CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?
Sociedade

Os nossos direitos
ou os de Deus primeiro?

Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?

Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender? É o que queremos explicar, neste texto, aos católicos do Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
imprimir

Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender?

A quem ainda não está acompanhando toda a querela judicial em torno do filme blasfemo, remetemos nossos leitores às duas matérias que já produzimos a esse respeito: a primeira lançando um olhar mais espiritual sobre o caso e a segunda analisando o problema da “liberdade de expressão” (que discutiremos mais a fundo aqui). 

Um resumo do caso

Ministro Dias Toffoli.

Para resumir a história, desde o final do ano passado, prevaleceu a decisão de primeira instância que negara o pedido feito pelo Centro Dom Bosco de retirar da Netflix a referida produção cinematográfica. O caso sofreu, porém, uma reviravolta nesta semana: em segunda instância, o desembargador Benedicto Abicair, da 6.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, acolheu o recurso dos católicos e, antes mesmo de analisar o mérito da questão, determinou que o serviço de streaming retirasse do ar, ao menos provisoriamente, o filme em questão. 

Mas a decisão teve curto prazo, pois na noite mesmo de ontem, 9 de janeiro, o ministro Toffoli voltou à decisão inicial da Justiça. O argumento do magistrado é de que o Supremo já firmara entendimento sobre “a plenitude do exercício da liberdade de expressão como decorrência imanente da dignidade da pessoa humana” e como “meio de reafirmação/potencialização de outras liberdades constitucionais”. Toffoli foi além e disse que, quanto ao respeito à fé cristã, “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã, cuja existência retrocede há (sic) mais de 2 mil anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros”.

Desse último argumento falaremos mais adiante. Por ora, voltemos à questão inicial. Por que essa postura, vinda do órgão mais importante do Poder Judiciário, era esperada? Por que é que, dados os pressupostos políticos e jurídicos sob os quais vivemos, infelizmente não se poderia esperar uma atitude diferente do Estado brasileiro? 

Católicos “liberais”

Por um motivo muito simples: vivemos em um Estado liberal. (Esqueçam neste texto a associação desse termo com a economia. Não é de liberdade econômica que queremos falar, mas de liberdade de expressão, no sentido mais amplo do termo.) A ideia por trás é esta exposta por Toffoli: se não pudermos nos expressar livremente, não podemos ser plenamente humanos, não somos “gente completa”. 

Mas é evidente que essa liberdade não é nem pode ser irrestrita, mesmo numa sociedade como a nossa. Assim (embora saibamos que as novelas globais já desceram bastante o nível nos últimos anos), ninguém defenderá (nem os ministros do Supremo) que exibir um filme pornográfico em horário nobre, na TV aberta, seja simples consequência da “plenitude do exercício da liberdade de expressão”. E ninguém o fará porque toda liberdade precisa de limites, sob o risco de ferirmos, por exemplo, a inocência da infância e da juventude (mais do que ela já está ferida, e justamente por conta de uma liberdade mal entendida). 

A pergunta é que limites a sociedade brasileira (e, representando-a, as autoridades civis) está disposta a colocar à tal liberdade de expressão. O que se deduz não só da fala do ministro Toffoli, mas da posição de muitíssimos cristãos católicos é que a ofensa ao cristianismo, o ultraje às verdades da fé, a blasfêmia, em suma, não seriam uma razão justa para tanto. A opinião preponderante é: “Não precisamos concordar com a ‘brincadeira’ do Porta dos Fundos, mas, também, quem não quiser assistir a ela, que não assista, não precisamos ‘censurar’ as pessoas só porque não concordam conosco etc. etc.” A filosofia de muitos católicos batizados, nesse sentido, é não a do Magistério da Igreja, mas a da Revolução Francesa: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.”

Os que pensam assim terão de nos desculpar, mas esse não é o sentir da Igreja Católica, nunca foi e jamais poderá ser. (O autor da frase acima, a propósito, Voltaire, era inimigo declarado de Cristo e da sua Igreja.) Não é verdade que todos são livres para dizer o que bem entenderem e, de nossa parte, seria necessário tolerar o achincalhe à fé cristã, a zombaria de tudo o que temos por mais sagrado… e, ainda por cima, em silêncio e de braços cruzados. 

Muitas vezes, nós só aceitamos essa leniência e consequente mordaça porque já fomos seduzidos pelo grande erro de nossa época: o de que tanto faz a questão religiosa e, portanto, Deus é adorado igualmente tanto no terreiro de macumba quanto na paróquia da minha casa; o de que cada pessoa tem a “sua” verdade, então que cada um viva a sua, ninguém incomode ninguém e está tudo certo. Ou seja, o mal que precisa ser primeiro denunciado e extirpado de nossos corações e famílias chama-se relativismo. Se Jesus Cristo é Deus e nós, católicos, cremos nisso verdadeiramente, se nós gastamos tempo transmitindo essa verdade aos nossos filhos, como podemos ficar indiferentes a produções que o retratam como um beberrão dissoluto? Como pode a nossa fé na divindade de Cristo conviver com a negligência diante das ofensas a essa verdade?

Não, se Jesus Cristo é Deus, Ele tem o direito de ser respeitado.

Agora, se Ele é apenas mais um fundador de religião, como Maomé, como Buda, como Confúcio, então todas as religiões merecem o mesmo respeito (e, consequentemente, o mesmo desprezo). Chesterton dizia que “de um católico espera-se que respeite todas as religiões exceto a sua”. Muito bem, respeitar todas as religiões não dá problema para ninguém, se todas são falsas (falamos disso em nosso primeiro texto a respeito do pecado de blasfêmia). O problema é quando, na ânsia de ofender todos os deuses, você termina ofendendo o único que existe, o único que é verdadeiramente, o único que pode realmente reagir e nos punir por esse desprezo. O problema é quando a Verdade vem nos pedir contas... de como gastamos nossa liberdade.

Mas nós realmente cremos? Cremos de fato que a blasfêmia, a irreverência, a exposição ao ridículo de Deus (como fizeram os algozes de Cristo e como fizeram os “porteiros dos fundos”) são uma ofensa à Verdade e, como tal, não têm o direito de existir, nem de ser veiculadas e exibidas ao público? Cremos, em suma, que os direitos de Deus estão acima dos nossos?

Não, nós não cremos. Porque somos relativistas liberais, preferimos a liberdade à verdade. E é por isso que nossas crianças estão sendo corrompidas tão cedo; é por isso que nossos jovens não conseguem mais discernir o que é bom e o que é mau; é por isso que nossos adultos sofrem com uma “crise de sentido” tremenda e avassaladora. Porque fomos ensinados a ser livres, mas sem conhecer antes a linha que separa o solo firme do precipício

Somos “campeões em liberdade”, ninguém pode negar, fazemos o que bem entendemos e dane-se o que pensam ou deixam de pensar os outros. Mas também somos prostitutos e beberrões, drogados e desbocados, cruéis e mentirosos… Com a diferença de que, nisso, somos escravos, terrivelmente escravos. Escravos porque estamos presos nesse modo de vida, não sabemos (nem fomos ensinados) a levar a vida de outro modo, a vida inteira fomos vítimas da “liberdade de expressão” desta geração perversa e da falta de vigilância dos pobres dos nossos pais.

Por isso, será mesmo verdade que um vídeo besta não tem poder de influência sobre uma geração? O ministro Dias Toffoli diz que “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar os valores da fé cristã”. A premissa do jurista está certa, de fato, mas a conclusão está errada. Está certa a premissa porque, com base na promessa de Nosso Senhor, se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (cf. Mt 16, 18), muito menos a Porta dos Fundos! Mas a conclusão está errada porque, se o filme em questão não pode “abalar os valores da fé cristã” em absoluto, ele pode, sim, abalá-los nas crianças, nos jovens, enfim, em todas as pessoas que lhe deram, dão e darão audiência. Não é só Deus que se ofende com a blasfêmia que lhe fazem (como se fosse pouco); também os homens, criados à sua imagem e semelhança, sofrem terrivelmente, nesta e na outra vida, com o pecado com que colaboram.

Alguma sugestão sobre o que fazer? 

Mas o que fazer quando é a própria Constituição que parece dar aval à liberdade sem limites dos zombadores? 

Bom, comece-se pelo fato de que, seja qual for o culto que os juristas brasileiros têm prestado à Constituição Federal, eles mesmos são os primeiros a torcê-la e retorcê-la para os seus próprios propósitos, tão logo surja a primeira oportunidade. Foi assim que, por obra dos mesmos ministros do STF, a família natural foi transformada no arranjo que se lhe queira dar (por unanimidade) e as crianças com anencefalia foram consideradas indignas de viver (por maioria de votos). Para os que estão no poder, formados num modo marxista e, portanto, liberal de pensar, a verdade não existe; tudo não passa de um jogo de interesses. Quem tem a toga dita as regras do jogo.

Portanto, se tivéssemos bons juristas, com um bom Direito na mente, trabalhando nos órgãos máximos da Justiça, facilmente teríamos uma solução muito melhor e mais adequada ao problema em questão. No fundo, com uma concepção jurídica verdadeira, que levasse em conta o Direito Natural, muitíssima coisa que pensamos ser inevitável poderia tranquilamente ser revertida.

Mas, enquanto isso não acontece, o que nos resta é, primeiro, confiar nossa causa à Justiça divina (a única que não falha); e, segundo, fomentar um verdadeiro movimento cultural a fim de que as pessoas recebam uma formação jurídica íntegra e os católicos que exercem esse mister honrem de fato a tradição religiosa a que pertencem (um estudo das encíclicas sociais do Papa Leão XIII, especialmente a Libertas, seria um ótimo começo): afinal, será preciso muito mais do que uma ação judicial para vencer a cultura da morte e a difusão da blasfêmia. Sim, porque, no “maior país católico do mundo”, certamente há advogados, promotores e juízes católicos… Mas, se eles existem, por que é que não fazem nada ou, pior, até reagem negativamente aos que fazem alguma coisa?

Porque, assim como a separação moderna e laicista entre Estado e Igreja, nossos católicos separam sua vida privada e suas funções públicas, sua fé e seu trabalho, seus direitos e os de Deus, sua liberdade e a verdade na qual dizem crer.

Enquanto isso acontecer, enquanto continuarmos na ilusão de que podemos servir ao mesmo tempo a Jesus Cristo e à Revolução Francesa, ao Deus uno e trino e à “deusa liberdade”, a blasfêmia, a indecência e tudo o que advém de uma liberdade desenfreada se tornará, pouco a pouco, o pão que comemos todas as manhãs. E então, por não termos defendido os direitos de Deus, os católicos terminaremos confinados às sacristias e sem direitos, exceto um: o de ficarmos calados.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio
Espiritualidade

Coronavírus: uma ocasião
para redescobrir o poder do silêncio

Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio

Será um grande passo sairmos desse momento difícil tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso.

Stephen KokxTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Por mais estranho que possa parecer, uma das primeiras coisas que fiz depois de abraçar o catolicismo tradicional seis anos atrás, aos 27 anos, foi desligar o rádio do meu carro.

Até então, sempre que eu entrava no meu carro, eu ouvia os últimos lançamentos musicais do pop, do rock clássico ou do rap. A verdadeira questão não era se o rádio ou o CD player seriam ligados. A questão era simplesmente em que volume eu os colocaria.

Quando cheguei a uma compreensão mais profunda da fé católica  — graças, em parte, aos escritos de Santo Afonso —, fiquei menos atraído pelo mundo e por aquilo que ele considera como música.

As canções às quais eu recorria a fim de passar pelos altos e baixos da vida não tinham mais o mesmo significado. Passei a vê-las como nada mais do que formas cativantes de poluição sonora que, ao serem ouvidas, mesmo que por acaso, infelizmente acabavam permanecendo em minha mente pelas próximas 48 horas.

Então, eu abracei o silêncio. Quando dirigia, desligava o rádio e rezava, muitas vezes o Rosário. Nos momentos em que ouvia algo, era música clássica ou canto gregoriano.

Essa atitude exerceu um enorme impacto sobre a minha vida espiritual. Minha mente libertou-se da obsessão de conhecer os mais recentes artistas da indústria da música e suas canções entorpecentes. Passei lentamente de uma perspectiva naturalista da vida para uma mais sobrenatural que, acredito, permitiu que a graça fosse mais facilmente derramada em minha alma.

Suspeito que o surto de coronavírus esteja dando a milhões de pessoas a chance de experimentar algo semelhante ao que passei seis longos anos atrás.

Em todo o mundo, eventos esportivos foram cancelados. As salas de cinema estão fechadas. Bares, restaurantes e cassinos foram fechados. Os “entretenimentos” que prendiam as pessoas ao longo do dia de repente lhes foram tomados. Suas distrações, em outras palavras, foram reduzidas ao mínimo, e as coisas que, por muitos anos, lhes trouxeram uma falsa sensação de conforto não são mais capazes de consolá-las.

Que grande dádiva! Deus concedeu à humanidade a chance de apreciar o mundo como ele é, aproveitando a beleza do silêncio, em oposição ao que o Cardeal Robert Sarah chamou de “a ditadura do barulho”.

É também uma ocasião para milhões de almas perceberem que as muitas coisas às quais elas estão apegadas são, na realidade, armadilhas sem sentido que, muitas vezes, desviam sua atenção das coisas que realmente importam — sua fé, sua família e seus amigos.

Esse tipo de circunstância não ocorre com muita frequência. Na prática, para levar as pessoas a pensar na mudança das próprias vidas como o coronavírus as está forçando a fazer, seriam necessários milhões de missionários cristãos viajando para todos os cantos do mundo.

Infelizmente, eu aposto que, quando o surto terminar, nem todas as pessoas perceberão que muitas coisas que elas “amam” não passam, na verdade, de vícios sem sentido. Muitas simplesmente permanecerão relutantes, ou serão incapazes de libertar-se da vida cheia de distrações que estavam vivendo. “Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras” (Pr 26, 11).

Seria um grande passo se saíssemos disso tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso. O mais provável é que apenas olhem para trás e vejam este momento como um incômodo que toleraram contra a própria vontade, e não como uma ocasião que tiveram de abraçar com alegria a penitência que foram forçados a suportar, e de oferecê-la pela salvação das almas.

Seja como for, minha esperança é de que as pessoas em geral desliguem os rádios dos seus carros (e seus aparelhos de televisão), e se envolvam com atividades de lazer e hobbies que lhes preparem melhor a alma para receber a graça que o Deus todo-poderoso tanto deseja derramar em seus corações. Ler, cozinhar, pintar, caminhar, andar de bicicleta, escrever e cuidar do próprio jardim são, na minha opinião, os melhores lugares por onde começar.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa
Liturgia

Mesmo sem fiéis, os padres
não só podem como devem rezar a Missa

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa

Rejeitar a Missa sem o povo é rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta, mas ela continua sendo real e eficaz, seja qual for o número dos presentes: mil, vinte ou nenhum.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)27 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Num artigo intitulado Private Mass does not fit with a contemporary understanding of Eucharist [lit., “Missa privada não combina com o entendimento contemporâneo sobre a Eucaristia”] (publicado primeiro em alemão no portal katholisch.de), três velhos e cansados “liturgistas” de Bonn, Erfurt e Münster bradam de suas “cátedras” acadêmicas contra a celebração da Missa sem a presença dos fiéis.

Esses acadêmicos não têm nada melhor a fazer senão tentar conservar o que consideram como “vitórias” do período pós-conciliar, quando a Missa, em vez de ser tratada como a renovação do sacrifício do Calvário e fonte de graça, foi reinterpretada como um evento social horizontal não muito diferente de uma assembleia protestante. O valor inerente do oferecimento diário, pelo padre, da Vítima perfeitamente agradável, para proveito espiritual dele e de toda a Igreja, foi minimizado em favor das concelebrações; e, em muitas ocasiões, os sacerdotes adquiriram o hábito de dizer a Missa apenas em caso de celebração pública.

Essa noção reducionista da Missa jamais foi pensada pela Santa Igreja Católica, e tampouco é pensada por ela hoje.

Quando tais erros começaram a aparecer depois do Concílio, o Papa Paulo VI os condenou com firmeza na encíclica Mysterium Fidei, de 1965. Ele afirmou: “Não é lícito, só para aduzirmos um exemplo, exaltar a Missa chamada ‘comunitária’, a ponto de se tirar a sua importância à Missa privada” (n. 11). Mais adiante no documento, ele fala sobre a “natureza pública e social de toda e qualquer Missa”:

Toda a Missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é ação privada, mas ação de Cristo e da Igreja. Esta, no sacrifício que oferece, aprende a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, e aplica, pela salvação do mundo inteiro, a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz. Na realidade qualquer Missa celebrada oferece-se não apenas pela salvação de alguns mas pela salvação do mundo inteiro. Donde se conclui: se muito convém que à celebração da Missa, quase por sua natureza, participe ativamente grande número de fiéis, não se deve condenar, mas sim aprovar, a Missa que um sacerdote, por justa causa e segundo as prescrições e tradições legítimas da Santa Igreja, reza privadamente, embora haja apenas um acólito para ajudar e responder; de tal Missa deriva grande abundância de graças particulares, para bem tanto do sacerdote, como do povo fiel e de toda a Igreja, e mesmo do mundo inteiro; graças estas, que não se obtêm em igual medida só por meio da Sagrada Comunhão (n. 32).

Rejeitar a Missa sem a presença dos fiéis não é nada mais nada menos que rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Não se trata de ter presente este ou aquele grupo de pessoas, mas de levar o mundo e todos os fiéis de volta ao Pai por meio de Jesus Cristo. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta —  é bom para eles —, mas ela continua sendo objetivamente real e eficaz independentemente do número de fiéis presentes (mil, vinte ou nenhum).

Também estamos nos esquecendo, porventura, de que a Missa é oferecida na presença dos santos anjos e em comunhão com os santos da Igreja triunfante, honrados com tanta frequência na liturgia e particularmente na Oração Eucarística? Um sacerdote “sozinho” em sua capela nunca está realmente sozinho; ele está sempre na companhia dos eleitos de Deus, “lutando não contra homens de carne e sangue, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal” (Ef 6, 12). Naturalmente, essa perspectiva cósmica — a mesma presente na Sacrosanctum Concilium e na tradição católica como um todo — depende da fé viva naquilo que o olho humano não é capaz de enxergar. Os progressistas alemães parecem reduzir tudo ao que pode ser visto e assim demonstram não ter fé no mundo invisível, que é muito mais real do que o mundo físico que nos circunda.

Além da referida encíclica de Paulo VI, encontramos incentivo à celebração da Missa de forma privada no atual Código de Direito Canônico (cf. cân. 902, 904 e 906), bem como em outros documentos do Magistério pós-conciliar. Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, por exemplo, João Paulo II ensina o seguinte:

Se a Eucaristia é centro e vértice da vida da Igreja, é-o igualmente do ministério sacerdotal. Por isso, com espírito repleto de gratidão a Jesus Cristo nosso Senhor, volto a afirmar que a Eucaristia é a principal e central razão de ser do sacramento do Sacerdócio, que nasceu efetivamente no momento da instituição da Eucaristia e juntamente com ela... Compreende-se, assim, quão importante seja para a sua vida espiritual, e depois para o bem da Igreja e do mundo, que o sacerdote ponha em prática a recomendação conciliar de celebrar diariamente a Eucaristia, porque, “mesmo que não possa ter a presença dos fiéis, é ato de Cristo e da Igreja” (Concílio Vaticano II, Presbyterorum Ordinis, 13). Deste modo, ele será capaz de vencer toda a dispersão ao longo do dia, encontrando no sacrifício eucarístico, verdadeiro centro da sua vida e do seu ministério, a energia espiritual necessária para enfrentar as diversas tarefas pastorais. Assim, os seus dias tornar-se-ão verdadeiramente eucarísticos (n. 31).

Bento XVI diz o mesmo em sua exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (2007):

A forma eucarística da existência cristã manifesta-se, sem dúvida, de modo particular no estado de vida sacerdotal. A espiritualidade sacerdotal é intrinsecamente eucarística... Uma vida espiritual intensa permitir-lhe-á entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e ajudá-lo-á a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias mesmo difíceis e obscuras. Para isso, juntamente com os padres do Sínodo, recomendo aos sacerdotes a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação (n. 80).

A Instrução Geral do Missal Romano, que rege as celebrações na Forma Ordinária, apresenta rubricas para a celebração da Santa Missa quando apenas um ministro está presente (n. 252-272) e para a celebração da Santa Missa sem a participação de um ministro (n. 254). O mesmo ocorre com as rubricas que regem a celebração da Forma Extraordinária. Disposições tão consistentes, feitas ao longo de séculos (antes e depois do Concílio Vaticano II, até o presente), não fariam sentido se esse cenário não fosse antevisto como uma prática necessária e louvável em determinadas situações. Evidentemente, não se trata de um abuso nem de uma ideia “fora de moda”, se nossos professores me permitem dizê-lo.

A oração de nosso Sumo e eterno Sacerdote é a mais santa e poderosa de todas, e a Missa é a sua oração salvífica e a sua oblação com aroma suave, oferecida pelas mãos de um ministro ordenado para o bem dos vivos e dos mortos e para a sua própria santificação. Se o sacerdote não for santo — se não buscar assiduamente a conformidade com Cristo Sumo Sacerdote —, o seu ministério será cada vez mais vazio, superficial e infrutífero. Isso não traz nenhum benefício para o povo de Deus.

Em épocas de perigo e dificuldade, os fiéis e seus ministros necessitam ainda mais da graça de Deus para que os apoie e os fortaleça. Privar a Igreja de um bem tão imenso quanto uma única Santa Missa, ou encorajar os sacerdotes a se privarem dela em qualquer dia, é sinal não de uma atitude sábia, mas de uma fé fraca, da renúncia ao sobrenatural, de uma caridade morna; é o mesmo que depositar a esperança neste mundo e em suas “soluções”. Independentemente de quais sejam os seus méritos, as soluções do mundo não são definitivas e não nos podem trazer a ajuda divina de que necessitamos.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Dez conselhos de uma monja para tempos de confinamento
Espiritualidade

Dez conselhos de uma monja
para tempos de confinamento

Dez conselhos de uma monja para tempos de confinamento

Elas sabem de confinamento e reclusão mais do que ninguém. As carmelitas descalças de Cádiz oferecem seus conselhos, baseados em sua experiência de vida, aos que, agora, se veem obrigados a ficar em casa.

Uma monja anônimaTradução: Rui Jorge Martins (adaptado)26 de Março de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

1. Atitude de liberdade. — O mais importante é a atitude com que se vive, a interpretação pessoal que se faz da situação, a consciência de que não se trata de uma derrota. Paradoxalmente, esta pode ser uma oportunidade para descobrir a maior e mais genuína liberdade: a liberdade interior que ninguém pode tirar e que procede da própria pessoa. Num contexto em que as autoridades “obrigam” a estar em casa, a liberdade consiste na adesão voluntária, sabendo que é por um bem superior. É livre aquele que tem a capacidade de assumir a situação porque quer fazer o correto. Você não está “preso” em casa. Pelo contrário, optou por nela permanecer “livremente”.

2. A paz em que alma se expande. — Olhe para dentro de si mesmo. O espaço mais amplo para a pessoa se expandir e ser feliz está no seu coração. Não são necessários espaços exteriores; basta andar com soltura no próprio mundo. Dê asas à criatividade, escute suas próprias inspirações e encontre a beleza de que é capaz. Talvez ainda não tenha descoberto que da paz da alma brota vida, e a vida é criação de mais vida, comunicação de alegria e amor. Quando se acostumar a viver em si mesmo, já não irá querer sair.

 3. Não se descuide, a paz requer trabalho. — Exercite virtudes que requerem concentração e autoconhecimento, essas de que normalmente nos descuidamos quando estamos ocupados em nossos mil e um afazeres “externos”. É de como se encaram as próprias emoções e pensamentos, é da gestão dos sentidos e paixões que depende se vivemos no céu ou no inferno. Observe-se e domine-se porque, se se deixar levar pelo medo, pela tristeza ou pela apatia, dificilmente sairá delas, já que não há muitas evasões. Exerça disciplina sobre o seu coração: quando algum pensamento não lhe fizer bem, rejeite-o. Procure inclinar-se para tudo o que você percebe que vai lhe dando paz e alegria. A harmonia tem de se trabalhada.

4. Ame. — A prova de fogo destes dias será a convivência. Perante a crise causada pela pandemia, as pessoas ficam mais suscetíveis e inclusive irritáveis. É preciso ser muito paciente e usar muito o bom senso. Somos diferentes, cada qual tem uma sensibilidade distinta por múltiplas circunstâncias. Aceite e respeite as opiniões e sentimentos dos outros. É muito normal, quando se está em casa, a tendência a querer controlar tudo. Procure não fazer isso: seria causa de muitos conflitos e frustrações. Não dê importância às diferenças, potencialize as coisas que unem. O único terreno que realmente lhe pertence é sua própria pessoa, os seus pensamentos, palavras e emoções. Não controle, controle-se. É a partir do amor que irá extrair compreensão e empatia, vontade de dar e agradecimento ao receber. Respeite, acolha a fragilidade, desdramatize, viva e deixe viver.

5. Não mate o tempo. — Nada poderá lhe criar uma sensação tão grande de vazio e aborrecimento como passar o tempo inutilmente. É um inimigo gravíssimo que lhe poderá roubar a paz, e até colocá-lo em depressão. Faça um plano para estes dias e tente vivê-lo com disciplina. Descanso e ocupação não se opõem. Aproveite para descansar realizando atividades que relaxem ou que estimulem um ânimo positivo. Dê tempo às coisas simples: que o grão-de-bico se torne tenro, que a carne no forno demore até estar bem cozida… Temos tempo! Mesmo que um almoço lhe custe duas horas, desfrute ao prepará-lo e empenhe-se em que as coisas que você faz, por simples que sejam, tenham valor e uma finalidade. Nada de perder tempo sem sentido. “Matar o tempo” é matar a vida.

6. Alargue as suas fronteiras. — Quantas vezes deixamos de fazer o que devíamos por falta de tempo. Pois bem, agora temos tempo! Esse livro que lhe deram há três anos e que não leu, aquele que ainda não devolveu porque ficou pela metade… Se gosta de música, procure novos artistas, descubra novos gêneros. Gostaria de fazer uma viagem? Pense num país exótico e aprenda sobre a sua cultura e tradições… Temos internet também para isso. Se é pessoa de fé e oração, talvez não saiba o que rezar porque já esgotou tudo o que sabia. Por que não experimenta a Liturgia das Horas? Descarregue-a no celular; procure os escritos de algum santo. Com certeza vai encontrar muitas coisas que lhe encherão a alma de novas luzes. Não se conforme com o que conhece e sabe. Agora que há oportunidade, abra-se a novidades que acrescentem sabedoria e encham de alegria.

7. Para os mais sensíveis. — Nem todos dominam as emoções da mesma maneira. Haverá pessoas para quem, pela sua psicologia, lhes custará muito mais este confinamento do que a outras. As emoções não só provêm do interior; também aquilo que se vê, escuta, toca etc. influencia. Por isso, é preciso ser seletivo com aquilo que se recebe do exterior, para evitar entrar em círculos viciosos que levem ao desespero ou façam perder o controle. Evitem-se, na medida do possível, conversas pessimistas, discussões, caras amarradas, excesso de informação, filmes de terror ou intriga, desordem dentro de casa etc. 

Como não há muitas evasões que permitam mudar de chip, tudo o que entra no cérebro permanecerá nele mais tempo do que o habitual. Por isso, é preciso ter cuidado para não ficar obcecado ou dar espaço a uma emotividade negativa. O excesso de telas de computador também é mau, porque estimula excessivamente o cérebro, provocando mais nervosismo. É necessário dormir bem, mas, além da conta, pode causar a sensação de fracasso ou derrota. Um remédio muito bom para canalizar a energia e relaxar é dançar. Ponha uma boa música e divirta-se dançando. Nada como rir e divertir-se para “reiniciar” o sistema interior.

8. Não estamos isolados. — É importante compreender que não há motivo para nos sentirmos sós, pois não estamos. O amor e o carinho continuam, mesmo que o contato físico se tenha distanciado. Esta é uma oportunidade para viver a comunicação de forma mais profunda, mais íntima. Fale com quem está em casa com tranquilidade, sem pressas. Escute até que terminem, deixe que o diálogo faça crescer a confiança e as confidências construam cumplicidade. Diga aquilo que nunca tem tempo de dizer, conte o que sempre quis contar, fale de tudo e de nada, mas com carinho, que é o que chega à alma e nela faz ninho. Responda àquela mensagem de Natal que não agradeceu, à carta que emocionou e à qual estava preparando uma resposta, àquele e-mail de uma velha amizade… Procure palavras com beleza, tente dar expressão aos seus sentimentos mais nobres. Fale com o coração e crie laços muito mais profundos com os seus. Descobrirá que a distância não é ausência.

9. Dia de reflexão. — Para não se angustiar, também é conveniente procurar momentos de silêncio e solidão. Na organização do tempo para estes dias, inclua espaços de “oxigenação” individual. Quantas pessoas já disseram alguma vez: “Como eu gostaria de estar durante alguns dias num mosteiro!” Pois bem, a ocasião está aqui: em casa

Habitualmente as pessoas se cansam por causa da aceleração de suas horas, como se a rotina diária não desse tempo para assimilar o que se vive. Esperamos mudanças substanciais na sociedade: “Isto não pode continuar assim!” Agora, temos oportunidade para nos metermos num casulo como a lagarta que se converte em borboleta. Reflita, pense, medite… Que posso mudar em mim para ser melhor depois destes dias? A separação das coisas que normalmente temos entre mãos ajudará a ver se realmente estamos dando a devida atenção às que importam e não às que podem ser postas em segundo plano, quais são as insubstituíveis, etc. Um bom discernimento para melhorar fará com que estes dias sejam de muito proveito. Homens e mulheres novos depois desta crise.

10. Reze. — Só a oração (que é o vínculo de amizade com Deus) pode sustentar a vida em todas as situações, especialmente nas adversidades. Oração que, como diria Santa Teresa, “ainda que se diga à sobremesa, é o principal”. Orar é abrir-se a esse Outro que nos pode sustentar quando precisamos de ajuda, mas também quando estamos bem. Orar é sustentar outros que precisam. É a experiência mais universal do amor

Ore, fale com Deus, as horas passarão sem que se dê conta. Fale-lhe de tudo, Ele não se cansa de escutar; desafogue-se com Ele quando necessitar e — por que não? — deixe que também Ele se desafogue com você: é seu Pai, seu Irmão, seu Amigo. Exercite sua fé e sua confiança. Se deixou a relação com Deus logo depois da sua primeira comunhão, volte a experimentá-lo. Agora há tempo e serenidade para conversar com Ele. Talvez não acredite porque nunca o experimentou. E se tentar?...

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A morte de um bispo católico
Espiritualidade

A morte de um bispo católico

A morte de um bispo católico

Em 22 de março de 1956, morria Dom Francisco de Aquino Corrêa, arcebispo de Cuiabá. Em memória desse grande homem, eis uma crônica de seu falecimento e um poema de sua autoria, sobre a arte de bem morrer.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

64 anos atrás, no dia 22 de março de 1956, morria Dom Francisco de Aquino Corrêa, segundo arcebispo de Cuiabá. Como memória deste acontecimento e, ao mesmo tempo, piedosa lição de bem morrer, publicamos a seguir a crônica escrita pelo Padre Bruno Ricco, salesiano, que assistiu o bispo em sua partida para a eternidade [1]

Depois, publicamos também o poema In extremis, de autoria do próprio Dom Aquino [2]. Nesses versos, o bispo responde a uma poesia homônima de Olavo Bilac, mostrando como é superior o amor cristão aos efêmeros amores deste mundo passageiro.


Os últimos instantes do Arcebispo

Foi no dia 22 de março. Sabedor de que muito se agravara seu estado de saúde, corri imediatamente ao Sanatório de Santa Catarina, às 6h30min. Em lá chegando, preparava-se o enfermo para receber o Sagrado Viático, o que se efetuou às 18 horas. A hora misticamente sugestiva da “Ave Maria”. 

Antes, porém, lá pelas 16 horas, Dom Aquino perguntara à delicada Irmã Walburga: “Irmã, estou mal?” E a Irmã, com rude franqueza, necessária nessas horas, lhe respondeu: “Sim, Excelência. Quer receber a Extrema Unção?” Saiu-lhe espontânea a expressão que habitualmente tinha nos lábios “Que é isso?” e logo acrescentou: “Sim, quero…; é a terceira vez…”. 

Dom Aquino Corrêa.

Completamente senhor de todas as suas faculdades, acompanhou com profunda piedade as orações do Ritual. Dirigindo-se à Irmã enfermeira que o assistia, perguntou-lhe se o Viático podia ficar para as 20 horas. Respondeu-lhe a Irmã: “Já que tem que lutar, é melhor lutar com Nosso Senhor”. “— Então, que venha logo”. 

Achavam-se presentes os Reverendíssimos Padres José Fernandes Stringari, Diretor do Liceu Coração de Jesus, Pe. Teófilo Tworz, Vigário cooperador da Paróquia, o irmão leigo Carlos Godói e algumas Irmãs do Sanatório. 

Ajoelhamo-nos todos ao redor do leito do amado Arcebispo. 

Entra no quarto o Padre Capelão do Sanatório com o Sagrado Viático. 

Acompanhamos comovidos todo o desenrolar da cerimônia. 

O Senhor Arcebispo de Cuiabá recolhe-se, junta as mãos, concentra-se naquela piedade e fé eucarísticas que o caracterizavam. 

Notei que, nesse instante, Dom Aquino chorava. Pressentia a morte. Recebeu a Sagrada Comunhão com muito recolhimento, movendo continuamente os lábios em fervorosas preces

Depois de algum tempo, retiraram-se os Padres Diretor do Liceu e Teófilo. Permaneci o tempo todo ao lado do querido doente, fazendo o que é possível fazer nesse transe doloroso. Pedi-lhe uma bênção especial para a minha querida Paróquia. Fui prontamente atendido. Perguntando-lhe, alguma vez, como se sentia, dava como resposta: “Não estou bem”. 

A certa altura, sai-se com este verso de Bocage: “Saiba morrer, o que viver não soube!” Disse-lhe, então: “Mas V. Ex.ª soube viver; sempre viveu bem”. Ao que ele logo acrescentou: “Que os Anjos digam: Amém!

Pelas 19 horas, a fala começou a tornar-se dificultosa. Chamou diversas vezes pelo Bispo Auxiliar. Em dado momento me diz: “Que Dom Antônio comunique à Nunciatura…”. Certamente queria dizer: “o meu falecimento”. 

Telefono ao Liceu, chamando o Padre Diretor, porque o desenlace se precipitava. Do Palácio do Senhor Cardeal pedem informações, respondo que o Senhor Arcebispo tem poucos instantes de vida. 

Leio, então, a bela oração Anima Christi, sanctifica me, que ele acompanha com muita atenção. Para não cansá-lo, silencio. Pede-me, entretanto, que eu leia o hino Adoro te devote, composto por Santo Tomás de Aquino. Instantes depois, entra a Irmã Superiora do Sanatório. Com um sorriso franco, Dom Aquino agradece à Irmã e esta pede uma bênção para toda a comunidade. O Arcebispo traça a cruz por sobre a Superiora. 

Recordo-me que nos achávamos às vésperas da solenidade das Dores de Nossa Senhora (sexta-feira da Semana da Paixão) e juntos rezamos a Salve Rainha. Dom Aquino rezava continuamente. 

Leio as orações dos agonizantes por ele seguidas com plena lucidez de mente, e, às invocações, respondia Amém.

Chega Dom Paulo Rolim Loureiro, Bispo Auxiliar do Cardeal Mota, que o representa no momento. Dom Aquino já não fala. Faz gesto de beijar o Crucifixo que ele beija com unção.

Leio a oração: Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo (Parte, alma cristã, deste mundo). Nisso, com suas próprias mãos, firmes, apesar do corpo quase frio, Dom Aquino arrumou melhor o travesseiro, e inclinando a cabeça para o lado do coração, suspirou profundamente, pela última vez

Pusemos-lhe a vela acesa na mão. 

Nenhum gemido. Morreu como viveu: placidamente, na Santa Paz do Senhor.


In extremis
1944

(Resposta a Bilac)

Quero morrer, meu Deus, quanto tu bem quiseres:
Esplenda a primavera em rosas, malmequeres,
Ninhos cantando no ar, aos perfumes do vento,
E “asas tontas de luz, cortando o firmamento”;
Ou ruja em temporal, a mais rija invernada,
Sem uma flor sequer, na terra desolada.
Refulja o sol no céu, no campo, na floresta,
E entre orgias de luz, vibre o universo em festa;
Ou paire a noite, noite imensa, muda e seva,
E raio algum de luz, rasgue a profunda treva.
Que me importa este mundo e toda esta vaidade,
Quando a morte me abrir o lar da eternidade?
Que me importa esse amor, que geme e desespera,
A tremer ante a morte implacável e fera,
Entre gélidas mãos e bocas retorcidas
E olhos a marejar em lágrimas doridas?
Triste, bem triste amor, que a morte assim tão cedo,
Converte nesse horror, que é frio, espanto e medo!
O meu amor é outro, eterno e onipotente.
Amor dum Deus, amor, que não morre, nem mente,
Amor, que não tem noite, ocaso, nem inverno,
Mas vive no esplendor do dia sempiterno.
E embora, ó meu Jesus, eu seja um miserável,
Que hei, tanta vez, traído o teu beijo adorável,
Espero o teu perdão, espero o teu sorriso,
Espero o teu amor, no azul do paraíso.
Espero que Maria, a Mãe, que tu me deste,
Imagem virginal da bondade celeste,
Seja comigo, e junto ao leito da agonia,
Mãe de misericórdia, ore, ajude e sorria.
Então a morte, a morte atroz para os mundanos,
Ela, que é o fim fatal dos amores profanos,
Longe de me roubar o teu amor sagrado,
Dar-me-á, por esse amor, no céu, meu Bem-Amado,
Pura, santa, imortal, verdadeira e querida,
“A delícia da vida! A delícia da vida!”

Referências

  1. Pe. Bruno Ricco. Os últimos instantes do Arcebispo. São Paulo, 11 de abril de 1956. In: Pe. Pedro Cometti. Dom Aquino Corrêa: vida e obra, pp. 410-411.
  2. Dom Aquino Corrêa. “In extremis”. In: Nova et Vetera, Poética, v. 1, t. III, Edição do Centenário, pp. 141-142.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.