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Um pecado que passa pela “porta dos fundos”
Sociedade

Um pecado
que passa pela “porta dos fundos”

Um pecado que passa pela “porta dos fundos”

Por que sequer as coisas que realmente precisam ser levadas a sério são tratadas por nós com irreverência e com “gracinhas”? Seremos um povo incapaz de cultivar um mínimo que seja de temor a Deus?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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“A Primeira Tentação de Cristo”, o infame “Especial de Natal” produzido este ano pelo canal de “humor” Porta dos Fundos em parceria com a Netflix, e no qual Nosso Senhor Jesus Cristo é retratado como homossexual, é ocasião oportuníssima para falarmos de um destes pecados esquecidos em nossa época, que passam pela “porta dos fundos” da vida de muita gente e quase nunca são enfrentados com a devida energia: trata-se da irreverência com o nome de Deus.

O fato de uma produção igualmente ofensiva, de mesma autoria, ter sido indicada ao prêmio de melhor comédia no Emmy 2018 (e ter ganhado) nos diz ainda mais: zombar da religião cristã não só se tornou comum, mas também motivo de reconhecimento e “merecidos” aplausos. A blasfêmia não só está na moda como há todo um aparato cultural para incentivá-la e servir-lhe de apoio.

A aposta dos blasfemos

Mas em que consiste mesmo esse pecado? O Catecismo da Igreja Católica (n. 2148) ensina que: 

A blasfêmia opõe-se diretamente ao segundo mandamento. Ela consiste em proferir contra Deus — interior ou exteriormente — palavras de ódio, de ofensa, de desafio, em falar mal de Deus, faltar-lhe deliberadamente com o respeito ao abusar do nome de Deus. São Tiago reprova “os que blasfemam contra o nome sublime (de Jesus) que foi invocado sobre eles” (Tg 2, 7). A proibição da blasfêmia se estende às palavras contra a Igreja de Cristo, os santos, as coisas sagradas. [...] A blasfêmia é contrária ao respeito devido a Deus e a seu santo nome. É em si um pecado grave.

O Pe. Antonio Royo Marín entra em mais detalhes em seu livro Teología moral para seglares (v. 1, n. 409), dividindo a blasfêmia em distintas espécies. No caso em questão, a irreverência de Porta dos Fundos poderia caracterizar-se muito bem como uma blasfêmia imediata, porque “vai diretamente contra Deus ou seus divinos atributos”, de obra, já que se trata de uma atuação artística antirreligiosa, e sobretudo diabólica, porque “tem a expressa intenção de injuriar a Deus” em si mesmo.

É claro que os diretores, produtores e atores dessa peça de evidente mau gosto contam com uma, digamos, “variável ateia”: pensam que nem Deus nem o diabo existem e, por isso, tudo o que estão fazendo não passa de simples “brincadeira”, destinada a ofender e ridicularizar apenas as pessoas que, sim, acreditam em Deus.

Mas, tomando emprestada a ideia de Blaise Pascal, essa é uma aposta que tem tudo para dar errado. De fato, se Deus não existisse, os porteiros-dos-fundos deveriam ganhar seu dinheiro de forma honesta, fazendo inclusive boa comédia [1], sem ultrajar a religião de milhões de brasileiros, ainda que não concordem com ela (será que eles seriam capazes de fazer isso?). Agora, se o Deus cristão de quem zombam realmente existe — como demonstra não só a Revelação divina, mas a própria razão natural —, então os piadistas blasfemos têm tudo a perder, principalmente a eternidade.

Que conste em nosso Código Penal um artigo tipificando o crime de ultraje a culto (art. 208), é um resquício, ainda que muito distante, desse pensamento que leva em conta o eterno, e não apenas o meramente material. É por isso que, no Brasil, ainda é crime “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”. Nem todo pecado deve, é verdade e a Igreja tem consciência disso, ser criminalizado, mas o desprezo explícito ao sagrado não pode, definitivamente, ficar impune. Por isso, os cristãos têm razão mais do que suficiente em procurar os meios legais a fim de reparar essa ofensa, que agride os sentimentos, não só religiosos, mas também culturais de boa parte do nosso povo.

Agora, que ateus e anticlericais zombem do nome de Deus, no fundo, não nos deveria impressionar tanto. Que em seu coração eles nutram ódio e desprezo por Alguém em quem nem sequer acreditam, é até, por assim dizer, compreensível. Afinal, quem é para eles Jesus Cristo senão um estraga-prazeres? E que são para eles os dogmas da fé, os Mandamentos, os sacramentos da Igreja, os símbolos cristãos, a vida dos santos todos, enfim, senão um apelo incômodo a suas consciências, um lembrete de que, por mais que tentem se enganar, os homens não podem viver como quiserem, mas devem arcar, já nesta vida, com as consequências inevitáveis de seus atos?

O conhecido filósofo Friedrich Nietzsche, por exemplo, podia até tentar anular seu inferno decretando a “morte de Deus”, mas, mais tarde, a verdade fatalmente lhe viria à tona, ainda que em forma de sífilis. O homem que num ato de sinceridade extrema escreveu: “Se houvesse deuses, como poderia eu suportar não ser um deus?”, no fim da vida depararia com a verdade que ele por tanto tempo procurou sufocar: não somos nós que decidimos como as coisas são ou deixam de ser, não é o homem o autor do bem e do mal; nós existimos por causa de Outro, e a Ele devemos obediência.

A irreverência dos católicos

Voltemos, porém, ao fio da meada e tiremos uma lição bem concreta do caso. Mais trágico e dramático que a blasfêmia dos descrentes é que nós, católicos, também façamos tão pouco caso do santíssimo nome de Deus. Sim, nós mesmos, que fomos batizados, vamos à Missa todos os domingos e talvez até tenhamos uma vida espiritual: como temos tratado o nome do Deus em quem dizemos crer? 

Menos grave do que a blasfêmia, mas muito mais comum do que ela, está o pecado de “proferir sem motivo algum ou sem a devida reverência o nome santo de Deus”. O Pe. Royo Marín (op. cit., n. 405-407) explica que: 

Em si, esse emprego vão do nome santo de Deus é pecado (cf. Eclo 23, 9-11), ainda que não costume passar de venial, por tratar-se de uma irreverência leve. Mas poderia ser mortal se o emprego dessas fórmulas irreverentes fosse expressão de desprezo de Deus (pecado gravíssimo) ou de ira contra Ele (v.gr., pelos castigos divinos), ou fosse motivo de escândalo para os demais (v.gr., de irritá-los fazendo-os blasfemar etc.).

Nessa matéria, os católicos precisamos fazer um grande exame de consciência e um mea culpa: tomar cuidado, antes de tudo, com a nossa própria língua, pois muitas vezes, por impaciência, por admiração e até por rotina, nos acostumamos a proferir o nome de Deus de qualquer modo. 

“O Escarnecimento de Cristo”, por Leo Steel.

Mas não só isso. A mania do brasileiro de fazer troça de tudo precisa ter limites. (Sim, nessa matéria “a zoeira tem limites”, precisa tê-los.) Uma imagem muito ilustrativa do que muitos têm feito com as coisas santas está nas obras sacras que retratam o escarnecimento de Cristo. Retratos muito expressivos desse episódio da vida de Nosso Senhor foram pintados por Gerard van Honthorst, Trophime Bigot e Hendrick Terbrugghen. Procurem essas obras de arte no Google e reparem todos se os rostos de zombaria ao redor de Nosso Senhor não poderiam muito bem ser os nossos, quando nos divertimos com as piadas que vemos (e fazemos) das coisas santas; com os memes e figurinhas de WhatsApp que muitos (católicos!) compartilhamos com imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora e dos santos. 

Ora, nós realmente cremos em tudo o que está no Credo? Cremos em Jesus Cristo, que virá a julgar a vivos e mortos? Se sim, por que insistimos em achar graça justamente do que ofende a Nosso Senhor? Por que até mesmo as coisas que realmente precisam ser levadas a sério são tratadas por nós com irreverência e “gracinhas”? Seremos um povo incapaz de cultivar um mínimo que seja de temor a Deus?

Um bom modo de começar é procurando cultivar um respeito básico pelas pessoas ao nosso redor. Afinal, se não respeitarmos o próximo [2], a quem vemos, como conseguiremos respeitar a Deus, a quem não vemos (cf. 1Jo 4, 20)? 

Outra prática muito salutar nesse sentido é fazer alguma espécie de reverência, nem que seja interna, sempre que ouvirmos ao nosso redor o nome de Deus (e também quando o proferirmos sem muita reflexão). A liturgia católica tradicional nos insere nessa pedagogia ao prescrever que os fiéis se inclinem sempre que forem mencionados os nomes de Jesus e de Maria; quando manda que nos ajoelhemos diante do mistério da Encarnação, na oração do Credo e na proclamação do prólogo de São João, no fim das Missas; e também quando celebra festas como a do Santíssimo Nome de Jesus (no domingo entre a Oitava do Natal e a Epifania, ou no dia 2 de janeiro) e de Maria (em 12 de setembro).

Todos esses são cuidados de amor que precisamos aprender a cultivar, sob pena de nos transformarmos justamente naquilo que tanto repudiamos no mundo. Evidentemente, ninguém está equiparando a blasfêmia diabólica do Porta dos Fundos às irreverências (em grande parte irrefletidas) dos que crêem. Ao contrário dos protestantes, nós sabemos bem que existem graus de gravidade nos pecados. Mas também não podemos dar de ombros para essas “pequenas” coisas, quando elas têm como alvo um Deus tão grande.

Façamos, portanto, a nossa lição de casa. Se queremos que o mundo respeite Nosso Senhor, se queremos que Ele reine não só nos corações, mas também nos lares, nos meios de comunicação, nos governos e no espaço público como um todo, sejamos nós os primeiros a honrá-lo de todo coração, a começar pela boca.

Notas

  1. Diz o Aquinate: “O divertimento (ludus) é necessário à vida humana. Ora, para tudo o que é útil à existência podem ser instituídos alguns ofícios honestos, entre os quais também o ofício dos comediantes. Destinada a distrair as pessoas, essa profissão nada tem, em si, de ilícito, nem vivem em pecado os comediantes, desde que atuem com moderação, ou seja, não usando palavras nem cometendo ações ilícitas, nem levando na brincadeira assuntos e situações inadequadas para isso. E, embora na sociedade não desempenhem outro ofício em comparação com os outros homens, contudo, no que diz respeito a eles próprios e a Deus, realizam também outras atividades sérias e virtuosas, quando, por exemplo, oram, quando tratam de conciliar suas paixões e atividades e também quando dão às vezes alguma esmola aos pobres. Por isso, os que razoavelmente os subsidiam não pecam, mas procedem com justiça, recompensando-lhes o serviço. No entanto, os que superfluamente despendem os seus bens com tais pessoas ou sustentam profissionais afeitos a divertimentos ilícitos, cometem pecado, porque, na prática, os estimulam a pecar” (S. Tomás de Aquino, STh II-II 168, 3 ad 3).
  2. Sem falar que a zombaria das outras pessoas é também um pecado especial, que pode tornar-se inclusive mortal, segundo S. Tomás de Aquino (cf. STh II-II 75, 2 c.).

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A banda que foi “mais popular do que Jesus”
Sociedade

A banda que foi
“mais popular do que Jesus”

A banda que foi “mais popular do que Jesus”

No auge do sucesso dos Beatles, John Lennon declarou, sem medo de errar: “Agora nós somos mais populares do que Jesus”. E, de certo modo, ele não estava errado… Mas qual é o preço da popularidade que o mundo dá?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em março de 1966, durante uma entrevista, o músico John Lennon, dos Beatles, afirmou: “O cristianismo irá acabar. Ele desaparecerá e encolherá. Eu não preciso discutir isso; estou certo e isso ficará provado. Agora nós somos mais populares do que Jesus…”

Como se sabe, suas afirmações repercutiram muitíssimo mal na ocasião: no sudeste dos Estados Unidos, de forte penetração protestante, algumas estações de rádio pararam de tocar músicas dos Beatles e discos da banda foram publicamente queimados. 14 anos depois, em Nova Iorque, a própria morte de John Lennon seria tragicamente associada a esse episódio: seu assassino alegou razões religiosas para o injustificável crime e chegou a citar, em uma entrevista posterior, a polêmica frase do cantor britânico.

Os Beatles.

O fato é que, de certo modo, Lennon não estava errado. A afirmação de que o cristianismo desapareceria foi muito pretensiosa, sem dúvida — e no fim foram os Beatles que não duraram muito tempo —, mas o “encolhimento” da fé era um drama que já se desenrolava a olhos vistos aquela época. Apenas alguns anos mais tarde, mas na mesma década, um homem que depois viria a tornar-se Papa repetiria em essência a mesma “profecia”: “A Igreja diminuirá de tamanho”, disse o então jovem sacerdote Joseph Ratzinger. E foi o que aconteceu.

A popularidade dos Beatles em relação à de Cristo também tem a sua verdade. Principalmente se se leva em conta que, ao contrário dos artistas modernos, que se apresentam em palcos e congregam multidões em torno de si para fazer uma performance, Nosso Senhor ia por um caminho muito diferente, com o que o adjetivo “popular” não seria o mais apropriado para descrevê-lo.

Para demonstrar como não era essa a intenção de Jesus, basta folhear (sem ceticismo e preconceitos materialistas, é claro) as páginas dos Santos Evangelhos. De sua impopularidade e absoluta despretensão nesse sentido dão testemunho sua vida oculta até os 30 anos; seu pedido, aos que eram agraciados com milagres, para que não contassem nada do que viram a ninguém; sua recusa em “voltar atrás” quando palavras mais duras desagradavam e faziam muitos irem embora; e, por fim, prova-o de modo máximo a sentença final de sua vida, pronunciada pelo próprio povo da época, que o condenou à morte numa cruz enquanto clamava por Barrabás. Se era para ser popular aos moldes do mundo, ali o “plano” de Cristo teria fracassado definitivamente.

É claro que, depois de morto, Nosso Senhor ressuscitou e mandou que seus discípulos ensinassem pelo mundo inteiro as coisas que dele haviam aprendido, e aí, sim, o cristianismo se fez “popular”. Se observarmos porém o modo como se disseminou o Evangelho — numa época em que o homem sequer sonhava em inventar a TV e os outros meios de comunicação de que hoje dispomos —, essa popularização se revelará aos nossos olhos muito mais admirável do que o fenômeno de qualquer banda moderna de rock n’roll (ou seja lá qual for o gênero musical de sua preferência). Santo Tomás de Aquino o expõe de forma brilhante ao defender, contra os pagãos, o caráter sobrenatural da fé cristã:

Os segredos da sabedoria divina, ela mesma — que conhece tudo perfeitamente — dignou-se revelar aos homens, mostrando-lhes a sua presença, a verdade da sua doutrina, e inspirando-os, com testemunhos condizentes. Ademais, para confirmar as verdades que excedem o conhecimento natural, realizou ações visíveis que superam a capacidade de toda a natureza, como sejam a cura de doenças, ressurreição dos mortos e maravilhosas mudanças nos corpos celestes. Mais maravilhoso ainda é, inspirando as mentes humanas, ter feito que homens ignorantes e rudes, enriquecidos pelos dons do Espírito Santo, adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloquência.

Depois de termos considerado tais fatos, acrescente-se agora, para confirmação da eficácia dos mesmos, que uma enorme multidão de homens, não só os rudes como também os sábios, acorreu para a fé cristã. Assim o fizeram, não premidos pela violência das armas, nem pela promessa de prazer, mas também — o que é maravilhoso — sofrendo a perseguição dos tiranos. Além disso, na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são reprimidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo. Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto é ainda maior milagre e claro efeito da inspiração divina.

Essas coisas não aconteceram de improviso ou por acaso, mas por disposição divina… (Summa contra gentiles, I, 6).

Essa reflexão de cunho simplesmente racional que o Doutor Angélico escreveu há quase 800 anos tem o poder de abrir os olhos aos incrédulos ainda hoje; poderia ter convencido, quem sabe, o próprio sr. Lennon...

“Cristo cravado na cruz”, de Vincenzo Campi.

Como um homem que morreu crucificado, numa região relativamente afastada do mundo antigo, e que reuniu em torno de si doze pobres discípulos, com pouquíssima erudição — dos quais apenas um permaneceu aos pés de sua Cruz —, pôde conquistar tantas pessoas, em tempos e lugares diversos, e ainda por cima contra todas as expectativas humanas, contra todos os apelos naturais dos sentidos? Ou seja, Jesus fez seguidores sem prometer a ninguém nem poder nem prazer nem riquezas materiais. Tampouco veio para encantar os homens com canções ou apresentações artísticas: a melodia divina que saía de seus lábios, por assim dizer, tinha as notas dissonantes de sua agonia no Horto e de um chamado insólito a que os homens tomassem a própria cruz para segui-lo. “Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto”... só por milagre mesmo poderia acontecer, e dos grandes.

Contra essa maravilha sobre a qual, infelizmente, não meditamos o suficiente, está o moderno fenômeno das massas hipnotizadas com bandas de rock, duplas sertanejas e DJs. Em um só show, esses artistas conseguem reunir muito mais pessoas do que Nosso Senhor reuniu em torno de si durante toda a vida. Na verdade, em uma só live, dentro de suas próprias casas, esses músicos conseguem congregar em frente a TVs, computadores e dispositivos móveis multidões inimagináveis para qualquer outra época da história humana. Depois dos Beatles, de fato, quantos mais não poderiam gabar-se de ser “mais populares do que Jesus”, à vista da fama e do sucesso que fazem? 

E no entanto o que geralmente move as pessoas a quase idolatrar essas personalidades senão o apelo aos sentimentos mais baixos do ser humano? É muito fácil seduzir as multidões com o iê-iê-iê, quando é justamente o iê-iê-iê o que elas querem. Difícil é apresentar aos homens a verdade nua e crua que se esconde em seu interior, repreender-lhes o pecado e mandar que mudem de vida, e ser seguido mesmo assim ao longo dos séculos. 

Não, o entusiasmo com o Evangelho nem de longe se compara ao frenesi com que as fãs dos Beatles assistiam aos seus concertos. Mas é que a atração que o Deus feito homem exerce sobre os corações não é como o furacão, o terremoto ou o fogo… O Deus todo-poderoso, podendo arrasar qualquer que seja o lugar por onde passe, prefere esconder-se na brisa ligeira e pedir o silêncio do homem para fazer-se ouvir (cf. 1Rs 19, 11–12); ao invés de palcos, microfones e alto-falantes, Ele prefere revelar-se no humilde casebre de Nazaré e soprar lenta e gradualmente ao longo da história, convocando um exército de adoradores que em número pode até ser subestimado, mas não em qualidade.

Olhando tudo isso à luz da vida eterna, importa-nos concluir dizendo que esta é, verdadeiramente, a única glória e “popularidade” que importa: pertencer ao povo de Deus; poder ser contado, um dia, entre os santos e santas do Céu. Todo o resto não passa de vaidade: vanitas vanitatum et omnia vanitas, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecle 1, 2)! 

Além do que, o preço a ser pago pela popularidade mundana é muito alto, nesta e na outra vida. O pobre rapaz de Liverpool a que nos referimos ao longo de todo esse texto, infelizmente, foi morto a tiros em frente ao prédio onde morava. E agora, quem sabe onde ele se encontra? A que destino foi submetido pelos séculos? Toda a fama que ganhou durante a vida de que lhe valeu na trágica hora da morte? Toda a multidão que o seguia, e os poucos que ainda o seguem, continuarão a aplaudi-lo no lugar onde ele estiver? Eis as perguntas que ficam, eis o que deve nos preocupar.

Por John Lennon, que já partiu deste mundo, só nos resta oferecer a Deus as nossas mais sinceras orações. Aos famosos que ficam, no entanto, sejam eles artistas de TV, músicos profissionais ou influenciadores digitais (com um celular na mão e uma conta no YouTube, nunca foi tão fácil ser popular), sirva de reflexão o ritual que era feito, até pouco tempo atrás, nas coroações pontifícias. O Papa recém-eleito, na sédia gestatória, partia em procissão da Basílica de São Pedro e era parado três vezes pelo mestre de cerimônias que, de joelhos, queimava na sua frente uma mecha de estopa e dizia, também por três vezes: Pater Sancte, sic transit gloria mundi! — “Santo Padre, assim passa a glória do mundo!

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O que vale mais, o templo ou a fé?
Igreja Católica

O que vale mais, o templo ou a fé?

O que vale mais, o templo ou a fé?

“Também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora. Eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora.”

Santo Atanásio de AlexandriaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Advertência prévia da edição de J.-P. Migne [1]. — Eis aqui um fragmento, erudito leitor, das cartas festivais [2] de Atanásio, cuja perda é verdadeiramente deplorável. Foram escritas em grande número pelo santo pastor quando, no exílio, vivia em regime de solidão. Mesmo nos mais remotos lugares do deserto, tendo na memória a sua grei, oprimida por dificuldades e tragédias diárias por conta do furor dos arianos, enviava-lhe cartas, quase sempre consolatórias, para serem lidas na reunião dos irmãos, as quais foram daí compiladas em um só corpo epistolar [...].

A carta abaixo, por nós descoberta em manuscrito antiquíssimo [3], data do ano 356, quando as igrejas de Alexandria, roubada aos católicos, foram entregues por ordem de Constâncio II aos arianos, razão por que escreveu Atanásio esta carta consolatória. Desta, extraiu o editor somente dois fragmentos, omitidos os trechos em que Atanásio, como é de crer, tratava com mais vagar e detalhe dos atos dos arianos em sua invasão das igrejas. Seja como for, por pequenas que sejam essas linhas, aqui vingadas da obscuridade e da injúria do tempo, revelam-nos coisa digna de saber: que os arianos converteram igrejas em casas de negócios e domus veli, isto é, tribunais de justiça.


Começa a carta de S. Atanásio, bispo de Alexandria, a seus filhos

Santo Atanásio, retratado por Francesco Bartolozzi.

[1]. Que Deus vos console! Tomei conhecimento de que não só isso vos contrista, mas de que também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora; eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora; mas vós, conquanto estejais fora dos templos, tendes a fé dentro <de vós>. Vejamos pois o que é maior: se o templo, se a fé; ora, é evidente que a verdadeira fé. Quem, portanto, mais perdeu, ou quem mais possui: o que ocupa o lugar, ou o que retém a fé? Sim, é bom o templo, quando ali é pregada a fé apostólica; é santo, se ali habita o Santo. […] 

[2]. Bem-aventurados sois vós, que estais, pela fé, na Igreja: habitais nos fundamentos da fé, e tendes suficiente satisfação, a grandeza da fé, que em vós permanece inconcussa; ela, com efeito, vos foi transmitida pela Tradição apostólica, e frequentemente a tentou abalar a execranda inveja, mas não <o> pôde: na verdade, mais se apartaram eles pelas maquinações que <contra ela> urdiram. É isso, pois, o que está escrito: “Tu és o Filho de Deus vivo”, confessado por revelação do Pai pela boca de Pedro, que mereceu ouvir: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai, que está nos céus” etc. Ninguém, portanto, irá prevalecer jamais contra a vossa fé, diletíssimos irmãos: se porventura nos devolver Deus algum dia as igrejas — e nisto acreditamos! —, independente da devolução das igrejas, basta-nos a fé. E para não soar talvez demasiado duro falando sem Escrituras, é bom que vos aduza testemunhos das Escrituras.

Lembrais-vos de que o Templo estava, de fato, em Jerusalém: o Templo não estava em lugar deserto, e gentes estranhas o invadiram. Depois disso, estando o Templo ainda em Jerusalém, desceram exilados <os judeus> para a Babilônia, por juízo de Deus que não só os provava, mas corrigia e, assim, manifestava a pena <reservada> aos ignorantes por intermédio de inimigos sedentos de sangue. Tomaram, sim, o Templo gentes estranhas, mas desconheciam o Senhor do Templo. Mas <Ele>, entrementes, nem lhes respondia nem lhes dirigia palavra, porque estavam separados da verdade. Que lhes aproveita o lugar, pois? Eis que agora os que ocupam os templos são acusados pelos que amam a Deus, porque fizeram deles espelunca de ladrões, casa de negócios e, ensandecidos, transformaram para si em tribunais de justiça o lugar santo, onde não lhes é lícito entrar.

Ouvimos estas coisas, diletíssimos, dos que de lá vieram, e até piores do que estas. Quanto mais parece que é deles a Igreja, tanto mais fora dela se encontram. E julgam estar dentro da verdade, quando são eles os exilados e cativos, e nenhum ganho têm em ter só para si a Igreja, porque é a verdade das coisas que se julga…

Notas

  1. Cf. PG 26, 1189-1190.
  2. As cartas festivais (epistulæ festales), também chamadas cartas pascais, eram uma forma de notificação anual do Patriarca de Alexandria, endereçada a todas as cidades e mosteiros de sua jurisdição eclesiástica, sobre a data de início do jejum quaresmal e, portanto, sobre o dia da celebração da Páscoa. O costume parece ter começado pouco depois do Concílio de Niceia, que, além de condenar a heresia ariana, também se ocupou de matérias disciplinares, como a uniformidade do calendário litúrgico, com a determinação precisa das principais festividades do ano (cf. W. Cureton, The Festal Letters of Athanasius. Londres, 1848, p. xxxvii). Não parece haver evidências, contudo, de que o fragmento aqui apresentado provenha de alguma carta pascal de S. Atanásio. (Nota da Equipe CNP.)
  3. Trata-se de um códice (Colb. 1783) do ano 800 d.C. (Nota da Equipe CNP.)

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Quem foi Jesus de Nazaré?
Doutrina

Quem foi Jesus de Nazaré?

Quem foi Jesus de Nazaré?

A busca pelo “Jesus histórico” continua, com teólogos rejeitando a melhor evidência histórica para a verdade de uma conclusão que eles mesmos tentam provar que é falsa… Eles estão nesse jogo desde o século XVII, sem chegar a lugar nenhum, e ainda não desistiram.

Chilton Williamson Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Lendo e ouvindo a Paixão de Cristo na Quaresma passada, fiquei ainda mais impressionado do que em anos anteriores com a objetividade e minúcia históricas com que os quatro evangelistas relatam esses eventos. Competentes historiadores entendem, como bons romancistas, a importância de detalhes minuciosos, mas reveladores, para uma história ser eficaz e credível. Mateus, Marcos, Lucas e João, embora amadores, compartilharam essa qualidade literária. Alguns dos fatos relatados por cada um deles concordam com o que dizem todos os quatro, enquanto outros aparecem em apenas alguns relatos, e outros ainda são mencionados somente uma vez. No entanto, as quatro narrativas da Paixão têm em comum a proximidade, a objetividade sólida e a coerência que são características importantes da escrita histórica séria. A estas se deve acrescentar uma apreensão aguçada das personalidades envolvidas no drama — seus pensamentos, falas, respostas, gestos e aparências — e do próprio drama.

“A juventude de Jesus”, por James Tissot.

Ainda assim, a busca pelo chamado “Jesus histórico” persiste, cuja historicidade foi confirmada para satisfazer praticamente aos céticos. O trabalho é de uma qualidade fantástica: é como se, após a viagem de Colombo, houvesse aventureiros que duvidavam de que o Novo Mundo tivesse sido descoberto e estivessem construindo barcos na Espanha, em Portugal e em Gênova para navegar ao Oeste, a fim de saber “se era verdade”. Ou, para usar outra metáfora, é como se um homem míope perdesse os dias tentando ler um livro longo e difícil, tendo esquecido no alto da testa o seu caro par de óculos.

Aqueles que acreditam que deve haver um “Jesus histórico” a ser descoberto, separado e distinto do Jesus dos Evangelhos, negam a sua a-historicidade e aceitam que o personagem histórico chamado Jesus Cristo existiu. Além disso, assumem que as técnicas de investigação disponíveis aos estudiosos modernos oferecem uma boa chance de aprender quem e o que Ele “realmente” era — desde que os pesquisadores envolvidos na busca sejam pesquisadores “de mente aberta” e imparciais. Eles ignoram o fato de haver apenas três tipos de estudantes de história das religiões — ou de qualquer outro tipo de história, e provavelmente de qualquer que seja o assunto. São os crentes, os descrentes e os neutralistas (a quem chamamos céticos ou agnósticos).

É razoável pensar que, em uma questão tão essencial como a religião, a neutralidade humana seja uma impossibilidade psicológica, assim como é igualmente razoável acreditar que nenhum ser humano seja realmente assexual. De fato, a experiência e a evidência dão abundantes provas de que nenhum escritor, nenhum pensador — de fato, nenhuma pessoa viva — está totalmente livre de preconceitos sobre qualquer assunto importante, ou mesmo sobre os que não têm importância alguma. É um erro supor, como os “caçadores” do Jesus histórico, que os únicos incapazes de honestidade intelectual são os que crêem que Jesus foi quem Ele disse ser, e o adoram como tal; e que, como consequência, o que quer que eles tenham dito e escrito por dois mil anos a respeito de Cristo é suspeito desde o início. A regra geral é que, nesse assunto, nunca se deve dar aos cristãos o benefício da dúvida; em suma, eles devem ser considerados mentirosos até que se prove o contrário.

Os estudiosos e outros que trabalham na vinha dos estudos sobre o “Jesus histórico” só ficarão satisfeitos, de uma forma ou de outra, quando acharem ter descoberto uma prova histórica incontestável de que Cristo não foi quem Ele disse que era — que Ele não era o Filho divino do Deus vivo. Como eles estão envolvidos na prática de pesquisa e dedução históricas, é de supor que estejam procurando o tipo de evidência a que os historiadores profissionais recorrem para investigar e interpretar: registros falados e escritos de testemunhas oculares; narrativas em segunda mão e boatos contemporâneos confiáveis; documentos, incluindo relatórios oficiais, memorandos e cartas; relatos históricos de pessoas da época; resultados de pesquisas de arquivo feitas por historiadores de períodos históricos subsequentes; artefatos exumados por investigações arqueológicas e assim por diante.

No caso de Jesus de Nazaré, começamos com quatro relatos separados, escritos por quatro homens que acreditamos terem sido seus discípulos, tendo-o acompanhado por três anos e testemunhado sua prisão, julgamento e execução, e tendo-o visto ressuscitado dos mortos e subir aos céus. Esses relatos, como digo, são minuciosamente detalhados, ainda que não documentados, e mais amplificam que contradizem um ao outro. Trata-se, é claro, da obra de homens alfabetizados e de inteligência elevada, graças a um talento nativo até então oculto ou à inspiração divina. Salvo por uma coisa — o elemento sobrenatural, inseparável do início da história até o seu fim —, os Evangelhos seriam aceitos como histórias, boas ou ruins, logo depois que começaram a circular entre o público. Fossem os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João os Evangelhos segundo Thomas Jefferson [1], poucas pessoas ao longo dos últimos dois milênios teriam tentado desacreditá-los, ou tido razão para crer neles. 

Os materialistas, para quem a história é uma série de eventos naturais que se desenrolam no mundo do espaço e do tempo, naturalmente resistem à intromissão do mundo sobrenatural. Se estivessem abertos a isso, reconheceriam a impossibilidade de procurar explicações naturais para eventos sobrenaturais. É sobretudo esse avanço sobrenatural que ofende a mente não-cristã. Maomé alegou ser mensageiro de Deus e seu profeta, mas não alegou ser, ele mesmo, divino. Como consequência, nenhuma pesquisa foi feita por escritores kafiri (infiéis) em busca do “Maomé histórico”, embora nenhum secularista acredite que o anjo Gabriel tenha aparecido a Maomé em sua caverna e ordenado: “Recite!” Para eles, o islamismo não passa de outro sistema bem elaborado de crença supersticiosa, apreciada por ignorantes e ingênuos; mas, passadas apenas duas décadas desde os ataques de 11 de setembro, não se trataria de uma religião perigosa e ameaçadora (ao contrário do cristianismo, seu sinistro rival) — e quem quer que diga o contrário é prontamente repreendido.

Apesar de toda a aparente seriedade e esforço intelectual que os membros dos estudos sobre o “Jesus histórico” têm devotado ao próprio trabalho, seus praticantes, de mentalidades diversas, até agora não concordam em nada, ou pelo menos em muito pouco. Alguém poderia argumentar que essa falta de sucesso, paradoxalmente, dá suporte ao ceticismo deles, já que, se o Cristo dos Evangelhos fosse o verdadeiro, Ele deveria ter sido muito mais amplamente conhecido e aceito no Mediterrâneo Oriental do que durante o tempo de sua vida. Todavia, sua relativa obscuridade é inteiramente plausível quando se levam em conta o afastamento geográfico relativo e o isolamento intelectual e cultural da antiga Palestina, tão separada da civilização greco-romana da época, não obstante a ocupação romana.

“Jesus acalma a tempestade”, de James Tissot.

De fato, fora do território da Palestina, quem teria tomado conhecimento ou manifestado interesse pelo líder de uma insignificante seita judaica, antes de Ele mesmo ser crucificado, ressuscitar e enfim subir aos céus, deixando seus Apóstolos e demais discípulos espalharem sua doutrina e a história de sua vida entre os judeus e os gentios, e converterem, dentro de poucos anos, alguns daqueles e milhares (ou dezenas de milhares) destes, à nova religião cristã — algo que parece ter acontecido numa velocidade quase sobrenatural? O modus operandi de Sherlock Holmes era que, uma vez esgotada a gama de explicações possíveis, a resposta impossível deveria ser a correta. O mesmo se dá com Jesus Cristo: se Ele não era quem alegava ser, então Ele jamais existiu.

Os cientistas sempre foram preparados para aceitar de modo condicional conclusões demonstradas apenas parcialmente, enquanto se aguardam futuros desenvolvimentos. Mas o público leigo está inclinado a receber essas descobertas acriticamente, já que elas foram “cientificamente” alcançadas por “especialistas”, e é neles que está a fé do materialista moderno — embora muitas das teorias propostas por físicos do séc. XXI alarguem as fronteiras da credulidade humana muito mais do que os ensinamentos de Cristo e da Igreja Católica. (Vale perguntar em que ponto — se é que ele existe — os limites do mundo natural se fundem com os do sobrenatural.)

Além disso, os cientistas, quando desenvolvem uma teoria aparentemente impossível, que  no entanto consideram instintivamente verdadeira, estão dispostos a prosseguir no pressuposto de que é verdade, até que se demonstre falsa. As histórias aparecem o tempo todo nas notícias para relatar novas observações de fenômenos naturais, como buracos negros engolindo estrelas anãs negras, que parecem confirmar as teorias formuladas por Einstein há um século. Os pesquisadores do “Jesus histórico” trabalham inversamente: eles rejeitam a melhor evidência histórica para a verdade de uma conclusão enquanto tentam provar que a conclusão é falsa! Eles estão nesse jogo desde meados do séc. XVII sem chegar a lugar nenhum, e ainda não desistiram.

Notas

  1. O autor se refere aqui à obra The Life and Morals of Jesus of Nazareth (“Vida e Costumes de Jesus de Nazaré”), de Thomas Jefferson, uma seleção naturalista de versículos dos Evangelhos, dispostos em ordem cronológica, mas sem as passagens milagrosas e sobrenaturais (Nota da Equipe CNP).

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Participar da Missa: você está fazendo isso errado!
Liturgia

Participar da Missa:
você está fazendo isso errado!

Participar da Missa: você está fazendo isso errado!

“O altar é um Calvário”: eis a consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recebemos nas redes sociais, alguns meses atrás, o seguinte comentário, como resposta ao nosso último texto sobre o latim na liturgia

O sacerdote orar em latim, de costas para os fiéis… Misericórdia! Minha avó contava que tinha pessoas que oravam o terço durante a missa, outras dormiam, ou seja, não participavam de nada do mistério da missa

Sim, você certamente já ouviu, também, algum comentário do gênero. Infelizmente, é essa a impressão que muitas pessoas, se não a maioria, têm sobre como era rezada a Santa Missa antes da reforma litúrgica após o Concílio Vaticano II. Não é raro que se ouça aqui e ali, inclusive a respeito das mudanças que sofreu o rito romano, alguém comparar a Missa de São Pio V a uma espécie de “Velho Testamento” da liturgia católica. Antes, o povo inteiro estava “à espera”, ansiando pelo acesso “pleno” aos mistérios sagrados, que se ocultavam sob uma língua incompreensível, um sacerdócio afastado do povo, uma Igreja “fria” e “imobilizada”, que não se comunicava efetivamente com os fiéis... Até que veio o Novus Ordo.

Sacerdote celebrando no rito romano antigo.

Por trás desse preconceito com a antiga liturgia e os antigos costumes católicos está uma visão de progresso malsã, que não raro pode colocar em xeque a própria infalibilidade da Igreja. Afinal, se Pentecostes foi “adiado” até 1969, por assim dizer, onde estava o Espírito Santo nesse meio tempo? Como fica a promessa de Nosso Senhor de que estaria com seus discípulos omnibus diebus, “todos os dias”, usque ad consummationem saeculi, “até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20)? 

O Papa emérito Bento XVI se manifestou diversas vezes contra essa visão, primeiro como Cardeal — em O Sal da Terra, por exemplo: “Uma comunidade põe-se a si mesma em xeque quando declara como estritamente proibido o que até então tinha tido como o mais sagrado e o mais elevado, e quando considera, por assim dizer, impróprio o desejo desse elemento” (Rio: Imago, 2005, p. 141) — e também depois, já Pontífice, ao autorizar amplamente a celebração da Missa antiga: “Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura”, disse ele na ocasião. “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”. Noutras palavras, se não conseguimos apreciar a liturgia antiga, o problema não era com a Igreja; é conosco.

Nossos antepassados conviveram por mais de 400 anos com a liturgia do Concílio de Trento e, considerando a quantidade de santos que se formaram na escola dessa divina liturgia, chega a soar como um insulto a acusação de que, ao longo desse tempo, as pessoas “não participavam de nada do mistério da missa”. 

Comece-se pelo fato de que o conceito que temos de participação [1] na liturgia é muitíssimo deficiente, quando não completamente equivocado

É deficiente porque, hoje, tendemos a pensar que só participa bem a pessoa que sabe todas as respostas da Missa de cor, que sabe entoar todos os cantos que o ministério de música puxar, que sabe a hora certa de ficar de pé, sentar e ajoelhar-se etc., quando, na verdade, uma pessoa pode estar fazendo tudo isso sem adentrar minimamente o mistério que está diante dela. A esse respeito, valeria a pena recordar, retomando uma lição de Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 83, 13), que na oração a atenção às palavras é menos importante que a atenção à presença de Deus. Na liturgia, que é a oração pública da Igreja, deve dar-se o mesmo: a ideia é que estejamos concentrados no Senhor; todo o resto é acessório e subordina-se a isso.

Mas tantas vezes nosso conceito de participação na liturgia é também equivocado. Quando a Constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, fez referência “àquela plena, consciente e ativa participação (actuosam participationem) nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão” (n. 14), é difícil imaginar que os Padres conciliares tenham pensado, por exemplo, em palminhas efusivas, performances coreográficas e uma assembleia dialogante, a todo o tempo respondendo ao sacerdote como num programa de auditório... 

Não, esse nunca foi o sentir da Igreja a respeito da divina liturgia. Tomar parte nos santos mistérios não significa posicionar-se como uma Marta agitada ao redor do altar, procurando algo que fazer. A atividade dos fiéis na igreja consiste muito mais na atitude contemplativa de Maria, que se põe “aos pés do Senhor para ouvi-lo falar” (Lc 10, 39).

Aqui é importante destacar o seguinte: cada um participa da Missa na medida de sua capacidade e da forma que lhe for mais conveniente. Não é correto impor a todo o povo fiel uma forma única de tomar parte nos mistérios sagrados, como se todas as outras fossem erradas… O respeito e a reverência, evidentemente, são devidos sempre, mas eles não se manifestam apenas no fiel que, com o Missal ou um folheto em mãos, responde ao padre, acompanha todas as orações e penetra-lhes o significado. Antigamente, era mesmo muito comum que as pessoas recitassem o Rosário durante a Missa ou praticassem outra forma de devoção que as ajudasse a acompanhar os santos mistérios. 

Sim, nossa visão atual de participação litúrgica deplora isso (o ar escandalizado do comentário que transcrevemos acima não nos deixa mentir), mas o costume era encarado com bastante naturalidade há não muito tempo. Fosse a Via-Sacra, algo sobre a Paixão do Senhor ou orações afins, o importante é que os fiéis, na quietude de seus bancos, se unissem ao sacerdote que oferecia o santo Sacrifício, oferecendo-se a si mesmos “em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus” (Rm 12, 1). Com a palavra a esse respeito, o Papa Pio XII:

Não poucos fiéis, com efeito, são incapazes de usar o “Missal Romano” ainda quando escrito em língua vulgar; nem todos são capazes de compreender corretamente, como convém, os ritos e as cerimônias litúrgicas. A inteligência, o caráter e a índole dos homens são tão vários e dissemelhantes que nem todos podem igualmente impressionar-se e serem guiados pelas orações, pelos cantos ou pelas ações sagradas feitas em comum. Além disso, as necessidades e as disposições das almas não são iguais em todos, nem ficam sempre as mesmas em cada um. Quem, pois, poderá dizer, levado por tal preconceito, que tantos cristãos não podem participar do sacrifício eucarístico e aproveitar-lhe os benefícios? Certamente que o podem fazer de outra maneira, e para alguns mais fácil: por exemplo, meditando piamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo exercícios de piedade e outras orações que, embora na forma difiram dos sagrados ritos, a eles todavia correspondem pela sua natureza (Mediator Dei, n. 98).

O problema, portanto — voltemos ao ponto inicial —, não era lá atrás com a Igreja; o problema é hoje, conosco. Essas práticas de piedade a que Pio XII faz referência, muito comuns no rito antigo, só floresceram graças a uma atmosfera de silêncio sagrado que agora, infeliz e tragicamente, já não existe na maior parte das liturgias católicas — seja como consequência de aspectos da própria reforma de 1969, seja como efeito da dissipação geral em que nos encontramos.

O que fazer, então? Pedir ao Papa que baixe um decreto mandando todos “fecharem a matraca” durante a Missa? De acordo com o Cardeal Robert Sarah, em seu O Poder  do Silêncio, essa está muito longe de ser a solução para a nossa crise atual:

O silêncio é uma atitude da alma. Ele não pode ser imposto por decreto sem parecer exagerado, vazio e artificial. Nas liturgias da Igreja, o silêncio não pode ser uma pausa entre dois rituais; ele em si é um ritual por completo, que a tudo envolve. Trata-se do tecido a partir do qual devem ser feitas todas as nossas liturgias. Nada nelas deve interromper a atmosfera silenciosa que constitui sua configuração natural (n. 250). 

O Prefeito do Culto Divino fala aqui a partir de sua consciência de fé, pois o silêncio brota naturalmente dos corações que se sabem na presença de Deus — e aqui está o grande segredo de tudo. Silenciar, para os animais, pode ser muito bem um simples “calar a boca”; para os seres humanos, porém, a ausência de barulho não quer dizer muita coisa. Quantas vezes, por exemplo, mesmo mudos, não nos encontramos interiormente agitados, com um sem-número de sons e imagens na cabeça? Se não houver um treinamento contínuo fora da liturgia, um verdadeiro cultivo da vida interior, nem sacerdotes nem o povo fiel serão capazes de reproduzir um silêncio autêntico e sagrado na Santa Missa.

É preciso também ter ao menos uma noção básica do que acontece na liturgia — coisa que, infelizmente, muita gente não tem. Curiosa e paradoxalmente, um pretexto muito difundido para se acabar com o latim na liturgia era de que o povo não entendia nada da Missa — ou, como colocou nosso comentarista, as pessoas “não participavam de nada do mistério”. Cabe-nos perguntar, porém, se agora, “rasgado o véu do templo”, alguma coisa realmente mudou. Será que passamos a entender mais, a participar melhor da Missa? 

O Pe. João Batista Reus reagia a esse argumento em seu Curso de Liturgia dizendo o seguinte: “A missa é uma ação, não um curso de instrução religiosa. No Calvário não havia explicações. O altar é um Calvário. Todo cristão sabe o que significa: imolar-se” (3.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1952, p. 53).

Pois bem, é disso que se trata. Sabemos o que significa imolar-se? Ou nos animalizamos a ponto de perder até isso?

Quando as Missas públicas voltarem ao fim da quarentena (em alguns lugares já estão retornando), acerquemo-nos do altar de nossas igrejas como quem se aproxima do Calvário, da Cruz de Cristo, da solene imolação que nos deu a salvação. É dessa consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Notas

  1. Há quem se pergunte se o correto é assistir ou participar da Santa Missa. Sobre isso, leia-se esse artigo do site Veritatis Splendor. De qualquer modo, há uma miríade de verbos que podem ser usados nesse contexto: a Missa se reza, se diz (no caso do padre), se escuta ou se ouve (no caso dos fiéis), dela se participa e a ela se assiste, e não há problema no uso de nenhum desses verbos, desde que sejam entendidos em um sentido concorde com o que orienta a Igreja sobre a santa liturgia.

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