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O verdadeiro “sexto sentido”
Espiritualidade

O verdadeiro “sexto sentido”

O verdadeiro “sexto sentido”

Se tivéssemos um “sexto sentido” aguçado para falarmos com nossos entes queridos que já se foram, isso ainda seria muito pouco, diante da dádiva que é nos relacionarmos com o próprio Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Quando deixam de acreditar em Deus, as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa”: eis uma sentença atualíssima de G. K. Chesterton. Não é novidade para ninguém que nosso mundo, ainda que se denomine católico nesta ou naquela região, vive uma terrível perda generalizada da fé. Pessoas, famílias e sociedades que se orgulhavam de seu batismo, que se ufanavam do título de cristãs, hoje conservam dessa prática religiosa apenas uma vaga lembrança.

Não seria exato dizer, no entanto, que nos transformamos em ateus. Não. O homem é um ser essencialmente religioso, de modo que, se não adora o Deus com “d” maiúsculo, fatalmente ele molda para si outros deuses, com “d” minúsculo; se não é o Evangelho de Cristo e o Catecismo da Igreja que nossa época segue, então são as crendices, as superstições e as idolatrias que predominam.

A crença de que os mortos estão de alguma forma entre nós, por exemplo, é praticamente o ar que respiramos, principalmente no Brasil, devido às fortes influências espíritas que infelizmente recebemos da mídia e de nossos antepassados. Vários anos atrás fez muito sucesso em todo o mundo a produção O Sexto Sentido, cujo enredo reafirma justamente esta tese: a de que as pessoas que morrem, no fundo, não nos deixam, estão andando entre nós, e a algumas pessoas especiais (os chamados “médiuns”) essas almas até apareceriam com certa frequência para revelar ou pedir que sejam feitas certas coisas etc.

Como todo “bom erro”, também este se serve de elementos de verdade para convencer os incautos. Ora, que exista uma vida além desta, todo católico que vá à Missa aos domingos o confessa quando diz: “Creio na vida eterna”. Aparições de pessoas que já morreram, por sua vez, são tão velhas quanto é velha a humanidade, e até a Igreja Católica admite a sua possibilidade extraordinária. Basta pensar nas inúmeras aparições de Nossa Senhora, de Saragoça a Fátima, ou nas visitas que as almas do Purgatório vez ou outra fazem aos vivos, pedindo orações e atestando as verdades de fé que aprendemos na catequese.

Disso não se segue, porém, que não haja barreira entre vivos e mortos nem que comunicações vindas do além sejam como que o pão que comemos todas as manhãs. A sã doutrina católica ensina-nos, a propósito, em consonância com inúmeras passagens bíblicas (cf. Lv 20, 27; Dt 18, 10ss; 1Cr 10, 13; Eclo 34, 2; Is 8, 19; 44, 25; Cl 2, 18), que é pecado tentar estabelecer contato com as almas de nossos entes falecidos. Fazer disso um “dom” ou uma profissão, então, nem se fale.

Mas para Hollywood e para nossos espíritas essa suposta “sensibilidade” para falar com os falecidos seria uma espécie de “sexto sentido”. A ideia por trás é a de um órgão humano mesmo, atrofiado na maioria das pessoas, mas que seria necessário desenvolver, talvez se tornando um “médium” profissional ou coisa do gênero. E o fato de ser um sentido a mais, além dos outros cinco que possuímos — visão, audição, tato, olfato e paladar —, passa a ideia de um conhecimento transcendente, superior. Trocando em miúdos, esse é o máximo que as pessoas conseguem vislumbrar em matéria de espiritualidade, seria esse o ápice da religiosidade moderna.

O que nos ensina, porém, a fé católica? O que Jesus Cristo veio nos ensinar dois mil anos atrás com seu Evangelho? Uma verdade muito mais poderosa e elevante do que a mensagem correntemente propagada pelo espiritismo: que Deus quer nos colocar em contato com Ele mesmo; que Ele quer nos fazer íntimos não apenas de nossos consanguíneos, ou dos santos e anjos do Céu, mas dEle próprio. Por isso, Ele não previu que sua doutrina fosse revelada aos homens por meio de espíritos desencarnados, mas enviou o seu próprio Filho ao mundo — “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” —, e no-lo enviou na carne, a fim de que tomássemos parte em sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Eis a grande novidade do cristianismo, à qual infelizmente a nossa cultura não tem acesso… porque não crê.

Se nos fosse permitido pegar emprestada aqui a ideia do “sexto sentido”, nós diríamos que, sim, todos os seres humanos o têm, e devem usá-lo, e devem aperfeiçoá-lo. Mas este sentido, de que se trata propriamente?

A boa teologia católica nos ensina que a graça santificante, que todos recebemos no sacramento do Batismo, gera em nós um verdadeiro organismo sobrenatural, criado por Deus na alma e com o qual nos relacionamos não com uma alma penada ou outra — pois isso, sinceramente, seria muito pouco, já que a sede de felicidade de nossa alma clama pelo infinito, clama pelo eterno, clama por Deus, e nenhuma criatura neste mundo, por mais amor que tenhamos tido por ela nesta vida, é capaz de preencher esse vazio… Com esse organismo, nós nos relacionamos com o próprio Deus vivo, que nos alimenta continuamente através da oração e dos sacramentos de sua Santa Igreja.

Isso só nos parece pouca coisa — e muitos de nós talvez gostaríamos de ter mais a presença dos próprios entes queridos que a presença de um Deus que não somos capazes de tocar, sentir, pegar etc. — porque é pouca nossa fé, e grande o nosso “sentimentalismo”. Aqui, a analogia dos sentidos precisa ser retomada para nos recordar que a experiência religiosa é fundamentalmente uma experiência que transcende, que supera, diferentemente daquilo a que temos acesso com nossa visão, nosso tato e nossos outros sentidos. Nas palavras do Apóstolo, “coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

Nosso Senhor também, ao falar do Reino de Deus, referiu-se certa vez a um tesouro escondido que, para ser encontrado, requer que também nós nos escondamos, nos retiremos no interior do nosso coração (cf. Mt 13, 44-46). Com isso, Cristo estava a indicar-nos que precisamos sair da experiência meramente sensorial para entrar em contato com Ele. A oração cristã, quando bem compreendida e realizada, é justamente essa experiência — a respeito da qual há vários cursos disponíveis em nosso site, a propósito.

Sem oração, desenganemo-nos, nossa única familiaridade será com as coisas daqui, com as realidades deste mundo terreno e passageiro. Se não tirarmos um pedaço do nosso dia para entrarmos em contato com as verdades divinas, para nos alimentarmos com a sua Palavra, viveremos só do que conhecemos com nossos sentidos, continuaremos na carne… e nosso destino eterno será o equivalente dessa escolha terrível: pereceremos juntamente com nossos cinco sentidos.

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Um jovem em meio aos anjos do Céu
Santos & Mártires

Um jovem em meio aos anjos do Céu

Um jovem em meio aos anjos do Céu

Ao chamar de “angélico” o jovem Luís Gonzaga, a Igreja não apenas faz uma comparação poética entre a castidade deste santo e a graça dos anjos, mas lembra que certos homens, por suas virtudes, podem superar em glória as próprias cortes celestes.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Amanhã, 22 de junho, é dia de lançamento no site do Padre Paulo Ricardo! Acesse nossa página “Anjos e Demônios” e não perca este novo conteúdo que preparamos para você!

Luís Gonzaga, o santo que a Igreja celebra no dia de hoje, 21 de junho, é aclamado por sua pureza, mas também pela vida penitente que levou — informação que consta, inclusive, na oração litúrgica de sua festa: 

Deus, caeléstium auctor donórum, qui in beáto Aloísio miram vitae innocéntiam cum paeniténtia sociásti, eius méritis et intercessióne concéde, ut, innocéntem non secúti, paeniténtem imitémur. Per Dóminum… — Ó Deus, autor dos dons celestes, que unistes no jovem Luís Gonzaga a penitência com uma admirável pureza de vida: concedei-nos, por seus méritos e preces, imitá-lo na penitência, se não o seguimos na inocência. Por nosso Senhor Jesus Cristo…

A ideia de que devemos nos penitenciar por nossos pecados, como se sabe, é praticamente uma marca do catolicismo. Jesus morreu uma vez por todas para expiar as nossas culpas, sim, mas — para pegar emprestada uma ideia de Pascal — Ele também continua a agonizar até o fim do mundo, nos membros de seu Corpo, que é a Igreja. Não sem razão o Apóstolo dizia completar em sua carne o que faltava à Paixão de Cristo (cf. Col 1, 23).

Vale lembrar também que essa exigência da justiça divina é uma oportunidade de grande crescimento para nós. Cristo não nos redimiu para que ficássemos ociosos, mas para que, através de nossas obras, colaborássemos com Ele na redenção do mundo inteiro. Nossas penitências têm um valor reparador e salvífico. Isso faz de nós corredentores com Nosso Senhor.

A recusa em fazermos isso neste mundo implica para nós, no mínimo, uma estadia mais longa no Purgatório. “Porque tu não és um Deus que ame a iniquidade; nem habitará junto de ti o maligno, nem os injustos poderão permanecer diante dos teus olhos” (Sl 5, 5-6). Quem não se purificou de suas culpas neste mundo deverá fazê-lo no outro, e desta espécie de prisão não sairá enquanto não tiver pago até o último centavo de sua dívida (cf. Mt 5, 26). 

Um jovem “angélico”

Outra coisa, no entanto, deve chamar-nos a atenção em São Luís Gonzaga. Na oração que o rito tridentino prescreve para esta festa em sua honra, consta uma palavra que, infelizmente, foi retirada da oração atual. Percebam: 

Caeléstium donórum distribútor, Deus, qui in angélico júvene Aloísio miram vitae innocéntiam pari cum paeniténtia sociásti: eius méritis et précibus concéde; ut, innocéntem non secúti, paeniténtem imitémur. Per Dóminum nostrum… — Ó Deus, despenseiro dos bens celestes, que no angélico jovem Luís unistes uma admirável inocência de vida com igual penitência: por seus méritos e preces, concedei-nos que, não o havendo seguido nas vias da pureza, o imitemos na prática da penitência. Por Nosso Senhor...
São Luís Gonzaga, numa obra de Guercino.

A expressão angélico iúvene, “jovem angélico”, não é apenas uma comparação poética entre a castidade de Luís e a graça dos anjos, mas serve para recordar uma doutrina muito bela a respeito dos lugares que os bem-aventurados ocuparão no Céu. Segundo ninguém menos que Santo Tomás de Aquino, é possível que certos homens brilhem tanto com sua santidade, que superem em glória os próprios anjos.

Isso não significa que as almas dos justos se “transformarão” em anjos. Diferentemente do espiritismo reencarnacionista, que vê o ser humano como uma alma presa num corpo, a doutrina católica faz questão de distinguir muito bem as naturezas humana e angélica: nós somos formados de corpo e alma e, no fim dos tempos, nossas almas se unirão novamente aos seus corpos, quando ocorrer a ressurreição dos mortos. Os anjos, porém, são espíritos puros, sem nenhuma mistura de matéria. Trata-se de dois seres diferentes.

Por isso, na ordem natural, os anjos são sempre superiores aos seres humanos; na escala da Criação, eles são os seres mais nobres formados por Deus. Na ordem sobrenatural, porém, alguns homens, pela vida virtuosa que levaram, podem ascender aos mais altos postos do Céu, tomando lugar entre os anjos. Com a palavra, o Doutor Angélico: 

As ordens angélicas se distinguem pela condição natural e pelos dons da graça. Se, pois, se consideram as ordens angélicas quanto aos graus da natureza, os homens jamais poderão ser elevados às ordens angélicas, porque sempre permanecerá a distinção das naturezas. Considerando isso, alguns julgaram que os homens de nenhum modo podem ser transferidos à igualdade com os anjos. Entretanto, essa opinião é falsa, por contradizer a promessa de Cristo, que disse em Lc 20, 36 que os filhos da ressurreição serão iguais aos anjos nos céus. Efetivamente, o que provém da natureza está como elemento material na razão das ordens, enquanto o que é perfectivo provém do dom da graça, que depende da liberalidade divina e não da ordem da natureza. Sendo assim, pelo dom da graça os homens podem merecer uma glória tal, que se igualem aos anjos, de acordo com cada uma de suas ordens. Ora, isso significa que os homens são elevados às ordens angélicas (STh I 108, 8c.).

A esse belo ensinamento do Aquinate o Pe. Royo Marín ajunta outro, do Cardeal Caetano: 

Comentando esta sublime doutrina, o Cardeal Caetano declara que nem todos os homens serão elevados aos coros dos anjos, senão que alguns ascenderão sobre os próprios anjos, como a Virgem Maria; outros se mesclarão com eles, como os Apóstolos e os grandes santos; e outros, enfim, ficarão abaixo de todos eles, como pode racionalmente crer-se quanto às crianças que voam ao céu imediatamente depois do batismo (ou seja, sem haver contraído, todavia, nenhum mérito pessoal) e de outros muitos que não alcançaram neste mundo o grau de graça dos anjos inferiores (Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 374).

Nossa Senhora é invocada como Regina angelorum, “Rainha dos anjos”. Por isso, sua posição no Céu acima de todas as hierarquias angélicas está praticamente fora de questão. Poderíamos considerar também que São Francisco de Assis, chamado por seus filhos espirituais de “Pai Seráfico”, ocupa uma posição especial na ordem dos serafins? E quanto ao jovem Luís Gonzaga, chamado de “angélico” pela liturgia antiga, que lugar deve ocupar entre os espíritos celestes? 

A resposta a essas perguntas, só a descobriremos do outro lado. O certo é que, seja como for, se com a graça de Deus viermos a nos salvar, no Céu “não haverá duas sociedades, uma dos anjos e outra dos homens, mas somente uma única, porque a bem-aventurança de todos consiste na adesão ao Deus único” (STh I 108, 8c.).

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Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás
Espiritualidade

Sagrado Coração:
nosso refúgio contra Satanás

Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás

Durante as mais terríveis tentações e ataques diabólicos, o Sagrado Coração de Jesus é um refúgio seguro. Eis aqui sete formas através das quais essa devoção pode nos proteger do pecado e do mal.

Kathleen BeckmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção nossa. É de Deus. É a devoção de Deus por nós”, escreve o Pe. James Kubicki, SJ, em seu livro A Heart on Fire [“Um Coração em Chamas”, sem tradução para o português]. Ele também nos lembra que a devoção ao Sagrado Coração não começou no século XVII com as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, uma religiosa visitandina — mas começou “antes do tempo, no Coração eterno de Deus”. Essa verdade ajuda-nos a alcançar a feliz redescoberta do amor perfeito de Deus por nós. Deus não precisa receber nosso amor de volta, mas, no mistério da misericórdia divina, Ele deseja nosso amor recíproco. Deus deseja uma comunhão amorosa e duradoura conosco. Embora nossos corações sejam frequentemente instáveis, esquecidos e temerosos, seu coração está voltado atentamente para nós.

Na cultura atual, tão carente de amor, nosso conceito de amor é facilmente distorcido, disperso e destruído. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma provisão poderosa contra a destruição do amor autêntico. Cristo está presente, vivo e atuante, e o seu Sagrado Coração entoa uma canção de amor que é exclusivamente pessoal.

O diabo, nosso velho inimigo (cf. Ef 6, 11-13; 2, 1-7, Zc 3, 1-2; 1Ts 2, 18; Ap 12, 10), trama metodicamente a destruição esmagadora do amor autêntico a Deus e ao próximo. A tentação diabólica busca a distorção da imagem de Deus, a dispersão do nosso objetivo eterno e a destruição do amor. Quando a alma experimenta a ausência de amor autêntico, ela prontamente sucumbe à sedução de tentações diabólicas. No ministério da Igreja de libertação e exorcismo, vemos isso com frequência. Um coração em chamas que, com e por amor divino, repele os demônios.

O Catecismo da Igreja (n. 385) aborda a realidade do mal e nossa necessidade de “fixar os olhos da fé naquele que é o seu único Vencedor”:

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza — que aparecem ligados às limitações próprias das criaturas — e, sobretudo, à questão do mal moral. De onde vem o mal? “Eu perguntava de onde vem o mal e não encontrava saída”, diz Santo Agostinho, e sua própria busca sofrida não encontrará saída, a não ser na conversão ao Deus vivo. Pois “o mistério da iniquidade” (2Ts 2, 7) só se explica à luz do “mistério da piedade”. A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que é o seu único Vencedor.

Quando fixamos nossos olhos e coração no Sagrado Coração de Jesus, percebemos que o coração de Deus é amoroso, onipotente, onisciente e protetor das criaturas amadas. O Sagrado Coração queima com um poder incompreensível para criar o bem e destruir o mal. Nosso foco é sempre o coração eucarístico de Deus, não a obra do diabo. Embora percebamos a batalha espiritual ao nosso redor e sejamos capazes de discernir bem os espíritos, interna e externamente, nossos corações devem comungar com o Sagrado Coração. Durante as terríveis tentações e os piores ataques diabólicos, o Sagrado Coração é um refúgio. Sobretudo na adoração, podemos olhar, rezar, dialogar, revigorar, discernir e ser preenchidos com o combustível da graça, para resistir ao diabo e proclamar a vitória de Cristo.

Proponho a seguir sete formas através das quais a devoção ao Sagrado Coração pode nos proteger do pecado e do mal.

1. Sagrado Coração: Encarnado. — A guerra eclodiu no Céu com a revelação do plano de Deus para a Encarnação do Verbo.

Detalhe da “Queda dos Anjos Rebeldes”, por Luca Giordano.

A rebelião de um terço dos seres angélicos (agora chamados demônios) ocorreu porque eles não aceitariam que o Filho de Deus se tornasse “carne” na forma humilde de uma criatura nascida de uma mulher. A devoção ao Sagrado Coração cultiva o amor encarnado. Honrar o Coração humano de Jesus Cristo, amar o Coração vivo do Verbo encarnado, capacita-nos a imitá-lo no amor ao Pai, a nós mesmos e aos outros. Isso frustra o plano do diabo de nos afastar de nosso Criador com dúvidas de que Deus é impessoal e desinteressado. Nosso coração, unido ao Coração de Cristo, torna-se uma fortaleza impenetrável. E os demônios até podem cercar a fortaleza, mas não podem entrar nela.

2. Sagrado Coração: Eucarístico. — Entramos no drama épico da maior história de amor de todos os tempos através da comunhão com Jesus na Eucaristia. Como os discípulos no caminho de Emaús, reconhecemos Jesus ao partir o pão. Reacender o “espanto” eucarístico é um termo que o Papa João Paulo II usou em sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Este espanto do coração humano acende o fogo do amor divino dentro de nós. Os demônios desprezam o Anfitrião humilde. De acordo com os santos, os demônios temem os discípulos que vivem uma vida eucarística intencional. O Sagrado Coração é o vaso de onde flui o precioso Sangue que salva vidas. O diabo trabalha incansavelmente para nos manter longe da Sagrada Comunhão. Para consternação dos demônios, que vivem amaldiçoando, a vida eucarística forma uma vestimenta de louvor que abençoa.

3. Sagrado Coração: Revelação. — Jesus Cristo encarnado revela o rosto e o coração de nosso Pai celestial. Precisamos desesperadamente dessa revelação da verdade para saber quem somos: filhos de Deus. Quando aceitamos a revelação de Jesus Cristo, conhecemos nossa dignidade e destino. Isso nos fundamenta na verdade para que, quando o Mentiroso, o Enganador e o Ladrão nos atacar, permaneçamos firmes na revelação da misericórdia de Deus. A devoção ao Sagrado Coração nos ajuda a lembrar a Revelação: o Evangelho do amor. O diabo planeja metodicamente como nos dispersar da Revelação e de sua relevância. Quando o diabo nos tenta para que duvidemos da existência de Deus, ou insinua que Ele é mau ou perverso, podemos voar para a proteção do Sagrado Coração, recordando a revelação do amor divino. Saber quem Deus diz que eu sou me fortalece para resistir às mentiras do diabo.

4. Sagrado Coração: Palavra. — O Papa Bento XVI nos recordou: “Nunca devemos esquecer que toda espiritualidade cristã autêntica e viva se baseia na Palavra de Deus proclamada, aceita, celebrada e meditada na Igreja” (Verbum Domini, n. 121). Desde o início, a Palavra é amor. A criação da humanidade é deliberadamente orquestrada para atrair todas as coisas a Deus, no qual está a satisfação de todos os desejos. Nas Escrituras, lemos sobre a vida de Cristo na terra; seus muitos encontros humanos onde o amor se manifestou. Seu Coração é tocado, Ele chora, cura, serve, dorme, come, reza — Ele entende homens e mulheres. Isso vai contra o demônio, que procura extinguir de nossa consciência a dignidade que nos foi dada por Deus. A Palavra tem um coração de amor infinito, voltado para você e para mim. O diabo odeia essa realidade porque ele vive na solidão e alheio ao amor.

5. Sagrado Coração: Altar de sacrifício. — O Sagrado Coração é um coração para os outros. O Pe. Simon Tugwell, OP, ensina: “A liturgia fielmente celebrada deve ser um itinerário de longo prazo na expansão do coração; torna-nos cada vez mais capazes da totalidade do amor que há no Coração de Cristo”. O sacrifício perfeito do amor de Cristo é perpetuado no altar. Essa é também a proclamação de sua vitória sobre o mal. O diabo, orgulho em pessoa, é desfeito pela humildade de Cristo no altar do sacrifício. Ame sacrifícios; Ele deu sua própria vida. O Sagrado Coração irradia amor que se dirige ao outro: os pobres, esquecidos, doentes e enlutados. Seu Coração morre e ressuscita por nossa causa. Orgulhosos e rancorosos, os demônios invejam o poder de Cristo para salvar por meio do amor sacrificial. Sempre que amamos com sacrifício, nossa armadura espiritual é fortalecida.

6. Sagrado Coração: Reparação. — “A verdadeira devoção ao Sagrado Coração depende de uma compreensão adequada da reparação, um antigo termo teológico que remete à correção, expiação, salvação e redenção”, explica o Pe. Kubicki. Em seu livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Bento XVI escreveu: “Deus não pode pura e simplesmente ignorar toda a desobediência dos homens, todo o mal da história, não pode tratá-lo como algo irrelevante e insignificante. Uma tal espécie de ‘misericórdia’, de ‘perdão incondicionado’, seria aquela ‘graça a baixo preço’ contra a qual se pronunciou com razão Dietrich Bonhoeffer, diante do abismo do mal do seu tempo”. Cristo pagou a dívida dos pecadores. Mas o pecado continua. Nós, que cremos, podemos nos unir à reparação de Cristo e oferecer nossos sofrimentos e sacrifícios para ajudar a reparar. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos ajuda a entrar no amor reparador de Cristo. Assim, marcamos território, subtraindo do diabo as tantas almas que ele levaria para o abismo.

7. Sagrado Coração: união com o Imaculado Coração. — A Igreja celebra a festa do Sagrado Coração na sexta-feira e a festa do Imaculado Coração no sábado para nos recordar a unidade que há entre elas. Jesus Cristo e sua Mãe Maria estão unidos na vontade do Pai e não podem ser separados. A devoção e a consagração ao Sagrado Coração de Jesus complementam espiritualmente a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Essa união sagrada constitui uma fonte de proteção contra os espíritos malignos. Entre o Sagrado Coração Eucarístico e o Coração virginal e Imaculado, há um espaço reservado para você e para mim, onde nenhum espírito maligno ousa entrar. Permaneçamos sob a proteção amorosa dessa união entre o Sagrado e o Imaculado Coração, onde estamos seguros enquanto caminhamos no vale da morte e do mal.

Essa devoção traz muitos frutos espirituais porque, como escreveu o Papa Bento XVI: “Nosso Deus não é um Deus remoto intangível em sua bem-aventurança. Nosso Deus tem um coração”. E o seu coração? A quem ele pertence?

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Junho, o mês dos irmãos
Santos & Mártires

Junho, o mês dos irmãos

Junho, o mês dos irmãos

“Esta é a verdadeira fraternidade: pela efusão do próprio sangue eles seguiram a Cristo”. Junho pode ser considerado “o mês dos irmãos”, pois nele encontramos um quarteto de mártires fraternos que conquistaram juntos a vida eterna.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos mais belos aspectos da liturgia romana tradicional é o rico calendário de santos que ela nos põe diante dos olhos, ano após ano. 

O calendário do moderno rito papal de Paulo VI, de 1969, removeu mais de 300 santos; ao mesmo tempo, reorientou a celebração da primeira parte da Missa em uma marcha mais regimentada através da Escritura, tornando opcional o uso dos “próprios” que se referiam aos santos. O resultado é uma liturgia que parece muito mais distante e separada do culto aos santos e de seus traços particulares, sem qualquer compensação de nos sentirmos mais próximos e ligados à adoração de Cristo, que é o Rei deles. 

Num paradoxo formidável, a intensa veneração que os santos recebem na Missa em latim — especialmente Nossa Senhora, mencionada dez ou onze vezes, em comparação com as menções no rito de Paulo VI, que vão de uma a quatro — realça de alguma forma a dignidade sublime do Filho de Deus, cuja face os santos contemplam e do qual todos eles são imagem, como heliotrópios seguindo o curso do Sol. O culto aos santos, longe de diminuir o senhorio de Cristo, manifesta antes o seu poder e extensão. Ele é muito maior quando vemos a grandeza da corte que o circunda

Há então, de tempos em tempos, “agrupamentos” especiais dentro da grande companhia dos santos, que encontramos organizados no calendário tradicional pelas misteriosas disposições da divina Providência. Um exemplo é o que eu gosto de chamar “o mês dos irmãos”, junho, onde encontramos um quarteto de irmãos de sangue que conquistaram juntos a vida eterna

Em 9 de junho, celebramos as festas dos santos Primo e Feliciano, assim descritos no Martirológio Romano

Em Nomento, na Sabina, o natalício dos santos Mártires Primo e Feliciano, irmãos, em tempo dos Imperadores Diocleciano e Maximiano. Estes gloriosos Mártires, já avançados em anos passados no serviço do Senhor, depois de suportarem, ora juntos, tormentos iguais e comuns, ora separados um do outro, tormentos diversos e esquisitos, finalmente mortos ambos à espada, por ordem de Promoto, Presidente de Nomento, consumaram o curso de sua feliz peleja; os seus corpos transladados mais tarde para Roma, foram colocados honorificamente na Igreja de santo Estêvão Protomártir, no Monte Célio.

Em 18 de junho, a festa de Santo Efrém, o Sírio, acompanha a comemoração dos santos Marcos e Marceliano, sobre os quais diz o mesmo Martirológio

Em Roma, na estrada Ardeatina, o natalício dos santos Mártires Marcos e Marceliano, irmãos, aos quais, presos e atados a um tronco, por ordem do juiz Fabiano, foram fincados nos pés agudos pregos; mas como não cessassem de louvar a Cristo, foram traspassados com lanças pelos lados, e com a glória do martírio, passaram aos reinos celestiais. 

Se for rezada a Missa para esses irmãos — embora o mais usual seja dizer a Missa de Santo Efrém, que foi adicionada ao calendário mais tarde —, este texto especial de Alleluia é recitado ou cantado: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae numquam pótuit violári certámine: qui, effúso sánguine, secúti sunt Dóminum. Allelúia, “Aleluia, aleluia. Esta é a verdadeira fraternidade, que a espada jamais pôde violar: foi pela efusão do próprio sangue que eles seguiram a Cristo. Aleluia”.

Em 19 de junho, festa de Santa Juliana Falconieri, comemoram-se os santos Gervásio e Protásio: 

Em Milão, os santos Mártires Gervásio e Protásio, irmãos, ao primeiro dos quais tanto tempo o Juiz Astásio mandou açoitar com látegos chumbados, que exalou o último suspiro; ao segundo, depois de espancá-lo com paus, mandou cortar a cabeça. Os corpos destes santos foram encontrados por santo Ambrósio, por divina revelação, banhados no próprio sangue e tão incorruptos como se tivessem sido mortos no mesmo dia; em cuja transladação, um cego, tocando o féretro, recobrou a vista, e muitos, vexados dos demônios, ficaram livres.

Por fim, cai no dia 26 de junho a memória dos santos João e Paulo, aos quais a devoção em Roma era tão forte, que seus nomes se acham no Cânon Romano. O Martirológio nos dá a respeito deles este breve relato: 

Em Roma, no monte Célio, os santos Mártires João e Paulo, irmãos, o primeiro dos quais era mordomo-mor e o segundo primicério de Constância Virgem, filha do Imperador Constantino, e ambos mais tarde, em tempo de Juliano Apóstata, foram mortos à espada e receberam a palma do martírio.

De modo notável, a Coleta desta última festa define uma nova forma de “fraternidade de sangue” que é alcançada pela fé em Cristo, o qual derramou o seu sangue por nós, e pelo derramamento do próprio sangue por Ele: 

Quáesumus, omnípotens Deus: ut nos gemináta laetítia hodiérnae festivitátis excípiat, quae de beatórum Joánnis et Pauli glorificatióne procédit; quos éadem fides et pássio vere fecit esse germános. Per Dóminum nostrum..., “Nós vos pedimos, ó Deus onipotente, que neste dia de festa sintamos a dupla alegria do triunfo dos bem-aventurados Paulo e João, os quais irmanou de verdade a mesma fé e martírio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo…”.
“Martírio dos Santos João e Paulo”, de Guercino.

O Gradual da Missa é tomada do Salmo 132: Ecce quam bonum, et quam iucúndum, habitáre fratres in unum, “Vede como é belo e agradável a vida harmoniosa entre irmãos”, e o Alleluia repete o de 9 de junho, em continuidade e complemento à ideia da Coleta: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae vicit mundi crímina: Christum secúta est, ínclyta tenens regna caeléstia. Allelúia, “Esta é a fraternidade verdadeira, que venceu o mundo, seguiu a Cristo e reina agora venturosa na glória do paraíso. Aleluia”.

Uma ironia final deve ser mencionada: muitos dos santos removidos por Paulo VI são santos que nós, católicos romanos, veneramos em comum com os cristãos ortodoxos do Oriente. É o caso de três desses pares de irmãos juninos: Marcos e Marceliano (cuja festa no calendário oriental é em 18 de dezembro), Gervásio e Protásio (celebrados pelo Oriente em 14 de outubro) e João e Paulo (observados no mesmo dia). Um dos mais danosos legados da reforma litúrgica foi, por um lado, o enxerto de elementos “bizantinizantes” estranhos no rito romano e, por outro, o expurgo de elementos genuinamente comuns que sempre estiveram presentes — um golpe tanto contra a fidelidade ao tipo quanto contra a fraternidade eclesiástica.

Haec est vera fraternitas: essa é a verdadeira fraternidade que une os mártires, que une todos os cristãos nos vínculos da fé e do sofrimento, onde quer que eles estejam, seja qual for seu status ou estado de vida. Em uma inversão da lógica do mundo, segundo a qual o sangue é mais espesso do que a água, a religião cristã nos mostra que a água é mais espessa que o sangue: a irmandade espiritual inaugurada pelo Batismo nos une mais profunda e eternamente que os laços da geração biológica e da cultura familiar. Na verdade, é precisamente o Batismo cristão de ambos os cônjuges que faz o seu amor humano natural e o seu ato de geração serem elevados ao nível da caridade e da fecundidade sobrenaturais no sacramento do Matrimônio, e é esse mesmo Batismo, vivido, que torna a família uma imagem da vida que têm em comum os santos no Céu.

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A obra-prima do Artista divino
Espiritualidade

A obra-prima do Artista divino

A obra-prima do Artista divino

Ao contrário dos escultores humanos, Deus não trabalha com matéria morta. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. O divino Artista nos deu a liberdade de corresponder (ou não) aos golpes de seu cinzel e ao suave toque de seus dedos.

Elizabeth A. MitchellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Dizem que Michelangelo era capaz de ver as figuras que ele esculpia através dos rudes blocos de mármore. Seu trabalho como escultor consistia em libertar a obra de arte da pedra e fazer a imagem vir à tona. Em correspondência praticamente perfeita com o arquétipo na mente de Michelangelo, sua imagem de Nossa Senhora da Piedade (a Pietà), dolente, silenciosa e amorosamente abandonada à Paixão de Nosso Senhor, irradia o poder de uma obra-prima.

O mesmo se dá com as imagens vivas trabalhadas pelo Artista divino.

O Senhor vê através de cada um de nós sua própria esperança pelo cumprimento perfeito de tudo o que Ele nos criou para ser. Para cada ser humano, há um arquétipo divino dentro do coração de Deus. Nós nos tornamos, em maior ou menor medida, a pessoa que Ele nos chamou a ser, e quando correspondemos mais de perto a seu perfeito ideal para nossas vidas, também nos tornamos uma obra de arte.

E há, todavia, uma diferença. Deus, o divino Artesão, não trabalha com matéria inanimada. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. Nosso Senhor infundiu em nós o seu Espírito Santo, deu-nos a liberdade de corresponder (ou não) a seus golpes artísticos. O gênio amoroso de nosso divino Artesão é que Ele trabalha com matéria viva, que respira e possui livre-arbítrio.

Santa Edith Stein trata desta colaboração entre o Artista divino e sua obra de arte viva no poema espiritual I Am Always in Your Midst [“Eu estou sempre em vosso meio”]:

O eterno Artesão… não mexe com matéria morta;
Na verdade, a sua maior alegria criativa é
Que, debaixo de sua mão, a imagem mexe,
Que a vida, para encontrá-lo, se derrama.
A vida que ele próprio colocou dentro dela
E que agora desde dentro lhe responde
Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo.
Assim ajudamos Deus em sua obra de arte [1].

“Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo”. Nós sabemos os momentos em que o Mestre Artesão nos molda com seu martelo. Já sentimos a natureza dura e contundente dos golpes. Quantas vezes não nos desviamos para evitar sua mira precisa e perfeita! E, então, o seu dedo acaricia. O fino acabamento é acrescentado imperceptivelmente com o menor e mais suave de seus pincéis.

O resultado desta colaboração é o esplendor da alma humana trazida para perto da beleza divina por meio da graça, imagens vivas que declaram o divino Amor ao qual corresponderam, ultrapassando até mesmo as mais impressionantes obras de arte materiais. E nós todos reconhecemos uma tal obra-prima, quando a encontramos.

As imagens vivas que encontrou ao longo de sua conversão chamaram Santa Edith Stein a refletir sobre a origem delas. Em Frankfurt, enquanto pretendia visitar os museus e a catedral, ela se viu paralisada diante de uma mulher que havia simplesmente se ajoelhado para rezar: 

Nós paramos na catedral por alguns minutos e, enquanto olhávamos ao redor com respeitoso silêncio, uma mulher carregando uma cesta de mercado apareceu e se ajoelhou em um dos bancos para rezar rapidamente. Aquilo foi algo inteiramente novo para mim… Jamais pude esquecer isso.

Essa modesta mulher não ficaria sabendo jamais do impacto profundo que seu ato de fé diário teria sobre uma grande mente filosófica à procura da verdade. Não foi um argumento teológico que convenceu Edith Stein da pessoa de Cristo, mas a conversa que ela testemunhou entre uma dona de casa e o seu Senhor.

Antes de entrar na vida religiosa, Edith Stein; antes de entrar na vida definitiva, Santa Teresa Benedita da Cruz.

Mais tarde, a própria Edith Stein se tornaria uma imagem viva, em sua disposição de sofrer o martírio no campo de concentração em Auschwitz. Durante suas horas finais, ela confortava as crianças cujas mães, perturbadas, não conseguiam lhes dar os cuidados convenientes. Conta-se, de fato, que em seus atos de amor e misericórdia ela parecia “uma Pietà viva”, ao carregar aquelas crianças sofridas nos braços, no lugar de Cristo. Com isso, ela dava testemunho pleno de sua fé no Senhor ao qual havia entregado a própria vida.

Nossa Senhora mesma, devotada tão profundamente ao Espírito Santo, viveu como uma obra-prima da Vontade Sacratíssima do Senhor em cada momento de sua vida. Seu Coração sempre foi um com o divino Coração. Sob o seu Imaculado Coração, o Coração divino tomou a carne de um coração humano. Assim, onde quer que estivesse Nossa Senhora, ali a vontade perfeita do Senhor para sua vida se fazia manifesta. Sua entrega fiel e de fé traz os nossos corações ao Coração de seu divino Filho, dispondo-nos a abraçar com total confiança o melhor e mais santo plano de Amor do Pai.

A força de uma tal obra-prima exige uma resposta à altura. Não podemos parar diante do vidro do museu, admirar a imagem e continuar nosso caminho. Precisamos ser mudados interiormente. Escreve Edith Stein: 

Dificilmente haverá um artista que, crendo, não tenha se sentido compelido a retratar Cristo na cruz ou carregando a cruz. Mas o Crucificado exige do artista mais que uma mera representação de sua imagem. Ele exige que o artista, assim como qualquer outra pessoa, o siga: que ele, ao mesmo tempo, se transforme e permita a si mesmo ser transformado numa imagem daquele que carrega a cruz e é crucificado.

Quando nós re-criamos dentro de nossas próprias vidas a verdade e a beleza que a imagem revelou, nós refletimos uma vez mais o majestoso esplendor da magnífica arte de Nosso Senhor. O próprio Cristo mostrou o caminho. Oferecendo a si mesmo aos golpes de martelo do guarda romano no monte Calvário, sua imolação se torna a nossa Redenção. A lança do centurião perfura-lhe o lado, do qual sangue e água jorram como sinal de purificação e da vida de seu Coração glorioso e trespassado, sempre pronto a acolher-nos.

Através dele nós vislumbramos o caminho perfeito. Com Ele, respondemos ao seu chamado, adorando, louvando e correspondendo à graça de sua Santa Cruz, a obra-prima de amor por meio da qual Ele redimiu o mundo.

Notas

  1. The eternal Artist… does not work on dead material; / His greatest creative joy in fact is / That under his hand the image stirs, / That life pours forth to meet him. / The life that he himself has placed within it / And that now answers him from within / To chisel blows or quiet finger stroke. / So we collaborate with God on his work of art. A tradução que fizemos foi feita a partir da versão inglesa do poema.

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