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A “velha senhorinha de igreja” que conheceu o Menino Jesus
Espiritualidade

A “velha senhorinha de igreja”
que conheceu o Menino Jesus

A “velha senhorinha de igreja” que conheceu o Menino Jesus

Ela era idosa, seu esposo já há muito morrera, e ela passava “noite e dia” rezando e jejuando no Templo. A descrição soa-lhe familiar? A profetisa Ana se enquadra bem no perfil da “velha senhorinha de igreja”.

Br. Titus Mary Sanchez, O.P.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Você já viu uma delas em público, até em lugares nos quais pensou estar só. É provável que já tenha sido beijada por alguma ao menos uma vez na vida. Nós todos já conhecemos uma delas. É possível que haja uma na sua própria família. Quem sabe você mesma não seja uma delas. Sim, eu estou falando das “velhas senhorinhas de igreja”

Elas existem faz muito tempo. No evangelho deste domingo (festa da Apresentação do Senhor), somos apresentados a uma chamada Ana. Ela é idosa, seu esposo já há muito morrera, e ela passa “noite e dia” rezando e jejuando no Templo (cf. Lc 2, 37). A descrição soa-lhe familiar? Ana se enquadra bem no perfil da “velha senhorinha de igreja”

Nessa leitura, Ana é retratada ao lado de um senhor chamado Simeão. Ele primeiro profetiza que o menino Jesus é o Salvador de Israel e que Maria irá tomar parte no plano salvífico de Deus de uma forma única e misteriosa. Ele sabe, porque recebeu essa revelação do Espírito Santo (cf. Lc 2, 26). De modo semelhante, Ana profetiza sobre Jesus ser o Redentor de Israel bem no final da leitura do evangelho (cf. Lc 2, 38). 

Depois de ler pela primeira vez essa passagem, a importância desses dois “velhinhos de igreja” talvez nos passe desapercebida; afinal de contas, Jesus e Maria geralmente são o foco desse trecho. Poderíamos nos perguntar, então, o que significa a presença de Ana e Simeão. 

A tradição cristã oriental os inclui entre os últimos dos profetas do Antigo Testamento. Por séculos, os profetas pregaram às tribos de Israel, alertando-as para que se arrependessem de seus pecados, voltassem à lei de Deus e se preparassem para a chegada do Messias — palavra que significa, literalmente, “o ungido”. Profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias e Jonas (a lista poderia se estender ainda mais), todos esperaram ansiosos a vinda do Messias.

Mas, enquanto os profetas do Velho Testamento falaram do Messias que viria, Ana e Simeão receberam a perfeição da profecia, pois testemunharam o cumprimento das promessas de Deus. Ana e Simeão podem ter visto com seus olhos um bebê judeu, mas com os olhos do coração eles viram o verdadeiro Messias de Deus

Esses geralmente esquecidos “velhinhos de igreja” são uns dos primeiros a receber o dom da , dado a todos que acreditarão nessa criança que é o Cristo: “A fé é o fundamento das coisas que se esperam e o argumento das que não se veem” (Hb 11, 1).

O cumprimento da promessa do Messias é muito mais do que poderiam esperar os mais devotos dos judeus: Jesus, o Messias, revela que irá vencer a morte, conceder a vida eterna e habitar nos corações do povo escolhido de Deus por meio do dom da fé. Nas Escrituras, Jesus deixa claro que Ele e seu Pai virão e farão morada nas almas dos que o amam (cf. Jo 14, 23). Santo Tomás acrescenta que é pela fé, então, que “a vida eterna começa em nós” (STh II-II, 4, 1c.).

“Calma, você está me dizendo que, pela fé, a vida eterna, o Céu, começa na minha alma… agora?”

É exatamente isso que estou dizendo.

Nós fomos agraciados com o mesmo dom da fé que deu a Ana ver o Senhor sem um apelo externo — ela recebeu uma luz interior. A “velha senhorinha de igreja” com que se encontraram Maria e José é um lembrete e um sinal de que Deus é fiel a suas promessas: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá, e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente. Crês nisso?” (Jo 11, 25-26).

Uma “velha senhorinha de igreja” responde a essa pergunta de Cristo com fé simples e despretensiosa: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11, 27).

Se ter fé significa tornar-se um pouco dessas “velhas senhorinhas de igreja”, e se essas pessoas são realmente agraciadas com uma breve visão do Deus eterno em seus corações… então também eu quero ser como elas.

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Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte
Liturgia

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

A celebração com a qual se dá início à Quaresma pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois assim como Cristo passou pela Cruz, “também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna”.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos chama à verdadeira conversão: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2, 13). 

A conversão do coração é a dimensão fundamental deste tempo singular de graça que nos preparamos para viver na Quaresma. Além disso, as palavras do profeta Joel sugerem-nos a motivação profunda que nos torna capazes de voltar a percorrer o caminho rumo a Deus, que é “a consciência de que o Senhor é misericordioso e que cada homem é seu filho muito amado, chamado à conversão” [1]. Pela Palavra, somos motivados a uma verdadeira transformação de vida, a morrer para o pecado e a viver para Deus por meio de Jesus Cristo (cf. Rm 6, 11).

Na antiga praxe da Igreja Católica, o sacramento da Penitência era público e o rito de imposição das cinzas dava início ao caminho penitencial dos fiéis que seriam absolvidos de seus pecados na celebração da manhã da Quinta-feira Santa. Por volta do século IX, o gesto da imposição das cinzas — obtidas com a queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior — associado ao sacramento da Penitência caiu em desuso. Porém, a imposição das cinzas estendeu-se a todos os fiéis e foi inserida na celebração da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, depois da homilia. A fórmula que acompanhava a imposição foi alterada com o tempo. No início, usava-se somente a fórmula: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Mais tarde, acrescentou-se a fórmula opcional: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

Perceba-se portanto como, desde o Antigo Testamento, as cinzas já simbolizavam a brevidade da vida (cf. Gn 18, 27; 30, 19; Sb 2, 2s), a penitência e a conversão (cf. Est 4,1.3; Jr 6, 26; Jn 3, 6). No centro da celebração litúrgica da Quarta-feira de Cinzas, há justamente esse gesto simbólico, oportunamente explicado pelas palavras das Escrituras que o acompanham. A imposição das cinzas — cujo significado, fortemente evocativo da condição humana, é salientado pela primeira fórmula contemplada pelo rito penitencial: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) — lembra a caducidade da nossa existência e convida-nos a considerar a vaidade de nossos projetos, quando não fundamentamos a nossa esperança no Senhor. 

A segunda fórmula prevista pelo rito: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15), ressalta, por sua vez, quais são as condições indispensáveis para percorrermos o caminho da vida em Cristo: “São necessárias uma concreta transformação interior e adesão à palavra de Cristo” [2].

Segundo o Papa S. João Paulo II, a liturgia da Quarta-feira de Cinzas pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois remete para as funções da Sexta-Feira da Paixão. Nesta celebração, o rito litúrgico da Quarta-feira de Cinzas encontra o seu pleno cumprimento. “Com efeito, é naquele que ‘se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz’ (Fl 2, 8), que também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna” [3].

Desde os seus primórdios, a Igreja indica alguns meios úteis para seguir este caminho de morte, de renúncia de nós mesmos. Em primeiro lugar, neste caminho, é necessária a adesão humilde e dócil à vontade de Deus, acompanhada pela oração incessante (cf. 2Ts 5, 17). Também são muito apropriadas as formas penitenciais típicas da tradição cristã, como a abstinência, o jejum, a mortificação e a renúncia mesmo aos bens que nos são legítimos. De modo particular, são importantíssimos os gestos concretos de solidariedade e de ajuda ao próximo, que o Evangelho segundo Mateus nos recorda com a palavra “esmola” (6, 2ss). 

Tudo isto, que deveria fazer parte da vida de todo cristão, “é reproposto com maior intensidade durante o período quaresmal, que representa, a este propósito, um ‘tempo forte’ de treinamento espiritual e de generoso serviço aos irmãos” [4].

Seguindo, pois, o caminho tradicional da Igreja, comecemos o tempo da Quaresma com verdadeiros propósitos de penitência e de ascese, para que, mortos para este mundo, vivamos uma vida nova e ressuscitemos com Nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (cf. Rm 6, 4s). Que Nossa Senhora das Dores, imagem da compaixão divina pela humanidade, nos ajude a viver bem esse tempo de morte para nós mesmos.

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Deixe a leitura da Bíblia transformar seu coração nesta Quaresma
Espiritualidade

Deixe a leitura da Bíblia
transformar seu coração nesta Quaresma

Deixe a leitura da Bíblia transformar seu coração nesta Quaresma

Ao longo deste tempo propício de oração e penitência, podemos assumir como propósito a prática da “lectio divina”, a fim de que o nosso coração seja amaciado pela Palavra de Deus.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Já que nos estamos aproximando do início da Quaresma, é bom refletir sobre como iremos vivê-la, de modo que nos purifiquemos de nossos pecados e nos preparemos para a celebração da Ressurreição do Senhor. De fato, temos de pensar em que orações e penitências faremos antes antes que a Quarta-feira de Cinzas caia de repente sobre nós. Era justamente esse o objetivo do antigo tempo da Septuagésima, ainda observado pelas comunidades que utilizam o rito romano tradicional.

Em nossos propósitos, precisamos ser específicos ao invés de vagos. Devemos também incluir algo positivo, e não apenas negativo (como “abandonar” isso ou aquilo), embora, é claro, seja uma penitência libertadora renunciar não apenas à sobremesa ou à bebida alcoólica, mas a algo que, para muitos, doeria na carne, como televisão, filmes, internet somente aos domingos etc. Aqui, porém, quero concentrar-me em uma prática positiva que, de tão frutífera, pode ser mantida por nós mesmo depois do tempo quaresmal: a lectio divina.

Os Padres do Deserto, que foram os primeiros monges a escolher a solidão no deserto do Egito, podem ensinar-nos muitas lições, pois lutaram contra o mundo, a carne e o diabo e deixaram-nos sua sabedoria na forma de metáforas e aforismos.

O monge Abba Poemen disse certa vez: “A natureza da água é suave, a da pedra é dura. Mas, se a água cai incessantemente, gota a gota, sobre a pedra, acaba por desgastá-la. O mesmo acontece com a palavra de Deus. Ela é suave e nosso coração duro; mas quem a ouve com frequência, abre seu coração ao temor de Deus”.

Nosso problema fundamental é a dureza de coração; por isso, buscamos do lado de fora alguma fonte que nele possa gerar uma abertura para o Espírito Santo, algo que o amoleça, melhor dizendo, como uma rocha a transformar-se no solo onde a nova vida pode crescer. Deus nos deu a Bíblia por muitas razões, mas certamente uma delas consiste em permitir que sua Palavra opere sobre nós, dia após dia, a fim de “derreter” esse coração congelado, penetrar nele e gerar vida. Meditar a Palavra de Deus é indispensável para que ela se torne conatural a nós, como o ar que respiramos, a água que bebemos, a luz que nos permite ver, o alimento que nos sustenta.

Em seu livro Cistercian Europe: Architecture of Contemplation (lit., “Europa Cisterciense: Arquitetura da Contemplação”, sem tradução portuguesa), Terryl Kinder escreve: “A lectio divina não deve ser compreendida da forma como entendemos a leitura hoje em dia, apenas para extrair informações. Ela constitui, na verdade, outra forma de leitura, que visa a transformação interior. É uma lenta ruminação das palavras da Escritura”. Kinder nos recorda que as palavras devem ser lidas lentamente com o movimento dos lábios, e não apenas de forma silenciosa na própria mente, como costumamos fazer quando lemos um texto qualquer. O objetivo de pronunciar as palavras suave e repetidamente é dar a elas espaço para “respirar”, escavar nossas memórias, ser absorvidas e influenciar nossos pensamentos. Kinder também afirma:

Na lectio divina — diferentemente da lectio scholastica (isto é, da leitura para o estudo ou por curiosidade) —, as palavras são mastigadas, digeridas e absorvidas como os alimentos o são; e assim como o alimento físico é metabolizado e transformado no material do próprio corpo, na lectio divina, o alimento espiritual dos textos sagrados é metabolizado e transformado na substância da própria alma. É uma assimilação do texto a si mesmo.

Dom Magrassi, na obra Praying the Bible: An Introduction to Lectio Divina (lit., “Rezando a Bíblia: uma Introdução à Lectio Divina”, sem tradução portuguesa), dá ênfase a esse mesmo aspecto:

O texto bíblico [...] obviamente não revela todas as suas riquezas ao ser ouvido pela primeira vez. Muito menos pode adentrar de imediato nas profundezas da vida humana e tornar-se um elemento vital do mundo interior de cada um. Essa escuta requer meditação amorosa, calma, reflexiva e pessoal sobre o texto [...]. Não basta comer o alimento; é preciso assimilá-lo, ou como diriam os antigos, “ruminá-lo”.

Essa imagem de uma vaca mastigando sua comida, além de divertida e simples, é ao mesmo tempo profundamente verdadeira. É grande o benefício que temos a receber, ao escolhermos um Evangelho, ou uma Epístola de São Paulo, e fazermos dele uma leitura lenta, capítulo por capítulo, ao longo da Quaresma — até mesmo relendo partes desse mesmo texto por mais de um dia seguido. Também podemos utilizar com fruto um missal quotidiano, para ler atentamente uma ou outra leitura da Missa do dia. É bom que as Escrituras sejam lidas na Missa, mas esse momento geralmente passa rápido demais para ser bem aproveitado. Precisamos “cavucar” mais de uma vez. Quando caminhamos lentamente por uma leitura a sós, algo que talvez tenhamos ouvido várias vezes na Missa sem prestar muita atenção pode, de repente, atingir-nos e transformar-nos.

Assim, nas palavras de Dom Magrassi, “o aprofundar-se torna-se personalização”: Deus fala ao seu povo, sim, mas Ele também está falando a cada pessoa. Sua Palavra é tão inesgotavelmente poderosa que é “feita sob medida” para mim: “Sua Palavra assume um tom e uma ressonância especiais para mim, revelando um plano especial e único que Ele tem para a minha vida [...]. O que o Senhor disse primeiro a todos, ouço-o como destinado para mim. Ouço uma Palavra que responde aos meus problemas, ilumina os meus passos e expressa o meu ideal”.

Onde aprendemos a ouvir? No silêncio, quando não estamos trabalhando, agindo ou fazendo algo, mas apenas estando presentes. Temos de combater nossa tendência decaída ao ativismo e à agitação, tornando-nos, na contramão disso, mendigos humildes que tudo recebem das mãos do Senhor. É claro que, ao recebermos algo, precisamos fazer algo com o dom recebido, de modo que não há contradição entre receptividade e ação, ser e fazer. Mas há uma primazia da primeira sobre a segunda, que é largamente negligenciada, ou mesmo negada, pelo pelagianismo da civilização moderna. Enquanto o lema do cristão é: “O que você tem que não recebeu de Deus?” (cf. 1Cor 4, 7); o do homem moderno ocidental é: “Eu sou, por minhas próprias forças, um homem pronto”.

Nesta Quaresma, sejamos primeiro receptores da Palavra de Deus, como Nossa Senhora, a fim de que possamos ser, então, seus fiéis cumpridores. Separe dez ou quinze minutos (ou mais, se puder) da primeira parte do seu dia, sente-se com a Bíblia (e talvez uma xícara de café ou de chá, que alguns consideram uma ajuda indispensável à oração da manhã), inicie com uma oração e comece a ler uma breve passagem lentamente, pronunciando as palavras com os lábios, repetindo os versículos, ponderando e deixando que as palavras extraiam de você uma resposta em suas próprias palavras, na forma de uma oração ao Senhor.

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Professora ocultista: para salvar o planeta, extinguir a espécie
Sociedade

Professora ocultista:
para salvar o planeta, extinguir a espécie

Professora ocultista: para salvar o planeta, extinguir a espécie

Para Patricia MacCormack, professora de filosofia na Inglaterra e “feiticeira ocultista”, não há outra solução para o problema ambiental a não ser “suprimir gradualmente a reprodução” humana.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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No dia 23 de janeiro deste ano, a editora Bloomsbury Academic publicou uma chamada para ação a todos que se preocupam com as “mudanças climáticas”. The Ahuman Manifesto: Activism for the End of the Anthropocene (em português, literalmente, “O Manifesto Anti-humano: Ativismo para o Fim do Antropoceno”), de Patricia MacCormack, professora de filosofia continental [1] na Anglia Ruskin University, vai direto ao ponto e defende a solução definitiva para o aquecimento global: a extinção da espécie humana.

Ela confessa ser uma “feiticeira ocultista”. De fato, já deu palestras — muitas vezes com roupas que imitam trajes de bruxa e guardam semelhança assustadora com o que vemos no programa Drag Queen Storytime [2] — sobre a “invocação” ou “convocação” de demônios, segundo ela, uma prática importante para os movimentos feminista e queer. Ela diz que a invocação de demônios não está completamente isenta de riscos, porque a “loucura é tão provável quanto o êxtase”. Tudo isso ela diz sem um pingo de ironia.

MacCormack não é aquele tipo de ativista ambiental hesitante segundo o qual deveríamos salvar o planeta por causa dos nossos filhos. O que ela acha, na verdade, é que, absolutamente, crianças não deveriam sequer existir.

MacCormack — pesquisadora que tem “publicações nas áreas de filosofia continental, feminismo, teoria queer, teoria pós-humana, filmes de horror, modificação corporal, direitos dos animais/abolicionismo, cinessexualidade e ética” — já defendeu que os animais são iguais aos seres humanos. Agora ela diz que os seres humanos deveriam sair de cena por completo. 

O resumo do livro descreve sua tese da seguinte maneira: 

Abrindo espaço para o ativismo, a prática artística e a ética afirmativa, ao mesmo tempo que apresenta alguns fenômenos especificamente modernos como cultos da morte, política identitária intersecional e escravização capitalista de organismos humanos e não humanos a ponto de provocar uma “zumbidade”, O Manifesto Anti-humano explora caminhos que nos levam a construir o ser humano de modo diferente; especificamente, temos de ir além do niilismo, do pós e do transhumanismo, e abandonar o privilégio humano. Isso deve acontecer para que possamos pensar ativamente e viver visceralmente com conectividade (atual ou virtual), paixão e graça rumo a um mundo novo.

Numa tradução mais ou menos precisa, essa bobagem quer dizer que o ápice do progresso humano deve ser a extinção da espécie humana. MacCormack tenta apresentar o “apocalipse como um começo otimista”, mas para outras espécies, que ficarão numa situação muito melhor depois que nós todos morrermos (uma ótima hipótese para se considerar, de acordo com ela). De acordo com o Cambridge News, o livro dela “argumenta que, devido ao dano causado a outros seres vivos na terra, deveríamos começar a suprimir gradualmente a reprodução”. 

Os ambientalistas fanáticos são uma ameaça muito maior à civilização humana do que a própria mudança climática precisamente por esta razão: eles querem tomar o poder por meio da declaração de um suposto estado de emergência, e tão logo sejam bem-sucedidos com base em tais premissas, vão usá-lo para implementar um estado de emergência real. Sabemos o que acontece quando o Estado usa seu poder para controlar a reprodução de milhões de pessoas: esterilizações forçadas, sequestro de mulheres para arrancar os bebês de seus ventres, trauma provocado por famílias desestruturadas e crise cultural. O nome dado a isso foi “política do filho único”, e só começou a ser suprimida na China há pouco tempo. Seu resultado: 336 milhões de abortos e um sofrimento incomensurável.

Pelo menos MacCormack não tenta apresentar suas propostas de forma adocicada. “Cheguei a essa ideia a partir de dois caminhos”, disse ela ao Cambridge News. “Meu encanto pelo feminismo e pela teoria queer me levou à filosofia; portanto, interesso-me há um bom tempo pelos direitos reprodutivos [eufemismo para aborto], e esse interesse me levou a procurar mais informações sobre os direitos dos animais. Foi então que me tornei vegana. A premissa fundamental do livro é a seguinte: estamos na era do Antropoceno, a humanidade causou um monte de problemas e um deles foi a criação deste mundo hierárquico no qual homens brancos, heterossexuais e fisicamente aptos têm êxito, e pessoas de diferentes raças, gêneros, sexualidades e aquelas que portam alguma deficiência lutam para ter sucesso.” 

Ela prossegue: “O livro também argumenta que precisamos suprimir a religião e outros poderes dominantes como a igreja do capitalismo ou o culto da individualidade, já que isso faz as pessoas agirem a partir de regras impostas, em vez de responderem refletidamente às situações com as quais se deparam.” Provavelmente, MacCormack acredita que a extinção da espécie humana seja um exemplo de resposta refletida aos fatos com os quais nos deparamos, embora ela não explique como fará com que as pessoas se preocupem com as “mudanças climáticas” ao eliminar a principal motivação apresentada para legitimar a preocupação com tais mudanças: a preservação do planeta para as pessoas e sua descendência. Ela reconhece isso e observa que “todos aceitam as ideias do livro até saberem que terão de colocá-las em prática”.

Há não muito tempo, a expressão “culto da morte” era considerada sinistra, e não uma descrição ambiciosa da espécie humana. No momento, MacCormack pode ser considerada radical, mas ela representa o futuro do ativismo ambientalista: energicamente hostil à espécie humana e defensor da “eliminação da reprodução”. Os programas de rádio tradicionais frequentemente organizam debates com pessoas que decidiram não ter filhos para preservar o planeta para outras crianças. MacCormack vai um pouco além dessa tendência. Os ativistas ambientais estão plenamente convencidos da própria retidão, e estão completamente dispostos a usar o poder do Estado para impor suas soluções a todos nós.

Deveríamos ouvir com muito cuidado as soluções propostas por eles.

Notas

  1. Expressão criada por filósofos analíticos para descrever algumas tradições filosóficas oriundas da Europa continental.
  2. Evento infantil iniciado em 2015 por Michelle Tea, ativista que trabalha para promover, dentre outras causas, a ideologia LGBT para crianças.

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Por favor, não me canonizem em meu funeral!
Espiritualidade

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não me canonizem em meu funeral!

Por favor, não me canonizem em meu funeral!

Quando eu morrer, pensamentos bem-intencionados, mas precipitados, sobre minha presença no Céu não ajudarão em nada a minha alma. Em vez disso, peço agora que todos os que se lembrarem de mim presumam que estarei no Purgatório.

Ken FoyeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Não planejo morrer em breve. Tenho quase 53 anos, e as estatísticas para a expectativa de vida me dizem que me restam pelo menos mais 20 ou 25 anos de vida aqui na terra. Além disso, pesquisas mostram que pessoas de fé tendem a ser mais saudáveis e a viver mais do que as que não têm fé — na verdade, cerca de sete anos mais, de acordo com um estudo. Esta não é a razão pela qual tenho fé, mas é um elemento a meu favor.

Mas se as coisas não saírem como esperado, gostaria de colocar em ordem agora um assunto temporal. Está ligado aos ritos do meu sepultamento.

Em poucas palavras, não quero ser canonizado em meu velório ou Missa de exéquias.

Registro isso por escrito: não quero lugares-comuns do tipo “ele está no Céu agora” ou “ele está num lugar melhor”. Estamos falando da alma de uma pessoa — a saber, a minha — e essa não é a ocasião para sentimentalismos amenos. O “destino espiritual eterno” é um assunto muito sério para que tenhamos esse tipo de atitude.

Nada semelhante a “ele está no Céu agora” deverá ser dito em meu velório; nem durante a homilia, nem em qualquer outra parte do funeral; em qualquer reunião social antes do meu funeral ou depois dele; ou em qualquer momento nos dias, semanas, meses, anos ou mesmo décadas depois da minha morte. A menos que ocorram milagres de forma clara e inegável por causa da minha intercessão, ou a menos que, sem dúvida alguma, eu morra como mártir da fé, ninguém poderá saber que estarei no Céu.

Pensamentos bem-intencionados, mas precipitados, sobre minha presença no Céu não ajudarão em nada a minha alma. Em vez disso, peço agora — e repetirei esse pedido quantas vezes forem necessárias, até o dia da minha morte — que todos os que se lembrarem de mim presumam que estarei no Purgatório.

E isso significa que precisarei de muitas orações — não de sentenças de canonização, muito menos para que minha esposa se sinta melhor, supondo que eu “vá embora” antes dela.

É um erro grave supor que alguém, uma vez morto, está automaticamente no Céu. Dizer isso pode soar indelicado ou insensível, mas a verdade é que é uma falta de caridade pressupor que uma pessoa já está “garantida” para toda a eternidade e não precisa mais das nossas orações. É isso o que significa “canonizar” alguém ao dizer “ele está no Céu” ou “ele está num lugar melhor”. É o mesmo que concluir que não precisamos mais rezar por ele.

O que é o Purgatório? O Catecismo (n. 1030) explica da seguinte forma: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu.” Em seguida, diz que a finalidade do Purgatório é a “purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados” (n. 1031). 

No fim das contas, toda alma que se encontra no Purgatório irá para o Céu — com a ajuda de nós, católicos, aqui na terra. Por isso, a Igreja sempre enfatizou a “prática da oração pelos defuntos, de que já fala a Sagrada Escritura” e recomenda “a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos” (n. 1032).

No catolicismo moderno, rezar pelos mortos ainda é uma prioridade? Como comunidade, nós, católicos, ainda acreditamos com firmeza no Purgatório? A resposta às duas perguntas parece ser “não exatamente”, dado o hábito tão estendido de se “canonizar” o falecido na Missa de exéquias por meio de declarações como “ele está no Céu agora” e de referências constantes a um “lugar melhor”.

Será que muitos de nós pensamos ser demasiado incômodo imaginar que nossos parentes, amigos e entes queridos estão sofrendo no Purgatório? Não deveríamos pensar dessa maneira. Em vez disso, deveríamos olhar para o lado positivo disso. O Purgatório não é um lugar agradável, mas ele com certeza é melhor do que o Inferno — que não apenas é muito mais desagradável, mas, diferentemente do Purgatório, é eterno. E o sofrimento do Purgatório tem um elemento purificador, do qual Deus extrai bondade e beleza, para não falar da nossa salvação.

Em certa homilia de uma Missa de exéquias, um sacerdote comparou o Purgatório à mineração de metais preciosos. Só uma fornalha pode separar ouro e diamantes dos minérios inúteis nos quais são encontrados. Sem a fornalha, os metais não poderiam tornar-se preciosos; da mesma forma, sem o Purgatório, é razoável pensar que poucas almas seriam admitidas no Céu, onde a Escritura diz que nada impuro pode entrar (cf. Ap 21, 27). 

Pense nisso. Se morrermos sem pecado mortal, ou se fizermos a melhor confissão possível minutos antes da morte, quantos de nós estaremos tão livres das sequelas e vínculos do pecado, a ponto de nossa alma preencher os requisitos mencionados no Apocalipse? É razoável crer que poucos de nós conseguiríamos. Até Samuel Johnson, erudito escritor não católico do século XVIII, “provavelmente o mais distinto homem de letras da história inglesa”, percebeu isso: quando lhe perguntaram sobre a crença católica no Purgatório, ele disse: “Trata-se de uma doutrina muito inofensiva. Eles [católicos] pensam que, de modo geral, a humanidade não é tão obstinadamente perversa para merecer a punição eterna, nem tão boa a ponto de merecer a admissão na sociedade das almas bem-aventuradas; portanto, pensam que Deus fica graciosamente satisfeito em permitir que haja um estágio intermediário, onde elas podem ser purificadas por certos graus de sofrimento”.

É isso — temos de pensar primeiro no Purgatório, não no Céu, quando alguém que conhecemos falece, mesmo um familiar ou amigo próximo, porque é muito provável que a alma dessa pessoa tenha de passar por uma purificação. Assim como não podemos implodir um edifício antigo antes de termos plena certeza de que não há ninguém dentro, devemos ser cautelosos para não afirmar com plena certeza que algum falecido está no Céu. As almas que estão no Céu não precisam das nossas orações, mas as que estão no Purgatório sim, e devemos presumir que a alma deste falecido está lá — a menos, repita-se, que se trate de um caso inquestionável de martírio pela fé ou de milagres decorrentes da intercessão de tal pessoa.

Portanto, quando eu morrer, por favor rezem por mimnão me canonizem. Espero ir direto para o Céu quando se esgotar meu tempo na terra? Claro que sim, mas, a menos que tenham certeza disso, espero que as pessoas não apostem nisso. Eis por que ofereço cada uma das orações individuais do Rosário por uma alma do Purgatório. Peço que outras pessoas façam o mesmo depois que eu morrer, assumindo a probabilidade bastante real de que eu esteja no Purgatório e rezando para que a minha alma alcance o descanso eterno na glória de Deus.

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