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Corpus Christi não acabou!
Liturgia

Corpus Christi não acabou!

Corpus Christi não acabou!

A Eucaristia é um mistério tão grandioso que, antigamente, a Igreja dedicava uma semana inteira só para meditar a seu respeito. Era a oitava de Corpus Christi, que se encerrava com a festa do Coração de Jesus. Saiba como viver ainda hoje essa tradição.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Há não muito tempo, a festa de Corpus Christi, assim como a Páscoa, o Natal e Pentecostes, tinha uma oitava [1], como explica neste texto o professor Peter Kwasniewski:

Corpus Christi foi originalmente instituído como uma oitava. Quem quer que acredite que Nosso Senhor está real, verdadeira e substancialmente presente no Santíssimo Sacramento, não seria capaz de celebrar esse “incompreensível mistério de amor” por apenas um dia e então ir embora, como quem risca uma tarefa numa lista de afazeres para cumprir a próxima. Não, é preciso que haja o louvor completo, pleno e pródigo de oito dias: o tempo pára, e nós nos deleitamos na glória do Deus encarnado em nosso meio até que se findem os tempos e cessem os sinais.

É tão óbvio esse instinto eclesial que, quando Nosso Senhor mesmo apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque para pedir a instituição de uma festa em honra ao seu Sagrado Coração, Ele especificou que a queria “na sexta-feira depois da oitava de Corpus Christi. É por isso que ela ocorre na sexta-feira da semana seguinte a essa festa. Ela [a festa do Sagrado Coração] manteve seu lugar nos calendários de 1962 e 1969, uma posição que poderia parecer aleatória na ausência da oitava [...].

Ou seja, a festa do Corpo do Senhor [2], na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, tem uma relação muito próxima com a festa do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na sexta-feira da semana seguinte. (Foi em 1955, ainda sob Pio XII, que caiu a oitava de Corpus Christi.)

Neste texto, porém, gostaríamos de apresentar outra razão para que, não obstante a supressão dessa oitava, os fiéis com suas famílias continuem a honrar o Santíssimo Sacramento por mais uma semana — e os sacerdotes, se possível, celebrem nas igrejas Missas votivas em honra desse mistério. O motivo é bem simples e pode ser apresentado nestas cinco expressões: Lauda Sion, Pange lingua, Adoro te devote, Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens. Esses são os títulos dos poemas que Santo Tomás de Aquino compôs sobre a Eucaristia, textos de uma riqueza grandiosa, que não podem ser esgotados em um único dia.

Essas pérolas foram escritas em latim, evidentemente, mas possuem versões portuguesas que podem ser encontradas com facilidade na internet. Mas, por belas que sejam as traduções, é sempre melhor acessar e procurar entender os originais latinos, especialmente por terem vindo da pena do “mais santo dos sábios e mais sábio dos santos”.

A sequência de Corpus Christi

Temos, em primeiro lugar, a mais extensa das sequências para Missa que foram preservadas no rito romano: o Lauda Sion, composta de 24 estrofes. É tão longo esse texto que uma alternativa menor é oferecida na liturgia, a começar por sua 21.ª estrofe: Ecce panis angelorum (na tradução litúrgica brasileira: “Eis o pão que os anjos comem”). 

Este canto é um verdadeiro tratado sobre a Eucaristia e um cumprimento quase literal de três de seus versos: Quantum potes tantum aude, quia maior omni laude, nec laudare sufficis (lit., “Quanto podes, tanto ousa, porque é maior que toda loa, nem de louvá-lo és capaz”; na tradução litúrgica brasileira: “Tanto possas, tanto ouses, em louvá-lo não repouses: sempre excede o teu louvor!”). Ou seja, Santo Tomás compôs toda esta sequência em honra ao Santíssimo Corpo do Senhor — e, como vimos, não só esta sequência, mas muitos outros cantos —, e ainda assim não foi o suficiente… Afinal, do próprio Deus presente no Santíssimo Sacramento nunca falaremos o suficiente.

Quod non capis, quod non vides, animosa firmat fides, praeter rerum ordinem (lit., “O que não entendes, o que não vês, garante-o a fé ardente, além da ordem das coisas”; na tradução litúrgica brasileira: “Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé”). Essa ideia é uma constante nas composições de Santo Tomás, ressaltando a fé como uma espécie de “sexto sentido”, que supre o defeito dos outros cinco — como diz o Pange lingua: Praestet fides supplementum sensuum defectui (lit., “Seja a fé suplemento ao defeito dos sentidos”; na tradução litúrgica brasileira: “Venha a fé por suplemento os sentidos completar”). 

De fato, quando olhamos para o altar, após a consagração, o que vemos é pão; quando comungamos, tanto a hóstia quanto o vinho consagrados têm gosto de pão e vinho… A fé, porém, nos diz que, pelo milagre da transubstanciação, todo o pão e todo o vinho foram realmente transformados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor. Não há mais pão nem vinho, embora nossos sentidos experimentem o contrário. Por isso diz, também, o Adoro te devote: visus, tactus, gustus in te fállitur, sed audítu solo tuto créditur (lit., “Adoro-te com devoção: a vista, o tato, o gosto sobre ti se enganam, mas crê-se sem medo com a só audição”).

Caro cibus, sanguis potus: manet tamen Christus totus, sub utráque specie (lit., “A carne, comida; o sangue, bebida: está porém o Cristo todo sob ambas as espécies”; na tradução litúrgica brasileira: “Alimento verdadeiro, permanece o Cristo inteiro quer no vinho, quer no pão”). Outra lição importante é passada aqui: como Jesus, depois da Ressurreição, não pode mais morrer; como seu Corpo e Sangue estão para sempre unidos, sem possibilidade de separação, quando o sacerdote consagra o pão e o vinho, fica presente, tanto em um quanto em outro, Nosso Senhor inteiro. É por isso que nós, católicos, não precisamos comungar sob as duas espécies; “no que diz respeito ao fruto, os que recebem uma só espécie não são privados de nenhuma graça necessária à salvação” [3].

Nessa mesma linha, continua o canto, o Deus que se dá a um fiel é o mesmo que se dá ao outro, sem divisão: A suménte non concísus, non confráctus, non divísus: intéger accípitur. Sumit unus, sumunt mille: quantum isti, tantum ille: nec sumptus consúmitur (lit., “Por quem toma não partido, nem quebrado ou dividido, mas é íntegro recebido. Toma um, tomam mil, tantos estes quanto aquele, mas nem tomado é consumido”; na tradução litúrgica brasileira: “É por todos recebido, não em parte ou dividido, pois inteiro é que se dá! Um ou mil comungam dele, tanto este quanto aquele: multiplica-se o Senhor”).

O problema das comunhões sacrílegas

Outra lição valiosíssima dessa sequência, infelizmente esquecida em nossos dias, é o das comunhões indignas. Diz Santo Tomás: Sumunt boni, sumunt mali: sorte tamen inaequáli, vitae vel intéritus. Mors est malis, vita bonis: vide paris sumptionis quam sit dispar éxitus (lit., “Tomam bons, tomam maus, com sorte porém desigual, de vida ou de ruína. A morte é para os maus, a vida para os bons: vê como da mesma mesa haja tão diversa saída”; na tradução litúrgica brasileira, “Dá-se ao bom como ao perverso, mas o efeito é bem diverso: vida e morte traz em si. Pensa bem: igual comida, se ao que é bom enche de vida, traz a morte para o mau”). 

Sim, essas palavras são apenas um eco de São Paulo: “Todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado quanto ao corpo e sangue do Senhor” (1Cor 11, 27). Mas esse versículo, curiosamente, não consta em nenhum lugar no atual lecionário — e considerando que, devido a sua extensão, a primeira parte do Lauda Sion dificilmente é cantada em nossas paróquias, o resultado prático é que as pessoas simplesmente jamais ouvem falar da possibilidade (muitíssimo real, muitíssimo frequente) das comunhões sacrílegas. A esse respeito, observa ainda o prof. Peter Kwasniewski:

O alerta de São Paulo para que evitemos receber o Corpo e o Sangue do Senhor indignamente, isto é, para a nossa própria condenação, foi omitido de todas as Missas no Novus Ordo por quase meio século. E, no entanto, na Missa latina tradicional, esses versículos são escutados ao menos três vezes todos os anos: uma na Quinta-feira Santa [...] e duas em Corpus Christi [...]. Os católicos que frequentam o usus antiquior sempre terão essas palavras desafiadoras colocadas diante de suas consciências. Sejamos francos: o conceito de uma Comunhão indigna simplesmente desapareceu da consciência católica em geral.

Como consequência do silêncio (e apostasia) do clero — e da má catequese de nossos dias —, então, o pão dos filhos é tragicamente “lançado aos cães” (conforme expressão da própria sequência: Ecce panis angelorum, factus cibus viatorum, vere panis filiorum, non mittendus canibus; lit., “Eis o pão dos anjos, feito pão dos viandantes, verdadeiro pão dos filhos, que não se deve dar aos cães”). 

A discussão, por exemplo, que está acontecendo nos Estados Unidos a respeito da Comunhão para pessoas em pecado público (especialmente políticos favoráveis ao aborto) nem sequer é tocada no Brasil, quando deveria ser óbvio para qualquer católico que uma pessoa que defende o assassinato de crianças no ventre materno não deveria jamais se aproximar da Sagrada Eucaristia; e, se ela promove publicamente essa causa, deve sim ter a Comunhão negada pelos ministros da Igreja. 

Santo Tomás (cf. STh III 80 6c.) e dois mil anos de Tradição e Magistério o afirmam claramente; nosso Código de Direito Canônico o ordena expressamente (cf. Cân. 915: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”); mas, pelo visto, nossa época é mais sábia que os santos e Doutores que nos precederam...

“Quanto podes, tanto ousa”

Dos hinos compostos por Santo Tomás, o Pange lingua é sem dúvida o mais conhecido, principalmente por suas duas últimas estrofes, iniciadas em Tantum ergo sacramentum (“Tão sublime sacramento”). É prescrito pela liturgia que ele seja cantado nas Vésperas do ofício de Corpus Christi, bem como durante as bênçãos com o Santíssimo.

Também muito belo e conhecido é o Adoro te devote, onde Santo Tomás recorda que, do Sangue de Nosso Senhor, uma única gota seria suficiente para remir o mundo inteiro (Cuius una stilla salvum fácere totum mundum quit ab omni scélere; lit., “Do qual uma só gota o mundo inteiro salvar pode de todo crime”).

Menos conhecidos, mas nem por isso menos bem elaborados, são os hinos Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens, prescritos respectivamente para as Matinas (atual Ofício das Leituras) e Laudes de Corpus Christi. Deles são extraídos os cantos menores Panis angelicus (“Pão angélico”) e O salutaris hostia (“Ó Hóstia salutar”).

No primeiro, apresenta-se uma verdade, também questionada hoje por teólogos modernos: a de que a celebração da Eucaristia está reservada somente aos sacerdotes, e a mais ninguém: Sic sacrificium istud instituit, cuius officium committi voluit solis presbyteris, quibus sic congruit, ut sumant, et dent ceteris (lit., “Assim este sacrifício instituiu, cujo ofício só aos presbíteros quis reservar, aos quais compete tomá-lo e dá-lo aos demais; na tradução litúrgica brasileira, o solis desaparece: “Instituído estava o sacrifício, que aos seus ministros Cristo confiou. Devem tomá-lo e dá-lo aos seus irmãos, seguindo assim as ordens do Senhor”).

No segundo canto, brilha um dos mais belos versos de todas as composições do Aquinate: O res mirabilis: manducat Dominum pauper, servus et humilis (lit., “Ó coisa admirável: come ao Senhor o pobre, o servo e o humilde”; na tradução litúrgica brasileira, “Oh maravilha: a carne do Senhor é dada a pobres, frágeis criaturas”.

Todos os cantos se encerram com súplicas escatológicas: no Adoro te devote, por exemplo, o fiel que canta ao Santíssimo Sacramento pede a Deus a graça de contemplá-lo um dia face a face, no Céu: Jesu, quem velátum nunc aspício, oro fiat illud quod tam sítio; ut te reveláta cernens fácie, visu sim beátus tuae glóriae (lit., “Ó Jesus, a quem velado agora vejo, peço venha logo aquilo que tanto desejo: que, vendo-te de face desvelada, seja eu feliz com a visão da tua glória”).

É uma pena que o latim encontre tão poucos amantes; que nossas liturgias não usem mais o canto gregoriano; que a teologia de Santo Tomás seja tão desprezada em nossos dias. Resgatar tudo isso, porém, pode ser um ótimo começo para redescobrirmos a grandeza da Santíssima Eucaristia. Não percamos tempo, portanto, e empreguemos não só estes dias, mas toda a nossa vida, na meditação desse precioso mistério.

Notas

  1. Também sobre esse assunto, pontifica Gregory DiPippo: “As oitavas são para a contemplação de mistérios que são grandes demais para um dia só, e é certamente verdadeiro que repetita juvant (‘as coisas repetidas agradam’), um provérbio que o rito romano, com seu conservadorismo habitual, historicamente levou muito ao coração.”
  2. Também vale a pena notar que, no rito antigo, a festa de Corpus Christi se limitava a celebrar o Corpo do Senhor; no dia 1.º de julho, havia uma festa de I classe (o equivalente às solenidades de hoje) reservada só ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. Infelizmente, a reforma de Paulo VI aboliu essa celebração, que está restrita agora ao âmbito das Missas votivas.
  3. Concílio de Trento, Doutrina e cânones sobre a comunhão sob as duas espécies e a comunhão das crianças, 16 jul. 1562, s. XXI, c. 3 (DH 1729).

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Um jovem em meio aos anjos do Céu
Santos & Mártires

Um jovem em meio aos anjos do Céu

Um jovem em meio aos anjos do Céu

Ao chamar de “angélico” o jovem Luís Gonzaga, a Igreja não apenas faz uma comparação poética entre a castidade deste santo e a graça dos anjos, mas lembra que certos homens, por suas virtudes, podem superar em glória as próprias cortes celestes.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Amanhã, 22 de junho, é dia de lançamento no site do Padre Paulo Ricardo! Acesse nossa página “Anjos e Demônios” e não perca este novo conteúdo que preparamos para você!

Luís Gonzaga, o santo que a Igreja celebra no dia de hoje, 21 de junho, é aclamado por sua pureza, mas também pela vida penitente que levou — informação que consta, inclusive, na oração litúrgica de sua festa: 

Deus, caeléstium auctor donórum, qui in beáto Aloísio miram vitae innocéntiam cum paeniténtia sociásti, eius méritis et intercessióne concéde, ut, innocéntem non secúti, paeniténtem imitémur. Per Dóminum… — Ó Deus, autor dos dons celestes, que unistes no jovem Luís Gonzaga a penitência com uma admirável pureza de vida: concedei-nos, por seus méritos e preces, imitá-lo na penitência, se não o seguimos na inocência. Por nosso Senhor Jesus Cristo…

A ideia de que devemos nos penitenciar por nossos pecados, como se sabe, é praticamente uma marca do catolicismo. Jesus morreu uma vez por todas para expiar as nossas culpas, sim, mas — para pegar emprestada uma ideia de Pascal — Ele também continua a agonizar até o fim do mundo, nos membros de seu Corpo, que é a Igreja. Não sem razão o Apóstolo dizia completar em sua carne o que faltava à Paixão de Cristo (cf. Col 1, 23).

Vale lembrar também que essa exigência da justiça divina é uma oportunidade de grande crescimento para nós. Cristo não nos redimiu para que ficássemos ociosos, mas para que, através de nossas obras, colaborássemos com Ele na redenção do mundo inteiro. Nossas penitências têm um valor reparador e salvífico. Isso faz de nós corredentores com Nosso Senhor.

A recusa em fazermos isso neste mundo implica para nós, no mínimo, uma estadia mais longa no Purgatório. “Porque tu não és um Deus que ame a iniquidade; nem habitará junto de ti o maligno, nem os injustos poderão permanecer diante dos teus olhos” (Sl 5, 5-6). Quem não se purificou de suas culpas neste mundo deverá fazê-lo no outro, e desta espécie de prisão não sairá enquanto não tiver pago até o último centavo de sua dívida (cf. Mt 5, 26). 

Um jovem “angélico”

Outra coisa, no entanto, deve chamar-nos a atenção em São Luís Gonzaga. Na oração que o rito tridentino prescreve para esta festa em sua honra, consta uma palavra que, infelizmente, foi retirada da oração atual. Percebam: 

Caeléstium donórum distribútor, Deus, qui in angélico júvene Aloísio miram vitae innocéntiam pari cum paeniténtia sociásti: eius méritis et précibus concéde; ut, innocéntem non secúti, paeniténtem imitémur. Per Dóminum nostrum… — Ó Deus, despenseiro dos bens celestes, que no angélico jovem Luís unistes uma admirável inocência de vida com igual penitência: por seus méritos e preces, concedei-nos que, não o havendo seguido nas vias da pureza, o imitemos na prática da penitência. Por Nosso Senhor...
São Luís Gonzaga, numa obra de Guercino.

A expressão angélico iúvene, “jovem angélico”, não é apenas uma comparação poética entre a castidade de Luís e a graça dos anjos, mas serve para recordar uma doutrina muito bela a respeito dos lugares que os bem-aventurados ocuparão no Céu. Segundo ninguém menos que Santo Tomás de Aquino, é possível que certos homens brilhem tanto com sua santidade, que superem em glória os próprios anjos.

Isso não significa que as almas dos justos se “transformarão” em anjos. Diferentemente do espiritismo reencarnacionista, que vê o ser humano como uma alma presa num corpo, a doutrina católica faz questão de distinguir muito bem as naturezas humana e angélica: nós somos formados de corpo e alma e, no fim dos tempos, nossas almas se unirão novamente aos seus corpos, quando ocorrer a ressurreição dos mortos. Os anjos, porém, são espíritos puros, sem nenhuma mistura de matéria. Trata-se de dois seres diferentes.

Por isso, na ordem natural, os anjos são sempre superiores aos seres humanos; na escala da Criação, eles são os seres mais nobres formados por Deus. Na ordem sobrenatural, porém, alguns homens, pela vida virtuosa que levaram, podem ascender aos mais altos postos do Céu, tomando lugar entre os anjos. Com a palavra, o Doutor Angélico: 

As ordens angélicas se distinguem pela condição natural e pelos dons da graça. Se, pois, se consideram as ordens angélicas quanto aos graus da natureza, os homens jamais poderão ser elevados às ordens angélicas, porque sempre permanecerá a distinção das naturezas. Considerando isso, alguns julgaram que os homens de nenhum modo podem ser transferidos à igualdade com os anjos. Entretanto, essa opinião é falsa, por contradizer a promessa de Cristo, que disse em Lc 20, 36 que os filhos da ressurreição serão iguais aos anjos nos céus. Efetivamente, o que provém da natureza está como elemento material na razão das ordens, enquanto o que é perfectivo provém do dom da graça, que depende da liberalidade divina e não da ordem da natureza. Sendo assim, pelo dom da graça os homens podem merecer uma glória tal, que se igualem aos anjos, de acordo com cada uma de suas ordens. Ora, isso significa que os homens são elevados às ordens angélicas (STh I 108, 8c.).

A esse belo ensinamento do Aquinate o Pe. Royo Marín ajunta outro, do Cardeal Caetano: 

Comentando esta sublime doutrina, o Cardeal Caetano declara que nem todos os homens serão elevados aos coros dos anjos, senão que alguns ascenderão sobre os próprios anjos, como a Virgem Maria; outros se mesclarão com eles, como os Apóstolos e os grandes santos; e outros, enfim, ficarão abaixo de todos eles, como pode racionalmente crer-se quanto às crianças que voam ao céu imediatamente depois do batismo (ou seja, sem haver contraído, todavia, nenhum mérito pessoal) e de outros muitos que não alcançaram neste mundo o grau de graça dos anjos inferiores (Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 374).

Nossa Senhora é invocada como Regina angelorum, “Rainha dos anjos”. Por isso, sua posição no Céu acima de todas as hierarquias angélicas está praticamente fora de questão. Poderíamos considerar também que São Francisco de Assis, chamado por seus filhos espirituais de “Pai Seráfico”, ocupa uma posição especial na ordem dos serafins? E quanto ao jovem Luís Gonzaga, chamado de “angélico” pela liturgia antiga, que lugar deve ocupar entre os espíritos celestes? 

A resposta a essas perguntas, só a descobriremos do outro lado. O certo é que, seja como for, se com a graça de Deus viermos a nos salvar, no Céu “não haverá duas sociedades, uma dos anjos e outra dos homens, mas somente uma única, porque a bem-aventurança de todos consiste na adesão ao Deus único” (STh I 108, 8c.).

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Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás
Espiritualidade

Sagrado Coração:
nosso refúgio contra Satanás

Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás

Durante as mais terríveis tentações e ataques diabólicos, o Sagrado Coração de Jesus é um refúgio seguro. Eis aqui sete formas através das quais essa devoção pode nos proteger do pecado e do mal.

Kathleen BeckmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção nossa. É de Deus. É a devoção de Deus por nós”, escreve o Pe. James Kubicki, SJ, em seu livro A Heart on Fire [“Um Coração em Chamas”, sem tradução para o português]. Ele também nos lembra que a devoção ao Sagrado Coração não começou no século XVII com as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, uma religiosa visitandina — mas começou “antes do tempo, no Coração eterno de Deus”. Essa verdade ajuda-nos a alcançar a feliz redescoberta do amor perfeito de Deus por nós. Deus não precisa receber nosso amor de volta, mas, no mistério da misericórdia divina, Ele deseja nosso amor recíproco. Deus deseja uma comunhão amorosa e duradoura conosco. Embora nossos corações sejam frequentemente instáveis, esquecidos e temerosos, seu coração está voltado atentamente para nós.

Na cultura atual, tão carente de amor, nosso conceito de amor é facilmente distorcido, disperso e destruído. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma provisão poderosa contra a destruição do amor autêntico. Cristo está presente, vivo e atuante, e o seu Sagrado Coração entoa uma canção de amor que é exclusivamente pessoal.

O diabo, nosso velho inimigo (cf. Ef 6, 11-13; 2, 1-7, Zc 3, 1-2; 1Ts 2, 18; Ap 12, 10), trama metodicamente a destruição esmagadora do amor autêntico a Deus e ao próximo. A tentação diabólica busca a distorção da imagem de Deus, a dispersão do nosso objetivo eterno e a destruição do amor. Quando a alma experimenta a ausência de amor autêntico, ela prontamente sucumbe à sedução de tentações diabólicas. No ministério da Igreja de libertação e exorcismo, vemos isso com frequência. Um coração em chamas que, com e por amor divino, repele os demônios.

O Catecismo da Igreja (n. 385) aborda a realidade do mal e nossa necessidade de “fixar os olhos da fé naquele que é o seu único Vencedor”:

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza — que aparecem ligados às limitações próprias das criaturas — e, sobretudo, à questão do mal moral. De onde vem o mal? “Eu perguntava de onde vem o mal e não encontrava saída”, diz Santo Agostinho, e sua própria busca sofrida não encontrará saída, a não ser na conversão ao Deus vivo. Pois “o mistério da iniquidade” (2Ts 2, 7) só se explica à luz do “mistério da piedade”. A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que é o seu único Vencedor.

Quando fixamos nossos olhos e coração no Sagrado Coração de Jesus, percebemos que o coração de Deus é amoroso, onipotente, onisciente e protetor das criaturas amadas. O Sagrado Coração queima com um poder incompreensível para criar o bem e destruir o mal. Nosso foco é sempre o coração eucarístico de Deus, não a obra do diabo. Embora percebamos a batalha espiritual ao nosso redor e sejamos capazes de discernir bem os espíritos, interna e externamente, nossos corações devem comungar com o Sagrado Coração. Durante as terríveis tentações e os piores ataques diabólicos, o Sagrado Coração é um refúgio. Sobretudo na adoração, podemos olhar, rezar, dialogar, revigorar, discernir e ser preenchidos com o combustível da graça, para resistir ao diabo e proclamar a vitória de Cristo.

Proponho a seguir sete formas através das quais a devoção ao Sagrado Coração pode nos proteger do pecado e do mal.

1. Sagrado Coração: Encarnado. — A guerra eclodiu no Céu com a revelação do plano de Deus para a Encarnação do Verbo.

Detalhe da “Queda dos Anjos Rebeldes”, por Luca Giordano.

A rebelião de um terço dos seres angélicos (agora chamados demônios) ocorreu porque eles não aceitariam que o Filho de Deus se tornasse “carne” na forma humilde de uma criatura nascida de uma mulher. A devoção ao Sagrado Coração cultiva o amor encarnado. Honrar o Coração humano de Jesus Cristo, amar o Coração vivo do Verbo encarnado, capacita-nos a imitá-lo no amor ao Pai, a nós mesmos e aos outros. Isso frustra o plano do diabo de nos afastar de nosso Criador com dúvidas de que Deus é impessoal e desinteressado. Nosso coração, unido ao Coração de Cristo, torna-se uma fortaleza impenetrável. E os demônios até podem cercar a fortaleza, mas não podem entrar nela.

2. Sagrado Coração: Eucarístico. — Entramos no drama épico da maior história de amor de todos os tempos através da comunhão com Jesus na Eucaristia. Como os discípulos no caminho de Emaús, reconhecemos Jesus ao partir o pão. Reacender o “espanto” eucarístico é um termo que o Papa João Paulo II usou em sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Este espanto do coração humano acende o fogo do amor divino dentro de nós. Os demônios desprezam o Anfitrião humilde. De acordo com os santos, os demônios temem os discípulos que vivem uma vida eucarística intencional. O Sagrado Coração é o vaso de onde flui o precioso Sangue que salva vidas. O diabo trabalha incansavelmente para nos manter longe da Sagrada Comunhão. Para consternação dos demônios, que vivem amaldiçoando, a vida eucarística forma uma vestimenta de louvor que abençoa.

3. Sagrado Coração: Revelação. — Jesus Cristo encarnado revela o rosto e o coração de nosso Pai celestial. Precisamos desesperadamente dessa revelação da verdade para saber quem somos: filhos de Deus. Quando aceitamos a revelação de Jesus Cristo, conhecemos nossa dignidade e destino. Isso nos fundamenta na verdade para que, quando o Mentiroso, o Enganador e o Ladrão nos atacar, permaneçamos firmes na revelação da misericórdia de Deus. A devoção ao Sagrado Coração nos ajuda a lembrar a Revelação: o Evangelho do amor. O diabo planeja metodicamente como nos dispersar da Revelação e de sua relevância. Quando o diabo nos tenta para que duvidemos da existência de Deus, ou insinua que Ele é mau ou perverso, podemos voar para a proteção do Sagrado Coração, recordando a revelação do amor divino. Saber quem Deus diz que eu sou me fortalece para resistir às mentiras do diabo.

4. Sagrado Coração: Palavra. — O Papa Bento XVI nos recordou: “Nunca devemos esquecer que toda espiritualidade cristã autêntica e viva se baseia na Palavra de Deus proclamada, aceita, celebrada e meditada na Igreja” (Verbum Domini, n. 121). Desde o início, a Palavra é amor. A criação da humanidade é deliberadamente orquestrada para atrair todas as coisas a Deus, no qual está a satisfação de todos os desejos. Nas Escrituras, lemos sobre a vida de Cristo na terra; seus muitos encontros humanos onde o amor se manifestou. Seu Coração é tocado, Ele chora, cura, serve, dorme, come, reza — Ele entende homens e mulheres. Isso vai contra o demônio, que procura extinguir de nossa consciência a dignidade que nos foi dada por Deus. A Palavra tem um coração de amor infinito, voltado para você e para mim. O diabo odeia essa realidade porque ele vive na solidão e alheio ao amor.

5. Sagrado Coração: Altar de sacrifício. — O Sagrado Coração é um coração para os outros. O Pe. Simon Tugwell, OP, ensina: “A liturgia fielmente celebrada deve ser um itinerário de longo prazo na expansão do coração; torna-nos cada vez mais capazes da totalidade do amor que há no Coração de Cristo”. O sacrifício perfeito do amor de Cristo é perpetuado no altar. Essa é também a proclamação de sua vitória sobre o mal. O diabo, orgulho em pessoa, é desfeito pela humildade de Cristo no altar do sacrifício. Ame sacrifícios; Ele deu sua própria vida. O Sagrado Coração irradia amor que se dirige ao outro: os pobres, esquecidos, doentes e enlutados. Seu Coração morre e ressuscita por nossa causa. Orgulhosos e rancorosos, os demônios invejam o poder de Cristo para salvar por meio do amor sacrificial. Sempre que amamos com sacrifício, nossa armadura espiritual é fortalecida.

6. Sagrado Coração: Reparação. — “A verdadeira devoção ao Sagrado Coração depende de uma compreensão adequada da reparação, um antigo termo teológico que remete à correção, expiação, salvação e redenção”, explica o Pe. Kubicki. Em seu livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Bento XVI escreveu: “Deus não pode pura e simplesmente ignorar toda a desobediência dos homens, todo o mal da história, não pode tratá-lo como algo irrelevante e insignificante. Uma tal espécie de ‘misericórdia’, de ‘perdão incondicionado’, seria aquela ‘graça a baixo preço’ contra a qual se pronunciou com razão Dietrich Bonhoeffer, diante do abismo do mal do seu tempo”. Cristo pagou a dívida dos pecadores. Mas o pecado continua. Nós, que cremos, podemos nos unir à reparação de Cristo e oferecer nossos sofrimentos e sacrifícios para ajudar a reparar. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos ajuda a entrar no amor reparador de Cristo. Assim, marcamos território, subtraindo do diabo as tantas almas que ele levaria para o abismo.

7. Sagrado Coração: união com o Imaculado Coração. — A Igreja celebra a festa do Sagrado Coração na sexta-feira e a festa do Imaculado Coração no sábado para nos recordar a unidade que há entre elas. Jesus Cristo e sua Mãe Maria estão unidos na vontade do Pai e não podem ser separados. A devoção e a consagração ao Sagrado Coração de Jesus complementam espiritualmente a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Essa união sagrada constitui uma fonte de proteção contra os espíritos malignos. Entre o Sagrado Coração Eucarístico e o Coração virginal e Imaculado, há um espaço reservado para você e para mim, onde nenhum espírito maligno ousa entrar. Permaneçamos sob a proteção amorosa dessa união entre o Sagrado e o Imaculado Coração, onde estamos seguros enquanto caminhamos no vale da morte e do mal.

Essa devoção traz muitos frutos espirituais porque, como escreveu o Papa Bento XVI: “Nosso Deus não é um Deus remoto intangível em sua bem-aventurança. Nosso Deus tem um coração”. E o seu coração? A quem ele pertence?

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Junho, o mês dos irmãos
Santos & Mártires

Junho, o mês dos irmãos

Junho, o mês dos irmãos

“Esta é a verdadeira fraternidade: pela efusão do próprio sangue eles seguiram a Cristo”. Junho pode ser considerado “o mês dos irmãos”, pois nele encontramos um quarteto de mártires fraternos que conquistaram juntos a vida eterna.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos mais belos aspectos da liturgia romana tradicional é o rico calendário de santos que ela nos põe diante dos olhos, ano após ano. 

O calendário do moderno rito papal de Paulo VI, de 1969, removeu mais de 300 santos; ao mesmo tempo, reorientou a celebração da primeira parte da Missa em uma marcha mais regimentada através da Escritura, tornando opcional o uso dos “próprios” que se referiam aos santos. O resultado é uma liturgia que parece muito mais distante e separada do culto aos santos e de seus traços particulares, sem qualquer compensação de nos sentirmos mais próximos e ligados à adoração de Cristo, que é o Rei deles. 

Num paradoxo formidável, a intensa veneração que os santos recebem na Missa em latim — especialmente Nossa Senhora, mencionada dez ou onze vezes, em comparação com as menções no rito de Paulo VI, que vão de uma a quatro — realça de alguma forma a dignidade sublime do Filho de Deus, cuja face os santos contemplam e do qual todos eles são imagem, como heliotrópios seguindo o curso do Sol. O culto aos santos, longe de diminuir o senhorio de Cristo, manifesta antes o seu poder e extensão. Ele é muito maior quando vemos a grandeza da corte que o circunda

Há então, de tempos em tempos, “agrupamentos” especiais dentro da grande companhia dos santos, que encontramos organizados no calendário tradicional pelas misteriosas disposições da divina Providência. Um exemplo é o que eu gosto de chamar “o mês dos irmãos”, junho, onde encontramos um quarteto de irmãos de sangue que conquistaram juntos a vida eterna

Em 9 de junho, celebramos as festas dos santos Primo e Feliciano, assim descritos no Martirológio Romano

Em Nomento, na Sabina, o natalício dos santos Mártires Primo e Feliciano, irmãos, em tempo dos Imperadores Diocleciano e Maximiano. Estes gloriosos Mártires, já avançados em anos passados no serviço do Senhor, depois de suportarem, ora juntos, tormentos iguais e comuns, ora separados um do outro, tormentos diversos e esquisitos, finalmente mortos ambos à espada, por ordem de Promoto, Presidente de Nomento, consumaram o curso de sua feliz peleja; os seus corpos transladados mais tarde para Roma, foram colocados honorificamente na Igreja de santo Estêvão Protomártir, no Monte Célio.

Em 18 de junho, a festa de Santo Efrém, o Sírio, acompanha a comemoração dos santos Marcos e Marceliano, sobre os quais diz o mesmo Martirológio

Em Roma, na estrada Ardeatina, o natalício dos santos Mártires Marcos e Marceliano, irmãos, aos quais, presos e atados a um tronco, por ordem do juiz Fabiano, foram fincados nos pés agudos pregos; mas como não cessassem de louvar a Cristo, foram traspassados com lanças pelos lados, e com a glória do martírio, passaram aos reinos celestiais. 

Se for rezada a Missa para esses irmãos — embora o mais usual seja dizer a Missa de Santo Efrém, que foi adicionada ao calendário mais tarde —, este texto especial de Alleluia é recitado ou cantado: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae numquam pótuit violári certámine: qui, effúso sánguine, secúti sunt Dóminum. Allelúia, “Aleluia, aleluia. Esta é a verdadeira fraternidade, que a espada jamais pôde violar: foi pela efusão do próprio sangue que eles seguiram a Cristo. Aleluia”.

Em 19 de junho, festa de Santa Juliana Falconieri, comemoram-se os santos Gervásio e Protásio: 

Em Milão, os santos Mártires Gervásio e Protásio, irmãos, ao primeiro dos quais tanto tempo o Juiz Astásio mandou açoitar com látegos chumbados, que exalou o último suspiro; ao segundo, depois de espancá-lo com paus, mandou cortar a cabeça. Os corpos destes santos foram encontrados por santo Ambrósio, por divina revelação, banhados no próprio sangue e tão incorruptos como se tivessem sido mortos no mesmo dia; em cuja transladação, um cego, tocando o féretro, recobrou a vista, e muitos, vexados dos demônios, ficaram livres.

Por fim, cai no dia 26 de junho a memória dos santos João e Paulo, aos quais a devoção em Roma era tão forte, que seus nomes se acham no Cânon Romano. O Martirológio nos dá a respeito deles este breve relato: 

Em Roma, no monte Célio, os santos Mártires João e Paulo, irmãos, o primeiro dos quais era mordomo-mor e o segundo primicério de Constância Virgem, filha do Imperador Constantino, e ambos mais tarde, em tempo de Juliano Apóstata, foram mortos à espada e receberam a palma do martírio.

De modo notável, a Coleta desta última festa define uma nova forma de “fraternidade de sangue” que é alcançada pela fé em Cristo, o qual derramou o seu sangue por nós, e pelo derramamento do próprio sangue por Ele: 

Quáesumus, omnípotens Deus: ut nos gemináta laetítia hodiérnae festivitátis excípiat, quae de beatórum Joánnis et Pauli glorificatióne procédit; quos éadem fides et pássio vere fecit esse germános. Per Dóminum nostrum..., “Nós vos pedimos, ó Deus onipotente, que neste dia de festa sintamos a dupla alegria do triunfo dos bem-aventurados Paulo e João, os quais irmanou de verdade a mesma fé e martírio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo…”.
“Martírio dos Santos João e Paulo”, de Guercino.

O Gradual da Missa é tomada do Salmo 132: Ecce quam bonum, et quam iucúndum, habitáre fratres in unum, “Vede como é belo e agradável a vida harmoniosa entre irmãos”, e o Alleluia repete o de 9 de junho, em continuidade e complemento à ideia da Coleta: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae vicit mundi crímina: Christum secúta est, ínclyta tenens regna caeléstia. Allelúia, “Esta é a fraternidade verdadeira, que venceu o mundo, seguiu a Cristo e reina agora venturosa na glória do paraíso. Aleluia”.

Uma ironia final deve ser mencionada: muitos dos santos removidos por Paulo VI são santos que nós, católicos romanos, veneramos em comum com os cristãos ortodoxos do Oriente. É o caso de três desses pares de irmãos juninos: Marcos e Marceliano (cuja festa no calendário oriental é em 18 de dezembro), Gervásio e Protásio (celebrados pelo Oriente em 14 de outubro) e João e Paulo (observados no mesmo dia). Um dos mais danosos legados da reforma litúrgica foi, por um lado, o enxerto de elementos “bizantinizantes” estranhos no rito romano e, por outro, o expurgo de elementos genuinamente comuns que sempre estiveram presentes — um golpe tanto contra a fidelidade ao tipo quanto contra a fraternidade eclesiástica.

Haec est vera fraternitas: essa é a verdadeira fraternidade que une os mártires, que une todos os cristãos nos vínculos da fé e do sofrimento, onde quer que eles estejam, seja qual for seu status ou estado de vida. Em uma inversão da lógica do mundo, segundo a qual o sangue é mais espesso do que a água, a religião cristã nos mostra que a água é mais espessa que o sangue: a irmandade espiritual inaugurada pelo Batismo nos une mais profunda e eternamente que os laços da geração biológica e da cultura familiar. Na verdade, é precisamente o Batismo cristão de ambos os cônjuges que faz o seu amor humano natural e o seu ato de geração serem elevados ao nível da caridade e da fecundidade sobrenaturais no sacramento do Matrimônio, e é esse mesmo Batismo, vivido, que torna a família uma imagem da vida que têm em comum os santos no Céu.

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A obra-prima do Artista divino
Espiritualidade

A obra-prima do Artista divino

A obra-prima do Artista divino

Ao contrário dos escultores humanos, Deus não trabalha com matéria morta. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. O divino Artista nos deu a liberdade de corresponder (ou não) aos golpes de seu cinzel e ao suave toque de seus dedos.

Elizabeth A. MitchellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Dizem que Michelangelo era capaz de ver as figuras que ele esculpia através dos rudes blocos de mármore. Seu trabalho como escultor consistia em libertar a obra de arte da pedra e fazer a imagem vir à tona. Em correspondência praticamente perfeita com o arquétipo na mente de Michelangelo, sua imagem de Nossa Senhora da Piedade (a Pietà), dolente, silenciosa e amorosamente abandonada à Paixão de Nosso Senhor, irradia o poder de uma obra-prima.

O mesmo se dá com as imagens vivas trabalhadas pelo Artista divino.

O Senhor vê através de cada um de nós sua própria esperança pelo cumprimento perfeito de tudo o que Ele nos criou para ser. Para cada ser humano, há um arquétipo divino dentro do coração de Deus. Nós nos tornamos, em maior ou menor medida, a pessoa que Ele nos chamou a ser, e quando correspondemos mais de perto a seu perfeito ideal para nossas vidas, também nos tornamos uma obra de arte.

E há, todavia, uma diferença. Deus, o divino Artesão, não trabalha com matéria inanimada. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. Nosso Senhor infundiu em nós o seu Espírito Santo, deu-nos a liberdade de corresponder (ou não) a seus golpes artísticos. O gênio amoroso de nosso divino Artesão é que Ele trabalha com matéria viva, que respira e possui livre-arbítrio.

Santa Edith Stein trata desta colaboração entre o Artista divino e sua obra de arte viva no poema espiritual I Am Always in Your Midst [“Eu estou sempre em vosso meio”]:

O eterno Artesão… não mexe com matéria morta;
Na verdade, a sua maior alegria criativa é
Que, debaixo de sua mão, a imagem mexe,
Que a vida, para encontrá-lo, se derrama.
A vida que ele próprio colocou dentro dela
E que agora desde dentro lhe responde
Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo.
Assim ajudamos Deus em sua obra de arte [1].

“Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo”. Nós sabemos os momentos em que o Mestre Artesão nos molda com seu martelo. Já sentimos a natureza dura e contundente dos golpes. Quantas vezes não nos desviamos para evitar sua mira precisa e perfeita! E, então, o seu dedo acaricia. O fino acabamento é acrescentado imperceptivelmente com o menor e mais suave de seus pincéis.

O resultado desta colaboração é o esplendor da alma humana trazida para perto da beleza divina por meio da graça, imagens vivas que declaram o divino Amor ao qual corresponderam, ultrapassando até mesmo as mais impressionantes obras de arte materiais. E nós todos reconhecemos uma tal obra-prima, quando a encontramos.

As imagens vivas que encontrou ao longo de sua conversão chamaram Santa Edith Stein a refletir sobre a origem delas. Em Frankfurt, enquanto pretendia visitar os museus e a catedral, ela se viu paralisada diante de uma mulher que havia simplesmente se ajoelhado para rezar: 

Nós paramos na catedral por alguns minutos e, enquanto olhávamos ao redor com respeitoso silêncio, uma mulher carregando uma cesta de mercado apareceu e se ajoelhou em um dos bancos para rezar rapidamente. Aquilo foi algo inteiramente novo para mim… Jamais pude esquecer isso.

Essa modesta mulher não ficaria sabendo jamais do impacto profundo que seu ato de fé diário teria sobre uma grande mente filosófica à procura da verdade. Não foi um argumento teológico que convenceu Edith Stein da pessoa de Cristo, mas a conversa que ela testemunhou entre uma dona de casa e o seu Senhor.

Antes de entrar na vida religiosa, Edith Stein; antes de entrar na vida definitiva, Santa Teresa Benedita da Cruz.

Mais tarde, a própria Edith Stein se tornaria uma imagem viva, em sua disposição de sofrer o martírio no campo de concentração em Auschwitz. Durante suas horas finais, ela confortava as crianças cujas mães, perturbadas, não conseguiam lhes dar os cuidados convenientes. Conta-se, de fato, que em seus atos de amor e misericórdia ela parecia “uma Pietà viva”, ao carregar aquelas crianças sofridas nos braços, no lugar de Cristo. Com isso, ela dava testemunho pleno de sua fé no Senhor ao qual havia entregado a própria vida.

Nossa Senhora mesma, devotada tão profundamente ao Espírito Santo, viveu como uma obra-prima da Vontade Sacratíssima do Senhor em cada momento de sua vida. Seu Coração sempre foi um com o divino Coração. Sob o seu Imaculado Coração, o Coração divino tomou a carne de um coração humano. Assim, onde quer que estivesse Nossa Senhora, ali a vontade perfeita do Senhor para sua vida se fazia manifesta. Sua entrega fiel e de fé traz os nossos corações ao Coração de seu divino Filho, dispondo-nos a abraçar com total confiança o melhor e mais santo plano de Amor do Pai.

A força de uma tal obra-prima exige uma resposta à altura. Não podemos parar diante do vidro do museu, admirar a imagem e continuar nosso caminho. Precisamos ser mudados interiormente. Escreve Edith Stein: 

Dificilmente haverá um artista que, crendo, não tenha se sentido compelido a retratar Cristo na cruz ou carregando a cruz. Mas o Crucificado exige do artista mais que uma mera representação de sua imagem. Ele exige que o artista, assim como qualquer outra pessoa, o siga: que ele, ao mesmo tempo, se transforme e permita a si mesmo ser transformado numa imagem daquele que carrega a cruz e é crucificado.

Quando nós re-criamos dentro de nossas próprias vidas a verdade e a beleza que a imagem revelou, nós refletimos uma vez mais o majestoso esplendor da magnífica arte de Nosso Senhor. O próprio Cristo mostrou o caminho. Oferecendo a si mesmo aos golpes de martelo do guarda romano no monte Calvário, sua imolação se torna a nossa Redenção. A lança do centurião perfura-lhe o lado, do qual sangue e água jorram como sinal de purificação e da vida de seu Coração glorioso e trespassado, sempre pronto a acolher-nos.

Através dele nós vislumbramos o caminho perfeito. Com Ele, respondemos ao seu chamado, adorando, louvando e correspondendo à graça de sua Santa Cruz, a obra-prima de amor por meio da qual Ele redimiu o mundo.

Notas

  1. The eternal Artist… does not work on dead material; / His greatest creative joy in fact is / That under his hand the image stirs, / That life pours forth to meet him. / The life that he himself has placed within it / And that now answers him from within / To chisel blows or quiet finger stroke. / So we collaborate with God on his work of art. A tradução que fizemos foi feita a partir da versão inglesa do poema.

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