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Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil
Santos & Mártires

Seis lições dos mártires de
Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Quem são os santos protomártires do Brasil, qual a história do martírio que sofreram e o que têm eles a nos ensinar nos dias de hoje?

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2018
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Nos povoados de Cunhaú e Uruaçu, no estado do Rio Grande do Norte, em 1645, aconteceu um massacre perpetrado por invasores holandeses protestantes. Nesse episódio, morreram mártires inúmeros católicos, dentre os quais a Igreja elevou à honra dos altares 30 nomes: os sacerdotes André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, e incontáveis leigos, como Mateus Moreira, Estêvão Machado de Miranda e outros.

A memória desses santos, homens e mulheres de fé, deve ser celebrada em todo o Brasil no dia 3 de outubro, mas, infelizmente, poucos conhecem a sua história e menos ainda as lições que ela tem a nos passar.

1. Em primeiro lugar, o martírio de Cunhaú nos recorda a ligação íntima que os católicos têm com a Santa Missa dominical, ligação conhecida inclusive pelos inimigos da Igreja.

O morticínio que lá aconteceu, no dia 16 de julho, um domingo, foi precedido de uma convocação no dia anterior. Um servidor dos holandeses chamado Jacó Rabe e “conhecido de todos pelas suas frequentes incursões por aquelas paragens”

convocou, através de editais fixados nas portas da Igreja, todos os habitantes para uma reunião após a missa, a fim de transmitir-lhes ordens emanadas pelo Alto e Secreto Conselho Holandês. A intenção era aparentemente pacífica. Por isso, os moradores não levaram armas consigo porque, além de ser proibido o porte de armas pelas autoridades holandesas, tratava-se do cumprimento do preceito da missa dominical [1].

Ainda hoje, em muitos lugares da África e do Oriente Médio, os cristãos são com muita frequência vitimados justamente no domingo, durante a Missa. Alvos de terroristas muçulmanos, igrejas são bombardeadas e inúmeras pessoas mortas de uma vez só, enquanto oferecem a Deus o seu domingo, recordando a ressurreição de Nosso Senhor.

Nos países mais secularizados, porém, essa identidade está cada vez mais sob ameaça. A tendência é o ateísmo ou, quando muito, a adoção de uma crença intimista, que de católica tem muito pouco ou quase nada. Como consequência, as pessoas não vão mais à igreja, abandonam o culto público a Deus e levam a vida mais ou menos do mesmo modo: como se Ele não existisse.

A esta nossa época que se esqueceu de Deus é preciso lembrar: participar da Missa aos domingos é não só um preceito para os católicos, que estão obrigados a fazê-lo sob pena de pecado grave (para os que ainda acreditam em pecado, é claro), mas também um sinal muito forte de nossa pertença a Cristo e à Santa Igreja Católica. No mundo inteiro, no mesmo dia, professando a mesma fé e unidos sob a autoridade dos mesmos pastores, os católicos rezam juntos por suas vidas, suas famílias e pela salvação do mundo.

2. Mas voltemos ao relato do dia 16 de julho. Os calvinistas holandeses, em conluio com os indígenas, nem esperaram a Missa terminar para começarem a matança dos católicos.

Após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice, os fiéis foram tomados de grande espanto quando entraram no recinto da igreja Jacó Rabe à frente de um bando de soldados holandeses e índios tapuias e potiguares, todos bem armados.

As portas foram trancadas e a missa foi interrompida. Começou a grande chacina: foram trucidados e mortos o Padre André de Soveral e todos os que estavam na igreja, aproximadamente sessenta e nove pessoas.

Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelos flamengos com a ajuda dos tapuias e dos potiguares [2].

Ao matarem deste modo os católicos potiguares, logo “após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice”, os algozes protestantes nos apontam sem querer  para uma segunda lição, contida na doutrina católica sobre a Santa Missa: em toda celebração eucarística, atualiza-se sobre o altar o único sacrifício que Cristo ofereceu na cruz pela remissão dos pecados do mundo inteiro, e a esse sacrifício nós somos chamados a unir-nos, não só na oração da Missa, mas também com nossa vida.

Os mártires de Cunhaú tiveram essa oportunidade. Logo depois de ser oferecido de maneira incruenta pelo sacerdote “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, ofereceu-se na mesma igreja o sacrifício cruento dos fiéis, isto é, com derramamento de sangue. O Calvário se repetia novamente, agora no Brasil: antes havia sido a Cabeça, agora padecia o Corpo; naquele dia, as vítimas inocentes, ao invés de comungarem sacramentalmente, fizeram-no na carne, com seu sofrimento e sua morte.

Se a nossa vida não for também um oferecimento a Deus, como o desses mártires, não seremos capazes de compreender a fundo o mistério da Eucaristia. Aqui vale um ensinamento do venerável arcebispo norte-americano Fulton Sheen:

A Comunhão não é apenas uma incorporação na vida de Cristo, mas também uma incorporação na sua morte. [...] Acaso poderíamos receber toda a vida de Cristo, sem lhe darmos nada em troca? Acaso poderíamos esgotar o cálice, sem contribuir com algo para enchê-lo? Devemos receber o pão, sem oferecer o grão que deve ser moído; receber o vinho, sem dar as uvas que devem ser esmagadas? Se durante a nossa vida fôssemos sempre à Comunhão para receber a vida divina, e a levássemos conosco sem deixar nada em troca, seríamos parasitas do Corpo Místico de Cristo [3].

Mas de que espécie de oferecimento estaríamos falando? Seria necessário nos tornarmos mártires pelo sangue? Fulton Sheen responde:

Devemos, pois, levar conosco, para a mesa da Eucaristia, o espírito de sacrifício, a mortificação da inferioridade do nosso ser, as cruzes suportadas com paciência, a crucificação do nosso egoísmo, a morte da nossa concupiscência e inclusive a nossa falta de méritos para receber a Comunhão. Só nestas circunstâncias a Comunhão será o que realmente sempre deve ser [4].

Assim, ainda que não venhamos a entregar a nossa vida como esses valorosos homens de Deus, nem por isso estamos dispensados do chamado “martírio branco”, morrendo para nós mesmos nas pequenas coisas do dia a dia.

3. Prosseguindo agora para o relato do martírio de Uruaçu, ocorrido no dia 3 de outubro, vejam todos se não é de uma crueldade estarrecedora o que se deu:

Logo chamaram aos brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias que são incríveis; e não contentes com elas os ditos flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas [5].

Aqueles fiéis católicos, porém, mesmo padecendo todas essas torturas, como morriam? “Pedindo a Deus que tivesse deles misericórdia, e lhes perdoasse suas culpas e pecados, protestando que morriam firmes na santa fé católica crendo o que cria a Santa Madre Igreja de Roma” [6].

Com isso, aprendemos uma terceira lição: a de que, ao contrário do que prega um cristianismo “moderno”, não só não é verdade que todas as religiões são iguais, como dentro do próprio cristianismo não vale tudo. Dizer que tanto faz, por exemplo, ser católico ou protestante, é rir no túmulo dos mártires de Uruaçu, que preferiram morrer a abjurar da fé católica.

Mas por que não conseguimos entender mais a atitude dos mártires? Por que para nossos contemporâneos o massacre de Cunhaú e Uruaçu não passa de um episódio político ou de “intolerância religiosa”, sem nenhum significado maior? Porque, tragicamente, muitos deixaram de crer “na Santa Igreja Católica”, como professamos no Credo.

Quando não se acredita mais que a religião católica contém a verdade revelada por Deus para a nossa salvação, uma das primeiras coisas que se relativiza é o sangue dos mártires. Se todas as religiões são iguais, se tanto faz ir a uma igreja católica, a um templo protestante ou a um terreiro de umbanda, a verdade é que os mártires do Rio Grande do Norte morreram em vão e, com eles, toda uma multidão de homens e mulheres cultuados nos altares da Igreja.

Todos eles, no entanto, realmente acreditavam que era melhor morrer do que abandonar a fé católica e pecar contra Deus. Com isso, deram um testemunho eloquente da verdade que professavam. Por essa razão, o sangue deles é chamado “semente de novos cristãos”, porque as pessoas de fora da Igreja, vendo com que destemor os de dentro não hesitaram em dar a própria vida pelo que acreditavam, acabam convencidas da verdade e fazem-se católicos.

4. Entre as vítimas de Uruaçu, algumas receberam um tratamento especialmente cruel: os sacerdotes. Conforme os relatos da época, “o Pe. Ambrósio Francisco Ferro foi mais barbaramente atingido por causa de sua condição de sacerdote” [7]. Os outros 27 mártires canonizados eram leigos.

Disso se extrai uma quarta lição para nós, católicos: os sacerdotes são revestidos na Igreja de uma dignidade superior. O próprio inimigo o reconhece. Assim como foram eles os mais ferozmente atacados pelos hereges, quando Satanás procura destruir a Igreja, é contra os padres que ele investe de maneira especial.

O Santo Cura d’Ars explicava com muita simplicidade a importância do padre:

Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu [8].

Grandioso é o sacerdócio católico e, no entanto, quem foi que o revestiu de tamanha dignidade? Teria sido porventura a Igreja, ao longo dos séculos, “desejosa de poder”, como muitos pintam? Não, foi o próprio Cristo, ao eleger os Apóstolos, instituiu a hierarquia na Igreja. Quem observar a sua vida e o seu ministério público verá que por três anos o Senhor passou ensinando o povo, sim, curando-lhes as enfermidades, também; mas poderes especiais e outros ensinamentos específicos, só aos Apóstolos Ele reservou; o poder de consagrar a Eucaristia e absolver os pecadores, só a seus sacerdotes Ele confiou.

Se o próprio Deus feito carne instituiu o sacerdócio e cercou-o de tais privilégios, com que respeito e veneração não deveríamos pensar nos padres! Diante dos escândalos que infelizmente acontecem no clero, nossa época corre o risco de não dar o devido valor a essa pedra preciosa com que Cristo ornou a Igreja. A grande tentação de Satanás é fazer-nos desacreditar dos padres, para que, perdendo a fé no que eles são, percâmo-la também no Cristo que eles consagram e no perdão que eles ministram.

5. Por falar do sacramento da Eucaristia, foi justamente com uma profissão de fé na presença real de Jesus neste Santíssimo que morreu o mais famoso leigo dos mártires de Uruaçu: São Mateus Moreira. A ele “abriram pelas costas, e lhe tiraram também o coração e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento” [9].

Desse testemunho tiramos uma quinta lição: quem está presente nos sacrários de nossas igrejas não é ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Filho de Deus, a quem nós confessamos “nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, por quem todas as coisas foram feitas”.

O hábito de ir à Missa, especialmente para quem frequenta todos os dias este sacramento, pode criar uma “rotina” e fazer-nos esquecer da “sarça ardente” de que nos aproximamos quando subimos ao altar de Deus. Que o coração violentamente retirado do corpo de São Mateus Moreira nos faça lembrar com quanta violência também nós devemos sacar de nosso corpo a frieza, a mornidão e a indiferença na hora de receber a Sagrada Comunhão…!

6. Registremos, por fim, o martírio da família de Santo Estêvão Machado de Miranda, da qual podemos aprender uma sexta e derradeira lição para nossas vidas:

Casado com dona Bárbara, filha de Antônio Vilela Cid, [Estêvão] estava acompanhado da esposa, que foi poupada, e de quatro filhas, duas das quais foram sacrificadas juntas com o pai, e duas permaneceram vivas. Entre as que morreram, uma era criancinha de colo, com apenas dois meses, sendo a vítima mais jovem de todo o grupo de mártires. Da outra filha de Estêvão Machado, também martirizada, não se diz a idade. Quanto às duas que foram poupadas, conta-se que uma menina de sete anos abraçava-se ao pai, na hora da execução, e suplicava com grandes lamentações que não tirassem a vida de seu genitor.

Estêvão disse à menina: “Filha, diz a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos”. Depois do pai morto a menina cobriu-lhe o rosto com a saia, chorando e pedindo que também a matassem. Os algozes “trouxeram a menina à sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso” [10].

As últimas palavras de Estêvão (também ele protomártir) ensinaram à filha e ensinam a nós que, para um católico, a existência mais importante não é esta que passamos neste mundo, mas sim a do Céu. “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo”, diz o Apóstolo, “somos de todos os homens os mais dignos de lástima” (1Cor 15, 19).

É por isso que os cristãos devem lutar para educar bem e santamente os seus filhos; ou melhor, é por isso que eles devem tê-los em primeiro lugar. “Se Deus quis as gerações dos homens”, escreve o Papa Pio XI, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”. Por isso, os pais católicos, iluminados pela graça, têm de compreender que

não são destinados só a propagar e conservar na terra o gênero humano e não só também a formar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus, mas a dar filhos à Igreja, a procriar concidadãos dos santos e familiares de Deus (cf. Ef 2, 19), a fim de que o povo dedicado ao culto do nosso Deus e Salvador cresça cada vez mais, de dia para dia [11].

Que Santo Estêvão Machado, que entregou heroicamente a vida na frente da esposa e das filhas, interceda do Céu pelas famílias brasileiras, para que também nós sacrifiquemos nosso tempo, nosso conforto e nosso trabalho pela salvação de nossas casas. É a única forma de restaurarmos a fé nesta Terra de Santa Cruz. É a única forma de imitarmos verdadeiramente estes santos protomártires do Brasil.

Referências

  1. Francisco de Assis Pereira, Beato Mateus Pereira: patrono dos Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística e seus companheiros mártires, São Paulo: Paulinas, 2009, p. 43.
  2. Ibid., p. 44.
  3. Fulton Sheen, O Calvário e a Missa, Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 54.
  4. Ibid., p. 54-55.
  5. Lopo Curado Garro, “Breve, verdadeira, e autêntica relação das últimas tiranias e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande”, p. 151, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 58.
  6. Diego Lopes Santiago, “História da Guerra de Pernambuco”, p. 346, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 59.
  7. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 60.
  8. Abbé Bernard Nodet, Le Curé d’Ars, sa pensée, son cœur, Xavier Mappus, Foi Vivante, 1966, pp. 98-99.
  9. Lopo Curado Garro, “Breve…”, pp. 152-153, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 66.
  10. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 61.
  11. Papa Pio XI, Carta Encíclica Casti Connubii, 31 dez. 1930.

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Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...
Testemunhos

Quando uma vítima do nazismo
reencontrou seu torturador...

Quando uma vítima do nazismo reencontrou seu torturador...

O que acontece quando uma vítima do nazismo, católica devota, fica face a face com o homem que a havia torturado, 40 anos antes? Conheça a história emocionante de Maïti Girtanner.

K. V. Turley,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Dezembro de 2018
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Esta é a história de uma jovem mulher, pianista de talento, que depois da invasão nazista à França começou a trabalhar na resistência ao regime. A prisão e a tortura que ela sofreu nas mãos da Gestapo fizeram com que ela ficasse inválida e sentisse dores agudas pelo resto da vida. É desnecessário dizer que, depois disso, ela não pôde realizar o sonho de se tornar uma pianista profissional.

Nas décadas que se seguiram, Maïti Girtanner, cristã devota, lutou com a raiva e com os sentimentos de vingança que a tortura havia deixado nela. Mal sabia ela que o médico nazista que a tinha torturado também sobrevivera à II Guerra Mundial. Menos ainda ela poderia prever que, 40 anos depois de seu primeiro encontro com aquele médico, seus caminhos viriam a se cruzar uma vez mais.

Maïti Girtanner, em sua juventude.

Em março de 2014, um obituário apareceu no jornal The Times falando da morte recente de Maïti Girtanner. Natural da Suíça, a história de Girtanner é mais conhecida pelo público francófono, mas permanece em grande parte oculta para o resto do mundo. Trata-se de uma história vinda de outra era, dos anos dolorosos da II Guerra Mundial, mas com uma lição permanente para todos os tempos. É uma história de sofrimento humano, e de uma resposta a ele. É uma história que nos recorda mais uma vez qual é a única forma verdadeira de enfrentar o sofrimento e suas dolorosas consequências.

Quando o exército de Hitler tomou a cidade de Paris em 1940, Marie Louise Alice Eleonore, conhecida como Maïti Girtanner, contava 18 anos. Ela havia nascido em uma família de músicos. Ainda pequena demonstrou que também possuía talento para a música, apresentando-se em seu primeiro concerto com apenas 9 anos de idade. “Soube desde cedo que um caminho havia sido demarcado para mim. Eu tinha nascido para ser pianista. A música era minha vida.”

Em meados de 1941, entretanto, Maïti viu-se envolvida em uma rede secreta: a Resistência Francesa. Ao mesmo tempo que dava recitais de piano para as elites nazistas que então ocupavam a França, ela coletava informações para os franceses que lutavam contra o ocupação alemã. Sem mais nem menos, ela foi presa em outubro de 1943 e levada para um centro de detenção na cidade de Hendaia, destinado a membros da Resistência.

Foi nesse centro que Maïti foi torturada por um jovem médico nazista chamado Leo e, como consequência disso, teve seu sistema nervoso central seriamente comprometido, a ponto de nunca mais poder tocar piano. Em fevereiro de 1944, ela ainda se encontrava encarcerada e mal podia ficar de pé sem ajuda de alguém, tão mal fora tratada. Só com a chegada da Cruz Vermelha ela foi finalmente resgatada de seu pesadelo e recebeu um tratamento hospitalar.

Maïti passou o restante de sua vida em meio a dores crônicas. Apesar de não poder mais tocar piano, o profundo desejo de voltar à música nunca a abandonou. Também como resultado da tortura sofrida, havia-lhe sido negada a possibilidade de ter uma família ou de levar uma vida minimamente normal, como a que levava antes de 1940. Pouco a pouco, ela foi-se dando conta de que pelo resto da vida as sequelas da tortura que sofrera imporiam limites à sua existência física.

Sempre devota, a partir de então ela abraçou a fé mais do que nunca, tornando-se uma terciária dominicana. Em carta a uma amiga ela disse simplesmente: “Eu não posso fazer da minha vida uma tragédia”.

Até aqui, a história de Maïti já impressiona por muitos aspectos, mas isso só aumentaria nos anos seguintes à guerra, quando ela começou a refletir sobre a sina que lhe fora reservada. A partir disso, ela se viu diante de um dilema: viver com ódio do homem que a havia debilitado ou escolher perdoá-lo. Ela começara a entender que o perdão não podia jamais ser uma ideia intelectual; ao contrário, tinha de ser algo dirigido a alguém. Ela escreveu: “O perdão não acontece em abstrato. Ele pede por uma pessoa a quem possa ser dirigido, alguém que o possa receber.” Ela começou a rezar por seus carrascos e, em particular, pelo jovem médico que a torturara.

Em 1984, tão inesperadamente como sua prisão em 1943, Maïti foi contactada por Leo, o médico nazista. Agora velho e enfermo, diagnosticado com uma doença terminal, ele enfrentava o medo da morte. Tendo se lembrado da jovem mulher cristã que, mesmo enquanto era torturada, se apegava à própria fé em Deus e em um céu, Leo escreveu-lhe perguntando se ela ainda acreditava em tais coisas. Maïti escreveu-lhe de volta e disse-lhe que sim, que ainda acreditava. Isso levou a mais contatos, não menos do que o que havia acontecido entre os dois 40 anos antes. Leo decidiu visitar Maïti.

Quantas memórias dolorosas aquela troca de correspondências havia trazido a Maïti, só se pode imaginar a partir dos pensamentos e das emoções que ela experimentou enquanto esperava a visita de seu algoz. Provavelmente, ela também sabia que esse segundo encontro seria, tanto para ela quanto para Leo, tão decisivo quanto o primeiro, 40 anos antes.

Ao chegar à casa de sua antiga “paciente”, o ex-médico implorou por seu perdão. Ela tomou-lhe a cabeça por entre as mãos, beijou-a e, enquanto o abraçava, perdoou-lhe.

Depois daquele momento, ela disse: “Eu o abracei a fim de colocá-lo dentro do coração de Deus. E [enquanto eu fazia isso] ele murmurou: ‘Me perdoe’.”

Seja qual for o presente que Leo recebeu naquele dia, outro presente ainda maior foi dado a Maïti Girtanner. Ela havia rezado ao longo de 40 anos pela graça de perdoar, pois sabia que, por meio daquele ato, também ela seria libertada. Daquele dia ela diria mais tarde: “Perdoá-lo libertou-me”.

Naquele encontro totalmente imprevisto, em 1984, as orações de Maïti Girtanner foram estranhamente respondidas.

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Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias
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Bispos anglicanos querem
ideologia de gênero em suas liturgias

Bispos anglicanos querem ideologia de gênero em suas liturgias

Diretriz pastoral recém-publicada pela Igreja da Inglaterra orienta sacerdotes a oferecer cerimônias parecidas com o batismo para pessoas transgêneras e suas “novas identidades”.

Doug Mainwaring,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2018
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A Igreja Anglicana, a maior denominação cristã no Reino Unido, está evitando chamar sua recém-instituída bênção para “transgêneros” de um “segundo batismo”, mas a orientação é para que seus sacerdotes ofereçam cerimônias parecidas com o sacramento para aqueles que anunciarem sua nova identidade sexual.

Em uma diretriz pastoral publicada nesta semana, o clero anglicano é orientado a chamar os homens por seus novos nomes femininos, e as mulheres por seus novos nomes masculinos. O documento declara: “O rito do ministro de se dirigir à pessoa trans usando pela primeira vez o nome que ela escolheu, pode ser um momento poderoso na liturgia”.

“Deve-se notar que o ato de dar ou adotar um novo nome tem uma longa história na tradição judaico-cristã, atestada pela Escritura”, diz o documento. “Em alguns círculos cristãos, por exemplo, existe o costume de os fiéis adotarem um nome adicional ou o nome de um santo no momento de sua confirmação.”

O clero também é aconselhado a respeitar os pronomes do gênero escolhido pela pessoa, ainda que eles não correspondam à realidade.

Denominado Afirmação da Fé Batismal, o rito convida as pessoas já batizadas e confusas com o próprio gênero a “renovarem publicamente os compromissos firmados no batismo e dá a possibilidade, aos que passaram por uma grande transição, de dedicarem novamente suas vidas a Jesus Cristo”.

Para as pessoas “transgêneras” ainda não batizadas e que procuram ingressar na Igreja da Inglaterra, a nova orientação descreve o batismo como o “contexto litúrgico natural para reconhecer e celebrar-lhes a identidade”.

Ao invés de criar um novo sacramento, os bispos anglicanos estão recomendando que o já existente sacramento do batismo e a afirmação dos votos batismais sejam deformados não apenas para acomodar mas também para celebrar a disforia de gênero dentro de suas igrejas.

A diretriz emitida pela Casa Episcopal da Igreja Anglicana na terça-feira (11) adverte os pastores a imporem as mãos sobre o fiel e a rezar usando o novo nome de transgênero por ele escolhido. Os pastores também são orientados a incorporar a esse rito a aspersão de água benta e a unção com óleo consagrado.

Andrea Minichiello Williams, chefe-executiva da organização evangélica Christian Concern e leiga membro do Sínodo Geral da Igreja Anglicana, criticou a nova orientação, dizendo que se trata de uma continuação da “trajetória devastadora [da instituição] rumo a uma franca negação de Deus e de sua Palavra”.

“A finalidade do batismo é configurar uma pessoa a Jesus, quando ela começa uma vida no seguimento dEle”, defende Andrea. “Usar uma afirmação do batismo para celebrar uma transição de gênero vira isso de ponta cabeça e encoraja as pessoas a seguirem seus próprios sentimentos e a viverem com identidades contrárias ao modo como Deus as criou.”

Não é sinal de amor desviar as pessoas — e, mais amplamente, a sociedade — para os mitos e as falsidades da ideologia de gênero”, ela concluiu.

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O impressionante martírio de Santa Luzia
Santos & Mártires

O impressionante
martírio de Santa Luzia

O impressionante martírio de Santa Luzia

Popularmente conhecida como protetora dos olhos, Santa Luzia deu um belo testemunho de pureza antes de ser martirizada e “só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor”.

Beato Tiago de Varazze12 de Dezembro de 2018
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O nome Luzia (ou Lúcia) vem de lux, “luz”. A luz é bonita de se ver porque, segundo Ambrósio, ela está por natureza destinada a ser graciosa para a visão. Ela se difunde sem se sujar, por mais sujos que sejam os lugares em que se projeta. Seus raios seguem linha reta, sem a menor curva, e sem demora ela atravessa imensas extensões.

Daí ser apropriado o nome de Luzia para aquela virgem bem-aventurada que resplandece com o brilho da virgindade sem a mais ínfima mácula, que difunde calor sem nenhuma mescla de amor impuro, que vai direto a Deus sem o menor desvio, que sem hesitação e sem negligência segue em toda sua extensão o caminho do serviço divino. Lúcia também pode vir de lucis via, “caminho da luz”.

Lúcia, virgem de Siracusa, de origem nobre, ouvindo falar por toda a Sicília da fama de Santa Ágata, foi até o túmulo dela com a mãe, Eutícia, que havia quatro anos sofria de hemorragias sem esperança de cura. Naquele dia, lia-se na Missa a passagem do Evangelho na qual se conta que o Senhor curou uma mulher que padecia a mesma doença (cf. Mt 9, 20-22; Mc 5, 25-29; Lc 8, 43-48).

“Martírio de Santa Luzia”, atribuído a Elisabetta Sirani.

Lúcia disse então à mãe: “Se acreditas no que foi lido, deves crer que Ágata está na presença dAquele por quem ela sofreu. Portanto, tocando o túmulo dela com fé, logo estarás completamente curada.”

Quando todo o povo partiu, mãe e filha ficaram orando perto do túmulo. O sono apossou-se de Lúcia, que viu diante dela, de pé, Ágata rodeada de anjos e ornada de pedras preciosas dizendo-lhe: “Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pedes a mim o que tu mesma podes conseguir, neste instante, para tua mãe? Fica sabendo que ela acaba de ser curada pela fé.”

Lúcia despertou e disse: “Mãe, tu estás curada. Em nome daquela por quem acabas de obter a cura, peço-te que não me procures um esposo, e que meu dote seja distribuído aos pobres.” Respondeu a mãe: “Depois que eu fechar os olhos, tu podes dispor de teus bens como quiseres”. Lúcia replicou: “Se me dás alguma coisa ao morrer, é porque não podes levá-la contigo; dá-me enquanto estás viva e serás recompensada.”

Voltando para casa, passaram todo o dia a vender uma parte dos bens, distribuindo o dinheiro aos pobres. A notícia da partilha do patrimônio chegou aos ouvidos do noivo, e ele perguntou a razão daquilo à mãe de Lúcia. Esta respondeu que sua filha havia encontrado um investimento mais rentável e mais seguro, daí estar vendendo seus bens.

O insensato, crendo tratar-se de um comércio plenamente humano, passou a colaborar na venda daqueles bens, buscando os melhores negócios. Quando soube que tudo o que fora vendido tinha sido dado aos pobres, o noivo levou-a à justiça, diante do cônsul Pascásio, acusando-a de ser cristã e de violar as leis imperiais.

Pascásio convidou-a a sacrificar aos ídolos, mas ela respondeu: “O sacrifício que agrada a Deus é visitar os pobres e prover às suas necessidades, mas como não tenho mais nada a dar, ofereço a Ele a mim mesma.”

Pascásio retorquiu: “Poderias dizer essas coisas a um cristão insensato como tu, mas a mim, que executo os decretos dos príncipes, é inútil argumentar assim.”

Lúcia rebateu: “Tu executas as leis de teus príncipes; eu executo a lei do meu Deus. Tu temes os príncipes, eu temo a Deus. Tu não gostarias de ofendê-los; eu evito ofender a Deus. Tu desejas agradá-los; eu anseio ardentemente agradar a Cristo. Faz então o que julgares útil para ti, e eu farei o que sei que me será bené­fico.”

Pascásio replicou: “Tu dilapidaste teu patrimônio com uns depravados e agora falas como uma meretriz.” Lúcia retrucou: “Pus meu patrimônio num lugar seguro e nunca conheci os que depravam espírito e corpo.”

Pascásio perguntou-lhe: “Quem são esses corruptores?” Lúcia respondeu: “Os que corrompem o espírito são vós, que aconselhais as almas a abandonarem o Criador. Os que corrompem o corpo são os que preferem os gozos corporais às delí­cias eternas.” Pascásio ameaçou-a: “Vais parar de falar quando começares a ser fustigada”, zo que Lúcia respondeu prontamente: “As palavras de Deus nunca terão fim.”

“Então tu és Deus?”, perguntou-lhe Pascásio. “Eu sou escrava do Deus que disse: quando estiverdes em presença de reis e de juízes, não vos preocupeis com o que dizer. Não sereis vós a falar, pois o Espírito Santo falará por vós” (Mc 13, 11), respondeu Lúcia. “Então o Espírito Santo está em ti?”, tornou Pascásio. “Os que vivem em castidade são templos do Espírito Santo”, respondeu-lhe.

Pascásio afirmou: “Então vou mandar que te levem a um lupanar, para que sejas violada e percas o Espírito Santo.” Lúcia: “O corpo só se corrompe se o coração consentir. Se fizeres com que eu seja violentada, será contra minha vontade e ganharei a coroa da pureza. Jamais terás meu consentimento. Eis meu corpo, ele está disposto a toda sorte de suplícios. Por que hesitas? Começa a me atormentar, filho do diabo.”

Então Pascásio mandou vir uns depravados, aos quais disse: “Convidai o povo todo e torturai-a até a morte.” Mas quando quiseram levá-la, o Espírito Santo a fez ficar imóvel e tão pesada que não conseguiram forçá-la a se mover. Pascásio mandou chamar mil homens e amarrar seus pés e suas mãos, mas eles não foram capazes de movê-la de modo algum. Aos mil homens ele acrescentou mil parelhas de bois, mas a virgem do Senhor permaneceu imóvel. Então convocou feiticeiros para movê-la com seus sortilégios, mas eles nada conseguiram.

Pascásio então perguntou: “Que malefícios são esses? Por que uma moça não é movida por mil homens?” Lúcia respondeu: “Não são malefícios, e sim benefícios de Cristo. E ainda que acrescentasses dez mil homens, tu não me verias menos imóvel.” Acreditando Pascásio na opinião segundo a qual se poderia livrar uma pessoa de malefícios jogando urina sobre ela, mandou que se fizesse isso com Lúcia, mas ela continuou sem se mover.

Furioso, Pascásio mandou acender em torno dela uma grande fogueira e jogar em seu corpo óleo fervente, misturado com pez e resina. Depois desse suplício, Lúcia exclamou: “Obtive uma trégua no meu martírio para que os crentes não tenham medo de sofrer e os incré­dulos tenham mais tempo para me insultar.”

Vendo Pascásio irritadíssimo, seus amigos enfiaram uma espada na garganta de Lúcia, que apesar disso não perdeu a palavra: “Eu vos anuncio que a paz foi restituída à Igreja, porque hoje Maximiano acaba de morrer e Diocleciano, de ser expulso do seu reino. Da mesma forma que minha irmã Ágata foi eleita protetora da cidade de Catânia, assim também fui eleita guardiã de Siracusa.”

Enquanto a virgem assim falava, chegaram uns funcionários romanos que prenderam Pascásio, agrilhoaram-no e levaram-no ao César, pois este ficara sabendo que ele tinha saqueado toda a província. Chegando a Roma, Pascácio compareceu diante do Senado, foi declarado culpado, condenado à pena capital e executado.

Quanto à virgem Lúcia, não foi tirada do lugar em que sofrera e só rendeu o espírito depois que alguns sacerdotes lhe deram o Corpo do Senhor. Então todos os presentes disseram: Amém. Ela foi sepultada naquele mesmo lugar, onde foi construída uma igreja. Seu martírio ocorreu no tempo de Constantino e de Maxêncio, por volta do ano 310 do Senhor.

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 77-80.

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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