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A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina gênero nas escolas
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A prova que faltava: livro recomendado
pelo MEC ensina gênero nas escolas

A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina gênero nas escolas

O livro Sociologia em movimento insiste na tese marxista de que a culpa para as discriminações está na família e na Igreja

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2015Tempo de leitura: 12 minutos
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Certa vez, quando questionado a respeito da popularidade dos jornais, o escritor inglês G. K. Chesterton explicou que aquele sucesso se devia à ficção promovida por eles. "A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro", declarou.

A cobertura da imprensa sobre o debate acerca da inclusão do termo gênero nos Planos Municipais de Educação é o mais recente exemplo dessa ficção. Na maior parte das reportagens, procurou-se transmitir um retrato bastante distorcido da realidade, no qual os cristãos apareciam como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. Quem lesse esses jornais, logo teria a impressão de que a Igreja, movida por um repentino acesso de cólera, havia se levantado para uma cruzada pelo obscurantismo. Gênero, segundo a mídia e os ideólogos de plantão, seria uma expressão inofensiva, cujo significado se resumiria tão somente a uma luta pelo fim da discriminação.

Eis que agora nos surgem as provas cabais de que a Teoria de Gênero é exatamente aquilo tudo que havíamos denunciado aqui no site: um programa de destruição da família e da Igreja. Está nas mãos de alunos do ensino médio um livro chamado Sociologia em movimento. A obra, segundo consta, foi editada em 2013, pela Editora Moderna, de acordo com as determinações do Ministério da Educação para o Programa Nacional do Livro Didático — ou seja, antes mesmo que o Plano Nacional de Educação fosse votado.

No capítulo 14, intitulado Gênero e sexualidade, o leitor encontra uma apologia aberta ao fim da família e da lei natural, em nome de uma suposta liberdade e do que os autores entendem por "identidade de gênero", isto é, "uma construção cultural estabelecida socialmente através de símbolos e comportamentos, e não uma determinação de diferenças anatômicas entre os seres humanos" [1]. A confissão vem logo nas primeiras linhas: "As permanências da sociedade patriarcal e do androcentrismo estão entre as principais explicações para esse fenômeno (a discriminação), e serão trabalhadas ao longo do capítulo, juntamente com as evidências que apontam para a reversão desse quadro social" [2]. O objetivo do estudo, conforme as próprias palavras do texto, é "reconstruir os papéis sociais estabelecidos" [3].

Quem não está familiarizado com o linguajar revolucionário deste tipo de publicação, é facilmente induzido a trocar gato por lebre. Ocorre que, no mundo pós-moderno, como explica Padre Paulo Ricardo no curso de Filosofia da Linguagem, a guerra cultural é uma guerra de palavras. A linguagem é um dos meios mais importantes utilizados pela intelligentsia para refundar o mundo à sua imagem e semelhança.

O próprio debate sobre o uso da palavra "gênero" nos planos de educação comprova isso. Embora o texto vigente do Plano Nacional defenda a "superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação", não faltaram críticas à supressão da tal palavra. Pergunta: se se trata apenas de uma luta pelo respeito, por que não basta dizer "erradicação de todas as formas de discriminação"? Essa é uma questão que eles não respondem. Mas para a qual há uma resposta.

Filhos de Karl Marx

Para a Sociologia", diz o livro, "a família (...) pode assumir diferentes configurações e padrões de normalidade". A pergunta é se os pais estão de acordo com essa visão subjetiva e relativista de família.

A palavra "gênero", do modo como foi pensada pelos ideólogos, representa todo um projeto de engenharia social. Como fica claro no livro, a tese tem suas raízes no pensamento de Karl Marx e Engels. Na obra
A origem da família, da propriedade privada e do Estado, esses dois ídolos do pensamento esquerdista atribuem à família a máxima culpa pelas desigualdades sociais. Eles afirmam: "O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino" [4]. Seria preciso, portanto, para destruir o capitalismo, destruir primeiro a família. Por isso, quando se fala de luta contra a "família patriarcal" ou "família burguesa", saiba que se fala de luta contra a família natural, a saber, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos. Padre Paulo Ricardo explica muito bem essa questão no vídeo Marxismo e a destruição da família.

O marxismo nega a existência da verdade. A estrutura do mundo se resumiria a uma tensão de forças antagonistas, influenciada pelo pensamento dominante ou, nas palavras de Marx, pela ideologia. Essa ideologia, por sua vez, seria a superestrutura, aquelas instituições que sustentam o status quo — família e Igreja, por exemplo. Desse modo, para que a estrutura opressora caia, é mister que se corrompa a superestrutura por meio de uma nova ideologia, de um novo discurso. O Papa Pio XI notou que o socialismo propõe "a formação das inteligências e dos costumes" como também "se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem 'socialista' que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo" [5].

É fato. Sem a presença da família, as crianças são "educadas" pela escola, conforme os interesses do Estado. Isso já acontece em países como a Suécia, onde os filhos são completamente retirados do convívio dos pais. A razão é a seguinte: para que as crianças percam a noção de certo e errado, é preciso moldá-las desde a mais tenra idade. A lei que obriga as famílias a colocarem seus filhos nas escolas com apenas quatro anos de idade está intimamente ligada a esse projeto. Aliás, não deixa de ser interessante o fato de que, nos planos municipais de algumas cidades do Brasil, "gênero" apareceu apenas nos parágrafos referentes à educação infantil.

O livro Sociologia em movimento abraça essa tese marxista, bem como a de outras correntes filosóficas contrárias ao cristianismo, quando, por exemplo, defende a ideia de que "o discurso sobre a sexualidade não é uma descrição da natureza reprodutiva, mas sim um meio de estabelecer relações de poder construídas historicamente nas sociedades ocidentais" [6]. Os autores ainda insistem no absurdo:

O peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade (...) continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica (aversão a homossexuais e a transgêneros), assim como à violência doméstica contra mulheres, fenômeno social de intolerância e machismo que por vezes acarreta a morte de mulheres, homossexuais, transgêneros e pessoas que não se enquadram nos estereótipos tradicionais dos gêneros [7].

No geral, a obra é um conjunto de falácias e preconceitos, que levam o leitor desavisado a acreditar que na origem de todas as desgraças estão a família e a Igreja. E não deixa de ser curiosa a afirmação de que "o discurso da sexualidade" seria apenas uma convenção social para legitimar o poder de algumas instituições. Com isso, o livro dá um tiro no próprio pé e deixa claro o propósito da agenda de gênero: chegar ao poder. Trata-se de uma ideologia criada para levar seus defensores à liderança da sociedade. Dadas as premissas, a conclusão não pode ser outra: se não existe uma lei natural para a sexualidade — mas discursos ideológicos, como dizem —, que seria a questão de gênero senão apenas outra ideologia? O gato se esconde, mas deixa o rabo de fora.

Percebam: o direito natural, como propõe a filosofia perene, desautoriza qualquer interpretação relativista a respeito da pessoa humana. Assim, é preciso destruir a sensibilidade social, para que, uma vez cega aos apelos da natureza e da razão, possa-se instaurar um novo modelo de comportamento, o qual favoreça os interesses ideológicos.

A Igreja, ao contrário, não defende um modelo sexual porque quer dominar as pessoas, mas porque esse modelo corresponde à verdade do ser humano. Se essa lei natural é posta de lado, "abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político" [8]. As leis ficam sob o arbítrio da maioria. Perdem o seu fundamento. Bento XVI deixou isso evidente em uma de suas catequeses sobre Santo Tomás de Aquino:

A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia na sua Encíclica Evangelium vitae palavras que permanecem de grande atualidade: "Para o bem do futuro da sociedade e do progresso de uma democracia sadia, urge pois redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e naturais, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum estado jamais poderá criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover".

A mentira pseudocientífica

Ė uma enorme tolice acreditar que a liberdade virá com o fim da família e da Igreja. Marx descreveu com eloquência, embora de forma bastante desonesta, as dificuldades enfrentadas pelos operários. Pregou a revolução para daí, supostamente, nascer o mundo melhor. Mas nada disse sobre o ordenamento desse mundo, o qual acabou se mostrando, na prática, bem distante da utopia libertadora. O saldo é de mais de 100 milhões de mortos.

A esperança socialista é vazia e duvidosa, porque se fundamenta num erro crasso: o materialismo. Ela ignora que "o homem permanece sempre homem", que sua "liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal" [9]. Um arranjo econômico hipoteticamente superior não pode alterar essa realidade, já que o ser humano "não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis" [10]. Do mesmo modo, a destruição da estrutura familiar natural, longe de trazer soluções autênticas, só causará mais violência. A experiência dos últimos anos, com tantas famílias em crise, tem provado isso de maneira inequívoca.

Existe, sim, uma realidade chamada pecado. E ignorá-la "dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes" [11]. É no seio da família, marcada pelas virtudes humanas e teologais, que essa tendência ao mal pode ser enfrentada com verdadeira eficácia. A Agenda de Gênero prega justamente o contrário, a pretexto de uma nova ordem mundial, exercida de maneira raivosa e delinquente.

Desmascarando a farsa

Nenhuma outra instituição no mundo fez mais pela dignidade da mulher que a família e a Igreja. Sociólogos sérios, como o agnóstico Rodney Stark e tantos outros escondidos do público pela mídia e por muitas universidades, reconhecem que o cristianismo exerceu um papel fundamental na emancipação da mulher. Isso explica o grande número de conversões femininas, nos primeiros séculos. É significativa esta declaração de Stark:

Em meio às denúncias atuais de que o cristianismo é patriarcal e sexista, facilmente se esquece de que a Igreja primitiva era tão particularmente atraente para mulheres que no ano 370 o imperador Valentiniano emitiu uma ordem escrita ao papa Dâmaso I requerendo que os missionários cristãos parassem de visitar as casas de mulheres pagãs. Embora alguns autores clássicos afirmem que as mulheres eram presa fácil para qualquer 'superstição forânea', muitos reconhecem que o cristianismo era extraordinariamente atraente porque no interior da subcultura cristã as mulheres tinham um status mais elevado do que no mundo greco-romano em geral [12].

O sociólogo explica que esse status elevado da mulher no cristianismo se devia, entre outras coisas, à visão humanista da religião cristã. Com a proibição ao aborto e ao infanticídio, por exemplo, a mulher deixou de ser vista como propriedade do marido, um objeto descartável, para converter-se em uma companheira, pela qual deveria dar a vida, como Cristo deu a vida pela Igreja (cf. Ef 5, 25). É no cristianismo medieval, sobretudo, que surge a figura das grandes rainhas católicas, cheias de virtudes para pastorear a grei. No paganismo, por outro lado, as mulheres eram vistas simplesmente como objetos de prazer do homem, os quais possuíam mesmo o direito de assassiná-las.

É da pena de Santo Tomás de Aquino que provém uma das mais belas apologias da dignidade feminina já vistas. "Era conveniente que a mulher fosse formada da costela do homem", ele escreve, "para significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés" [13].

Fica evidente, por conseguinte, a falsidade da acusação feita por Marx, Michel Foucault e cia. É no paganismo, na libertinagem sexual, na depravação moral que surgem as opressões contra as mulheres, os homossexuais e outros indivíduos — não no cristianismo. E isso por uma razão óbvia: a libertinagem sexual transforma o ser humano em um ser descartável, em uma massinha de modelar. O comportamento violento dos jovens — como vimos na aula sobre a redução da maioridade penal — é resultado direto desse modelo de educação liberal, que os considera animais adestráveis. Um animal se comportará como um animal.

Uma visão distorcida da realidade

"O conceito de gênero", diz a obra, "não se fundamenta em um princípio evolutivo, biológico ou morfológico, e sim em uma construção social". Disto a ensinar às crianças que elas devem "construir a própria identidade de gênero" é um passo.

O principal problema dessa questão é de cunho humanístico. A Teoria de Gênero defende uma visão de pessoa humana profundamente equivocada, segundo a qual o ser humano seria determinado apenas pelo ego e pela vontade. O corpo nada tem a dizer nessa história. Trata-se apenas de um instrumento para a satisfação das vontades. Assim, pode-se admitir todo tipo de "união sexual", desde que exista o desejo e o consentimento para tal. O homem fica reduzido às suas paixões.

Os frutos de uma loucura como essa são colhidos dentro do próprio movimento homossexual, como no caso escandaloso dos clubes do carimbo, que têm espalhado de propósito o vírus do HIV entre os homossexuais. O prazer é a justificativa. Se a lei apóia a libertinagem como um direito inalienável, "nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos" [14].

Acusar a Igreja e a família de fomentarem a violência é de uma insanidade inominável. A castidade que a Igreja pede aos homossexuais é a mesma pedida aos heterossexuais. Não há nada de homofóbico. Norteados pela regra da caridade fraterna, o que a Igreja e a família têm por princípio são estas palavras de São Bento: "Tolerem pacientissimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que é para o outro" [15]. Já está mais do que na cara o que realmente gera a violência contra as mulheres e os homossexuais. Aliás, vale a pena conferir este artigo, publicado recentemente no site, a respeito das origens sexistas e racistas da Teoria de Gênero.

A resposta necessária

O livro Sociologia em movimento, nas mãos de alunos do ensino médio mesmo depois da aprovação do Plano Nacional da Educação sem referência à gênero, é um insulto à Constituição, à verdade dos fatos e ao bom senso. Mais: trata-se de uma ação orquestrada contra a família e a Igreja, que merece nosso imediato repúdio. Os pais devem, com todo o direito, unir-se em associações e pedir a retirada desse material das bibliotecas de nossas escolas, além de verificar as outras apostilas de seus filhos. É bem possível que o ninho da serpente esteja escondido lá. Estejamos atentos.


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Como os primeiros cristãos já veneravam Nossa Senhora
Virgem Maria

Como os primeiros cristãos
já veneravam Nossa Senhora

Como os primeiros cristãos já veneravam Nossa Senhora

Os autores do Novo Testamento dedicam a maior parte de sua atenção a Jesus e seu ministério, não à mãe dele. São óbvias as razões para isso: Jesus é Deus, Maria não. Mesmo assim, encontramos reconhecimento e devoção à mãe de Jesus desde os tempos apostólicos.

Charlie McKinneyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Os autores do Novo Testamento dedicam a maior parte de sua atenção a Jesus e seu ministério, não à mãe dele. São óbvias as razões para isso: Jesus é Deus, Maria não. Se a natureza e a supremacia divinas de Cristo não estivessem clara e solidamente estabelecidas, a devoção à sua mãe não faria sentido; pior, poderia se transformar no tipo de culto a divindades femininas, tão comum no antigo Oriente Próximo.  

O mesmo princípio era verdadeiro para a Igreja antiga. Primeiro, era necessário estabelecer a primazia de Cristo; do contrário, a alegação de que os seus membros formavam o próprio Corpo de Cristo soaria como loucura. Mesmo assim, encontramos reconhecimento e devoção à mãe de Jesus desde os tempos apostólicos [1].

A mais antiga evidência histórica que possuímos da devoção mariana vem das catacumbas. Esses túmulos de cristãos, espalhados por todo o mundo mediterrâneo, dão testemunho da afeição a Maria, da esperança em sua intercessão e da confiança do lugar ocupado por ela no Céu. Já no primeiro século depois de Cristo começou-se a incluir Maria em afrescos nas paredes das catacumbas romanas. Às vezes ela aparece com o seu Filho; em outras ocasiões, aparece sozinha. Imagens comuns incluem Maria como modelo de virgindade e em postura de oração. Também estão nas paredes cenas de Maria na Anunciação e na Natividade.

Um dos afrescos mais importantes encontra-se nas catacumbas de Santa Inês, em Roma. Maria aparece de pé entre São Pedro e São Paulo, com os braços estendidos para ambos. Desde os primórdios do cristianismo, sempre que esses dois apóstolos aparecem juntos, simbolizam a única Igreja de Cristo, uma Igreja de autoridade e evangelização, uma Igreja para judeus e gentios. A posição proeminente de Maria entre os dois ilustra que a Igreja apostólica a enxergava como mãe da Igreja.

As muitas imagens de Maria e a sua presença nas catacumbas também deixam claro que os primeiros cristãos não viam Maria apenas como uma pessoa histórica, mas como uma fonte de proteção e intercessão. O uso simbólico de sua imagem aponta para a realidade do relacionamento que tinham com ela. Como a consideravam mãe da Igreja, entendiam que ela estava associada a todos os cristãos, fazendo o que faria qualquer boa mãe, protegendo-os, ensinando-os e ajudando-os em suas orações.

Cerca de cem anos após a morte de Jesus, os líderes e mestres da Igreja antiga começaram a descrever Maria como “a nova Eva”. O que queriam dizer com isso?

No Gênesis, Adão não pecou sozinho. Sua esposa desobedeceu a Deus antes dele e o tentou, então, à desobediência. O homem perdeu a graça, e o pecado original debilitou a natureza humana por causa do pecado de Adão; Eva, porém, teve um papel instrumental na Queda.

O mesmo acontece na redenção do homem. A possibilidade de recobrar a graça, purificando-se do pecado original, veio pela morte salvífica de Cristo na Cruz, ao pé da qual, no entanto, estava a mulher que tornara possível a morte de Jesus, justamente por ter dado um “sim” à vida dele. Com seu fiat ao anjo Gabriel, Maria, tal como Eva, teve um papel instrumental e secundário na redenção humana.

São Justino Mártir († 165), o primeiro grande defensor da doutrina cristã na Igreja antiga, usou essa metáfora, descrevendo Maria como a “virgem obediente” em contraposição a Eva, a “virgem desobediente”:

[O Filho de Deus] tornou-se homem por meio da Virgem, [para] que a desobediência causada pela serpente pudesse ser destruída da mesma forma que foi originada. Pois Eva, quando era uma virgem incorrupta, concebeu a palavra que procedia da serpente, e criou a desobediência e a morte. Mas a Virgem Maria ficou cheia de fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe deu a boa nova […] e por meio dela Cristo nasceu.

Santo Irineu de Lyon († 202), outro grande defensor da ortodoxia cristã, também escreveu sobre Maria como a nova Eva que participou da obra salvífica de Cristo:

Assim como Eva, esposa de Adão, sendo ainda virgem, tornou-se por sua desobediência causa de morte para si e para toda a espécie humana, assim também Maria, desposada ainda virgem, tornou-se por sua obediência causa de salvação para si e para toda a humanidade […]. Dessa forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, pois aquilo que a virgem Eva atou por sua recusa em crer, desatou-o a Virgem Maria por sua fé. 

Mais tarde, Santo Ambrósio († 397) desenvolveu de modo mais profundo a compreensão cristã sobre a nova Eva:

Foi por meio de um homem e uma mulher que a carne [a humanidade] foi expulsa do Paraíso; foi por meio de uma virgem que a carne foi unida a Deus […]. Eva é chamada mãe da espécie humana, mas Maria foi mãe da salvação.

São Jerônimo († 420) resumiu de forma lapidar esse paralelo, ao escrever: “A morte entrou no mundo por meio de Eva; a vida, por meio de Maria”.

Além dessa compreensão sobre o papel de Maria na história da salvação, os primeiros séculos do cristianismo também nos proporcionam inúmeros exemplos de oração direta a Maria, como meio de intercessão para obter graças e a proteção de seu Filho.

Santo Irineu chamou Maria de “advogada” especial de Eva, que por meio da oração intercede pelo perdão e a salvação de sua antepassada, enquanto São Gregório Taumaturgo († 350) escreveu que Maria está no Céu rezando pelos que estão na terra.

Santo Efrém († 373), um dos maiores pregadores do Oriente, rezou diretamente a Maria em muitos de seus sermões, assim como São Gregório de Nazianzo († 389).

A partir da segunda metade do século IV, são abundantíssimos os exemplos de orações marianas, dos sermões de Santo Ambrósio aos de Santo Epifânio, Padre do oriente. A oração antiga mais completa a Maria remonta, porém, a um período ainda mais antigo: 250 a.C. É chamada de Sub tuum praesidium: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém.”

Os primeiros cristãos sabiam que a mesma mulher que havia ninado o Menino Jesus, que o erguia quando caía e que segurou nos braços o seu corpo crucificado, também podia ajudá-los em suas próprias tribulações espirituais e temporais. Sua confiança e amor por Maria ficou mais do que evidente no ano 431, quando o Concílio de Éfeso — uma reunião oficial dos líderes da Igreja — defendeu formalmente o título de “Mãe de Deus”. Já havia catedrais dedicadas a ela em Roma, Jerusalém e Constantinopla, e depois do Concílio a devoção a Maria floresceu ainda mais no Oriente e no Ocidente. Orações, festas litúrgicas, ícones e pinturas marianas logo se espalharam por todo o mundo cristão. 

O lugar do Filho estava assegurado, sua Igreja estava estabelecida e fortalecida. Agora, as sementes da verdade sobre a sua mãe, sementes prefiguradas no Antigo Testamento, plantadas no Novo Testamento e cultivadas na Igreja antiga, finalmente poderiam frutificar. Nada do que havia surgido poderia diminuir, de modo algum, a verdade e a glória de Cristo. Em vez disso, os frutos da autêntica devoção mariana só poderiam mostrar de forma mais clara e bela as possibilidades oferecidas ao homem pela graça salvífica de Cristo.

Notas

  1. Para um estudo teológico sistemático, documentado e mais profundo dessa matéria, cf. “Tratado de la Madre del Redentor” in: Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. Barcelona: Editorial Herder, 1966, pp. 309-338 (Nota da Equipe CNP).

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“Nudes”: a intimidade que não nos pertence
Sociedade

“Nudes”:
a intimidade que não nos pertence

“Nudes”: a intimidade que não nos pertence

Até pouco tempo atrás, ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo. Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim...

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Há até pouco tempo, quando as pessoas ainda tinham um pingo de juízo (e amor-próprio), havia certo cuidado com a preservação da intimidade. Ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo, por razões óbvias.

Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim, e o que antes era reservado às relações entre quatro paredes agora virou de domínio público. Por exemplo, ninguém mais precisa recorrer a um filme indecente ou comprar revistas “adultas” para satisfazer a curiosidade malsã sobre o corpo alheio. Hoje, tanto as ditas “celebridades” quanto as pessoas comuns aderiram à cultura da nudez (ou dos nudes, como chamam), de modo que é quase impossível navegar pela internet sem deparar, aqui e ali, com algum seio despido ou coisa do gênero.

Os chamados “especialistas” deram a esse tipo de relacionamento o nome de sexting (sex + texting), ou seja, relacionar-se sexualmente por mensagens no celular. Mas, pontificam eles, não são só os parceiros sexuais que trocam fotos íntimas. Também amigos podem se “conhecer melhor”, com a diferença de que o objetivo, nesse caso, seria apenas uma “brincadeira” ou uma piada no meio de uma conversa séria; em outras palavras, um frexting (friend [amigo] + sexting).

Há ainda os que buscam alguma forma de libertação do corpo. Esses julgam que, postando fotos nuas na internet, sem qualquer edição, estão reivindicando respeito às suas formas e quebrando padrões de beleza. Trata-se talvez de uma “Marcha das Vadias” online.

Seja como for, a cultura dos nudes ganhou mais força nestes tempos de pandemia, inclusive com o respaldo de autoridades. A prefeitura de Nova Iorque, entre tantas outras, aconselhou os cidadãos da sua cidade a se masturbarem e procurarem “encontros por vídeo, sexting ou salas de bate-papo”. Para justificar a medida, os especialistas (sempre eles...) a defenderam como uma forma de “aliviar a tensão”, num movimento “natural” da sexualidade humana. Disse uma sexóloga numa entrevista: “A sexualidade é uma fonte de prazer importante para a vida humana e você pode obtê-lo sozinho, não precisa do outro. Num momento como esse, de isolamento, usar as ferramentas de tecnologia para essa busca é comum” (grifos nossos).

O fato é que essa moda tem causado sérias mudanças no comportamento sexual humano. Quando se interessam por alguém, os pretendentes não pensam mais em convidar o outro para sair ou em enviar flores e chocolates. O romance, o cavalheirismo, a delicadeza e a conquista saíram de cena. Afinal, se o que desejam unicamente é sexo, sexo é o que devem mostrar. E, graças à internet, essa relação nem precisa ser real: o que importa é conseguir prazer.

Em princípio, parece estranho que o ato humano que melhor expressa o vínculo de amor entre um homem e uma mulher seja reduzido a uma recreação virtual e egocêntrica. Mas, pensando em termos históricos, essa visão deturpada da sexualidade nada mais é do que a consumação de um movimento iniciado lá atrás, no Renascimento, quando o homem, assustado pela Peste Negra, descobriu no seu corpo um meio de autossatisfação. É o que relata o historiador Roland Mousnier: “A arte toma um caráter novo, o assunto principal é o homem, e no homem o belo corpo humano... Beleza do corpo humano, triunfo do homem em sua radiante força, horror ao sofrimento, à compaixão e à resignação” [1].

O Renascimento foi, em termos culturais, uma retomada da mentalidade pagã, na qual o ser humano é valorizado não pela sua pessoa, como na Idade Média, mas por suas glórias externas. Daí o surgimento da arte pornográfica como fuga das tensões e meio para exaltação do corpo. Com isso, os renascentistas julgavam fazer uma afirmação de si mesmos, colocando-se no centro das atenções, inaugurando uma nova religião: o humanismo. E assim saímos do Decamerão, de Boccaccio, para chegar ao sexting das redes sociais. Mutatis mutandis, o que há de comum entre uma coisa e outra é justamente a busca do prazer e a fuga da dor, ou seja, a valorização do homem pelo que lhe é exterior e, em consequência, o empobrecimento da capacidade humana de amar.

Esses efeitos negativos saltam aos olhos de qualquer um que esteja disposto a enxergar a verdade. Retratamos aqui há pouco tempo como a obsessão pela nudez, em nome de uma suposta arte, já causou estragos terríveis na vida de tantos artistas. “Depois de passar nove horas filmando cenas de sexo, fiquei tremendo, as lágrimas escorriam pelo meu rosto”, declarou Sienna Miller a respeito de sua atuação para o filme A lei da noite, de 2017. Mais recentemente, aliás, a atriz Dakota Johnson e o ator Jamie Dornan, protagonistas do filme Cinquenta tons de cinza, confessaram como era entediante gravar tantas cenas de sexo. Sim, porque nessas cenas, por mais “quentes” que elas pudessem parecer, não havia qualquer sentimento de amor, reciprocidade ou empatia envolvidos. E, sem isso, só resta mesmo o tédio.

O sexo, por si mesmo, para citar uma frase atribuída a Lord Chesterfield, resume-se a isto: “O prazer é momentâneo, a posição é ridícula e as despesas são exorbitantes”. Sem um sentido transcendente, sem os laços espirituais, a sexualidade acaba se convertendo num passatempo que, cedo ou tarde, perderá a graça como qualquer outro joguinho. Portanto, as pessoas podem até aliviar momentaneamente suas tensões com nudes, sextings ou frextings. Mas a única coisa que realmente obterão, no fim das contas, é uma exposição ridícula na internet e uma despesa exorbitante de tédio e frustração na alma.

Não é novidade que esse tipo de prática acabe envolvendo coisas ainda mais grotescas, que vão desde enviar uma imagem indecente para um programa de TV, causando a demissão de um apresentador, à divulgação de nudes não autorizados, seja de famosos, seja de anônimos, seja de menores de idade. O tédio gerado por relações sem amor só consegue produzir mais perversidade.

O problema de fundo é a velha doença da filáucia, o amor doentio de si mesmo, que leva ao desprezo de Deus e à construção da Babilônia. Buscando uma falsa felicidade, procurando aliviar suas tensões, os homens consentem em atos desonestos, tomando como elemento principal de sua natureza justamente os seus corpos e as suas paixões, aquilo que São Paulo chama de homem exterior. “Por onde”, ensina Santo Tomás, “não se conhecendo bem a si mesmos, a si mesmos não se amam verdadeiramente, mas amam-se pelo que se julgam ser” (STh II-II 25, 7). E se os homens se julgam apenas feras de carne e osso, animais selvagens que precisam saciar todos os seus impulsos, então a única coisa que poderão oferecer e receber é o amor de uma fera. Só aceitamos o amor que julgamos merecer.

O corpo (e, consequentemente, a sua sexualidade), por outro lado, é apenas um elemento do “composto” humano. A natureza espiritual é a dimensão mais importante, isto é, o homem interior. Nesse sentido, explica Santo Tomás, “os bons amam-se a si mesmos no concernente ao homem interior, por quererem conservá-lo na sua integridade. E lhe desejam os bens próprios dele, que são os espirituais; e também se esforçam para que os consiga” (loc. cit.). Nessa ordem, o Doutor Angélico esclarece que o corpo humano, porque foi criado por Deus, deve também ser amado com amor de caridade, pondo-o a serviço da virtude, conforme nos manda a Sagrada Escritura: “Oferecei os vossos membros a Deus como instrumento da justiça” (Rm 6, 13).

Mas se essa ordem é invertida, e o corpo se torna o objeto primeiro do amor humano, então, na verdade, não é a si mesmo que o homem ama, mas as suas paixões vergonhosas, que serão alimentadas pelos pecados. E esse amor carnal facilmente o conduzirá à morte, porque, como diz o salmista, “quem ama a iniquidade odeia a sua alma” (Sl 10, 6).

Basta pensar na quantidade imensa de sujeitos que, literalmente, se matam nas academias, enchendo os corpos de anabolizantes, ou em clínicas de cirurgia plástica, donde saem mais deformados que formosos, para vermos como esse ensinamento tradicional da Igreja não tem nada de moralismo ultrapassado. Trata-se, pelo contrário, da mais pura verdade sobre o ser humano.

Quando amamos alguma coisa de verdade e a valorizamos imensamente, quando temos um tesouro, por exemplo, nós costumamos guardá-lo a sete chaves, num cofre bem seguro ao qual só pessoas especiais têm acesso. E mesmo as joias caras, quando estão expostas, requerem todo cuidado, com segurança e iluminação especial. Apenas objetos de pouco valor são expostos em qualquer vitrine, sem nenhuma cerimônia ou deferência, para que qualquer um veja. Por isso, é impossível que da prática dos nudes, sexting, frexting et caterva alguém tire algo de bom para a própria dignidade, para a verdadeira realização de suas almas, porque não há amor ou respeito algum nisso. O que há, na verdade, é um profundo desprezo por Deus e um amor doentio pelo pecado. E o salário do pecado é um só: a morte.

É preciso pensar bem em tudo isso antes de sair por aí trocando nudes. Outro especialista [2] dizia que, no fundo, essa nova moda se deve a “um desejo de ser desejado, amado, confortado em tempos de incerteza e solidão que nos fragiliza e faz sentir mais vulneráveis, inclusive em termos afetivos”. Vemo-nos, portanto, na mesma encruzilhada dos tempos de Santo Agostinho: entre construir a Cidade de Deus, a Jerusalém celeste, ou a cidade dos homens exteriores, Babilônia. Já sabemos que tipo de amor cada uma tem a oferecer. Dependerá da nossa escolha a sorte da civilização pós-pandemia.

Notas

  1. Roland Mousnier. Le XVI et XVII siécles, Historie generale des civilizations. P.U.F., 1954, p. 30 (trad. de Gustavo Corção).
  2. As informações e citações deste artigo foram, em boa parte, retiradas dos jornais El País, G1 e UOL. Por conterem imagens e expressões bastante vulgares, no entanto, preferimos não apresentar diretamente os textos aqui.

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Um bispo no espírito do Concílio de Trento
Santos & Mártires

Um bispo
no espírito do Concílio de Trento

Um bispo no espírito do Concílio de Trento

Bispo modelo segundo as reformas do Concílio de Trento, com os olhos ardentes de fé e o rosto escavado por jejuns, São Carlos Borromeu foi uma resposta viva às teses protestantes sobre a utilidade das obras e o valor indispensável dos sacramentos.

Cristina SiccardiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Legislador, administrador, pastor e asceta, São Carlos Borromeu conduziu várias existências em uma só vida. Há séculos ele tem sido um lustre para a Igreja e uma demonstração do poder que tem um único homem para reerguer a sorte das dioceses, ontem, assim como hoje, tremendamente ameaçadas por erros. As obras deste santo constituem um verdadeiro curso de teologia pastoral, e para tornar acessíveis aos contemporâneos as reformas que ele levou a cabo, bem como para lhe imortalizar a memória, contribuíram fundamentalmente a sua caridade, a sua dedicação e o seu espírito sacerdotal.

A personalidade do arcebispo de Milão — o bispo modelo segundo o espírito do Concílio de Trento, com os olhos ardente de fé e o rosto escavado por jejuns — impôs-se em toda a Europa em questão de pouca décadas, com um vigor hoje difícil de imaginar para personalidades eclesiásticas. Em uma Igreja em ebulição, atormentada pela questão da salvação, o seu zelo apostólico e a sua generosidade representaram uma manifestação excepcional do despertar espiritual e pastoral de uma cristandade dividida pela heresia de Martinho Lutero. O santo foi uma resposta viva às teses protestantes sobre a utilidade das obras e o valor indispensável dos sacramentos e dos ritos litúrgicos.

Nenhum santo na Europa foi objeto de tantos retratos quanto São Carlos Borromeu, antes mesmo de sua canonização, que aconteceria em 1610, sob o pontificado do Papa Paulo V, a apenas 26 anos de sua morte. Inúmeras capelas e igrejas tomaram-lhe o nome.

Filho de Gilberto Borromeu, de nobre família milanesa com vasta propriedade territorial ao redor do Lago Maior, ele era, por parte da mãe, Margherita de Medici, sobrinho do Cardeal de Medici. Nasceu em 2 de outubro de 1538, em Arona. Em 1559, tinha apenas 21 anos quando o seu tio, apenas eleito ao sólio pontifício com o nome de Pio IV, chamou-o a Roma, promovendo-o ao cargo de protonotário apostólico, referendário da Signatura Apostólica, secretário de Estado, membro de várias congregações e administrador da arquidiocese de Milão. O tio ainda o criou cardeal. Graças a todas essas atribuições, ele veio a tornar-se um dos homens mais ricos do Sacro Colégio.

Desde criança Carlos tivera uma educação piedosa e, destinado à carreira eclesiástica, recebeu a tonsura com 8 anos, tornou-se abade aos 12 e continuou os estudos na Universidade de Direito em Pavia. Para apreciar a qualidade do cardeal de 22 anos, deve-se observar a paciência, diplomacia e persistência que empregou para convencer os príncipes e outros prelados da Igreja da necessidade de reabrir o Concílio de Trento, interrompido devido à impopularidade do Papa Paulo IV. Atuando como agente de negociações, estudando todos os detalhes das questões, como era de costume, ele superou os obstáculos levantados pela França e pela Espanha, eliminando-lhes as objeções à convocação do Concílio. 

“Sessão de abertura do Concílio de Trento em 1545”, por Nicolò Dorigati.

Finalmente, em 18 de janeiro de 1562, uma centena de bispos veio reunir-se na cidade de Trento, dando abertura à XVII sessão da assembleia. Carlos Borromeu, permanecendo oculto em Roma, manteve-se informado de todos os avanços nas oito sessões que se seguiram até o fechamento do Concílio, em 3 de dezembro de 1563, intervindo discretamente e organizando tratativas em busca de um justo equilíbrio. O seu senso de dedicação e a sua competência contribuíram de modo determinante para o sucesso das sessões. Foi sobretudo no término do Concílio, todavia, que começou a sua prodigiosa missão: os bispos haviam estabelecido os princípios, mas agora era preciso criar as condições práticas e o quadro institucional em que a reforma havia de ser posta em prática.

Justamente durante o evento verificou-se um fato que mudou drasticamente o curso de sua vida: morreu-lhe o irmão mais velho, Frederico. O luto o pôs diante de uma encruzilhada: deveria continuar a ser quem era ou, assumindo a função de cabeça da família, deixar o hábito eclesiástico? Escreveu a um parente: “Essa perda tem-me feito progredir na graça do Senhor. Esse fato, mais do que qualquer outra coisa, tem-me feito tocar na carne a nossa miséria e a verdadeira felicidade da glória eterna”. Até então ele havia recebido apenas o diaconato, e seu tio poderia muito bem conceder-lhe a dispensa para retornar ao estado secular… Mas ele não só rejeitou esse caminho como tomou a decisão de tornar-se sacerdote.

Preparou-se sob a direção espiritual dos jesuítas, seguindo os Exercícios de Santo Inácio. A ordenação sacerdotal aconteceu em segredo e, em 15 de agosto de 1563, ele celebrou a sua primeira Santa Missa; mais tarde, em 7 de dezembro, foi nomeado bispo de Milão na capela Sistina.

O pensamento da morte, a espiritualidade de Santo Inácio e a direção do padre jesuíta Ribera exerceram uma grande influência sobre ele. Deu início a uma vida de penitência, buscando a perfeição cristã, e estabeleceu laços com São Filipe Néri, com quem compartilhava o zelo reformador. Seu exemplo fez escola: o próprio Papa moderou o padrão da vida da Casa Pontifícia, recomendando modéstia ao próprio séquito. O comportamento de São Carlos suscitava admiração; escreveu, por exemplo, o legado veneziano em 1565: “A todos ele dá um exemplo de tal modo sublime, que com razão se pode dizer que ele sozinho faz mais bem à corte de Roma que todos os decretos tridentinos juntos”.

Uma das primeiras medidas [tomadas por ele] foi a criação de uma comissão encarregada de fundar um seminário romano. Borromeu pediu então aos jesuítas que o enviassem a Milão, onde eles abriram um seminário próprio em 10 de dezembro de 1564, antes mesmo do de Roma. Ocupou-se ele das cerimônias litúrgicas, cujo decoro e respeito aos ritos ele controlava, porque até então, muito frequentemente, o culto divino era tratado com muita desorganização e ignorância. Foram revistos a Bíblia e o Breviário, assim como a composição do Missal, completada sob o pontificado de São Pio V. Surgiu, enfim, a necessidade de redigir um sumário da doutrina cristã, e Carlos Borromeu tomou parte na elaboração do Catecismo, publicado em 1566.

Entrou em Milão como arcebispo em 23 de setembro de 1565. Mas na noite entre os dias 8 e 9 de dezembro estava ele novamente em Roma a fim de assistir o Papa moribundo. As portas do conclave fecharam-se em 19 de dezembro e, em 7 de janeiro, os cardeais escolheram como sucessor de Pio IV um defensor da reforma tridentina, o Cardeal Ghislieri, que tomou o nome de Pio V.

Em Milão, por vinte anos, sob os pontificados de São Pio V e de Gregório XIII, desenvolveu um imenso trabalho de reorganização, renovação e santificação, dando ele mesmo o exemplo, submetendo-se a penitências severas e elevando em virtude o padrão de vida do episcopado. “De muito pouco serviria emanar decretos de reforma se, depois, nós mesmos não os observássemos”, escreveu ao duque de Mântua.

“São Carlos Borromeu”, por Orazio Borgianni.

A diocese de Milão contava com 740 paróquias, quase 200 conventos e mosteiros e cerca de 3.350 padres para uma população de 560 mil pessoas. Há 80 anos não havia bispo residente na diocese (que se estendia para muito além da zona de Milão, chegando até Verona e os três vales suíços do cantão do Ticino), e a degradação doutrinal e moral era evidente. Justamente por essa razão, São Carlos levou a cabo suas infatigáveis visitas pastorais, visitando as paróquias e reorganizando toda a administração da província eclesiástica. Criou ao mesmo tempo um imenso arquivo, onde recolheu todas as informações possíveis, divididas por assunto, sobre as paróquias e seus sacerdotes. Um preciosíssimo trabalho de estatística eclesiástica, completamente novo até então, que devia ser continuamente atualizado; a boa ordem dos registros paroquiais, ademais, era mantida sob controle. As reuniões dos conselhos provinciais e dos sínodos diocesanos eram assaz úteis ao arcebispo, a fim de que seguisse de perto o bom andamento do plano de reforma. O conjunto de todas essas medidas foi recolhido nos Acta Ecclesiae Mediolanensis (“Atas da Igreja de Milão”).

Todo esse trabalho pelo Reino de Deus na terra é combatido por aqueles eclesiásticos e religiosos que não querem a santidade na Igreja. O clima se agita a tal ponto que, em 26 de outubro de 1569, enquanto São Carlos prega em sua capela, disparam contra ele com um arcabuz, perfurando-lhe o roquete e a sotaina, relíquias hoje conservadas na Catedral de Bordeaux. Mas a bala não o atinge. O autor do atentado é um tal de Farina, pertencente aos humiliati, religiosos que, depois de terem recebido a ordem de respeitar as reformas e levar uma vida mais virtuosa, tentaram assassiná-lo. 

Durante as suas viagens pastorais São Carlos consagra igrejas, estuda a fundação de um seminário ou de uma Ordem religiosa, verifica a competência e a moralidade dos padres, examina os catecismos e, para uso dos párocos, publica a “Instrução para a pregação da palavra de Deus”, um tratado no qual vêm definidos os deveres dos pastores e os meios disponíveis para cumprir melhor essa missão; depois põe em circulação a “Admonição para os confessores”.

A fundação e a organização de seminários tornou-se pedra fundante da restauração católica. Como o primeiro seminário foi o dos jesuítas, a maioria dos seminaristas escolhia o hábito da Companhia de Jesus. Para remediar o problema, o arcebispo tratou de fundar os Oblatos de Santo Ambrósio, uma congregação de sacerdotes diocesanos que viviam em comunidade e à qual ele confiou, a partir de 1578, o encargo de administrar os seminários e dedicar-se, sob a sua guia, ao cuidado das almas.

Também foram preocupação sua a educação e a assistência ao próximo. Mas esse homem de ação era, ainda, homem de profunda contemplação. Era capaz de meditar por oito horas seguidas, durante a noite, sobre um tema determinado. Recitava o Breviário com os joelhos sobre o chão duro e dormia apenas quatro ou cinco horas sobre um velho palete. Era proverbial a frugalidade de suas refeições: desde 1571, nutria-se tão-somente uma vez ao dia com pão, água e um pouco de verduras. No seu quarto só havia o palete para dormir e uma poltrona, sem nem uma lareira sequer. Seus amigos, os médicos e o próprio Papa se preocupavam com a negligência que ele demonstrava por sua saúde.

São Carlos tinha muita devoção a Jesus na Eucaristia, que ele demonstrava em plenitude durante a adoração ao Santíssimo Sacramento e a solene celebração de Corpus Christi. Era também um homem apaixonado pela Paixão de Nosso Senhor. Recomendava aos sacerdotes e bispos a prática dos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, tornando-a obrigatória aos seus ordenandos; e aos padres impôs a prática cotidiana do exame de consciência.

Fervor, piedade, abnegação intensa. Ele organizava orações públicas e procissões e encorajava as peregrinações e visitas à Basílica. Foram memoráveis suas peregrinações para venerar o Santo Sudário em Turim, e a Roma, por ocasião do Jubileu de 1575. Impressionante a quantidade de energia que despendeu durante a peste de Milão, que explodiu no outono de 1576. Por um momento, havia o temor de que até o arcebispo permanecesse contagiado pela doença, mas ele se recuperou e prosseguiu o trabalho percorrendo sem descanso as ruas da cidade e de toda a região.

Três semanas antes de morrer, a um frade capuchinho que lhe suplicava que cuidasse de sua saúde, respondeu: “Para iluminar os outros uma candeia deve se consumir”. Em 2 de novembro de 1584, regressando de uma peregrinação a Turim, ele parou em Ascona, no cantão do Ticino (Suíça), onde queria abrir um seminário; mas foi assaltado por uma febre, retornou a Arona e daí, moribundo, foi transportado a Milão. Veio a falecer entre os dias 2 e 3 de novembro, aos 46 anos de idade.

A Igreja da Contrarreforma deve muito a São Carlos Borromeu. Para todas as dioceses da Europa, os Acta Ecclesiae Mediolanensis representaram um monumento da tradição pastoral e um modelo a ser imitado. O santo Cardeal Roberto Belarmino recomendou a leitura da vida de São Carlos Borromeu, e Bossuet e São Vicente de Paulo serviram-se em suas homilias dos tratados e argumentações dele. São Francisco de Sales foi influenciado pelo método de São Carlos e, além disso, tinha o hábito de fazer ler à mesa as histórias de sua vida, publicadas pelo Venerável Carlo Maria Bascapé em 1602. Com o Papa Pio IV, pode-se verdadeiramente afirmar que o arcebispo Carlos de Milão “transformou o episcopado europeu”.

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O dia em que Mozart quase foi excomungado pela Igreja
Testemunhos

O dia em que Mozart
quase foi excomungado pela Igreja

O dia em que Mozart quase foi excomungado pela Igreja

O Miserere de Allegri era guardado a sete chaves pela Igreja e seu segredo era protegido com a excomunhão. Mas o jovem Mozart, em passagem por Roma, ouviu a música uma única vez e transcreveu de cor toda a composição…

Massimo ScapinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Há 250 anos, numa Quarta-feira Santa, 11 de abril, quando a Cidade Eterna recebia grande número de peregrinos e visitantes, atraídos pela liturgia papal da Semana Santa e da Páscoa, Wolfgang Amadeus Mozart, o gênio musical, então com quatorze anos, chegou a Roma acompanhado de seu pai, Leopoldo, um músico competente. 

O jovem Amadè — como chamava a si mesmo — realizaria três viagens à Itália entre 1769 e 1773, atingindo o ponto culminante do Grand Tour europeu, que nos séculos XVIII e XIX era quase obrigatório para a educação e a formação de um “cavalheiro”. 

A “maravilha daquela época” era particularmente o Miserere de Gregorio Allegri (1584–1652), a famosa composição em nove partes e dois coros, composta pelo músico e sacerdote romano com base no texto do Salmo 50, em que o penitente lamenta seus pecados e implora a misericórdia divina:

Segundo Giuseppe Gioachino Belli (1791–1863), o grande poeta do dialeto romano, todos os ingleses que se hospedavam no hotel de Londres, na Piazza di Spagna, só conseguiam falar do prazer de escutar o Miserere na Basílica de São Pedro sem o acompanhamento de instrumentos. De fato, Belli se pergunta: na Grã-Bretanha e em todas as outras igrejas no estrangeiro, quem pode dizer, como em Roma, naquelas três noites de Quarta, Quinta e Sexta-feira Santas: Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam? O poeta recorda que, naquele dia, eles permaneceram no magnam por uma hora e cantavam daquele jeito — bebendo “como vinho puro o sangue das uvas” (Dt 32, 14), pois magnam é uma palavra apaixonante. Primeiro um músico a pronunciava, logo dois, três e então quatro; por fim, todo o coro cantava junto: misericordiam tuam.

Em carta à esposa datada de 14 de abril de 1770, dia em que ele e o filho chegaram a Roma, Leopoldo diz o seguinte:

Chegamos aqui em segurança no dia 11. Eu poderia ter sido facilmente persuadido a voltar para Salzburgo em vez de vir a Roma, pois a viagem de Florença a Roma durou cinco dias e foi feita sob uma terrível chuva com ventos frios. Ouvi dizer que em Roma tem chovido constantemente nos últimos quatro meses, e com certeza sentimos isso na pele quando fomos até a Capela Sistina para escutar o Miserere na quarta e na quinta [sic]. Inicialmente, o tempo estava bom, mas no caminho de volta para casa fomos atingidos por um aguaceiro tão intenso que jamais os nossos casacos haviam ficado tão ensopados como naquela ocasião [...]. Em Roma, fala-se com frequência do famoso Miserere, levado em tão alta conta que os músicos da capela são proibidos (sob pena de excomunhão) de levar consigo um único trecho da partitura, muito menos de copiá-lo ou passá-lo a outra pessoa. Porém, nós já o temos. Wolfgang já o copiou, e se não fosse necessária a nossa presença para executá-lo, nós o teríamos enviado a Salzburgo junto com esta carta. O modo de executá-lo deve desempenhar um papel mais importante do que a obra em si; portanto, nós o levaremos para casa. Por ser parte de um dos segredos de Roma, não queremos que ele caia nas mãos erradas, ut non incurramus mediate vel immediate in censuram Ecclesiæ [para que não incorramos, mediata ou imediatamente, na censura da Igreja]. Já exploramos a Basílica de São Pedro, e tenho certeza de que não deixaremos de ver nenhum lugar importante. Se Deus quiser, amanhã ouviremos o sermão de Sua Santidade.

O que aconteceu? Apesar do tempo chuvoso, pai e filho chegaram a Roma pelo norte, passando a Porta del Popolo e indo até um edifício localizado onde hoje se encontra a Piazza Nicosia, como desde 1996 nos recorda uma placa: “Wolfgang Amadeus Mozart / na casa que outrora existiu aqui… registrou o Miserere de Allegri”. Durante a tarde, pai e filho conseguiram escutar o Miserere de Allegri, cantado pelo coro da Capela Sistina e regido por Giuseppe Santi Santarelli, maestro pro tempore em 1770.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791).

Composto em 1638, o Miserere era executado duas vezes por ano, durante o Ofício das Trevas, que hoje é chamado de Ofício das Leituras da Quinta-feira e do Sábado Santos (na Sexta-feira Santa cantava-se o Miserere de Felice Anerio ou o de Sante Naldini), depois das Vésperas do dia anterior — isto é, depois do pôr do sol da Quarta-feira e da Sexta-feira Santas — exclusivamente na Capela Sistina no Vaticano. Bem, Mozart, então um jovem adolescente, decorou e transcreveu a composição logo após chegar em casa. Tendo retornado para escutá-la na Sexta-feira Santa, levou em segredo a transcrição e a corrigiu durante a apresentação. 

Por esse “furto” musical e por seus outros méritos artísticos, o jovem compositor não somente evitaria a excomunhão, mas seria feito cavaleiro da Ordem do Esporão Dourado pelo Papa Clemente XIV, para honrar “te, quem in suavissimo cymbali sonitu a prima adolescentia tua excellentem esse intelleximus — a ti, cuja excelência no suavíssimo som do cravo reconhecemos desde a tua mais tenra infância”, como se pode ler no Motu proprio de 4 de julho de 1770 [1].

É fato que Wolfgang Amadè Mozart, “da bela terra onde o si ressoa” [2], compôs pouca, mas escutou muita música sacra. “O milagre que Deus fez nascer em Salzburgo” — era assim que Leopoldo apresentava o filho aos italianos e, por meio deles, ao mundo inteiro — conheceu o milagre da polifonia sacra, na qual várias vozes se seguem umas às outras, entrelaçam-se harmonias, calam-se os instrumentos e ecoam as abóbadas de basílicas. Durante muito tempo, o gênio de Salzburgo preservaria a memória da polifonia e a lição aprendida com ela, a ponto de ter escrito em 4 de setembro de 1776 ao Pe. Martini (1706–1787), famoso teórico e músico bolonhês, além de seu maestro durante a temporada na Itália: “Nossa música de igreja é um tanto diferente da que é feita na Itália [...]. É necessário um estudo específico desse tipo de composição” [3].

Referências

  1. A. Cametti, Mozart A. Roma, em: Rivista d’Italia, Roma, abril de 1907.
  2. Dante, Inferno XXXIII, 80.
  3. The Letters of Wolfgang Amadeus Mozart, 1769-1791, New York, Philadelphia, F. Leypoldt, 1866, p. 54.

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