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O verdadeiro “sexto sentido”
Espiritualidade

O verdadeiro “sexto sentido”

O verdadeiro “sexto sentido”

Se tivéssemos um “sexto sentido” aguçado para falarmos com nossos entes queridos que já se foram, isso ainda seria muito pouco, diante da dádiva que é nos relacionarmos com o próprio Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Quando deixam de acreditar em Deus, as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa”: eis uma sentença atualíssima de G. K. Chesterton. Não é novidade para ninguém que nosso mundo, ainda que se denomine católico nesta ou naquela região, vive uma terrível perda generalizada da fé. Pessoas, famílias e sociedades que se orgulhavam de seu batismo, que se ufanavam do título de cristãs, hoje conservam dessa prática religiosa apenas uma vaga lembrança.

Não seria exato dizer, no entanto, que nos transformamos em ateus. Não. O homem é um ser essencialmente religioso, de modo que, se não adora o Deus com “d” maiúsculo, fatalmente ele molda para si outros deuses, com “d” minúsculo; se não é o Evangelho de Cristo e o Catecismo da Igreja que nossa época segue, então são as crendices, as superstições e as idolatrias que predominam.

A crença de que os mortos estão de alguma forma entre nós, por exemplo, é praticamente o ar que respiramos, principalmente no Brasil, devido às fortes influências espíritas que infelizmente recebemos da mídia e de nossos antepassados. Vários anos atrás fez muito sucesso em todo o mundo a produção O Sexto Sentido, cujo enredo reafirma justamente esta tese: a de que as pessoas que morrem, no fundo, não nos deixam, estão andando entre nós, e a algumas pessoas especiais (os chamados “médiuns”) essas almas até apareceriam com certa frequência para revelar ou pedir que sejam feitas certas coisas etc.

Como todo “bom erro”, também este se serve de elementos de verdade para convencer os incautos. Ora, que exista uma vida além desta, todo católico que vá à Missa aos domingos o confessa quando diz: “Creio na vida eterna”. Aparições de pessoas que já morreram, por sua vez, são tão velhas quanto é velha a humanidade, e até a Igreja Católica admite a sua possibilidade extraordinária. Basta pensar nas inúmeras aparições de Nossa Senhora, de Saragoça a Fátima, ou nas visitas que as almas do Purgatório vez ou outra fazem aos vivos, pedindo orações e atestando as verdades de fé que aprendemos na catequese.

Disso não se segue, porém, que não haja barreira entre vivos e mortos nem que comunicações vindas do além sejam como que o pão que comemos todas as manhãs. A sã doutrina católica ensina-nos, a propósito, em consonância com inúmeras passagens bíblicas (cf. Lv 20, 27; Dt 18, 10ss; 1Cr 10, 13; Eclo 34, 2; Is 8, 19; 44, 25; Cl 2, 18), que é pecado tentar estabelecer contato com as almas de nossos entes falecidos. Fazer disso um “dom” ou uma profissão, então, nem se fale.

Mas para Hollywood e para nossos espíritas essa suposta “sensibilidade” para falar com os falecidos seria uma espécie de “sexto sentido”. A ideia por trás é a de um órgão humano mesmo, atrofiado na maioria das pessoas, mas que seria necessário desenvolver, talvez se tornando um “médium” profissional ou coisa do gênero. E o fato de ser um sentido a mais, além dos outros cinco que possuímos — visão, audição, tato, olfato e paladar —, passa a ideia de um conhecimento transcendente, superior. Trocando em miúdos, esse é o máximo que as pessoas conseguem vislumbrar em matéria de espiritualidade, seria esse o ápice da religiosidade moderna.

O que nos ensina, porém, a fé católica? O que Jesus Cristo veio nos ensinar dois mil anos atrás com seu Evangelho? Uma verdade muito mais poderosa e elevante do que a mensagem correntemente propagada pelo espiritismo: que Deus quer nos colocar em contato com Ele mesmo; que Ele quer nos fazer íntimos não apenas de nossos consanguíneos, ou dos santos e anjos do Céu, mas dEle próprio. Por isso, Ele não previu que sua doutrina fosse revelada aos homens por meio de espíritos desencarnados, mas enviou o seu próprio Filho ao mundo — “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” —, e no-lo enviou na carne, a fim de que tomássemos parte em sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Eis a grande novidade do cristianismo, à qual infelizmente a nossa cultura não tem acesso… porque não crê.

Se nos fosse permitido pegar emprestada aqui a ideia do “sexto sentido”, nós diríamos que, sim, todos os seres humanos o têm, e devem usá-lo, e devem aperfeiçoá-lo. Mas este sentido, de que se trata propriamente?

A boa teologia católica nos ensina que a graça santificante, que todos recebemos no sacramento do Batismo, gera em nós um verdadeiro organismo sobrenatural, criado por Deus na alma e com o qual nos relacionamos não com uma alma penada ou outra — pois isso, sinceramente, seria muito pouco, já que a sede de felicidade de nossa alma clama pelo infinito, clama pelo eterno, clama por Deus, e nenhuma criatura neste mundo, por mais amor que tenhamos tido por ela nesta vida, é capaz de preencher esse vazio… Com esse organismo, nós nos relacionamos com o próprio Deus vivo, que nos alimenta continuamente através da oração e dos sacramentos de sua Santa Igreja.

Isso só nos parece pouca coisa — e muitos de nós talvez gostaríamos de ter mais a presença dos próprios entes queridos que a presença de um Deus que não somos capazes de tocar, sentir, pegar etc. — porque é pouca nossa fé, e grande o nosso “sentimentalismo”. Aqui, a analogia dos sentidos precisa ser retomada para nos recordar que a experiência religiosa é fundamentalmente uma experiência que transcende, que supera, diferentemente daquilo a que temos acesso com nossa visão, nosso tato e nossos outros sentidos. Nas palavras do Apóstolo, “coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

Nosso Senhor também, ao falar do Reino de Deus, referiu-se certa vez a um tesouro escondido que, para ser encontrado, requer que também nós nos escondamos, nos retiremos no interior do nosso coração (cf. Mt 13, 44-46). Com isso, Cristo estava a indicar-nos que precisamos sair da experiência meramente sensorial para entrar em contato com Ele. A oração cristã, quando bem compreendida e realizada, é justamente essa experiência — a respeito da qual há vários cursos disponíveis em nosso site, a propósito.

Sem oração, desenganemo-nos, nossa única familiaridade será com as coisas daqui, com as realidades deste mundo terreno e passageiro. Se não tirarmos um pedaço do nosso dia para entrarmos em contato com as verdades divinas, para nos alimentarmos com a sua Palavra, viveremos só do que conhecemos com nossos sentidos, continuaremos na carne… e nosso destino eterno será o equivalente dessa escolha terrível: pereceremos juntamente com nossos cinco sentidos.

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Um pecado que passa pela “porta dos fundos”
Sociedade

Um pecado
que passa pela “porta dos fundos”

Um pecado que passa pela “porta dos fundos”

Por que sequer as coisas que realmente precisam ser levadas a sério são tratadas por nós com irreverência e com “gracinhas”? Seremos um povo incapaz de cultivar um mínimo que seja de temor a Deus?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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“A Primeira Tentação de Cristo”, o infame “Especial de Natal” produzido este ano pelo canal de “humor” Porta dos Fundos em parceria com a Netflix, e no qual Nosso Senhor Jesus Cristo é retratado como homossexual, é ocasião oportuníssima para falarmos de um destes pecados esquecidos em nossa época, que passam pela “porta dos fundos” da vida de muita gente e quase nunca são enfrentados com a devida energia: trata-se da irreverência com o nome de Deus.

O fato de uma produção igualmente ofensiva, de mesma autoria, ter sido indicada ao prêmio de melhor comédia no Emmy 2018 (e ter ganhado) nos diz ainda mais: zombar da religião cristã não só se tornou comum, mas também motivo de reconhecimento e “merecidos” aplausos. A blasfêmia não só está na moda como há todo um aparato cultural para incentivá-la e servir-lhe de apoio.

A aposta dos blasfemos

Mas em que consiste mesmo esse pecado? O Catecismo da Igreja Católica (n. 2148) ensina que: 

A blasfêmia opõe-se diretamente ao segundo mandamento. Ela consiste em proferir contra Deus — interior ou exteriormente — palavras de ódio, de ofensa, de desafio, em falar mal de Deus, faltar-lhe deliberadamente com o respeito ao abusar do nome de Deus. São Tiago reprova “os que blasfemam contra o nome sublime (de Jesus) que foi invocado sobre eles” (Tg 2, 7). A proibição da blasfêmia se estende às palavras contra a Igreja de Cristo, os santos, as coisas sagradas. [...] A blasfêmia é contrária ao respeito devido a Deus e a seu santo nome. É em si um pecado grave.

O Pe. Antonio Royo Marín entra em mais detalhes em seu livro Teología moral para seglares (v. 1, n. 409), dividindo a blasfêmia em distintas espécies. No caso em questão, a irreverência de Porta dos Fundos poderia caracterizar-se muito bem como uma blasfêmia imediata, porque “vai diretamente contra Deus ou seus divinos atributos”, de obra, já que se trata de uma atuação artística antirreligiosa, e sobretudo diabólica, porque “tem a expressa intenção de injuriar a Deus” em si mesmo.

É claro que os diretores, produtores e atores dessa peça de evidente mau gosto contam com uma, digamos, “variável ateia”: pensam que nem Deus nem o diabo existem e, por isso, tudo o que estão fazendo não passa de simples “brincadeira”, destinada a ofender e ridicularizar apenas as pessoas que, sim, acreditam em Deus.

Mas, tomando emprestada a ideia de Blaise Pascal, essa é uma aposta que tem tudo para dar errado. De fato, se Deus não existisse, os porteiros-dos-fundos deveriam ganhar seu dinheiro de forma honesta, fazendo inclusive boa comédia [1], sem ultrajar a religião de milhões de brasileiros, ainda que não concordem com ela (será que eles seriam capazes de fazer isso?). Agora, se o Deus cristão de quem zombam realmente existe — como demonstra não só a Revelação divina, mas a própria razão natural —, então os piadistas blasfemos têm tudo a perder, principalmente a eternidade.

Que conste em nosso Código Penal um artigo tipificando o crime de ultraje a culto (art. 208), é um resquício, ainda que muito distante, desse pensamento que leva em conta o eterno, e não apenas o meramente material. É por isso que, no Brasil, ainda é crime “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”. Nem todo pecado deve, é verdade e a Igreja tem consciência disso, ser criminalizado, mas o desprezo explícito ao sagrado não pode, definitivamente, ficar impune. Por isso, os cristãos têm razão mais do que suficiente em procurar os meios legais a fim de reparar essa ofensa, que agride os sentimentos, não só religiosos, mas também culturais de boa parte do nosso povo.

Agora, que ateus e anticlericais zombem do nome de Deus, no fundo, não nos deveria impressionar tanto. Que em seu coração eles nutram ódio e desprezo por Alguém em quem nem sequer acreditam, é até, por assim dizer, compreensível. Afinal, quem é para eles Jesus Cristo senão um estraga-prazeres? E que são para eles os dogmas da fé, os Mandamentos, os sacramentos da Igreja, os símbolos cristãos, a vida dos santos todos, enfim, senão um apelo incômodo a suas consciências, um lembrete de que, por mais que tentem se enganar, os homens não podem viver como quiserem, mas devem arcar, já nesta vida, com as consequências inevitáveis de seus atos?

O conhecido filósofo Friedrich Nietzsche, por exemplo, podia até tentar anular seu inferno decretando a “morte de Deus”, mas, mais tarde, a verdade fatalmente lhe viria à tona, ainda que em forma de sífilis. O homem que num ato de sinceridade extrema escreveu: “Se houvesse deuses, como poderia eu suportar não ser um deus?”, no fim da vida depararia com a verdade que ele por tanto tempo procurou sufocar: não somos nós que decidimos como as coisas são ou deixam de ser, não é o homem o autor do bem e do mal; nós existimos por causa de Outro, e a Ele devemos obediência.

A irreverência dos católicos

Voltemos, porém, ao fio da meada e tiremos uma lição bem concreta do caso. Mais trágico e dramático que a blasfêmia dos descrentes é que nós, católicos, também façamos tão pouco caso do santíssimo nome de Deus. Sim, nós mesmos, que fomos batizados, vamos à Missa todos os domingos e talvez até tenhamos uma vida espiritual: como temos tratado o nome do Deus em quem dizemos crer? 

Menos grave do que a blasfêmia, mas muito mais comum do que ela, está o pecado de “proferir sem motivo algum ou sem a devida reverência o nome santo de Deus”. O Pe. Royo Marín (op. cit., n. 405-407) explica que: 

Em si, esse emprego vão do nome santo de Deus é pecado (cf. Eclo 23, 9-11), ainda que não costume passar de venial, por tratar-se de uma irreverência leve. Mas poderia ser mortal se o emprego dessas fórmulas irreverentes fosse expressão de desprezo de Deus (pecado gravíssimo) ou de ira contra Ele (v.gr., pelos castigos divinos), ou fosse motivo de escândalo para os demais (v.gr., de irritá-los fazendo-os blasfemar etc.).

Nessa matéria, os católicos precisamos fazer um grande exame de consciência e um mea culpa: tomar cuidado, antes de tudo, com a nossa própria língua, pois muitas vezes, por impaciência, por admiração e até por rotina, nos acostumamos a proferir o nome de Deus de qualquer modo. 

“O Escarnecimento de Cristo”, por Leo Steel.

Mas não só isso. A mania do brasileiro de fazer troça de tudo precisa ter limites. (Sim, nessa matéria “a zoeira tem limites”, precisa tê-los.) Uma imagem muito ilustrativa do que muitos têm feito com as coisas santas está nas obras sacras que retratam o escarnecimento de Cristo. Retratos muito expressivos desse episódio da vida de Nosso Senhor foram pintados por Gerard van Honthorst, Trophime Bigot e Hendrick Terbrugghen. Procurem essas obras de arte no Google e reparem todos se os rostos de zombaria ao redor de Nosso Senhor não poderiam muito bem ser os nossos, quando nos divertimos com as piadas que vemos (e fazemos) das coisas santas; com os memes e figurinhas de WhatsApp que muitos (católicos!) compartilhamos com imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora e dos santos. 

Ora, nós realmente cremos em tudo o que está no Credo? Cremos em Jesus Cristo, que virá a julgar a vivos e mortos? Se sim, por que insistimos em achar graça justamente do que ofende a Nosso Senhor? Por que até mesmo as coisas que realmente precisam ser levadas a sério são tratadas por nós com irreverência e “gracinhas”? Seremos um povo incapaz de cultivar um mínimo que seja de temor a Deus?

Um bom modo de começar é procurando cultivar um respeito básico pelas pessoas ao nosso redor. Afinal, se não respeitarmos o próximo [2], a quem vemos, como conseguiremos respeitar a Deus, a quem não vemos (cf. 1Jo 4, 20)? 

Outra prática muito salutar nesse sentido é fazer alguma espécie de reverência, nem que seja interna, sempre que ouvirmos ao nosso redor o nome de Deus (e também quando o proferirmos sem muita reflexão). A liturgia católica tradicional nos insere nessa pedagogia ao prescrever que os fiéis se inclinem sempre que forem mencionados os nomes de Jesus e de Maria; quando manda que nos ajoelhemos diante do mistério da Encarnação, na oração do Credo e na proclamação do prólogo de São João, no fim das Missas; e também quando celebra festas como a do Santíssimo Nome de Jesus (no domingo entre a Oitava do Natal e a Epifania, ou no dia 2 de janeiro) e de Maria (em 12 de setembro).

Todos esses são cuidados de amor que precisamos aprender a cultivar, sob pena de nos transformarmos justamente naquilo que tanto repudiamos no mundo. Evidentemente, ninguém está equiparando a blasfêmia diabólica do Porta dos Fundos às irreverências (em grande parte irrefletidas) dos que crêem. Ao contrário dos protestantes, nós sabemos bem que existem graus de gravidade nos pecados. Mas também não podemos dar de ombros para essas “pequenas” coisas, quando elas têm como alvo um Deus tão grande.

Façamos, portanto, a nossa lição de casa. Se queremos que o mundo respeite Nosso Senhor, se queremos que Ele reine não só nos corações, mas também nos lares, nos meios de comunicação, nos governos e no espaço público como um todo, sejamos nós os primeiros a honrá-lo de todo coração, a começar pela boca.

Notas

  1. Diz o Aquinate: “O divertimento (ludus) é necessário à vida humana. Ora, para tudo o que é útil à existência podem ser instituídos alguns ofícios honestos, entre os quais também o ofício dos comediantes. Destinada a distrair as pessoas, essa profissão nada tem, em si, de ilícito, nem vivem em pecado os comediantes, desde que atuem com moderação, ou seja, não usando palavras nem cometendo ações ilícitas, nem levando na brincadeira assuntos e situações inadequadas para isso. E, embora na sociedade não desempenhem outro ofício em comparação com os outros homens, contudo, no que diz respeito a eles próprios e a Deus, realizam também outras atividades sérias e virtuosas, quando, por exemplo, oram, quando tratam de conciliar suas paixões e atividades e também quando dão às vezes alguma esmola aos pobres. Por isso, os que razoavelmente os subsidiam não pecam, mas procedem com justiça, recompensando-lhes o serviço. No entanto, os que superfluamente despendem os seus bens com tais pessoas ou sustentam profissionais afeitos a divertimentos ilícitos, cometem pecado, porque, na prática, os estimulam a pecar” (S. Tomás de Aquino, STh II-II 168, 3 ad 3).
  2. Sem falar que a zombaria das outras pessoas é também um pecado especial, que pode tornar-se inclusive mortal, segundo S. Tomás de Aquino (cf. STh II-II 75, 2 c.).

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Preparação para os Doze Dias do Natal
Liturgia

Preparação para os Doze Dias do Natal

Preparação para os Doze Dias do Natal

O mundo parece celebrar o Natal muito antes da data e, quando ela finalmente chega, todos param de celebrá-la. Mas com os cristãos deve ocorrer justamente o contrário. Entenda o porquê, a partir de algumas reflexões de G. K. Chesterton.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Há mais ou menos cem anos, o sempre alegre G. K. Chesterton lamentava-se de duas coisas que são um problema até hoje: primeiro, em sua profissão de escritor, ele tinha de escrever sobre o Natal muito antes de a festa chegar, justamente para que o texto fosse publicado na data certa. Em segundo lugar, o resto do mundo parecia celebrar o Natal muito antes da data e, quando ela finalmente chegava, todos paravam de celebrá-la. Deveria ocorrer justamente o contrário.

Apesar de amarmos o Natal por causa das tradições a ele associadas, esquecemos uma das mais importantes. Durante séculos, as pessoas não celebravam o Natal sem antes se prepararem bem para a data. E quando ela finalmente chegava, comemoravam-na por doze dias seguidos. Fazia-se jejum em preparação, e depois havia muitos dias de festança. Porém, nos últimos anos, apesar das tentativas oficiais de esvaziar completamente o sentido do Natal, a celebração chega a durar um mês inteiro até a data real da festa; então, ela desaparece de uma hora para outra, e todos os rastros da sua presença são apagados.

Chesterton diz:

Os homens de hoje têm a vaga impressão de que, para ir à festa [de Natal], é preciso chegar logo ao final. Segundo os hábitos comerciais modernos, os preparativos para a festa hão de ser muito compridos, mas a celebração mesma há de ser muito curta. Isso está, obviamente, em clara oposição com os costumes tradicionais, daquela época em que o Natal era uma festa sagrada celebrada por um povo mais simples. Os preparativos assumiam então a forma de um tempo mais austero de Advento, concluído com o jejum na véspera do Natal. Mas, quando enfim chegava a hora, a celebração se estendia por dias a fio após o Dia de Natal. A comemoração se tornava sempre um “feriado prolongado” de pelo menos doze dias de júbilo.

As celebrações do Natal, conclui Chesterton, chegavam às vezes a culminar em excessos, eternizados por um escritor do qual muitos já ouviram falar, William Shakespeare, em sua peça A Décima Segunda Noite. Embora muitos conheçam a peça, poucos entendem o seu significado. Trata-se do décimo segundo dia de Natal, o último dos doze dias de uma grande celebração, que começa com o nascimento de Cristo e termina com a visita dos Três Reis Magos.

Chesterton acha que A Décima Segunda Noite é muito mais importante que o Dia de Ano Novo: 

Enquanto os progressistas querem logo que chegue o Ano Novo, os cristãos devem continuar olhando para trás, para o Natal. É a diferença que há entre olhar para trás, com entusiasmo por algo, e olhar para frente, com seriedade, em direção a nada. As pessoas louvam o futuro porque é vazio e indefinido, e têm medo do passado porque está repleto de coisas reais e vivas.

O mundo moderno, com sua obsessão por ser moderno, isto é, atual, está sempre em guerra com a tradição ou aquilo que entende como “ultrapassado”. Seu lema é “mudança”, mas a única mudança, diz Chesterton, ocorre na “fútil e frívola superfície da sociedade”. Abaixo dela permanecem as mesmas questões, os mesmos conflitos, as mesmas ideias que todos os homens sempre tiveram de encarar, por mais que tentem evitá-las. Mas, mesmo neste nosso mundo complexo, as coisas simples ainda fazem com que os homens se lembrem das permanentes. Uma destas coisas simples é a “prudência do camponês em dias comuns e a alegria dele em dias de festa”. Os pastores sempre compreenderam as coisas antes dos sábios.

Todo ritual aponta para algo além de si mesmo. Nossas imagens de Natal evocam pessoas reais e um fato histórico. Nossos singelos símbolos apontam para uma realidade definitiva. Nossa “alegria ritual” é uma tentativa de expressar uma alegria insondável, que nem mesmo um coro de anjos pôde expressar adequadamente. Nasceu-nos um Salvador. Nunca antes se anunciou melhor notícia, nunca antes houve melhor motivo para fazer festa.

No entanto, é preciso esperar o momento certo. Temos de nos preparar para ele. Aquele que preparou o caminho para o Senhor o fez pregando o arrependimento. Nosso mundo nunca teve tanta necessidade de arrependimento como hoje em dia.

Deveríamos viver o Advento como viveríamos a Quaresma. Deveria ser um tempo de oração, de penitência, de preparação. E de mortificação: rezemos cedo e com frequência, façamos jejum de guloseimas, renunciemos a alguma coisa, demos esmola. 

Uma forma de penitência, obviamente, é suportar a terrível música de “feriado” que retumba nas caixas de som em todos os lugares públicos durante o mês de dezembro. Não há como escapar dela. Entretanto, quando enfim, e por misericórdia, desligarem as caixas de som, quando o resto do mundo já estiver retirando as decorações, a nossa grande celebração estará apenas começando. E nossa música será também muito melhor.

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O mundo teme a morte, mas os católicos devem se lembrar dela
Espiritualidade

O mundo teme a morte, mas
os católicos devem se lembrar dela

O mundo teme a morte, mas os católicos devem se lembrar dela

És tentado a pecar? Pensa na tua morte. Em breve, esse prazer efêmero não significará nada. Logo vais te arrepender de ter buscado um prazer momentâneo e abandonado a vida eterna.

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Talvez não exista hoje verdade mais evitada, reprimida e veementemente ignorada do que a realidade da morte. O homem moderno é consumido satisfazendo como um escravo às próprias paixões, autoproclamando-se livre e banindo absolutamente o pensamento de que um dia morrerá. Para evitar até a menção ao termo “morte”, ele recorre constantemente a palavras como “macabro” e “mórbido”. Apesar disso, ele está disposto a “matar” qualquer um que atrapalhe sua escravidão às paixões. A devassidão na qual ele se encontra mantém sua visão alheia a tudo, exceto à própria escravidão. Ele não consegue enxergar a única coisa no futuro que ele jamais poderá evitar ou negar.

Poder-se-ia argumentar razoavelmente que o declínio histórico da piedade religiosa está correlacionado com o declínio da morte por doenças e com os avanços modernos em tecnologia e conforto que obscurecem a realidade da morte. Quando um homem pode ignorar a morte, ele pode ignorar Deus.

Contudo, pela graça de Deus, nenhum homem consegue ignorar a morte para sempre. Eventualmente um ente querido morre, ou alguém contrai câncer ou outra doença grave, de modo que o ser humano fica face a face com a morte, aquela de quem ele se esquivou, de forma astuta, por toda a vida. Então ele será confrontado com essa dura realidade. Quem sabe, nesse momento, ele enfrente as perguntas difíceis da existência, volte-se para Deus e olhe para a própria vida.

São Francisco de Sales apresenta uma relevante meditação sobre a morte:

Grava bem em teu espírito que então para ti já não haverá mundo, vê-lo-ás perecer ante teus olhos; porque então os prazeres, as vaidades, as honras, as riquezas, as amizades vãs, tudo isso se te afigurará como um fantasma, que se dissipará ante tuas vistas. Ah! Então haverás de dizer: por umas bagatelas, umas quimeras, ofendi a Deus, isto é, perdi o meu tudo por um nada. Ao contrário, grandes e doces parecer-te-ão então as boas obras, a devoção e as penitências, e haverás de exclamar: Oh! Por que não segui eu esta senda feliz? Então, os teus pecados, que agora tens por uns átomos, parecer-te-ão montanhas e tudo o que crês possuir de grande em devoção será reduzido a um quase nada [1].

Já Santo Afonso Maria de Ligório lamenta a situação daqueles que morrem em pecado:

Os pecadores, diz o Senhor, Me viraram as costas por amor às criaturas: “Voltaram-me as costas em lugar de voltarem para mim a face; porém no tempo da sua aflição dizem: Levanta-te [Senhor] e livra-nos. Onde estão os teus deuses [direi eu então] que fabricaste para ti? Levantem-se, se te podem livrar” (Jr 2, 27). Dirá deste modo o Senhor, porque a Ele recorrerão, mas sem o verdadeiro espírito de conversão [2].

Quanto a ti, leitor, não permitas que a morte te surpreenda em situação de pecado. A lembrança da morte é a recordação da realidade última. Prepara-te agora para o destino de toda a carne. Ouve as palavras dos mortos: Fui o que és, sou o que te tornarás [3].

Recordar a própria morte por quê?

O Frei Bergamo destaca que:

A morte é a melhor mestra da verdade, e o orgulho — nada mais que uma ilusão de nosso coração — apega-se à vanglória disfarçada; por isso, a morte é o melhor meio para aprendermos o que é a vanglória e como separar nossos corações dela [4].

Estás com raiva de teu irmão por ele ter te insultado? Considera a tua morte. O que acontecerá com esse insulto quando teu corpo estiver apodrecendo na sepultura e tua alma aparecer diante do Tribunal? Ainda te apegarás à tua raiva? Antes, o Senhor dirá: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai Celeste também vos perdoará” (Mt 6, 14). A morte corta de ponta a ponta tua vaidade, mostrando quão vazia é a glória humana.

Estás aflito com a situação atual da Igreja? Considera a tua morte. O Senhor diz que “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24, 13). Em breve vais morrer e enfrentar o juízo. O que Nosso Senhor te dirá nesse momento? Pegaste o talento e, por medo, o enterraste (cf. Mt 25, 25)? Ou investiste as graças que te foram concedidas para produzir mérito e salvar as almas? Quando todas essas coisas forem arrancadas de ti, saiba que tua morte está próxima.

A peça do século XV intitulada Everyman mostra, de forma belíssima, que, na hora da morte, o ser humano não pode receber parentes, amigos, bens ou força. Somente as boas obras podem ser apresentadas ao tribunal de Cristo. A morte possibilita a visão clara da realidade. Ela permite que se veja quão efêmero é o bem-estar proporcionado pelas coisas criadas, a ponto de sugerir que toda a esperança humana seja depositada no Incriado. A morte nos mantém a salvo de mentiras, vaidades e, acima de tudo, do próprio pecado.

És tentado a pecar? Considera a tua morte. Em breve, esse prazer efêmero não significará nada. Logo vais te arrepender de ter buscado um prazer momentâneo e abandonado a vida eterna. Tal deleite durará apenas um instante, enquanto a eternidade é para sempre, nem sequer está sujeita ao tempo. Não ouças o diabo, que lhe diz: “Pouco importa. Amanhã tu te confessas”. Em vez disso, ouve Nosso Senhor, que te diz: “Insensato! Nesta noite ainda, exigirão de ti a tua alma” (Lc 12, 20). E, novamente: “Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora” (Mt 25, 13). A lembrança da morte leva à vitória sobre todo pecado.

Como meditar sobre a morte?

Como a sociedade moderna está inclinada a que todos neguem a própria morte, é extremamente difícil lembrar que tu morrerás. No entanto, essa prática é tão salutar a ponto de causar um rápido crescimento na vida espiritual. Um modo de levá-la a cabo é a lembrança diária, que consiste em te levantares e fazeres tua oferta matutina, considerando que morrerás naquela mesma noite. Diz diante de Deus, no último dia de tua vida:

Lembra-te, ó alma cristã, de que tens este dia para:

A Deus glorificar
A Jesus imitar
Os anjos e santos invocar
Uma alma salvar
Um corpo mortificar
Pecados expiar
Virtudes adquirir
O Inferno evitar
O Céu ganhar
À Eternidade te preparar
O tempo aproveitar
O próximo edificar
O mundo desprezar
Os demônios combater
As paixões subjugar
A morte padecer
E a um juízo te submeter [5].

No final do dia, faz teu exame de consciência, considerando que morrerás naquela noite. Isso te trará verdadeira contrição por teus pecados e mostrar-te-á a vaidade de teres ofendido a Deus por algo insignificante. Reza também o Miserere (Salmo 50).

Quando fores dormir, deita-te de costas e olha para o céu. Imagina teu corpo no leito de morte ou deitado na sepultura. Põe tua esperança, então, na misericórdia de Deus e repete a oração: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou pecador.

Outro método de meditação é a lembrança mensal. Considera que este será teu último mês de vida, e que o último dia deste mês será o teu último neste mundo. Naquela noite, tu vais morrer. Então, olha para tua vida e considera o que tu deves fazer antes da tua morte. Esforça-te em busca da virtude e vence o teu pecado. Pouco antes do último dia do mês, faz um exame de consciência completo. Em seguida, faz tua confissão como se fosse a última antes de morrer. Olha então para a tua cama, considera-a como tua sepultura e invoca a misericórdia de Nosso Senhor:

Ó meu Deus, soberano Senhor da vida e da morte, que, por um decreto imutável para a punição do pecado, determinastes que todos os homens devem morrer, contemplai-me humildemente ajoelhado diante de vossa tremenda Majestade, resignado e submisso a essa lei da vossa Justiça. Com todo o meu coração, detesto meus pecados passados, pelos quais mereci a morte mil vezes; e por esse motivo aceito a morte em reparação pelos meus pecados e em obediência à vossa santa Vontade. Sim, meu Deus, enviai sobre mim a morte onde quiserdes, quando quiserdes e da maneira que quiserdes. Enquanto isso, aproveitarei os dias que me concederdes, para me desapegar deste mundo e romper todos os laços que me mantêm cativo neste exílio, e preparar-me para me apresentar com certa confiança diante do vosso tribunal. Por isso me entrego sem reservas nas mãos da vossa Providência paterna. Que a vossa Divina Vontade seja feita agora e para sempre! Amém.

Essas práticas diárias e mensais vão preparar tua alma para a morte pela qual passarás. Preparar-te dessa maneira, tornará tua morte inevitável uma ocasião não de luto, mas de mérito. Assim, pela graça de Deus, farás o que ensaiaste a vida toda: terás uma boa morte.

Os santos, estes já não se atormentam com aquele profiscere (Parte!) que tanto amedronta aos mundanos. Os santos não se agoniam em ter de deixar os bens desta terra, porque os mantiveram destacados de seus corações. “Deus do meu coração”, repetiram sempre, “Deus meu por toda a eternidade” (Sl 72, 26) [6].

Referências

  1. São Francisco de Sales, Introdução à vida devota. Rio de Janeiro: Vozes, 1958, p. 53.
  2. Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a morte: considerações sobre as verdades eternas (c. VI, 2). Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 68.
  3. Este é o ditado latino “Eram quod es, eris quod sum”, que parece ter se originado de autores romanos pré-cristãos, mas foi adotado desde então por vários santos e Ordens católicas.
  4. Fr. Cajetan Mary da Bergamo, Humility of Heart. TAN reprint: 2006, p. 64.
  5. Roman Catholic Daily Missal, Subjects for Daily Meditation. Angelus Reprint: 2004, p. 28.
  6. Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a morte: considerações sobre as verdades eternas (c. VIII, 1). Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 81.

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São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria
Santos & Mártires

São Maximiliano: um “cavaleiro
da Imaculada” contra a Maçonaria

São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria

No filme polonês “Duas Coroas”, o diretor Michal Kondrat conta como uma marcha maçônica em plena Praça de São Pedro, em 1917, despertou o ardor missionário em São Maximiliano Kolbe, a ponto de fazê-lo dar a própria vida por amor a Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Em agosto de 1941, um padre franciscano rezava o Rosário e atendia confissões numa das celas de Auschwitz, o terrível campo de concentração nazista, onde milhões de judeus foram vítimas da “solução final”, durante a II Grande Guerra. Ele e outros oito prisioneiros morreriam em poucos dias. Todavia, a morte desse sacerdote católico deixaria, para a história, um valente testemunho de santidade, como cumprimento de uma antiga promessa.

É com esse pano de fundo que o filme polonês “Duas Coroas”, dirigido por Michal Kondrat, narra a história de São Maximiliano Kolbe, o sacerdote católico que pediu a própria morte a um oficial nazista, no lugar de um judeu pai de família. O título da produção refere-se a uma visão do pequeno Maximiliano, quando ainda criança. Conforme a sua biografia, ele teria visto a Virgem Santíssima segurando uma coroa vermelha numa das mãos e uma coroa branca na outra; a vermelha representava o martírio e a branca, a pureza. A Mãe de Deus lhe pedia que escolhesse com qual daquelas joias ele gostaria de ser coroado. E Maximiliano respondeu-lhe: “Eu quero as duas”.

De fato, a vida de Maximiliano Kolbe foi duplamente coroada, com as palmas da pureza e do martírio. Com treze anos de idade, ele ingressou no Seminário dos Frades Menores Conventuais Franciscanos e ali aprenderia as lições fundamentais para o exercício de sua vocação: a castidade, a pobreza e a obediência. Esses três conselhos evangélicos forjariam a sua alma a ponto de formá-lo como um verdadeiro “cavaleiro de Deus”, disposto a empunhar todas as armas necessárias para debelar os erros do pecado e conquistar o prêmio do Céu. Nesse ínterim, a Virgem Maria seria o seu refúgio e inspiração.

“Duas Coroas” mostra o desenvolvimento dessa luta, trazendo informações importantíssimas para a compreensão de nosso personagem, como também uma mensagem clara sobre a sorte da Igreja e dos cristãos nos tempos atuais: quem não estiver ao lado de Maria Santíssima, muito bem enraizado no dogma da fé, na prática das virtudes e na frequência aos sacramentos, não resistirá às investidas da serpente e aos ataques vorazes de seus sequazes.

Só por isso vale a pena conferir o filme. Não se trata de simples entretenimento ou diversão pueril, com doses cavalares de pirotecnias e sensualismo pagão; embora não seja uma grande produção cinematográfica, “Duas Coroas” repete aquelas “palavras de vida eterna” que são a razão de ser de toda pessoa humana. E é isso o que verdadeiramente importa.

Maximiliano Kolbe pensava justamente assim e, conforme os vários depoimentos do filme, via que o uso da mídia deveria ser destinado, sobretudo, à pregação do Evangelho. Aliás, ele se propôs a criar um jornal para a formação dos católicos, logo depois de ter visto, com horror e escândalo, uma marcha maçônica na Praça de São Pedro, por ocasião do bicentenário da seita secreta, em 1917. Nessa manifestação, os maçons empunhavam cartazes com as inscrições: “Satanás deve reinar no Vaticano. O Papa será seu escravo”. E, como revelaria mais tarde o historiador Michael Hesemann, em arquivos secretos do Vaticano, a Maçonaria realmente tramava por aqueles anos a queda das últimas monarquias e o total aniquilamento da religião católica.

Para impedir tais planos diabólicos, São Maximiliano fundou a “Milícia da Imaculada”, abriu uma gráfica e mandou imprimir várias edições de um jornal dedicado a Nossa Senhora, que explicava a fé católica com clareza. O diretor Kondrat teve o cuidado de colocar esses dados no filme, mostrando como o santo precisou enfrentar a desconfiança e a incompreensão dos próprios correligionários, a fim de defender a causa de Cristo. Apesar disso, a Providência divina o acompanhou, levando seu apostolado até o Japão, em 1930, onde pôde exercer um fecundo trabalho apostólico na cidade de Nagasaki — cuja tragédia da bomba atômica ele havia previsto com alguns anos de antecedência.

Em 1939, porém, Maximiliano teve de retornar à Polônia, para cumprir uma nova missão. A esse respeito, o filme “Duas Coroas” propõe uma leitura sobrenatural: explica-se que os esforços apostólicos do “cavaleiro da Imaculada” não se dissiparam após o retorno do Japão, mas teriam o grande desfecho da configuração a Cristo. Depois de ter contemplado o sofrimento de Nosso Senhor em seus irmãos japoneses, ele mesmo viria a experimentar tal dor, para ratificar na própria carne o que ele publicava em seus jornais. Quando acabou preso em Auschwitz, o santo foi capaz de transmitir amor e esperança aos prisioneiros, transformando a sua cela num verdadeiro oratório.

Nesse sentido, vale lembrar as palavras com as quais São João Paulo II descreveu esse sacrifício: “Maximiliano não morreu, mas ‘deu a vida... pelo irmão’”. Em “Duas Coroas”, o espectador pode vislumbrar em que circunstâncias misteriosas e, sem dúvida, abençoadas aconteceu o coroamento do intrépido homem, que foi digno de receber a glória do martírio. Maximiliano venceu corajosamente as hostes infernais e, “de modo admirável, perdura na Igreja e no mundo o fruto desta morte heroica” [1]. O regime nazista findou como uma página negra da história, ao passo que o martírio de São Maximiliano “se tornou um sinal de vitória” [2].

Definitivamente, “Duas Coroas” é um documentário para ser visto por todos os católicos, sobretudo nestes últimos tempos. Embora estejamos a mais de um século de distância das terríveis tribulações que se abateram sobre a Europa e toda a Igreja Católica, no início do século XX, os seus protagonistas ainda estão entre nós, e com a mesma sanha anticristã de outrora. Por isso, o modelo virtuoso de São Maximiliano Kolbe deve nos levar para o fronte de guerra, com os estandartes da Cruz e do Rosário, em defesa da Igreja e de nosso Cristo Rei.

Referências

  1. São João Paulo, Homilia na missa de Canonização de Maximiliano Kolbe (10 de outubro de 1982). 
  2. Ibidem.

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