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Seis lições dos mártires de Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil
Santos & Mártires

Seis lições dos mártires de
Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Seis lições dos mártires de
Cunhaú e Uruaçu aos católicos do Brasil

Quem são os santos protomártires do Brasil, qual a história do martírio que sofreram e o que têm eles a nos ensinar nos dias de hoje?

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2018
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Nos povoados de Cunhaú e Uruaçu, no estado do Rio Grande do Norte, em 1645, aconteceu um massacre perpetrado por invasores holandeses protestantes. Nesse episódio, morreram mártires inúmeros católicos, dentre os quais a Igreja elevou à honra dos altares 30 nomes: os sacerdotes André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, e incontáveis leigos, como Mateus Moreira, Estêvão Machado de Miranda e outros.

A memória desses santos, homens e mulheres de fé, deve ser celebrada em todo o Brasil no dia 3 de outubro, mas, infelizmente, poucos conhecem a sua história e menos ainda as lições que ela tem a nos passar.

1. Em primeiro lugar, o martírio de Cunhaú nos recorda a ligação íntima que os católicos têm com a Santa Missa dominical, ligação conhecida inclusive pelos inimigos da Igreja.

O morticínio que lá aconteceu, no dia 16 de julho, um domingo, foi precedido de uma convocação no dia anterior. Um servidor dos holandeses chamado Jacó Rabe e “conhecido de todos pelas suas frequentes incursões por aquelas paragens”

convocou, através de editais fixados nas portas da Igreja, todos os habitantes para uma reunião após a missa, a fim de transmitir-lhes ordens emanadas pelo Alto e Secreto Conselho Holandês. A intenção era aparentemente pacífica. Por isso, os moradores não levaram armas consigo porque, além de ser proibido o porte de armas pelas autoridades holandesas, tratava-se do cumprimento do preceito da missa dominical [1].

Ainda hoje, em muitos lugares da África e do Oriente Médio, os cristãos são com muita frequência vitimados justamente no domingo, durante a Missa. Alvos de terroristas muçulmanos, igrejas são bombardeadas e inúmeras pessoas mortas de uma vez só, enquanto oferecem a Deus o seu domingo, recordando a ressurreição de Nosso Senhor.

Nos países mais secularizados, porém, essa identidade está cada vez mais sob ameaça. A tendência é o ateísmo ou, quando muito, a adoção de uma crença intimista, que de católica tem muito pouco ou quase nada. Como consequência, as pessoas não vão mais à igreja, abandonam o culto público a Deus e levam a vida mais ou menos do mesmo modo: como se Ele não existisse.

A esta nossa época que se esqueceu de Deus é preciso lembrar: participar da Missa aos domingos é não só um preceito para os católicos, que estão obrigados a fazê-lo sob pena de pecado grave (para os que ainda acreditam em pecado, é claro), mas também um sinal muito forte de nossa pertença a Cristo e à Santa Igreja Católica. No mundo inteiro, no mesmo dia, professando a mesma fé e unidos sob a autoridade dos mesmos pastores, os católicos rezam juntos por suas vidas, suas famílias e pela salvação do mundo.

2. Mas voltemos ao relato do dia 16 de julho. Os calvinistas holandeses, em conluio com os indígenas, nem esperaram a Missa terminar para começarem a matança dos católicos.

Após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice, os fiéis foram tomados de grande espanto quando entraram no recinto da igreja Jacó Rabe à frente de um bando de soldados holandeses e índios tapuias e potiguares, todos bem armados.

As portas foram trancadas e a missa foi interrompida. Começou a grande chacina: foram trucidados e mortos o Padre André de Soveral e todos os que estavam na igreja, aproximadamente sessenta e nove pessoas.

Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelos flamengos com a ajuda dos tapuias e dos potiguares [2].

Ao matarem deste modo os católicos potiguares, logo “após a consagração e a elevação da hóstia e do cálice”, os algozes protestantes nos apontam sem querer  para uma segunda lição, contida na doutrina católica sobre a Santa Missa: em toda celebração eucarística, atualiza-se sobre o altar o único sacrifício que Cristo ofereceu na cruz pela remissão dos pecados do mundo inteiro, e a esse sacrifício nós somos chamados a unir-nos, não só na oração da Missa, mas também com nossa vida.

Os mártires de Cunhaú tiveram essa oportunidade. Logo depois de ser oferecido de maneira incruenta pelo sacerdote “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, ofereceu-se na mesma igreja o sacrifício cruento dos fiéis, isto é, com derramamento de sangue. O Calvário se repetia novamente, agora no Brasil: antes havia sido a Cabeça, agora padecia o Corpo; naquele dia, as vítimas inocentes, ao invés de comungarem sacramentalmente, fizeram-no na carne, com seu sofrimento e sua morte.

Se a nossa vida não for também um oferecimento a Deus, como o desses mártires, não seremos capazes de compreender a fundo o mistério da Eucaristia. Aqui vale um ensinamento do venerável arcebispo norte-americano Fulton Sheen:

A Comunhão não é apenas uma incorporação na vida de Cristo, mas também uma incorporação na sua morte. [...] Acaso poderíamos receber toda a vida de Cristo, sem lhe darmos nada em troca? Acaso poderíamos esgotar o cálice, sem contribuir com algo para enchê-lo? Devemos receber o pão, sem oferecer o grão que deve ser moído; receber o vinho, sem dar as uvas que devem ser esmagadas? Se durante a nossa vida fôssemos sempre à Comunhão para receber a vida divina, e a levássemos conosco sem deixar nada em troca, seríamos parasitas do Corpo Místico de Cristo [3].

Mas de que espécie de oferecimento estaríamos falando? Seria necessário nos tornarmos mártires pelo sangue? Fulton Sheen responde:

Devemos, pois, levar conosco, para a mesa da Eucaristia, o espírito de sacrifício, a mortificação da inferioridade do nosso ser, as cruzes suportadas com paciência, a crucificação do nosso egoísmo, a morte da nossa concupiscência e inclusive a nossa falta de méritos para receber a Comunhão. Só nestas circunstâncias a Comunhão será o que realmente sempre deve ser [4].

Assim, ainda que não venhamos a entregar a nossa vida como esses valorosos homens de Deus, nem por isso estamos dispensados do chamado “martírio branco”, morrendo para nós mesmos nas pequenas coisas do dia a dia.

3. Prosseguindo agora para o relato do martírio de Uruaçu, ocorrido no dia 3 de outubro, vejam todos se não é de uma crueldade estarrecedora o que se deu:

Logo chamaram aos brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias que são incríveis; e não contentes com elas os ditos flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas [5].

Aqueles fiéis católicos, porém, mesmo padecendo todas essas torturas, como morriam? “Pedindo a Deus que tivesse deles misericórdia, e lhes perdoasse suas culpas e pecados, protestando que morriam firmes na santa fé católica crendo o que cria a Santa Madre Igreja de Roma” [6].

Com isso, aprendemos uma terceira lição: a de que, ao contrário do que prega um cristianismo “moderno”, não só não é verdade que todas as religiões são iguais, como dentro do próprio cristianismo não vale tudo. Dizer que tanto faz, por exemplo, ser católico ou protestante, é rir no túmulo dos mártires de Uruaçu, que preferiram morrer a abjurar da fé católica.

Mas por que não conseguimos entender mais a atitude dos mártires? Por que para nossos contemporâneos o massacre de Cunhaú e Uruaçu não passa de um episódio político ou de “intolerância religiosa”, sem nenhum significado maior? Porque, tragicamente, muitos deixaram de crer “na Santa Igreja Católica”, como professamos no Credo.

Quando não se acredita mais que a religião católica contém a verdade revelada por Deus para a nossa salvação, uma das primeiras coisas que se relativiza é o sangue dos mártires. Se todas as religiões são iguais, se tanto faz ir a uma igreja católica, a um templo protestante ou a um terreiro de umbanda, a verdade é que os mártires do Rio Grande do Norte morreram em vão e, com eles, toda uma multidão de homens e mulheres cultuados nos altares da Igreja.

Todos eles, no entanto, realmente acreditavam que era melhor morrer do que abandonar a fé católica e pecar contra Deus. Com isso, deram um testemunho eloquente da verdade que professavam. Por essa razão, o sangue deles é chamado “semente de novos cristãos”, porque as pessoas de fora da Igreja, vendo com que destemor os de dentro não hesitaram em dar a própria vida pelo que acreditavam, acabam convencidas da verdade e fazem-se católicos.

4. Entre as vítimas de Uruaçu, algumas receberam um tratamento especialmente cruel: os sacerdotes. Conforme os relatos da época, “o Pe. Ambrósio Francisco Ferro foi mais barbaramente atingido por causa de sua condição de sacerdote” [7]. Os outros 27 mártires canonizados eram leigos.

Disso se extrai uma quarta lição para nós, católicos: os sacerdotes são revestidos na Igreja de uma dignidade superior. O próprio inimigo o reconhece. Assim como foram eles os mais ferozmente atacados pelos hereges, quando Satanás procura destruir a Igreja, é contra os padres que ele investe de maneira especial.

O Santo Cura d’Ars explicava com muita simplicidade a importância do padre:

Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu [8].

Grandioso é o sacerdócio católico e, no entanto, quem foi que o revestiu de tamanha dignidade? Teria sido porventura a Igreja, ao longo dos séculos, “desejosa de poder”, como muitos pintam? Não, foi o próprio Cristo, ao eleger os Apóstolos, instituiu a hierarquia na Igreja. Quem observar a sua vida e o seu ministério público verá que por três anos o Senhor passou ensinando o povo, sim, curando-lhes as enfermidades, também; mas poderes especiais e outros ensinamentos específicos, só aos Apóstolos Ele reservou; o poder de consagrar a Eucaristia e absolver os pecadores, só a seus sacerdotes Ele confiou.

Se o próprio Deus feito carne instituiu o sacerdócio e cercou-o de tais privilégios, com que respeito e veneração não deveríamos pensar nos padres! Diante dos escândalos que infelizmente acontecem no clero, nossa época corre o risco de não dar o devido valor a essa pedra preciosa com que Cristo ornou a Igreja. A grande tentação de Satanás é fazer-nos desacreditar dos padres, para que, perdendo a fé no que eles são, percâmo-la também no Cristo que eles consagram e no perdão que eles ministram.

5. Por falar do sacramento da Eucaristia, foi justamente com uma profissão de fé na presença real de Jesus neste Santíssimo que morreu o mais famoso leigo dos mártires de Uruaçu: São Mateus Moreira. A ele “abriram pelas costas, e lhe tiraram também o coração e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento” [9].

Desse testemunho tiramos uma quinta lição: quem está presente nos sacrários de nossas igrejas não é ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Filho de Deus, a quem nós confessamos “nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, por quem todas as coisas foram feitas”.

O hábito de ir à Missa, especialmente para quem frequenta todos os dias este sacramento, pode criar uma “rotina” e fazer-nos esquecer da “sarça ardente” de que nos aproximamos quando subimos ao altar de Deus. Que o coração violentamente retirado do corpo de São Mateus Moreira nos faça lembrar com quanta violência também nós devemos sacar de nosso corpo a frieza, a mornidão e a indiferença na hora de receber a Sagrada Comunhão…!

6. Registremos, por fim, o martírio da família de Santo Estêvão Machado de Miranda, da qual podemos aprender uma sexta e derradeira lição para nossas vidas:

Casado com dona Bárbara, filha de Antônio Vilela Cid, [Estêvão] estava acompanhado da esposa, que foi poupada, e de quatro filhas, duas das quais foram sacrificadas juntas com o pai, e duas permaneceram vivas. Entre as que morreram, uma era criancinha de colo, com apenas dois meses, sendo a vítima mais jovem de todo o grupo de mártires. Da outra filha de Estêvão Machado, também martirizada, não se diz a idade. Quanto às duas que foram poupadas, conta-se que uma menina de sete anos abraçava-se ao pai, na hora da execução, e suplicava com grandes lamentações que não tirassem a vida de seu genitor.

Estêvão disse à menina: “Filha, diz a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos”. Depois do pai morto a menina cobriu-lhe o rosto com a saia, chorando e pedindo que também a matassem. Os algozes “trouxeram a menina à sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso” [10].

As últimas palavras de Estêvão (também ele protomártir) ensinaram à filha e ensinam a nós que, para um católico, a existência mais importante não é esta que passamos neste mundo, mas sim a do Céu. “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo”, diz o Apóstolo, “somos de todos os homens os mais dignos de lástima” (1Cor 15, 19).

É por isso que os cristãos devem lutar para educar bem e santamente os seus filhos; ou melhor, é por isso que eles devem tê-los em primeiro lugar. “Se Deus quis as gerações dos homens”, escreve o Papa Pio XI, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”. Por isso, os pais católicos, iluminados pela graça, têm de compreender que

não são destinados só a propagar e conservar na terra o gênero humano e não só também a formar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus, mas a dar filhos à Igreja, a procriar concidadãos dos santos e familiares de Deus (cf. Ef 2, 19), a fim de que o povo dedicado ao culto do nosso Deus e Salvador cresça cada vez mais, de dia para dia [11].

Que Santo Estêvão Machado, que entregou heroicamente a vida na frente da esposa e das filhas, interceda do Céu pelas famílias brasileiras, para que também nós sacrifiquemos nosso tempo, nosso conforto e nosso trabalho pela salvação de nossas casas. É a única forma de restaurarmos a fé nesta Terra de Santa Cruz. É a única forma de imitarmos verdadeiramente estes santos protomártires do Brasil.

Referências

  1. Francisco de Assis Pereira, Beato Mateus Pereira: patrono dos Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística e seus companheiros mártires, São Paulo: Paulinas, 2009, p. 43.
  2. Ibid., p. 44.
  3. Fulton Sheen, O Calvário e a Missa, Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 54.
  4. Ibid., p. 54-55.
  5. Lopo Curado Garro, “Breve, verdadeira, e autêntica relação das últimas tiranias e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande”, p. 151, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 58.
  6. Diego Lopes Santiago, “História da Guerra de Pernambuco”, p. 346, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 59.
  7. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 60.
  8. Abbé Bernard Nodet, Le Curé d’Ars, sa pensée, son cœur, Xavier Mappus, Foi Vivante, 1966, pp. 98-99.
  9. Lopo Curado Garro, “Breve…”, pp. 152-153, apud Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 66.
  10. Francisco de Assis Pereira, op. cit., p. 61.
  11. Papa Pio XI, Carta Encíclica Casti Connubii, 31 dez. 1930.

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Crescendo na fé com as encíclicas do Papa Pio XII
Doutrina

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

O Papa Pio XII escreveu de tudo; suas encíclicas podem ser lidas com grandes proveito espiritual; e nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido e meditado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2019
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Há 60 anos, mais exatamente no dia 9 de outubro de 1958, morria Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que serviu a Igreja como Papa Pio XII, de 1939 a 1958. Embora haja muita agitação envolvendo Papas mais recentes (principalmente após o Vaticano II), as pessoas raramente se dão ao trabalho de aprender a respeito dos Papas anteriores ao Concílio.

A imagem de Pio XII já vem se desgastando há um bom tempo com alegações absurdas de cumplicidade com os nazistas — acusações que, mesmo havendo sido abundantemente refutadas, são sempre trazidas à tona de novo para encher novos bolsos jornalísticos. A verdadeira grandeza do homem e o enorme legado que ele deixou à Igreja, no entanto, raramente são objeto de consideração.

É surpreendente a facilidade com que os católicos somos capazes de esquecer os grandes documentos de um Pontífice falecido, como se o seguinte ofuscasse ou até mesmo fizesse calar a obra de seu predecessor. Nossa visão do desenvolvimento da doutrina cristã deve ser não hegeliana (na qual um estágio posterior confronta e suplanta um anterior, só para ser ele mesmo subsumido em uma nova e inesperada síntese), mas newmaniana [1] (na qual tudo o que é importante e veio antes é cultivado e carregado ao longo do tempo, a fim de formar a base do pensamento e da ação subsequentes).

O Papa Pio XII é um exemplo disso. Ele era intelectualmente ousado, estava pronto para lidar com qualquer assunto, dialogava com o pensamento moderno e sempre estava à procura de novas formas para explicar as antigas verdades da fé. Mas ele também era fiel à herança de Leão XIII, Pio X, Bento XV e Pio XI, Papas que sempre estavam em suas referências e dos quais ele se servia como um compositor que escreve um tema com variações.

Summi Pontificatus, de 1939, foi a encíclica inaugural de Pio XII. Com a paz precária que vivia a Europa sendo aniquilada pela blitzkrieg nazista, o Papa apresenta a visão católica dos princípios que mantêm os homens e as nações em unidade e implora ao mundo que retorne à sã doutrina da Igreja sobre as realidades políticas. Ainda que Pio XII voltasse a tratar de questões sociais em muitos documentos ao longo dos quase 20 anos subsequentes, ele não mais escreveu uma encíclica social e, até hoje, a própria Summi Pontificatus é raramente classificada assim, por não conformar-se ao padrão da encíclica Rerum Novarum.

Seu esquecimento é muito de se lamentar, no entanto, pois em muitos de seus parágrafos a Summi Pontificatus articula princípios sociais básicos em linguagem particularmente vigorosa. O Papa enfatiza que a tendência moderna ao estatismo (a “onicompetência” do Estado secular) é um erro pernicioso a se combater, e que o conceito cristão de um Estado fundado nos preceitos da lei natural exige que se dê suporte ao desenvolvimento da excelência moral e religiosa dos seus cidadãos.

Duas encíclicas inovadoras emergiram em 1943: Mystici Corporis Christi e Divino Afflante Spiritu.

Sua Santidade, o Papa Pio XII.

Dos documentos papais dedicados à eclesiologia (o estudo da Igreja enquanto tal), a Mystici Corporis Christi é seguramente o mais importante e deveria ser de leitura obrigatória para todos os católicos. Por que a Escritura chama a Igreja de “corpo” e, em particular, de corpo de Cristo? Qual a diferença entre um corpo físico, um corpo moral e um corpo místico? Como a Igreja foi gerada ao longo do tempo, e como Cristo quis “precisar” de nós, seus membros? Em que consiste nossa união com Cristo, e a união dos outros com Ele? Por que nós devemos amar a Igreja, e qual a melhor forma de fazê-lo? É com essas questões que lida essa meditação cheia de beleza e rica de doutrina.

Divino Afflante Spiritu é normalmente exaltada como uma encíclica que provocou uma “revolução copernicana” na exegese católica, a qual teria abandonado o “literalismo ingênuo” de Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus. Mas esse é apenas (mais) um exemplo daquela interpretação tendenciosa dos documentos da Igreja que se tornou como que a marca registrada dos apparatchiks universitários. Na realidade, uma leitura imparcial mostra que Pio XII queria harmonizar as legítimas descobertas da ciência exegética moderna com as verdades inegociáveis da fé, tais como a inspiração divina e a inerrância de qualquer declaração autoral na Sagrada Escritura. Nesse sentido, o que ele fez foi menos modificar do que aumentar e refinar o pensamento de Leão XIII, lançando as bases para a Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Célebres, e com razão, são as encíclicas Mediator Dei, de 1947, e Humani Generis, de 1950. Em ambas Pio XII se opôs firmemente às tendências na Igreja que eram, e ainda são, nocivas à saúde do culto e da teologia católicas (já que as duas são inseparáveis).

A Mediator Dei contém um ensinamento positivo substancial sobre a natureza, o propósito e a simbologia eficaz da sagrada liturgia. Quando eu li pela primeira vez essa encíclica, anos atrás, fiquei assombrado com minha profunda ignorância do que acontecia na igreja todos os domingos. Desde então, cresceu em mim a certeza de que a pior aflição que assalta a Igreja pós-conciliar é o esquecimento do que seja o santo Sacrifício da Missa e, em particular, como ele envolve a mim, aqui e agora. Além disso, essa encíclica nos previne contra as próprias tendências litúrgicas que se tornariam dominantes em nossa época, como o antiquarianismo.

O dogma do 4.º Concílio Ecumênico, o de Calcedônia, que proclamou as naturezas divina e humana em Cristo como sendo distintas sem separação e unidas sem confusão, é o objeto da majestosa encíclica Sempiternus Rex Christus, de 1951, escrita por ocasião do 1.500º aniversário daquele Concílio; as encíclicas Evangelii Praecones, de 1951, e Fidei Donum, de 1957, falam da promoção das missões católicas ao redor do mundo, as quais estavam florescendo durante seu pontificado; a encíclica Sacra Virginitas, de 1954, exalta a virgindade consagrada; a encíclica Musicae Sacrae, de 1955, defende a música sacra tradicional e critica a música religiosa secularizada (o que faz desse documento ainda mais relevante hoje do que era 63 anos atrás); a encíclica Haurietis Aquas, de 1956, trata da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com grande intensidade e pureza de fé; a encíclica Miranda Prorsus, de 1957, advertia os católicos de então, hipnotizados que estavam pelo cinema, pela rádio e pela televisão, a tomarem o cuidado de não entregar suas almas à indústria do entretenimento.

Cada uma das encíclicas acima pode ser lida com grande proveito espiritual, estejamos nós sozinhos na tranquilidade de nosso quarto ou reunidos em um grupo de oração e de estudos. E nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido.

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Nove encíclicas que você precisa ler do Papa Pio XI
Doutrina

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Pio XI. Para beber hoje de sua sabedoria, nada é tão importante quanto revisitar o seu magistério como Papa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Fevereiro de 2019
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O último dia 10 de fevereiro marca o 80.º aniversário da morte do Papa Pio XI, que reinou no trono de Pedro de 1922 a 1939. Em um mundo de produção textual instantânea e incessante, talvez não deveríamos surpreender-nos com o fato de alguém que começou seu pontificado há quase um século ser esquecido em grande parte.

Mas Pio XI merece ser mais bem conhecido e mais afetuosamente amado por suas encíclicas esplêndidas, cheias de amor, clareza e coragem. De fato, esses documentos são uma fonte preciosa, não só para o tenso período entre guerras durante o qual esse Papa foi chamado a servir à Igreja de Cristo, mas para todas as épocas.

Achille Ratti veio de uma família humilde, teve a carreira tranquila de um acadêmico com doutorado em Teologia e serviu à Igreja como prefeito da Biblioteca Vaticana. Seus êxitos subsequentes como núncio na Polônia e como arcebispo de Milão fizeram dele uma boa opção para o trono de São Pedro após a morte de Bento XV.

Não demorou muito para que a Igreja e o mundo notassem a fibra de que era feito o novo Pontífice. Sua encíclica inaugural, Ubi Arcano Dei Consilio, de 1922, descrevia a situação do mundo após a Primeira Guerra Mundial com uma argúcia espiritual de que nenhum historiador secular era capaz, e propunha, como única solução cogente que se adotasse de maneira séria a doutrina social católica.

Essa insistência em implementar o magistério social da Igreja — um esforço em articular uma alternativa genuinamente católica ao socialismo crescente, ao fascismo efervescente e ao capitalismo selvagem — ocuparia Pio XI em muitas de suas mais de 30 encíclicas. O velho adágio “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas” parece especialmente pertinente às encíclicas de Pio XI. Hoje, os fiéis enfrentam os mesmos desafios sobre os quais ele escreveu, ainda que a “clave” ou o “andamento” da música tenha mudado.

A próxima encíclica na ordem, e de enorme significado para o magistério da Igreja, foi a amplamente debatida Quadragesimo Anno, promulgada em 1931 por ocasião dos 40 anos da Rerum Novarum de Leão XIII. De todas as encíclicas sociais desde Leão XIII até João Paulo II, nenhuma é tão forte, incisiva e completa quanto esta, com sua análise dos fundos internacionais e das correntes de exploração que dão forma aos mercados econômicos. Já é passada a hora de resgatarmos o patrimônio de nossa fé, retomando as mais ricas fontes da sabedoria social da Igreja, entre as quais merece ser contada indubitavelmente essa encíclica.

O Papa Pio XI.

Característica fundamental do ensinamento de Pio XI foi, também, o reinado de Jesus Cristo sobre todos os homens, sociedades, nações e instituições. Essa visão do primado e do domínio absoluto de Cristo motivava seus pensamentos, desejos, intervenções e conselhos. E é essa visão que permanece altamente relevante para nós. A Igreja Católica só florirá neste período de “pós-modernidade” à medida que conhecer e viver os ensinamentos que o Papa Pio XI tão corajosamente proclamou em sua encíclica Quas Primas, de 1925, uma das mais importantes cartas papais do século XX. Por meio desse documento, Pio XI estabeleceu uma nova festa, em honra a Cristo Rei — uma festa que se tornou familiar aos católicos em todo o mundo, ainda que sua intenção original tenha sido de alguma forma obnubilada pelas mudanças litúrgicas subsequentes.

A clássica encíclica Casti Connubii, de 1930, com sua visão nobre e realista do Matrimônio, é a melhor abordagem jamais promulgada por um Papa ao entendimento católico sobre esse sacramento. Nós corremos o sério risco de interpretar mal o ensinamento seguinte de João Paulo II sobre o casamento se não procurarmos lê-lo à luz da Casti Connubii e em continuidade com ela. Não há melhor encíclica para preparar os noivos católicos ao Matrimônio.

Foi também esse Papa que nos brindou com a Magna Charta da educação cristã da infância e da juventude: a encíclica Divini Illius Magistri, de 1929. Os pais que educam seus filhos em casa notarão com alegria que Pio XI defende essa situação como a norma e o padrão dados por Deus, ao passo que a educação em escolas é a exceção moderna, carregada de perigos para a formação moral e religiosa das crianças.

Isso, evidentemente, não impede o Papa de explicar os princípios que todos os educadores, seja dentro da família, seja numa profissão, devem observar na educação de discípulos cristãos. Essa encíclica tem uma importância particular para os dias de hoje, quando muitos dos males deplorados por Pio XI, como a educação sexual, se tornaram “rotina”. Muito do que ele tem a dizer, também, sobre pedagogia efetiva e a hierarquia dos sujeitos permanece válido e aplicável.

As duas encíclicas de 1937 sobre as aberrações soviética e nazista — Divini Redemptoris e Mit Brennender Sorge — transportam poderosamente o leitor para as eras sangrentas às quais elas foram dirigidas. Apesar de seus aspectos específicos para aquele tempo, há uma filosofia política católica articulada nessas encíclicas que permanece verdadeira para nossa época, bem como um crítica potente de erros que, mesmo tendo sido continuamente refutados pelos fatos, de alguma forma nunca pararam de surgir nas sociedades, seja nas afluentes e ociosas, seja nas pobres e desesperadas.

Na encíclica Ad Catholici Sacerdotii, de 1935, o Papa Pio XI abre o coração a todos os padres do mundo e a todos os que se tornarão sacerdotes. Esse documento é um dos tratados mais apaixonados, eloquentes e equilibrados jamais escritos a respeito da natureza, dos privilégios e das exigências do sacerdócio católico. Por essa razão, sua leitura deveria ser exigida de todos os seminaristas. Pio XI ao mesmo tempo canta elevados elogios a essa magnífica vocação e aponta para suas exigências irrenunciáveis. A impressão que fica, na mente de quem lê a encíclica, é que o estado de vida sacerdotal, assim como o chamado a vivê-la, é um dom sublime e gratuito do Pai das luzes — chamado que mais pessoas deveriam escutar e estado ao qual mais pessoas deveriam aspirar. Eu acredito, na verdade, que a simples leitura dessa encíclica faria aumentar o número de vocações ao sacerdócio.

Eu mencionaria por último a fascinante encíclica sobre o cinema, Vigilanti Cura, de 1936, escrita numa época em que essa forma de entretenimento estava atingindo seu ápice. Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Achille Ratti. Aqui ele lamenta a iniciação à luxúria promovida por muitos filmes e oferece orientações rigorosas para a censura exercida pelos bispos e associações de fiéis leigos, baseada em princípios precisos, sensíveis à arte e moralmente saudáveis. Por isso, se nós pudermos retornar, de uma forma ou de outra, à sanidade singela e cândida de Vigilanti Cura, nós teremos dado um grande passo rumo à santidade.

O ocaso da vida do Papa Pio XI coincidiu com as trevas espessas que fariam irromper a Segunda Guerra Mundial. Em seu leito de morte, Pio XI ofereceu sua vida pela paz no mundo. Suas encíclicas colocam-nos em contato com um Papa de catolicismo inflexível que, justamente por se preocupar genuinamente com seu povo, não permitia que ele errasse por caminhos falsos, mas, ao contrário, apontava repetidamente para o caminho da vida traçado pela experiência e pela tradição católicas. De nossa parte, faríamos muito bem se bebêssemos de sua sabedoria, não nos deixando desviar por “lobos em pele de cordeiro” e evitando os falsos caminhos que o nosso mundo apresenta como os “expedientes inevitáveis” de uma sociedade pós-moderna.

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Discernir a própria vocação ou “fazer o que der na telha”?
Espiritualidade

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Não se resolve o problema da vocação com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para mim, eu preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Fevereiro de 2019
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Há alguns anos nós publicamos aqui uma matéria a respeito do chamado “discernimento vocacional perpétuo”. O texto e a expressão não eram de autoria nossa; pegamo-los emprestados de Michael W. Hannon, que escreve no site norte-americano First Things. Por muito tempo republicamos esta tradução em nossas redes sociais, mas, reavaliando melhor as ideias apresentadas pelo autor, decidimos despublicá-la e, agora, até para a edificação dos que nos lêem, queremos apresentar o porquê dessa atitude.

Expliquemos, em primeiro lugar, o porquê de havermos escolhido esse texto para publicação: a sua crítica é importante para levantar da inércia os homens e mulheres de nossa época, que ficam indefinidamente pensando no que querem ou no que vão fazer de sua vida, sem no entanto tomar uma atitude ou assumir responsabilidades de gente adulta. É essa inércia e indecisão — conectadas a uma espécie de “discernimento vocacional perpétuo” — que fazem nossos jovens trocarem de curso universitário como quem troca de roupa e viverem com os próprios pais até os 30 e 40 anos, quando em outros tempos eles já teriam constituído uma família ou entrado em uma congregação religiosa.

A solução apresentada por Michael Hannon, no entanto, ao mesmo tempo que procura condenar esse extremo de indecisão e imobilidade, pode facilmente levar à precipitação e a uma visão distorcida de “vocação”. No período talvez mais forte do texto, ele chega a dizer que “não necessariamente Deus nos diz o que fazer a respeito das grandes decisões da vida, incluindo a escolha entre a vida religiosa e a vida secular (sic). Ele nos abençoa com algumas opções boas e virtuosas e, então, deixa a decisão para nós”.

Alto lá…! Se por “deixar a decisão para nós” se entende que Deus não viola o nosso livre-arbítrio, não nos obrigando a seguir este ou aquele caminho, sim, está certo. Mas se por isso se entende que Ele não nos indica e não nos inspira com sua graça este ou aquele caminho, então, está errado. A palavra “vocação”, afinal de contas, significa “chamado”. Se é um chamado, há alguém que chama. (Se é um chamado à vida religiosa ainda por cima, ou à vida matrimonial, caminhos de santidade, é Alguém, com “a” maiúsculo, que chama.) Se Deus nos chama, de nossa parte o que precisamos fazer é escutar. Daí a necessidade de discernirmos, sim, nossa vocação pessoal, para além da vocação geral que, é óbvio, todos os batizados têm à santidade.

Também nessa questão há uma confusão séria presente no texto de Michael Hannon. À pergunta: “Se um cristão não deve presumir que Deus irá querer revelar-lhe sobrenaturalmente a sua ‘vocação pessoal’, como então ele deve conhecer a vontade de Deus para a sua vida?”, o autor diz o seguinte:

Eu me arriscaria a dizer que, se ele tem frequentado a igreja semanalmente e recebeu pelo menos uma catequese razoável ao longo do caminho, ele provavelmente já conhece a vontade de Deus para a sua vida. Cristo a resume sucintamente nos Dez Mandamentos, e ainda mais sucintamente em Mt 22, 34-40: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” e “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Nisso, bem como nos mandamentos da Igreja, consiste toda a instrução de que precisamos para alcançarmos a nossa felicidade e chegarmos à salvação eterna.

Sim, é verdade que a vontade de Deus a respeito da humanidade foi revelada de modo definitivo em Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo que — como diz uma célebre passagem de S. João da Cruz, presente inclusive no novo Catecismo da Igreja Católica —, “se [...] alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (§ 65). Mas isso não significa que não devamos pedir a Deus que nos mostre, na oração (e sem prescindir da humanidade santíssima de Nosso Senhor!), aquilo que Ele tem reservado de modo particular para a nossa vida.

Convém aqui não misturarmos um capítulo importante de Teologia Dogmática com outro capítulo, igualmente necessário, de Teologia Mística. A frase de São João da Cruz, acima, é substancialmente diferente da do monge ucraniano citado por Hannon em seu texto: este, perguntado por um repórter se Deus falava com ele na oração, respondeu: “Ele não fala comigo, porque ele já falou tudo por meio do Evangelho e por meio das obras dos Santos Padres, dos santos”. É óbvio que, se pelo verbo falar se entende o modo como os seres humanos costumam se comunicar, falando com a boca e ouvindo com os ouvidos, Deus não fala com as pessoas a não ser de modo extraordinário.

Mas uma mínima experiência de vida de oração, uma leitura breve de um bom tratado de teologia mística, são suficientes para nos mostrar que Deus fala, sim, conosco, comunicando-nos as suas graças, movendo-nos com o seu Espírito e dizendo, sim, o que devemos ou não fazer, não só em matéria de “vocação pessoal”, mas principalmente nesses casos. Para dispensar longas citações, limitemo-nos a Santo Tomás de Aquino comentando o versículo “Porque os que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8, 14): “Esses são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” (Sup. Rom., c. VIII, l. 3).

— Ah, mas ele era “Santo” Tomás de Aquino… Deus falava interiormente com os santos mesmo… Por que eu deveria supor que Ele falaria comigo? Não seria presunção? — Absolutamente, não. Vejamos o que diz a esse respeito, por exemplo, o padre Antonio Royo Marín (Teología de la Perfección Cristiana, n. 638):

Consideremos com frequência que o Espírito Santo habita dentro de nós mesmos. Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida.

O problema do “discernimento vocacional perpétuo” não se resolve, portanto, com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se existe uma vocação de Deus para nós, precisamos descobri-la no silêncio da oração e através de “uma vida cristã seriamente vivida”. Como diz o Papa Bento XVI, em uma citação feita pelo próprio Michael Hannon ao fim de seu texto: “Ao ouvir a Deus e caminhar com Ele eu me torno realmente eu mesmo. O que importa não é a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida se torna autêntica.”

Existe ainda, é claro, toda uma reflexão teológica sobre a docilidade que devemos ter ao Espírito Santo, assim que tomamos conhecimento da vontade de Deus a nosso respeito. Dela, no entanto, esperamos falar oportunamente noutra ocasião. Por ora, simplesmente procuremos nos libertar dessas ideias errôneas a respeito de vocação e vida de oração. Não tratemos a Deus como um “desconhecido” que falou no passado e agora nos abandonou à nossa própria sorte. Não, a oração cristã é uma via de mão dupla, na qual nós falamos com Deus e Ele responde sim às nossas petições, conforme promessa do próprio Cristo: “Pedi e vos será dado. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem procura, acha. A quem bate, será aberto.” (Mt 7, 7-8)

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Aborto e contracepção, dois “frutos da mesma planta”
Pró-Vida

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

“A cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção.”

Papa São João Paulo II6 de Fevereiro de 2019
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Publicamos abaixo trecho da encíclica Evangelium Vitae, de São João Paulo II, na qual ele afirma, com muita razão, que o aborto e a contracepção são “frutos da mesma planta”.

A lição é importante porque, quando as pessoas pensam no problema do aborto, a solução imediata que muitas vezes lhes vem à mente é justamente ensinar aos jovens como “prevenir” a gravidez, colocando nas suas mãos todos os métodos contraceptivos à disposição no mercado.

Mas, se queremos educar as futuras gerações para o respeito ao outro e para a maturidade, será esse mesmo o caminho que devemos trilhar? Ou não precisaríamos, antes, de uma verdadeira mudança de mentalidade, que começasse dentro de nossas próprias famílias?


Para facilitar a difusão do aborto, foram investidas — e continuam a sê-lo — somas enormes, destinadas à criação de fármacos que tornem possível a morte do feto no ventre materno, sem necessidade de recorrer à ajuda do médico. A própria investigação científica, neste âmbito, parece quase exclusivamente preocupada em obter produtos cada vez mais simples e eficazes contra a vida e, ao mesmo tempo, capazes de subtrair o aborto a qualquer forma de controle e responsabilidade social.

Afirma-se frequentemente que a contracepção, tornada segura e acessível a todos, é o remédio mais eficaz contra o aborto. E depois acusa-se a Igreja Católica de, na realidade, favorecer o aborto, porque continua obstinadamente a ensinar a ilicitude moral da contracepção.

Bem vista, porém, a objeção é falaciosa. De fato, pode acontecer que muitos recorram aos contraceptivos com a intenção também de evitar depois a tentação do aborto. Mas os pseudovalores inerentes à “mentalidade contraceptiva” — muito diversa do exercício responsável da paternidade e maternidade, atuada no respeito pela verdade plena do ato conjugal — são tais que tornam ainda mais forte essa tentação, na eventualidade de ser concebida uma vida não desejada.

De fato, a cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Certo é que a contracepção e o aborto são males especificamente diversos do ponto de vista moral: uma contradiz a verdade integral do ato sexual enquanto expressão própria do amor conjugal, o outro destrói a vida de um ser humano; a primeira opõe-se à virtude da castidade matrimonial, o segundo opõe-se à virtude da justiça e viola diretamente o preceito divino “não matarás”.

Mas, apesar de terem natureza e peso moral diversos, eles surgem, com muita frequência, intimamente relacionados como frutos da mesma planta. É verdade que não faltam casos onde, à contracepção e ao próprio aborto se vem juntar a pressão de diversas dificuldades existenciais que, no entanto, não podem nunca exonerar do esforço de observar plenamente a lei de Deus. Mas, em muitíssimos outros casos, tais práticas afundam as suas raízes numa mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da sexualidade, e supõem um conceito egoísta da liberdade que vê na procriação um obstáculo ao desenvolvimento da própria personalidade. A vida que poderia nascer do encontro sexual torna-se assim o inimigo que se há de evitar absolutamente, e o aborto a única solução possível diante de uma contracepção falhada.

Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a nível de mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto, como o demonstra, de modo alarmante, a produção de fármacos, dispositivos intrauterinos e preservativos, os quais, distribuídos com a mesma facilidade dos contraceptivos, atuam na prática como abortivos nos primeiros dias de desenvolvimento da vida do novo ser humano.

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Ela perdoou o assassino do próprio filho e...
Espiritualidade

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

...como recompensa, viu a alma dele ser libertada do Purgatório. “Querida mãe, porque mostraste misericórdia para com meu assassino”, disse-lhe em aparição o filho, “Deus mostrou misericórdia para comigo.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2019
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A caridade cristã, aquela misericórdia que Jesus Cristo tanto recomenda no Evangelho, compreende não apenas a assistência corporal dada aos necessitados, mas todo o bem que fazemos ao nosso próximo trabalhando para sua salvação, suportando-lhe os defeitos e perdoando-lhe as ofensas. Todas essas obras de caridade podem ser oferecidas a Deus pelos fiéis defuntos e possuem grande valor satisfatório.

São Francisco de Sales conta que, na cidade de Pádua, onde ele cumpriu parte de seus estudos, havia um costume detestável: os jovens se divertiam passeando pelas ruas à noite, armados com arcabuzes e gritando a todos os que encontravam: “Quem está aí?As pessoas eram obrigadas a responder, sob pena de levarem um tiro. Com isso, muitos eram feridos e até mesmo assassinados.

Aconteceu uma noite de um estudante, não tendo respondido à pergunta, ser acertado na cabeça por uma bala e ficar mortalmente ferido. O autor deste crime fugiu aterrorizado e procurou refúgio na casa de uma boa viúva que ele conhecia e cujo filho era seu companheiro de turma. Ele confessou a ela aos prantos que havia acabado de matar um desconhecido e implorou que lhe desse um abrigo em sua casa. Tomada de compaixão e não suspeitando ter diante de si ninguém menos que o assassino de seu filho, a senhora escondeu o fugitivo em um lugar seguro, onde os oficiais de justiça não seriam capazes de encontrá-lo.

Nem meia-hora havia transcorrido quando um tumulto se ouviu à sua porta. Um cadáver foi carregado e colocado diante dos olhos da viúva. Infelizmente, era seu filho que havia sido morto, e o assassino dele encontrava-se escondido em sua casa. A pobre mãe irrompeu em gritos de dilacerar o coração e, chegando ao esconderijo do assassino, disse-lhe: “Homem miserável! Que te fez o meu filho para que tu o assassinasses assim, de maneira tão cruel?”

O pobre desgraçado, descobrindo que havia matado seu amigo, começou a chorar em alta voz, arrancar os cabelos e apertar as mãos em sinal de desespero. Prostrando-se no chão, ele implorou o perdão de sua protetora e suplicou-lhe que o entregasse ao magistrado, a fim de expiar o crime tão terrível que havia cometido.

A mãe inconsolável lembrou-se naquele momento que era uma cristã e o exemplo de Jesus Cristo, rezando por seus algozes, deu-lhe impulso para realizar um ato heroico. Ela disse que, desde que ele pedisse perdão a Deus e emendasse de vida, ela o perdoaria e retiraria qualquer acusação contra ele.

Esse perdão foi tão agradável a Deus que Ele quis dar à generosa mãe uma prova impressionante disso, permitindo que a alma de seu filho lhe aparecesse, resplendente de glória e dizendo que ele estava prestes a gozar da bem-aventurança eterna. “Deus mostrou misericórdia para comigo, querida mãe”, disse aquela alma bendita, “porque tu mostraste misericórdia para com meu assassino. Por causa do perdão que tu lhe concedeste, eu fui libertado do Purgatório, onde, não fosse a assistência que tu me prestaste, eu teria de passar por longos anos de intenso sofrimento.”

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