Deus me vê, mas e eu?
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Deus me vê, mas e eu?
Espiritualidade

Deus me vê, mas e eu?

Deus me vê, mas e eu?

Considerar a presença de Deus é um chamado constante à retidão de vida. Se Ele está sempre comigo, então devo ser sempre fiel, pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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E se tivéssemos permanente consciência de que Deus está a nos olhar o tempo todo, aonde quer que vamos? 

É com o coração exultante que o autor dos Salmos meditava sobre esse mistério. Todo o Salmo 138, por exemplo — “Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto…” —, não passa de um grande louvor à onisciência e onipresença divinas. O porquê de louvá-las, é o próprio salmista quem no-lo apresenta, ao finalizar com estes versos: “Senhor, sondai-me, conhecei meu coração, examinai-me e provai meus pensamentos! Vede bem se não estou no mau caminho, e conduzi-me no caminho para a vida!” (v. 23-24). Noutro lugar o salmista dirá, já não em forma de súplica, mas em tom declaratório: “Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois se o tenho ao meu lado não vacilo!” (Sl 15, 8). 

Ou seja, considerar a presença de Deus é um chamado constante à fidelidade, à retidão de vida, à vigilância. Se Ele está sempre comigo, se em lugar algum posso me ocultar de seu espírito, se não há lugar para onde fugir de sua face (cf. Sl 138, 7), então devo ser sempre fiel, preocupar-me em agir retamente o tempo todo, estar pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Mas entenda-se bem: qual o conceito que temos de descanso? É o de quem chega exausto a casa após um dia inteiro de trabalho e pode, até que enfim, meter-se uma bermuda, enfiar o chinelo de dedo e despejar-se tranquilo na poltrona. Durante todo o dia, o bom trabalhador foi solicitado, cobrado, exigido… À noite, porém, ele quer descansar, alheio a tudo e a todos, sem que lhe solicitem, cobrem ou exijam nada.

Agora, veja o pai de família se pode comportar-se assim, tendo em casa uma esposa, tão ou mais cansada do que ele, para ajudar e um punhado de filhos, repletos de energia, para educar, sem falar de tantas coisas da casa que inevitavelmente quebrarão e ele terá de consertar. Não, não há descanso para o pai de família, não pelo menos se ele quiser servir bem os de sua casa… Pois bem, se tantos agem dessa forma movidos por um amor meramente humano, por que deveriam ser menos generosos os cristãos, os servos do Deus vivo, que trazem dentro de si (ou deveriam trazer), ardente, intensa, inextinguível, cada vez maior, a chama da caridade divina?

E, no entanto, aonde têm ido os nossos corações? Por que (des)caminhos têm errado? Para onde vão dirigidos os nossos pensamentos? Com que estão sendo gastas nossas energias?

Comecemos pela tortura que pode representar para muitos a ideia de um Deus onisciente e onipresente, que observa todos os nossos passos. Diante dessa verdade, o que muitos gostariam de fazer? Cantar um salmo ou um hino de louvor? 

Para o homem justo do Antigo Testamento, até que sim; para o homem redimido por Cristo, curado e libertado no Sangue de Nosso Senhor, pode até ser. Para Adão, porém, e para a maior parte da humanidade que ainda ignora o Evangelho, a atitude mais provável seria esconder-se atrás de um arbusto ou, pior, rebelar-se abertamente contra o Criador. Em sua malícia, em seu desejo de pecar, o que muitos gostariam de fazer mesmo (e tantos outros efetivamente fazem) é proclamar que Deus não existe, só para viverem a seu modo e “sem consequências”.

A esse respeito, o Pe. Reginald Garrigou-Lagrange dá-nos conta de que 

Uma serva de Deus ouviu um dia estas palavras: “Eu vos dei uma religião de vida, e vós a fizestes uma religião de fórmulas. Eu sou um criador de felicidade e vós fizestes de mim um tirano, não vendo nos meus preceitos senão aquilo que vos desagrada” [1]. 

Ou seja, o que acontece a muitos de nós é nos servirmos do parâmetro errado. Ao invés de pedirmos com o salmista: “Examinai-me, Senhor, provai-me os pensamentos! Vede se não estou no mau caminho!”, voltamos o olhar primeiro à nossa vontade e, a partir disso, julgamos todo o resto. Ao invés de nos voltarmos humildemente para Deus, conformando-nos a Ele, esperamos o contrário: que Ele mude os seus decretos para nos agradar. Não estamos buscando a Deus, em suma, mas a nós mesmos

Poderíamos entrar aqui em considerações intermináveis a respeito de como não estamos dispostos a renunciar a nossos gostos ou opiniões para aceitarmos o ensinamento moral da Igreja em tantos temas… Mas aproveitemos o mês de novembro para falar dos novíssimos e resumir toda a questão. Quando formos julgados, no último dia, a quem prestaremos contas, afinal: a Deus ou a nós mesmos? O juízo será com base nas leis de Deus ou nas regras que nós mesmos criamos para nos livrar dele e da difícil tarefa de nossa santificação? 

Ora, se o tribunal é de Deus, se é Ele o parâmetro com que seremos julgados na eternidade, por que não começar já agora a se colocar debaixo desse olhar e clamar: “Examinai-me, Senhor! Julgai meus pensamentos! Vede se não estou no mau caminho hoje, porque naquele dia, Senhor, no dia de minha morte, pode ser tarde demais”?

Aqui podemos compreender melhor o que significa estar na presença de Deus. Trata-se de reproduzir, a todo instante, nosso julgamento particular, pedindo a Ele perdão pelas falhas em que caímos cotidianamente e, ao mesmo tempo, luz para que sejamos preservados dos pecados futuros. Significa abaixar constantemente a cabeça e reconhecer: não sou eu quem faz as leis, não sou eu quem determina o que é certo e o que é errado, não sou eu quem define o bem e o mal, não serei eu a julgar-me no último dia. Há um Outro a quem eu devo prestar contas. 

Se tivermos sempre o Senhor deste modo ante os nossos olhos, não só nos mostrando o caminho correto, mas dando-nos a graça para percorrê-lo, como havemos de vacilar? Se nos lembrarmos constantemente do Rei de tremenda majestade, Rex tremendae majestatis, que nos julgará, como não havemos de excitar em nós o temor de Deus, que é o princípio da sabedoria (cf. Pr 9, 10)? 

E se é verdade, ainda, que “no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34), como não havemos de pensar que o menor de nossos atos, mesmo o mais insignificante deles, carrega consigo todo o peso da eternidade?

Referências

  1. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. port. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 13.

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A primeira e a segunda vinda de Cristo
Espiritualidade

A primeira e a
segunda vinda de Cristo

A primeira e a segunda vinda de Cristo

Naquele tempo, em sua primeira vinda, Jesus veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e doçura. No fim dos tempos, porém, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.

São Cirilo de Jerusalém3 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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A meditação a seguir foi extraída do Ofício das Leituras do 1.º Domingo do Advento.

Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo
(Cat. 15, 1-3: PG 33, 870-874)

As duas vindas de Cristo

Anunciamos a vinda de Cristo: não apenas a primeira, mas também a segunda, muito mais gloriosa. Pois a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a segunda manifestará a coroa da realeza divina.

Aliás, tudo o que concerne a nosso Senhor Jesus Cristo tem quase sempre uma dupla dimensão. Houve um duplo nascimento: primeiro, ele nasceu de Deus, antes dos séculos; depois, nasceu da Virgem, na plenitude dos tempos. Dupla descida: uma, discreta como a chuva sobre a relva; outra, no esplendor, que se realizará no futuro.

Na primeira vinda, ele foi envolto em faixas e reclinado num presépio; na segunda, será revestido num manto de luz. Na primeira, ele suportou a cruz, sem recusar a sua ignomínia; na segunda, virá cheio de glória, cercado de uma multidão de anjos.

Não nos detemos, portanto, somente na primeira vinda, mas esperamos ainda, ansiosamente, a segunda. E assim como dissemos na primeira: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21, 9), aclamaremos de novo, no momento de sua segunda vinda, quando formos com os anjos ao seu encontro para adorá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor.

“Jesus recebendo de Deus Pai o mundo”, por Antonio Arias Fernández (1614).

Virá o Salvador, não para ser novamente julgado, mas para chamar a juízo aqueles que se constituíram seus juízes. Ele, que ao ser julgado guardara silêncio, lembrará as atrocidades dos malfeitores que o levaram ao suplício da cruz, e lhes dirá: “Eis o que fizestes e calei-me” (Sl 49, 21).

Naquele tempo ele veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e doçura; mas, no fim dos tempos, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.

O profeta Malaquias fala dessas duas vindas: “Logo chegará ao seu templo o Senhor que tentais encontrar” (Ml 3, 1). Eis uma vinda.

E prossegue, a respeito da outra: “E o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; e estará a postos, como para fazer derreter e purificar” (Ml 3, 1-3).

Paulo também se refere a essas duas vindas quando escreve a Tito: “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2, 11-13). Vês como ele fala da primeira vinda, pela qual dá graças, e da segunda que esperamos?

Por isso, o símbolo da fé que professamos nos é agora transmitido, convidando-nos a crer naquele que subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Nosso Senhor Jesus Cristo virá portanto dos céus, virá glorioso no fim do mundo, no último dia. Dar-se-á a consumação do mundo, e este mundo que foi criado será inteiramente renovado.

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A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara
Santos & Mártires

A procissão eucarística de
Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

“Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra, e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos”: o momento de sua morte.

K. V. TurleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Logo após eclodir a Grande Guerra, Charles de Foucauld quis retornar do deserto do Saara para a França. Ele desejava unir-se ao exército francês como capelão militar. Entretanto, o bispo a que estava subordinado instruiu-o a permanecer em Tamanrasset, uma pequena vila na atual Argélia.

Foucauld obedeceu ao que mais tarde revelaria ser sua sentença de morte.

Em 1914, o império da França se estendeu a grandes partes do norte da África — e estava agora sob ataque. O Império Otomano, lutando ao lado da Prússia, exigiu a expulsão de todos os infiéis das terras do Islã e a restauração do califado. Algumas tribos do Saara responderam ao apelo para a jihad, encorajadas a fazê-lo por um ordem religiosa muçulmana conhecida como Senussi. Foucauld vivia longe de qualquer ajuda militar francesa, em um eremitério improvisado. Nas primeiras horas do dia 1.º de dezembro de 1916, uma gangue armada de fanáticos Senussi saiu à procura do eremita cristão.

Foucauld estava realmente muito longe de casa. Nascido em Estrasburgo, em 15 de setembro de 1858, numa rica família aristocrática francesa, teve uma infância infeliz. Aos 6 anos, tornou-se órfão. Posteriormente, na escola, aprendeu pouco. Entrementes, tornou-se agnóstico. Por fim, a família o alistou nas forças armadas, na esperança de disciplinar a rebeldia do jovem. A esperança, porém, mostrou-se inútil. As intermináveis horas de vida no quartel só pareciam piorar as coisas: sua atenção centrava-se agora exclusivamente no prazer. Para a família, ele estava se tornando a passos largos um constrangimento; para os militares, um risco.

Por fim, Foucauld foi despedido em desgraça do exército. Quando finalmente veio o chamado para seu regimento deixar a França e ir para a Argélia, ele insistiu em levar sua última amante. Mas havia um limite de tolerância para os militares franceses.

Lançado de volta à vida civil, ele surpreendentemente descobriu que os antigos prazeres agora o entediavam. E apesar de toda sua indiferença, a vergonha de ser expulso do exército queimava dentro dele. Logo se viu na Argélia, oferecendo-se como voluntário para uma perigosa missão como espião dos franceses. Trajado como um judeu norte-africano e desejoso de fazer as pazes com a família e o país, Foucauld aventurou-se em territórios então não mapeados do Marrocos, para fazer registros detalhados da terra e de seus povos.

Dois anos depois, em 1884, Foucauld voltou para a França como herói. Por fim, graças à publicação de um livro de memórias de suas aventuras, tornou-se celebridade em Paris, sendo homenageado por seus serviços ao país com uma medalha de ouro conferida pela Sociedade Geográfica de Paris. Mas ele também retornara da África estranhamente mudado. Os dias passados, vividos em uma cultura estranha, e as noites passadas sob a vastidão do céu do deserto haviam deixado nele sua marca. Ele vira os muçulmanos prostrados no chão, cinco vezes por dia, em oração, e, impressionado, se perguntou se sua religião era a verdadeira. Voltou para a França em busca de respostas.

Inicialmente, a inquietação interior parecia apenas aumentar. Ele estudou o Islã, mas decidiu que a verdade não estava lá. Andava pelas ruas de Paris pensando e meditando o tempo todo. No final de outubro de 1886, viu-se nas ruas outra vez quando, ao raiar do dia, avistou uma igreja aberta. Entrou e viu um confessionário com um padre dentro. Aproximou-se e perguntou se poderia falar com ele. Uma voz, tão firme como sábia, o contrariou e, em vez disso, ordenou-lhe que se ajoelhasse e confessasse. Ele se ajoelhou e confessou tudo. Naquela manhã, depois de ouvir a Missa e receber a Sagrada Comunhão, Foucauld renasceu.

Daquele dia em diante, havia para ele um único ideal, o qual queimaria tão ferozmente quanto seus desejos passados, mas agora este era o fogo do Amor divino. Nos magníficos céus noturnos do deserto e na devoção religiosa dos estrangeiros, Foucauld vislumbrou indícios de transcendência; agora, ele finalmente encontrara a própria Verdade na fé católica de seus ancestrais, de sua família, de seu país. Em mais de um sentido, ele havia voltado para casa.

Depois de passar um tempo num mosteiro cisterciense nos Alpes e noutro mosteiro na Síria, ainda inseguro de sua vocação, caminhou para a Terra Santa. Por fim, foi ao mosteiro das clarissas, em Jerusalém. Trabalhou como porteiro por um tempo, morando em um barraco encostado à parede do convento e fazendo trabalhos manuais, absorvido sempre em orações. Foi na Terra Santa que lhe foi revelada sua vocação. Ele percebeu que, a partir de então, deveria buscar a vida oculta de Nazaré com todas as suas muitas vicissitudes.

Ordenado em 1901, voltou para o norte da África, estabelecendo-se no sul da Argélia, eventualmente em Tamanrasset, para viver entre a tribo mais pobre da região: os tuaregues. Ele sonhava em começar uma comunidade religiosa baseada em seu ideal de busca pelo lugar mais baixo. No entanto, ninguém o entendeu nem houve quem quisesse juntar-se a ele. Até a morte, ele trabalharia pelas almas entre os tuaregues muçulmanos, mas nenhum deles se converteu à fé cristã.

Em seu pequeno oratório, a quilômetros de qualquer outro, Foucauld fazia longas vigílias diante do Santíssimo, rezando pela conversão das terras por onde havia viajado e pelos povos entre os quais agora vivia. Ele escreveu:

Sagrado Coração de Jesus, obrigado por este tabernáculo, o primeiro em terras dos tuaregues! Que este seja o primeiro de muitos e anuncie a salvação a muitas almas! Irradiai, deste tabernáculo, sobre todos que estão ao seu redor, pessoas que vos cercam, mas não vos conhecem.

Ele permanecia estático diante do Santíssimo Sacramento; sua inquietação foi acalmada por um fogo interior que continuou a arder tão intensamente como quando ele o sentiu a primeira vez, naquela manhã decisiva de outubro, no confessionário de uma igreja parisiense. Agora, no calor ardente do deserto, sua fé deveria aperfeiçoar-se ainda mais. Tendo procurado permanecer escondido e desconhecido, em Tamanrasset seu desejo foi atendido — por um tempo, ao menos. Aos olhos do mundo, ele agora não tinha importância.

Mas o olhar do mundo mudaria com a guerra, e olhos cheios de ódio caíram sobre o eremita. A partir de então, houve quem decretasse que tanto o homem quanto sua missão deveriam ser destruídos.

Na manhã de 1.º de dezembro de 1916, havia uma testemunha ocular entre cavaleiros distantes, que saíram do deserto e chegaram ao eremitério de Tamanrasset.

A mesma testemunha viu o sacerdote ser arrastado de seu refúgio, silencioso e sem resistência, com o que parecia ser uma profunda expressão de paz. Ele o viu ser forçado a ajoelhar-se, enquanto lhe ofereciam a chance de renunciar ao seu Salvador, isto é, de confessar a Shahada. O padre recusou-se a fazê-lo e, posteriormente, foi baleado na cabeça. Seu corpo, ainda ajoelhado e com as mãos amarradas nas costas, foi deixado na areia, enquanto seus assassinos saqueavam a casa e o oratório; depois, embriagaram-se com o vinho do altar. No dia seguinte, quando estes partiram, os tuaregues que viviam nas proximidades vieram enterrar o homem que passaram a considerar como amigo.

Três semanas depois, uma patrulha militar francesa passou por Tamanrasset. A população local mostrou ao comandante a cova improvisada. Os soldados ergueram solenemente uma cruz de madeira simples sobre o lugar.

O relatório militar subsequente afirmou o seguinte:

Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos. Morreu na primeira sexta-feira de dezembro, dia consagrado ao Sagrado Coração, e da maneira que desejou, pois sempre aspirou a ser tratado com ódio por ser cristão e sofrer uma morte violenta, aceita com amor pela salvação dos infiéis de sua terra de eleição, a África.

Antes de o exército partir naquele dia, o oficial fez uma inspeção final do que restava do eremitério. Deparou-se com uma custódia, jogada na areia pelos assassinos do padre. O que eles não entenderam, e o que este católico francês percebeu imediatamente, foi que ela ainda continha as espécies sagradas.

Quando a patrulha militar se reuniu para partir, o comandante avançou solenemente com a custódia envolvida respeitosamente em um pano de linho. Então, ao som de uma única batida de tambor, os soldados começaram a marchar de volta para as vastidões do deserto de onde tinham vindo. Mas desta vez, à frente deles, em sua sela, cavalgava o oficial, segurando a custódia com o Santíssimo Sacramento exposto.

À medida que esta singular procissão eucarística prosseguia sob o Sol escaldante e sobre as areias do deserto, sopradas pelos ventos quentes do Saara, começou-se lentamente a cobrir o túmulo de Charles de Foucauld. — “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer…” (Jo 12, 24).

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Aprendendo com a castidade de São José
Doutrina

Aprendendo com a
castidade de São José

Aprendendo com a castidade de São José

Nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Com São José, no entanto, podemos aprender o que ela realmente significa.

Pe. Roger J. LandryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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São muitas as virtudes atribuídas pela piedade cristã a São José que, sobretudo durante este Ano Josefino, os católicos são chamados a meditar com mais profundidade e a imitar com mais atenção. José é justo, fiel, obediente, humilde, homem de oração, silencioso, caridoso, trabalhador, providente, protetor, corajoso, zeloso, prudente, paciente, leal e simples. 

No entanto, uma de suas virtudes mais importantes para estes nossos tempos é a castidade. A Igreja a apresenta na Ladainha dos “Benditos”, proclamada durante a adoração a Jesus no Santíssimo Sacramento, chamando a São José “castíssimo” — título dado somente a Ele e a Nossa Senhora. Trata-se de uma tradução do latim castissimus, superlativo que pode traduzir-se como “o mais”, “muito” ou “supremamente” casto. Contra qualquer tentação de minimizar essa virtude, São José nos inspira a ser castos ao máximo

Vivemos numa época em que, provavelmente, nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Muitos fora da Igreja, e alguns até mesmo dentro dela, veem este ensinamento como algo tão antiquado quanto a moda vitoriana; um caminho de repressão, e não de amor; um campo de treinamento para puritanos, e não para santos. 

Os revolucionários sexuais — que alardearam o direito ao sexo com quem, quando, onde e como quisermos (cultura que tem contribuído para a epidemia de famílias, casamentos e corações partidos, doenças sexualmente transmissíveis, crimes e abusos sexuais, tráfico humano, prostituição e pornografia, vícios sexuais, gravidez na adolescência e abortos…) — afirmam que a castidade é contra nossa biologia, porque acorrenta um desejo natural, e é contra nossa natureza racional, porque nos restringe a liberdade. Faz parte das “más notícias”, não das boas. 

Ao contrário do que muitos acreditam de maneira equivocada, a doutrina da Igreja sobre a castidade não “asfixia” a mais veemente das experiências humanas. Trata-se antes de uma sabedoria que procura controlar estas “chamas”, impedindo-as de destruir o amor verdadeiro (que é para onde Deus quer que seja dirigido nosso desejo sexual), de modo que possamos amar genuinamente os outros como Cristo nos amou. Longe de ser negativamente apudorada, a Igreja não poderia ter maior estima pelo amor humano e pela castidade que o possibilita.

Em meio a este mal-entendido generalizado e às zombarias que se fazem ao ensinamento católico sobre a sexualidade humana (para não falar da crescente miséria devida à sua rejeição), é ainda mais urgente que Igreja ajude católicos e não católicos a recuperar, valorizar e proteger a verdade e a beleza do amor humano casto. O Ano de São José é um momento especial para os fiéis aprenderem a viver melhor o chamado de Deus à castidade

A necessidade é premente. São Paulo, logo após dar aos cristãos em Tessalônica um resumo da vocação cristã — “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4, 3) —, diz-lhes, ato contínuo, esclarecendo este chamado, que se abstenham da porneia, termo grego referente a todo pecado sexual, geralmente traduzido como “impureza”. 

Visto que a santidade é o pleno florescimento do amor na pessoa humana, não se pode amar verdadeiramente a menos que se seja casto. A castidade é indispensável para nos tornarmos plenamente humanos, santos e eternamente felizes. O evangelho da castidade, portanto, é parte essencial da missão da Igreja para a santificação e a salvação do gênero humano. 

Para atender a esse chamado, é essencial saber o que é castidade. Mesmo entre clérigos, religiosos, consagrados e catequistas, a castidade costuma ser confundida com a continência (abstinência da atividade sexual) ou o celibato (renúncia voluntária ao uso da sexualidade). Quando o Catecismo enfatiza que “todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta, segundo o seu estado de vida particular” (§ 2348) e que “as pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal” (§ 2349), muitos casais ficam a coçar a cabeça, perguntando-se como podem ser “castos” e, ao mesmo tempo, constituir família. O motivo da confusão, provavelmente, decorre do fato de o termo “castidade” ser frequentemente utilizado no contexto da educação sexual de adolescentes (chamados à castidade na continência), ou na descrição das promessas ou votos feitos por padres e religiosos (chamados à castidade na continência celibatária).

A confusão aponta para a urgência e a importância de todos, na Igreja, compreenderem o que é a castidade e como todos os batizados (casais, solteiros, padres, consagrados, pessoas com atração pelo mesmo sexo e pelo sexo oposto) são chamados a ela.

O primeiro passo no ensino da Igreja sobre a castidade encontra-se no Catecismo, o qual descreve a castidade como vocação, dom de Deus e graça, mas, ao mesmo tempo, fala dela como “fruto do trabalho espiritual” (§ 2345) que inclui a “aprendizagem do domínio de si”, para que a pessoa domine suas paixões e encontre paz, em vez de deixar-se dominar por elas (§ 2339). Está fundamentalmente ligada à virtude da temperança, ou autocontrole. Esse autodomínio é uma “obra de grande fôlego” que, prossegue, “nunca poderá considerar-se total e definitivamente adquirida. Implica um esforço constantemente renovado, em todas as idades da vida” (§ 2342). Mas, ao final, é uma “integração conseguida da sexualidade na pessoa, e daí a unidade interior do homem no seu ser corporal e espiritual” (§ 2337). 

A castidade, portanto, é uma “escola de doação da pessoa” (§ 2346) que “conduz à comunhão espiritual” (§ 2347), fundada na castidade de Cristo, que está na base de toda amizade, para não falar de outras relações.

Mas esse olhar para a castidade como integração e harmonização do desejo sexual nunca pareceu adequado ao Papa São João Paulo II. O impulso sexual tem como objetivo, escreveu ele em vários ensaios pré-papais, levar-nos em êxtase para fora de nós mesmos, para a comunhão com os outros e com Deus, para reconhecer que não somos autossuficientes. 

Moderar o desejo sexual não é o ponto principal; precisamos orientá-lo da forma adequada, para que realmente estabeleça comunhão ao invés de destruí-la. A castidade não está ligada fundamentalmente à temperança, escreveu ele em sua obra de 1960, Amor e responsabilidade, mas sim ao amor. Em contraste com a luxúria, que “reduz” a outra pessoa aos valores do corpo ou às suas zonas erógenas e que “usa” os outros para a própria gratificação emocional ou física, a castidade é o hábito moral que eleva a atração e as interações com a outra pessoa para a sua dignidade total, em corpo e alma

Em suas catequeses papais sobre o amor humano no plano divino, popularmente chamadas Teologia do Corpo, São João Paulo II ensinou que a virtude da castidade está igualmente ligada às virtudes da pureza e da piedade. A pureza impacta nossa visão: “Bem-aventurados os puros de coração”, ensinou Jesus, “porque verão a Deus” (Mt 5, 8). 

A pureza nos permite ver Deus nos outros, reconhecer um reflexo da imagem de Deus. A piedade é o hábito que nos ajuda — uma vez que nos lembramos ou reconhecemos que nenhuma outra pessoa é um “mero mortal” — a tratá-la de acordo com a imagem de Deus que nela está inscrita. Ligada à piedade, a castidade nos ajuda a ver e a tratar o outro como sujeito sagrado, e não como objeto sexual.

A castidade, portanto, está conectada a todas essas quatro virtudes (autodomínio, amor, pureza e piedade). É o que nos ajuda a manter nosso amor romântico (eros) capaz do amor de amizade (philia) e do verdadeiro amor cristão auto-sacrificial (agape). Viver castamente não relega as pessoas a uma “vida sem amor”, mas torna possível o amor verdadeiro, por meio da integração coerente de eros com philia e agape

São José nos mostra este tipo de amor casto em grau máximo. Ao contrário de algumas artes cristãs que o retratam com a idade do bisavô de Maria, José era certamente jovem o suficiente para viajar pelo deserto duas vezes e ser um tekton (“construtor”, muito mais do que um carpinteiro), um dos trabalhos fisicamente mais exigentes das profissões antigas. No entanto, embora fosse jovem e viril e vivesse com a mulher mais atrativamente virtuosa de todos os tempos, ele manteve seu amor “castíssimo” por ela, vendo a Deus dentro dela durante a gravidez e, depois, reverenciando-a com amor puro

São José é modelo de cavalheiro cristão, que regula e canaliza seu amor à esposa de acordo com a vocação e o bem integral dela, e não com seus próprios desejos e necessidades. 

É por isso que os cristãos de todos os tempos o bendizem diante do Filho eucarístico de Deus, reconhecendo que a forma mais adequada de louvor é a imitação.

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Eles combateram o bom combate!
Santos & Mártires

Eles combateram o bom combate!

Eles combateram o bom combate!

O homem materialista de hoje não consegue vislumbrar uma “boa briga” que não seja por capital e latifúndio. Mas a história da Igreja e da cristandade mostra que o “bom combate” de verdade tem motivações muito mais nobres e elevadas...

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Em vários exemplos das Escrituras e também da vida dos santos, vemos homens de Deus travando uma batalha, muitas vezes terrível, contra homens perversos

Não à toa, o principal livro do Antigo Testamento, os Salmos, está cheio de invocações dos justos pedindo proteção a Deus contra seus perseguidores. A ideia de que militia est vita hominis super terram, ou seja, “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), perpassa toda a literatura judaica e cristã. 

Assim, para prestar culto ao único Deus verdadeiro, o povo de Israel precisou enfrentar com coragem a idolatria, as imoralidades e as práticas supersticiosas de seus vizinhos. Falhou inúmeras vezes, é verdade, chegando mesmo a se entregar aos erros que devera combater. Mas a todo momento o Autor Sagrado faz questão de reconduzir as mentes dos israelitas à vocação divina com que nasceram. Afinal, não foi para uma mera estabilidade mundana e prosperidade material que os filhos de Abraão se fixaram na Terra Prometida. Deus “deu-lhes as terras dos gentios, e desfrutaram o trabalho doutros povos, para que guardassem os seus mandamentos, e buscassem a sua lei” (Sl 104, 44s).

O capitão do exército do Senhor aparece a Josué perto de Jericó (cf. Js 5, 13-16). Obra de Ferdinand Bol.

Cenário semelhante, com desafios muito parecidos, se repete na história da Igreja ao longo dos séculos. Os reinos cristãos medievais da Europa nasceram ou com o batismo dos antigos governantes bárbaros — vide Clóvis, o primeiro rei da França —, ou com verdadeiras guerras de resistência aos inimigos da fé — vide a Batalha de Ourique, com Dom Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. A catolicidade de nossa nação mesma se deve ao trabalho incansável, contínuo e perseverante dos povos ibéricos cristãos, que muito antes de descobrirem estas terras tiveram de defender as suas dos hereges muçulmanos [1]. Tivessem os cruzados medievais cruzado os braços ante a ameaça islâmica, o Brasil talvez acabaria com uma estrela e a Lua crescente na bandeira — e jamais se chamaria “Terra de Santa Cruz”.

A natureza religiosa e transcendente desses embates antigos é muitas vezes ridicularizada nas aulas de História. O homem materialista dos tempos modernos não consegue vislumbrar uma “boa briga” que não tenha acontecido, no fim das contas, por capital e latifúndio. É a narrativa marxista dos acontecimentos, hegemônica em nossas faculdades e redações — visão tacanha de mundo, que explica o espírito “pacifista” de nossa época e a verdadeira “capitulação cultural” que padecemos. 

Muito antes de nos prostrarmos aos inimigos visíveis da civilização cristã, porém, nossa primeira rendição enquanto sociedade foi ao diabo. Eis a primeira grande tragédia que precisa ser deplorada.

Comece-se pela negação ou minimização das verdades de nossa fé. Hoje, muitas vezes dentro da própria Igreja, a existência dos demônios, por exemplo, é totalmente relativizada. (Isso lhes dá, convenhamos, muito mais liberdade para agir.) E se eles não passam de uma fantasia da cabeça de senhorinhas piedosas, não existe combate espiritual neste mundo. Aliás, a ideia mesma de “combate”, “batalha”, “guerra” é muito violenta e não caberia mais numa apresentação contemporânea da fé cristã. A oração a São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII, estaria completamente ultrapassada.

Infelizmente, quiseram introduzir noções como essa na liturgia. 

A eliminação na Liturgia das Horas de versículos e capítulos inteiros dos Salmos ditos imprecatórios ilustra bem o problema. Na tradução brasileira dos livros litúrgicos, a transformação de “Deus dos exércitos” (Deus sabaoth) num vago “Deus do universo”, tanto no Sanctus da Missa quanto no hino litúrgico Te Deum, vai na mesma linha. Nosso Senhor fala no Evangelho que certa espécie de demônios “só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Mas, curiosamente, mesmo com a ideia de que o atual Lecionário contivesse a maior quantidade possível de perícopes evangélicas, essa passagem, presente também em Mc 9, 29, simplesmente não consta em lugar algum das leituras do Missal de Paulo VI — como tantas outras cujo conteúdo poderia desagradar aos homens de hoje. 

Como consequência não só do espírito por trás dessas omissões, mas também do lamentável relaxamento disciplinar da nossa época, o jejum e a oração praticamente desapareceram do discurso e da prática de muitos católicos. Antigamente, os católicos jejuavam rigorosamente em todos os dias da Quaresma. Na Idade Média, os exércitos de cavaleiros cristãos, antes de ir à guerra (para proteger sua pátria e religião), se reuniam nas igrejas, ouviam Missa e faziam vigílias e jejuns, cientes de que a vitória nos seus combates vinha de Deus, e não de forças humanas. 

Hoje, todavia, as pessoas se horrorizam quando descobrem que têm de se abster de carne um dia na semana. (E só o fazem quando deparam com algum dos poucos pregadores que tocam no assunto; do contrário, nada saberiam.) Do hábito da oração nem se fale… 

Sem isto e sem jejum, porém, estamos com o flanco aberto aos inimigos de nossa alma, dos quais o pior de todos não é nem mesmo o demônio, mas nossa própria carne. Como ensinava Santo Tomás de Aquino

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Aqui descobrimos, então, o grande segredo dos mártires e dos heróis da fé de outros tempos. Como explicar que eles tenham sido capazes de resistir às mais cruéis torturas, às mais terríveis ameaças, senão pelo fato de que eles mesmos, em suas vidas, foram preparados espiritualmente para o combate a ser travado? O rei Davi começa assim o Salmo 142: Benedictus Dominus, Deus meus, qui docet manus meas ad proelium, et digitos meos ad bellum, “Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestrou minhas mãos para a luta, e os meus dedos treinou para a guerra” — palavras perfeitamente aplicáveis à multidão de santos e santas da Igreja.

Antes dos perseguidores, os primeiros algozes dos mártires e confessores eram os demônios e a sua própria carne. Antes de ser odiados pelo mundo, eles viveram uma batalha ferrenha para se manter na graça de Deus, macerando seus corpos com jejuns e sofrimentos, e lutando — às vezes até fisicamente, como demonstra a vida de um Santo Antão e de um Padre Pio — contra os próprios espíritos das trevas. Ora, quem era um Nero, um Henrique VIII ou um Stálin, em comparação com a maldade do diabo? 

Os santos e mártires da Igreja não eram, pois, homens e mulheres quaisquer. No escondimento de suas vidas, recolhidas e mortificadas, esses guerreiros foram realmente forjados por Deus, até se tornarem aquele “gigante exultante em seu caminho” de que fala a Sagrada Escritura (cf. Sl 18, 6). Muito mais que as personagens “heroicas” que vemos nos filmes — muito mais que um Rocky, um Rambo ou algum dos “Vingadores” —, é para esses heróis da fé e da caridade que devemos dirigir o olhar; é em suas biografias que devemos buscar inspiração para nossa existência.

Assim, lendo seus feitos e procurando imitar suas virtudes, quem sabe um dia não poderemos dizer com o Apóstolo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4, 7)? Nada pode haver mais glorioso que batalhar para cumprir, neste mundo, a vontade do Rei que não é deste mundo.

Notas

  1. Hillaire Belloc é um desses autores que coloca o islamismo no rol das heresias cristãs, ao invés do das simples religiões pagãs. Pois os muçulmanos crêem na virgindade de Maria, por exemplo, e reconhecem Jesus como um profeta, mas se recusam a abraçar a integridade do depósito da fé confiado à Santa Igreja.

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