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Judas e Pilatos merecem a nossa simpatia?
Doutrina

Judas e Pilatos
merecem a nossa simpatia?

Judas e Pilatos merecem a nossa simpatia?

A história e a teologia desde sempre os retrataram como vilões. Mas o roteiro da Paixão de Cristo já não estava escrito? Judas Iscariotes e Pôncio Pilatos foram ou não culpados pela morte de Jesus?

Mons. Charles Pope,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Abril de 2018
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Exultando de júbilo pascal, não foi sem hesitação que pensei em tratar aqui destas duas figuras instrumentais para a Paixão e Morte de Nosso Senhor: Judas Iscariotes e Pôncio Pilatos.

Frequentemente recebo perguntas e leio comentários a respeito dos dois que demonstram erros fundamentais de raciocínio moral. Hoje em dia muitos procuram ou exonerá-los do papel que tiveram na crucifixão de Jesus, ou chegam mesmo a simpatizar com eles, citando o que vêem como evidência escusatória dos atos que praticaram.

Uma abordagem é a de ver Judas e Pilatos como simples fantoches de um teatro escrito por Deus: eles estariam fazendo apenas o que tinham de fazer. Uma visão assim rouba de ambos os homens a sua dignidade como agentes morais livres e responsáveis por suas ações (coisa que está no próprio coração do ser humano), além de transformar Deus em um tipo de monstro ou manipulador, que força as pessoas a fazerem coisas más, como se fosse lícito fazer o mal para dele tirar um bem. Se Judas, Pilatos e outros foram forçados por Deus a desempenhar um papel predestinado, então Deus seria um malfeitor, porque teria querido o mal para daí resultar o bem.

Nada disso é aceitável, pois envolve um raciocínio moral absolutamente inválido e viola a verdade teológica, apresentando Deus como um agente do mal moral. O fato de Deus permitir o mal e poder dele tirar o bem não significa que Ele queira o mal ou que Ele force outros a cometê-lo. Essa é uma noção gravemente ofensiva de Deus, que é Bondade, Verdade e Amor.

A respeito de Judas, é verdade que sua traição foi profetizada na Escritura:

  • Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar.” (Sl 41, 10)
  • “Eu disse-lhes: Dai-me o meu salário, se o julgais bem, ou então retende-o! Eles pagaram-me apenas trinta moedas de prata pelo meu salário. O Senhor disse-me: Lança esse dinheiro no tesouro, esta bela soma, na qual estimaram os teus serviços. Tomei as trinta moedas de prata e lancei-as no tesouro da casa do Senhor.” (Zc 11, 12-13)
  • “Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Ele era um dos nossos e teve parte no nosso ministério. Este homem adquirira um campo com o salário de seu crime. Depois, tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. (Tornou-se este fato conhecido dos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado na língua deles Hacéldama, isto é, Campo de Sangue.) Pois está escrito no livro dos Salmos: Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite; e ainda mais: Que outro receba o seu cargo.” (At 1, 16-20)
  • “Ele jogou então no templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se. Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram: Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de sangue. Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros. Esta é a razão por que aquele terreno é chamado, ainda hoje, Campo de Sangue. Assim se cumpriu a profecia do profeta Jeremias: Eles receberam trinta moedas de prata, preço daquele cujo valor foi estimado pelos filhos de Israel; e deram-no pelo campo do Oleiro, como o Senhor me havia prescrito.” (Mt 27, 5-10)
Judas e Jesus, em “A Paixão de Cristo”.

Também está atestado na Escritura que Jesus bem sabia ser Judas quem O haveria de trair:

  • “Desde o princípio Jesus sabia quais eram os que não criam e quem o havia de trair. […] Jesus acrescentou: Não vos escolhi eu todos os doze? Contudo, um de vós é um demônio!… Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, porque era quem o havia de entregar não obstante ser um dos Doze.” (Jo 6, 64; 70-71)
  • “Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou abertamente: Em verdade, em verdade vos digo: um de vós me há de trair!… Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber de quem falava. Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava à mesa reclinado ao peito de Jesus. Simão Pedro acenou-lhe para dizer-lhe: Dize-nos, de quem é que ele fala. Reclinando-se este mesmo discípulo sobre o peito de Jesus, interrogou-o: Senhor, quem é? Jesus respondeu: É aquele a quem eu der o pão embebido. Em seguida, molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele. Jesus disse-lhe, então: O que queres fazer, faze-o depressa.” (Jo 13, 21-27)
  • “Conservei os que me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura.” (Jo 17, 12)

Nada disso significa, no entanto, como muitos incorretamente supõem, que a presciência das ações de Judas obrigou-o a praticá-las. Posso observar uma pessoa e ver o que ela está inevitavelmente prestes a fazer, mas o meu conhecimento de certo plano de ação que ela tem não a força a segui-lo e tampouco lhe rouba a própria liberdade.

Assim, que alguém esteja “predestinado” a fazer algo não significa que esteja obrigado a tanto. Deus, que tem diante dos olhos toda a história humana, sabia o que Judas livremente faria e dispôs em sua providência também o que viria depois. O traidor em momento algum perdeu a qualidade de agente moral livre. Ele próprio fala de sua responsabilidade no Evangelho: “Pequei, entregando o sangue de um justo” (Mt 27, 4).

O que dizer, então, do “arrependimento” de Judas? Ele percebeu a maldade do que havia feito e entregou de volta o dinheiro que recebera. Não significa isso que ele se arrependeu? Não mereceria ele, portanto, a nossa compaixão?

Isso põe em evidência outro erro comum em nossa época. Muitas pessoas reduzem a contrição a um “sentir-se mal” por haver pecado ou feito alguma coisa. Mas a contrição verdadeira é mais do que um sentimento. Ela envolve um propósito firme de emenda. Para Judas, emendar-se teria significado voltar-se para o Senhor e procurar a sua misericórdia. O traidor, porém, como nos narra a história sagrada, não se volta para o Senhor; ao contrário, volta-se para si mesmo e, decidindo não poder conviver com aquele rancor ou remorso, suicida-se. Esse comportamento é bem diferente do que teve Pedro ao arrepender-se e procurar o Senhor, recebendo seu perdão à beira do mar da Galiléia.

Por isso, a ideia de que Judas foi forçado a fazer o que fez e/ou de que se arrependeu adequadamente de suas más ações deve ser vista como o que é: um erro. Ela não se baseia em um raciocínio moral sólido nem está em conformidade com noções teológicas corretas.

Além disso, a opinião relativamente bem difundida de que Judas possa estar no Céu deve ser encarada como otimista demais. Ainda que a Igreja não declare que ninguém em particular tenha ido para o Inferno, é importante recordar o que Jesus disse a respeito de Judas: “O Filho do Homem vai, como dele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!” (Mt 26, 24) É difícil imaginar Jesus falando isso de uma pessoa que tenha chegado ao Céu no final da vida.

O julgamento bíblico mais provável sobre Judas é de que ele morreu no pecado, desesperando da misericórdia de Deus. Cada um é livre para especular um destino diferente, mas as previsões dos “otimistas” geralmente carecem de fundamento sólido. Afinal de contas, nunca se ouviu alguém contar a história do arrependimento de Judas ou de seu resgate por Jesus. Nunca se viu uma igreja dedicada a “São Judas, o Penitente” nem uma festa em honra à “Conversão de Judas, Apóstolo”.

Infelizmente, Judas seguiu o próprio caminho, e fê-lo de maneira livre. Deus não o forçou a atuar neste sentido. Sendo onisciente, Ele simplesmente sabia o que Judas faria de antemão e, providente como é, levou a cabo os seus planos a partir do livre-arbítrio do traidor.

Pôncio Pilatos e sua esposa, em “A Paixão de Cristo”.

Pôncio Pilatos também é uma personagem que granjeia muita simpatia nos dias de hoje: “Pobre Pilatos! Ele realmente queria libertar Jesus, mas a multidão furiosa forçou o governador a crucificá-lo. E Jesus também não ajudou muito, permanecendo em silêncio durante seu julgamento.”

Mais raciocínios morais inválidos, que diminuem o homem e ignoram que ele é um agente moral capaz de agir heroicamente em obediência à verdade. Ainda que o medo possa limitar nossa liberdade consciente e em algum grau a nossa culpabilidade, não devemos nos esquecer da virtude da fortaleza, que nos habilita a fazer o que é certo mesmo em face da mais terrível dificuldade.

Pilatos não foi algum tipo de figura sem futuro, empurrada sem preparação alguma para o palco da história. Ele era um governador local com o poder do exército romano à sua disposição. Ainda que fosse apresentado como um homem pusilânime, tentando aplacar ao mesmo tempo a multidão e a própria consciência, um raciocínio moral adequado exigia que ele seguisse a voz, não do povo, mas da consciência.

Pilatos sabia que Jesus era inocente das acusações levantadas contra Ele. O governador havia cuidadosamente interrogado o réu e sabia que as acusações contra Ele não tinham fundamento: Jesus não representava ameaça alguma ao poder de Roma. A Escritura apresenta a consciência de Pilatos claríssima quanto a isso. No entanto, ele a violou e fez o que sabia ser errado e injusto. E o fez para proteger a própria carreira. Como muitos de nós, Pilatos teve de tomar uma decisão quanto a Jesus — e fracassou, tomando a decisão errada. Ao invés de se posicionar a favor de Jesus, pela justiça e pela verdade, Pilatos sentou-se no trono, no trono do julgamento, e condenou um homem inocente à morte.

Nenhum de nós é o juiz final de Pilatos. Esse papel pertence a Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele sabe se o medo de Pilatos podia, e até que ponto, ser desculpado.

Ainda que não possamos julgar o lugar final de Pilatos no Céu ou no Inferno, tampouco podemos renunciar a importantes princípios morais que nos chamam a tomar partido pela verdade, seja qual for o preço a pagar. Ninguém deve violar a própria consciência para escolher o que é mais fácil ou conveniente. Não podemos fazer o que é errado só porque a verdade pode nos custar alguma coisa — e geralmente ela custa!

Ao fim e ao cabo, cada um de nós tem uma decisão a tomar diante de Jesus. Permaneceremos com Ele até o martírio ou daremos ouvidos ao que a “multidão” disser? Crucificaremos Jesus para salvar nossa pele ou O invocaremos para permitir que Ele nos salve de acordo com seus desígnios?

Sim, Pilatos e Judas têm ganhado bastante simpatia nos últimos tempos. A simpatia tem um papel importante na compreensão de assuntos humanos, mas ela não pode eclipsar em nós princípios morais sólidos nem distorcer nosso entendimento de Deus e da pessoa humana. Somos agentes morais livres, e isso põe em relevo nossa dignidade e nossa responsabilidade.

Roubar do homem a própria dignidade, desviscerar princípios e distorcer raciocínios morais, transformar Deus em um malfeitor, tudo isso mostra o lado ruim de uma “simpatia” desorientada. Trata-se de um problema que, hoje, se estende para muito além das noções equivocadas sobre Judas e Pilatos. Substituir a verdade pela simpatia é uma tendência perniciosa da nossa época.

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Bispos reunidos em Assembleia deixam mensagem ao povo de Deus
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Bispos reunidos em Assembleia
deixam mensagem ao povo de Deus

Bispos reunidos em Assembleia deixam mensagem ao povo de Deus

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se pronuncia a respeito de “politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB”.

Site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil19 de Abril de 2018
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O cardeal Sergio da Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) falou aos jornalistas reunidos na Coletiva de Imprensa da 56.ª Assembleia Geral da entidade, na tarde do dia 19 de abril, e pediu a dom Murilo Krieger, vice-presidente, que lesse a mensagem da conferência ao povo de Deus.

O documento registra a comunhão do episcopado brasileiro com o papa Francisco e destaca a necessidade de promover o diálogo respeitoso para estimular a comunhão na fé em tempo de politização e polarizações nas redes sociais.

A mensagem retoma a natureza e a missão da entidade na sociedade brasileira.

Confira, na sequência, a íntegra do documento que será enviado à todas as 277 circunscrições eclesiásticas do Brasil, incluindo arquidioceses, dioceses, prelazias, entre outras.


Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao povo de Deus

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo.” (1Jo 1, 3)

Em comunhão com o Papa Francisco, nós, Bispos membros da CNBB, reunidos na 56.ª Assembleia Geral, em Aparecida-SP, agradecemos a Deus pelos 65 anos da CNBB, dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira. Convidamos os membros de nossas comunidades e todas as pessoas de boa vontade a se associarem à reflexão que fazemos sobre nossa missão e assumirem conosco o compromisso de percorrer este caminho de comunhão e serviço.

Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB. Queremos promover o diálogo respeitoso, que estimule e faça crescer a nossa comunhão na fé, pois só permanecendo unidos em Cristo podemos experimentar a alegria de ser discípulos missionários.

A Igreja fundada por Cristo é mistério de comunhão: “povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25), assim devemos amá-la e por ela nos doar. Por isso, não é possível compreender a Igreja simplesmente a partir de categorias sociológicas, políticas e ideológicas, pois ela é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo.

Nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro; isso nos constitui um colégio a serviço da Igreja (cf. Christus Dominus, 3). O nosso afeto colegial se concretiza também nas Conferências Episcopais, expressão da catolicidade e unidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 23, atribui o surgimento das Conferências à Divina Providência e, no decreto Christus Dominus, 37, determina que sejam estabelecidas em todos os países em que está presente a Igreja.

Em sua missão evangelizadora, a CNBB vem servindo à sociedade brasileira, pautando sua atuação pelo Evangelho e pelo Magistério, particularmente pela Doutrina Social da Igreja. “A fé age pela caridade” (Gl 5, 6); por isso, a Igreja, a partir de Jesus Cristo, que revela o mistério do homem, promove o humanismo integral e solidário em defesa da vida, desde a concepção até o fim natural. Igualmente, a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência. O Papa Bento XVI afirmou que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. É a partir de Jesus Cristo que a Igreja se dedica aos pobres e marginalizados, pois neles ela toca a própria carne sofredora de Cristo, como exorta o Papa Francisco.

A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101).

Ao assumir posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, a CNBB o faz por exigência do Evangelho. A Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Isso nos compromete profeticamente. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada. Se, por este motivo, formos perseguidos, nos configuraremos a Jesus Cristo, vivendo a bem-aventurança da perseguição (Mt 5, 11).

A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos.

Neste Ano Nacional do Laicato, conclamamos todos os fiéis a viverem a integralidade da fé, na comunhão eclesial, construindo uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus. Para isso, a liberdade de expressão e o diálogo responsável são indispensáveis. Devem, porém, ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor “para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo” (LG 37). “Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor” (Papa Francisco, Mensagem para o 52.º dia Mundial das Comunicações de 2018).

Deste Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos, por sua materna intercessão, abundantes bênçãos divinas sobre todos.

Aparecida-SP, 19 de abril de 2018.

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

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Posso dar um nome ao meu anjo da guarda?
Espiritualidade

Posso dar um nome
ao meu anjo da guarda?

Posso dar um nome ao meu anjo da guarda?

Anjos têm nome? Posso tentar descobrir o nome do meu anjo da guarda, ou mesmo dar a ele um nome próprio de minha preferência?

Gretchen Filz,  Get FedTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2018
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Um dos ensinamentos mais belos e consoladores de nossa Igreja Católica é que cada um de nós possui um anjo da guarda, dado por Deus a nós a fim de nos conduzir pelo caminho da salvação. “Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida” [1], ensina São Basílio Magno.

Anjos são espíritos puros. Eles têm inteligência e vontade, e operam de vários modos especiais a fim de nos guiar, influenciar e proteger. Não é apenas permitido, mas também muito bom e louvável que aprendamos a invocar nossos anjos guardiões e a reconhecer suas inspirações.

Existem, no entanto, alguns perigos a evitar em nosso relacionamento para com eles. Um erro particularmente persistente entre muitos católicos é o de tentar descobrir o nome ou a identidade de seus anjos da guarda, ou até mesmo dar-lhes um nome qualquer. Trata-se de uma prática compreensível, pois, quando seres humanos se relacionam, saber o nome um do outro constitui um primeiro passo indispensável. Contudo, uma distinção deve ser feita a esse respeito: entre si, os seres humanos são iguais, mas esse não é o caso entre nós e os poderosos membros da corte celeste.

Tentar descobrir o nome, ou dar um nome, ao nosso anjo da guarda, é uma má ideia por três razões principais.

Em primeiro lugar, Deus criou uma multidão de anjos, mais do que somos capazes de imaginar. E, no entanto, ele deu aos seres humanos, nas Sagradas Escrituras, os nomes de apenas três deles: São Gabriel, São Miguel e São Rafael. Como isso é tudo o que Deus quis nos revelar a respeito da identidade de anjos específicos, não devemos tentar descobrir os nomes de outros anjos. Esse conhecimento está além de nossa condição, e procurá-lo seria não só um ato de irreverência, mas também nos faria cair no vício da curiosidade.

A Bíblia possui relatos de seres humanos tentando sondar os nomes dos anjos, sem êxito algum. No livro do Gênesis, por exemplo, o patriarca Jacó não conseguiu descobrir o nome da criatura misteriosa que lutou com ele no deserto. “Jacó lhe pediu: ‘Dize-me, por favor, teu nome’. Mas ele respondeu: ‘Para que perguntas por meu nome?’” (Gn 32, 30).

Quando um anjo apareceu à mãe de Sansão, no livro dos Juízes, ela disse a seu esposo: “Veio me visitar um homem de Deus, cujo aspecto era terrível como o de um anjo do Senhor. Não lhe perguntei de onde vinha, nem ele me revelou o seu nome. Ele disse-me: ‘Ficarás grávida e darás à luz um filho’” (Jz 13, 6-7). Quando o anjo retornou, o pai de Sansão, chamado Manué, “perguntou-lhe: ‘Qual é teu nome, para que possamos te honrar quando tua palavra se cumprir?’ E o anjo do Senhor lhe disse: ‘Por que perguntas o meu nome? Ele é maravilhoso!” (Jz 13, 16-18).

Em segundo lugar, o ato de dar nomes é bastante significativo. Nomear uma coisa significa reivindicar autoridade sobre ela. No jardim do Éden, o Senhor concedeu a Adão domínio sobre todos os animais e, como um exercício dessa autoridade, Adão deu a todos os animais um nome que lhes fosse apropriado. Entretanto, Deus só trouxe a Adão as criaturas que estavam abaixo dos seres humanos na hierarquia da Criação (ou no mesmo nível, no caso de Eva). Deus não levou a Adão criaturas superiores aos homens, como são os anjos, puros espíritos.

“O Anjo da Guarda”, de Bernardo Strozzi.

Por isso, não cabe a nós dar nomes ou descobrir os nomes de criaturas que estão acima de nós. Conhecer o nome de um anjo é descobrir muito mais a respeito da sua identidade do que quando sabemos o nome de um ser humano. Porque os anjos são espíritos puros, conhecer-lhes o nome significa conhecer-lhes a essência, o próprio núcleo do seu ser e o propósito para o qual foram criados. Esse conhecimento está reservado somente a Deus e a quem Ele o quis revelar no Céu.

Em terceiro lugar, ao tentarmos descobrir o nome de nosso anjo da guarda, podemos acabar procurando por sinais de que nosso anjo está tentando nos responder com um nome específico. Nessa tentativa, nós poderíamos confundir muitas coisas como sendo “sinais”, sem que o sejam de fato, e terminaríamos apenas por nos iludir a nós mesmos.

Mais do que isso: assim como estamos na companhia dos anjos, também estamos na companhia de demônios. Se um deles vê que estamos tentando descobrir o nome de nosso anjo da guarda, e sabe o tipo de coisas que tomaremos por sinais (porque os anjos decaídos são mestres na arte de enganar), eles podem se disfarçar como anjos de luz e mandar-nos falsos sinais. Se observam que estamos seguindo seus enganos, eles nos podem nos levar para bem longe. É essa a razão por que muitos santos revelavam a seus diretores espirituais todos os fatos sobrenaturais que lhes ocorriam, para servir de proteção contra ilusões demoníacas.

Existe ainda uma última razão para não brincarmos com nomes de anjos: a Igreja desaconselha essa prática. De acordo com o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, “é de se rechaçar o costume de dar aos anjos nomes particulares, com exceção de Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem nas Escrituras” [2].

Em síntese, uma vez que a humanidade se encontra hierarquicamente abaixo dos anjos, não devemos arrogar-nos um lugar superior, tentando nomear ou descobrir o nome dos anjos que nos foram designados como guardiões. A Igreja desencoraja essa prática para nossa própria proteção. Assim como as nada aconselháveis tentativas de se comunicar inapropriadamente com o mundo dos espíritos, fazer isso pode nos tornar vulneráveis à ação demoníaca, a qual Deus pode permitir a fim de nos ensinar uma lição de humildade.

Fica claro, por todas essas razões, que não é de nossa alçada saber sobre os anjos mais do que nos foi revelado por Deus. Basta-nos o fato de que os temos sempre bem próximos a nós — só uma oração a distância. Procure diariamente, portanto, a guia do seu anjo da guarda, aprenda a amá-lo e a obedecer-lhe… mas não tente descobrir o nome que ele tem, para o seu próprio bem.

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Seja professor!
Padre Paulo Ricardo

Seja professor!

Seja professor!

Relembre conosco esta mensagem do Padre Paulo Ricardo a todos os nossos alunos e aprenda o que realmente significa ser “discípulo missionário” em nosso mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2018
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A razão de ser de nosso apostolado é bastante simples: todo cristão, imitando a seu divino Mestre, está chamado a fazer tudo o que fez Jesus Cristo em sua vida pública: Ele percorria “cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade” (Mt 9, 35).

Pregar e fazer o bem. Eis aqui vocação de todos nós e, portanto, a finalidade do site do Padre Paulo Ricardo. E você, se ainda não faz parte da nossa família, pode nos ajudar (e muito!) a cumprir a parte que nos cabe dessa missão que o Senhor confiou a quantos o seguem: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28, 19).

O apostolado cristão, que se impõe hoje em dia com ainda mais necessidade, só dará frutos duradouros se estivermos unidos e empenhados, como família e filhos de um mesmo Pai, a conhecer a nossa fé e a difundi-la nos meios em que Ele nos colocou.

É por isso que nós queremos tê-lo ao nosso lado, para que juntos, somando forças, levemos a luz da doutrina católica a um mundo do qual se apodera cada vez mais aquele paganismo que, em outros tempos, fiéis como você e eu ajudaram a dissipar.

Além do imenso material disponibilizado gratuitamente, como homilias diárias, aulas ao vivo e muitos outros programas, temos um extenso catálogo de conteúdos exclusivos, pensados com todo o cuidado para você aprofundar seus conhecimentos sobre a fé da Igreja e assim, bem formado e preparado, tornar-se efetivamente “fermento no meio da massa”.

Sejamos o que o Senhor nos chamou a ser: sal da terra e luz do mundo!

Caso tenha alguma dúvida ou dificuldade para fazer a sua inscrição, entre em contato conosco ou pelo endereço de e-mail: suporte@padrepauloricardo.org, ou pelo telefone: (43) 3027-4136.

Agradecemos desde já a sua generosidade e contamos com suas orações.

Que Deus o abençoe sempre e a Virgem Santíssima, Rainha dos Apóstolos, o proteja sob o seu manto.

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O filme religioso mais inesperado de 2018
Família

O filme religioso
mais inesperado de 2018

O filme religioso mais inesperado de 2018

Quem assistir ao suspense “Um lugar silencioso” irá se surpreender com um filme religioso, que apresenta o silêncio, a simplicidade, a oração e o cuidado recíproco como meios para afugentar os “monstros” de nossa época.

Dom Robert Barron,  Catholic World ReportTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Abril de 2018
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Fui assistir a “Um lugar silencioso” (A Quiet Place), o novo suspense do diretor John Krasinski, sem absolutamente nenhuma expectativa de encontrar temas teológicos ou espirituais. Tudo o que eu queria era uma noite de lazer no cinema.

Mas que maravilha quando um filme nos surpreende! Eu não sei se serei capaz de encontrar o fio de ouro que liga todos esses temas e os transforma em uma mensagem coerente, mas só uma pessoa muito cega para não perceber as inúmeras ideias religiosas desse filme cativante. (As linhas a seguir contêm revelações sobre o enredo do filme.)

O bispo norte-americano Robert Barron, autor desta crítica.

A estrutura básica da narrativa é apresentada em traços simples e rápidos. Uma praga terrível de criaturas ferozes e famintas desceu sobre a terra. De onde são os monstros? Do espaço sideral, talvez? Isso não se sabe — o que torna a história ainda mais interessante. As poucas pessoas que sobreviveram ao holocausto aprenderam que as criaturas em questão, mesmo sendo cegas, possuem uma audição extraordinariamente aguçada. Por isso, a chave para a sobrevivência está no silêncio.

Nossa atenção se volta para a família Abbot, dois jovens pais e três crianças pequenas, percorrendo silenciosamente seu caminho em meio a um território aberto, cheio de beleza, mas ao mesmo tempo muito perigoso. Quando o filho caçula acende um foguete de brinquedo, fazendo com que um barulho rompa o silêncio, uma das criaturas o devora pouco antes de que seu pai aterrorizado possa salvá-lo.

O filme avança vários meses mais tarde, com os Abbots (inglês para “abade”: coincidência?) conduzindo suas vidas de um modo que só se pode qualificar de monástico: nenhuma conversa além de sussurros, linguagem elaborada de sinais, trabalho silencioso com livros e nos campos, oração em silêncio mas notavelmente fervorosa antes do jantar etc. (Devo confessar que esse último gesto, tão ausente dos filmes e da televisão hoje em dia, pegou-me de surpresa.) Dadas as terríveis exigências do momento, qualquer entretenimento eletrônico, com aparelhos e máquinas, ou ferramentas que façam barulho, estão fora de questão. A agricultura deles é manual, a pescaria se faz com aparatos nada modernos, e até o caminhar é feito a pés descalços.

Mas, coisa admirável de se contemplar, nessa atmosfera orante, silenciosa e cheia de dificuldades, mesmo com a ameaça de morte sempre à espreita, o que floresce é uma família generosa e sacrificada. Os pais dão cuidado e proteção a seus filhos, e o irmão e a irmã sobreviventes são solícitos tanto um para com o outro quanto em relação a seus pais. A jovem garota chega regularmente a arriscar a própria vida para prestar tributo silencioso a seu irmão falecido no lugar em que ele foi morto.

Monstros e criaturas animalescas nos filmes de terror mais reflexivos evocam aquelas coisas que mais nos amedrontam: doença, fracasso, nossa própria maldade e também a morte. É admirável ver um filme de Hollywood sugerindo a necessidade, para afugentar a escuridão em nosso tempo, do silêncio, da simplicidade, do retorno à terra, da oração e do cuidado recíproco.

O drama central de “Um lugar silencioso” é o fato de a senhora Abbott estar esperando um filho. A família inteira se dá conta, é claro, que naquelas circunstâncias uma criança chorando significaria morte certa para todos eles. Mesmo assim, eles decidem não matar o filho quando ele nasce, mas sim escondê-lo e emudecer seus choros de várias formas.

Quando tantos em nossa cultura desejam matar os próprios filhos por razões as mais banais, quando a lei em muitos lugares concede ampla proteção até aos abortos com nascimento parcial, quando pessoas dizem tranquilamente que jamais colocariam um filho em um mundo tão terrível, a família monástica desse filme acolhe a vida, mesmo vivendo no pior dos mundos, mesmo quando tal atitude representa para eles um perigo supremo.

Quando o bebê se encontra prestes a nascer, a mãe se vê sozinha (assista ao filme para saber os detalhes) e na mais vulnerável das situações, pois uma das criaturas acaba de invadir a casa da família. Assim que ela entra em trabalho de parto, o monstro faminto fica à espreita. Imediatamente me veio à mente a cena no livro do Apocalipse, quando a Virgem Maria sofre dores do parto, enquanto o dragão espera pacientemente para devorar-lhe o filho (cf. Ap 12, 2ss).

Enquanto a “abadessa” se esforça para dar à luz, o “abade” sai à procura de seus filhos em perigo e, no fim, se depara com os dois presos em um carro abandonado, com um dos monstros arranhando a cobertura para pegá-los, como o Tiranossaurus Rex em “Jurassic Park”. Depois de dizer através de sinais: “Eu amo você, eu sempre amei você” a sua filha, emocionada através da janela do carro, o pai dá um grito, trazendo o monstro para si mesmo.

Esse ato de amor que se esvazia de si próprio, e que serve para livrar seus filhos do perigo, é uma bela alusão às especulações dos Padres da Igreja a respeito da morte de Jesus, o qual, em seu ato de auto-sacrifício na cruz, atraiu os poderes das trevas para o campo aberto, afastando-os da humanidade, que permanecia sob seu domínio. Em linhas semelhantes, em um trabalho ímpar de enredo (ou Providência) comparável à eficácia do sacrifício de Cristo, fica claro, após a morte do pai, que ele havia deixado para sua família os meios através dos quais os monstros podiam ser derrotados.

Eu realmente não faço ideia se todas ou algumas dessas ideias estavam na mente do diretor, mas sei, pela página de John Krasinski no Wikipédia, que ele é filho de pais católicos, um polonês e uma irlandesa, e que foi criado como praticante devoto de sua fé. Por isso, até que se demonstre definitivamente o contrário, eu mantenho que “Um lugar silencioso” é o filme religioso mais inesperado de 2018.

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