Uma coisa que eu aprendi a questionar, ao modo de Sócrates, nos chamados ateus, agnósticos e céticos que abundam na internet estes dias, é que o cristianismo rejeitado por eles não é nenhum cristianismo que eu reconheceria como meu, mas sim um falso cristianismo, formado por eles mesmos e a partir de preconceitos. Em pouco tempo de conversa fica claro que raramente algum deles chegou a ler Agostinho, Tomás de Aquino ou C. S. Lewis, ou tirou tempo para estudar (quanto mais entender) a Bíblia. O que logo se percebe, de fato, é que eles pouco ou nada sabem de verdadeiro sobre a fonte da maior parte do que são a Verdade, o Bem e a Beleza na civilização ocidental.

Por isso, em sua maioria, essas pessoas devem ser tratadas não como adultos sustentando crenças bem ponderadas, mas antes como adolescentes rebeldes. Tudo o que elas realmente sabem é que querem ser livres para fazer o que quiserem.

Diferentemente do que alguém seria tentado a imaginar, essas pessoas com quem eu frequentemente me encontro não são nem um pouco ignorantes e sem instrução. Muitas delas são o produto de universidades de excelência, onde elas aprenderam a desprezar o cristianismo, os Estados Unidos, a civilização ocidental e qualquer um, enfim, que não compartilhe com eles desse ódio. É preciso odiar essas coisas e quaisquer pessoas que as defendam, porque seriam responsáveis, estas últimas, pela “opressão” que impede os “oprimidos” de conseguir o que eles desejam, seja lá o que for.

A justificativa que se apresenta a essa recusa de aceitar qualquer ordem ou autoridade para além de si mesmo é, agora, o absurdo recorrente de que “todo o mundo tem sua própria verdade”. Que cada um tendo sua própria verdade seja uma impossibilidade lógica não parece ser um problema. A ausência de razão, de maneira geral, não parece ser um problema para essas pessoas. Ao invés, a razão subordina-se à autonomia individual, ao triunfo da vontade livre e desimpedida.

A aparente disposição de prescindir até mesmo do senso comum, se este inibir o que alguém decide querer, frequentemente põe às claras essa tragicomédia, como na prática cada vez mais comum de decidir que somos nós, não Deus, quem nos fazemos homem e mulher. Essa busca por autonomia atingirá o seu fim lógico quando alguns começarem a se arrogar o papel de “criadores de si próprios ex nihilo”. A ideia pode soar absurda, mas não é, se você estiver prestando atenção.

“A Liberdade guiando o povo”, de Eugène Delacroix.

O triunfo da vontade, da autonomia individual sobre a verdade e a razão, é o mais proeminente fruto do Iluminismo. A ideia era sermos livres das amarras da tradição e da religião, a fim de seguirmos a razão. Mas a própria razão, juntamente com a natureza humana, tem sido vista por muitos como um obstáculo a mais à liberdade. A realidade mesma tornou-se um obstáculo.

A escolha entre razão e cristianismo sempre foi entendida como uma falsa escolha, pelo menos por quem já leu os Padres da Igreja, mas o Iluminismo nunca foi, na verdade, sobre “iluminar” as pessoas no fim das contas. Tratava-se, em sua raiz, de libertar o homem de Deus. Torna-se “iluminado” quem aceita a mentira de que o homem não precisa de Deus, de que ele pode salvar a si mesmo de qualquer coisa que o aflija. Essa é a filosofia sob a qual muitos no Ocidente vivem nos dias de hoje. Se Deus existe ou não está fora de questão; Deus é simplesmente desnecessário. O problema para esses rebeldes, que cada vez mais ascendem ao poder, é o que fazer com alguém que ouse discordar deles. Problema cada vez maior, também, para aqueles que discordam.

Grande parte do caos e do absurdo que nós vemos hoje à nossa volta pode ser diretamente associado a essa busca da liberdade por si mesma, sem nenhum limite no que é verdadeiro, no que é bom e no que é belo. Às vezes é difícil enxergar isso porque os rebeldes aprenderam habilmente a chamar de bom, verdadeiro e belo ao que eles querem que seja assim; e mais habilmente ainda aprenderam eles a conseguir isso que querem. Que o que eles geralmente queiram seja ruim, falso e feio, salta aos olhos e faz tremer.

Nossa civilização talvez não sobreviva ao triunfo da vontade livre e desimpedida, nem aos meios totalitários que estão se tornando cada vez mais necessários para firmá-la. Uma sociedade de pessoas devotadas tão-somente à liberdade de serem livres não é um conjunto de cidadãos, mas um bando de malfeitores. Entre os pilares de nossa civilização está o reconhecimento — que se encontra em Platão, na Bíblia e em muitos outros lugares — de que só a verdade pode nos tornar verdadeiramente livres. “Libertar-se”, portanto, da verdade não trará verdadeira liberdade a ninguém; só a falsa liberdade que vem acompanhada sempre por desordem, tirania e morte.