cabo do período de quarenta dias. Lá eles estariam presentes para a festa de Pentecostes. Podemos imaginar aparições frequentes com instrução contínua, pois Lucas registra que Jesus “ficou com eles”. A maioria dessas aparições e discursos não está registrada. Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos: “E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem aí o cumprimento da promessa de seu Pai, ‘que ouvis­tes’ — disse Ele — ‘da minha boca; porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias’” (At 1, 4).

VIII. A aparição final e Ascensão

  • Após quarenta dias de aparições e instruções, temos um relato final da última aparição (a 12.ª) em que Ele os conduz a um lugar perto de Betânia e lhes dá as instruções finais para esperar em Jerusalém até que o Espírito Santo seja enviado. Ele então é levado ao céu à vista deles (Lc 24, 50-53; At 1, 1-11).

Eis aqui uma cronologia possível e, se posso dizer, provável das aparições do Ressuscitado. É uma síntese que tenta coligir todas as informações e apresentá-las em sequência lógica. Há limites para o que podemos esperar dos relatos das Escrituras. Encaixá-las perfeitamente numa sequência lógica não é o que os textos se propõem a fazer. Mesmo assim, essa sequência cronológica pode ser útil e é com esse espírito que a apresento.

Notas

  1. S. Agostinho dedicou-se bastante a este assunto em sua obra De consensu evangelistarum (“Sobre a concordância dos evangelistas”, cujos quatro volumes podem ser lidos na íntegra aqui, em língua espanhola). (Observação feita pelo autor no corpo do texto e deslocada como nota para esta publicação. As notas a seguir são todas de nossa equipe.)
  2. Esta posição é discutível. Não se sabe se a “fração do pão” de que fala S. Lucas é a Eucaristia ou apenas uma refeição normal à maneira judaica. A última hipótese é bastante provável, já que as Escrituras, por um lado, não referem nenhuma Eucaristia celebrada por Cristo além da Última Ceia nem é verossímil, por outro, que o Ressuscitado: (i) tenha realizado a transubstanciação diante de discípulos tão abatidos e (ii), talvez, ainda não suficientemente instruídos sobre o mistério eucarístico, (iii) antes mesmo de reconfirmar a fé dos Apóstolos, os primeiros encarregados de dispensar os sacramentos da Nova Lei. Além disso, o Evangelho deixa claro que, tão-logo foi reconhecido na fração do pão, Cristo desapareceu. Os dois então saíram dali às pressas, talvez — o texto permite supô-lo — sem nem comer do pão partido, o que, se se tratasse da Eucaristia, atentaria contra a dignidade do sacramento e a integridade da celebração.
  3. Neste ponto, o autor parece estar de acordo com bons intérpretes. S. Lucas deixa claro que Cristo ascendeu aos céus no Horto das Oliveiras (cf. 24, 50); portanto, na Judeia. A aparição num monte na Galileia é anterior ao retorno dos Apóstolos a Jerusalém, onde permanecerão até Pentecostes. Eutímio interpreta assim esse trecho de S. Marcos: “Depois de ter falado com eles”, ou seja, “não só estas, mas também todas as palavras de quantas lhes disse desde o dia de sua ressurreição até se completarem os quarentas dias em que aparecia aos discípulos e convivia com eles.” João de Maldonado, SJ, diz abertamente que à aparição no monte galilaico não se seguiu de imediato a Ascensão do Senhor.

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