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As pérolas jogadas aos porcos
Sociedade

As pérolas jogadas aos porcos

As pérolas jogadas aos porcos

Nada é tão terrível quanto um tesouro afundado em um lamaçal. Nada é tão péssimo quanto a corrupção das coisas santas.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2014
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Não existe nada mais terrível que ver um grande tesouro afundado em um denso lamaçal. Por isso a advertência do Evangelho: "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas" [1]. A pérola é algo muito precioso. A simples razão ensina ao homem que aquilo que é precioso deve ser guardado, tratado com bastante zelo e cuidado. Aos porcos, lança-se lavagem, não pedras preciosas; aos porcos, lançam-se as sobras, não aquilo que se tem em alta conta.

No mundo antigo, no entanto, certas pérolas jaziam afundadas na lama e foi o Cristianismo, com a verdade de sua doutrina e o vigoroso testemunho de seus adeptos, que recuperou a razão e a justiça então obscurecidas pelos pecados dos homens. Em tempos como os nossos, em que um malfadado feminismo prega ódio e desrespeito à religião, nada melhor que lembrar o respeito e a dignidade que a religião cristã devolveu às mulheres "em sua condenação do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal e da poligamia" [2].

O Império Romano foi escolhido por Deus para presenciar a "plenitude dos tempos" [3]. Era o ambiente apropriado para a visita de um Senhor preocupado mais com os enfermos e pecadores que com os saudáveis e justos [4]. De fato, a situação em que aí se encontravam os homens – e principalmente as mulheres – era degradante. As leis e escritos da época pressupunham "o direito de abandonar os filhos do sexo feminino" e a "a prerrogativa [dos homens] de determinar às esposas e amantes que praticassem o aborto" [5]. Uma sociedade permissiva como a antiga – em que o divórcio era plenamente acessível e a poligamia amplamente praticada – dava à figura masculina poder de subjugar as mulheres, tornando-as mais escravas que seres humanos de verdade.

Assim se encontrava o mundo antigo – com louváveis exceções, verificadas num e noutro lugar – até a chegada de Cristo. Com Ele, que, no seio do Pai, escolheu uma mulher para ser a mais virtuosa criatura que a terra viria a conhecer; com Ele, que, ressuscitado, apareceu primeiro a mulheres [6]; com Ele, que, pela boca de São Paulo, abolia todas as distinções entre as pessoas – já não havia mais "judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" [7], mas todos eram um só em Cristo; com Ele, restaurou-se a esperança à feminilidade então tão suja e obscurecida pelo pecado e pela vileza humana. Historicamente, é inegável: "a mulher em si mesma (...) nunca foi tão exaltada como no cristianismo" [8].

"A Mulher Pega em Adultério", no estilo inconfundível de Guercino.

A tradição cristã impregnou na cultura ocidental a consciência de que a mulher é muito mais que seus atributos físicos e naturais; que a mulher não é um pedaço de carne a ser idolatrado, mas um todo de humanidade através do qual é possível vislumbrar a eterna beleza do Criador. Ainda hoje, mulheres que aceitaram a doutrina cristã sobre a modéstia dão testemunho da leveza, da delicadeza e da simplicidade da autêntica beleza feminina.

"[A mulher] tem outras belezas muito mais excelentes e nobres: a beleza da sua inteligência, a beleza dos seus sentimentos e, sobretudo, a beleza da sua virtude e do seu caráter. Não se pode prescindir desta beleza espiritual, sob pena de rebaixar e degradar a mulher à condição vil dos irracionais. Seria o mesmo que entregar uma criatura humana, a pretexto de que é composta de carne e ossos, aos cuidados e ao laboratório do veterinário" [9].

Por isso, não é possível olhar para certas reivindicações de movimentos ditos "progressistas" senão com ceticismo e vergonha. Feministas que vão às ruas pelo direito de ser "vadias" ou que se proclamam "prostitutas" [10] podem estar fazendo o que for, menos defendendo a dignidade da mulher. Rebaixar-se à disposição aparentemente "livre" dos próprios corpos – como se fossem apenas matéria –, expor totalmente as próprias pernas e partes íntimas ao público – como se fossem pedaços de carne num açougue –, pedir o "direito" de matarem os próprios filhos que são concebidos em seu ventre – como se esses fossem mera "extensão" de seus membros –, não só é desconsiderar o alto valor que têm as mulheres – muito maior que o preço das pérolas e das joias mais caras! É como entregá-las "aos cuidados e ao laboratório do veterinário"; é transportá-las ao nível dos animais; é, real e lamentavelmente, lançá-las aos porcos.

O que querem essas senhoritas – que dizem "representar" as mulheres – é a volta à Antiguidade, no mais horrível e decadente de seus aspectos; a volta ao aborto e ao infanticídio, ao divórcio e à poligamia, à degradação sexual e à permissividade dos costumes... na ilusão de que tudo isso as liberte. Só que a história é uma grande mestra: esses instrumentos que as feministas de hoje consideram "libertadores" são, miseravelmente, as mesmas armas que as prenderam à escravidão noutros tempos. Não as tornam "mais mulheres"; au contraire, colocam-nas abaixo de sua própria natureza e vocação; lançam-nas, terrivelmente, aos cães e aos porcos.

Corruptio optimi pessima est, diz um adágio latino. A corrupção dos ótimos é péssima, a corrupção de quem deveria, por sua alta dignidade, ser melhor, é ainda pior que as outras corrupções. A corrupção da mulher, pelo feminismo, deforma-a a ponto de torná-la irreconhecível... como uma pérola escondida em um chiqueiro, como uma joia cujo brilho é ofuscado por uma porção de lama.

Ainda hoje – e especialmente hoje –, ressoam firmes as palavras de Cristo: "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas". Que as mulheres tomem consciência do grande dom e do alto valor que possuem – e correspondam com coragem à sua dignidade.

Referências

  1. Mt 7, 6
  2. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006. p. 119
  3. Gl 4, 4
  4. Cf. Mt 9, 12-13
  5. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006. p. 137
  6. Cf. Mt 28, 9; Mc 16, 9; Jo 20, 11-18
  7. Gl 3, 28
  8. Dom Aquino Corrêa. Elevação da mulher, 9 de dezembro de 1934. In: Discursos, vol. II, tomo II. Brasília, 1985. p. 137
  9. Dom Aquino Corrêa. Concursos de beleza, 27 de dezembro de 1930. In: Discursos, vol. II, tomo II. Brasília, 1985. p. 68-69
  10. Veja-se, por exemplo, o vídeo de um grupo feminista (sic), disponível no YouTube. Avisamos que possui palavras ofensivas e de baixo calão.

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Por que celebrar a Virgem Maria como “Mãe da Igreja”?
Liturgia

Por que celebrar
a Virgem Maria como “Mãe da Igreja”?

Por que celebrar a Virgem Maria como “Mãe da Igreja”?

Um recente decreto do Papa Francisco instituiu, na segunda-feira depois de Pentecostes, a memória de Maria, “Mãe da Igreja”. Com um pouco de história e de teologia, entenda o porquê de mais este título mariano.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Maio de 2018
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Para ajudar os sacerdotes e responsáveis da liturgia, recordamos que um recente decreto do Papa Francisco instituiu, na segunda-feira depois de Pentecostes, a Memória da Bem-aventurada Virgem, Mãe da Igreja. Trata-se do decreto Ecclesia Mater, publicado no dia 3 de março de 2018.

A Missa aprovada para esta celebração encontra-se no Missal Romano à página 952 (Missas Votivas de Nossa Senhora, B - Nossa Senhora, Mãe da Igreja). A mesma Missa encontra-se também na coletânea de Missas de Nossa Senhora à página 140. Como de costume, usam-se paramentos brancos. Os outros textos que, a seu tempo, serão traduzidos pelas Conferências Episcopais, podem ser acessados clicando-se aqui.

O núcleo desta celebração, a ser comemorada todos os anos na segunda-feira logo após a solenidade de Pentecostes, é o título mariano de “Mãe da Igreja” (Mater Ecclesiae), que se popularizou e, por assim dizer, oficializou entre os fiéis a partir do Concílio Vaticano II, quando em 1964, durante a promulgação da Constituição dogmática Lumen Gentium, o Pontífice então reinante, Paulo VI, proclamou Maria Santíssima como Mãe amorosíssima de todo o Povo de Deus.

Um pouco de história

À época, é bem verdade, nem todos os teólogos presentes no Concílio eram plenamente favoráveis a essa proclamação.

O texto do capítulo VIII da Constituição Lumen Gentium ofereceu uma síntese de duas escolas marianas existentes à época: a escola eclesiológica e a escola cristológica.

As duas tendências teológicas, reunidas em um Congresso Mariano Internacional, em Lourdes, ainda no ano de 1958, eram perfeitamente católicas, mas entraram em um embate: enquanto a escola eclesiológica concebia Maria simplesmente como a maior dentre os santos e, na expressão que o Concílio utilizou depois, “membro eminente e inteiramente singular da Igreja”, a outra olhava para o papel especial que ela exerceu na história da salvação.

A tendência cristológica condensava suas formulações no antiquíssimo título de “Maria, Mãe de Deus”. Para estes teólogos, Jesus não estabeleceu Nossa Senhora como mera intercessora, mas, tendo-a escolhido para vir ao mundo uma vez, serve-se sempre dela para reinar nas almas.

Durante o Concílio Vaticano II, dois prelados ficaram encarregados de elaborar as linhas a ser escritas sobre a Santíssima Virgem: eram os cardeais Franz König, de Viena, representante da escola eclesiológica, e Rufino Santos, das Filipinas, adepto da escola cristológica.

Na votação para definir se haveria um documento específico para Nossa Senhora, os padres conciliares, encabeçados pelos dois membros do colégio cardinalício, encontraram-se visivelmente divididos. Entre os mais de dois mil padres votantes, decidiu-se incluir o texto sobre Maria no documento sobre a Igreja, por apenas 17 votos. Tratava-se, evidentemente, de uma “vitória” da escola eclesiológica.

No entanto, o resultado final da Constituição Dogmática Lumen Gentium representou um verdadeiro equilíbrio entre as duas escolas marianas. Poder-se-ia dizer que o que este documento conciliar fez foi fixar um “mínimo denominador comum” da mariologia para os católicos. Assim, ao mesmo tempo em que ele considera Maria a “realização exemplar (typus) da Igreja”, reconhece que, “de modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas”, chegando a chamar-lhe nossa “mãe na ordem da graça” (Catecismo da Igreja Católica, § 967-968).

Se as palavras do Concílio, porém, pareceram de algum modo tímidas — a Constituição Lumen Gentium diz que Maria é “Mãe dos membros (de Cristo)”, sem usar propriamente a palavra “Igreja” —, no dia 21 de novembro de 1964, o Papa Paulo VI pronunciou um discurso no qual, surpreendentemente, proclamou Maria “Mãe da Igreja”.

Ainda que pertencente ao Magistério ordinário, não se tratou de um discurso rotineiro do Santo Padre, mas de um momento “solene”, nas palavras do próprio beato:

Para glória da Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima “Mãe da Igreja”, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão. […] Quanto a nós, da mesma sorte que a convite do Papa João XXIII, a 11 de outubro de 1961, entramos na aula conciliar juntamente “cum Maria, Matre Jesu”, assim também, ao terminar a terceira sessão, deste mesmo templo saímos no nome santíssimo e suavíssimo de Maria, Mãe da Igreja.

O recente decreto do Papa Francisco, portanto, só vem para consolidar ainda mais o desejo da Sé de Pedro de que “com este título suavíssimo”, de Mãe da Igreja, “seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão”.

Um pouco de teologia

O título que hoje celebramos nos traz constantemente à memória a função maternal que Nossa Senhora exerce sobre todo o Corpo místico de Cristo, não só na qualidade de seu membro mais digno e excelente, mas como verdadeira Mãe da Cabeça e de todos os fiéis que a Ele estão unidos. Com efeito, seria uma monstruosidade, dizia São Luís Maria Grignion de Montfort, que aquela que deu à luz à Cabeça não fosse Mãe também dos outros membros (cf. Tratado da Verdadeira Devoção à SS. Virgem, n. 32).

Dizer, pois, que Maria é Mãe da Igreja não é senão afirmar o seu papel singular na ordem da Encarnação, gerando em seu seio o Filho de Deus feito carne, e na economia da Redenção, oferecendo ao Pai o fruto bendito que o Espírito Santo nela formara.

Os teólogos continuam livres para debater mariologia e adotar, em suas considerações, a escola de sua preferência. O que não se pode fazer é relegar Nossa Senhora — cuja memória todas as gerações recordariam, proclamando-a bem-aventurada (cf. Lc 1, 48) — a um papel de simples coadjuvante na história da salvação. Afirmá-lo seria assumir uma postura protestante. E esta, definitivamente, não tem lugar na doutrina católica.

Que Maria Santíssima continue a interceder do céu por nós, seus filhos indignos e necessitados, e a socorrer a Igreja, da qual é Mãe e Rainha, com sua poderosíssima proteção.

Maria, Mãe da Igreja,
rogai por nós!

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“Mil mortes e mil ressurreições”
Espiritualidade

“Mil mortes e mil ressurreições”

“Mil mortes e mil ressurreições”

Em Pentecostes, Cristo se reveste de um novo Corpo: a Igreja. E, assim como seu corpo físico morreu e ressuscitou, também seu Corpo Místico “terá, no decurso da história, mil mortes e mil ressurreições”.

Fulton J. Sheen18 de Maio de 2018
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Dez dias depois da Ascensão, os Apóstolos encontravam-se reunidos, esperando o Espírito que lhes ensinaria e revelaria tudo o que Nosso Senhor lhes tinha ensinado.

Durante sua vida pública, Cristo afirmara-lhes que havia de revestir-se de um novo corpo. Não físico, como o que tomou de Maria; esse corpo está agora glorificado, à mão direita do Pai. Não seria tampouco um corpo moral, como uma sociedade cuja unidade deriva da vontade dos homens; mas, antes, um novo Corpo Social, que estaria ligado a Ele pelo seu Espírito Celeste, por Ele enviado ao deixar a terra.

Cristo referiu-se algumas vezes a este novo Corpo como Reino, ainda que São Paulo o descrevesse como Corpo, o que se tornava mais facilmente compreensível para os gentios. Ele explicou aos Apóstolos a natureza deste novo Corpo, que assumiria sete características principais:

  1. Para ser membro desse novo Corpo, os homens têm de nascer para ele; mas não por meio de um nascimento humano, porque esse faz filhos de Adão. Para tornar-nos membros do seu novo Corpo, temos de renascer pelo Espírito, nas águas do batismo que nos tornam filhos adotivos de Deus.
  2. A unidade entre Ele e este novo Corpo não consiste em lhe cantarmos hinos, nem em reunir-nos em chás sociais em seu nome, nem em escutar radiodifusões, mas em participarmos da sua vida: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… eu sou a videira, e vós os ramos” (Jo 15, 4-5).
  3. O seu novo Corpo será, como todas as coisas vivas, pequeno a princípio — até, como Ele disse, “semelhante a um grão de mostarda”; mas crescerá da simplicidade para a complexidade, até à consumação do mundo. Como Ele se exprimiu: “Primeiro a erva, depois a espiga, e por fim o grão gerado na espiga” (Mc 4, 28).
  4. Uma casa cresce de fora para dentro, na colocação de pedra sobre pedra; organizações humanas crescem adicionando homem a homem, da circunferência para o centro. O seu Corpo, disse Cristo, será formado de dentro para fora, como se forma o embrião no corpo humano. Assim como Ele recebeu a vida do Pai, assim receberiam os fiéis a vida dele. São estas as suas palavras: “Para que também eles sejam um em nós, como tu, Pai, o és em mim, e eu em Ti” (Jo 17, 21).
  5. Nosso Senhor afirmou que teria um só Corpo. Seria uma monstruosidade espiritual, se tivesse muitos corpos ou uma dúzia de cabeças. Para o conservar uno, por-lhe-ia à frente um só pastor, por Ele designado para apascentar os seus cordeiros e ovelhas. “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).
  6. Esse novo Corpo, segundo as palavras de Cristo, não se tornaria manifesto aos homens, até ao dia de Pentecostes, em que enviaria o seu Espírito de Verdade. “Se eu não for, ele não virá a vós” (Jo 16, 7). Tudo, pois, que começasse a formar-se até vinte e quatro horas depois de Pentecostes, ou vinte e quatro horas antes, seria uma organização; poderia, talvez, ter um espírito humano, mas não teria o Espírito Divino.
  7. A observação mais importante acerca do seu Corpo foi que seria odiado pelo mundo, como Ele. O mundo ama tudo o que é mundano, mas odeia tudo o que é divino. “Porque vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 19).

O núcleo deste novo Corpo Místico seriam os Apóstolos. Formariam a matéria-prima. Enviar-lhes-ia o seu Espírito para os vivificar, possibilitando-os tornarem-se o prolongamento da sua Pessoa. Eles o representariam, quando Ele partisse. Foi-lhes reservado o privilégio de evangelizarem o mundo. Esse novo Corpo, de que eles eram o embrião, tornar-se-ia o seu “eu póstumo” e a sua personalidade prolongada através dos séculos.

“A Descida do Espírito Santo”, por Ticiano.

Durante os cinquenta dias em entre a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo, os Apóstolos assemelhavam-se a elementos num laboratório químico. A ciência conhece cem por cento dos elementos químicos que entram na constituição de um corpo humano; mas é incapaz de produzir um único ser humano, por sua inabilidade em prover o princípio unificador, a alma. Os Apóstolos não podiam dar vida divina à Igreja, do mesmo modo que os químicos não podem produzir a vida humana. Careciam do Divino Espírito invisível de Deus, para unificar as suas naturezas humanas visíveis.

Efetivamente, dez dias depois da Ascensão, o Salvador glorificado no Céu enviou-lhes o seu Espírito, não em forma de livro, mas em línguas de fogo vivo. Como as células de um corpo formam uma nova vida humana no momento em que Deus insufla a alma no embrião, assim os Apóstolos apareceram como o Corpo visível de Cristo, no momento em que o Espírito Santo veio para os tornar um. Este Corpo Místico, a Igreja, é denominado na tradição e na Escritura o “Cristo total”, ou a “plenitude de Cristo”.

O novo Corpo de Cristo apareceu então publicamente, à vista dos homens. Assim como o Filho de Deus se revestiu da natureza humana no ventre de Maria, sob a sombra protetora do Espírito Santo, assim, em Pentecostes, Ele tomou um Corpo Místico, no ventre da humanidade, sob a sombra protetora do Espírito Santo. E assim como antes ensinou, governou e santificou por meio da sua natureza humana, assim agora continua a ensinar, governar e santificar por meio de outras naturezas humanas unidas no seu Corpo, a Igreja.

Como, porém, este Corpo não é físico como o homem, nem moral como um clube de recreio, mas celeste e espiritual por causa do Espírito que o torna um, chama-se Corpo Místico. E assim como o corpo humano é constituído de milhões e milhões de células e, contudo, é um só porque vivificado por uma só alma, dirigido por uma cabeça visível e governado por uma mente invisível, assim este Corpo de Cristo, apesar de formado de milhões e milhões de pessoas incorporadas em Cristo pelo batismo, é uno, porque vivificado pelo Espírito Santo de Deus, dirigido por uma cabeça visível e governado por uma Mente invisível, ou Cabeça, que é Cristo Ressuscitado.

“A Conversão de São Paulo”, de Caravaggio.

O Corpo Místico é a Pessoa de Cristo prolongada. São Paulo chegou à compreensão desta verdade. De todos os que viveram até agora, talvez ninguém odiasse tanto a Cristo como Saulo. Os primeiros membros do Corpo Místico de Cristo pediam a Deus que enviasse alguém para refutá-lo. Deus ouviu a sua oração e enviou Paulo para responder a Saulo.

Um dia, esse perseguidor, exalando ódio, pôs-se a caminho de Damasco para prender os membros do Corpo Místico de Cristo dessa cidade e conduzi-los a Jerusalém. Tinham decorrido poucos anos apenas, desde a Ascensão do Divino Salvador, então glorificado no Céu. Subitamente, Saulo viu-se cercado por uma grande luz e caiu por terra. Foi despertado por uma voz, semelhante ao bramido do mar, que dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9, 4).

O nada ousou perguntar o nome da Onipotência: “Quem és tu, Senhor?”. E a voz respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues” (At 9, 5).

Como era possível Saulo perseguir a Nosso Senhor, que estava glorificado no Céu? Por que dizia a voz do Céu: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

Se alguém tropeçasse num móvel, não se queixaria a cabeça, uma vez que o pé faz parte do corpo? Assim, dizia agora o Senhor, ao ferir o seu Corpo, Paulo estava ferindo a Ele. Ao ser perseguido o Corpo de Cristo, era Cristo, Cabeça invisível, que se levantava para falar e protestar. O Corpo Místico de Cristo, portanto, não está entre Cristo e o indivíduo, do mesmo modo que o seu Corpo físico não esteve entre Madalena e o perdão que lhe concedeu, ou a sua mão entre as crianças e a bênção que lhes deitou. Foi por meio do seu Corpo humano que Ele veio aos homens em sua vida individual; é por meio de seu Corpo Místico, ou de sua Igreja, que Ele vem aos homens em sua vida mística incorporada.

Cristo está vivo agora! Ele continua agora a ensinar, a governar, a santificar — como fez na Judeia e na Galileia. O seu Corpo Místico, a Igreja, existiu por todo o Império Romano antes que um único dos Evangelhos fosse escrito. Foi o Novo Testamento que veio da Igreja, e não a Igreja que veio do Novo Testamento. Este Corpo possuía os quatro sinais distintivos da vida:

  • tinha unidade, porque vivificado por uma só Alma, um só Espírito, dom do Pentecostes. E se a unidade em doutrina e autoridade é a força centrípeta que torna a vida da Igreja una,
  • a catolicidade é a força centrífuga que a habilita a expandir-se e a absorver a humanidade remida, sem distinção de raça ou cor.
  • A terceira nota da Igreja é a santidade, que lhe assegura duração, contanto que se conserve sã, pura e livre da peste da heresia e do cisma. Esta santidade não está em cada membro, mas, antes, na Igreja inteira. E porque a alma da Igreja é o Espírito Santo, será Ele o instrumento divino da santificação das almas. A luz do sol não se polui quando os raios atravessam uma janela suja; do mesmo modo, os sacramentos não perdem a sua eficácia santificadora, mesmo quando os instrumentos humanos desses sacramentos se encontram manchados.
  • Finalmente, temos a obra da apostolicidade. Em biologia, omne vivum ex vivo, ou “toda vida vem da vida”. Assim, também, o Corpo Místico de Cristo é apostólico, porque historicamente está enraizado em Cristo, e não em um homem separado dele pelos séculos. Foi por isso que a Igreja nascente se reuniu para eleger um sucessor de Judas, testemunha da Ressurreição e companheiro dos Apóstolos. “Há homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, começando desde o batismo de João até ao tempo em que Jesus se apartou de nós. Agora, é preciso que um deles se junte a nós para ser testemunha da sua Ressurreição” (At 1, 21-22).

Assim, Cristo, que se “esvaziou” a si mesmo na Encarnação, teve agora a sua “plenitude” no Pentecostes. A kenosis, ou humilhação, é uma das facetas da sua Pessoa; o pleroma, ou a continuação de sua vida, na sua Noiva, Esposa, em seu Corpo Místico, a Igreja, é outra. Assim como o desaparecimento da luz e do calor do sol faz a terra gritar pela sua energia radiante, assim o abatimento do amor de Cristo encontra o seu complemento no que São Paulo chama a sua “plenitude” — a Igreja.

Muita gente julga que acreditaria em Cristo, se tivesse vivido no seu tempo. Mas a verdade é que isso não lhes traria grande vantagem. Aqueles que agora não o reconhecem como divino, vivo no seu Corpo Místico, também não o reconheceriam como divino, vivo no seu Corpo físico.

Se há escândalos nas células do seu Corpo Místico, também houve escândalos no seu Corpo físico; num e noutro caso, sobressai de tal modo o humano, que em momentos de fraqueza ou Crucifixão, é necessária uma força moral para descobrir a Divindade.

Nos tempos da Galileia, era necessária uma fé apoiada em motivos de credibilidade para acreditar no Reino que Ele vinha estabelecer, ou no seu Corpo Místico, através do qual Ele santificaria os homens por seu Espírito, depois da Crucifixão. Hoje, requer-se uma fé apoiada nos mesmos motivos de credibilidade, para acreditar na Cabeça, ou Cristo invisível, o qual governa, ensina e santifica por meio da sua Cabeça visível e do seu Corpo, a Igreja. Num e noutro caso, é preciso “levantar-se”. Nosso Senhor disse a Nicodemos que, para remir os homens, tinha de ser “levantado” na Cruz; para santificar os homens no Espírito, teve de “elevar-se” ao Céu na Ascensão.

Cristo continua, pois, a andar pelo mundo, no seu Corpo Místico, como andava outrora no seu Corpo físico. O Evangelho foi a pré-história da Igreja, como a Igreja é a pós-história do Evangelho. Continuam a ser-lhe negadas as estalagens, como em Belém; novos Herodes, com nomes soviéticos e chineses, perseguem-no com a espada; surgem outros Satãs, tentando desviá-lo do caminho da Cruz e da mortificação, pelos atalhos da popularidade; oferecem-lhe Domingos de Ramos de grandes triunfos, mas só como prelúdios de Sextas-feiras Santas; atiram contra Ele novas acusações (e não raro pelas pessoas religiosas, como no seu tempo) — que é inimigo de César, antipatriota, pervertedor da nação; de fora é apedrejado, de dentro atacado por falsos irmãos; não faltam sequer os Judas escolhidos para Apóstolos, que o atraiçoam e o entregam ao inimigo; alguns dos discípulos que se gloriavam do seu nome já abandonaram a sua companhia, porque — como fizeram os seus antecessores — acham que a sua doutrina, particularmente no que diz respeito ao Pão da Vida, é “dura”.

Mas, por que não há morte sem Ressurreição, o seu Corpo Místico terá, no decurso da história, mil mortes e mil Ressurreições. Os sinos dobrarão continuamente pela sua execução, mas a execução será eternamente adiada. Virá, finalmente, o dia em que se levantará uma perseguição universal contra o seu Corpo Místico, e será levado à morte como foi antes, “padecendo sob Pôncio Pilatos”, padecendo sob o poder onipotente do Estado. Mas, no fim, cumprir-se-á tudo o que estava predito de Abraão e Jerusalém, na sua perfeição espiritual, quando Ele for glorificado no seu Corpo Místico, como foi glorificado no seu Corpo físico. Foi assim que João Apóstolo o descreveu:

“Vem comigo”, disse ele, “e eu te mostrarei a esposa cujo esposo é o Cordeiro”. E ele transportou-me em espírito a uma grande montanha e me mostrou a Cidade Santa de Jerusalém que descia do Céu da presença de Deus, revestida da glória de Deus.

A luz que brilhava sobre ela era semelhante a uma pedra preciosa, ao jaspe quando se parece com o cristal; e estava rodeada por muro grande e alto, com doze portas, e nas portas, doze anjos, e com uns nomes gravados que são os nomes das doze tribos de Israel, três destas portas estavam a oriente, três ao norte, três ao sul e três a ocidente. E não vi templo algum nela, porque o Senhor Todo Poderoso e o Cordeiro são o templo. E a cidade não precisa de sol, ou lua para a iluminar, porque a glória de Deus brilha sobre ela e sua lâmpada é o Cordeiro.

E as nações caminharão à sua luz, e os reis da terra lhe trarão o seu tributo de louvor e honra, e as portas não se fecharão jamais (não haverá nela noite). As nações entrarão nela com honra e louvor… Assim seja. Vem, Senhor Jesus. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. (Ap 21, 9-14; 22-26; 22, 20-21)

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de: Fulton Sheen, “Vida de Cristo”, São Paulo: Molokai, 2018, pp. 717-725.

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Por que Tolkien disse “não” a Nárnia?
Igreja Católica

Por que Tolkien disse “não” a Nárnia?

Por que Tolkien disse “não” a Nárnia?

“As Crônicas de Nárnia”, escritas por C. S. Lewis, não eram uma história pela qual J. R. R. Tolkien nutrisse grande simpatia. Entenda o porquê dessa divergência literária histórica entre dois amigos.

Pe. Dwight Longenecker,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Maio de 2018
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Se eu tivesse uma máquina do tempo, que pudesse me transportar a qualquer tempo e lugar, escolheria o “pub” Eagle and Child, em Oxford, numa noite de terça-feira, em 1950, com C. S. Lewis lendo trechos de seu livro “As Crônicas de Nárnia”. Ele estaria lá, diante de uma lareira, com J. R. R. Tolkien e os outros Inklings, reunidos para beber cervejas, fumar cachimbos e ler excertos de suas obras. O autor de “O Senhor dos Anéis” escutaria tudo calmamente e depois daria sua contribuição com críticas inteligentes e certeiras.

Infelizmente, para isso, eu precisaria não apenas de uma máquina que viajasse ao passado, mas de uma que o mudasse também: contam-nos os estudiosos que os Inklings seguiram cada um o seu próprio caminho a partir de 1949, e que as histórias de Lewis sobre Nárnia jamais foram lidas àquele grupo de amigos. De qualquer modo, Tolkien mantinha uma posição bem sólida a respeito das histórias infantis de seu amigo. Ele não gostava delas.

Mas por que não? Seria por inveja, como na história da raposa e as uvas? Em meados dos anos 1950, quando os contos de Nárnia estavam sendo publicados, Lewis era um escritor bastante popular. Tolkien, ao contrário, que acabara de publicar sua obra-prima, levaria dez anos para ver seus livros deslancharem. Foi também mais ou menos nessa época que a famosa amizade entre os dois arrefeceu.

Será que Tolkien achava que Lewis estava copiando suas próprias ideias (como as referências a Númenor e ao mito de Tolkien em “Uma Força Medonha”) e vulgarizando-as? Pensava ele talvez que seu amigo estivesse se beneficiando de seu próprio trabalho? Teria ele se ressentido de Lewis soltar com tanta rapidez e facilidade suas histórias de fantasia para crianças, enquanto sua obra-prima foi o doloroso parto de uma vida inteira?

Alguns desses elementos talvez expliquem parte da antipatia de Tolkien por Nárnia e de seu afastamento de Lewis. Havia outras questões pessoais envolvidas no esfriamento da amizade dos dois, mas Tolkien não gostava das histórias de Nárnia por outras razões, mais profundas e profissionais.

O autor de “O Senhor dos Anéis” ficava incomodado com o uso inconsistente que “As Crônicas de Nárnia” faziam das figuras mitológicas. Personagens da mitologia clássica eram simplesmente jogadas na história, juntamente com outras do folclore moderno e da literatura infantil. Tolkien não podia entender como uma história podia conter, ao mesmo tempo, faunos e Papai Noel, dríades e dragões, ninfas e animais falantes. Tudo parecia muito “forçado”, sem originalidade, uma espécie de bagunça mal pensada e malfeita.

Lúcia Pevensie e o Senhor Tumnus.

Além disso, Tolkien não partilhava com Lewis o amor pela literatura infantil enquanto tal. Ele apreciava mitos e contos de fadas, mas não achava que devessem ser relegados à literatura para crianças. Também não gostava de truques de sonho (como Lewis usou em “O Grande Abismo”) para transportar pessoas a mundos alternativos, e desconfiava de recursos literários mágicos que fizessem crianças visitar outros mundos através de espelhos, guarda-roupas ou tocas de coelhos.

Em suma, o autor de “O Senhor dos Anéis” levava a mitologia mais a sério. Ele construiu seu mundo alternativo do zero. Começando com o idioma dos elfos, Tolkien criou a raça que falava o idioma; concebeu depois e criou cuidadosamente não apenas as outras raças e seus próprios idiomas, mas todo o mundo no qual elas viviam, com sua geografia, sua história e as mitologias correspondentes. Tolkien desdenhava da rapidez e da facilidade com que Lewis criava suas histórias não só porque as obras eram produzidas rápido, mas porque qualquer um podia percebê-lo.

As objeções reais de Tolkien a Nárnia, no entanto, iam ainda mais longe. Tolkien não era fã de alegorias, e “As Crônicas de Nárnia” eram alegóricas demais para o seu gosto. Lewis protestava, dizendo que não se tratava de alegoria (ele já havia escrito uma em “O Regresso do Peregrino”), mas sim de analogia. Ainda que as personagens em Nárnia não tenham, de fato, um relacionamento pessoal alegórico com verdades abstratas, elas apontam claramente para verdades e personagens maiores na história do cristianismo. Tolkien, porém, objetava.

O autor de “O Senhor dos Anéis” rejeitava assim tão intensamente as alegorias porque ele as considerava didáticas demais, não deixando margem para a existência de outros níveis de sentido em uma obra. Tolkien entendia o artista, criado à imagem de Deus, como um “subcriador” — que produziria tanto melhor um trabalho de fantasia quanto mais fiel fosse ao próprio ato complexo da criação divina.

Aragorn e Gandalf.

Para fazer isso com sucesso, um mundo completamente alternativo tinha de ser criado, no qual uma obra de redenção pudesse se desenrolar, coerentemente, dentro de seus próprios limites lógicos. Não era suficiente criar um mundo com indicadores simbólicos de Jesus Cristo e da cruz; esse mundo deveria ter toda uma história e uma dinâmica interna própria, que encarnasse verdades universais de um modo completamente novo.

A diferença entre Nárnia e a Terra Média aponta para a diferença fundamental entre a imaginação protestante de Lewis e a imaginação católica de Tolkien. Para um protestante, a verdade é essencialmente dialética, consistindo em proposições abstratas a ser declaradas, defendidas, confirmadas ou negadas. Para um católico, porém, a Verdade em essência, ainda que possa ser tratada dialeticamente, é algo a ser não discutido, mas experimentado; a Verdade está sempre ligada ao mistério da Encarnação, sendo algo, portanto, com que devemos nos encontrar.

Muitos protestantes arguirão, por exemplo, que a principal revelação de Deus é a Sagrada Escritura, enquanto os católicos mantêm que a principal revelação de Deus é Jesus Cristo. Que C. S. Lewis tenha produzido obras profundas, válidas e belas, mas não plenamente “encarnadas”, enquanto Tolkien produziu uma obra-prima que encarnava as mesmas verdades de uma maneira completa, sutil e misteriosa, é algo que só reflete as profundas diferenças teológicas existentes entre os dois.

Longe de mim “atirar pedras” em Lewis ou em Nárnia. Eu continuo a apreciar minhas próprias visitas a Nárnia e assisto a seus filmes com grande entusiasmo. Entretanto, como muitos outras pessoas, eu admiro mais a Terra Média. Minha admiração por Tolkien e seus feitos deve-se não somente à profundidade de sua obra, mas ao fato de que tudo o que ele produziu é inseparável de sua personalidade humilde e de sua devotada fé católica.

Nárnia está povoada de personagens extraordinárias, intuições inspiradoras e verdades admiráveis, mas na Terra Média a magia penetra em um nível mais profundo. Quando eu visito Nárnia, minha mente fica atenta e meu espírito se eleva como se visitasse uma galeria de arte; quando eu visito a Terra Média, meu coração fica atento e meu espírito se eleva como se visitasse uma grande catedral. No primeiro, há muito para admirar; no segundo, há muito para adorar.

Para expressar melhor essa diferença, permitam-me servir não de um argumento, mas de uma experiência que eu tive. Alguns anos atrás, depois de tomar um bom banho quente e reler “As Duas Torres”, um belo e verdadeiro detalhe da obra me marcou. Eu sentei-me, então, e disse bem alto: “Isso só podia ter sido escrito por um católico de Missa diária!

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É possível ser feliz lutando contra o lesbianismo?
Testemunhos

É possível ser feliz
lutando contra o lesbianismo?

É possível ser feliz lutando contra o lesbianismo?

“Se Deus ama seus filhos homossexuais? É evidente que sim. Mas Ele nos ama demais para nos deixar do jeito que estamos.”

Dawn Wilde,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Maio de 2018
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Um dos ensinamentos mais controversos do catolicismo diz respeito à homossexualidade. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (§ 2357):

Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (cf. Gn 19, 1-29; Rm 1, 24-27; 1Cor 6, 9-10; 1Tm 1, 10), a Tradição sempre declarou que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados.

Para muitos de nós, esse ensinamento é desafiador, especialmente se alguém a quem amamos é homossexual. Mas e se for você o católico lutando contra esses desejos? É possível ser fiel aos ensinamentos da Igreja e ainda assim ser feliz?

Sim, é possível.

Eu sou uma mulher católica de 37 anos e muito bem casada há cerca de 15. Temos cinco filhos educados em casa. E eu também luto, diariamente, com a atração pelo mesmo sexo (AMS).

A maior parte dos homossexuais dirá que “sabiam” ser assim desde uma idade muito precoce. Eu não sabia. Dentro de mim, eu tinha as “quedinhas” normais por rapazes e, assim como a maioria das mulheres heterossexuais, me imaginava casada e tendo filhos com um grande homem.

Até eu conhecer Nora. Nora morava na mesma residência universitária que eu, e nós tínhamos muitas aulas juntas, razão pela qual começamos a passar muito tempo juntas. Meu namorado incentivava a nossa amizade, porque era uma forma de eu não ficar sozinha enquanto ele estava no trabalho. Nora e eu tínhamos muitos interesses em comum e, por isso, rapidamente nos tornamos melhores amigas.

Um dia, porém, alguns meses mais tarde, uma ideia alarmante atravessou a minha mente: “Eu estou apaixonada por Nora.” Fiquei terrivelmente assustada com aquele pensamento. Chorei por horas, tentando achar uma saída para o estranho enigma de me sentir apaixonada por uma mulher. Estava tudo ali, exatamente como acontecia com relação aos homens: a atração emocional e, sim, até a atração física.

Passei então a evitá-la, mas ela insistia em querer saber o que de errado estava acontecendo. Finalmente eu lhe contei como me sentia, meio que torcendo para que ela recuasse de pavor. Ao contrário, ela confessou sentir o mesmo a meu respeito. E não, nenhuma de nós jamais havia se sentido atraída por outra mulher antes.

Sei que alguns de vocês podem estar pensando: “O que você quer dizer com isso? Que simplesmente ‘acordou’ um dia e se viu apaixonada por uma mulher? Uma coisa dessas pode realmente acontecer?” Na verdade, a história não foi bem assim. Houve vários fatores, tanto no meu passado quanto no de Nora, que nos tornaram vulneráveis à AMS.

Nora havia sido molestada repetidas vezes por um primo quando era criança. Eu fui abandonada por minha mãe biológica e cresci sendo abusada fisicamente por minha mãe adotiva, que tinha problemas mentais. Para Nora, eu representava segurança; para mim, Nora oferecia o vínculo de carinho que eu nunca tive com uma mulher. Nenhuma de nós havia recebido qualquer orientação sobre sexualidade, a não ser: “Não fique grávida”. Tampouco tínhamos algum tipo de fé em Deus, o que tornou muito mais fácil ignorarmos nossas consciências quando nos sobreveio a tentação de nos envolvermos.

Naquele verão, começamos o que acabou se tornando um caso de três anos. Nora e eu decidimos ser colegas de classe pelos últimos dois anos de universidade. Por mais estranho que possa parecer, nós saíamos periodicamente com homens neste intervalo de tempo. Naqueles dias, antes de o “casamento” homossexual ser aprovado nos Estados Unidos e antes de a fertilização in vitro entrar na moda, nenhuma de nós conseguia imaginar em desistir do nosso sonho por uma família de verdade.

Agora eu percebo que, não obstante nossa atração uma pela outra, o chamado de Deus à união matrimonial ainda estava gravado em nossos corações. Nós nos gostávamos muito, mas ainda queríamos o velho casamento dos contos de fada, os filhos e uma casa no campo. Para nós, nada daquilo era possível para um par de lésbicas.

Talvez tenha sido por isso que sofremos tanto para esconder nosso relacionamento de parentes e amigos. Ainda que não fôssemos capazes de imaginar nossas vidas uma sem a outra, também não podíamos imaginar um futuro juntas. Sentíamo-nos profundamente envergonhadas por causa do nosso comportamento, ainda que a maioria de nossos amigos fosse liberal e jamais viesse a nos julgar. Metade de nossos amigos eram, eles mesmos, gays ou lésbicas. Ainda assim, como que por instinto, nós protegíamos nossa imagem de mulheres heterossexuais.

Alguns meses antes de me formar, conheci um jovem rapaz cuja mente brilhante e senso de humor puseram um fim em meu relacionamento com Nora. Embora não viéssemos a nos casar, ele me oferecia o senso de normalidade de que eu precisava desde que passei a me envolver com uma mulher. Nora não aceitou bem a situação e decidiu revelar à própria família que era lésbica. Ela expôs nosso segredo, então, a quem quer que a quisesse escutar. A família dela, que havia me acolhido calorosamente em sua casa por três anos, afastou-se completamente de mim. A seus olhos, eu era uma depravada que lhes havia corrompido a filha.

Depois de Nora, eu nunca mais me relacionei com outra mulher, em grande parte porque não cheguei a conhecer nenhuma por quem sentisse uma atração emocional tão forte como a que tinha sentido por ela. A atração sexual por mulheres em geral, no entanto, nunca foi embora. Descobri que, ao mesmo tempo que eu me sentia atraída por homens em particular, minha atração principal era por mulheres, tanto sexual quanto emocionalmente.

Dois anos depois, eu conheci meu marido, um homem por quem eu sentia tudo isso, e ainda mais. Abracei o matrimônio, feliz por finalmente ter encontrado uma vida “normal”. Entretanto, mesmo depois disso, a AMS permaneceu instalada como uma armadilha dentro de mim. Quando eu viajava para fora a trabalho, lutava comigo mesma para não ir a bares lésbicos. Eu havia prometido fidelidade e precisava honrar minha promessa. De alguma forma eu sabia que, se traísse meu marido, eu estaria definitivamente perdida enquanto pessoa. Agradeço a Deus todos os dias por me ajudar a combater essas tentações.

Então nós nos tornamos católicos. Se nossos votos já haviam sido sagrados antes, agora eles se tinham tornado sacramentais. Embora eu buscasse ser obediente à Igreja, não conseguia entender plenamente a doutrina católica sobre sexualidade, até estudar a teologia do corpo do Papa São João Paulo II. Finalmente pude entender o sentido do meu corpo e por que o matrimônio era algo tão sagrado. Entendi por que eu jamais me satisfaria com Nora e por que eu aspirava tanto me unir a um homem e constituir uma família.

Mas entender minha sexualidade não fez as tentações irem embora. Eu não podia simplesmente eliminar a tendência de me sentir sexualmente atraída por mulheres.

Por um tempo, eu havia me convencido de que, já que eu não me envolvia em atos homossexuais, eu não estava pecando (ou seja, estaria tudo bem dar azo à fantasia). Quanto mais eu entendia a castidade autêntica, porém, mais frágil se tornava esse pretexto. Que “pureza de coração” era a minha, se eu cedia a fantasias pecaminosas durante o ato mais íntimo do meu casamento? Como eu podia imaginar outra pessoa naquele instante sem, ao mesmo tempo, desrespeitar meu amado marido? Eu sabia que a castidade de verdade exigia algo maior do que simplesmente seguir a letra da lei: exigia conversão de coração.

Felizmente, a batalha hoje é mais fácil do que nos primeiros anos de casamento. Eu permaneço fiel a Deus e a meu marido porque trabalho duro a fim de evitar as ocasiões próximas de pecado.

Eu evito, por exemplo, amizades muito intensas com mulheres que possam eclipsar meu relacionamento com meu marido, e não assisto, de jeito nenhum, a filmes com temática homossexual. Também treinei minha imaginação para evitar pensamentos impuros. Pode ser tentador cair em velhos padrões de pensamento, especialmente quando estou cansada. Mas, se necessário for, eu vou à exaustão física e emocional, só para não ofender a Deus. Nenhum prazer sensual passageiro vale a pena de ofender a Jesus, que tanto sofreu para me salvar.

Ajuda-me saber também que o que eu tenho com meu marido supera qualquer coisa que eu poderia ter em um relacionamento homossexual. O dom mais extraordinário da nossa união é podermos cooperar com Deus na criação de uma pessoa única, com uma alma imortal. Trata-se de um grandioso privilégio, transcendente e espiritual, que eu teria perdido se fosse lésbica.

Naturalmente, tenho uma compaixão profunda por quem luta a mesma luta que eu. Mas não acredito que devamos ceder à AMS se a tivermos. De fato, eu não sou nem um pouco diferente de um homem heterossexual que luta para não transformar as mulheres em objeto. Ou de uma mulher heterossexual que é tentada ao sexo fora do casamento. Nós todos somos pessoas “quebradas”, e é por isso que todos, sem exceção, precisamos de Cristo.

Eu não posso reordenar minha sexualidade decaída, mas, como tenho testemunhado ao longo dos últimos dez anos, a graça e a fé em Jesus podem por mim. Basta ter paciência e vontade de receber a cura. A santificação, afinal de contas, é o processo de uma vida inteira. Conforta-me saber que, devagar mas efetivamente, Deus está curando as feridas dos pecados sexuais que desfiguraram minha alma.

Se Deus ama seus filhos que lutam com a atração por pessoas do mesmo sexo? É evidente que sim. Mas Ele nos ama demais para nos deixar do jeito que estamos.

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