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A natureza sem a graça
Espiritualidade

A natureza sem a graça

A natureza sem a graça

O triste projeto de um povo que, fingindo ignorar que a natureza humana é decaída pelo pecado original, vive como se Deus não existisse.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Em sua obra para destruir o “organismo misterioso de Cristo", o inimigo tem querido, nas palavras do Papa Pio XII, “a natureza sem a graça" [1].

De fato, antes mesmo da criação do homem, já se havia manifestado a soberba de Satanás, que queria ser igual a Deus por suas próprias forças. É claro que o demônio não procurava ser como Deus “por equiparação", isto é, transmutando-se na natureza divina. Ele “sabia, por conhecimento natural, ser isso impossível", explica Santo Tomás. Porém, ele queria ter “como fim último a semelhança com Deus, que é dom da graça, (...) pela virtude da sua natureza, e não pelo auxílio divino, segundo a disposição de Deus" [2]. Citando Santo Anselmo, resume o Aquinate que o demônio desejou aquilo que obteria se perseverasse.

É o próprio Tomás quem explica em que sentido o desejo de assemelhar-se a Deus é pecaminoso. Porque se é verdade que o diabo caiu por querer ser como Ele, também é verdade que o próprio Senhor ordenou: “Santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo" [3]; e repetiu, pela boca do Verbo encarnado: “Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito" [4]. Ora,

“quem neste sentido deseja ser semelhante a Deus não peca, pois, deseja alcançar a semelhança com Deus na ordem devida, a saber, enquanto tem essa semelhança recebida de Deus. Se, porém, desejasse ser semelhante a Deus por justiça, como por virtude própria e não pela virtude de Deus, pecaria." [5]

Foi deste último modo – “por justiça, como por virtude própria" – que o demônio se quis assemelhar a Deus. E para esse mesmo caminho de morte ele seduziu a humanidade: “No dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus" [6]. Eva, atraída pela aparência do fruto e pelas palavras do tentador, “colheu o fruto", arrebatando-o com violência. A humanidade, feita à imagem e semelhança de Deus, acabava por imitar o diabo, tentando dominar, à força, aquilo que se deveria receber como um dom gratuito do Criador.

Aparentemente, até esta parte da história, o projeto do inimigo de edificar “a natureza sem a graça" tinha alcançado grande sucesso.

Mas, “se pelo pecado de um só toda a multidão humana foi ferida de morte, muito mais copiosamente se derramou, sobre a mesma multidão, a graça de Deus, concedida na graça de um só homem, Jesus Cristo" [7]. O Verbo, existindo em condição divina, “não se apegou ao ser igual a Deus". Nesse trecho da Carta aos Filipenses, São Paulo usa a palavra grega “ἁρπαγμὸν" (lê-se: harpagmón), apresentando um contraste com a atitude dos primeiros pais: enquanto Eva se quis apropriar indevidamente da divindade, o próprio Deus se rebaixou à nossa humanidade, “assumindo a forma de escravo", humilhando-se e “fazendo-se obediente até à morte – e morte de cruz!" [8]. Tudo isso para conceder-nos a Sua filiação divina: “Por natureza só há um Filho de Deus, que, por sua bondade, se fez por nós filho do homem, a fim de que, filhos do homem por natureza, por sua mediação nos tornássemos filhos de Deus por graça" [9].

Se, por um lado, é grande a misericórdia de Deus, por outro, é uma constante na história a tentação de abandoná-Lo e “roubar" o tesouro sobrenatural. A heresia pelagiana, ainda nos primeiros séculos da Igreja, colocou inúmeras pessoas no caminho de uma terrível torre de Babel. Corria-se em busca do Céu, mas se buscava alcançá-lo por esforços puramente humanos.

Hoje, tragicamente, o Céu não é a meta de quase ninguém. Um pouco de sucesso profissional, mais um punhado de prazeres passageiros e uma casa confortável na praia, são o medíocre projeto do homem deste século, que desconhece o significado de “graça", “pecado" ou das mais elementares verdades da fé. Realidade triste que, infelizmente, é passada também aos mais jovens. Está praticamente consolidada entre nós uma educação naturalista, permissiva e liberal, pela qual o ser humano não passaria de um “bom selvagem" e quaisquer atos humanos poderiam ser aceitáveis, desde que acomodados ao terreno já vilipendiado da consciência.

“A natureza sem a graça" é o triste projeto de Satanás – e de um povo que, fingindo ignorar que a natureza humana é decaída pelo pecado original, vive como se Deus não existisse.

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Vida e obra de São Jerônimo
Santos & Mártires

Vida e obra de São Jerônimo

Vida e obra de São Jerônimo

“Não há nada que eu tenha evitado com tanto cuidado desde minha infância quanto o espírito de orgulho e a altivez de caráter que atraem a cólera de Deus”: é o testemunho de São Jerônimo, presbítero e Doutor da Igreja, coletado na Legenda Áurea.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr.30 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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Jerônimo deriva de gerar, “santo”, e nemus, “bosque”, significando “bosque santo”, ou então vem de noma, que quer dizer “lei”. É por isso que sua legenda diz que Jerônimo significa “lei sagrada”. Com efeito, ele foi santo, isto é, firme, puro, coberto de sangue ou destinado às funções sagradas, como se diz dos vasos do templo, destinados a usos santos. Ele foi santo, isto é, firme em boas obras por causa de sua perseverante generosidade; limpo por causa da pureza de seu espírito; coberto de sangue por causa de sua meditação sobre a Paixão do Senhor; destinado a uso sagrado por causa de sua exposição e interpretação da Sagrada Escritura. Seu nome significa “bosque” porque ele habitou algum tempo um bosque; significa “lei” devido à disciplina regular que ensinou a seus monges ou porque explicou e interpretou a Lei sagrada.

Jerônimo significa ainda “visão de beleza” ou “selecionador de palavras”. A beleza é múltipla: a primeira é espiritual, que reside na alma; a segunda é moral, que consiste na honestidade dos costumes; a terceira é intelectual, que é a beleza dos anjos; a quarta é sobrenatural, que pertence a Deus; a quinta é celeste, que têm os santos na pátria. Jerônimo vivenciou e possuiu essa quíntupla beleza. Possuiu a espiritual nas suas diferentes virtudes; a moral na sua vida honesta; a intelectual na sua excelente pureza; a sobrenatural na sua ardente caridade; a celeste na sua caridade excelente e eterna. Foi selecionador de palavras, tanto das ditas por ele quanto pelos outros, em um caso publicando [1] e, em outro, confirmando as verdadeiras, refutando as falsas e esclarecendo as duvidosas.

Conversão de Jerônimo. — Jerônimo, filho de um nobre chamado Eusébio, era originário da cidade de Estridônia, nos confins da Dalmácia e da Panônia [2]. Ainda jovem foi para Roma, onde estudou letras gregas, latinas e hebraicas. Seu mestre de gramática foi Donato e o de retórica, o orador Vitorino. Ele se dedicava noite e dia ao estudo das Sagradas Escrituras. Delas tirou com avidez os conhecimentos que, mais tarde, abundantemente divulgou. Em certa época, ele conta em carta a Eustáquio como passava o dia a ler Cícero e a noite a ler Platão, porque o estilo descuidado dos livros dos profetas não lhe agradava, quando, por volta de meados da Quaresma, foi tomado por uma febre tão súbita e violenta, que seu corpo esfriou e o calor vital mal palpitava no seu peito. 

Já se preparava seu funeral quando, de repente, foi levado ao tribunal do Juiz, que lhe perguntou qual era sua condição, e ele respondeu abertamente ser cristão. Disse-lhe o Juiz: “Tu mentes: tu és ciceroniano, não cristão. Pois onde está o teu tesouro, ali está o teu coração”. Jerônimo calou-se, e imediatamente o Juiz mandou chicoteá-lo com rigor. Ele se pôs então a gritar: “Tende piedade de mim, Senhor, tende piedade de mim!” Os que estavam presentes rogaram ao Juiz que perdoasse àquele jovem. Este fez um juramento: “Senhor, se eu alguma vez tiver livros profanos e os ler, é porque vos terei negado”. Feito o juramento, foi mandado embora e, repentinamente, voltou à vida, descobrindo que estava banhado em lágrimas e que seus ombros estavam horrivelmente lívidos dos golpes recebidos diante daquele tribunal.

Depois disso, ele leu os livros divinos com o mesmo zelo com que antes lera os livros pagãos. Tinha 29 anos quando foi ordenado cardeal-presbítero na Igreja romana. Com a morte do Papa Libério, Jerônimo foi aclamado por todos como digno do sumo sacerdócio; mas, como havia repreendido a conduta lasciva de alguns clérigos e monges, estes, muito indignados, armaram-lhe ciladas. Conta João Beleth que colocaram uma roupa de mulher no lugar da sua, para zombar dele vergonhosamente. De fato, quando Jerônimo se levantou como de costume para as Matinas, encontrou ao lado da cama um traje que pensou ser o seu, mar era de mulher, ali colocado pelos invejosos. E vestido assim foi à igreja. Os rivais haviam feito isso para que se acreditasse que havia uma mulher no quarto dele. Vendo até onde chegava a loucura deles, retirou-se Jerônimo para a casa de Gregório de Nazianzo, bispo da cidade de Constantinopla.

Depois de ter aprendido com ele a literatura sagrada, correu para o deserto e ali sofreu por Cristo tudo o que ele mesmo relata a Eustáquio:

Todo o tempo que fiquei no deserto, naquela vasta solidão abrasada pelo calor do Sol, a qual mesmo para os monges é um lugar horrível para morar, eu acreditava estar no meio das delícias de Roma. Meus membros deformados estavam cobertos por um cilício que os tornava horrendos; minha pele ressecada adquirira a cor da carne dos etíopes. Todos os dias se passavam em lágrimas, em gemidos, e se algumas vezes um sono repugnante me prostrava, era a terra nua que servia de leito aos meus ossos secos. Nem falo de beber e de comer, pois considerava a água fria e a comida cozida dos doentes um pecado de luxúria. Embora tivesse por companheiros apenas escorpiões e feras, muitas vezes, em espírito, encontrava-me no meio de moças, e naquele corpo frio, naquela carne já morta, pululavam os incêndios dos desejos. Isso provocava choros contínuos, e eu submetia minha carne rebelde a jejuns de semanas inteiras. De dia e de noite era sempre a mesma coisa. Eu só parava de golpear o peito quando o Senhor me devolvia a tranquilidade. Mesmo minha cela me dava medo, como se fosse testemunha de meus pensamentos. Irritava-me contra mim, e sozinho embrenhava nos mais ríspidos desertos. Então — Deus é minha testemunha —, depois de lágrimas abundantes, às vezes me parecia estar entre os coros dos anjos.

Ele assim fez penitência durante 4 anos, depois voltou a Belém, onde se ofereceu para permanecer como um animal doméstico junto da manjedoura do Senhor. Relia as obras de sua biblioteca, que reunira com o maior cuidado, assim como outros livros, e jejuava até o fim do dia. Reuniu à sua volta grande número de discípulos e consagrou 55 anos e 6 meses a traduzir as Escrituras [3]. Permaneceu virgem até o fim da vida. Ainda que essa legenda diga que sempre foi virgem, ele escreveu a Pamáquio: “Prefiro a virgindade no Céu, já que não tenho a daqui”. No final estava tão esgotado que, para se levantar da cama a fim de acompanhar como podia os Ofícios do mosteiro, precisava segurar-se com as mãos em uma corda presa a um pilar. 

“São Jerônimo e o leão”, de Hans Memling.

O leão e o asno. — Certa vez, ao cair do dia, quando Jerônimo estava sentado com seus irmãos para escutar a leitura sagrada, de repente entrou no mosteiro um leão que mancava. Vendo-o, todos os irmãos fugiram, mas Jerônimo foi ao seu encontro como se ele fosse um hóspede. O leão mostrou que estava ferido na pata, e Jerônimo chamou os irmãos, ordenando-lhes que lavassem a pata dele e procurassem atentamente o lugar da ferida. Assim fazendo, descobriram que os espinhos haviam machucado a planta da pata. Todo cuidado foi dedicado ao leão, que, uma vez curado, passou a morar com eles quase como um animal doméstico. Então Jerônimo percebeu que não era tanto para curar a pata do leão quanto pela utilidade que disso se poderia tirar que o Senhor o enviara. A conselho dos irmãos, decidiu confiar-lhe a tarefa de conduzir o pasto e proteger o asno que a comunidade empregava para trazer lenha da floresta. Assim foi feito. O leão cuidava do asno como um hábil pastor, servia de companheiro que todos os dias ia aos campos com ele e era seu vigilante defensor enquanto ele pastava. Só o deixava um pouco para procurar seu próprio alimento, e todos os dias, na mesma hora, voltava com ele para casa.

Um dia, porém, o asno estava pastando e o leão adormeceu profundamente, quando passaram por ali mercadores com camelos, que viram o asno sozinho e o raptaram. Ao acordar, não achando seu companheiro, o leão pôs-se a correr daqui para lá, rugindo. Enfim, não o encontrando, voltou muito triste para as portas do mosteiros, e cheio de vergonha não teve coragem de entrar como fazia habitualmente. Os irmãos, vendo-o voltar mais tarde que de costume e sem o asno, acharam que, levado pela fome, ele comera o animal e não quiseram dar-lhe sua razão costumeira, dizendo-lhe: “Vá comer o que sobrou do burrico! Vá saciar sua gula!” Entretanto, como não estavam certos de que ele tivesse cometido essa má ação, foram ao pasto ver se encontravam um indício de que o asno estava morto. Como não encontrassem nada, foram relatar tudo a Jerônimo, que impôs ao leão a função do asno: trazer nas costas a lenha cortada. O leão suportou isso com paciência.

“São Jerônimo como Cardeal”, do Museo Thyssen-Bornemisza, de Madri.

Um dia, depois de ter cumprido sua tarefa, foi ao campo e pôs-se a correr daqui para lá, desejando saber o que fora feito de seu companheiro, quando viu ao longe chegarem negociantes, que conduziam camelos carregados, tendo um asno à frente. É hábito nessa região que, quando se vai a longa distância com camelos, estes, para seguir um caminho mais direto, são precedidos por um asno que os conduz por meio de uma corda presa ao pescoço. O leão reconheceu o asno, lançou-se com terríveis rugidos sobre eles e pôs todos os homens em fuga. Com pavorosos rugidos, batendo a cauda com força no chão, forçou os assustados e carregados camelos a ir na frente dele para o estábulo do mosteiro. Quando os irmãos viram aquilo, informaram Jerônimo, que disse: “Lavai, caríssimos irmãos, as patas de nossos hóspedes, dai-lhes de comer e aguardai sobre este assunto a vontade do Senhor”. O leão começou a correr pelo mosteiro, cheio de alegria, como fazia antigamente, prostrando-se aos pés de cada irmão. Parecia, brincando com a cauda, pedir perdão por uma falta que não cometera.

Jerônimo, que sabia o que ia acontecer, disse: “Irmãos, ide preparar o necessário para os hóspedes que vêm aqui!” Ainda falava, quando um mensageiro anunciou que estavam à porta hóspedes que queriam ver o abade. Ele foi encontrá-los. Os negociantes lançaram-se imediatamente a seus pés pedindo perdão pela falta. O abade mandou com bondade que se erguessem, retomassem seus bens e não roubassem os dos outros. Eles rogaram que o bem-aventurado Jerônimo aceitasse metade de seu azeite e os abençoasse. Depois de muita insistência, obrigaram-no a aceitar a oferenda. Prometeram ainda dar aos irmãos todo ano uma quantidade igual de azeite e impor a mesma obrigação a seus herdeiros.

“São Jerônimo penitente”, de Anthony van Dyck.

Últimos trabalhos. — Antigamente, cada um cantava na igreja o que queria, mas o imperador Teodósio, segundo João Beleth, pediu ao Papa Dâmaso que confiasse a alguém douto a tarefa de organizar o Ofício eclesiástico. Sabendo que Jerônimo conhecia perfeitamente as línguas grega e hebraica e todas as ciências, encarregou-o desta tarefa. Então, Jerônimo dividiu o saltério entre os dias da semana, atribuiu a cada um deles um noturno próprio [4] e instituiu que se cantasse no fim de cada salmo o Glória, segundo relata Sigeberto. Depois, organizou as epístolas e os evangelhos que se devem cantar ao longo de todo o ano, e de Belém enviou tudo isso ao Sumo Pontífice e aos cardeais, que o aprovaram e determinaram sua autenticidade perpétua. Depois disso, Jerônimo mandou construir um túmulo na entrada da gruta onde o Senhor fora sepultado, e foi lá que, aos 98 anos e 6 meses, ele mesmo foi sepultado.

Legado. — Vê-se o profundo respeito que Agostinho teve por ele pelas cartas que lhe dirigiu. Em uma delas, escreve desse modo: “A Jerônimo, senhor caríssimo, com sinceríssimo afeto, o respeitoso abraço de Agostinho” etc. Em outro lugar, escreve assim sobre ele: “O santo padre Jerônimo, muito versado em grego, latim e hebraico, viveu até idade avançada nos lugares santos, dedicando-se ao estudo das letras sagradas. A celebridade de seus textos resplandece do Oriente ao Ocidente como a luz do Sol”. O bem-aventurado Próspero fala assim dele em suas crônicas: “Jerônimo, padre ilustre no mundo inteiro, habitava Belém, onde prestou serviços à Igreja por seu gênio eminente e por seus estudos”. Escrevendo a Albigense, ele fala assim de si mesmo: “Não há nada que eu tenha evitado com tanto cuidado desde minha infância quanto o espírito de orgulho e a altivez de caráter que atraem a cólera de Deus”. Diz ainda: “Tenho medo também das coisas certas”. Mais adiante: “No mosteiro, exercemos a hospitalidade de todo o coração, recebemos de rosto alegre e lavamos os pés de todos os que vêm até nós, exceto aos hereges”. 

Isidoro, no seu livro Etimologias, diz que “Jerônimo era perito em três línguas, por isso sua interpretação é preferível à dos outros: ele apreende melhor o sentido das palavras e suas expressões são claras e transparentes. Além do que, sendo cristão, sua interpretação é verdadeira”. Em um de seus diálogos, Sulpício Severo, discípulo de S. Martinho, fala assim de Jerônimo, seu contemporâneo: 

Independentemente do mérito de sua fé e de suas virtudes, Jerônimo era instruído no latim, no grego e mesmo no hebraico, e em todas as ciências, de forma que ninguém ousaria comparar-se a ele, cujos combates e lutas contra os maus eram incessantes. Os hereges o odiaram porque ele sempre os atacou; os clérigos, porque sempre lhes repreendeu os crimes e a maneira de viver. Mas todas as pessoas de bem o admiravam e amavam. Os que o consideram herege são loucos. Ele está sempre lendo, sempre no meio dos livros, sempre lendo ou escrevendo, não repousa nem de dia nem de noite.

Isso disse Severo.

Conforme suas próprias palavras, teve de suportar muitos perseguidores e detratores. Mas suportou de bom grado essas perseguições, como escreveu a Asela: “Dou graças a Deus de ser digno do ódio do mundo. Falam de mim como de um malfeitor, mas sei que, para chegar ao Céu, é preciso suportar tanto a boa quanto a má reputação”. Mais adiante, continua:

Queira Deus que, em nome de meu Senhor e da justiça, toda a multidão dos infiéis me persiga! Queira Deus que o mundo se erga com dureza para me ofender! Espero apenas uma recompensa: merecer os elogios de Cristo e a realização de suas promessas. É agradável e mesmo desejável ser posto à prova quando se pode esperar o prêmio de Cristo no Céu. As graves maldições são compensadas pelos louvores divinos.

Morreu por volta do ano do Senhor de 398 [5].

Notas

  1. Um dos grandes Padres da Igreja, célebre por sua tradução bíblica conhecida por Vulgata, autor de uma extensa obra, Jerônimo (c. 347-420) é uma das autoridades mais citadas pela Legenda áurea, em que aparece 48 vezes, em 28 diferentes capítulos.
  2. Isto é, em uma região entre as atuais Croácia e Hungria.
  3. Na verdade, o projeto bíblico que o Papa Dâmaso confia a Jerônimo começa em 383, em Roma, e se conclui entre 404 e 406, em Belém. Um trabalho, portanto, de no máximo 23 anos. Mas, ao contrário do que se costuma pensar, a versão Vulgata (lt. “comum”, “corrente”, “divulgada” etc.) das SS. Escrituras não é uma tradução integral de S. Jerônimo. Com efeito, 1) o texto do Novo Testamento foi somente revisado com base em uma versão latina já em uso (a chamada Vetus latina), cotejada com os melhores códices gregos de que se dispunha (essa revisão, no entanto, parece ter-se limitado aos evangelhos, enquanto a dos demais livros não foi, ao que tudo indica, obra de Jerônimo, mas de algum discípulo seu, identificado por alguns como Rufino, o Sírio); 2) por sua vez, o texto do Antigo Testamento foi em parte traduzido, em parte corrigido ou apenas revisado: a) os protocanônicos foram todos traduzidos diretamente do hebraico, com exceção dos Salmos, que correspondem a uma simples correção do chamado Saltério galicano; b) dos deuterocanônicos, apenas os livros de Tobias e Judite são tradução de Jerônimo, a partir de um texto aramaico, enquanto os restantes “procedem da Vetus latina, salvo alguns fragmentos de Daniel, que S. Jerônimo traduziu a partir do texto de Teodócio, na falta de um texto semítico” (Miguel A. Tábet, Introducción general a la Biblia. 4.ª ed., Madrid: Palabra, 2003, p. 276). Desses mais ou menos 23 anos de pesquisa, nada menos do que 15 foram dedicados ao Antigo Testamento, de 390 até a conclusão dos trabalhos no primeiro lustro do séc. V. (Nota da Equipe CNP.)
  4. Na Liturgia (até as reformas de 1969), noturno era uma parte do Ofício da noite: consistia, basicamente, de alguns salmos, leituras e responsórios (cantos de vozes alternadas). No Ofício monástico, havia dois noturnos nos dias comuns e três nos dias festivos.
  5. Na verdade, por volta de 420 d.C. (Nota da Equipe CNP).

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O sacrilégio mais grave é o seu!
Espiritualidade

O sacrilégio mais grave é o seu!

O sacrilégio mais grave é o seu!

O pecado de sacrilégio é grave e, das coisas sagradas, o que é cometido “contra a Eucaristia é o mais grave de todos”. Mas tudo se torna ainda mais sério quando os profanadores são justamente os que mais deveriam amar a Nosso Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Foi profanada, no último dia 22 de setembro, na comuna de Caltanissetta, ilha italiana da Sicília, a igreja de Santa Águeda, virgem e mártir dos primeiros séculos da era cristã. Os autores do crime, dois rapazes, já foram presos e, segundo informação do site Messa in latino, o ato se deu da seguinte forma: depois de roubarem coisas de valor na biblioteca,

eles entraram na igreja, onde começaram a furtar objetos sagrados e cometer atos de vandalismo. Em particular, violaram a urna de vidro onde repousa uma imagem de Nossa Senhora dormindo (Madonna dormiente), da qual arrancaram um braço e roubaram o broche de ouro que lhe fecha o manto. Danificaram o altar, retirando o cibório com hóstias consagradas e o vaso com os santos óleos, arrancaram e ajuntaram todos os candelabros da igreja, escondendo-os atrás de uma porta, provavelmente para voltar e levá-las em um segundo momento. 

As pessoas que não crêem em Deus, em Cristo e na sua Igreja, lêem relatos assim e concluem, dando de ombros: “Mais um caso de furto”. Os mais revoltados talvez digam: “Restitua-se o que foi furtado, punam-se os culpados, e ‘vida que segue’”. 

Fotografia da profanação em Caltanissetta.

Mas a nos diz que há algo mais. Alguns sites católicos italianos notaram com acerto que vândalos de igrejas não são ladrões convencionais. Não se pode ignorar, é claro, que em certos aspectos uma igreja é muito mais fácil de roubar que outros edifícios, onde as coisas de valor são guardadas a sete chaves ou ficam completamente escondidas de olhos curiosos. Na igreja, ao contrário, tudo o que há, embora destinado ao culto de Deus, é também de utilidade do homem: é diante das belas imagens sagradas que os fiéis católicos fazem suas orações, e quanto mais belas e valiosas são, mais elas movem a piedade e convidam à meditação. É preciso investir em segurança, é claro, mas certas medidas, cabíveis em qualquer estabelecimento bancário ou comercial, são completamente inviáveis numa igreja. Além disso, os objetos consagrados ao culto divino têm, geralmente, um valor pecuniário muito alto — e isso certamente atrai os bandidos. 

Ainda assim, é preciso perguntar: por que, entre tantos alvos, escolher justamente uma igreja para saquear? Para levar a cabo um empreendimento desse gênero, é preciso ter perdido, no mínimo, o senso de respeito ao sagrado. Dizemos “no mínimo” porque é sabido que muitos roubos desse tipo acontecem com intenções sacrílegas ainda mais perversas, como usar as espécies eucarísticas para cultos satânicos, por exemplo (sim, há pessoas que realmente cultuam Satanás). E o ponto é que as pessoas que procedem com essa intenção não são movidas simplesmente pela cobiça, mas por um impulso realmente demoníaco. 

Sim, o que aconteceu nessa igreja foi um furto, mas não foi um furto. Até o Estado costuma reconhecer e punir delitos contra o sentimento religioso em geral. Tanto no Brasil quanto na Itália há artigos do Código Penal prevendo isso.

Mas esta não é uma reflexão jurídica. Trata-se, antes, de um texto para que tomemos consciência do peso que têm os sacrilégios — e de que eles são piores quanto mais elevados os objetos profanados, e também (ai de nós!) quanto mais importantes os sujeitos que os cometem.

Comecemos pelos objetos. Com a palavra, S. Tomás, explicando como “as espécies de sacrilégio se distinguem conforme as coisas sagradas”: 

Quanto às coisas sagradas, há diversos graus correspondentes às diferenças dessas coisas. No grau supremo estão os sacramentos, que santificam os homens, dos quais o principal é a Eucaristia, já que nela está o próprio Cristo. Por esse motivo, o sacrilégio contra a Eucaristia é o mais grave de todos. Depois dos sacramentos, vêm os vasos sagrados, que se usam na administração dos sacramentos, as imagens dos santos e as suas relíquias nas quais se honram ou desonram os próprios santos. Em seguida, o que pertence aos ornatos das igrejas e seus ministros. Finalmente, os bens móveis ou imóveis destinados ao sustento dos ministros. Quem quer que viole o que está aqui enumerado, peca e incorre no crime de sacrilégio (STh II-II 99, 3 c.).

O que aconteceu na Sicília, portanto, à luz da fé, é de suma gravidade. A punição dos culpados segundo as leis civis é importante, sem dúvida, mas não é o suficiente para consertar a ofensa que ali se fez a Deus. É por isso que, sempre que acontece um sacrilégio contra o Santíssimo Sacramento, a primeira coisa que os padres fazem é convocar os fiéis para fazer atos de desagravo. Essa mobilização nasce da consciência de que Deus merece o nosso respeito e amor; mas quando, ao invés, os homens o ultrajam, é dever dos que o amam consolá-lo… Como os anjos consolaram Nosso Senhor no Horto, como a Verônica enxugou a face de Cristo na Via Crucis

É pelos contínuos pecados dos homens que Jesus teria dito ao Padre Pio: “Estarei em agonia até o fim do mundo”. Não porque Cristo, no Céu, ainda sofra; o que acontece é que os pecados que cometemos hic et nunc, aqui e agora, estavam na mente de Nosso Senhor quando Ele viveu a sua dolorosa Paixão. As Hóstias consagradas que foram profanadas em Caltanissetta parecem não dizer respeito a nós, porque nunca ouvimos falar desta cidade, porque ela está muito distante, porque temos mais com que nos preocupar… Mas não, elas foram vistas por Jesus quando Ele ofereceu o seu sacrifício no Calvário.

E se esse sacrilégio foi visto, também o foram todos os outros que acontecem em nossas igrejas, tão perto de nós, e às vezes até por nossa culpa, por nossa negligência, por nossa indiferença. Nosso Senhor viu as nossas comunhões mal feitas e distraídas, viu as comunhões que tomamos em pecado mortal, viu as partículas eucarísticas que caíram de nossas mãos quando as esfregamos em nossa roupa. O mesmo santíssimo Corpo que Ele deitou no madeiro para ser crucificado, o mesmo preciosíssimo Sangue que Ele derramou por nossa salvação, Ele viu cair e derramar-se no chão de nossas igrejas, pelo descuido, pela falta de zelo e pela impiedade de seus ministros. E tudo isso, atenção, certamente pesou muito mais em seu Coração do que o sacrilégio desses dois jovens de Caltanissetta.

Não, não se trata de minimizar a gravidade do que esses rapazes fizeram. Mas é que existe uma outra dimensão do sacrilégio que precisamos considerar: ele é tanto pior quanto maior a dignidade do sujeito que a comete. Por isso, é muitíssimo mais grave a profanação cometida por um cristão batizado que a feita por um pagão; muitíssimo mais pesado o sacrilégio perpetrado por um sacerdote que o realizado por um leigo; muitíssimo mais séria a infidelidade de um pai de família que a de uma criança etc. O porquê disso é S. Tomás, novamente, quem o explica: 

Primeiro, porque há nos grandes mais facilidades para resistir ao mal, por exemplo, naqueles que se distinguem pela ciência e pela virtude. Por isso, fala o Senhor: “O servo que conhece a vontade de seu senhor e nada faz, será castigado mais rudemente” (Lc 12, 47). Segundo, porque há ingratidão. Com efeito, tudo o que traz grandeza ao homem é um benefício de Deus, ao qual o homem, pecando, torna-se ingrato. A este respeito, qualquer grandeza, mesmo a que está nos bens temporais, agrava o pecado: “Os poderosos serão poderosamente castigados” (Sb 6, 7). Terceiro, porque há particular repugnância entre o ato do pecado e a grandeza da pessoa: por exemplo, quando um príncipe se põe a violar a justiça, ele que é seu guardião, ou quando um sacerdote entrega-se à fornicação, ele que fez voto de castidade. Quarto, porque há o exemplo, ou o escândalo, como diz Gregório, quando um pecador está constituído em honra por causa do lugar respeitável que ocupa, seu pecado é um exemplo mais extenso. Com efeito, o pecado dos grandes chega ao conhecimento de maior número de pessoas que com ele ficam mais indignadas (STh I-II 73, 10 c.).

Isso quer dizer que, pelas graças maiores que foram dadas a nós, católicos, pelas numerosas bênçãos de que Deus nos cumulou, pela dignidade a que fomos elevados pelo Batismo, pela responsabilidade que temos, enfim, com as almas dos outros, nossos “esquecimentos, friezas e desprezos” — como diz o Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus — são muito mais ofensivos a Nosso Senhor.

Por isso, antes mesmo de começarmos a rezar em reparação pelo sacrilégio de Caltanissetta, ponhamos a mão na consciência, por assim dizer, e façamos cessar os meus sacrilégios, os sacrilégios da minha família, os sacrilégios da minha paróquia, os sacrilégios da minha diocese, os sacrilégios do meu país — tudo na medida das possibilidades de cada um, é claro. Os pecados dos outros devem servir para nós de lição primeiro, para que não os repitamos

Mas esses pecados — especialmente os sacrilégios, especialmente as profanações do Santíssimo Sacramento — também precisam ser reparados! 

Alguém pode perguntar: se Cristo já pagou por esse sacrilégio terrível que foi cometido, por que precisamos nós tomar os nossos Terços, dobrar os nossos joelhos, gastar a nossa saliva rezando, sacrificando-nos e procurando aplacar a Deus? Ao que responderemos assim: Deus, sendo todo-poderoso, evidentemente não precisa de nós para salvar o mundo, e no entanto Ele quis precisar de nossas mãos, de nossas bocas e de nossos joelhos para fazê-lo. Isso significa que, assim como S. Paulo, todos nós podemos completar em nossa carne aquilo que “falta” à Paixão do Senhor (cf. Cl 1, 24). 

O que poderia ter faltado à Paixão de nosso Redentor? 

Nada, poderíamos dizer, por um lado. Mas tudo, devemos dizer, por outro. Porque, se a minha união à Paixão de Cristo não acontecer; se eu não beber o cálice do Sangue que Ele derramou pela minha salvação, todos os sofrimentos que Ele suportou, todas as injúrias que Ele sofreu, todos os ultrajes que recebeu, tudo isso terá sido, para mim, em vão.

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A “solidão da fé” e a nova família de Cristo
Espiritualidade

A “solidão da fé”
e a nova família de Cristo

A “solidão da fé” e a nova família de Cristo

Nosso Senhor veio inaugurar uma nova família. Mas, aqui, sua Igreja ainda se encontra dispersa, e num mundo apóstata e anticristão como nosso, os irmãos de Jesus experimentarão cada vez mais a tremenda “solidão da fé”.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Quando, em resposta à sua mãe e seus parentes mais próximos que o procuravam, Nosso Senhor disse: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática” (Lc 8, 21), era inaugurada uma nova família, formada não já por laços de sangue, como o antigo povo de Israel, mas unida por um vínculo espiritual. Essa família é a Igreja e, assim como o Cristo, também ela foi prenunciada no Antigo Testamento. Veja-se o que escreve, por exemplo, o profeta Malaquias (“oráculo do Senhor”):

Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar. Não tenho nenhuma complacência convosco — diz o Senhor dos exércitos — e nenhuma oferta de vossas mãos me é agradável. Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande é o meu nome entre as nações — diz o Senhor dos exércitos (Ml 1, 10-11). 

Como se pode ver, é uma profecia a respeito não só da Igreja, mas também da Eucaristia; mais propriamente, do fato de que Ecclesia de Eucharistia vivit, isto é, “a Igreja vive da Eucaristia” [1]. O sacrifício antigo cessou, e o novo passou a ser oferecido em todos os lugares, assim como a salvação se estendeu de Israel para todo o orbe — porque “grande é o meu nome entre as nações”, diz o Senhor. As Missas oferecidas ao redor do mundo são esses “incenso, sacrifícios e oblações puras” de que fala o profeta. Também em tempos de pandemia é válido recordar isso, pois, mesmo com as igrejas fechadas e o culto público suspenso em muitos lugares, os sacerdotes católicos não deixaram de oferecer a Deus, ainda que em privado, “a hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada, o pão santo da vida eterna e o cálice da eterna salvação” [2].

Essa família, porém, que se reúne em torno do Cordeiro tanto na fé quanto na liturgia, é apresentada por Nosso Senhor na perícope do Evangelho acima de modo abrupto e, alguém seria tentado a dizer, quase inconveniente. Os protestantes chegam a usar o versículo em questão para combater a veneração católica a Nossa Senhora, como se perguntassem: se o próprio Cristo a tratou com tanta “rispidez”, por que deveríamos fazer diferente?

A verdade é que o Deus que promulgou o quarto mandamento não é diferente do que se fez homem no seio da Virgem Maria. Por isso, está fora de cogitação que Jesus tenha querido destratar, ou tenha efetivamente desonrado a sua Mãe. Admiti-lo seria questionar a própria perfeição do Verbo feito carne. Ao contrário do que sugere essa interpretação tendenciosa protestante, a lição que precisamos extrair das palavras de Jesus é bem outra. 

Voltemos à ideia inicial de que Nosso Senhor veio inaugurar um novo tipo de família, pois é o que expressam mais duas passagens do Evangelho:

  1. Em resposta a uma mulher do meio do povo que exclama: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, Nosso Senhor replica: “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11, 27-28). Isto é, o que importa, agora, não é simplesmente o amor natural de uma mãe que dá a luz o seu filho e o amamenta, dando-lhe sustento físico. Isso é bom, sem dúvida, mas também os animais o podem fazer. Contam mais, a partir da Nova Aliança, a paternidade e a maternidade espirituais, de quem gera almas para Deus.
  2. Na mesma linha, em discussão com os fariseus, Nosso Senhor diz que, embora sejam “a raça de Abraão”, pelas obras que praticam o pai deles é o diabo (cf. Jo 8, 37-40). Isto é, pelo sangue, eles podem até ser descendentes de Abraão, mas o que importa, agora, não é mais a geração carnal. Somos mais filhos de quem imitamos do que de quem nascemos.

Isso tem uma importância, para nós, muito maior do que podemos imaginar num primeiro momento. Ao lembrar a superioridade da fé, da obediência e das virtudes sobre a carne, o sangue e os laços humanos, Jesus queria alertar a todos os seus discípulos, de todos os tempos, que, se for preciso escolher, um dia, entre a amizade do mundo e a de Deus, não devemos hesitar em voltar as costas para os mais próximos a nós, mesmo que estes sejam membros de nossa própria família!

É claro, pode ser que, em alguns casos, não precise ser assim. Com Nosso Senhor, no seio da Sagrada Família, não precisou, pois São José e Maria Santíssima foram os pais mais perfeitos que jamais existiram. Os santos que tiveram pais igualmente santos, como Teresinha do Menino Jesus, também gozaram em sua casa de uma tranquilidade invejável. Mas em muitos lares não é assim. Na verdade, poderíamos até dizer que a regra é que não o seja. A norma dentro das famílias é esta, anunciada pelo próprio Senhor: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36).

Note-se o peso desta frase: por causa de Cristo, “os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa”. Sim, as pessoas mal casadas imediatamente se reconhecem na descrição, mas Nosso Senhor não está falando disso [3]. Trata-se de algo mais profundo: cônjuges também, mas pais e filhos, irmãos e irmãs, quando não há concórdia, isto é, quando não têm os corações (corda) no mesmo lugar, podem se comportar como verdadeiros estranhos, mesmo morando debaixo do mesmo teto.

Não à toa, tantas pessoas se sentem mais acolhidas e chegam a estimar mais os seus irmãos de fé que os seus de sangue. E não, não é “ódio” à própria família, não é “renegar” as próprias origens, não é “achar-se superior” aos de sua casa. É simplesmente o movimento sobrenatural de quem sabe que há uma família, que se reúne aqui na Terra e que se reunirá para sempre no Céu, e que vale a pena desprezar todo o resto para fazer parte dela

E, muitas vezes, aqueles que estão mais próximos não nos deixarão outra alternativa, a não ser dizer, com suas atitudes e comportamentos: “Ou nós ou o seu Cristo”. Só para dar um exemplo: uma família recém-formada, que quer educar os filhos na fé, não conseguirá frequentar as festas da família maior no final do ano, quando se reúnem em torno da mesa de Natal xingamentos e músicas indecentes, e às vezes até depravação sexual e embriaguez. Ressoarão nos ouvidos do casal católico as palavras de Nosso Senhor: “Quem ama o seu pai e a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10, 37). Será doloroso apartar-se dos que lhe deram a vida física, mas se isso for necessário para que eles mantenham em suas almas a vida sobrenatural, assim será. 

Sim, isso é muito duro. Mas um teólogo contemporâneo já havia advertido: La solitudine della fede sarà tremenda, “A solidão da fé será tremenda” [4]. A solidão da fé será tremenda, quando o filho católico precisar trancar-se no próprio quarto e isolar-se do convívio com os seus para preservar a própria pureza, porque na sala toda a família está a assistir a um filme ou uma novela indecentes; a solidão da fé será tremenda, quando a mãe de família tiver de suportar o abandono do marido infiel e tiver de criar os próprios filhos sozinha, porque quer ser fiel ao próprio casamento; a solidão da fé será terrível, quando uma pessoa se converter a Cristo e ver os mais próximos se precipitando no Inferno e fazendo de sua vida, já aqui, um Inferno. 

Só que, concluamos, trata-se de uma solidão ilusória. Pois, se seu pai ou sua mãe, seu filho ou sua filha, seus irmãos ou seus primos não reconhecem mais você, Cristo Nosso Senhor não só o conhece, como lhe chama de pai, de mãe, de irmão, de irmã. Nós, católicos, devemos ser muito gratos a nossos familiares, especialmente a nosso pai e nossa mãe, que nos deram a vida natural — não sem razão temos o quarto mandamento para cumprir [5]! —, mas o nosso coração deve alargar-se muitíssimo mais de pensar na família a que fomos incorporados pelo Batismo e pela fé em Jesus! Ainda que pareça, não estamos sozinhos jamais, pois Jesus é o nosso primeiro companheiro fiel, nosso primeiro familiar. Depois dele, há uma multidão de santos e anjos, incontável, que podemos invocar a todo tempo em nossas provações familiares e em nossas dificuldades interiores.

Na Missa, nós experimentamos poderosamente esse mistério, que é chamado no Credo de “comunhão dos santos”. Ali, em torno do altar do Senhor, daquele que se fez nosso parente, nosso familiar, nosso irmão, estão a bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo, os Apóstolos São Pedro e São Paulo, desde o início da Missa, quando lhes confessamos os nossos pecados e pedimos sua intercessão [6]. Os anjos são invocados constantemente, para levar nossas orações até Deus — e eles o fazem.

Portanto, se é verdade que “a solidão da fé será tremenda” nesse nosso mundo, cada vez mais pagão e apóstata; se, de fato, ao nosso redor todos parecem não ter fé e mesmo os que a tinham parecem perdê-la, devem inspirar-nos sempre confiança as palavras de Nosso Senhor: “Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32). Não deve nos assustar o fato de os fiéis se reduzirem a um punhado. De fato, o rebanho é pequeno (pusillus grex), e não é de agora. Mas, ao mesmo tempo, somos filhos do Deus dos exércitos (Deus sabaoth), o Deus das legiões de anjos que, invisíveis, engrossam o coro dos bem-aventurados e tornam o número dos eleitos muito maior do que parece a um primeiro olhar. Agora nos encontramos dispersos, e a solidão da fé, muitas vezes, parece que nos vai engolir. Mas Deus nos fez “sacerdotes e povo de reis, e iremos reinar sobre a Terra” (cf. Ap 1, 6).

Isso significa também que, já aqui, teremos a graça de ver muitos de nossos próximos se converterem, graças à nossa oração, ao nosso testemunho e ao nosso apostolado. Afinal de contas, porque amamos os nossos, queremo-los junto de nós, queremo-los junto de Cristo. E trabalharemos para isso, com a ajuda da graça de Deus!

Mas não nos assustemos com o mistério da iniquidade, com o abuso que tantos fazem do livre-arbítrio. Porque também nós, não fosse a grande misericórdia de Deus, estaríamos no mesmo caminho do mundo. Por isso, não só pelos que não crêem, mas também por nós, não tardemos a invocar, especialmente agora, a intercessão do Arcanjo São Miguel: como diz o Alleluia de sua Missa no rito tridentino, Sancte Michael Archangele, defende nos in praelio, ut non pereamus in tremendo judicio — “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no tremendo juízo”. 

Sim, tremenda será não só a “solidão da fé”, mas também o julgamento de Deus. De nossa perseverança, até o fim desta vida, depende a nossa salvação por toda a eternidade.

Notas

  1. Com essas palavras começa a Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, do Papa S. João Paulo II, de 17 abr. 2003.
  2. São as milenares palavras da mais importante Oração Eucarística da Igreja, o Cânon Romano, em uma tradução literal do original latino. No Brasil, infelizmente, toda essa oração foi simplificada (para não dizer coisa pior). No trecho em questão, por exemplo, a hóstia “pura, santa e imaculada” simplesmente desapareceu. Sobre como isso se deu, cf. Dom Clemente Isnard, “Os primórdios da reforma litúrgica no Brasil” (Encontro dos Liturgistas do Brasil, Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2002), em: A Sagrada Liturgia: 40 anos depois (Estudos da CNBB, 87). São Paulo: Paulus, 2003, pp. 22-32.
  3. Cremos que ninguém negará que é possível casar-se mal. Se alguém ainda duvida, no entanto, ouça este comentário de S. João Crisóstomo a Mt 19, 10-12: “Oferece menos dificuldades combater contra a concupiscência e contra si mesmo do que combater contra uma mulher má” (Hom. in Matt. 62, 3, em: S. Tomás, Catena Aurea in Matt. XIX, 3).
  4. Romano Guardini, O fim dos tempos modernos. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1964, p. 135.
  5. Sobre os deveres que se devem cumprir dentro da família, cf. Pe. A. Royo Marín, “Los deberes familiares”, em: Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, pp. 779s.
  6. No Confiteor do rito antigo, os fiéis confessavam seus pecados não só “a Deus todo-poderoso e a vós, irmãos e irmãs”, mas também beatae Mariae semper Virgine, beato Michaele Archangelo, beato Ioanni Baptistae, sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus sanctis, isto é, “à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os santos”. Os nomes de todos eles eram invocados a seguir, como intercessores por nós junto a Deus. Em muitos outros lugares da Missa, infelizmente, a referência aos santos foi atenuada com a reforma litúrgica de 1969.

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Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente
Pró-Vida

Holocausto: tudo começou
com o assassinato do primeiro inocente

Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente

Agora, que 75 anos nos separam do fim do Holocausto, não nos esqueçamos o momento em que toda aquela tragédia começou. Tudo teve início quando o primeiro homem inocente foi, não obstante sua inocência, deliberadamente assassinado.

John GrondelskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Este ano marca o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz, campo de concentração nazista. Localizado no território da Polônia ocupada pelos alemães, Auschwitz começou como um campo para prisioneiros políticos poloneses, mas tornou-se um epítome simbólico do Holocausto, o extermínio sistemático do povo judeu. Também ao longo deste ano celebraram-se vários aniversários na senda do Dia da Vitória na Europa (n.d.t.: o dia 8 de maio), dia da derrota do Terceiro Reich: entre eles, o aniversário da libertação do campo de concentração de Dachau, em 29 de abril.

S. João Paulo II, em sua Encíclica “Evangelium vitae”, caracterizou os tempos modernos como uma luta entre a “cultura da vida” e a “cultura da morte”. Embora ele tenha escrito a Encíclica em 1995, seria um erro pensar que a “cultura da morte” é um fenômeno exclusivo das décadas recentes.

Auschwitz recorda-nos que os regimes totalitários do séc. XX adotaram a morte como instrumento de política estatal, que solapou a inviolabilidade da vida humana de cada indivíduo. Judeus (e não apenas judeus) foram sujeitos à execução arbitrária nas mãos de nazistas alemães, não por um “crime” de que pudessem ser culpados (embora os alemães formalistas tenham criado “crimes” — inclusive “raciais” — para justificar o que faziam), mas porque as vítimas eram quem eram. Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto. Auschwitz foi simplesmente a encarnação de toda essa mentalidade.

“Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto.”

Autores contemporâneos insistem em restringir o termo “Holocausto” ao extermínio dos judeus europeus, à “Solução Final” da questão judaica (Endlösung der Judenfrage). Eu entendo o esforço por reconhecer a singularidade do que ocorreu aos judeus europeus, tanto em escopo quanto em grau.

Mas não podemos esquecer que a eliminação dos judeus europeus foi parte de uma agenda racial e eugênica muito mais ampla abraçada pelos nazistas, que começou muito mais cedo com o extermínio de cidadãos alemães da própria Alemanha, por considerar-se que viviam uma “vida indigna de ser vivida” (lebensunwertes Leben). Na verdade, essa mesma ideia surgiu treze anos antes dos treze anos de reino de terror que foi o nazismo: a expressão “lebensunwertes Leben” apareceu no título de um livro publicado em 1920 por… dois professores. 

O Holocausto foi uma encarnação particularmente cruel dessa ideia, mas ela não surgiu do nada: as sementes do Holocausto foram plantadas no momento em que o direito de uma vida inocente deixou de ser autojustificável; quando a vida inocente em si mesma deixou de ser motivo o bastante para que a protegessem; quando a vida inocente passou a precisar de um outro motivo para permanecer inviolável. A essência disso foi bem captada no filme Julgamento de Nuremberg (1961), na cena em que o juiz americano Dan Haywood (Spencer Tracy) visita o nazista Ernst Janning (Burt Lancaster) em sua última cela prisional. “Aquelas pessoas… aqueles milhões de pessoas… eu nunca pensei que fosse chegar a tanto. Acredite”, declarou Janning. 

“Herr Janning”, respondeu Haywood, “chegou a tanto na primeira vez que você condenou à morte um homem que você sabia ser inocente”.

Embora Auschwitz tenha-se tornado um símbolo do extermínio dos judeus europeus, não nos podemos esquecer dos muitos outros crimes contra a vida humana praticados em toda a rede de campos de concentração montada pelos nazistas. Dachau era praticamente uma comunidade religiosa católica — ou mesmo um seminário —, e escreverei posteriormente sobre alguns daqueles sacerdotes que, em algum momento, partiram de Dachau para os Estados Unidos. Os ciganos também foram massacrados nos campos. Prisioneiros foram usados em experimentos “médicos” discutíveis — que estavam mais para sádicos (por exemplo, os “experimentos com água gelada” em Dachau, nos quais sacerdotes e prisioneiros de guerra soviéticos eram imersos em água gelada para ver quanto tempo sobreviviam e, assim, aplicar os dados colhidos desses Untermenschen, desses povos inferiores, ao pedigree da nação germânica, que sobrevoava, em bombardeiros, o gélido Atlântico Norte). O grau de colaboração de cientistas, em geral, e de médicos, em particular, com os nazistas era elevado. O dr. Josef Mengele era apenas o zênite daqueles que prostituíam suas profissões.

O desfecho da II Guerra Mundial levou, pelo menos, a um esforço temporário de proteger o direito à vida e a dignidade humana em instrumentos legais projetados pelos arquitetos da ordem pós-guerra. A nova constituição da Alemanha Ocidental, por exemplo, consagrou seu compromisso de abertura à “inviolabilidade da dignidade humana”. A ética médica do pós-guerra (por exemplo, o Código Internacional de Ética Médica da Associação Médica Mundial) exortou os doutores a sempre “respeitar a vida humana” e a obter [dos pacientes] consentimento informado. As lições do Holocausto foram universalizadas como uma ética da inviolabilidade da dignidade humana.

O Holocausto tem, é claro, uma dimensão única como testamento da dimensão letal do antissemitismo. Isso ninguém pode negar. Mas agora que celebramos o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz — tanto como símbolo da Solução Final quanto como nadir de um período de três meses e meio, em 1945, quando campos de concentração foram libertados e seus horrores dados a conhecer —, não nos esqueçamos de uma verdade fundamental: tudo isso começou quando o primeiro homem inocente foi, não obstante, deliberadamente assassinado.

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